Inferno

Dan Brown · Capítulo 45 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 5 6

 

Busca e encontrarás.

Parado junto à borda da pia batismal, Langdon encarou a máscara mortuária amarelo-clara, cujo semblante enrugado o fitava lá de baixo com uma expressão vazia. O nariz adunco e o queixo proeminente eram inconfundíveis.

Dante Alighieri.

O rosto sem vida já era suficientemente perturbador, mas algo em sua posição dentro da pia lhe dava um ar quase sobrenatural. Por alguns instantes, Langdon não soube ao certo o que estava vendo.

A máscara está... suspensa no ar?

Inclinou-se para examinar mais de perto o objeto à sua frente. A pia tinha vários metros de profundidade – era mais um poço vertical do que uma bacia – e suas paredes íngremes desciam até um recipiente hexagonal cheio d’água. Por mais estranho que parecesse, a máscara parecia flutuar a meio caminho do fundo, pairando logo acima da superfície da água como por encanto.

Langdon levou alguns instantes para perceber o que estava causando aquela ilusão de óptica. A pia tinha um eixo vertical no centro que se erguia até a metade da sua altura, achatando-se para formar uma espécie de pequena bandeja de metal logo acima da água. A bandeja parecia um chafariz decorativo ou talvez um apoio para o bumbum de um bebê, mas no momento funcionava como um pedestal sobre o qual a máscara de Dante repousava, em segurança, acima do nível da água.

Nem Langdon nem Sienna disseram nada enquanto permaneciam ali de pé, lado a lado, olhando para baixo em direção ao rosto enrugado de Dante Alighieri, ainda protegido pelo saco Ziploc, como se tivesse sido sufocado. Por alguns instantes, a imagem de um rosto olhando para cima do fundo de uma bacia cheia d’água fez Langdon se lembrar da experiência que tivera quando criança, preso no fundo de um poço e olhando desesperado para o céu.

Afastando esse pensamento, abaixou a mão com cuidado e segurou a máscara pelos dois lados, onde deviam ficar as orelhas de Dante. Embora fosse um rosto pequeno para os padrões atuais, o gesso antigo era mais pesado do que ele esperava. Devagar, Langdon retirou a máscara da pia e a suspendeu para que ele e Sienna pudessem examiná-la mais de perto.

Mesmo por trás do saco plástico, a máscara era de um realismo notável. Cada ruga, cada marca do rosto do velho poeta havia sido registrada pelo gesso úmido. Exceto por uma antiga rachadura no centro, a peça estava em perfeitas condições.

– Vire a máscara – sussurrou Sienna. – Vamos ver o lado de trás.

Era justamente o que Langdon já estava fazendo. O vídeo de segurança do Palazzo Vecchio deixara claro que Langdon e Ignazio tinham descoberto alguma coisa no verso da máscara – algo de um interesse tão espantoso que os dois haviam saído do palácio levando o artefato.

Tomando um cuidado excepcional para não deixar o gesso frágil cair, Langdon virou a máscara e a pousou de cabeça para baixo na palma da mão direita, para que pudessem examinar o verso. Em contraste com o rosto castigado e cheio de texturas de Dante, o lado interno da máscara era liso e sem marcas. Como a delicada peça não tinha sido feita para ser usada, a parte de trás fora preenchida com gesso para lhe conferir certa solidez, produzindo uma superfície uniforme e côncava, como uma tigela de sopa rasa.

Langdon não sabia o que esperava encontrar no verso da máscara, mas com certeza não era aquilo.

Nada.

Absolutamente nada.

Apenas uma superfície lisa e vazia.

Sienna parecia igualmente atônita.

– Só gesso? – sussurrou. – Se não há nada aqui, o que você e Ignazio viram?

Não faço ideia, pensou Langdon, esticando o saco plástico por cima do gesso para ver melhor. Não há nada aqui! Cada vez mais aflito, ergueu a máscara até um facho de luz e a examinou com atenção. Ao incliná-la para melhorar o ângulo de visão, por um instante achou que tivesse vislumbrado uma leve descoloração perto do alto – uma linha de marcações que corria na horizontal pelo lado interno da testa de Dante.

Será uma marca natural? Ou quem sabe... alguma outra coisa? Virando-se na mesma hora, Langdon apontou para um painel de mármore com dobradiças na parede atrás deles.

– Dê uma olhada ali dentro – pediu a Sienna. – Veja se tem algum pano.

Embora parecesse cética, Sienna obedeceu e abriu o armário discretamente disfarçado, que continha três coisas: uma válvula para controlar o nível de água da pia; um interruptor para acionar a luz acima dela e... uma pilha de toalhas de linho.

Sienna lançou um olhar de surpresa para Langdon, mas ele já visitara um número suficiente de igrejas mundo afora para saber que pias batismais quase sempre proporcionavam aos padres acesso fácil a cueiros de emergência – uma vez que a imprevisibilidade das bexigas infantis representava um risco universal para qualquer batizado.

– Ótimo – disse ele, olhando de relance para os panos. – Pode segurar a máscara um instante?

Com cuidado, ele transferiu o objeto para as mãos de Sienna e pôs mãos à obra.

Primeiro, pegou a tampa hexagonal e tornou a colocá-la em cima da pia para reconstituir a pequena mesa semelhante a um altar que tinham visto antes. Em seguida, pegou vários cueiros de linho do armário e os estendeu por cima da madeira, como uma toalha de mesa. Por fim, acionou o interruptor de luz da pia batismal e a lâmpada acima dela imediatamente se acendeu, iluminando a área do batismo e projetando um brilho intenso sobre a superfície coberta.

Com delicadeza, Sienna depositou a máscara sobre a pia batismal enquanto Langdon pegava mais panos, que usou como se fossem pegadores de panela para retirar a máscara do Ziploc, tomando cuidado para não tocá-la com as mãos nuas. Instantes depois, a máscara mortuária de Dante jazia descoberta e sem proteção, com o rosto virado para a luz forte, como a cabeça de um paciente anestesiado sobre uma mesa de cirurgia.

A expressiva textura da máscara parecia ainda mais perturbadora sob a luz, o gesso descorado realçando os vincos e rugas da idade avançada. Sem perder tempo, Langdon usou os pegadores de panela improvisados para virar a máscara e pousá-la de cabeça para baixo.

O verso tinha um aspecto bem menos envelhecido do que a frente – limpo e branco, em vez de encardido e amarelo.

Sienna inclinou a cabeça, intrigada.

– Não está achando este lado mais novo?

De fato, a diferença de cor era bem mais evidente do que Langdon teria imaginado, mas aquele lado com certeza tinha a mesma idade da frente.

– Envelhecimento irregular – disse ele. – O verso ficou protegido pela vitrine, por isso que não sofreu os efeitos envelhecedores da luz.

Langdon fez uma anotação mental para dobrar o fator de proteção de seu filtro solar.

– Espere aí – disse Sienna, chegando mais perto da máscara. – Olhe! Aqui na testa! Deve ter sido isso que você e Ignazio viram.

Langdon correu os olhos pela superfície branca e lisa até a mesma descoloração que vira antes através do plástico – uma linha tênue de marcas que percorria na horizontal o lado interno da testa de Dante. Mas agora, sob a luz forte, Langdon viu com clareza que aquelas marcas não eram uma descoloração natural... eram propositais.

– É... uma inscrição – sussurrou Sienna, engasgando-se com as palavras. – Mas...

Langdon analisou as inscrições no gesso. Uma única fileira de letras, escritas com uma caligrafia floreada em um débil tom marrom-claro.

– É só isso que diz? – indagou ela, soando quase zangada.

Langdon mal a ouviu. Quem escreveu isso?, perguntou-se. Alguém da época de Dante? Parecia improvável. Nesse caso, algum historiador da arte teria visto a inscrição muito tempo antes, durante alguma limpeza ou restauração de rotina, e a inscrição teria se tornado parte do folclore da peça. Mas ele nunca tinha ouvido falar naquilo.

Uma fonte bem mais provável logo se materializou em sua mente.

Bertrand Zobrist.

Como dono da máscara, teria sido fácil para Zobrist solicitar acesso reservado a ela quando bem entendesse. Poderia ter escrito o texto no verso pouco tempo atrás e depois tornado a guardá-la na vitrine sem que ninguém descobrisse. O dono da máscara, dissera-lhes Marta, não permite nem mesmo que os nossos funcionários abram a vitrine sem a sua presença.

Langdon explicou rapidamente sua teoria.

Sienna pareceu aceitar a lógica do que ele dizia, mas era óbvio que não estava convencida.

– Não faz sentido – disse ela, parecendo agitada. – Se Zobrist escreveu algo em segredo no verso da máscara mortuária de Dante e ainda se deu o trabalho de criar aquele pequeno projetor para indicar sua localização... então por que não escreveu alguma coisa mais significativa? Não faria sentido mesmo! Você e eu passamos o dia inteiro procurando essa máscara e só encontramos isso aqui?

Langdon tornou a dirigir sua atenção para o texto no verso da máscara. A mensagem escrita à mão era muito breve – tinha apenas sete letras –, e de fato não parecia fazer o menor sentido.

A frustração de Sienna é bastante compreensível.

Langdon, porém, sentia a familiar adrenalina de uma revelação iminente, pois quase no mesmo instante havia se dado conta de que aquelas sete letras lhe diriam tudo o que precisava saber sobre o próximo passo que ele e Sienna deveriam dar.

Além disso, detectara um leve odor na máscara – um cheiro conhecido que explicava por que o gesso do verso era tão mais branco que o da frente... e a diferença não tinha nada a ver com idade ou luz.

– Não entendo – disse Sienna. – As letras são todas iguais.

Langdon assentiu calmamente enquanto analisava a linha de texto – sete letras idênticas inscritas com esmero em caligrafia cursiva no verso da testa de Dante.

PPPPPPP

– Sete pês – disse Sienna. – O que vamos fazer com isso?

Langdon abriu um sorriso tranquilo e ergueu os olhos para encará-la.

– Sugiro que façamos exatamente o que a mensagem nos diz para fazer.

Sienna o fitou, confusa.

– Esses sete pês são... uma mensagem?

– Isso mesmo – respondeu ele sem parar de sorrir. – E, para quem estudou Dante, ela não poderia ser mais clara.

 

Do lado de fora do batistério de San Giovanni, o homem engravatado limpou as unhas no lenço e o usou para secar as pústulas no pescoço. Tentou ignorar a queimação nos olhos enquanto os estreitava para ver melhor aonde estava indo.

A entrada de turistas.

Em frente à porta, um vigia de ar cansado vestindo um blazer fumava um cigarro e dispensava os turistas que pareciam incapazes de decifrar os horários de funcionamento, escritos em hora internacional.

apertura 13:00 – 17:00.

O homem de pele irritada verificou o relógio de pulso. Eram 10h02 da manhã. O batistério continuaria fechado por mais algumas horas. Depois de passar algum tempo observando o vigia, ele se decidiu. Retirou o brinco de ouro da orelha e o guardou no bolso. Então sacou a carteira e verificou o conteúdo. Além de vários cartões de crédito e de um maço de euros, ela trazia também mais de três mil dólares em dinheiro vivo.

Felizmente, a cobiça era um pecado comum a todas as nações.