Inferno

Dan Brown · Capítulo 13 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 1 4

 

Langdon ficou totalmente imóvel, com a mão suspensa no ar, segurando firme o cilindro de osso. Não havia dúvida de que o vidro na ponta do tubo emitia uma luz... e brilhava como se o seu conteúdo tivesse acordado de repente.

Num piscar de olhos, a luz lá dentro tornou a se apagar.

Sienna se aproximou, com a respiração acelerada. Ela entortou a cabeça para examinar a parte visível de vidro dentro do osso.

– Incline outra vez – sussurrou. – Bem devagar.

Langdon tornou a virar o osso de cabeça para baixo. Mais uma vez, um pequeno objeto chacoalhou de uma ponta a outra e parou.

– De novo – pediu ela. – Com cuidado.

Langdon repetiu o gesto e o tubo voltou a chacoalhar. Dessa vez, o vidro interno cintilou de leve, tornando a brilhar por um instante para então se apagar.

– Só pode ser um tubo de ensaio com uma bolinha dentro para agitar o conteúdo – declarou Sienna.

Langdon conhecia as bolinhas usadas para agitar latas de tinta em spray: pequenas esferas submersas que ajudavam a misturar a tinta quando a lata era sacudida.

– Deve conter algum tipo de composto químico fosforescente – prosseguiu Sienna – ou algum organismo bioluminescente que brilha quando estimulado.

Langdon discordava. Embora já tivesse visto bastões de luz química e até plânctons bioluminescentes que brilhavam quando algum barco agitava seu habitat, estava quase certo de que o cilindro que segurava não continha nenhuma dessas duas coisas. Tornou a inclinar o tubo várias vezes até fazê-lo reluzir, então segurou a ponta luminescente acima da palma da mão. Como imaginava, um fraco ponto de luz avermelhada se projetou em sua pele.

Bom saber que alguém com 208 de QI também se engana de vez em quando.

– Olhe aqui – falou, e começou a sacudir o tubo com violência. O objeto lá dentro chacoalhou de um lado para outro, cada vez mais depressa.

Sienna deu um salto para trás.

– O que você está fazendo?!

Sem parar de agitar o tubo, Langdon foi até o interruptor e apagou a luz, fazendo a cozinha mergulhar em relativa escuridão.

– Não é um tubo de ensaio aqui dentro – declarou, ainda sacudindo o cilindro com toda a força. – É um laserpoint movido a energia cinética.

Ganhara algo parecido de um aluno: um laserpoint para professores que não gostavam de gastar inúmeras pilhas palito e não se importavam com o esforço de sacudir o objeto por alguns segundos a fim de transformar sua própria energia cinética em energia elétrica de acordo com a necessidade. Quando o aparelho era agitado, uma bolinha de metal em seu interior se deslocava de um lado para outro, passando por uma série de pás e alimentando um gerador minúsculo. Pelo jeito, alguém decidira enfiar aquele laserpoint em especial dentro de um osso oco e entalhado – um casulo milenar para proteger um brinquedo eletrônico moderno.

A extremidade em sua mão agora brilhava intensamente, e Langdon abriu um sorriso nervoso para Sienna.

– Hora do espetáculo.

Apontou o dispositivo envolto em osso para um espaço vazio na parede da cozinha.

Quando a parede se iluminou, Sienna arquejou, surpresa. No entanto foi Langdon quem recuou, estupefato.

O que apareceu na parede não foi um pequeno ponto vermelho de laser, mas uma fotografia nítida, em alta definição, que emanava do tubo como de um daqueles antigos projetores de slides.

Meu Deus! A mão de Langdon tremia um pouco enquanto ele assimilava a cena macabra projetada na parede à sua frente. Não é de espantar que eu esteja vendo imagens de morte.

Ao seu lado, Sienna cobriu a boca e deu um passo titubeante à frente, hipnotizada pelo que via.

A cena que se projetava do osso entalhado era uma pintura a óleo, um retrato macabro do sofrimento humano: milhares de almas suportando torturas impiedosas em diversos estágios do Inferno. O mundo inferior era representado por um corte transversal da Terra, um cavernoso poço em forma de funil, de profundezas insondáveis. Esse fosso infernal era dividido em camadas descendentes, povoadas por toda a sorte de pecadores atormentados, sua agonia ficando mais intensa a cada nível.

Langdon reconheceu a imagem na mesma hora.

A obra-prima à sua frente – La Mappa dell"Inferno – fora pintada por um dos gigantes da Renascença Italiana, Sandro Botticelli. Complexo diagrama do mundo inferior, aquele Mapa do Inferno era uma das visões mais aterrorizantes da vida após a morte já criadas. Escuro, sinistro e apavorante, o quadro até hoje causa espanto em quem o vê. Diferente de suas obras vibrantes e coloridas, como Primavera e O nascimento de Vênus, no Mapa do Inferno Botticelli usou uma deprimente paleta de tons de vermelho, sépia e marrom.

Embora a esmagadora dor de cabeça de Langdon tivesse voltado de repente, pela primeira vez desde que acordara em um hospital estranho ele teve a sensação de que uma peça do quebra-cabeça se encaixava. Era óbvio que suas medonhas alucinações tinham sido induzidas pela visão daquela famosa pintura.

Eu devia estar estudando o Mapa do Inferno de Botticelli, pensou, embora não conseguisse lembrar por quê.

Por mais que a imagem em si fosse perturbadora, foi a procedência do quadro que começou a deixar Langdon cada vez mais inquieto. Ele sabia muito bem que a inspiração para aquela agourenta obra-prima não tivera origem na mente do próprio Botticelli, mas na de uma pessoa que vivera dois séculos antes dele.

Uma grande obra de arte inspirada por outra.

O Mapa do Inferno de Botticelli era na verdade um tributo a uma obra literária do século XIV que havia se tornado um dos textos mais célebres da história... uma visão notoriamente macabra do Inferno cuja influência se fazia sentir até hoje.

O Inferno de Dante.

 

Do outro lado da rua, Vayentha subiu em silêncio uma escada de serviço e foi se esconder no terraço da pequena e adormecida Pensione la Fiorentina. Langdon tinha dado a seu contato do consulado um número de quarto que não existia e um ponto de encontro falso – um ―encontro espelhado‖, como costumavam chamar no ramo: uma conhecida tática de espionagem que permitiria ao professor avaliar a situação antes de revelar onde estava de fato. Invariavelmente, a posição falsa ou ―espelhada‖ era escolhida por proporcionar uma visão perfeita de sua verdadeira localização.

No terraço, Vayentha encontrou um esconderijo com um ângulo privilegiado, do qual tinha uma visão panorâmica de toda a área. Sem pressa, permitiu que seus olhos subissem pela fachada do prédio residencial do outro lado da rua.

Sua vez, Sr. Langdon.

 

Nesse exato momento, a bordo do Mendacium, o diretor saiu para o convés de mogno e inspirou fundo, saboreando o ar salgado do Adriático. Havia muitos anos que aquela embarcação era o seu lar, mas agora os acontecimentos que se desenrolavam em Florença ameaçavam acabar com tudo o que ele havia construído.

Vayentha, sua agente de campo, tinha colocado tudo em risco. Embora ela fosse ter de passar por um interrogatório quando a missão terminasse, por ora o diretor ainda precisava dela.

É melhor ela retomar o controle da situação.

Ao ouvir passos rápidos se aproximarem por trás dele, o diretor se virou e viu que uma de suas analistas vinha correndo em sua direção.

– Senhor diretor? – disse ela, ofegante. – Temos novas informações. – Sua voz cortou o ar matinal com uma intensidade rara. – Parece que Robert Langdon acabou de acessar sua conta de e-mail em Harvard de um endereço IP aberto. – Ela se deteve, os olhos cravados nos do diretor. – Agora podemos rastrear a localização exata dele.

O diretor ficou pasmo com o fato de que alguém pudesse ser tão idiota. Isso muda tudo. Uniu os dedos, formando um triângulo com as mãos, e lançou um olhar em direção ao litoral, refletindo sobre as implicações daquilo.

– Sabemos qual o status da equipe de SMI?

– Sim, senhor. Eles estão a uns três quilômetros da posição de Langdon.

O diretor tomou sua decisão num instante.