Estilhaça-me
Capítulo 7
Meu rosto está moldado em uma forma neutra, meus braços e pernas, cheios de gesso. Não sinto nada. Não sou nada. Estou vazia de tudo que não vou modificar. Estou encarando uma pequena rachadura perto do meu sapato. Vou encará-la para sempre.
Os cobertores caem no chão. O mundo perde o foco, meus ouvidos enviam todos os sons para outra dimensão. Meus olhos se fecham, meus pensamentos se deixam levar pela corrente, minhas memórias aplicam-me pontapés no coração.
Eu o conheço.
Tentei a todo custo parar de pensar nele.
Tentei a todo custo esquecer seu rosto.
Tentei a todo custo tirar da cabeça aqueles olhos azuis azuis azuis, mas eu o conheço eu o conheço eu o conheço já faz três anos desde a última vez que o vi.
Nunca poderia esquecer Adam.
Mas ele já se esqueceu de mim.
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7
Lembro-me das televisões e das lareiras e das pias de porcelana. Lembro-me dos ingressos do cinema e dos parques de estacionamento e das vans. Lembro-me dos salões de cabeleireiro e das persianas de janela e dos dentes-de-leão e do cheiro das garagens recém-pavimentadas. Lembro-me dos comerciais de creme dental e das mulheres de sapato alto e dos velhos em trajes de negócio. Lembro-me dos carteiros e das bibliotecas e das boybands e dos balões e das árvores de Natal.
Lembro-me de ter dez anos de idade quando não podíamos mais ignorar a carência de alimentos e as coisas ficaram tão caras que ninguém mais tinha recursos para viver.
Adam não está falando comigo.
Talvez seja o melhor. Talvez não houvesse esperança de que ele e eu pudéssemos ser amigos.
Talvez seja melhor que ele pense que eu não gosto dele a pensar que gosto demais. Ele está escondendo um monte de coisas que parecem lhe causar dor, mas seus segredos me assustam. Ele não me diz por que está aqui. Embora eu também não lhe diga muita coisa.
E contudo e contudo e contudo.
Na noite passada, a lembrança de seus braços em volta de mim foi o bastante para espantar os gritos. O calor de um abraço amigo, a força das mãos firmes unindo todos os meus estilhaços, o alívio e libertação de tantos anos de solidão. Este presente que ele me deu eu não posso retribuir.
Tocar Juliette é quase impossível.
Nunca esquecerei o horror nos olhos de minha mãe, a tortura no rosto de meu pai, o medo entalhado em suas expressões. A filha deles é um monstro. Possuída pelo demônio. Amaldiçoada pela escuridão. Profana. Uma abominação. Drogas, testes, soluções médicas fracassadas.
Interrogatórios psicológicos fracassados.
“Ela é uma arma ambulante na sociedade”, foi o que os professores disseram. “Nunca vimos algo assim”, foi o que os médicos disseram. “Ela deve ser retirada de casa”, foi o que os policiais disseram.
Sem problema nenhum, foi o que meus pais disseram. Eu tinha 14 anos quando meus pais finalmente se livraram de mim. Quando eles recuaram e me observaram sendo arrastada por conta de um assassinato que eu não sabia que poderia cometer.
Talvez o mundo esteja mais seguro se eu estiver presa em uma cela. Talvez Adam esteja mais seguro se ele me detestar. Ele está sentado no canto com os punhos no rosto.
Jamais quis machucá-lo.
Jamais quis machucar a única pessoa que jamais quis me machucar.
Arrombam a porta e cinco pessoas tomam o quarto, rifles apontados para nosso peito.
Adam está de pé e eu fico feito pedra. Esqueço-me de inspirar. Há muito tempo que não vejo tantas pessoas assim que fico estupefata. Eu devia estar gritando.
“Mãos para cima, pés afastados, boca fechada. Não se mexam e não atiraremos em vocês.” Ainda estou congelada no lugar. Deveria me mover, deveria levantar os braços, deveria separar meus pés, deveria lembrar-me de respirar. Alguém está cortando-me o pescoço.
Um deles, gritando ordens, bate com a coronha de sua arma nas minhas costas e meus joelhos estalam ao bater no chão. Finalmente provo o oxigênio e uma zona de sangue. Acho que Adam está gritando, mas há uma aguda agonia rasgando-me o corpo, diferente de qualquer coisa que experimentara antes. Estou completamente imobilizada.
— Que parte você não entendeu do manter sua boca fechada? — Entorto os olhos para os lados para ver o cano da arma a poucos centímetros do rosto de Adam.
— Levante-se. — Uma bota com biqueira de aço me dá um pontapé nas costelas, rápido, duro, profundo. Não estou engolindo nada, exceto os suspiros estrangulados que sufocam meu corpo.
— Eu disse levante-se. — Mais dura, mais rápida, mais forte, outra bota em minhas vísceras.
Sequer consigo gritar.
Levante-se, Juliette. Levante-se. Se não se levantar, eles vão atirar em Adam.
Levanto-me de joelhos e caio novamente sobre a parede atrás de mim, cambaleando para a frente para pegar equilíbrio. Levantar as mãos é mais torturante do que eu poderia suportar. Meus órgãos estão mortos, meus ossos estão quebrados, minha pele é uma peneira, perfurada por pregos e agulhas de dor. Eles finalmente vieram me matar.
É por isso que botaram Adam na minha cela.
Porque estou partindo. Adam está aqui porque estou partindo, porque eles se esqueceram de me matar em tempo, porque meus momentos estão acabados, porque meus 17anos foram demais para este mundo. Eles vão me matar.
Sempre me perguntei como isso aconteceria. Pergunto-me se isso fará meus pais felizes.
Alguém está rindo.
— E então não é uma merdinha?
Sequer sei se eles estão falando comigo. Mal consigo me concentrar em manter os braços na posição vertical.