Inferno
– A primeira estrofe é de Dante,…
– A primeira estrofe é de Dante, uma citação quase literal – falou. – Ó, vós, na possessão de tão robustos intelectos... observai os ensinamentos que se escondem... sob o véu destes estranhos versos.
– E o resto? – instou Sienna.
Langdon balançou a cabeça.
– Acho que não. Está escrito com uma métrica parecida, mas não reconheço o texto de Dante. Parece alguém imitando seu estilo.
– Zobrist – sussurrou Sienna. – Só pode ser ele.
Langdon assentiu. Era um palpite bastante razoável. Afinal de contas, ao alterar o Mappa dell"Inferno de Botticelli, Zobrist já havia revelado sua propensão para colaborar com os mestres e modificar grandes obras de arte para atender às próprias necessidades.
– O resto do texto é muito estranho – disse Langdon, girando novamente a máscara e lendo mais para dentro. – Fala sobre... ter cortado cabeças de cavalos... e arrancado ossos de quem já não pode ver. – Ele correu os olhos até a última linha, escrita em um círculo apertado bem no meio da máscara. Então fungou, espantado. – E menciona também ―águas rubras de sangue‖.
Sienna arqueou as sobrancelhas.
– Rubras, ou seja... vermelhas? Como nas suas visões da mulher de cabelos prateados?
Langdon tornou a assentir, intrigado com o texto à sua frente. As águas rubras de sangue da lagoa que não reflete as estrelas?
– Olhe – sussurrou Sienna, lendo por cima de seu ombro e apontando para uma única palavra na espiral. – Um local específico.
Os olhos de Langdon encontraram a palavra, que ele havia pulado durante a primeira leitura. Era o nome de uma das cidades mais espetaculares e únicas do mundo. Ele sentiu um calafrio, sabendo que também se tratava da cidade em que Dante Alighieri notoriamente contraíra a doença fatal que o levaria à morte.
Veneza.
Langdon e Sienna passaram um bom tempo analisando em silêncio os versos enigmáticos. O poema era perturbador, macabro e difícil de decifrar. O uso das palavras doge e lagoa, para Langdon, não deixava dúvida de que o poema de fato se referia a Veneza – uma singular cidade italiana que era um verdadeiro mundo aquático. Erguida sobre uma imensa lagoa e entrecortada por centenas de canais, durante séculos Veneza fora governada por um chefe de Estado conhecido como doge.
À primeira vista, Langdon não soube dizer exatamente para que lugar de Veneza aquele poema apontava, mas o texto sem dúvida parecia instar o leitor a seguir suas instruções.
Levai ao chão vossa orelha, para ouvir os sons da água que corre.
– Está apontando para debaixo da terra – disse Sienna, que lia junto com ele.
Langdon assentiu com hesitação enquanto lia o verso seguinte.
Descei às profundezas do palácio afundado... pois lá, na escuridão, espreita o monstro ctônico.
– Robert? – indagou Sienna, ressabiada. – Monstro o quê?
– Ctônico – respondeu Langdon. – É uma palavra de raiz grega. Significa ―que vive debaixo da terra‖.
Antes que ele pudesse prosseguir, o clique alto de um trinco ecoou pelo batistério. A entrada de turistas parecia ter sido destrancada por fora.
– Grazie mille – disse o homem com a pele do rosto irritada. Muito obrigado.
O vigia do batistério assentiu com nervosismo, enquanto embolsava os 500 dólares e olhava em volta para se certificar de que ninguém estava observando.
– Cinque minuti – falou, entreabrindo a porta apenas o suficiente para o homem se esgueirar para dentro. O vigia então fechou a porta, trancando-o lá dentro e bloqueando qualquer som de fora. Cinco minutos.
A princípio, o vigia não havia se apiedado daquele homem que alegava ter vindo dos Estados Unidos para rezar no batistério de San Giovanni na esperança de curar sua terrível doença de pele. Com o tempo, contudo, acabara por se convencer a demonstrar compaixão, sem dúvida auxiliado pela oferta de 500 dólares em troca de cinco minutos sozinho dentro do batistério... aliada ao medo crescente de que aquela pessoa de aparência contagiosa fosse passar as três horas seguintes ali plantada ao seu lado esperando que o monumento abrisse.
Agora, ao avançar sorrateiramente pelo santuário octogonal, o homem sentiu um impulso irresistível de olhar para cima. Puta merda. Nunca tinha visto nada igual àquele teto. Um demônio de três cabeças olhava lá do alto bem na direção dele, o que o levou a baixar os olhos na mesma hora.
O lugar parecia deserto.
Onde eles se meteram?
O homem correu os olhos em volta, detendo-se sobre o altar-mor – um imenso bloco de mármore retangular situado dentro de um nicho atrás de uma barreira de colunas de metal e cordões destinada a manter os visitantes afastados.
O altar parecia ser o único esconderijo de todo o batistério. Além disso, um dos cordões balançava de leve... como se houvesse acabado de ser movido.
Atrás do altar, Langdon e Sienna estavam agachados em silêncio. Mal tiveram tempo de recolher os panos sujos e endireitar a tampa da pia batismal antes de saltarem para trás do altar-mor, carregando com cuidado a máscara mortuária. O plano era ficarem escondidos ali até o local se encher de turistas, para então saírem discretamente no meio da multidão.
A porta norte do batistério sem dúvida acabara de se abrir – pelo menos por alguns instantes –, pois Langdon havia escutado os sons vindos da piazza. Porém, tão subitamente quanto antes, ela voltara a ser trancada e não se ouviu mais nada.
Agora, de novo em meio ao silêncio, Langdon ouviu os passos de uma única pessoa atravessarem o chão de pedra.
Será que algum vigia veio verificar o espaço antes de abri-lo para os turistas daqui a pouco?
Perguntou-se se o suposto vigia iria notar a luz acesa em cima da pia batismal, que ele não tivera tempo de apagar. Parece que não. Os passos se moviam depressa na direção deles e pararam bem em frente ao altar, diante do cordão por cima do qual Langdon e Sienna haviam acabado de pular.
Houve um longo silêncio.
– Robert, sou eu – disse uma voz masculina zangada. – Sei que você está aí atrás. Saia agora mesmo e venha aqui se explicar.