Inferno

Dan Brown · Capítulo 66 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 7 9

 

Abrindo caminho em meio à multidão de turistas na Ponte do Rialto, Sienna voltou a correr, avançando depressa no sentido oeste pelo passeio que margeava o canal, a Fondamenta Vin Castello.

Eles pegaram Robert.

Ainda podia ver os olhos desesperados do professor erguidos para ela enquanto os soldados o arrastavam pelo poço de luz abaixo, de volta para a cripta. Estava certa de que seus captores dariam um jeito de convencê-lo a revelar tudo o que havia descoberto.

Nós estamos no país errado.

Mais trágico ainda, porém, era saber que esses mesmos captores logo explicariam a Langdon toda a situação.

Eu sinto tanto, Robert.

Por tudo.

Por favor, entenda que não tive escolha.

Por mais estranho que parecesse, Sienna já estava com saudades do professor. Ali, em meio às hordas de Veneza, sentiu uma conhecida solidão se instalar em seu peito.

O sentimento não tinha nada de novo.

Sienna Brooks se sentia sozinha desde criança.

Por ter crescido com uma inteligência excepcional, havia passado toda a juventude se sentindo uma estranha em uma terra desconhecida... uma alienígena presa em um mundo solitário. Tentara fazer amigos, mas as pessoas da sua idade viviam imersas em frivolidades pelas quais ela não nutria o menor interesse. Tentara respeitar os mais velhos, mas era como se a maioria dos adultos não passasse de crianças envelhecidas, que não tinham sequer a mais básica compreensão do mundo à sua volta, ou – o que era ainda mais perturbador – qualquer curiosidade ou preocupação em relação a ele.

Eu tinha a sensação de não fazer parte de nada.

Assim, Sienna Brooks havia aprendido a ser um fantasma. Invisível. Aprendera a ser um camaleão, uma atriz, fingindo ser apenas mais um rosto em meio à multidão. Tinha certeza de que a sua paixão infantil pela arte da representação dramática vinha daquilo que se transformaria no sonho de uma vida inteira: tornar-se outra pessoa.

Uma pessoa normal.

Sua atuação em Sonho de uma noite de verão a ajudara a se sentir parte de alguma coisa e os atores adultos a apoiavam sem se mostrarem condescendentes. Sua alegria, porém, havia durado pouco, evaporando-se no instante em que descera do palco na noite da estreia e se vira diante de um bando de jornalistas de olhos arregalados, enquanto seus companheiros de elenco saíam discretamente pela porta dos fundos, sem que ninguém reparasse neles.

Agora eles também me odeiam.

Aos 7 anos, Sienna já havia lido o suficiente para diagnosticar em si mesma uma depressão profunda. Quando contara aos pais, eles tiveram a reação de sempre: ficaram estarrecidos diante da estranheza da filha. Mesmo assim, marcaram uma consulta para ela com um psiquiatra. O médico a enchera de perguntas que a própria Sienna já havia feito a si mesma, prescrevendo em seguida uma combinação de amitriptilina e clorodiazepóxido.

Furiosa, ela se levantou do divã do psiquiatra com um pulo.

– Amitriptilina?! – exclamou, com um tom desafiador. – Eu quero ficar mais feliz... não virar um zumbi!

O psiquiatra, justiça seja feita, permaneceu muito calmo diante daquela explosão e propôs uma alternativa.

– Sienna, se você preferir não tomar remédios, podemos tentar uma abordagem mais holística. – Ele fez uma pausa. – Parece que você está presa em um círculo vicioso no qual não para de pensar em si mesma e em como não se encaixa no mundo.

– É verdade – respondeu Sienna. – Eu tento parar, mas não consigo!

O médico abriu um sorriso tranquilo.

– É claro que não consegue. É fisicamente impossível para o cérebro humano não pensar em nada. A alma anseia por emoção e está sempre em busca de combustível, bom ou ruim, para essa emoção. O seu problema é que você está abastecendo a sua mente com o combustível errado.

Sienna nunca tinha ouvido ninguém falar sobre a mente em termos tão mecânicos, por isso logo ficou intrigada.

– E como eu faço para usar um combustível diferente?

– É preciso mudar o seu foco intelectual – disse ele. – Hoje, você pensa basicamente em si mesma. Fica se perguntando por que você não se enquadra... e o que há de errado com você.

– É verdade, mas eu estou tentando solucionar o problema. Estou tentando me enquadrar. Como vou solucionar o problema sem pensar nele?

O médico riu.

– Acho que pensar no problema... é justamente o problema.

A sugestão do psiquiatra foi que ela tentasse mudar o foco, afastá-lo de si mesma e de seus próprios problemas e voltar a atenção para o mundo à sua volta... e para os problemas dele.

Foi então que tudo mudou.

Sienna começou a dedicar toda a sua energia a não sentir pena de si mesma... mas dos outros. Criou uma iniciativa filantrópica, foi distribuir sopa nos abrigos para os sem-teto e ler para os cegos. Para sua surpresa, nenhuma das pessoas que Sienna ajudava parecia reparar que ela era diferente. Ficavam apenas gratas pelo fato de alguém se importar com elas.

Ela trabalhava mais duro a cada semana e mal conseguia dormir pensando em quantas pessoas precisavam da sua ajuda.

―Sienna, pegue leve!‖, viviam lhe repetindo. ―Você não pode salvar o mundo inteiro!‖

Que coisa horrível de se dizer.

Graças ao seu trabalho voluntário, ela teve contato com vários membros de um grupo humanitário da região onde morava. Quando eles a convidaram para uma viagem de um mês às Filipinas, ela aceitou na hora.

Imaginava que fosse dar comida a pescadores ou agricultores carentes da zona rural daquele país, que, pelo que tinha lido, possuía uma beleza geológica paradisíaca, com solos oceânicos vibrantes de vida e belíssimas planícies. Assim, quando o grupo montou acampamento em meio aos aglomerados humanos da cidade de Manila, tudo o que conseguiu fazer foi ficar boquiaberta de horror. Nunca tinha visto tamanha pobreza.

Como é possível uma pessoa só fazer diferença?

Para cada indivíduo alimentado, havia centenas de outros que a fitavam com uma expressão desconsolada. Manila tinha engarrafamentos de seis horas, uma poluição sufocante e uma indústria sexual aterrorizante, cuja mão de obra era formada, sobretudo, por crianças pequenas – muitas das quais eram vendidas a cafetões por pais que encontravam consolo no fato de que, desse modo, os filhos pelo menos não morreriam de fome.

Em meio a esse caos de prostituição infantil, pedintes, batedores de carteira e coisas ainda piores, ela se viu subitamente paralisada. À sua volta, tudo o que via era a humanidade subjugada por seu instinto mais primitivo de sobrevivência. Diante do desespero, os seres humanos se tornam animais.

A depressão de Sienna voltou com toda a força. De repente, ela havia compreendido o que a humanidade era de fato: uma espécie à beira do colapso.

Eu me enganei, pensou. Não posso salvar o mundo.

Tomada por um surto frenético, Sienna saiu correndo pelas ruas da cidade, abrindo caminho em meio à multidão, derrubando as pessoas, seguindo sempre em frente à procura de um espaço aberto.

Estou sendo sufocada por carne humana!

Enquanto corria, voltou a sentir os olhos dos outros a observando. Não era mais igual às demais pessoas. Era alta, tinha a pele clara e um rabo de cavalo louro se balançava atrás de sua cabeça. Os homens a olhavam como se ela estivesse nua.

Quando suas pernas por fim perderam as forças, ela não fazia ideia de quanto havia corrido, nem de onde tinha ido parar. Secou as lágrimas, limpou a sujeira dos olhos e viu que estava no meio de uma espécie de favela – uma cidade toda feita de chapas de metal corrugado e pedaços de papelão apoiados e presos uns aos outros. O choro de bebês se fazia ouvir e o fedor de excrementos humanos impregnava o ar.

É como se eu tivesse atravessado os portões do Inferno.

– Turista – disse uma voz maldosa atrás dela. – Magkano? – Quanto?

Sienna se virou e viu que três rapazes se aproximavam, salivando feito lobos. Imediatamente percebeu que estava correndo perigo e tentou recuar, mas eles a encurralaram como predadores que caçam em bando.

Gritou por socorro, mas ninguém lhe deu atenção. A menos de 5 metros dali, viu uma senhora de idade sentada em um pneu, removendo a parte podre de uma cebola velha com uma faca enferrujada. A mulher nem sequer ergueu os olhos diante dos gritos de Sienna.

Quando os homens a agarraram e a arrastaram para dentro de um pequeno barraco, ela não teve nenhuma ilusão quanto ao que iria acontecer e o terror a dominou por completo. Lutou com unhas e dentes, mas os homens eram fortes e logo conseguiram imobilizá-la em cima de um colchão sujo e surrado.

Rasgaram sua blusa, arranhando-lhe a pele macia. Quando Sienna tornou a gritar, enfiaram a blusa rasgada tão fundo em sua garganta que ela achou que fosse sufocar. Então, viraram-na de bruços, empurrando seu rosto contra a cama pútrida.

Sienna Brooks sempre tivera pena das almas ignorantes capazes de acreditar em Deus em um mundo de tanto sofrimento, mas de repente se pegou rezando... do fundo de seu coração.

Meu Deus, por favor, livrai-me do mal.

Enquanto rezava, ouvia os homens rindo, zombando dela ao tirar sua calça jeans e puxá-la por suas pernas bambas com as mãos imundas. Um deles montou em suas costas, pesado e coberto de suor que ela sentiu pingar sobre a sua pele.

Eu sou virgem, pensou. É assim que vai ser a minha primeira vez.

De repente, o homem pulou de cima dela e as provocações e risos maldosos se transformaram em gritos de raiva e medo. O suor morno que escorria pelas suas costas... de repente se tornou pegajoso... e começou a pingar no colchão, deixando manchas vermelhas.

Quando ela se virou para ver o que estava acontecendo, deparou com a velha da cebola meio descascada com a faca enferrujada na mão, de pé junto a seu agressor, que agora sangrava profusamente de um ferimento nas costas.

A velha fulminou os outros dois rapazes com o olhar, brandindo a faca ensanguentada no ar até os três saírem correndo.

Sem dizer nada, ajudou Sienna a catar suas roupas e se vestir.

– Salamat – sussurrou Sienna, aos prantos. – Obrigada.

A velha senhora cutucou a própria orelha para indicar que era surda.

Sienna uniu as palmas das mãos, fechou os olhos e inclinou a cabeça em atitude de respeito. Quando tornou a abri-los, a mulher tinha sumido.

Foi embora das Filipinas no mesmo dia, sem nem ao menos se despedir dos outros membros do grupo. Nunca falou com ninguém sobre o ocorrido. Tinha esperanças de que, se ignorasse o incidente, ele fosse deixar de existir, mas essa atitude só pareceu piorar a situação. Meses depois, ela continuava a ser assombrada por terrores noturnos e já não se sentia segura em lugar nenhum. Começou a praticar artes marciais e, apesar de ter dominado rapidamente a técnica mortal do dim mak, ainda se sentia ameaçada em toda parte.

A depressão voltou, dez vezes pior do que antes e, com o tempo, ela não conseguia mais dormir. Sempre que escovava os cabelos, reparava que eles caíam em grandes tufos, cada dia mais. Para seu horror, em poucas semanas já estava quase careca, tendo desenvolvido sintomas que ela própria diagnosticou como eflúvio telógeno – uma alopecia relacionada ao estresse cuja única solução era a cura do estresse em si. Toda vez que se olhava no espelho, a visão do crânio careca fazia seu coração disparar.

Estou parecendo uma velha!

Por fim, não teve alternativa senão raspar a cabeça. Pelo menos não parecia mais uma velha: só doente. Como não queria ficar com o aspecto de alguém com câncer, comprou uma peruca loura que usava presa em um rabo de cavalo. Pelo menos assim se parecia outra vez com ela mesma.

Por dentro, contudo, Sienna Brooks havia mudado.

Estou estragada.

Em uma tentativa desesperada de mudar de vida, viajou para os Estados Unidos e começou a estudar para se tornar médica. Sempre tivera uma afinidade com a medicina e torcia para que a profissão lhe trouxesse a sensação de estar sendo útil... como se estivesse fazendo pelo menos alguma coisa para aliviar a dor daquele mundo combalido.

Apesar da carga horária puxada, a faculdade não lhe parecera nada difícil. Enquanto os colegas estudavam, ela arrumou um emprego de atriz em tempo parcial para ganhar algum dinheiro. Com certeza não era Shakespeare, mas sua facilidade para línguas e para a memorização fez com que, em vez de parecer um trabalho, atuar fosse como um santuário onde ela podia esquecer quem era... e ser outra pessoa.

Qualquer pessoa.

Ela vinha tentando escapar da própria identidade desde que aprendera a falar. Quando criança, rejeitara seu primeiro nome, Felicity, preferindo adotar o do meio, Sienna. Felicity significava ―felicidade‖, ―fortuna‖, e ela sabia que estava muito longe disso.

Afaste o foco dos seus próprios problemas, costumava lembrar a si mesma. Concentre-se nos problemas do mundo.

O ataque de pânico nas ruas apinhadas de Manila despertara em Sienna uma profunda preocupação com o crescimento descontrolado da população mundial. Foi nessa época que descobriu os escritos de Bertrand Zobrist, geneticista que havia proposto algumas teorias muito progressistas sobre a questão.

Esse cara é um gênio, percebera ao ler o trabalho dele. Nunca havia sentido nada por nenhum outro ser humano. Quanto mais textos de Zobrist ela lia, mais tinha a sensação de estar olhando para dentro do coração de uma alma gêmea. Seu artigo intitulado ―Você não pode salvar o mundo‖ trouxe à memória de Sienna aquilo que todos costumavam lhe dizer quando ela era pequena... só que Zobrist defendia exatamente o contrário.

Você PODE salvar o mundo, escrevia ele. Se não você, quem? Se não agora, quando?

Sienna estudou com afinco as equações matemáticas de Zobrist, informando-se sobre suas previsões de uma catástrofe malthusiana e do iminente colapso da espécie. Seu intelecto adorava aquelas especulações de alto nível, mas, conforme vislumbrava o futuro à sua frente... matematicamente garantido... tão óbvio... inevitável... ela sentia seu nível de estresse aumentar.

Por que ninguém está prevendo isso?

Por mais que as ideias de Zobrist a amedrontassem, Sienna ficou obcecada por ele: assistia a vídeos com suas apresentações, lia tudo o que ele escrevia. Quando ouviu dizer que ele daria uma palestra nos Estados Unidos, soube que precisava ir vê-lo falar. E foi nessa noite que o seu mundo se transformou.

Um sorriso iluminou seu rosto, um raro instante de felicidade, quando ela se lembrou daquela noite mágica... a mesma noite que havia recordado vividamente horas antes, sentada no trem junto com Langdon e Ferris.

Chicago. A tempestade de neve.

Mês de janeiro, seis anos atrás... mas parece que foi ontem...

Estou atravessando a duras penas a neve acumulada no trecho exposto ao vento da Michigan Avenue conhecido como Magnificent Mile, com a gola do casaco levantada para me proteger da violenta nevasca. Apesar do frio, repito em minha mente que nada poderá me impedir de chegar ao meu destino. Essa noite é a minha chance de ouvir o grande Bertrand Zobrist falar... ao vivo.

O auditório está quase vazio quando Bertrand sobe ao palco. Ele é alto... tão alto... com vibrantes olhos verdes que parecem encerrar em suas profundezas todos os mistérios do mundo.

– Para o inferno com este auditório vazio! – esbraveja. – Meu hotel fica bem aqui ao lado. Vamos para o bar!

E então ali estamos nós, um grupo pequeno sentado em volta de uma mesa reservada, ouvindo-o falar sobre genética, população e sua mais recente paixão... o transumanismo.

Enquanto a bebida rola solta, minha sensação é de estar em um encontro particular com um astro do rock. Toda vez que Zobrist olha na minha direção, seus olhos verdes despertam em mim um sentimento inesperado... o forte magnetismo da atração sexual.

É uma sensação totalmente nova para mim.

E então ficamos sozinhos.

– Queria agradecer por esta noite – digo a ele, sentindo a leve embriaguez de algumas doses a mais. – O senhor é um professor incrível.

– Nada como uma boa massagem no ego. – Zobrist sorri e chega mais perto; nossas pernas agora se tocando. – Aí está uma chave que abre qualquer porta.

A cantada é obviamente inadequada, mas naquele hotel deserto de Chicago, com a neve caindo do lado de fora, minha impressão é de que o mundo parou de girar.

– Que tal uma saideira no meu quarto? – pergunta Zobrist.

Eu gelo, sabendo que devo parecer um animal encurralado. Não sei como agir em uma situação dessas!

Os olhos de Zobrist cintilam, tórridos.

– Deixe-me adivinhar – sussurra ele. – Você nunca esteve com um homem famoso.

Sinto-me enrubescer, lutando para disfarçar uma enxurrada de emoções – vergonha, excitação, medo.

– Com toda a sinceridade – respondo –, eu nunca estive com homem nenhum.

Zobrist sorri e chega mais perto ainda.

– Não sei bem o que você estava esperando, mas, por favor, permita que eu seja o primeiro.

Então todos os constrangedores medos e frustrações sexuais da minha infância desaparecem... simplesmente evaporam no ar.

E me vejo nua em seus braços.

– Relaxe, Sienna – sussurra ele enquanto, com as mãos pacientes, arranca do meu corpo inexperiente sensações que eu nunca sequer imaginei que fossem possíveis.

Aninhada no casulo do abraço de Zobrist, sinto que tudo no mundo está em seu devido lugar, e sei que minha vida tem um propósito.

Eu encontrei o Amor.

E irei segui-lo aonde quer que vá.