Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 13 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 13

Pego meu garfo.

Warner não perde nada. Ele limpa a garganta um tanto ruidosamente. Ele ri um riso sem humor enquanto corta a carne no prato.

— Tenho de convencer Adam a fazer todo o trabalho por mim?

— Perdão?

— Parece que ele é o único que você escuta. — Seu tom é alegre, mas sua mandíbula está, sem sombra de dúvida, travada. Ele se volta para Adam.

— Estou surpreso por você não ter dito a ela para mudar de roupa, como lhe pedi.

Adam endireita-se na cadeira.

— Eu disse, senhor.

— Gosto das minhas roupas — digo-lhe. Gostaria de dar-lhe um soco no olho — é o que não lhe digo.

O sorriso de Warner volta suavemente ao lugar.

— Ninguém perguntou do que você gosta, amor. Agora coma. Preciso que você mostre seu melhor quando estiver ao meu lado.

 

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13

Warner insiste em me acompanhar até meu quarto.

Depois do jantar, Adam desapareceu com alguns dos outros soldados. Ele desapareceu sem uma palavra ou olhar na minha direção e eu não faço a mínima ideia do que prever. Ao menos não tenho nada a perder senão minha vida.

— Não quero que você me odeie — diz Warner enquanto seguimos pelo caminho rumo ao elevador. — Sou apenas seu inimigo porque você quis que eu fosse.

— Sempre seremos inimigos. — Minha voz parte-se em lascas de gelo. As palavras se derretem na minha língua. — Jamais serei o que você quer que eu seja.

Warner suspira ao apertar o botão do elevador. — De fato penso que você mudará de ideia. — Ele olha para mim com um sorrisinho. Uma pena que expressões tão impressionantes pudessem ser desperdiçadas em um ser humano tão miserável. — Você e eu, Juliette... juntos? Ninguém conseguiria nos deter.

Não olho para ele, embora sinta seu olhar tocando cada centímetro de meu corpo.

— Não, obrigada.

Estamos no elevador. O mundo está ruidosamente passando por nós e as paredes de vidro tornam-nos um espetáculo para cada pessoa em cada um dos andares. Não há segredos neste edifício.

Ele toca meu cotovelo e eu me afasto. — Você devia reconsiderar — diz ele suavemente.

— Como você descobriu isso? — O elevador se abre, mas eu não me movo. Finalmente, viro-me para encará-lo, pois não consigo conter minha curiosidade. Examino suas mãos, tão cuidadosamente revestidas em couro, suas mangas grossas e onduladas e longas. Mesmo seu colarinho é alto e suntuoso. Ele está vestido impecavelmente da cabeça aos pés e coberto em todo lugar com exceção do rosto. Mesmo se quisesse tocá-lo, não estou certa de que seria capaz. Ele está protegendo a si mesmo.

De mim.

— Talvez uma conversa amanhã de noite? — Ele esfrega uma sobrancelha e oferece-me o braço.

Finjo não reparar nisso enquanto saímos do elevador e andamos pelo corredor. — Talvez você pudesse vestir alguma coisa bonita.

— Qual é o seu primeiro nome? — pergunto-lhe.

Estamos de pé em frente da minha porta.

Ele faz uma pausa. Surpreso. Ergue seu queixo quase de modo imperceptível. Concentra seus olhos em meu rosto até que começo a arrepender-me da pergunta.

— Você quer saber meu nome.

Não faço de propósito, mas meus olhos se estreitam um pouquinho.

— Warner é seu sobrenome, não é?

Ele quase sorri.

— Você quer saber meu nome.

— Não achei que fosse um segredo.

Ele se aproxima. Seus lábios se contorcem. Seus olhos se abaixam, seus lábios se movem em tensa respiração. Ele desliza um dedo enluvado pela maçã de meu rosto.

— Direi o meu se você me disser o seu — sussurra, bem próximo a meu pescoço.

Dou um passo para trás. Engulo em seco.

— Você já sabe meu nome.

Ele não está me olhando nos olhos.

— Você está certa. Devo reformular isso. O que quis dizer é que lhe direi meu nome se você me mostrar o seu.

— O quê? — Estou respirando muito rápido muito de repente.

Ele começa a tirar as luvas e eu começo a entrar em pânico.

— Mostre para mim o que você consegue fazer.

Meu rosto está tensionado demais e meus dentes começaram a doer.

— Não vou tocar em você.

— Está tudo bem. — Ele puxa a outra luva da mão. — Não preciso exatamente de sua ajuda.

— Não...

— Não se preocupe. — Ele força um riso. — Tenho certeza de que isso não irá machucá-la de modo algum.

— Não — estremeço. — Não, não vou... não posso...

— Muito bem — diz ele, rispidamente. — Está tudo bem. Você não quer me machucar. Sinto-me tão lisonjeado. — Ele quase revira os olhos. Olha para baixo no salão. Localiza um soldado. Acena para ele.

— Jenkins?

Jenkins é rápido para seu tamanho e em um segundo ele está do meu lado.

— Senhor. — Ele curva um pouco a cabeça, ainda que seja claramente mais velho que Warner. — Ele não pode ter mais que 27 anos; atarracado, vigoroso, abarrotado de massa. Ele me olha de lado.

Seus olhos castanhos são mais quentes do que esperava que fossem.

— Preciso que acompanhe a senhorita Ferrars de volta para o térreo. Mas esteja prevenido: ela não é nada cooperativa e tentará fugir de seu controle. — Ele sorri bem lentamente. — Não importa o que ela diga ou faça, soldado, você não pode soltá-la. Fui claro?

Os olhos de Jenkins se arregalam; ele pisca, suas narinas se dilatam, seus dedos se flexionam contra o corpo. Respira acelerado. Acena a cabeça.

Jenkins não é idiota.

Começo a correr.

Estou escapando pelo corredor e passo correndo por uma série de estupefatos soldados que estão assustados demais para me deter. Não sei o que estou fazendo. Por que penso que posso correr? Para onde penso que poderia ir? Se me esforço para alcançar o elevador, é só porque acho que isso me dará tempo. Não sei mais o que fazer.

Os comandos de Warner estão repercutindo nas paredes e explodindo em meus tímpanos. Ele não precisa me perseguir. Ele está mandando outros fazerem o trabalho por ele.

Os soldados estão fazendo fila diante de mim.

Ao meu lado.

Atrás de mim.

Não consigo respirar.

Estou girando em círculos de minha própria estupidez, em pânico, aflita, petrificada pelo pensamento do que vou fazer a Jenkins contra minha vontade. Do que ele fará a mim contra sua vontade. Do que acontecerá a nós dois apesar de nossas melhores intenções.

— Peguem-na — diz Warner brandamente. O silêncio toma conta de cada canto deste edifício.

Sua voz é o único som na sala.

Jenkins avança.

Meus olhos estão marejados e fecho-os. Abro-os para espiar. Avisto de olhos entreabertos a multidão e localizo um rosto familiar. Adam está me encarando, amedrontado.

A vergonha cobriu cada centímetro de meu corpo.

Jenkins oferece-me sua mão.

Meus ossos começam a envergar, estalando em sincronia com as batidas de meu coração.

Desmorono no chão, embrulhando-me como um crepe fino. Meus braços estão dolorosamente desnudos nesta camiseta maltrapilha.

— Não... — Ergo uma mão hesitante, implorando com meus olhos, olhando fixamente para o rosto deste inocente homem. — Por favor, não... — Minha voz se dissolve. — Você não quer tocar em mim...

— Nunca disse que queria. — A voz de Jenkins é profunda e resoluta, cheia de remorso. Jenkins, que não tem luvas, não tem proteção, não tem preparo, não tem defesa possível.

— Era uma ordem clara, soldado — grita Barks, uma arma apontada para suas costas.

Jenkins agarra meus braços

Não não não

Meu peito arfa.

Meu sangue agita-se nas veias, correndo pelo meu corpo como um rio caudaloso, ondas de calor enrolam-se em meus ossos. Posso escutar sua angústia, posso sentir a força emanando de seu corpo, posso escutar seu coração batendo em meu ouvido e minha cabeça girando com a descarga de adrenalina que fortalece meu ser.

Sinto-me viva.

Queria que isso me machucasse. Queria que isso me mutilasse. Queria que isso me anulasse.

Queria odiar a potente força que me envolve o esqueleto.

Mas não. Minha pele está pulsando com a vida de alguém e eu não odeio isso.

Odeio a mim mesma por desfrutar disso.

Desfruto da sensação que é estar sendo preenchida com mais vida e esperança e poder humano do que eu sabia ser capaz. Sua dor me concede um prazer que jamais pedi.

E ele não está me soltando.

Mas ele não está me soltando porque ele não consegue. Porque eu tenho de ser a única a quebrar a conexão. Porque a agonia o incapacita. Porque ele caiu na minha armadilha.

Porque eu sou uma planta carnívora.

E sou letal.

Caio de costas e chuto seu peito, querendo-o longe de mim, querendo livrar-me de seu peso sobre mim. Seu corpo mole desmorona contra o meu. Repentinamente estou aos berros e esforçando-me para enxergar além do lençol de lágrimas que obscurece minha visão; estou soluçando, histérica, aterrada pelo olhar frio no rosto deste homem, seus lábios paralisados arquejando.