Estilhaça-me
Capítulo 39
Adam segura a arma próximo ao peito. Respira fundo. Ele se vira e dá um tiro rápido.
Sua mira é excelente.
Uma explosão descontrolada de palavrões confirma isso. Adam respira fundo.
— Só estou atirando para mutilar — diz ele. — Não para matar.
— Eu sei — digo a ele. Embora não tivesse certeza.
Corremos em direção às portas e Adam luta para abrir o trinco. Ele está enferrujado. Estamos ficando desesperados. Não sei quanto tempo isso ainda vai durar, até que sejamos descobertos por outro grupo de soldados. Estou prestes a sugerir que comecemos a atirar no trinco, quando Adam finalmente consegue desemperrá-lo.
Ele abre as portas com um chute e nós cambaleamos para a rua. Há três carros para ser escolhidos.
Estou tão feliz que poderia gritar.
— Já não era sem tempo! — diz ele.
Mas não é Adam quem diz isso.
OceanofPDF.com
39
Há sangue por toda parte.
Adam está no chão, apertando o corpo, mas eu não sei onde ele foi baleado. Um enxame de soldados vai se reunindo em volta dele e eu estou arranhando os braços que me seguram por trás, chutando o ar, gritando no vazio. Alguém está me arrastando e eu não consigo ver o que eles fizeram com Adam. A dor está amarrando meus membros, travando minhas articulações, quebrando cada osso de meu corpo. Quero gritar para o céu, quero cair de joelhos e chorar na terra. Não entendo por que a agonia não está encontrando fuga em meus gritos. Por que minha boca está coberta com a mão de alguém?
— Se eu soltá-la, você tem que prometer não gritar — diz ele para mim.
Ele está tocando meu rosto com suas mãos nuas e eu não sei onde deixei cair minha arma.
Warner me arrasta até um prédio ainda em funcionamento e arromba a porta com um chute.
Acende um interruptor. Luzes fluorescentes acendem-se e ficam piscando com um zunido abafado. Há pinturas coladas nas paredes, arco-íris de abecedário alfinetados em quadros de cortiça. Mesinhas espalhadas pela sala. Estamos em uma sala de aula.
Fico me perguntando se esta é a classe onde James estuda.
Warner baixa a mão. Seus olhos verdes vítreos refletem tamanho encanto que estou petrificada.
— Deus, senti sua falta — diz ele para mim. — Você achou mesmo que eu deixaria você ir tão facilmente?
— Você atirou em Adam — são as únicas palavras que consigo dizer. Minha mente está confusa pela incredulidade. Continuo vendo seu belo corpo dobrado no chão, vermelho vermelho vermelho.
Preciso saber se ele está vivo. Ele tem de estar vivo.
Os olhos de Warner lampejam.
— Adam está morto.
— Não...
Warner me empurra para um canto e eu percebo que nunca estive tão indefesa em minha vida.
Nunca tão vulnerável. Dezessete anos passei desejando que minha maldição terminasse, mas neste momento estou mais desesperada do que nunca por tê-la de volta. Os olhos de Warner empolgam-se inesperadamente. As mudanças em suas emoções são difíceis de antecipar. Difíceis de deter.
— Juliette — diz ele. Ele toca minha mão de modo tão delicado que me assusta. — Você reparou?
Parece que sou imune ao seu dom. — Ele estuda meus olhos. — Isso não é incrível? Você reparou?
— pergunta novamente. — Quando você tentou escapar... você sentiu isso...?
Absolutamente nada escapa a Warner. Warner absorve cada detalhe.
É claro que ele sabe.
Mas estou sob o impacto da ternura em sua voz. A sinceridade com a qual ele deseja saber. Ele é como um cão selvagem, enlouquecido e feroz, sedento de caos, ao mesmo tempo que deseja reconhecimento e aceitação.
Amor.
— Podemos mesmo ficar juntos — diz para mim, sem se deixar desanimar com o meu silêncio.
Ele me puxa para mais perto, perto demais. Estou congelada em quinhentas camadas de medo.
Atordoada de sofrimento, de incredulidade.
Suas mãos alcançam meu rosto, seus lábios, os meus. Meu cérebro está pegando fogo, pronto para explodir em virtude da impossibilidade deste momento. Sinto como se estivesse assistindo a isso acontecer, desprendida de meu próprio corpo, incapaz de intervir. Mais do que qualquer outra coisa, estou surpreendida por suas mãos delicadas, seus olhos ardentes.
— Quero que você me escolha — diz ele. — Quero que você escolha ficar comigo. Quero que você queira isso...
— Você é louco — custa-me respirar. — Você é psicopata...
— Você só está com medo daquilo de que é capaz. — Sua voz é suave. Agradável. Lenta.
Enganosamente persuasiva. Antes, não percebera como sua voz poderia ser atraente. — Admita — diz ele. — Somos perfeitos um para o outro. Você tem o poder. Ama a sensação de uma arma em sua mão. Você está... atraída por mim.
Tento lhe dar um soco, mas ele prende meus braços. Imobiliza-os de lado. Aperta-me contra a parede. Ele é muito mais forte do que parece.
— Não minta para si mesma, Juliette. Você vai voltar comigo querendo ou não. Mas pode escolher querer isso. Pode escolher gostar disso...
— Nunca irei... — Respiro, sem ar. — Você é doente... é um monstro doente e deformado.
— Essa não é a resposta certa — diz ele, e parece genuinamente desapontado.
— Essa é a única resposta que você sempre terá de mim.
Seus lábios chegam perto demais.
— Mas eu te amo.
— Não, você não ama.
Seus olhos se fecham. Ele recosta sua testa na minha.
— Você não tem ideia do que faz comigo.
— Eu te odeio.
Ele sacode a cabeça muito lentamente. Desce. Seu nariz roça minha nuca, e eu contenho um calafrio de horror que ele interpreta mal. Seus lábios tocam minha pele e eu, de fato, choro sem voz.
— Deus, adoraria arrancar um pedacinho de você.
Reparo no brilho prateado dentro do bolso de seu casaco.
Sinto um arrepio de esperança. Um arrepio de horror. Preparo-me para o que preciso fazer. Passo um momento em luto pela perda de minha dignidade.
E relaxo.
Ele sente a tensão escoar de meu corpo e, por sua vez, corresponde. Ele sorri, solta suas garras em meus ombros. Desliza os braços ao redor de minha cintura. Engulo o vômito que ameaça me trair.
Seu casaco militar tem um milhão de botões e pergunto-me quantos terei de desabotoar antes que eu consiga colocar a mão na arma. Suas mãos estão explorando meu corpo, deslizando pelas minhas costas para sentir o formato de meu corpo e isso é tudo o que eu posso fazer para evitar fazer algo imprudente. Não sou hábil o bastante para dominá-lo e não faço ideia de por que ele é capaz de tocar em mim. Não faço ideia de por que fui capaz de estraçalhar o concreto. Não faço ideia de onde essa energia veio.
Hoje ele tem toda a vantagem e não é hora de me entregar.
Ainda não.
Coloco minhas mãos em seu peito. Ele me pressiona contra a curva do seu corpo. Ergue meu queixo para encontrar meus olhos.
— Serei bom para você — sussurra ele. — Serei tão bom para você, Juliette. Prometo.
Espero não estar visivelmente trêmula.
E ele me beija. Faminto. Desesperado. Ávido por me escancarar e provar meu gosto. Estou tão atordoada, tão aterrorizada, tão envolvida pela insanidade que me esqueço de mim mesma. Fico lá congelada, enojada. Minhas mãos deslizam de seu peito. Tudo em que consigo pensar é em Adam e sangue e Adam e o som de tiros e Adam deitado em uma poça de sangue e eu quase o empurro de cima de mim. Mas Warner não será desencorajado.
Ele interrompe o beijo. Sussurra algo em meu ouvido que soa absurdo. Pega meu rosto com suas mãos e, desta vez, lembro-me de fingir. Puxo-o para mais perto, agarro um punhado de seu casaco, meus dedos já no afã de libertar o primeiro de seus botões. Warner segura meus quadris e suas mãos conquistam meu corpo. Ele tem gosto de menta, cheira a gardênias. Seus braços são fortes ao redor de mim, seus lábios, suaves, quase doces contra minha pele. Há uma carga elétrica entre nós que eu não previra.
Minha cabeça está girando.
Seus lábios estão no meu pescoço, provando-me, devorando-me, e eu me forço a não desviar do foco. Forço-me a compreender a perversão desta situação. Não sei como conciliar a confusão em minha mente, minha hesitante repulsa, minha inexplicável reação química a seus lábios. Preciso acabar com isso. Já.
Alcanço seus botões.
E ele está desnecessariamente encorajado.
Warner me levanta pela cintura, suspende-me contra a parede, suas mãos no meu traseiro, forçando minhas pernas a envolvê-lo. Ele não percebe que me deu o ângulo perfeito para chegar a seu casaco.
Seus lábios encontram os meus, suas mãos deslizam sob minha blusa e ele está respirando pesado, enrijecendo seu domínio em volta de mim, e eu praticamente rasgo seu casaco no desespero. Não posso deixar isto continuar por mais tempo. Não faço ideia de até onde Warner quer levar as coisas, mas não posso continuar encorajando sua insanidade.
Preciso que ele se incline só um centímetro a mais para a frente...
Minhas mãos envolvem a arma.
Sinto
que
congela.
Recua.
Observo
seu
rosto
passar
por
fases
de
confusão/medo/angústia/horror/raiva. Ele me larga no chão no momento em que meus dedos puxam o gatilho pela primeira vez.
A arma está desarmada de seu poder e de sua força, o som muito mais ruidoso do que eu previa.