Inferno

Dan Brown · Capítulo 78 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 9 4

 

Robert Langdon não era nenhum grande corredor, mas anos de natação haviam lhe garantido pernas fortes e suas passadas eram compridas. Em poucos segundos, dobrou a esquina e se viu numa avenida mais larga. Aflito, vasculhou as calçadas com os olhos.

Ela tem que estar aqui!

Tinha parado de chover e, daquela esquina, dava para ver toda a rua iluminada. Não havia onde se esconder.

Mesmo assim, Sienna parecia ter desaparecido.

Langdon parou com as mãos nos quadris. Ofegante, examinou a rua encharcada de chuva à sua frente. O único movimento que viu foi uns 50 metros adiante, onde um moderno otobüs de Istambul se afastava do meio-fio e começava a subir a avenida.

Será que Sienna embarcou em um ônibus?

Parecia-lhe arriscado demais. Será que ela iria mesmo se encurralar dentro de um ônibus quando sabia que todos estariam à sua procura? Mas, pensando bem, se achasse que ninguém a vira dobrar a esquina e se o ônibus por coincidência tivesse encostado naquele exato momento, proporcionando-lhe uma oportunidade cronometrada e perfeita...

Podia ser.

Uma placa em cima do ônibus informava o destino – um painel de luz programável que mostrava uma única palavra: galata.

Langdon subiu a rua correndo em direção a um elegante senhor idoso parado debaixo do toldo de um restaurante, vestido com uma túnica bordada e um turbante branco.

– Com licença – falou ao se aproximar, ainda ofegante. – O senhor fala inglês?

– Claro – respondeu o turco, parecendo abalado com a urgência em seu tom de voz.

– Galata?! Isso é um lugar?

– Galata? – repetiu o homem. – Ponte de Galata? Torre de Galata? Porto de Galata?

Langdon apontou para o otobüs que acabara de partir.

– Galata! Para onde aquele ônibus está indo!

O homem do turbante olhou para o coletivo que se afastava e o observou por alguns instantes.

– Ponte de Galata – respondeu. – Ela sai da cidade velha e vai até o outro lado.

Langdon soltou um grunhido e tornou a vasculhar a rua, mas não viu sinal algum de Sienna. Sirenes agora ecoavam por toda parte e veículos de emergência passavam em disparada rumo à cisterna.

– O que está acontecendo? – perguntou o senhor de turbante com ar alarmado. – Está tudo bem?

Langdon deu outra olhada em direção ao ônibus que partia e soube que seria uma aposta arriscada, mas não tinha alternativa.

– Não. Não está – respondeu. – Está havendo uma emergência e preciso de sua ajuda. – Acenou em direção ao meio-fio junto ao qual um manobrista acabara de estacionar um reluzente Bentley prata. – Esse carro é seu?

– É, sim, mas...

– Preciso de uma carona – disse Langdon. – Sei que nunca nos vimos antes, mas está havendo uma catástrofe. É uma questão de vida ou morte.

O senhor de turbante passou vários segundos encarando o professor como se lhe perscrutasse a alma. Por fim, assentiu.

– Então é melhor o senhor entrar.

Quando o Bentley se afastou do meio-fio com um rugido, Langdon se pegou agarrando com força o assento. Estava claro que o turco era um motorista experiente e o desafio de costurar no tráfego para brincar de gato e rato com o ônibus parecia lhe agradar.

Bastaram três quarteirões para o Bentley chegar bem atrás do otobüs. Langdon se inclinou para a fente e estreitou os olhos para ver melhor através da janela traseira do coletivo. A luz lá dentro era fraca, e tudo o que ele conseguiu distinguir foram as vagas silhuetas dos passageiros.

– Continue a seguir o ônibus, por favor – pediu ao turco. – O senhor tem celular?

O homem sacou um celular do bolso e o entregou a Langdon. Ele lhe agradeceu profusamente e só então se deu conta de que não fazia a menor ideia de para quem ligar. Não tinha os telefones da Dra. Sinskey nem de Brüder, e telefonar para o escritório da OMS na Suíça poderia ser demorado demais.

– Qual é o número da polícia daqui? – perguntou.

– Um cinco cinco – respondeu o motorista. – De qualquer lugar de Istambul.

Langdon digitou os três números e aguardou. Os toques do outro lado pareciam não terminar nunca. Por fim, uma gravação atendeu e disse, primeiro em turco e depois em inglês, que por causa do grande volume de chamadas era preciso aguardar. Langdon se perguntou se o motivo do volume de chamadas seria a crise na cisterna.

Àquela altura, o pandemônio no palácio afundado já devia ser completo. Pensou em Brüder avançando pela água da lagoa e se perguntou o que o agente teria descoberto lá. Teve a desanimadora sensação de que já sabia.

Sienna tinha entrado na água antes dele.

Mais à frente, as luzes de freio do ônibus se acenderam e o coletivo encostou em um ponto junto ao meio-fio. O motorista do Bentley também encostou e ficou parado com o motor ligado uns 50 metros atrás, proporcionando a Langdon uma visão perfeita dos passageiros que embarcavam e saltavam. Apenas três pessoas desceram – todas do sexo masculino –, mas mesmo assim ele estudou cada uma delas com atenção, bem consciente dos talentos de Sienna para disfarces.

Seus olhos se voltaram novamente para a janela traseira. O vidro era escuro, mas o interior do ônibus estava agora bem iluminado e ele pôde ver melhor os passageiros. Inclinou-se para a frente, esticou o pescoço e aproximou bem o rosto do para-brisa do Bentley para tentar encontrar Sienna.

Por favor, não me diga que eu estava errado!

Então a viu.

Bem no fundo do ônibus, de costas para ele, um par de ombros esguios subia até a parte de trás de um crânio raspado.

Só pode ser ela.

Quando o ônibus acelerou, as luzes internas tornaram a diminuir. Na fração de segundo antes de sumir na escuridão, a cabeça virou para trás e olhou pela janela.

Langdon se abaixou no banco do carona para se esconder nas sombras do Bentley. Será que ela me viu? O motorista de turbante já estava saindo com o carro outra vez para voltar a seguir o ônibus.

A rua agora descia em direção à água, e mais à frente Langdon pôde ver as luzes de uma ponte baixa que se estendia por cima dela. A ponte parecia totalmente parada por causa do tráfego. Na verdade, toda a área próxima ao acesso à ponte parecia congestionada.

– O Bazar de Especiarias – explicou o turco. – É um programa concorrido nas noites de chuva.

Ele apontou para a beira d’água, onde um prédio de comprimento surpreendente se estendia à sombra de uma das mesquitas mais espetaculares da cidade: a Mesquita Nova – se Langdon não estivesse enganado, a julgar pela altura dos famosos minaretes gêmeos. O Bazar de Especiarias parecia maior do que a maioria dos shoppings americanos, e ele viu pessoas entrando e saindo pela imensa porta em arco.

– Alo?! – disse uma voz débil em algum lugar do carro. – Acil Durum! Alo?!

Langdon baixou os olhos para o celular em sua mão. A polícia.

– Ah, alô! – respondeu, erguendo o aparelho. – Meu nome é Robert Langdon. Estou trabalhando com a Organização Mundial da Saúde. Está havendo uma emergência grave na cisterna da cidade e estou seguindo a pessoa responsável. Ela está a bordo de um ônibus perto do Bazar de Especiarias, a caminho da...

– Um instante, por favor – disse o atendente. – Vou passá-lo para a central.

– Não, escute! – Mas ele já havia sido posto em espera de novo.

O motorista do Bentley se virou para ele com um ar assustado.

– Uma emergência na cisterna?!

Langdon estava prestes a explicar quando o rosto do turco de repente se iluminou de vermelho, como o de um demônio.

Luzes de freio!

O motorista se virou depressa para a frente e o carro freou com uma leve derrapada logo atrás do ônibus. As luzes internas do coletivo tornaram a se acender e Langdon viu Sienna. Em pé junto à porta de trás, ela puxava a cordinha de parada de emergência e batia na porta para saltar.

Ela me viu, percebeu. Sem dúvida Sienna devia ter visto também o congestionamento na Ponte de Galata, entendendo que não podia ficar presa ali.

Langdon abriu a porta do carro na hora, mas Sienna já havia pulado para fora do ônibus e saído correndo pela noite. Ele jogou o celular de volta para o turco.

– Avise à polícia o que aconteceu! Mande cercarem a região!

O senhor de turbante assentiu, assustado.

– E obrigado! – gritou Langdon. – Teşekkürler!

Então ele disparou pela rua em declive no encalço de Sienna, que agora corria bem na direção das pessoas aglomeradas em volta do Bazar de Especiarias.