Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 28 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 28

Warner tenta pegar minha perna novamente e meu sobressalto é tão ruidoso que quase o escuto através das sirenes que rompem meus tímpanos. Não vou olhar para ele. Não vou olhar para ele. Não vou olhar para ele.

Passo uma perna pela janela e agarro-me à corda. Minhas pernas nuas vão fazer disso uma experiência dolorosa. Ambas as pernas atravessam a janela. Minhas mãos estão no lugar. Adam está me chamando lá de baixo, e eu não sei quão longe ele está. Warner está gritando meu nome e eu levanto os olhos, apesar de meus melhores esforços.

Seus olhos são dois disparos de verde atravessando a vidraça. Penetrando em mim.

Respiro fundo e espero que eu não morra.

Respiro fundo e desço lentamente a corda.

Respiro fundo e espero que Warner não perceba o que acabou de acontecer.

Espero que ele não saiba que ele acabou de tocar minha perna.

E nada aconteceu.

 

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28

Estou queimando.

O atrito da corda está tornando minhas pernas uma massa de fogo tão dolorosa que estou surpresa por não haver fumaça. Contenho a dor porque não tenho escolha. A histeria em massa do edifício intimida meus sentidos, chovendo perigo ao nosso redor. Adam está gritando para mim lá de baixo, dizendo-me para pular, prometendo que vai me pegar. Estou tão envergonhada de admitir que estou com medo da queda.

Nunca tenho uma chance de tomar minhas decisões.

Os soldados já estão confluindo para o que costumava ser meu quarto, aos berros e aturdidos, provavelmente chocados por encontrar Warner em posição tão frágil. Foi realmente fácil demais dominá-lo. Isso me preocupa.

Isso me faz achar que fizemos algo errado.

Alguns soldados enfiam a cabeça para fora da janela estilhaçada e eu estou louca para descer a corda, mas eles já estão se movendo para soltar o gancho que a prende. Preparo-me para a sensação nauseante de queda livre apenas para perceber que eles não estão tentando fazer que eu caia. Eles estão tentando me içar de volta para dentro.

Warner deve estar lhes dizendo o que fazer.

Olho para Adam abaixo e finalmente cedo a seus gritos. Fecho os olhos e largo a corda.

E caio exatamente em seus braços abertos.

Desmoronamos no chão, mas só por um momento ficamos sem fôlego. Adam agarra minha mão e então estamos correndo.

Não há nada senão espaço estéril e vazio estendendo-se à nossa frente. Asfalto quebrado, pavimentação irregular, estradas de terra, árvores nuas, plantas agonizantes, uma cidade amarelecida, abandonada aos elementos, imersa em folhas mortas que esmigalham sob nossos pés. Os aglomerados civis são pequenos e baixos, agrupados sem nenhuma ordem particular, e Adam faz questão de ficar o mais longe possível deles. Os alto-falantes já estão operando contra nós. O som de uma voz jovem e feminina, harmoniosamente mecânica, abafa as sirenes.

“Toque de recolher em vigor. Todos retornem imediatamente a suas casas. Há rebeldes à solta.

Eles estão armados e prontos para atirar. Toque de recolher em vigor. Todos retornem imediatamente a suas casas. Há rebeldes à solta. Eles estão armados e prontos para at...”

Meu corpo está com cãibras, minha pele está tensa, minha garganta, seca, desesperada por água.

Não sei o quanto corremos. Tudo o que sei é sobre o som de botas esmagando a calçada, de pneus

“cantando” ao sair de depósitos subterrâneos, de alarmes gemendo ao nosso encalço.

Olho para trás para ver as pessoas gritando e correndo em busca de proteção, esquivando-se dos soldados que correm por suas casas, arrombando as portas para ver se encontramos refúgio em algum lugar. Adam me afasta da civilização e se dirige rumo às ruas há uma década abandonadas: lojas e restaurantes antigos, ruas laterais estreitas e parques infantis abandonados. O solo não regulamentado de nossas vidas passadas tornou-se, terminantemente, zona fora dos limites. É

território proibido. Tudo fechado. Tudo quebrado, enferrujado, sem vida. Ninguém tem permissão para atravessar aqui. Nem mesmo os soldados.

E estamos carregando armas por estas ruas, tentando permanecer fora de vista.

O Sol está deslizando pelo céu e descendo rumo ao limite da Terra. A noite chegará rapidamente, e eu não faço ideia de onde estamos. Nunca esperei que acontecesse tão depressa e nunca esperei que tudo isso acontecesse no mesmo dia. Apenas tenho de ter esperança de sobreviver, mas não faço a menor ideia de para onde podemos ir. Nunca me ocorreu perguntar a Adam sobre nosso destino.

Estamos andando em um milhão de direções. Virando bruscamente, avançando alguns passos apenas para seguir novamente pelo caminho oposto. Minha melhor hipótese é a de que Adam está tentando confundir ou distrair nossos seguidores o máximo possível. Não posso fazer nada senão tentar não ficar para trás.

E eu falho.

Adam é um soldado treinado. Ele foi treinado exatamente para esse tipo de situação. Ele entende de como fugir, de como manter-se discreto, de como mover-se silenciosamente em qualquer espaço.

Eu, por outro lado, sou uma garota que não sabe há muito tempo o que são exercícios. Meus pulmões estão ardendo pelo esforço de inalar oxigênio, ofegando pelo esforço de exalar dióxido de carbono.

De repente estou arfando tão desesperadamente que Adam é obrigado a me puxar até uma rua lateral. Ele está respirando com um pouco mais de dificuldade do que o habitual, mas eu estou sem ar de uma maneira integral, sufocando-me com a fraqueza de meu corpo fraco.

Adam toma meu rosto em suas mãos e tenta focar meus olhos.

— Quero que você respire como eu, está bem?

Ofego um pouco mais.

— Concentre-se, Juliette. — Seus olhos estão muito determinados. Infinitamente pacientes. Ele parece não ter medo, e eu invejo sua tranquilidade.

— Acalme seu coração — diz ele. — Respire exatamente como eu.

Ele toma três fôlegos curtos, segura-os por alguns segundos e libera-os em uma única exalação.

Tento imitá-lo. Não tenho muito sucesso nisso.

— OK. Quero que você continue respirando como... — Ele para. Seus olhos se lançam ao redor da rua abandonada durante uma fração de segundo. Sei que temos de nos mexer.

Tiros rompem a atmosfera. Nunca percebera exatamente quão ruidosos eles são ou exatamente quantos ossos esse barulho me fratura. Um calafrio penetra meu sangue e eu sei, de imediato, que eles não estão tentando me matar. Eles estão tentando matar Adam.

Fico asfixiada por uma nova espécie de ansiedade. Não posso deixar que eles o machuquem.

Não por mim.

Mas Adam não tem tempo para que eu tome fôlego e recobre o raciocínio. Ele me toma nos braços e sai correndo em disparada por outro beco.

E nós estamos correndo.

E eu estou respirando.

E ele grita:

— Envolva seus braços no meu pescoço! — e eu largo sua camiseta e sou estúpida o bastante para me sentir tímida enquanto deslizo meus braços em torno dele. Ele me ajeita de tal modo que estou mais alta, mais próxima a seu peito. Ele me carrega como se eu pesasse menos que nada.

Fecho os olhos e aperto meu rosto contra seu pescoço.

Os tiros estão em algum lugar atrás de nós, mas até posso dizer, a partir do som, que eles estão muito longe e longe demais na direção errada. Parece que os enganamos momentaneamente. Seus carros não conseguem nos encontrar, pois Adam evitou todas as ruas principais. Ele parecer ter um mapa da cidade. Ele parece saber exatamente o que está fazendo... como se estivesse planejando isso há muito tempo.

Depois de inalar exatamente 594 vezes, Adam me coloca em pé no chão em frente de um trecho com cerca de tela de arame. Percebo que ele está fazendo um grande esforço para inalar oxigênio, mas ele não está ofegante como eu. Ele sabe como regular sua respiração. Ele sabe como firmar a pulsação, acalmar o coração, manter o controle de seus órgãos. Ele sabe como sobreviver. Espero que ele também me ensine.

— Juliette — diz ele depois de um momento esbaforido. — Você consegue pular esta cerca?

Estou tão ávida por ser mais que um agregado inútil que quase corro e salto a barreira de metal.

Mas sou imprudente. E apressada demais. Praticamente rasgo meu vestido e arranho minhas pernas no processo. Faço cara de dor e, já quando reabro os olhos, Adam está de pé ao meu lado.

Ele olha para minhas pernas e suspira. Ele quase ri. Me pergunto com que devo estar parecendo, surrada e descomposta neste vestido rasgado. A fenda que Warner criou agora para no osso do quadril. Devo estar parecendo um animal desvairado.

Adam não parece se importar.

Ele também reduziu a velocidade. Estamos agora em ligeira caminhada, não mais correndo pelas ruas. Entendo que devemos estar mais próximos de alguma aparente segurança, mas não sei se devo fazer perguntas agora, ou guardá-las para mais tarde. Adam responde a meus pensamentos silenciosos.

— Eles não serão capazes de me rastrear aqui — diz ele, e ocorre-me que todos os soldados devem ter em si algum tipo de dispositivo de rastreamento. Pergunto-me por que nunca tive um.

Não deveria ser tão fácil escapar.

— Nossos rastreadores não são evidentes — explica ele. Viramos à esquerda em outro beco. O

Sol está imergindo no horizonte. Gostaria de saber onde estamos. Quão longe devemos estar dos assentamentos restabelecidos, uma vez que não há pessoas aqui.

— É um soro especial injetado em nossa corrente sanguínea — continua ele — e é projetado para funcionar por meio dos processos naturais de nosso corpo. Saberiam, por exemplo, se eu morresse. É

um excelente modo de manter o controle dos soldados perdidos em combate. — Ele me olha de canto de olho. Ele sorri um sorriso torto que tenho vontade de beijar.

— Então como você confundiu o rastreador?

Seu sorriso fica maior. Ele me envolve em seus braços.

— Este lugar em que estamos pisando? Foi usado para uma usina de energia nuclear. Um dia a coisa toda explodiu.

Meus olhos estão tão grandes quanto meu rosto.

— Quando isso aconteceu?

— Cerca de cinco anos atrás. Eles limparam muito rápido. Ocultaram o fato da mídia, da população. Ninguém realmente sabe o que aconteceu aqui. Mas a radiação é suficiente para matar. — Ele interrompe. — Já matou.

Ele para de andar. — Já passei por esta área um milhão de vezes, e não fui afetado por ela.

Warner costumava me mandar aqui para coletar amostras de solo. Ele queria estudar os efeitos. —

Ele passa uma mão pelos cabelos. — Acho que ele tinha esperanças de manipular a toxicidade em algum tipo de veneno.

— A primeira vez em que vim aqui, Warner pensou que eu tinha morrido. O rastreador é conectado a todos os nossos principais sistemas de processamento... um alerta dispara sempre que um soldado está perdido. Ele sabia que havia um risco em me enviar aqui, então não acho que ele ficou muito surpreso ao escutar que eu tinha morrido. Ele ficou mais surpreso em me ver retornar. — Ele encolhe os ombros como se sua morte tivesse sido um detalhe insignificante. — Tem alguma coisa com relação às substâncias químicas daqui que neutralizam a composição molecular do rastreador. Então, em suma... todo mundo agora pensa que estou morto.

— Warner não pode suspeitar de que você esteja aqui?

— Talvez. — Ele encara com os olhos semicerrados a luz desvanecente do Sol. Nossas sombras são compridas e imóveis. — Ou poderia ter sido baleado. Em qualquer caso, isso nos dará tempo.

Ele pega minha mão e sorri para mim antes de algo acudir-me à consciência.

— E quanto a mim? — pergunto. — Esta radiação não pode me matar? — Espero não soar tão nervosa quanto me sinto. Nunca quis tanto estar viva. Não quero perder tudo tão cedo.

— Ah... não. — Ele sacode a cabeça. — Desculpe, esqueci de lhe contar... uma das razões por que Warner quis que eu coletasse estas amostras? É porque você também é imune a ela. Ele estava estudando você. Ele disse que encontrou a informação em seus registros hospitalares. Que você tinha sido testada...

— Mas ninguém nunca...

— ... provavelmente sem o seu conhecimento, e apesar do teste positivo para a radiação, você estava perfeita, biologicamente. Não havia basicamente nada de errado com você.