Inferno

Dan Brown · Capítulo 60 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 7 3

 

A bordo do Mendacium, as mãos da Dra. Elizabeth Sinskey tremiam. Ela estava assistindo ao vídeo no escritório do diretor e, embora já tivesse visto algumas coisas aterrorizantes na vida, aquele filme inexplicável feito por Bertrand Zobrist antes de seu suicídio lhe causou uma sensação fria como a morte.

No monitor à sua frente, a sombra de um rosto bicudo oscilava, projetada na parede úmida de uma caverna. A silhueta continuava a falar, descrevendo orgulhosamente sua obra-prima – a criação chamada Inferno –, que iria salvar o mundo mediante o expurgo da população.

Que Deus nos proteja, pensou.

– Nós temos que... – começou ela, com a voz trêmula. – Nós temos que encontrar esse local subterrâneo. Talvez ainda não seja tarde demais.

– Continue assistindo – retrucou o diretor. – Fica mais estranho ainda.

De repente, a sombra da máscara cresceu na parede, tornando-se imensa. Então um vulto surgiu no quadro.

Puta merda.

O que Elizabeth Sinskey estava vendo era um médico da peste em traje completo, com direito à capa preta e à sinistra máscara com nariz em forma de bico. Ele andou em direção à câmera e sua máscara preencheu a tela inteira, causando um efeito aterrorizante.

―Os lugares mais sombrios do Inferno‖, sussurrou, ―são reservados àqueles se mantiveram neutros em tempos de crise moral.‖

A doutora sentiu a pele do pescoço se arrepiar. Era a mesma citação que Zobrist lhe deixara no balcão da companhia aérea quando ela se esquivara dele em Nova York, um ano antes.

―Eu bem sei‖, prosseguia o médico da peste, ―que há quem me chame de monstro.‖ Ele fez uma pausa e a Dra. Sinskey sentiu que aquelas palavras se dirigiam a ela. ―Sei que há quem me considere uma fera sem coração escondida atrás de uma máscara.‖ Ele parou de novo e chegou mais perto da câmera. ―Mas não sou desprovido de rosto. Tampouco de coração.‖

Com essas palavras, Zobrist tirou a máscara e abaixou o capuz, revelando seu rosto. Ela se retesou ao encarar aqueles conhecidos olhos verdes que vira pela última vez na penumbra do Conselho de Relações Exteriores. No vídeo, os olhos transmitiam a mesma paixão, o mesmo fogo, mas também algo mais – o fervor alucinado de um louco.

―Meu nome é Bertrand Zobrist‖, disse ele, encarando a câmera. ―E este é o meu rosto, revelado e exposto aos olhos do mundo. Quanto à minha alma... se eu pudesse entregar a vocês meu coração em chamas, como Deus fez com Dante para sua amada Beatriz, veriam que estou transbordando de amor. Do tipo mais profundo. Por todos vocês. E, acima de tudo, por um de vocês.‖

Zobrist chegou ainda mais perto, encarando a câmera com um olhar profundo e falando no tom brando que se usa com a pessoa amada.

―Meu amor‖, sussurrou ele, ―meu precioso amor. Você é minha bênção suprema, capaz de destruir todos os meus vícios, de reafirmar todas as minhas virtudes... você é a minha salvação. Só você se deitou ao meu lado sem nenhum véu e, sem se dar conta, me ajudou a cruzar o abismo, dando-me forças para fazer o que agora fiz.‖

A Dra. Sinskey ouvia com repulsa.

―Meu amor‖, continuou Zobrist, com um sussurro pesaroso que ecoou na caverna espectral dentro da qual ele falava. ―Você é minha inspiração e meu guia, ao mesmo tempo meu Virgílio e minha Beatriz, e esta obra-prima é uma criação tanto sua quanto minha. Mesmo que você e eu, amantes malfadados, nunca mais voltemos a nos tocar, encontrarei paz na certeza de ter deixado o futuro em suas delicadas mãos. Meu trabalho aqui embaixo acabou. Chegou minha hora de voltar à superfície... e vislumbrar novamente as estrelas.‖

Zobrist parou de falar e a palavra estrelas ecoou na caverna por alguns instantes. Então, com muita calma, ele estendeu a mão e tocou a câmera, encerrando a transmissão.

A tela ficou preta.

– Esse local subterrâneo – falou o diretor, desligando o monitor. – Não conseguimos reconhecê-lo. A senhora sabe onde é?

Elizabeth Sinskey balançou a cabeça. Nunca vi nada parecido. Pensou em Robert Langdon, imaginando se ele teria avançado mais um pouco na tentativa de decifrar as pistas de Zobrist.

– Não sei se pode ajudar – disse o diretor –, mas acho que sei quem Zobrist chama de ―amor‖. – Ele fez uma pausa. – Uma pessoa cujo codinome é FS-2080.

A doutora teve um sobressalto. Encarou o diretor, chocada.

– FS-2080?!

Ele parecia igualmente espantado.

– Isso significa alguma coisa para a senhora?

Ela assentiu, incrédula.

– Com certeza.

Seu coração estava disparado. FS-2080. Embora não conhecesse a identidade da pessoa em questão, com certeza sabia o que significava o codinome. A OMS vinha monitorando outros como esse havia muito tempo.

– O senhor sabe o que é o movimento transumanista? – perguntou ela.

O diretor fez que não com a cabeça.

– Grosso modo, o transumanismo é uma filosofia que defende que os seres humanos usem todas as tecnologias disponíveis para manipular nossa própria espécie de modo a torná-la mais forte. A sobrevivência do mais apto.

O diretor deu de ombros, aparentemente impassível.

– De modo geral, o movimento transumanista é composto por indivíduos sensatos: cientistas com responsabilidade ética, futuristas, visionários – continuou. – No entanto, como em muitos outros movimentos, existe uma facção pequena porém militante que acredita que eles não estão avançando depressa o bastante. Há pensadores apocalípticos segundo os quais o fim está próximo, e alguém precisa tomar atitudes drásticas para garantir o futuro da espécie.

– Deixe-me adivinhar: Bertrand Zobrist era uma dessas pessoas? – indagou o diretor.

– Isso mesmo – respondeu Sinskey. – Ele era um líder do movimento. Além de muito inteligente, tinha enorme carisma e escreveu artigos catastróficos que deram origem a toda uma facção de defensores radicais do transumanismo. Hoje em dia, muitos de seus discípulos fanáticos usam codinomes, todos com um formato semelhante: duas letras e um número de quatro algarismos. Por exemplo, DG-2064, BA-2103 ou esse que o senhor acabou de citar.

– FS-2080.

Elizabeth Sinskey assentiu.

– Isso só pode ser um codinome transumanista.

– Os números e as letras têm algum significado?

A doutora fez um gesto em direção ao computador.

– Abra o navegador. Vou lhe mostrar.

O diretor pareceu hesitar, mas foi até o computador e abriu um site de busca.

– Pesquise ―FM-2030‖ – falou, sentando-se ao seu lado.

Quando o diretor digitou FM-2030, milhares de páginas da internet apareceram listadas.

– Clique em qualquer uma – instruiu a doutora.

O diretor clicou na primeira ocorrência, que remeteu a uma página da Wikipédia com a fotografia de um atraente iraniano – Fereidoun M. Esfandiary –, descrito como escritor, filósofo, futurista e fundador do movimento transumanista. Nascido em 1930, era a ele que se atribuía a introdução da filosofia transumanista às massas, bem como a previsão da fertilização in vitro, da engenharia genética e do processo de globalização da civilização.

Segundo a Wikipédia, a mais ousada afirmação de Esfandiary era a de que as novas tecnologias lhe permitiriam viver até os 100 anos, fato raro em sua geração. Como voto de confiança na futura tecnologia, Fereidoun M. Esfandiary mudou o próprio nome para FM-2030, codinome criado pela combinação das iniciais de seu nome com o ano em que completaria o centenário. Infelizmente, o iraniano sucumbiu a um câncer de pâncreas aos 70 anos, sem alcançar seu objetivo. Em sua homenagem, seguidores zelosos do transumanismo continuaram a prestar tributo a FM-2030 adotando a mesma técnica de nomenclatura.

Ao terminar de ler, o diretor se levantou e andou até a janela, onde passou um bom tempo fitando o mar com uma expressão vazia.

– Quer dizer que o amor de Zobrist, FS-2080, é sem dúvida um desses transu-ma-nistas – sussurrou ele por fim, como se estivesse pensando em voz alta.

– Sem dúvida – respondeu Elizabeth Sinskey. – É uma pena eu não saber quem é FS-2080, mas...

– Era aí que eu queria chegar – interrompeu o diretor, ainda fitando o mar. – Eu sei. Sei exatamente quem é.