Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 29 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 29

“Basicamente nada de errado com você.”

A observação é tão flagrantemente falsa que eu começo a rir de verdade. Tento conter minha incredulidade.

— Não há nada de errado comigo? Você está brincando, certo?

Adam me encara por tanto tempo que começo a corar. Ele inclina meu queixo para cima de tal modo que encontro seus olhos. Azuis azuis azuis perfurando-me. Sua voz é profunda, firme.

— Acho que nunca escutei você rir.

Ele é preciso de modo tão excruciante que eu não sei como responder exceto com a verdade. Meu sorriso se comprime em uma linha reta.

— O riso vem da vida. — Encolho os ombros, tento soar indiferente. — Realmente nunca estive viva antes.

Seus olhos não hesitaram em seu foco. Ele está me segurando na posição com a força de uma atração poderosa que vem de dentro dele. Quase posso sentir seu coração batendo contra minha pele.

Quase posso sentir seus lábios respirando contra meus pulmões. Quase posso sentir seu gosto em

minha língua.

Ele respira pouco firme e me puxa para perto. Beija-me no alto da cabeça.

— Vamos para casa — sussurra.

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Casa.

“Casa.”

O que isso significa?

Separo os lábios para fazer a pergunta e seu sorriso furtivo é a única resposta que recebo. Estou constrangida e excitada e ansiosa e ávida. Meu estômago está repleto de tambores que batem em sincronia pelo meu coração. Estou praticamente zunindo em decorrência de nervos elétricos.

Cada passo é um passo longe do manicômio, longe de Warner, longe da futilidade da existência que sempre conheci. Cada passo é um passo que dou porque eu quero. Pela primeira vez na minha vida, avanço porque eu quero, porque sinto esperança e amor e a euforia da beleza, porque eu quero saber o que é viver. Poderia saltar para pegar uma brisa e viver para sempre nos caminhos traçados pelo vento.

Sinto-me como se tivesse ganhado asas.

Adam me conduz a um galpão abandonado às margens deste campo selvagem, coberto por vegetação inútil e tentáculos de arbustos desordenados, ásperos e hediondos, provavelmente venenosos. Fico me perguntando se este é o lugar onde Adam pretendia que ficássemos. Entro pelo espaço escuro e aperto os olhos. Um esboço chega-me ao foco.

Há um carro aqui dentro.

Pisco.

Não apenas um carro. Um tanque.

Adam quase não consegue controlar o próprio entusiasmo. Ele olha para o meu rosto esperando uma reação e parece satisfeito com meu assombro. Suas palavras despencam.

— Convenci Warner de que tinha conseguido quebrar um dos tanques que eu trouxe até aqui.

Essas coisas são projetadas para funcionar à eletricidade... então eu lhe disse que o mecanismo principal fritou em contato com os resquícios químicos. Que ele foi corrompido por alguma coisa na atmosfera. Ele, depois disso, arranjou um carro para mandar me buscar, e disse que devíamos deixar o tanque onde estava. — Ele quase sorri. — Warner estava me mandando aqui contra a vontade do pai, e não queria que ninguém descobrisse que ele tinha quebrado um tanque de 500 mil dólares. O

relato oficial diz que ele foi raptado por rebeldes.

— Alguém não poderia ter aparecido e visto o tanque colocado aqui?

Adam abre a porta do passageiro.

— Os civis ficam longe, muito longe deste lugar, e nenhum outro soldado esteve aqui. Ninguém mais quis correr o risco da radiação. — Ele inclina a cabeça. — Essa é uma das razões por que Warner confiava em mim ao seu lado. Ele apreciava o fato de que eu estava disposto a morrer pelo dever.

— Ele nunca pensou que você sairia da linha — murmuro, compreendendo o que ele diz Adam sacode a cabeça.

— Não. E, depois do que aconteceu com o soro rastreador, ele não tinha razão para duvidar de que coisas malucas pudessem acontecer aqui. Eu desativei o mecanismo elétrico do tanque, só para o caso de que ele quisesse verificar. — Ele acena a cabeça para o veículo monstruoso. — Tive um pressentimento de que isso seria útil um dia. É sempre bom estar preparado.

Preparado. Ele esteve sempre preparado. Para correr. Para escapar.

Fico me perguntando por quê.

— Venha cá — diz ele, sua voz notadamente mais gentil. Ele me estende a mão à luz fraca e eu finjo ser uma feliz coincidência que suas mãos rocem minhas coxas nuas. Finjo não ser incrível a sensação de vê-lo lutando com os rasgos de meu vestido enquanto me ajuda a entrar no tanque. Finjo não poder ver o modo como ele está olhando para mim quando o último raio de Sol se despede no horizonte.

— Preciso cuidar de suas pernas — diz ele, um sussurro contra minha pele, elétrico em meu sangue. Por um momento, sequer entendo o que ele quer dizer. Sequer me importo. Meus pensamentos são tão impraticáveis que me surpreendo. Jamais tivera a liberdade de tocar alguém. Certamente ninguém jamais quisera minhas mãos sobre si. Adam é uma experiência absolutamente nova.

Tocá-lo é tudo em que quero pensar.

— Os cortes não estão tão ruins — continua ele, as pontas de seus dedos correndo pelas minhas panturrilhas. Sorvo a respiração. — Mas teremos de lavá-los, só para garantir. Às vezes é mais seguro ser cortado por uma faca de açougueiro do que ser arranhado por um pedaço qualquer de metal. Você não quer que isso infeccione.

Ele levanta os olhos. Suas mãos estão agora sobre meu joelho.

Estou acenando com a cabeça e não sei por quê. Pergunto-me se estou tremendo externamente tanto quanto estou por dentro. Espero que esteja escuro demais para que ele veja quanto meu rosto está corado, como é embaraçoso o fato de ele não poder tocar meu joelho sem que me deixe louca.

Preciso dizer algo.

— Podemos ir, Adam?

— Sim. — Ele respira fundo, para retornar a si mesmo. — Sim. Temos de ir. — Ele espreita através da luz da noite. — Temos algum tempo antes que eles percebam que ainda estou vivo. E

temos de usar isso a nosso favor.