Inferno

Dan Brown · Capítulo 44 de 90

Páginas do PDF

Inferno

C a P Í T U L o 5 4

 

A Bíblia escrita em bronze, pensou Langdon, admirando as lindas portas à sua frente.

Os reluzentes Portões do Paraíso de Ghiberti consistiam em dez painéis quadrados, cada um retratando uma cena importante do Antigo Testamento. Do Jardim do Éden a Moisés e ao templo do rei Salomão, a narrativa em relevo de Ghiberti se desdobrava por duas colunas verticais de cinco painéis cada.

Ao longo dos séculos, o espantoso conjunto de cenas individuais havia gerado uma espécie de concurso de popularidade entre artistas e historiadores da arte, cada qual, de Botticelli aos críticos mais recentes, defendendo sua preferência pelo ―painel mais bonito‖. Por consenso geral, o vencedor era Esaú e Jacó – o painel central da coluna da esquerda –, supostamente escolhido por causa do impressionante número de métodos artísticos usados em sua confecção. No entanto, Langdon suspeitava que a verdadeira razão para a preferência por esse painel fosse o fato de ele ter sido o escolhido por Ghiberti para assinar seu nome.

Alguns anos antes, Ignazio Busoni havia mostrado com orgulho aquelas portas a Langdon. Na ocasião, chegara a admitir, encabulado, que após mil anos de exposição a enchentes, vandalismo e poluição, as portas douradas tinham sido discretamente trocadas por réplicas idênticas, e que as originais agora se encontravam na segurança do Museo dell’Opera del Duomo para serem restauradas. Por educação, Langdon não disse a Busoni que tinha plena consciência de estar admirando cópias e que, na realidade, aquele era o segundo par de ―falsas‖ portas de Ghiberti que já vira. Havia topado com o primeiro par por acaso, quando, durante pesquisas sobre labirintos na Catedral da Graça, em São Francisco, descobrira que as réplicas dos Portões do Paraíso de Ghiberti vinham servindo como portas da frente para essa catedral desde meados do século XX.

Diante da obra-prima de Ghiberti, os olhos de Langdon foram atraídos para a tabuleta informativa montada ali perto, na qual uma simples expressão em italiano chamou sua atenção e o espantou.

La peste nera. ―A peste negra.‖ Meu Deus, pensou Langdon, ela está por toda parte! Segundo a tabuleta, as portas haviam sido encomendadas como oferenda ―votiva‖ a Deus – uma prova de gratidão pelo fato de Florença ter, por motivos desconhecidos, sobrevivido à epidemia.

Langdon se forçou a olhar outra vez para os Portões do Paraíso, as palavras de Ignazio tornando a ecoar em sua mente: Os portões estão abertos para você, mas não demore.

Apesar da promessa de Ignazio, estava claro que os Portões do Paraíso encontravam-se fechados, como sempre acontecia – exceto em raros feriados religiosos. Os turistas em geral entravam no batistério por outro lado, usando a porta norte.

Ao seu lado, Sienna, na ponta dos pés, tentava espiar por cima da multidão.

– Não tem maçaneta – constatou. – Nem fechadura. Nada.

É verdade, pensou Langdon, sabendo que Ghiberti não iria arruinar sua grande obra com algo tão trivial quanto uma maçaneta.

– As portas abrem para dentro. São trancadas pelo outro lado.

Sienna pensou por alguns instantes, franzindo os lábios.

– Quer dizer que daqui de fora... ninguém saberia se elas estão trancadas ou não.

Langdon assentiu.

– Estou torcendo para Ignazio também ter pensado assim.

Deu alguns passos para a direita e espiou pela lateral norte do prédio em direção a uma porta bem menos ornamentada – a entrada de turistas –, onde um vigia entediado fumava um cigarro e repelia visitantes desinformados, apontando para o cartaz afixado à porta: apertura 13:00 – 17:00.

Ainda faltam algumas horas para o batistério abrir, pensou Langdon, satisfeito. E ninguém entrou lá até agora.

Por instinto, olhou para o pulso e mais uma vez lembrou-se de que seu relógio do Mickey Mouse não estava lá.

Quando voltou para junto de Sienna, ela estava acompanhada por um grupo de turistas que tirava fotos por sobre as barras da grade simples de ferro erguida alguns metros à frente dos Portões do Paraíso para impedir os visitantes de chegarem perto demais da obra de Ghiberti.

Feita de ferro forjado negro encimado por pontas onduladas pintadas de dourado, imitando raios de sol, essa grade de proteção lembrava as cercas que costumavam delimitar as casas de subúrbio. Estranhamente, a placa informativa que descrevia os Portões do Paraíso havia sido afixada não às espetaculares portas de bronze em si, mas àquela reles grade protetora.

Langdon já ouvira dizer que o posicionamento da placa às vezes causava confusão entre os turistas. De fato, neste exato momento, uma mulher corpulenta, vestida com um conjunto de moletom da Juicy Couture, abriu caminho entre a multidão, espiou a placa, franziu o cenho para a grade de ferro e comentou com desdém:

– Portões do Paraíso? Ora, mais parece o portãozinho do canil lá de casa! – E afastou-se antes que alguém pudesse lhe explicar.

Sienna ergueu as mãos e agarrou a grade de proteção, espiando casualmente por sobre as barras para ver o mecanismo que a mantinha fechada por trás.

– Olhe – sussurrou ela, virando-se para Langdon com os olhos arregalados. – O cadeado ali de trás está aberto.

Langdon olhou por sobre as grades e viu que ela estava certa. O cadeado estava posicionado como se estivesse fechado, mas, olhando bem, dava para ver que, definitivamente, estava aberto.

Os portões estão abertos para você, mas não demore.

Langdon ergueu os olhos para os Portões do Paraíso do outro lado das grades. Se Ignazio houvesse de fato deixado as imensas portas do batistério destrancadas, bastaria empurrá-las e elas se abririam. Difícil, porém, seria entrar sem chamar a atenção de todas as pessoas na praça, o que incluía a polícia e os vigias do Duomo.

– Cuidado! – gritou de repente uma voz de mulher ali perto. – Ele vai pular! – A voz estava repleta de pavor. – Lá em cima, na torre do sino!

Langdon virou de costas para os portões e viu que a mulher que gritava era... Sienna. A uns 5 metros dali, ela apontava para o alto do Campanário de Giotto e exclamava:

– Lá no alto! Ele vai pular!

Todos os olhos se voltaram para o céu e puseram-se a vasculhar o topo do campanário. Ali perto, outros turistas começaram a apontar, estreitando os olhos e gritando uns para os outros.

– Alguém vai pular?!

– Onde?!

– Não estou vendo!

– Ali, à esquerda?!

Foi preciso apenas uns poucos segundos para todas as pessoas na praça sentirem o pânico e imitarem as primeiras, erguendo os olhos para o alto do campanário. Com a fúria de um incêndio consumindo um campo de palha seca, a onda de medo se espalhou pela piazza até deixar toda a multidão de pescoço esticado, olhando e apontando para o alto.

Marketing viral, pensou Langdon, sabendo que teria poucos segundos para agir. Sem demora, agarrou a grade de ferro e a abriu enquanto Sienna voltava para o seu lado, entrando junto com ele no pequeno espaço entre a grade e os portões. Uma vez fechada a grade, os dois se viraram para as portas de bronze de 5 metros de altura. Torcendo para ter interpretado corretamente a mensagem de Ignazio, Langdon pressionou o ombro contra uma das folhas da imensa porta dupla e fez força com as pernas.

A princípio, nada aconteceu. Então, muito devagar, a pesada folha começou a se mover. As portas estão abertas! Quando os Portões do Paraíso se abriram cerca de meio metro, Sienna se virou de lado sem titubear e atravessou a fresta. Langdon a imitou, esgueirando-se de lado pela abertura estreita e adentrando a escuridão do batistério.

Juntos, os dois se viraram e empurraram a porta na direção oposta, rapidamente fechando o gigantesco portão com um baque. No mesmo instante, o barulho e a confusão do lado de fora se extinguiram, deixando apenas silêncio.

Sienna apontou para uma comprida viga de madeira no chão a seus pés, que evidentemente devia ficar encaixada nas alças de ambos os lados das portas para mantê-las fechadas.

– Ignazio deve ter tirado a trave para você – comentou.

Os dois ergueram a viga do chão e a puseram de volta nos suportes, trancando os Portões do Paraíso... e isolando-se com segurança dentro do batistério.

Langdon e Sienna ficaram um bom tempo parados sem dizer nada, encostados na porta, recuperando o fôlego. Comparado aos barulhos da piazza lá fora, o interior do batistério era de fato tão sereno quanto o Paraíso.

 

Do lado de fora do batistério de San Giovanni, o homem de óculos Paris Plume e gravata paisley percorria a multidão, ignorando os olhares nervosos de quem reparava em suas sanguinolentas erupções.

Ele acabara de chegar às portas de bronze pelas quais Robert Langdon e sua companheira loura haviam astutamente sumido. Mesmo do lado de fora, pôde ouvir o pesado baque do portão sendo travado por dentro.

Impossível entrar por aqui.

Aos poucos, o clima na piazza voltava ao normal. Os turistas que antes olhavam para cima com expectativa já começavam a perder o interesse. Não há suicida nenhum. Todos voltaram a seus afazeres.

O homem tornou a sentir a coceira; a irritação estava piorando. Agora as pontas de seus dedos também estavam inchadas e rachadas. Ele enfiou as mãos nos bolsos para não se coçar. Seu peito ainda latejava quando ele se pôs a contornar o octógono em busca de outra entrada.

Mal havia dobrado a esquina quando sentiu uma pontada de dor no pomo de adão e percebeu que estava se coçando outra vez.

C A P Í T U L O 5 5

 

Reza a lenda que é fisicamente impossível não olhar para cima ao se entrar no batistério de San Giovanni. Embora tivesse estado ali muitas vezes, Langdon sentiu o magnetismo místico do lugar e deixou o próprio olhar se erguer em direção ao teto.

Muito acima deles, a superfície da abóbada octogonal, que se estendia por 25 metros de um lado a outro, cintilava e reluzia como se fosse feita de carvões em brasa. Sua superfície polida cor de âmbar refletia a luz ambiente de forma irregular a partir de mais de um milhão de pastilhas smalti – pequeninas peças de mosaico de sílica vitrificada cortadas à mão e afixadas sem cimento – dispostas em seis círculos concêntricos que retratavam cenas da Bíblia.

Acrescentando intensa dramaticidade à porção superior do recinto, a luz natural penetrava o espaço escuro por uma grande abertura central, à semelhança da que havia no Panteão de Roma. Esta, por sua vez, era rodeada por uma série de janelas altas, pequenas e bem afundadas na alvenaria, que deixavam entrar fachos de luz tão concentrados e precisos que pareciam quase sólidos, como vigas estruturais inclinadas em ângulos em constante mutação.

À medida que avançava com Sienna batistério adentro, Langdon assimilava o lendário mosaico do teto – uma representação em múltiplas camadas do Céu e do Inferno, muito parecida com aquela descrita na Divina comédia.

Dante Alighieri viu isto quando criança, pensou. Uma inspiração vinda das alturas.

Langdon fixou o olhar na peça central do mosaico. Pairando diretamente acima do altar-mor erguia-se um Jesus Cristo de mais de 8 metros, sentado, julgando os redimidos e os condenados.

À direita de Jesus, os justos recebiam a recompensa da vida eterna.

À esquerda, porém, os pecadores eram apedrejados, assados em espetos e devorados por toda a sorte de criaturas.

Retratado em um colossal mosaico na forma de uma criatura infernal e devoradora de homens, Satã supervisionava a tortura. Langdon sempre se encolhia ao ver aquela figura, que, mais de setecentos anos antes, havia pairado acima do jovem Dante Alighieri, aterrorizando-o e, mais tarde, vindo a inspirar seu vívido retrato daquele que habitava o último círculo do Inferno.

O assustador mosaico acima deles retratava um demônio chifrudo em pleno ato de devorar um ser humano pela cabeça. As pernas da vítima pendiam da boca de Satã de um jeito que lembrava os pecadores enterrados até a cintura, com as pernas se debatendo no ar, do Malebolge dantesco.

Lo "mperador del doloroso regno, pensou Langdon, relembrando o texto do poeta. O imperador do reino de agonia.

Duas serpentes enormes e rastejantes brotavam de dentro das orelhas de Satã para também devorarem pecadores, o que dava a impressão de que a criatura demoníaca tinha três cabeças, exatamente como Dante descrevia no último canto de seu Inferno. Langdon vasculhou a memória e se lembrou de alguns fragmentos da cena imaginada pelo poeta.

Quando vi em sua testa três faces... Com seis olhos chorava, e por três queixos lhe escorria o pranto e a sanguinosa baba... Em cada boca com os dentes um pecador dilacerava.

Langdon sabia que o fato de o mal de Satanás ser triplicado possuía um grande significado simbólico: servia para colocá-lo em perfeito equilíbrio com a trina glória da Santíssima Trindade.

Com os olhos erguidos para a horrenda visão, tentou imaginar o efeito daquele mosaico no jovem Dante, que passara tantos anos assistindo a missas naquela igreja, com Satã a observá-lo lá de cima sempre que rezava. Nesta manhã, porém, Langdon teve a desagradável sensação de que o diabo estava olhando diretamente para ele.

Baixou depressa o olhar para a sacada do primeiro andar, onde ficava a galeria da qual se podia observar o batistério – o único lugar de onde as mulheres eram autorizadas a assistir aos batismos. Em seguida, olhou para o túmulo suspenso do antipapa João XXIII, cujo corpo repousava no alto da parede, qual um homem das cavernas ou um voluntário em um truque de levitação de algum ilusionista.

Por fim, seu olhar chegou ao chão ornado com rebuscados ladrilhos, que muitos pensavam conter referências à astronomia medieval. Deixou que os olhos percorressem os intricados padrões em preto e branco até chegarem bem ao centro do recinto.

E ali está, pensou, sabendo que olhava para o lugar exato em que Dante Alighieri fora batizado, na segunda metade do século XIII.

– Poeta voltarei... à fonte do meu batismo – recitou, sua voz ecoando pelo espaço vazio. – É isso.

Sienna também encarou o centro do piso, para onde Langdon agora apontava. Tinha a expressão preocupada.

– Mas... não tem nada aqui.

– Não mais – respondeu Langdon.

Tudo o que restava era um grande octógono de cimento marrom-avermelhado. A peça de oito faces de estranha simplicidade interrompia de forma clara o padrão do piso, cujo aspecto era muito mais ornamentado: na verdade, parecia um buraco grande e remendado – e era justamente isso.

Langdon explicou de modo breve que a pia ou fonte batismal original era uma grande piscina octogonal localizada bem no centro do batistério. Enquanto as pias modernas costumavam ser recipientes elevados, as mais antigas se aproximavam do significado literal da palavra fonte – ―nascente‖ ou ―manancial‖ –, nesse caso uma funda piscina d’água na qual os batizandos podiam ser imersos por completo. Langdon tentou imaginar o grito de pavor das crianças ecoando por aquelas paredes de pedra, ao serem literalmente mergulhadas na grande piscina de água gelada que outrora ocupava o centro do piso.

– Batismos eram uma coisa fria e assustadora – falou. – Um verdadeiro rito de passagem. Perigoso, até. Dizem que Dante certa vez pulou dentro da piscina para salvar uma criança que estava se afogando. A antiga pia batismal foi coberta em algum momento do século XVI.

Sienna então se pôs a correr os olhos pelo batistério, em óbvia aflição.

– Mas, se a pia batismal de Dante não existe mais... onde Ignazio escondeu a máscara?!

Langdon entendia sua inquietação. Não faltavam esconderijos naquele lugar imenso – atrás de colunas, estátuas, tumbas, nichos, no altar ou mesmo no andar superior.

Apesar disso, foi com uma segurança notável que ele se virou para encarar a porta pela qual haviam acabado de entrar.

– Melhor começarmos por ali – falou, apontando para uma área junto à parede logo à direita dos Portões do Paraíso.

Sobre uma plataforma elevada, atrás de uma grade decorativa, havia um pedestal hexagonal de mármore esculpido que se assemelhava a um pequeno altar ou mesa para auxiliar na missa. Os relevos do exterior eram tão complexos que a peça mais parecia um camafeu de madrepérola. Sobre essa base de mármore havia um tampo de madeira encerada com mais ou menos um metro de diâmetro.

Hesitante, Sienna seguiu Langdon até lá. Conforme subiam os degraus e passavam para o outro lado da grade de proteção, Sienna olhou mais de perto. Ao perceber o que estava vendo, soltou um arquejo de espanto.

Langdon sorriu. Isso mesmo; não é um altar nem uma mesa. A tábua de madeira encerada era, na verdade, uma tampa que recobria a estrutura.

– Uma pia batismal? – perguntou ela.

Langdon assentiu.

– Se Dante fosse batizado hoje, seria nesta pia aqui.

Sem perder tempo, ele respirou fundo, com determinação, e pousou as palmas das mãos no tampo de madeira, sentindo um arrepio de expectativa ao se preparar para retirá-lo.

Segurando com firmeza as bordas da tampa, moveu-a para um dos lados, deslizando-a com cuidado sobre a base de mármore e colocando-a no chão ao lado da pia. Então baixou os olhos para o espaço oco e escuro de meio metro de largura.

A visão sinistra o fez engolir em seco.

Das sombras, o rosto morto de Dante Alighieri o encarava de volta.