Inferno

Dan Brown · Capítulo 67 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 8 0

 

No convés do Mendacium, Langdon segurou com força a amurada de teca envernizada do iate e firmou as pernas bambas, tentando recuperar o fôlego. A brisa do mar agora estava mais fria e o rugido de jatos comerciais voando baixo lhe indicava que eles se aproximavam do aeroporto de Veneza.

Preciso lhe contar algumas coisas sobre a Srta. Brooks.

Ao seu lado, junto à amurada, o diretor e a Dra. Sinskey se mantinham alertas e em silêncio, dando-lhe alguns segundos para se recuperar. O que haviam revelado a Langdon lá embaixo o deixara tão desorientado que Elizabeth Sinskey o levara até o convés para tomar um pouco de ar.

O mar do fim de tarde era revigorante, mas não foi suficiente para clarear a mente de Langdon. Tudo o que ele conseguia fazer era fitar o rastro turvo do iate com o olhar perdido, tentando encontrar algum fio de lógica na história que acabara de ouvir.

Segundo o diretor, Sienna Brooks e Bertrand Zobrist haviam tido um longo relacionamento. Os dois agiam juntos, numa espécie de movimento clandestino, o transumanismo. O nome todo dela era Felicity Sienna Brooks, mas ela também era conhecida pelo codinome FS-2080... suas iniciais e a data de seu centésimo aniversário.

Nada disso faz sentido!

– Conheci Sienna Brooks em circunstâncias diferentes e confiava nela – dissera o diretor a Langdon. – Portanto, quando ela me procurou ano passado me pedindo que encontrasse um possível cliente muito rico, eu aceitei. Era Bertrand Zobrist. Ele me contratou para lhe providenciar um lugar seguro onde pudesse trabalhar em segredo na criação de sua ―obra-prima‖. Imaginei que estivesse desenvolvendo uma nova teconologia que não queria que ninguém copiasse, ou talvez realizando alguma pesquisa genética inovadora que contrariasse os regulamentos éticos da OMS. Não fiz perguntas, mas, acredite, nunca imaginei que ele estivesse criando... uma peste.

Atônito, Langdon conseguiu apenas assentir com uma expressão vazia.

– Como era fanático por Dante – prosseguiu o diretor –, Zobrist escolheu a cidade de Florença como refúgio. Assim, minha organização providenciou tudo de que ele precisava: um laboratório discreto com alojamentos, várias identidades falsas e meios de comunicação seguros, além de um assistente particular que cuidava de tudo, desde sua segurança pessoal até a compra de mantimentos. Zobrist nunca usava os próprios cartões de crédito nem aparecia em público, por isso era impossível rastreá-lo. Chegamos até a lhe fornecer disfarces e documentos alternativos para que pudesse viajar incógnito. – Ele fez uma pausa. – E parece que ele fez isso quando foi depositar o saco de Solublon no local do vídeo.

A Dra. Sinskey bufou, sem se dar o trabalho de ocultar sua frustração.

– A OMS vinha tentando localizá-lo desde o ano passado, mas ele parecia ter sumido do mapa.

– Estava se escondendo até de Sienna – informou o diretor.

– Como assim? – Langdon ergueu os olhos e pigarreou, tentando desfazer o nó em sua garganta. – Pensei que tivesse dito que eles tinham um caso.

– E tinham, mas Zobrist cortou laços com ela de repente, assim que passou a viver na clandestinidade. Embora tenha sido Sienna quem o indicou para nós, meu acordo era com o próprio Zobrist. Parte do combinado era que, quando ele sumisse, seria para o mundo inteiro, até para ela. Parece que, depois de se esconder, ele lhe enviou uma carta de despedida dizendo que estava muito doente, que só tinha mais um ano de vida ou algo assim, e que não queria que ela visse sua saúde se deteriorar.

Zobrist abandonou Sienna?

– Ela me procurou em busca de informações, mas não atendi as suas ligações – acrescentou o diretor. – Tinha que respeitar os desejos do meu cliente.

– Há duas semanas – prosseguiu a Dra. Sinskey –, Zobrist entrou em um banco de Florença e alugou um cofre particular anonimamente. Depois que ele saiu, o pessoal responsável pela nossa lista de observação foi avisado de que o novo software de reconhecimento facial do banco identificara o homem disfarçado como Bertrand Zobrist. Minha equipe foi de avião a Florença e levou uma semana para localizar o tal cofre. Estava vazio, mas lá dentro encontramos indícios de que ele tinha criado alguma espécie de patógeno altamente contagioso e o escondido em algum outro lugar.

Ela fez uma breve pausa.

– Estávamos desesperados para encontrá-lo. Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, ele foi visto caminhando à beira do Arno e na mesma hora começamos a persegui-lo. Foi então que Zobrist fugiu para o alto da torre da Badia e se matou, pulando lá de cima.

– Talvez esse fosse o seu plano desde o início – atalhou o diretor. – Estava convencido de que não tinha muito tempo de vida.

– Na verdade, acabamos descobrindo que Sienna também estava atrás dele – prosseguiu a doutora. – De alguma forma, ela descobriu que tínhamos nos deslocado para Florença e passou a acompanhar nossos movimentos, pensando que talvez nós o tivéssemos encontrado. Infelizmente, chegou bem a tempo de ver Zobrist pular. – Ela deu um suspiro. – Imagino que tenha sido um grande trauma para ela ver o namorado e mentor se jogar para a morte.

Langdon sentiu um embrulho no estômago; mal conseguia compreender o que estava ouvindo. A única pessoa em quem confiava naquela história toda era Sienna, e agora Elizabeth Sinskey e o diretor lhe diziam que ela não era quem dizia ser? Eles podiam falar o que quisessem, mas Langdon não conseguia acreditar que Sienna compactuasse com o desejo de Zobrist de disseminar uma peste.

Ou estaria enganado?

Você mataria metade da população hoje para salvar nossa espécie da extinção?, ela lhe perguntara.

Langdon sentiu um calafrio.

– Depois que Zobrist morreu – explicou a doutora –, usei minha influência para obrigar o banco a abrir o tal cofre particular, que, por ironia, continha uma carta para mim... e um dispositivo estranho.

– O projetor – arriscou Langdon.

– Exatamente. A carta dizia que ele queria que eu fosse a primeira a visitar o marco zero, que ninguém jamais o encontraria a menos que seguisse o seu Mapa do Inferno.

Langdon visualizou em sua mente o quadro adulterado de Botticelli projetado pelo pequeno aparelho.

– Zobrist tinha me incumbido de entregar à Dra. Sinskey o conteúdo do cofre, mas só depois da data marcada; amanhã de manhã – acrescentou o diretor. – Como ela conseguiu acesso ao cofre antes disso, nós entramos em pânico e começamos a agir para tentar recuperar o projetor e a carta, conforme os desejos de nosso cliente.

A Dra. Sinskey olhou para Langdon.

– Eu não tinha grandes esperanças de entender o mapa a tempo, por isso convoquei o senhor para me ajudar. Consegue se lembrar de algumas dessas coisas agora?

Langdon fez que não com a cabeça.

– Nós o levamos discretamente até Florença de avião, onde o senhor tinha marcado um encontro com alguém que acreditava que poderia nos ajudar.

Ignazio Busoni.

– Foi se encontrar com essa pessoa ontem à noite e depois sumiu – concluiu. – Pensamos que alguma coisa tivesse acontecido com o senhor.

– E alguma coisa de fato lhe aconteceu – falou o diretor. – Numa tentativa de recuperar o projetor, mandamos uma agente minha segui-lo desde o aeroporto. Vayentha o perdeu de vista em algum lugar perto da Piazza della Signoria. – Ele fez uma cara feia. – Foi um erro grave. E ela teve a audácia de pôr a culpa em um pássaro.

– Como assim?

– O arrulhar de uma pomba. Segundo Vayentha, ela estava em uma posição perfeita, observando o senhor de dentro de um nicho escuro, quando um grupo de turistas passou. De repente, uma pomba arrulhou alto no caixilho de uma janela bem em cima dela, fazendo os turistas pararem e impedirem-na de sair. Quando finalmente conseguiu voltar ao beco, o senhor já tinha sumido. – Ele balançou a cabeça, contrariado. – Enfim, ela demorou horas para reencontrá-lo. Quando conseguiu, o senhor já estava acompanhado por outro homem.

Ignazio, pensou Langdon. Devíamos estar saindo do Palazzo Vecchio com a máscara.

– Ela conseguiu segui-los em direção à Piazza della Signoria, mas parece que vocês a viram e decidiram fugir em direções diferentes.

Faz sentido, pensou Langdon. Ignazio fugiu com a máscara e a escondeu no batistério antes de ter um infarto.

– Foi então que Vayentha cometeu um erro terrível – disse o diretor.

– Deu um tiro na minha cabeça?

– Não. Decidiu abordá-lo cedo demais. Ela o trouxe para ser interrogado antes de o senhor de fato saber alguma coisa. Precisávamos descobrir se tinha conseguido decifrar o mapa ou se havia revelado à Dra. Sinskey o que ela precisava saber. Mas o senhor se recusou a falar. Disse que preferiria morrer.

Eu estava à procura de uma peste mortal! Devo ter achado que vocês eram mercenários tentando obter uma arma biológica!

Foi então que os enormes motores do iate se reverteram, diminuindo a velocidade da embarcação que se aproximava da plataforma de atracamento do aeroporto. Ao longe, Langdon pôde ver a fuselagem discreta de um avião de transporte C-130 sendo reabastecido. No corpo da aeronave estava escrito: organização mundial da saúde.

Brüder apareceu neste exato momento, com uma expressão sombria.

– Acabei de saber que a única equipe de intervenção qualificada a menos de cinco horas do local somos nós... ou seja, estamos sozinhos nessa.

A Dra. Sinskey ficou abatida.

– E a coordenação com as autoridades locais?

Brüder adotou uma expressão de cautela.

– É cedo demais. Pelo menos essa é a minha recomendação. Ainda não temos uma localização precisa, portanto não há nada que eles possam fazer. Além disso, uma operação de contenção está muito além da capacidade das autoridades locais e corremos um risco real de que, em vez de ajudar, elas acabem causando mais danos.

– Primum non nocere – sussurrou a doutora com um meneio de cabeça, recitando o preceito fundamental da ética médica: Em primeiro lugar, não causar danos.

– Para completar, ainda não tivemos nenhuma notícia sobre Sienna Brooks – disse Brüder. Ele olhou para o diretor. – O senhor sabe se ela conhece alguém em Veneza que possa ajudá-la?

– Isso não me espantaria – respondeu o diretor. – Zobrist tinha discípulos por toda parte e, se bem conheço Sienna, ela vai se valer de todos os recursos disponíveis para conseguir o que quer.

– Vocês não podem deixá-la sair de Veneza – falou a Dra. Sinskey. – Não temos a menor ideia da condição atual do saco de Solublon. Se alguém o encontrar, a esta altura bastaria um simples toque para o plástico estourar e contaminar a água.

Houve alguns instantes de silêncio enquanto eles assimilavam a gravidade da situação.

– Infelizmente, acho que tenho mais notícias ruins – disse Langdon. – O mouseion dourado de santo saber. – Ele fez uma pausa. – Sienna sabe onde ele fica. Ela sabe para onde estamos indo.

– O quê?! – a voz da doutora se alterou, alarmada. – Pensei que o senhor tivesse falado que não teve oportunidade de dizer a ela o que havia descoberto! Apenas que estavam no país errado!

– E é verdade – respondeu Langdon. – Mas ela sabia que estávamos procurando o túmulo de Enrico Dandolo. Basta uma busca rápida na internet para descobrir a sua localização. E, quando ela encontrar esse túmulo, o recipiente solúvel não pode estar muito longe. O poema dizia para seguir o som da água correndo até o palácio afundado.

– Que droga! – explodiu Brüder antes de se retirar, pisando firme.

– Ela nunca vai conseguir chegar lá antes de nós – disse o diretor. – Estamos em vantagem.

Elizabeth Sinskey suspirou.

– Eu não teria tanta certeza. Nosso transporte é lento e Sienna Brooks parece ser muito engenhosa.

Enquanto o Mendacium atracava, Langdon se pegou olhando nervoso para o pesado C-130 na pista. O avião mal parecia capaz de voar e não tinha janelas. Eu já voei nesse troço? Não se lembrava de nada.

Não sabia se por causa do movimento do iate atracando ou de suas crescentes reservas em relação à aeronave claustrofóbica, foi subitamente acometido por uma onda de náusea.

Virou-se para a Dra. Sinskey.

– Acho que não estou me sentindo bem para voar.

– O senhor está bem – afirmou ela. – Passou por muita coisa hoje e é claro que seu organismo ainda não eliminou as toxinas...

– Toxinas? – Langdon deu um passo cambaleante para trás. – Que história é essa?

A doutora desviou o olhar. Era óbvio que tinha revelado mais do que pretendia.

– Professor, eu sinto muito. Infelizmente acabei de ser informada de que o seu estado de saúde é um pouco mais complicado do que um simples ferimento na cabeça.

Langdon sentiu uma pontada de medo ao se lembrar da mancha escura na pele do peito de Ferris quando o homem havia desabado dentro da basílica.

– O que eu tenho? – exigiu saber.

A doutora hesitou, como se não soubesse muito bem como prosseguir.

– Primeiro, vamos embarcar no avião.