Inferno

Dan Brown · Capítulo 7 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 6

 

Langdon sentiu que mãos firmes o erguiam, instigando-o a se libertar de seu torpor e ajudando-o a sair do táxi. O asfalto estava frio sob seus pés descalços.

Parcialmente apoiado no corpo esguio da Dra. Brooks, Langdon cambaleou por uma viela deserta entre dois prédios residenciais. O vento matinal soprou mais forte, inflando sua camisola hospitalar, e Langdon sentiu o ar frio em lugares que sabia que não deveria sentir.

O sedativo que lhe fora administrado no hospital havia deixado sua mente tão turva quanto sua visão. Ele tinha a sensação de estar debaixo d’água, tentando abrir caminho com as mãos nuas por um mundo viscoso e mal iluminado. Sienna Brooks o arrastava adiante, sustentando-o com uma força surpreendente.

– Escadas – disse ela, e Langdon se deu conta de que eles haviam chegado à entrada de um prédio.

Segurando o corrimão, ele subiu as escadas com dificuldade, zonzo, um degrau de cada vez. Seu corpo parecia pesar uma tonelada. A Dra. Brooks agora o empurrava. Quando chegaram ao patamar, ela digitou alguns números em um teclado velho e enferrujado e a porta se abriu com um zumbido.

O ar no interior do prédio não estava muito mais quente, mas o piso de lajotas parecia um carpete macio contra as solas de seus pés em comparação ao asfalto áspero da rua. A Dra. Brooks conduziu Langdon até um pequeno elevador e abriu a porta pantográfica com um puxão, enfiando-o num cubículo praticamente do tamanho de uma cabine telefônica. O ar lá dentro cheirava a cigarros MS – uma fragrância agridoce tão onipresente na Itália quanto o aroma de espresso recém-preparado. O cheiro ajudou a desanuviar o raciocínio de Langdon, embora muito pouco. A Dra. Brooks apertou um botão e, em algum lugar muito acima deles, um conjunto de velhas engrenagens entrou em movimento com estalos e chiados.

Para cima...

A cabine decrépita sacolejou e tremeu quando começou a subir. Como as paredes não passavam de telas de metal, Langdon se viu obrigado a observar o interior do poço do elevador deslizar em um ritmo constante diante deles. Mesmo em seu estado semiconsciente, seu eterno medo de lugares fechados continuava firme e forte.

Não olhe.

Ele se recostou na parede do elevador, tentando recuperar o fôlego. Seu antebraço doía e, quando olhou para baixo, viu que a manga de seu Harris Tweed tinha sido amarrada de qualquer jeito em volta dele, como uma atadura. O restante do paletó se arrastava no chão, gasto e imundo.

Ele fechou os olhos, tentando combater a dor de cabeça latejante, mas foi novamente engolido pela escuridão.

Uma visão conhecida se materializou – a mulher de véu que parecia uma estátua, com seu amuleto e seus cachos prateados. Como das outras vezes, ela estava à margem de um rio vermelho-sangue, cercada de corpos que se contorciam. Falou com Langdon, sua voz suplicante. Busca e encontrarás!

Ele foi dominado pela sensação de que precisava salvá-la... salvar todos eles. As pernas que brotavam da terra começavam a ficar flácidas, sem vida... uma a uma.

Quem é você?!, gritou ele no silêncio. O que você quer?!

Um vento quente começou a ondular os fartos cabelos cor de prata. O tempo urge, sussurrou a mulher, tocando o amuleto em seu colar. Então, de repente, ela se incendiou, formando uma coluna de fogo ofuscante que rodopiou pelo rio, engolfando eles dois.

Langdon gritou e seus olhos se arregalaram.

A Dra. Brooks o encarou com um olhar preocupado.

– O que foi?

– Continuo tendo alucinações! – exclamou Langdon. – Sempre a mesma cena.

– A mulher de cabelos prateados? E um monte de cadáveres?

Ele assentiu, com gotas de suor brotando da testa.

– O senhor vai ficar bem – disse ela para tranquilizá-lo, embora sua voz soasse trêmula. – Visões recorrentes são comuns em casos de amnésia. A função cerebral que classifica e cataloga suas memórias foi temporariamente abalada, então funde tudo em uma só imagem.

– Nada bonita, por sinal – ele conseguiu dizer.

– Eu sei, mas até o senhor melhorar, suas memórias vão estar embaralhadas: passado, presente e imaginação, tudo misturado. O mesmo acontece nos sonhos.

O elevador parou devagar e a Dra. Brooks abriu a porta pantográfica com um puxão. Eles recomeçaram a andar, dessa vez por um corredor escuro e estreito. Passaram por uma janela, as silhuetas nebulosas dos telhados de Florença começando a emergir na luz fraca antes do amanhecer. Na extremidade oposta do corredor, a Dra. Brooks se agachou, pegou uma chave de baixo de uma planta que parecia sedenta e destrancou a porta.

O apartamento era minúsculo e o ar em seu interior sugeria uma batalha contínua entre uma vela com aroma de baunilha e o carpete velho. A mobília e a decoração eram, na melhor das hipóteses, escassas – como se ela tivesse comprado tudo de segunda mão em uma venda de garagem. A Dra. Brooks ajustou o termostato e os radiadores ganharam vida com um estrondo.

Ela ficou parada por alguns instantes e fechou os olhos, expirando com força, como se tentasse se recompor. Então se virou e conduziu Langdon até uma modesta cozinha americana com uma mesa de fórmica e duas cadeiras de aparência frágil.

Langdon se moveu em direção a uma das cadeiras na esperança de se sentar, mas a Dra. Brooks segurou seu braço com uma das mãos enquanto, com a outra, abria um armário quase vazio. Havia biscoitos, alguns pacotes de massa, uma lata de Coca-Cola e um frasco de remédio.

Ela pegou o frasco e despejou seis comprimidos na palma da mão de Langdon.

– Cafeína – explicou. – Para quando dou plantão à noite, como hoje.

Langdon pôs os comprimidos na boca e olhou em volta, à procura de um pouco d’água.

– Mastigue – disse ela. – O efeito será mais rápido e ajudará você a reagir ao sedativo.

Langdon estremeceu assim que começou a mastigar. Os comprimidos eram amargos, claramente feitos para serem engolidos inteiros. A Dra. Brooks abriu a geladeira e passou para Langdon uma garrafa de água San Pellegrino pela metade. Ele tomou um gole generoso, sentindo-se grato.

A médica então pegou seu braço direito e retirou a atadura que havia improvisado com o paletó, que largou sobre a mesa da cozinha. Examinou o ferimento com atenção. Enquanto ela segurava seu braço nu, Langdon pôde sentir que as mãos esguias da jovem doutora tremiam.

– Vai sobreviver – anunciou ela.

Langdon torceu para que ela ficasse bem. Mal conseguia compreender o que tinham acabado de passar.

– Dra. Brooks – falou –, precisamos telefonar para alguém. O consulado... a polícia. Quem quer que seja.

Ela concordou com a cabeça.

– Pode parar de me chamar de Dra. Brooks... meu nome é Sienna.

Langdon assentiu.

– Obrigado. O meu é Robert. – Parecia que o vínculo que haviam formado ao fugir para salvar suas vidas lhes dava o direito de chamarem um ao outro pelo primeiro nome. – Você disse que é britânica?

– Sim, nasci lá.

– Não tem sotaque.

– Que bom – respondeu ela. – Me esforcei bastante para perdê-lo.

Langdon estava prestes a perguntar por quê, mas Sienna fez um gesto para que ele a acompanhasse. Ela o conduziu por um corredor estreito até um banheiro pequeno e escuro. No espelho acima da pia, Langdon vislumbrou seu próprio reflexo pela primeira vez desde que o vira na janela do quarto de hospital.

Lamentável. Seus cabelos escuros e fartos estavam desgrenhados e os olhos pareciam injetados e exaustos. A barba por fazer cobria seu rosto como um véu.

Sienna abriu uma torneira e puxou o braço ferido de Langdon para debaixo da água gelada. Ele sentiu uma fisgada lancinante, mas se manteve parado, fazendo uma careta de dor.

Sienna pegou uma toalha limpa e a borrifou com sabonete líquido bactericida.

– Talvez seja melhor você olhar para o outro lado.

– Tudo bem. Não ligo para...

Sienna começou a esfregar o local com violência, e uma terrível ardência subiu pelo braço de Langdon. Ele cerrou os dentes para não gritar em protesto.

– Você não vai querer pegar uma infecção – disse ela, esfregando ainda mais forte. – Além do mais, se pretende ligar para as autoridades, é melhor que esteja mais alerta do que agora. Nada funciona melhor para ativar a produção de adrenalina do que a dor.

Langdon aguentou aquilo pelo que pareceram dez segundos inteiros antes de desvencilhar seu braço à força. Chega! Porém, precisava admitir que se sentia mais forte e desperto; a dor no braço havia ofuscado por completo a dor de cabeça.

– Ótimo – disse ela, fechando a torneira e secando o braço dele com uma toalha limpa.

Sienna então aplicou um pequeno curativo sobre a ferida, mas, enquanto ela fazia isso, Langdon se viu distraído por algo que acabara de notar – algo que o deixou profundamente perturbado.

Durante quase quatro décadas, ele havia usado um antigo relógio do Mickey Mouse, uma edição de colecionador que ganhara de presente dos pais. O rosto sorridente de Mickey e seus braços que giravam alucinados sempre lhe haviam servido como um lembrete diário para sorrir mais e levar a vida um pouco menos a sério.

– Meu... relógio – gaguejou. – Sumiu! – Sem ele, Langdon sentia-se repentinamente incompleto. – Eu estava com ele quando cheguei ao hospital?

Sienna o encarou com um olhar incrédulo, intrigada por ele estar preocupado com algo tão banal.

– Não me lembro de relógio nenhum. Procure se limpar. Daqui a pouco eu volto e tentaremos descobrir como conseguir ajuda. – Ela se virou para ir embora, mas se deteve no vão da porta, cruzando olhares com ele pelo espelho. – Enquanto estiver sozinho, sugiro que pense bem por que alguém iria querer matá-lo. Imagino que essa vá ser a primeira pergunta que as autoridades lhe farão.

– Espere aí, aonde você vai?

– Você não pode falar com a polícia seminu. Vou tentar lhe arranjar umas roupas. Meu vizinho é mais ou menos do seu tamanho. Ele está viajando e me pediu que desse comida para seu gato. Ele me deve um favor.

Com essas palavras, Sienna se retirou.

Robert Langdon voltou a encarar o pequeno espelho acima da pia e mal reconheceu a pessoa que o olhava de volta. Alguém quer me ver morto. Em sua mente, tornou a ouvir a gravação de seus próprios murmúrios delirantes.

Very sorry. Very sorry. Sinto muito.

Vasculhou a memória em busca de alguma recordação... qualquer coisa. Encontrou apenas o vazio. Tudo o que sabia era que estava em Florença, depois de ter sofrido um ferimento à bala na cabeça.

Enquanto fitava os próprios olhos cansados, Langdon meio que se perguntou se em algum momento iria acordar na poltrona de leitura de sua casa, com uma taça de martíni vazia em uma das mãos e um exemplar de Almas mortas na outra, apenas para lembrar a si mesmo de que gim Bombay Sapphire e Gogol eram uma péssima mistura.