Inferno

Dan Brown · Capítulo 64 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 7 7

 

Um barulho de água chapinhando trouxe Robert Langdon suavemente de volta à consciência. O cheiro forte e estéril de antisséptico misturado com maresia invadiu suas narinas e ele sentiu o mundo oscilar debaixo de si.

Onde estou?

Parecia que apenas poucos segundos antes estivera numa luta feroz contra mãos poderosas que tentavam arrastá-lo para fora do poço de luz, de volta para a cripta. Agora, estranhamente, não conseguia mais sentir o frio piso de pedra da Basílica de São Marcos sob seu corpo. Em vez disso, sentia um colchão macio.

Langdon abriu os olhos e observou o ambiente ao seu redor – um quarto pequeno, de aspecto higiênico, com uma única escotilha. O balançar continuava.

Estou dentro de um barco?

Sua última lembrança era a de ter sido imobilizado no chão da cripta por um dos soldados vestidos de preto, que dizia com irritação:

– Pare de fugir!

Langdon gritava feito um louco, pedindo ajuda ao mesmo tempo que os soldados tentavam abafar sua voz.

– Precisamos tirá-lo daqui – dissera um dos soldados para o outro.

O colega então assentiu, relutante.

– Vá em frente.

Langdon sentiu dedos fortes tatearem as artérias e veias de seu pescoço. Então, depois de localizarem um ponto preciso na carótida, os dedos começaram a aplicar uma pressão firme e concentrada. Em segundos, a visão de Langdon começou a embaçar e ele sentiu que perdia a consciência, pois o fluxo de oxigênio para seu cérebro havia sido interrompido.

Eles estão me matando, pensou. Bem ao lado da tumba de São Marcos.

A escuridão se abateu, mas lhe pareceu incompleta... mais como um borrão cinza pontuado por formas e sons indistintos.

Langdon não sabia ao certo quanto tempo havia passado desde então, mas o mundo já voltava a entrar em foco. Até onde conseguia entender, estava em algum tipo de enfermaria, a bordo de uma embarcação. O ambiente estéril à sua volta e o cheio de álcool lhe causaram uma estranha sensação de déjà-vu – como se ele tivesse dado uma volta completa e acordado exatamente como na noite anterior: em uma cama de hospital desconhecida, com lembranças muito vagas.

Na mesma hora pensou em Sienna e se perguntou se ela estaria segura. Ainda podia ver seus suaves olhos castanhos fitando-o do alto do poço, cheios de remorso e medo. Rezou para que ela tivesse conseguido fugir e escapar de Veneza.

Nós estamos no país errado, ele dissera após se dar conta, para seu próprio espanto, da verdadeira localização da tumba de Enrico Dandolo. No fim das contas, o misterioso mouseion de santo saber do poema não ficava em Veneza, mas a meio mundo de distância. Exatamente como o texto de Dante alertara, o significado daquele enigmático poema estava escondido ―sob o véu de estranhos versos‖.

Pretendia explicar tudo a Sienna assim que conseguissem fugir da cripta, mas não tivera essa oportunidade.

Ela fugiu sabendo apenas que eu fracassei.

Sentiu o estômago embrulhar.

A peste continua lá... a meio mundo de distância.

Do lado de fora da enfermaria, no corredor, ouviu pesados passos de botas. Quando se virou, viu um homem de preto entrar em sua cabine. Era o mesmo soldado musculoso que o havia imobilizado no chão da cripta. Seus olhos eram frios como gelo. O instinto de Langdon foi se encolher quando ele se aproximou, mas não havia para onde correr. Essa gente pode fazer o que quiser comigo.

– Onde estou? – perguntou ele, com o tom mais desafiador que foi capaz.

– A bordo de um iate ancorado perto de Veneza.

Langdon olhou para o medalhão verde no uniforme do homem – um globo terrestre circundado pelas letras ECDC. Nunca tinha visto aquele símbolo nem aquela sigla.

– Precisamos que o senhor nos dê algumas informações – disse o soldado –, e não temos muito tempo.

– Por que eu faria isso? – perguntou Langdon. – Vocês quase me mataram.

– Não chegamos nem perto disso. Só usamos uma técnica de estrangulamento do judô chamada shime waza. Não tínhamos a menor intenção de machucá-lo.

– Vocês atiraram em mim hoje de manhã! – declarou Langdon, lembrando-se com clareza do estampido produzido pela bala no para-choque da scooter que Sienna pilotava em alta velocidade. – Foi por pouco que a bala não acertou as minhas costas!

O homem estreitou os olhos.

– Se eu quisesse acertar as suas costas, teria acertado. Dei um único tiro para tentar furar o pneu traseiro da scooter e impedi-los de fugir. Tinha recebido ordens para estabelecer contato com o senhor e descobrir por que estava agindo de forma tão imprevisível.

Antes que Langdon conseguisse processar por completo as palavras dele, dois outros soldados entraram e avançaram em direção à sua cama.

Entre eles, vinha uma mulher.

Uma aparição.

Etérea, como se pertencesse a outro mundo.

Langdon a reconheceu de imediato: era a mesma de suas alucinações. A mulher à sua frente era linda, tinha longos cabelos cor de prata e usava um amuleto de lápis-lazúli. Como ela antes se encontrava em meio a uma horripilante paisagem de corpos agonizantes, Langdon precisou de alguns segundos para acreditar que estivesse de fato ali na sua frente, em carne e osso.

– Professor Langdon, que alívio... o senhor está bem – disse a mulher, aproximando-se de sua cama com um sorriso cansado. Sentou-se e tomou seu pulso. – Fui informada de que está com amnésia. Lembra-se de mim?

Ele passou alguns instantes estudando-a.

– Eu tive... visões com a senhora, mas não me lembro de termos nos conhecido.

A mulher se inclinou mais para perto dele com uma expressão de empatia.

– Meu nome é Elizabeth Sinskey. Sou diretora da Organização Mundial da Saúde e recrutei o senhor para me ajudar a encontrar...

– Uma peste – ele conseguiu completar. – Criada por Bertrand Zobrist.

Elizabeth Sinskey assentiu, parecendo mais animada.

– Está se lembrando?

– Não. Acordei em um hospital com um estranho projetor e visões da senhora me dizendo para buscar e encontrar algo. Era isso que eu estava tentando fazer quando esses homens tentaram me matar. – Langdon acenou em direção aos soldados.

O mais musculoso se eriçou, visivelmente prestes a responder, mas Elizabeth Sinskey o calou com um gesto.

– Professor – disse ela com voz suave. – Não tenho dúvidas de que o senhor está muito confuso. Como fui eu quem o envolvi nessa história toda, estou horrorizada com o que aconteceu e aliviada em ver que o senhor está bem.

– Bem? – retrucou Langdon. – Estou preso em um barco!

E a senhora também!, pensou ele.

A mulher de cabelos prateados meneou a cabeça, compreensiva.

– Infelizmente, por conta de sua amnésia, muitos aspectos do que vou lhe contar talvez o deixem desorientado. Mas nosso tempo é curto e muitas pessoas precisam da sua ajuda.

A doutora hesitou, como se não soubesse bem como prosseguir.

– Em primeiro lugar – começou ela –, preciso que o senhor entenda que o agente Brüder e a equipe dele nunca tiveram a intenção de lhe fazer mal. Eles tinham ordens claras para restabelecer contato com o senhor usando quaisquer meios que fossem necessários.

– Restabelecer contato? Eu não...

– Por favor, professor, apenas ouça. Prometo que tudo vai se esclarecer.

Langdon tornou a se recostar na cama da enfermaria. Sua mente era um verdadeiro turbilhão. A Dra. Sinskey prosseguiu:

– O agente Brüder e seus homens são uma equipe de SMI: Suporte ao Monitoramento e Intervenção. Eles trabalham sob as ordens do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, o ECDC.

Langdon olhou de relance para o emblema no uniforme dos soldados: ECDC. Prevenção e Controle de Doenças?

– A especialidade desse grupo é identificar e conter ameaças envolvendo doenças contagiosas – continuou ela. – São basicamente uma equipe da SWAT encarregada de conter graves riscos de saúde em larga escala. Como o senhor era a minha principal esperança de localizar o agente infeccioso desenvolvido por Zobrist, depois do seu sumiço incumbi a equipe de SMI de localizá-lo... Fui eu quem os chamei a Florença para me dar suporte.

Langdon não conseguia acreditar.

– Esses soldados trabalham para a senhora?

Ela assentiu.

– Emprestados pelo ECDC. Ontem à noite, quando o senhor sumiu e não fez mais contato, achamos que alguma coisa houvesse acontecido. Só hoje de manhã cedo, quando nossa equipe de suporte de tecnologia viu que o senhor tinha checado sua conta de e-mail de Harvard, tivemos certeza de que estava vivo. A essa altura, nossa única explicação para o seu comportamento estranho era que o senhor tivesse mudado de lado... possivelmente depois de receber uma grande soma em dinheiro para localizar o agente infeccioso para alguma outra pessoa.

Langdon balançou a cabeça.

– Que absurdo!

– Eu sei, parecia mesmo improvável, mas era a única explicação lógica... e, com tanta coisa em jogo, não podíamos correr nenhum risco. É claro que nunca nos ocorreu que o senhor pudesse estar com amnésia. Quando nossos técnicos viram sua conta de e-mail ficar ativa de uma hora para outra, rastreamos o endereço IP do computador até o apartamento de Florença e acionamos a equipe de intervenção. Só que o senhor fugiu de scooter com uma mulher, o que aumentou ainda mais nossas suspeitas de que estava trabalhando para outra pessoa.

– Nós passamos bem na sua frente! – exclamou Langdon, quase engasgando. – Eu vi a senhora no banco de trás de uma van preta, cercada de soldados. Pensei que estivesse presa. Parecia estar delirando, como se tivesse sido drogada.

– O senhor nos viu? – A Dra. Sinskey pareceu espantada. – Pode parecer estranho, mas era isso mesmo... eu tinha sido medicada. – Ela fez uma pausa. – Mas porque pedi.

Langdon não entendia mais nada. Ela pediu para ser drogada?

– Talvez o senhor não se lembre, mas, quando nosso C-130 aterrissou em Florença, a pressão atmosférica mudou e eu tive uma crise de vertigem posicional paroxística... um transtorno do ouvido interno altamente debilitante que já tive em outras ocasiões. É temporário e inofensivo, mas causa uma tontura e uma náusea tão intensas que você mal consegue manter a cabeça em pé. Em circunstâncias normais, eu me deitaria e ficaria esperando o forte enjoo passar, mas estávamos no meio dessa situação com Zobrist, por isso receitei a mim mesma injeções de metoclopramida de hora em hora para não vomitar. Esse remédio tem um efeito colateral severo: forte sonolência. Mas pelo menos pude comandar a operação por telefone, do banco de trás da van. A equipe de SMI queria me levar para um hospital, mas não deixei que fizessem isso antes de termos cumprido nossa missão de reencontrar o senhor. Felizmente, a vertigem acabou passando durante o voo para Veneza.

Langdon se deixou afundar na cama, atônito. Passei o dia inteiro fugindo da Organização Mundial da Saúde – justamente as pessoas que vieram me pedir ajuda.

– Agora, professor, precisamos nos concentrar – declarou Elizabeth Sinskey com um tom de voz urgente. – A peste de Zobrist... o senhor faz ideia de onde ela esteja? – Ela o fitou com uma expressão de intensa expectativa. – Temos pouquíssimo tempo.

Está muito longe daqui, Langdon quis responder, mas algo o deteve. Ergueu os olhos para Brüder, um homem que havia atirado contra ele naquela mesma manhã e quase o estrangulara um pouco mais cedo. Tudo havia mudado tão depressa que Langdon não sabia mais em quem deveria confiar.

A Dra. Sinskey se inclinou para mais perto, a expressão em seu rosto ainda mais intensa.

– Desconfiamos que o agente infeccioso esteja aqui em Veneza. É isso mesmo? É só o senhor dizer o local que despacho uma equipe para terra firme.

Langdon hesitou.

– Professor! – vociferou Brüder, perdendo a paciência. – É óbvio que o senhor sabe alguma coisa... Diga-nos onde está o agente! Não entende o que está a ponto de acontecer?

– Agente Brüder! – A Dra. Sinskey virou-se para o soldado, furiosa. – Já chega – ordenou, voltando-se novamente para Langdon antes de prosseguir em voz baixa: – Considerando tudo pelo que o senhor passou, é compreensível que esteja desorientado e sem saber em quem confiar. – Ela fez uma pausa e olhou bem no fundo dos seus olhos. – Mas o nosso tempo é curto, e estou lhe pedindo que confie em mim.

– Langdon consegue ficar em pé? – indagou uma terceira voz.

Um homem baixinho e de aparência bem cuidada, com a pele queimada de sol, apareceu à porta. Embora avaliasse Langdon com uma calma contida, o professor notou certa hostilidade em seus olhos.

A doutora fez um gesto para Langdon se levantar.

– Professor, este aqui é um homem com quem eu preferiria não colaborar, mas a situação é tão grave que não temos escolha.

Com movimentos hesitantes, Langdon se sentou, tirou as pernas de cima da cama e se colocou de pé. Precisou de alguns segundos para recuperar o equilíbrio.

– Venha comigo – disse o homem, andando em direção à porta. – Há algo que o senhor precisa ver.

Langdon não se mexeu.

– Quem é você?

O homem parou e uniu os dedos em um triângulo.

– Nomes são irrelevantes. Pode me chamar de diretor. Eu administro uma organização que, lamento dizer, cometeu o erro de ajudar Bertrand Zobrist a alcançar seus objetivos. Agora estou tentando consertar esse erro antes que seja tarde demais.

– O que quer me mostrar? – perguntou Langdon.

O homem o encarou com um olhar firme.

– Algo que vai acabar com suas dúvidas sobre estarmos todos do mesmo lado.