Inferno

Dan Brown · Capítulo 39 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 4 5

 

Com suas paredes forradas de painéis de carvalho e o teto formado por caixotões de madeira, a Sala dos Mapas Geográficos parecia outro mundo quando comparada ao interior austero de pedra e gesso do Palazzo Vecchio. Aquele espaço pomposo, que no projeto original era a chapelaria do palácio, continha dezenas de armários e gabinetes que outrora serviam para guardar os tesouros portáteis do grão-duque. Atualmente, as paredes são cobertas de mapas – 53 iluminuras pintadas à mão em couro – que representam o mundo como era conhecido na década de 1550.

Essa excepcional coleção de cartografia é dominada pela presença de um globo maciço situado no centro do recinto. Conhecida como Mappa Mundi, a esfera de 1,83 metro de altura foi o maior globo giratório de sua época e, segundo relatos, era possível girá-la quase sem esforço, com o simples toque de um dedo. Hoje serve mais como última parada para turistas que, depois de atravessar a longa sucessão de salas do primeiro andar e chegar a um beco sem saída, contornam a obra e voltam pelo mesmo caminho.

Langdon e Sienna chegaram sem fôlego à Sala dos Mapas. O Mappa Mundi se erguia majestoso diante deles, mas Langdon o ignorou por completo e olhou para as paredes que cercavam a sala.

– Temos que encontrar a Armênia! – falou. – O mapa da Armênia!

Claramente desconcertada pelo pedido, Sienna correu até a parede direita da sala em busca de um mapa da Armênia.

Langdon iniciou uma busca semelhante pela parede esquerda, começando a dar a volta na sala.

Arábia, Espanha, Grécia...

Todos os países eram retratados com extraordinária riqueza de detalhes, apesar de os desenhos terem sido feitos mais de quinhentos anos antes, época em que a maior parte do mundo nem havia sido mapeada ou explorada.

Onde está a Armênia?

Embora sua memória fotográfica em geral fosse nítida, as lembranças do ―tour pelas passagens secretas‖ que ele fizera naquele palazzo muitos anos antes lhe pareciam nebulosas, em grande parte por causa da segunda taça de Gaja Nebbiolo que ele bebera no almoço antes do passeio. De modo muito apropriado, a palavra nebbiolo significava ―pequena névoa‖. Mesmo assim, Langdon se lembrava com clareza de ter visto um mapa específico naquela sala, o da Armênia, que tinha uma característica singular.

Sei que ele está por aqui, pensou, continuando a vasculhar a sucessão aparentemente interminável de mapas.

– Armênia! – anunciou Sienna. – Achei!

Langdon se virou para onde ela estava, no canto direito mais afastado da sala. Correu até lá e Sienna apontou para o mapa com uma expressão que parecia dizer: ―Encontramos a Armênia... e daí?‖

Langdon sabia que eles não tinham tempo para explicações. Limitou-se a estender as mãos, segurar a grossa moldura de madeira do mapa e puxá-la para si. O mapa inteiro girou para dentro da sala, junto com um longo pedaço da parede e da madeira que a revestia, revelando uma passagem secreta.

– Então está bem – disse Sienna, parecendo impressionada. – Armênia, aí vamos nós.

Sem hesitar, ela passou depressa pela abertura e mergulhou sem medo no espaço mal iluminado. Langdon a seguiu, apressando-se em fechar a parede atrás deles.

Apesar das recordações nebulosas, lembrava-se bem daquele caminho. Ele e Sienna tinham acabado de passar para o outro lado do espelho, por assim dizer, adentrando o Palazzo Invisibile: o mundo oculto que existia atrás das paredes do Palazzo Vecchio, um reino secreto ao qual tinham acesso apenas o então soberano grão-duque e as pessoas mais próximas a ele.

Langdon se deteve por alguns instantes debaixo do portal para assimilar o novo espaço ao seu redor: um corredor de pedras claras iluminado apenas pela fraca luz natural que passava através de uma série de janelas com caixilhos de chumbo. O corredor descia cerca de 50 metros até uma porta de madeira.

Ele então se virou para a esquerda, onde havia uma escada estreita bloqueada por uma corrente. Uma placa logo acima dela dizia: senza uscita.

Langdon se encaminhou para lá.

– Não! – alertou Sienna. – A placa diz ―sem saída‖.

– Obrigado – falou Langdon com um sorriso de ironia. – Sei ler em italiano.

Ele soltou a corrente e a levou até a porta secreta, usando-a para prendê-la – passou rapidamente a corrente por dentro do puxador e ao redor de uma arandela próxima para que ninguém pudesse abrir pelo outro lado.

– Ah – falou Sienna, encabulada. – Bem pensado.

– Isso não vai detê-los por muito tempo – disse Langdon. – Mas não precisamos de muito. Venha comigo.

 

Quando o mapa da Armênia finalmente se abriu com um estrondo, o agente Brüder e seus homens retomaram a busca, descendo o corredor estreito em direção à porta de madeira na outra extremidade. Assim que a arrombaram, Brüder sentiu uma rajada de ar frio atingi-lo em cheio e foi cegado pela luz forte do sol.

Havia chegado a uma passarela externa que margeava o telhado do palazzo. Olhou para o caminho adiante que levava direto a outra porta, uns 50 metros à frente, e entrou de volta no edifício.

Então Brüder olhou para a esquerda da passarela, onde o teto alto e abobadado do Salão dos Quinhentos se erguia como uma montanha. Impossível atravessar. Virou-se em seguida para a direita, onde a passarela era ladeada por um paredão íngreme que mergulhava até um poço de luz profundo. Morte instantânea.

Tornou a olhar para o caminho à frente.

– Por aqui!

O grupo disparou pela passarela rumo à segunda porta enquanto o drone de reconhecimento voava em círculos acima deles, como um abutre.

Ao atravessarem o portal, contudo, pararam de repente, quase colidindo uns com os outros.

Estavam dentro de uma minúscula câmara de pedra sem outra saída que não a porta pela qual tinham acabado de entrar. Encostada na parede havia uma solitária mesa de madeira. Acima de suas cabeças, as figuras grotescas retratadas nos afrescos do teto da câmara pareciam lhes lançar olhares zombeteiros.

Não havia como sair dali.

Um dos homens correu até a parede para analisar a placa informativa que estava afixada ali.

– Esperem um instante – falou. – Na placa está escrito que tem uma finestra aqui... alguma espécie de janela secreta?

Brüder olhou em volta, mas não viu janela secreta nenhuma. Então marchou em direção à parede e leu ele mesmo a placa.

Aparentemente, aquele espaço costumava ser o gabinete particular da duquesa Bianca Cappello e tinha uma janela secreta – una finestra segreta – pela qual ela podia assistir às escondidas aos discursos do marido lá embaixo, no Salão dos Quinhentos.

Ele tornou a correr os olhos pelo recinto e dessa vez identificou uma pequena abertura gradeada oculta na parede lateral. Será que eles fugiram por aqui?

Foi até lá e examinou a abertura, que parecia pequena demais para alguém do tamanho de Langdon conseguir atravessar. Encostou o rosto na grade e olhou pelo buraco para ter certeza de que ninguém havia escapado por ali. Do outro lado da grade havia uma queda abrupta de vários andares até o chão do Salão dos Quinhentos.

Então onde esses dois se meteram?!

Quando tornou a se virar para o interior da câmara de pedra, o agente Brüder sentiu toda a frustração do dia se acumular dentro de si. Em um raro momento de descontrole emocional, jogou a cabeça para trás e soltou um urro de raiva.

Naquele espaço confinado, o som foi ensurdecedor.

Vários metros abaixo, no Salão dos Quinhentos, turistas e policiais se viraram e ergueram os olhos para a abertura gradeada bem no alto da parede. Pelo visto, o gabinete secreto da duquesa agora estava servindo de jaula para algum animal selvagem.

 

Sienna Brooks e Robert Langdon estavam parados na mais completa escuridão.

Minutos antes, Sienna testemunhara a esperteza de Langdon ao usar uma corrente para travar o mapa giratório da Armênia e, em seguida, se virar e fugir.

Para sua surpresa, no entanto, em vez de descer o corredor, ele subira a escada íngreme com a placa uscita vietata.

– Robert! – sussurrou ela, confusa. – A placa dizia ―sem saída‖! Além do mais, achei que nós quiséssemos descer!

– E queremos – disse Langdon, olhando por cima do ombro. – Mas às vezes é preciso subir... para depois descer. – Ele lhe deu uma piscadela encorajadora. – Não se lembra da barriga de Satã?

Do que ele está falando? Ela correu atrás de Langdon, sentindo-se perdida.

– Você já leu o Inferno? – perguntou ele.

Já... mas acho que devia ter uns 7 anos.

Logo em seguida, no entanto, ela entendeu.

– Ah, a barriga de Satã! Agora me lembrei.

Ela havia demorado um pouco, mas então percebera que Langdon estava se referindo ao final do Inferno de Dante. No último canto do poema, para escapar do Inferno, o poeta tem que descer pela barriga peluda de um gigantesco Satã; quando chega à altura do quadril, que seria o centro da Terra, a gravidade se inverte de repente e, para continuar a descer em direção ao Purgatório... Dante precisa, na verdade, subir.

Sienna não se lembrava de muita coisa do Inferno além da sua decepção diante da ação absurda da gravidade no centro da Terra; pelo jeito, o gênio de Dante não incluía uma compreensão satisfatória da física das forças vetoriais.

Quando chegaram ao topo da escada, Langdon abriu a única porta que havia ali. Nela se lia: sala dei modelli di architettura.

Ele conduziu Sienna para dentro, fechou a porta atrás de si e passou o trinco.

O cômodo era pequeno e simples, com uma série de mostruários que exibiam maquetes de madeira dos projetos arquitetônicos de Vasari para o interior do palazzo. Sienna mal olhou para as maquetes. Não deixou de notar, porém, que a sala não tinha portas nem janelas e, como dizia a placa... era sem saída.

– Em meados do século XIV – sussurrou Langdon –, o duque de Atenas assumiu o poder no palácio e construiu esta rota de fuga secreta caso fosse atacado. Chama-se Escada do Duque de Atenas e desce até uma minúscula saída de emergência que dá numa rua secundária. Se conseguirmos chegar até lá, ninguém nos verá sair. – Ele apontou para uma das maquetes. – Olhe. Está vendo aqui do lado?

Ele me trouxe aqui para me mostrar maquetes?

Aflita, Sienna olhou para o modelo e viu a escada secreta que descia do topo do palácio até a rua, astutamente escondida entre as paredes interna e externa do edifício.

– Sim, Robert, estou vendo a escada, mas ela está do lado oposto do palácio – falou com irritação. – Nós nunca vamos conseguir chegar lá!

– Tenha um pouco de fé – retrucou ele com um sorriso torto.

Um estrondo repentino no andar de baixo lhes informou que o mapa da Armênia acabara de ser arrombado. Petrificados, os dois ouviram os passos dos soldados seguirem pelo corredor, nenhum deles sequer imaginando que os fugitivos fossem subir mais ainda... muito menos por uma pequena escada com uma placa de sem saída.

Quando a barulheira mais abaixo cessou, Langdon atravessou com determinação o recinto, passando entre as maquetes e se encaminhando diretamente para o que parecia um grande armário na parede dos fundos. O armário tinha cerca de um metro quadrado e estava suspenso a pouco menos de um metro do chão. Langdon agarrou o puxador e escancarou a porta.

Sienna recuou, surpresa.

O espaço lá dentro parecia um vácuo profundo... como se o armário fosse um portal para outro mundo.

– Venha – disse Langdon.

Ele pegou uma solitária lanterna pendurada na parede ao lado da entrada. Então, com agilidade e força surpreendentes, o professor içou o próprio corpo e cruzou o limiar, desaparecendo dentro daquela toca de coelho.