Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 19 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 19

— Doença? — Ele se lança à frente, bruscamente exaltado, e eu me esforço para manter-me firme no chão. — Você acha que tem uma doença? — grita ele. — Você tem um dom! Você tem uma habilidade extraordinária que você não se preocupa em entender. Seu potencial...

— Não tenho potencial!

— Você está errada. — Ele está olhando furiosamente para mim. Não há outra maneira de descrever isso. Quase poderia dizer que neste momento ele me odeia. Odeia-me por eu odiar-me a mim mesma.

— Bem, você é o assassino — digo-lhe. — Então deve estar certo.

Seu sorriso está atado com dinamite.

— Vá dormir.

— Vá pro inferno.

Ele movimenta a mandíbula. Caminha até a porta.

— Estou trabalhando nisso.

 

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19

A escuridão está me sufocando.

Meus sonhos são sangrentos e estão sangrando por toda minha mente e eu não posso dormir mais.

Os únicos sonhos que costumavam me dar paz se foram e eu não sei como obtê-los de volta. Não sei como encontrar o pássaro branco. Não sei se ele algum dia vai voar. Tudo que sei é que agora, quando fecho os olhos, não vejo nada senão devastação. Fletcher está levando um tiro várias e várias vezes e Jenkins está morrendo em meus braços e Warner está disparando na cabeça de Adam e o vento está uivando do lado de fora de minha janela, mas ele é berrante e estranho, e eu não tenho coragem de ordenar que ele pare.

Estou congelando dentro das roupas.

A cama abaixo das minhas costas está repleta de pedaços de nuvens e neve caída há pouco; ela é tão macia, tão confortável. Ela me faz lembrar muito de dormir no quarto de Warner e não suporto isso. Estou com medo de enfiar-me debaixo destas cobertas.

Não consigo deixar de pensar se Adam está bem, se algum dia ele voltará, se Warner continuará machucando-o sempre que eu desobedecer. Realmente não devia me preocupar tanto.

A mensagem de Adam em meu caderno pode ser apenas uma parte do plano de Warner para me enlouquecer.

Engatinho no chão duro e confiro o pedaço de papel amassado que há dois dias aperto no punho.

Ele é a única esperança que me restou e eu nem mesmo sei se é real.

Estou ficando sem opções.

— O que você está fazendo aqui?

Seguro um grito e cambaleio para os lados, quase batendo em Adam no ponto em que ele está deitado no chão perto de mim. Nem sequer o vi.

— Juliette? — Ele não se move um centímetro. Seu olhar está fixo em mim: calmo, imperturbável; dois baldes de água de rio à meia-noite. Gostaria de chorar em seus olhos.

Não sei por que lhe conto a verdade.

— Não conseguia dormir lá em cima.

Ele não me pergunta a razão. Ele se levanta e solta um gemido e eu me lembro de como ele está ferido. Pergunto-me que tipo de dor ele sente. Não faço perguntas enquanto ele apanha um travesseiro e o cobertor de minha cama. Ele coloca o travesseiro no chão.

— Deite-se — é tudo o que ele diz para mim. Calmamente, é como ele diz isso para mim.

Todos os dias, durante todo o dia, eternamente, quero que ele diga isso para mim.

É apenas uma palavra e eu não sei por que estou corando. Deito-me apesar das sirenes girando em meu sangue e descanso a cabeça no travesseiro. Ele coloca o cobertor sobre meu corpo. Deixo-o fazer isso. Observo enquanto seus braços curvam-se e flexionam-se à sombra da noite, o resplendor da Lua espreitando através da janela, iluminando sua figura com seu brilho. Ele se deita no chão, deixando apenas alguns centímetros de espaço entre nós. Ele não exige cobertor. Ele não usa travesseiro. Ele ainda dorme sem camisa e acabo de descobrir que não sei como respirar. Acabo de perceber que nunca irei soltar o ar na sua presença.

— Você não precisa mais gritar — sussurra ele.

O ar escapa-me por todos os poros do corpo.

Enrolo meus dedos em torno da possibilidade de Adam em minha mão e durmo o mais profundo que já dormi na vida.

Meus olhos são duas janelas arrombadas pelo caos deste mundo.

Uma brisa fresca surpreende minha pele e eu me sento, esfrego o sono de meus olhos e reparo que Adam não está mais do meu lado. Pisco os olhos e engatinho de volta para a cama, onde reponho o travesseiro e o cobertor.

Olho para a porta e me pergunto o que me espera do outro lado.

Olho para a janela e me pergunto se verei alguma vez um pássaro voar.

Olho para o relógio na parede e me pergunto o que significa viver, novamente, de acordo com os números. Pergunto-me o que 6h30 da manhã significam neste edifício.

Decido lavar o rosto. A ideia me alegra e estou um pouco envergonhada.

Abro a porta do banheiro e surpreendo o reflexo de Adam no espelho. Suas rápidas mãos puxam sua camisa para baixo antes que eu tenha a chance de pegar os detalhes, mas vi o suficiente para ver o que não podia ver na escuridão.

Ele está coberto de hematomas.

Fico sem pernas. Não sei como ajudá-lo. Gostaria de poder ajudá-lo.

— Me desculpe — diz ele rapidamente. — Não sabia que estava acordada. — Ele puxa a parte inferior da camisa como se ela não fosse comprida o bastante para eu fazer de conta que estou cega.

Aceno que sim em direção de coisa nenhuma. Olho o ladrilho debaixo de meus pés. Não sei o que dizer.

— Juliette. — Sua voz acaricia as letras de meu nome tão suavemente que morro cinco vezes nesse segundo. Seu rosto é uma floresta de emoções. Ele sacode a cabeça. — Me desculpe — diz ele tão calmamente que estou certa de que imaginei isso. — Não é... — Ele trava o maxilar e passa uma mão nervosa pelos cabelos. — Tudo isso... não é...

Abro a mão na direção dele. O papel é uma bolinha amarrotada de possibilidades.

O alívio inunda todas as feições de seu rosto e subitamente seus olhos são a única nova garantia de que vou eternamente precisar. Adam não me traiu. Não sei por que ou como ou o que ou nada mais exceto que ele ainda é meu amigo.

Ele ainda está de pé bem na minha frente e ele não quer que eu morra.

Aproximo-me e fecho a porta.

Abro a boca para falar.

— Não!

Meu queixo cai.

— Espere — diz ele com uma mão. Seus lábios se movem, mas não fazem som. Percebo na ausência de câmeras que ainda poderia haver microfones no banheiro. Adam olha em volta e de um lado para o outro por toda a parte.

Ele para de olhar.

O chuveiro é de quatro paredes de vidro em mármore e ele está abrindo o vidro antes que eu entenda o que está acontecendo. Ele vira a ducha na potência máxima e o som da água corre, ressoa pelo quarto, abafando tudo como se trovejasse no vazio ao nosso redor. O espelho já está embaçando por causa do vapor. Só quando penso estar começando a entender seu plano, ele me puxa para seus braços e me ergue para dentro do chuveiro.

Meus gritos são vapor, nuvens de suspiro que não consigo apreender.

A água quente ensopa minhas roupas. Cai em meus cabelos, escorrendo-me no pescoço, mas tudo o que sinto são suas mãos em volta de minha cintura. Quero gritar por todas as razões erradas.

Seus olhos me pregam no lugar. Sua urgência inflama meus ossos. Riachos de água serpenteiam pelos planos polidos de seu rosto e seus dedos me pressionam contra a parede.

Seus lábios seus lábios seus lábios seus lábios seus lábios.

Meus olhos lutam para não flutuar.

Minhas pernas ganharam o direito de tremer.

Minha pele está abrasada por todos os lugares em que ele não está me tocando.

Seus lábios estão tão próximos de meu ouvido que sou a água e nada e tudo e estou evaporando em um querer tão desesperado que queima à medida que engulo.

— Eu posso tocá-la — diz ele, e eu me pergunto por que há beija-flores no meu coração. — Não entendia até a outra noite — murmura ele, e estou embriagada demais para digerir o peso de qualquer coisa senão de seu corpo pairando tão próximo ao meu.

— Juliette... — Seu corpo espreme-se mais rente e eu percebo que não estou prestando atenção a nada senão aos dentes-de-leão que sopram desejos em meus pulmões. Meus olhos abrem-se abruptos e ele lambe seu lábio inferior durante o mais curto segundo e eu me maravilho com a gota gota gotas de água quente arranjadas em seus cílios como pérolas forjadas da dor. Seus dedos sobem vagarosamente pelas laterais de meu corpo como se ele se esforçasse para mantê-los em um só lugar, como se ele se esforçasse para não me tocar em todos os lugares todos os lugares todos os lugares e seus olhos estão absorvidos em meu 1,60 metro de físico e eu estou tão eu estou tão eu estou tão arrebatada.

— Enfim agora compreendo — diz ele em meu ouvido. — Eu sei... eu sei por que Warner quer você. — As pontas de seus dedos são dez pontos de eletricidade me exterminando por meio de algo que jamais conheci. Algo que sempre quis sentir.

— Então por que você está aqui? — sussurro, submissa, morrendo em seus braços. — Por que...

— Uma. Duas tentativas de aspiração. — Por que você está me tocando?

— Porque eu posso. — Ele quase irrompe um sorriso e quase me desenvolve um par de asas. — Eu já toquei.

— O quê? — Pisco, subitamente saída da embriaguez. — O que você quer dizer?

— Aquela primeira noite na cela — suspira ele. Ele olha para baixo. — Você estava gritando enquanto dormia.

Eu espero.

Eu espero.

Eu espero eternamente.

— Toquei seu rosto. — Ele me fala ao ouvido. — Sua mão. Toquei de leve a extensão de seu braço... — Ele recua e seus olhos descansam em meu ombro, seguindo para o cotovelo, pousando em meu pulso. Estou suspensa na incredulidade. — Não sabia como acordá-la. Você não acordava.

Então me sentei de braços cruzados e a observei. Esperei você parar de gritar.

— Não. É. Possível. — Três palavras são tudo o que consigo.

Mas suas mãos tornam-se braços em volta da minha cintura seus lábios tornam-se um rosto pressionado ao meu rosto e seu corpo é vigoroso contra o meu, sua pele me tocando me tocando me tocando e ele não está gritando ele não está morrendo ele não está fugindo de mim e eu estou chorando estou sufocando estou tremendo estremecendo estilhaçando-me em lágrimas e ele está me segurando de um modo que nunca ninguém me segurou.

Exatamente como ele me quer.

— Vou tirá-la daqui — diz ele, e sua boca está se movendo diante de meus cabelos e suas mãos estão percorrendo meus braços e eu estou reclinando e ele está olhando-me dentro dos olhos e eu devo estar sonhando.

— Por que... por que você... eu não... — Estou sacudindo a cabeça e sacudindo porque isso não pode estar acontecendo e sacudindo do rosto as lágrimas nele coladas. Isso não pode ser real.

Seus olhos suavizam, seu sorriso desengonça minhas articulações e eu queria saber o gosto de seus lábios. Queria ter a coragem de tocá-lo.

— Tenho de ir — diz ele. — Você tem de se vestir e estar lá embaixo às 8 horas.

Estou me afogando em seus olhos e não sei o que dizer.

Ele tira a camisa e eu não sei para onde olhar.

Surpreendo-me a mim mesma no painel de vidro e aperto os olhos e pisco quando algo se agita bem próximo. Seus dedos estão a um instante de meu rosto e eu estou pingando queimando derretendo por antecipação.

— Você não tem de desviar o olhar — diz ele. Ele diz isso com um sorrisinho do tamanho de Júpiter.

Espio suas feições, o sorriso torto que eu quero provar, a cor de seus olhos que eu usaria para pintar um milhão de quadros. Sigo a linha de sua face, seu pescoço abaixo até o pico de sua clavícula; memorizo as colinas e os vales esculpidos em seus braços, a perfeição de seu torso. O

pássaro no seu peito.

O pássaro no seu peito.

Uma tatuagem.