Inferno

Dan Brown · Capítulo 82 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 9 9

 

Caminhando a passos lentos, Langdon se sentia estranhamente fora de seu corpo, como alguém que se move em um pesadelo mais ví-vido do que o normal. O que poderia ser mais perigoso do que uma peste?

Sienna permanecera calada desde que saltara da lancha e fizera sinal para que ele a seguisse por um caminho de cascalho tranquilo que saía do cais e ia se afastando cada vez mais da água e das multidões.

Embora tivesse parado de chorar, Langdon sentia que ela ainda guardava dentro de si uma enxurrada de emoções. Podia ouvir ao longe o silvo das sirenes, mas Sienna parecia não notar. Tinha os olhos cravados no chão e a expressão vazia, parecendo hipnotizada pelo som ritmado de seus pés sobre o cascalho.

Eles entraram em um pequeno parque e Sienna o conduziu até o meio de um denso bosque que os ocultava do mundo. Ali, sentaram-se em um banco de frente para a água. Do outro lado, a antiga Torre de Galata cintilava acima das tranquilas residências que pontuavam a encosta da colina. O mundo visto dali parecia estranhamente em paz, muito diferente do que Langdon imaginava estar acontecendo na cisterna. Àquela altura, desconfiava ele, Elizabeth Sinskey e a equipe de SMI já deviam ter percebido que haviam chegado tarde demais para deter a peste.

A seu lado, Sienna fitava a água.

– Robert, eu não tenho muito tempo – falou. – As autoridades vão acabar descobrindo para onde fui. Mas antes que isso aconteça preciso lhe contar a verdade... toda a verdade.

Langdon assentiu, em silêncio.

Ela esfregou os olhos e se remexeu no banco para ficar de frente para ele.

– Bertrand Zobrist... – começou. – Foi meu primeiro amor. E acabou se tornando um mentor para mim.

– Já me contaram isso, Sienna.

Ela pareceu espantada, mas continuou a falar, com medo de perder o embalo:

– Eu o conheci numa idade em que nos deixamos impressionar com facilidade, e as ideias e a inteligência dele me enfeitiçaram. Bertrand acreditava, assim como eu, que a nossa espécie está à beira do colapso... que enfrentaremos um fim horripilante que está vindo depressa em nossa direção, muito mais rápido do que qualquer um se atreve a aceitar.

Langdon não comentou nada.

– Passei a infância querendo salvar o mundo – continuou ela. – E todos me diziam: ―Você não pode fazer isso, então não sacrifique a sua felicidade tentando.‖ – Ela se calou, o rosto tenso, tentando conter as lágrimas. – Então conheci Bertrand, um homem lindo, inteligentíssimo, que me disse não só que salvar o mundo era possível, mas que era um imperativo moral. Ele me apresentou a todo um círculo de pessoas que pensavam da mesma forma, indivíduos com capacidades e intelectos impressionantes... gente que podia mesmo mudar o mundo. Pela primeira vez na vida, Robert, eu não me senti sozinha.

Ao ouvir seu tom sofrido, Langdon abriu um sorriso discreto.

– Já passei por algumas coisas horríveis na vida – prosseguiu Sienna com a voz cada vez menos firme. – Coisas que tive dificuldade de superar... – Ela desviou os olhos e passou a mão pelo crânio calvo com um gesto ansioso antes de se recompor e tornar a se virar para ele. – E talvez seja por isso que a única coisa que me faz seguir em frente é acreditar que podemos ser melhores do que somos... que podemos tomar atitudes para evitar um futuro catastrófico.

– E Bertrand também acreditava nisso? – indagou Langdon.

– Piamente. Sua esperança em relação à humanidade não tinha limites. Ele foi um transumanista que acreditava que estávamos no limiar de uma brilhante era ―pós-humana‖... uma era de genuína transformação. Tinha um raciocínio futurista e olhos capazes de enxergar à frente de maneiras que outros nem concebiam. Entendia os poderes notáveis da tecnologia e acreditava que, em algumas gerações, nossa espécie se tornaria um animal muito diferente: geneticamente aprimorado para ser mais saudável, mais inteligente, mais forte e até mais generoso. – Ela fez uma pausa. – Só havia um problema. Ele não achava que a nossa espécie fosse viver o suficiente para que esse futuro se concretizasse.

– Por causa da superpopulação – disse Langdon.

Ela assentiu.

– A catástrofe malthusiana. Bertrand costumava dizer que se sentia como São Jorge tentando matar o monstro ctônico.

Langdon não entendeu o que ela quis dizer.

– A Medusa?

– Metaforicamente falando, sim. A Medusa e todo o grupo de divindades ctônicas vivem no subterrâneo porque têm associação direta com a Mãe Terra. De um ponto de vista alegórico, os ctônios são sempre símbolos de...

– Fertilidade – completou Langdon, surpreso por não ter pensado antes naquele paralelo. Frutificação. População.

– Isso mesmo. Fertilidade. Bertrand usava a expressão ―monstro ctônico‖ para se referir à perigosa ameaça da nossa própria fecundidade. Ele descrevia nossa produção exagerada de descendentes como um monstro à espreita no horizonte... um monstro que precisávamos conter agora, antes que consumisse a todos.

Estamos ameaçados por nossa própria virilidade, entendeu Langdon. O monstro ctônico.

– E como Bertrand combateu esse monstro?

– Por favor, entenda – disse ela, na defensiva. – Esses não são problemas de fácil solução. A avaliação é sempre um processo confuso. Um homem que corta a perna de uma criança de 3 anos comete um crime hediondo... a menos que ele seja um médico e salve a criança da gangrena. Às vezes a única escolha possível é o menor de dois males. – Seus olhos tornaram a ficar marejados. – Na minha opinião, o objetivo de Bertrand era nobre, mas os seus métodos... – Ela desviou o olhar, prestes a cair em prantos.

– Sienna – sussurrou Langdon em tom brando. – Eu preciso entender tudo isso. Preciso que você me explique o que Bertrand fez. O que foi que ele soltou no mundo?

Sienna tornou a encará-lo e seus olhos castanhos suaves irradiavam agora um medo mais sombrio.

– Um vírus – respondeu ela, também com um sussurro. – Um tipo de vírus muito específico.

Langdon prendeu a respiração.

– Por favor, me explique.

– Bertrand criou um vetor viral. É um vírus fabricado de forma intencional para inserir informações genéticas na célula que está atacando. – Sienna fez uma pausa para permitir que ele racionalizasse o conceito. – Em vez de matar a célula hospedeira, um vírus-vetor insere nessa célula um fragmento de DNA predeterminado e basicamente modifica o genoma da célula.

Langdon teve que se esforçar para entender o que ela estava dizendo. Esse vírus muda o nosso DNA?

– A natureza insidiosa desse tipo de vírus está no fato de ninguém saber que foi contaminado – continuou ela. – Ninguém adoece. Não há sintomas claros que indiquem uma modificação genética.

Por alguns instantes, Langdon pôde sentir o sangue pulsando em suas veias.

– E que mudanças ele causa?

Sienna fechou os olhos por alguns instantes.

– Robert, na hora em que esse vírus foi liberado na água da cisterna, uma reação em cadeia se iniciou. Todos que desceram lá e respiraram aquele ar foram contaminados. Eles se tornaram hospedeiros, cúmplices involuntários, transmitindo o vírus para outras pessoas e iniciando uma proliferação exponencial da doença, que a esta altura já varreu o planeta como um incêndio florestal. O vírus já deve ter penetrado a população do mundo inteiro. Você, eu... todo mundo.

Langdon se levantou do banco e começou a andar na frente dela como um louco, de um lado para outro.

– E o que ele faz? – tornou a perguntar.

Sienna demorou um bom tempo para responder.

– Ele tem a capacidade de tornar o corpo humano... infértil. – Ela se remexeu, pouco à vontade. – Bertrand criou a praga da esterilidade.

As palavras atingiram Langdon de forma brutal. Um vírus que nos torna estéreis? Sabia que alguns vírus podiam causar esterilidade, mas um patógeno altamente contagioso por via aérea capaz de fazer isso alterando nossos genes parecia ser coisa de outro mundo... uma espécie de distopia do futuro à George Orwell.

– Bertrand muitas vezes teorizou sobre um vírus assim, mas nunca pensei que ele fosse tentar criá-lo... muito menos que conseguiria – disse Sienna, baixinho. – Quando recebi a carta e soube o que ele tinha feito, fiquei chocada. Tentei desesperadamente encontrá-lo e implorar para que destruísse sua criação. Mas cheguei tarde demais.

– Espere aí – interpôs Langdon, enfim recuperando a voz. – Se o vírus torna todo mundo infértil, não haverá novas gerações e a raça humana vai entrar em ameaça de extinção... imediatamente.

– É isso mesmo – concordou ela, com a voz tão baixa que era quase inaudível. – Só que a extinção não era o objetivo de Bertrand. Na verdade, o objetivo dele era o contrário. Foi por isso que ele criou um vírus que se ativa de maneira aleatória. Apesar de Inferno ser agora endêmico a todo DNA humano e embora ele vá ser transmitido por todos nós a partir desta geração, só será ―ativado‖ em uma determinada porcentagem de pessoas. Em outras palavras, o vírus agora é carregado por toda a população do planeta, mas só vai causar esterilidade em uma parcela selecionada de forma aleatória.

– E... que parcela é essa? – indagou Langdon, sem acreditar que estava perguntando aquilo.

– Como você já percebeu, Bertrand tinha fixação pela Peste Negra, a praga que dizimou de modo indiscriminado um terço da população da Europa. Na opinião dele, a natureza sabia conter a si mesma. Quando fez as contas sobre infertilidade, ficou entusiasmado ao descobrir que a taxa de mortalidade da peste, uma em cada três pessoas, parecia ser exatamente o necessário para começar a selecionar a população mundial em um ritmo manejável.

Que monstruosidade, pensou Langdon.

– A Peste Negra diminuiu o rebanho e preparou o caminho para a Renascença – disse Sienna – e Bertrand criou Inferno como uma espécie de catalisador moderno para uma renovação global, uma Peste Negra transumanista, com a diferença de que os indivíduos que manifestarem a doença, em vez de morrer, apenas se tornarão inférteis. Supondo que o vírus tenha pegado, um terço da população mundial agora é estéril... e um terço da população continuará estéril para sempre. O efeito seria semelhante ao de um gene recessivo, transmitido para todos os descendentes, mas que só se manifesta em uma pequena porcentagem.

As mãos de Sienna tremiam quando ela prosseguiu:

– Na carta que me escreveu, Bertrand parecia bastante orgulhoso e dizia que considerava Inferno uma solução muito elegante e humana para o problema. – Novas lágrimas brotaram de seus olhos e ela as secou. – Comparada à virulência da Peste Negra, reconheço que a abordagem dele tem certa compaixão. Não haverá hospitais transbordando de gente doente e agonizante, corpos apodrecendo nas ruas nem sobreviventes angustiados tendo que suportar a morte de seus próximos. Os seres humanos simplesmente vão parar de ter tantos filhos. Nosso planeta vai passar por uma diminuição gradual da taxa de natalidade até a curva populacional se inverter e a população começar a se reduzir. – Ela fez outra pausa. – O resultado será bem mais duradouro do que o da peste, que só controlou nosso número por um breve período, criando uma depressão temporária no gráfico do crescimento populacional. Com Inferno, Bertrand criou uma solução de longo prazo, permanente. Uma solução transumanista. Ele era um geneticista que manipulava células germinativas. Solucionava os problemas no nível mais elementar.

– Isso é terrorismo biológico... – sussurrou Langdon. – É mudar quem nós somos, quem sempre fomos, no nível mais fundamental.

– Bertrand não pensava assim. Ele sonhava ser capaz de consertar a falha crucial da evolução humana: o fato de a nossa espécie ser prolífica demais. Somos um organismo que, apesar do intelecto ímpar, parece incapaz de controlar a própria quantidade. Anticoncepcionais gratuitos, campanhas educativas, incentivos do governo, nada disso funciona, seja em que intensidade for. Querendo ou não, não paramos de ter filhos. Você sabia que o CDC acabou de divulgar que quase metade das gestações nos Estados Unidos não são planejadas? E nos países subdesenvolvidos esse número passa dos setenta por cento!

Apesar de já ter visto essas estatísticas, só agora Langdon começava a entender suas implicações. Como espécie, os seres humanos eram iguais aos coelhos introduzidos em certas ilhas do Pacífico e deixados livres para se reproduzir de modo desenfreado até destruírem o ecossistema e entrarem em extinção.

Bertrand Zobrist reprojetou nossa espécie: na tentativa de nos salvar, ele nos transformou em uma população menos fértil.

Langdon respirou fundo e deixou que seus olhos se perdessem nas águas do Chifre de Ouro, sentindo-se tão sem chão quanto os barcos que navegavam ao longe. As sirenes continuavam a soar mais altas e vinham agora de todas as direções do cais. Ele sentiu que o tempo estava se esgotando.

– O mais assustador de tudo não é o fato de Inferno causar infertilidade, mas de ter essa capacidade – declarou Sienna. – Um vetor viral transmitido por contágio aéreo é um salto quântico muitos anos à frente do nosso tempo. Da noite para o dia, Bertrand nos retirou da idade das trevas da engenharia genética e nos lançou de cabeça no futuro. Ele destravou o processo evolutivo e proporcionou à humanidade a capacidade de redefinir a espécie de forma ampla e abrangente. A caixa de Pandora se abriu e não há como tornar a fechá-la. Bertrand criou uma chave para modificar a raça humana e, se essa chave cair nas mãos erradas... Deus nos proteja! Essa tecnologia nunca deveria ter sido criada. Assim que li a carta em que Bertrand explicava como havia alcançado seus objetivos, eu a queimei. Então jurei encontrar o tal vírus e destruí-lo até o último vestígio.

– Não entendo – disse Langdon, deixando transparecer uma certa raiva em seu tom. – Se você queria destruir o vírus, por que não cooperou com a Dra. Sinskey e com a OMS? Deveria ter ligado para o CDC ou para algum outro lugar.

– Você não pode estar falando sério! As agências governamentais são as últimas organizações no mundo que deveriam ter acesso a uma tecnologia dessas! Pense um pouco, Robert. Ao longo de toda a história da humanidade, todas as tecnologias inovadoras desenvolvidas pela ciência foram transformadas em armas, do simples fogo à energia nuclear, e quase sempre pelas mãos de governos poderosos. De onde você acha que vêm nossas armas biológicas? Elas são criadas a partir de pesquisas realizadas em lugares como a OMS e o CDC. A tecnologia de Bertrand, um vírus pandêmico usado como vetor genético, é a mais poderosa arma já criada. Ela prepara o caminho para horrores que não podemos sequer imaginar, incluindo armas biológicas com alvo definido. Imagine um patógeno que ataque apenas pessoas cujo código genético contenha determinados marcadores étnicos. Isso possibilitaria uma limpeza étnica generalizada em nível genético!

– Entendo suas preocupações, Sienna, de verdade, mas essa mesma tecnologia não poderia ser usada para o bem? Essa descoberta não é uma dádiva para a medicina genética? Uma nova forma de ministrar vacinas em nível global, por exemplo?

– Pode ser. Mas infelizmente aprendi a esperar sempre o pior dos poderosos.

Ao longe, Langdon ouviu um zumbido de helicópteros que pareceu partir o ar em mil pedaços. Espiou por entre as árvores na direção do Bazar de Especiarias e viu as luzes de uma aeronave passarem depressa por sobre a colina e descerem em direção ao cais.

Sienna retesou o corpo.

– Tenho que ir – falou, levantando-se e olhando para o oeste, em direção à ponte de Atatürk. – Acho que consigo atravessar a ponte a pé e de lá chegar a...

– Sienna, você não vai embora – disse Langdon, com firmeza.

– Robert, eu voltei porque senti que lhe devia uma explicação. E agora já lhe dei uma.

– Não, Sienna – rebateu ele. – Você voltou porque passou a vida inteira fugindo e finalmente entendeu que não pode mais continuar.

Ela pareceu encolher na sua frente.

– E que alternativa eu tenho? – indagou, observando os helicópteros percorrerem a água com seus faróis. – Assim que eles me encontrarem, vão me prender.

– Sienna, você não fez nada de errado. Não criou esse vírus, tampouco o disseminou.

– É verdade, mas me esforcei bastante para impedir que a OMS o encontrasse. Se eu não acabar numa prisão turca, serei processada em algum tipo de tribunal internacional, acusada de terrorismo biológico.

O ronco do helicóptero ficou mais alto e Langdon olhou para o cais à frente. Uma aeronave pairava no ar, vasculhando os barcos ancorados com suas luzes enquanto as hélices revolviam a superfície da água.

Sienna parecia prestes a sair correndo.

– Por favor, escute – continuou Langdon com a voz mais branda. – Sei que você passou por muita coisa e que está com medo, mas precisa considerar a situação como um todo. Quem criou esse vírus foi Bertrand. Você tentou detê-lo.

– Mas não consegui.

– Não. E agora que o vírus foi disseminado, a comunidade médica e científica vai precisar entender exatamente o que ele é. Você é a única pessoa que sabe alguma coisa a respeito dele. Talvez haja um jeito de neutralizá-lo ou de fazer algo para nos preparar para o que está por vir. – Seus olhos penetrantes se cravaram nos dela. – Sienna, o mundo precisa ter acesso ao que você sabe. Você não pode simplesmente desaparecer.

O corpo esguio dela agora tremia, como se as comportas da melancolia e da incerteza estivessem prestes a se romper.

– Robert, eu... eu não sei o que fazer. Nem sei mais quem eu sou. Olhe para mim. – Ela levou uma das mãos ao crânio careca. – Virei um monstro. Como vou poder enfrentar...

Langdon deu um passo à frente e a abraçou. Sentiu o corpo dela tremer e notou como ela era frágil encostada assim em seu peito. Sussurrou bem baixinho em seu ouvido:

– Sienna, sei que você quer fugir, mas não vou deixar. Mais cedo ou mais tarde você terá que começar a confiar em alguém.

– Eu não consigo... – Ela agora soluçava. – Não sei se tenho essa capacidade.

Langdon a apertou mais forte.

– Comece aos poucos. Dê um primeiro passo, bem pequenininho. Confie em mim.