Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 38 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 38

— Preciso roubar um carro. Então voltarei para buscá-los. — James nem mesmo reclama quando Adam o coloca no chão. Seus pequeninos lábios estão brancos. Seus olhos, arregalados. Suas mãos, trêmulas. — Voltarei para buscá-lo, James — diz Adam novamente. — Eu prometo.

James concorda com a cabeça várias e várias vezes. Adam o beija, uma vez, com firmeza, rapidamente. Larga no chão as mochilas de acampamento. Volta-se para Kenji.

— Se acontecer qualquer coisa a ele, mato você.

Kenji não ri. Ele não olha de cara feia. Ele respira fundo.

— Cuidarei dele.

— Juliette?

Ele pega minha mão, e nós desaparecemos pelas ruas.

 

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As ruas estão abarrotadas de pedestres tentando escapar. Adam e eu escondemos nossas armas no cinto de nossas calças, mas nossos olhos frenéticos e movimentos bruscos parecem nos entregar.

Todo mundo se afasta de nós, lançando-se em direções opostas, alguns chiando, gritando, chorando, deixando cair as coisas das mãos. Todavia, apesar de todas as pessoas, não vejo um só carro. Deve ser difícil encontrá-los, especialmente nesta área.

Adam me empurra para o chão no momento em que uma bala passa sobre minha cabeça. Ele arromba uma porta e nós corremos por entre as ruínas rumo a outra saída, presos no labirinto do que costumava ser uma loja de roupas. Tiros e passos estão logo atrás. Deve haver pelo menos uma centena de soldados seguindo-nos por estas ruas, divididos em diferentes grupos, dispersos em diferentes áreas da cidade, prontos para capturar e matar.

Mas eu sei que eles não vão me matar.

É com Adam que estou preocupada.

Tento ficar o mais próximo possível de seu corpo, pois estou certa de que Warner deu ordens para me levar viva. No entanto, meus esforços são, na melhor das hipóteses, frágeis. Adam tem altura e músculos suficientes para me superar com folga. Qualquer um com uma excelente pontaria seria capaz de alvejá-lo. Poderiam atirar direto na cabeça dele.

Bem na minha frente.

Ele se vira para disparar dois tiros. Um não alcança a meta. O outro provoca um grito abafado.

Ainda estamos correndo.

Adam não diz nada. Ele não me diz para ser corajosa. Não me pergunta se estou bem, se estou assustada. Ele não me encoraja nem assegura que vamos ficar bem. Ele não me diz para deixá-lo para trás e salvar a própria pele. Não diz para cuidar de seu irmão caso ele morra.

Ele não precisa.

Nós dois compreendemos a realidade da situação. Adam poderia levar um tiro neste exato instante. Eu poderia ser capturada a qualquer momento. Este prédio inteiro poderia explodir de repente. Alguém poderia ter descoberto Kenji e James. Todos nós poderíamos morrer hoje. Os fatos são óbvios.

Entretanto, sabemos que, mesmo assim, precisamos arriscar.

Porque ir em frente é o único modo de sobreviver.

A arma está ficando escorregadia na minha mão, mas eu, seja como for, me agarro a ela. Minhas pernas estão gritando de dor, mas eu, seja como for, as impulsiono com mais velocidade. Meus pulmões estão serrando minhas costelas ao meio, mas eu, seja como for, os forço a processar oxigênio. Tenho que continuar me movendo. Não há tempo para deficiências humanas.

É quase impossível encontrar a saída de emergência deste edifício. Nossos pés pisam os ladrilhos, nossas mãos procuram pela luz fria, por algum tipo de saída, algum tipo de acesso às ruas.

Este prédio é maior do que esperávamos, gigantesco, com centenas de direções possíveis. Percebo que deve ter sido um depósito, e não apenas uma loja. Adam se abaixa atrás de um balcão abandonado, puxando-me com ele.

— Não seja estúpido, Kent... você só pode fugir por algum tempo — grita alguém. A voz não está a mais que três metros de distância.

Adam engole em seco. Tensiona o rosto. As pessoas que tentam matá-lo são as mesmas com quem ele costumava almoçar. Treinar. Morar. Ele conhece esses caras. Gostaria de saber se esse fator torna tudo pior.

— Apenas nos dê a garota — acrescenta uma nova voz. — Dê a garota e nós não atiraremos em você. Vamos fingir que o perdemos. Vamos deixá-lo ir. Warner quer apenas a garota.

Adam está respirando com dificuldade. Ele segura a arma na mão. Mete a cabeça para fora por uma fração de segundo e dispara. Alguém cai no chão, gritando.

— Kent, seu filho de uma... Adam aproveita o momento para correr. Saltamos por cima do balcão e corremos até uma escadaria. Tiros erram por milímetros. Pergunto-me se esses dois homens são os únicos que nos perseguiram por dentro do prédio.

A escadaria em espiral leva a um nível inferior, algum tipo de porão. Alguém está tentando mirar em Adam, mas nossos movimentos erráticos tornam a tarefa impossível. A chance de ele me atingir no lugar de Adam é muito grande. Ele solta um monte de palavrões em nosso encalço.

Adam derruba coisas no chão enquanto corremos, tentando criar qualquer tipo de distração, qualquer coisa para atrasar os soldados atrás de nós. Localizo duas portas de um abrigo subterrâneo.

Esta área deve ter sido desolada por tornados. O tempo está turbulento; desastres naturais são comuns. Ciclones devem ter despedaçado esta cidade.

— Adam — puxo seu braço. Nós nos escondemos atrás de um muro baixo. Aponto para a única

rota de fuga possível.

Ele aperta minha mão.

— Que olho! — Mas não nos movemos até que passa por nós uma corrente de ar. Um passo em falso. Um grito abafado. Está quase totalmente escuro aqui embaixo; é óbvio que a eletricidade foi cortada há muito tempo. O soldado tropeçou em um obstáculo que Adam deixou para trás.