Inferno

Dan Brown · Capítulo 75 de 90

Páginas do PDF

Inferno

C a P Í T U L o 8 8

 

Aquele espaço já havia sido chamado de Oitava Maravilha do Mundo e, uma vez lá dentro, Langdon não se sentia inclinado a discordar.

Quando o grupo cruzou o limiar e entrou no colossal santuário, o professor foi lembrado de que Santa Sofia precisava de apenas um segundo para fazer os visitantes perceberem a impressionante magnitude de suas dimensões.

O recinto era tão amplo que, diante dele, até mesmo as grandes catedrais da Europa pareciam pequenas. Langdon sabia que a espantosa força de sua imensidão era em parte ilusão – um dramático efeito colateral de sua planta em estilo bizantino, com um naos centralizado que concentrava todo o espaço interior em um único ambiente quadrado, em vez de estendê-lo pelos quatro braços de uma planta cruciforme, estilo adotado nas catedrais posteriores.

Este edifício é setecentos anos mais antigo do que a Notre-Dame, pensou Langdon.

Depois de reservar alguns instantes para absorver a vastidão do espaço à sua volta, ele se permitiu erguer os olhos, lançando-os a mais de 50 metros de altura, até a imensa cúpula dourada que coroava o templo. Quarenta nervuras irradiavam do centro, como raios de sol, estendendo-se até uma arcada circular formada por quarenta janelas abobadadas. Durante o dia, a luz que entrava por essas janelas se refletia – mais de uma vez – nos cacos de vidro incrustados nos mosaicos dourados, criando a ―luz mística‖ que tornara Santa Sofia tão famosa.

Langdon só tinha visto a atmosfera dourada daquele recinto reproduzida com exatidão em pintura uma única vez. John Singer Sargent. Não era de espantar que, ao pintar seu famoso quadro de Santa Sofia, o artista americano houvesse limitado sua paleta a múltiplos tons de uma mesma cor.

Dourado.

A cintilante cúpula, muitas vezes chamada de ―o domo do próprio paraíso‖, era sustentada por quatro arcos monumentais, escorados por uma série de semicúpulas e tímpanos. Esses suportes, por sua vez, tinham como base outro nível de semicúpulas e arcadas ainda menores, criando um efeito em cascata de formas arquitetônicas que desciam do céu em direção à terra.

Cabos compridos desciam direto da cúpula, também do céu à terra, embora por um caminho mais direto. Um mar de lustres acesos pendia deles, parecendo pairar tão perto do chão que era como se os visitantes mais altos corressem o risco de bater com a cabeça. Na verdade, isso era apenas mais uma ilusão causada pela magnitude do espaço, pois os lustres estavam a cerca de 4 metros de altura.

Como em todos os grandes santuários, o tamanho prodigioso de Santa Sofia tinha dois objetivos. Em primeiro lugar, servia para provar a Deus quanto o homem era capaz de se esforçar para prestar homenagem a Ele. Em segundo, funcionava como uma espécie de tratamento de choque para os fiéis – um espaço tão imponente que aqueles que nele entravam se sentiam diminuídos, seus egos aniquilados e sua existência física e importância cósmica reduzida ao tamanho de uma simples partícula diante de Deus... um átomo nas mãos do Criador.

Até o homem não ser nada, Deus nada pode fazer com ele. Martinho Lutero havia pronunciado essas palavras no século XVI, mas o conceito fazia parte da mentalidade dos construtores desde os primeiros exemplos de arquitetura religiosa.

Langdon olhou para Brüder e a Dra. Sinskey, que baixaram os olhos, antes erguidos para as alturas, até o nível do chão.

– Jesus! – exclamou Brüder.

– Sim! – respondeu Mirsat, animado. – E Alá e Maomé também!

Langdon deu uma risadinha quando o guia conduziu o olhar de Brüder até o altar-mor, onde um imenso mosaico de Jesus era ladeado por dois enormes discos que traziam gravados, em caligrafia rebuscada, os nomes em árabe de Alá e Maomé.

– Para lembrar aos visitantes os diversos usos deste espaço sagrado – explicou Mirsat –, este museu exibe tanto a iconografia cristã da época em que Santa Sofia era uma basílica quanto a iconografia islâmica de seus tempos de mesquita. – Ele sorriu com orgulho. – Apesar do conflito entre essas duas religiões no mundo real, achamos que os símbolos funcionam muito bem juntos. Sei que o senhor concorda conosco, professor.

Langdon assentiu com sinceridade, lembrando-se de que toda a iconografia cristã havia sido coberta com cal quando o edifício fora transformado em mesquita. O trabalho de restauração dos símbolos cristãos, agora lado a lado com os islâmicos, havia gerado um efeito hipnótico – em especial pelo fato de o estilo e a sensibilidade das duas iconografias serem inteiramente opostos.

A tradição cristã privilegiava imagens literais de Deus e santos, ao passo que o Islã se concentrava na caligrafia e nas formas geométricas para representar a beleza do universo de Deus. Segundo a tradição islâmica, como só Deus podia gerar a vida, não cabia ao homem criar imagens que a representassem – fossem elas de Deus, de pessoas ou mesmo de animais.

Langdon se lembrou de ter tentado explicar esse conceito a seus alunos certa vez:

– Um Michelangelo muçulmano, por exemplo, jamais teria pintado o rosto de Deus no teto da Capela Sistina. Em vez disso, teria escrito o nome de Deus. Retratar o rosto Dele teria sido considerado blasfêmia.

Em seguida, explicara por quê:

– Tanto o cristianismo quanto o islamismo são logocêntricos, ou seja, centrados na Palavra. Na tradição cristã, a Palavra se fez carne no livro de João: ―Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós.‖ Portanto, retratar a Palavra em forma humana era aceitável. Mas, na tradição islâmica, a Palavra não se fez carne, portanto, deve permanecer sob a forma de palavra. Na maioria dos casos, são representações caligráficas dos nomes das figuras sagradas do islamismo.

Um de seus alunos resumira a complexa história com uma nota de rodapé curiosamente precisa: ―Cristãos gostam de rostos; muçulmanos gostam de palavras.‖

– Aqui os senhores podem ver uma mistura única de cristianismo e islamismo – prosseguiu Mirsat, indicando com um gesto amplo o espetacular recinto.

Ele se apressou em mostrar a fusão de símbolos na imensa abside, dentre os quais se destacava a Virgem e Menino com os olhos voltados para um mirabe – nicho semicircular que, nas mesquitas, aponta na direção de Meca. Ali perto, uma escadaria subia até um púlpito parecido com aqueles usados na declamação dos sermões cristãos, mas que na verdade era um mimbar, a plataforma sagrada a partir da qual o imame conduz as preces da sexta-feira. Da mesma forma, a estrutura em forma de tablado que se assemelhava à galeria de um coro cristão era de fato uma dikka, a plataforma elevada na qual o muezim se ajoelha para entoar o cântico em resposta às preces do imame.

– Mesquistas e catedrais são surpreendentemente parecidas – afirmou Mirsat. – As tradições de Oriente e Ocidente não são tão diferentes quanto se imagina!

– Mirsat? – pressionou Brüder com um tom impaciente. – Gostaríamos mesmo de ver o túmulo de Dandolo. É possível?

Mirsat pareceu um pouco irritado, como se a pressa do visitante demonstrasse certo desrespeito ao edifício.

– Sim – apoiou Langdon. – Lamento apressá-lo, mas nosso cronograma está muito apertado.

– Muito bem – disse Mirsat, apontando para uma sacada alta à sua direita. – Vamos subir e ver o túmulo.

– Subir? – repetiu Langdon, espantado. – Enrico Dandolo não está sepultado na cripta? – Ele se lembrava do túmulo em si, mas não de sua localização. Vinha imaginando as áreas escuras do subsolo.

Mirsat pareceu não entender a pergunta.

– Não, professor. Posso garantir que o túmulo de Enrico Dandolo fica lá em cima.

 

Mas o que está acontecendo aqui?, perguntou-se Mirsat.

Assim que Langdon pediu para ver o túmulo de Dandolo, ele teve a impressão de que aquilo não passava de uma desculpa. Ninguém quer ver o túmulo de Dandolo. Imaginou que o professor estivesse interessado mesmo era no enigmático tesouro situado bem ao lado do túmulo do doge – o Mosaico do Deesis –, um Cristo Pantocrator antiquíssimo considerado uma das mais misteriosas obras de arte do museu.

Langdon está pesquisando esse mosaico e não quer que ninguém saiba, supôs Mirsat, imaginando que o professor estivesse escrevendo algum artigo secreto sobre o Deesis.

Agora, contudo, estava confuso. Era óbvio que Langdon sabia que o Mosaico do Deesis ficava no primeiro andar. Então por que estava agindo como se estivesse tão surpreso?

Será que ele está mesmo atrás do túmulo de Dandolo?

Intrigado, Mirsat guiou o trio na direção da escada, passando em frente a uma das duas célebres urnas de Santa Sofia – um mastodonte com capacidade para 1.250 litros, esculpido em uma única peça de mármore durante o período helenístico.

Subindo calado junto com os outros, Mirsat começou a se sentir um pouco inseguro. Os colegas de Langdon nem de longe pareciam acadêmicos. O homem lembrava uma espécie de soldado, musculoso e rígido, todo vestido de preto. Quanto à mulher de cabelos grisalhos, Mirsat tinha a impressão de que... já a tinha visto antes. Teria sido na TV?

Estava começando a desconfiar que o objetivo daquela visita não era o que eles diziam. O que eles realmente estão fazendo aqui?

– Ainda falta um lance – anunciou o guia com uma voz jovial quando o grupo chegou ao patamar. – Lá em cima fica o túmulo de Enrico Dandolo e, é claro... – Ele fez uma pausa e olhou para Langdon. – O célebre Mosaico do Deesis.

Nenhuma reação.

Pelo visto, Langdon não parecia estar ali por causa do mosaico. Ele e seus dois acompanhantes pareciam nutrir uma inexplicável fixação pelo túmulo de Dandolo.

C A P Í T U L O 8 9

 

Enquanto Mirsat seguia na frente escada acima, Langdon pôde perceber que Brüder e a Dra. Sinskey estavam preocupados. De fato, subir ao primeiro andar parecia não fazer sentido. Langdon não parava de pensar no vídeo subterrâneo de Zobrist e no documentário sobre as áreas submersas debaixo de Santa Sofia.

Nós temos que descer!

No entanto, se era mesmo ali que ficava o túmulo de Dandolo, a única alternativa era seguir as instruções de Zobrist. Ajoelhai-vos no dourado mouseion de santo saber, e levai ao chão vossa orelha, para ouvir o som da água que corre.

Quando enfim chegaram ao primeiro piso, Mirsat os conduziu para a direita, ao longo parapeito da galeria, que proporcionava vistas incríveis do santuário no térreo. Langdon permaneceu compenetrado no caminho à sua frente.

Mirsat tornara a discorrer com fervor sobre o Mosaico do Deesis, mas Langdon não lhe deu atenção.

Já podia ver seu alvo.

O túmulo de Dandolo.

Era exatamente como ele se lembrava: uma peça de mármore branco retangular, incrustada no piso de pedra polida e protegida por colunas e correntes.

Langdon foi correndo examinar o texto gravado na pedra.

HENRICUS DANDOLO

 

Assim que os outros chegaram, ele entrou em ação, passando por cima da corrente de isolamento e pousando os pés bem em frente à lápide.

Mirsat protestou em voz alta, mas Langdon não se deteve, ajoelhando-se depressa como se estivesse prestes a rezar aos pés do traiçoeiro doge.

Então, com um movimento que arrancou gritos horrizados de Mirsat, ele espalmou as mãos sobre a lápide e se abaixou. Quando levou o rosto ao chão, percebeu que parecia estar se curvando na direção de Meca. Aparentemente espantado com o gesto, Mirsat se calou. Um silêncio repentino recaiu sobre todo o templo.

Respirando fundo, Langdon virou a cabeça para a direita e encostou com delicadeza a orelha esquerda na lápide. Sentiu a pedra fria em sua pele.

O barulho que escutou subindo pela pedra foi claro como a luz do dia.

Meu Deus.

O final do Inferno de Dante parecia ecoar lá embaixo.

Bem devagar, virou a cabeça e olhou para Brüder e a Dra. Sinskey.

– Estou ouvindo – sussurrou. – Um barulho de água correndo.

Brüder pulou por cima da corrente de isolamento e foi se agachar ao seu lado para escutar. Após alguns segundos, pôs-se a assentir com fervor.

Agora que estavam ouvindo a água, restava uma pergunta: Para onde ela corria?

A mente de Langdon foi inundada por imagens de uma caverna semissubmersa, banhada por uma luz vermelha sinistra... em algum lugar abaixo de onde estavam.

Descei às profundezas do palácio afundado...

pois lá, na escuridão, espreita o monstro ctônico,

submerso nas águas rubras de sangue...

da lagoa que não reflete as estrelas.

Quando o professor se levantou e tornou a passar por cima da corrente, Mirsat o encarava com um olhar alarmado, como se tivesse sido traído. Com seus quase 30 centímetros a mais de altura, Langdon parou diante do guia turco.

– Mirsat – começou –, sinto muito. Como pode ver, esta é uma situação muito peculiar. Não tenho tempo para explicar, mas preciso lhe fazer uma pergunta muito importante sobre este edifício.

Mirsat conseguiu menear de leve de cabeça.

– Faça.

– Debaixo desse túmulo é possível ouvir um pequeno curso de água. Precisamos saber para onde essa água vai.

Mirsat balançou a cabeça.

– Não estou entendendo a pergunta. É possível ouvir água debaixo do piso em todos os cantos de Santa Sofia.

Os outros três se retesaram.

– Sim, principalmente quando chove – continuou Mirsat. – Santa Sofia tem mais de 9 mil metros quadrados de telhados cujas águas precisam escoar, o que pode levar dias. E é comum voltar a chover antes que o escoamento termine. O barulho de água corrente é bem comum por aqui. Os senhores devem saber que Santa Sofia fica em cima de grandes cavernas cheias de água. Foi feito até um documentário que...

– Sim, sim – disse Langdon –, mas sabe se a água que podemos ouvir aqui no túmulo de Dandolo corre para algum lugar específico?

– É claro – respondeu Mirsat. – O mesmo lugar para onde escoa toda a água de Santa Sofia. A cisterna da cidade.

– Não pode ser – declarou Brüder, saltando de volta a corrente. – Não estamos procurando uma cisterna. Estamos procurando um espaço grande e subterrâneo... com colunas, talvez?

– Exatamente – falou Mirsat. – A antiga cisterna da cidade é assim: um grande espaço subterrâneo com colunas. Na verdade, é bem impressionante. Foi construída no século VI para armazenar a água da cidade. Hoje em dia, a água lá não passa de 1,20 metro de altura, mas...

– Onde fica esse lugar?! – perguntou Brüder, sua voz ecoando no recinto vazio.

– A cisterna? – respondeu Mirsat com um ar assustado. – Fica a um quarteirão daqui, a leste deste edifício. – Ele apontou para fora. – Chama-se Yerebatan Sarayi.

Sarayi?, estranhou Langdon. Igual a Topkapi Sarayi? Durante o trajeto de carro, ele vira inúmeras placas indicando o caminho para o palácio de Topkapi.

– Mas... sarayi não significa ―palácio‖?

Mirsat assentiu.

– Isso mesmo. Nossa antiga cisterna se chama Yerebatan Sarayi... o palácio afundado.

C A P Í T U L O 9 0

 

Chovia torrencialmente quando a Dra. Elizabeth Sinskey saiu correndo de Santa Sofia acompanhada por Langdon, Brüder e Mirsat, seu guia atônito.

Descei às profundezas do palácio afundado, pensou ela.

Para chegarem à cisterna da cidade – Yerebatan Sarayi – eles precisavam voltar em direção à Mesquita Azul e, de lá, seguir um pouco para o norte.

Mirsat foi na frente.

A Dra. Sinskey não vira alternativa senão contar ao turco quem eles eram e que estavam correndo para evitar uma possível emergência de saúde dentro do palácio afundado.

– Por aqui! – chamou Mirsat, conduzindo-os pelo parque escuro.

Haviam deixado para trás a gigantesca basílica de Santa Sofia e podiam ver cintilar mais adiante as agulhas de conto de fadas da Mesquita Azul.

Correndo ao lado da doutora, o agente Brüder berrava no celular, passando as últimas informações à equipe de SMI e ordenando que fossem encontrá-lo na entrada da cisterna.

– Parece que o alvo de Zobrist é o sistema de abastecimento de água da cidade – disse, ofegante. – Vou precisar de plantas de toda a tubulação da cisterna. Vamos aplicar os protocolos de isolamento e contenção total. Precisaremos de barreiras físicas e químicas, além de um vácuo de...

– Espere um instante – gritou Mirsat. – O senhor não entendeu o que eu disse. A cisterna não fornece a água da cidade. Não mais!

Brüder abaixou o telefone e lançou um olhar fulminante para o guia.

– O quê?

– Antigamente a cisterna armazenava a água da cidade – explicou Mirsat. – Mas isso mudou. Nós nos modernizamos.

Brüder parou debaixo de uma árvore para se abrigar da chuva e os outros três o imitaram.

– Mirsat, tem certeza de que ninguém bebe a água da cisterna? – perguntou a Dra. Sinskey.

– Absoluta – respondeu o turco. – A água só fica ali parada... e, com o tempo, é absorvida pelo solo.

Elizabeth Sinskey, Langdon e Brüder trocaram olhares de incerteza. A diretora não sabia se devia sentir alívio ou temor. Se ninguém tem contato frequente com a água, por que Zobrist iria querer contaminá-la?

– Décadas atrás, quando nós modernizamos nosso sistema de abastecimento de água – explicou Mirsat –, a cisterna caiu em desuso e virou apenas um grande lago subterrâneo. – Ele deu de ombros. – Hoje em dia, é só uma atração turística.

A doutora se virou para Mirsat. Atração turística?

– Espere um pouco... as pessoas podem descer até a cisterna?

– Claro – respondeu o turco. – Muitos turistas a visitam todos os dias. A caverna é fascinante. Há passarelas acima da água e até um pequeno café. Como não é muito bem ventilado, o ambiente é meio abafado e úmido, mas mesmo assim faz muito sucesso.

Quando olhou para Brüder, a Dra. Sinskey pôde ver que o agente especializado em SMI pensava a mesma coisa que ela: uma caverna escura e úmida, cheia de água estagnada na qual um patógeno estava sendo incubado. Para completar o pesadelo, o lugar era cheio de passarelas pelas quais turistas passeavam o dia inteiro, logo acima da superfície da água.

– Ele criou um bioaerossol – declarou o agente.

Elizabeth Sinskey assentiu e seus ombros caíram.

– E isso significa? – quis saber Langdon.

– Significa que o agente infeccioso é capaz de se propagar pelo ar – explicou Brüder.

Langdon se calou e a doutora pôde ver que ele agora estava entendendo a magnitude daquela emergência.

Não era de agora que a diretora cogitava a possibilidade de um patógeno que se propagasse pelo ar. Contudo, quando ainda acreditava que a cisterna abastecesse a cidade, torcera para que Zobrist tivesse escolhido um organismo vivo que se propagasse pela água. Bactérias que viviam na água eram robustas e resistentes a mudanças climáticas, mas, em compensação, sua propagação era lenta.

Patógenos que se progavam pelo ar se espalhavam depressa.

Muito depressa.

– Se o agente se propaga pelo ar, deve ser um vírus – afirmou Brüder.

Um vírus, concordou a Dra. Sinskey. O patógeno de propagação mais veloz que Zobrist poderia ter escolhido.

Liberar debaixo d’água um vírus que se propagava pelo ar sem dúvida era uma escolha estranha, mas havia muitas formas de vida que incubavam em líquido para depois eclodir no ar: mosquitos, esporos de mofo, as bactérias causadoras da legionelose, micotoxinas, marés vermelhas e até mesmo os seres humanos. Elizabeth Sinskey teve uma sombria visão do vírus permeando a lagoa da cisterna... e depois das microgotículas infectadas se espalhando pelo ar úmido.

Mirsat agora olhava para o outro lado de uma rua engarrafada com uma expressão apreensiva. A doutora seguiu seu olhar até uma construção baixa de tijolos vermelhos e brancos cuja única porta de entrada se encontrava aberta, deixando entrever o que parecia o vão de uma escada. Algumas pessoas bem-vestidas pareciam aguardar do lado de fora, debaixo de guarda-chuvas, enquanto um porteiro controlava o fluxo de visitantes que descia a escada.

Será algum tipo de boate subterrânea?

Então viu a inscrição em letras douradas no prédio e sentiu um súbito aperto no peito. Entendeu por que Mirsat parecia tão preocupado, a menos que a boate se chamasse Cisterna e houvesse sido construída em 523 d.C.

– O palácio afundado – balbuciou o turco. – Parece... que há um concerto lá hoje.

Elizabeth Sinskey pareceu não acreditar.

– Um concerto dentro de uma cisterna?!

– É um ambiente fechado muito espaçoso – respondeu ele. – Muitas vezes é usado como centro cultural.

Brüder já parecia ter ouvido o suficiente. Foi correndo em direção ao prédio, esquivando-se do tráfego que congestionava a avenida Alemdar. Os outros saíram em disparada logo atrás dele.

Quando o grupo chegou à entrada da cisterna, a porta estava bloqueada por um grupo de espectadores que aguardava permissão para descer – um trio de mulheres de burca, um casal de turistas de mãos dadas e um homem de smoking. Estavam todos amontoados junto à porta, tentando se proteger da chuva.

A Dra. Sinskey escutou os acordes melodiosos de uma peça clássica vindos lá de baixo. Berlioz, foi o seu palpite, a julgar pela orquestração peculiar. Qualquer que fosse a música, porém, soava fora de lugar ali nas ruas de Istambul.

Assim que o grupo se aproximou da entrada, ela sentiu uma lufada de ar morno subir pela escada, vindo do fundo da terra e escapando da caverna fechada. O ar trazia até a superfície não apenas o som de violinos, mas os cheiros inconfundíveis de umidade e de pessoas aglomeradas.

Trouxe-lhe também um pressentimento funesto.

Quando um punhado de turistas emergiu da escada, conversando animadamente ao sair, o porteiro permitiu que o grupo seguinte descesse.

Na mesma hora, Brüder avançou para entrar, mas o porteiro o deteve com um aceno educado.

– Um instante, senhor. A cisterna está com a lotação máxima. O próximo visitante deve demorar menos de um minuto para sair. Obrigado.

Brüder pareceu prestes a entrar à força, mas a Dra. Sinskey pousou uma das mãos em seu ombro e o puxou de lado.

– Espere – ordenou ela. – Sua equipe está a caminho e você não vai conseguir fazer uma busca neste lugar sozinho. – Ela indicou com um gesto a placa que havia na parede ao lado da porta. – A cisterna é imensa.

A placa informativa descrevia um recinto subterrâneo do tamanho de uma catedral, cujo comprimento equivalia a quase dois campos de futebol, e com um teto de mais de 9 mil metros quadrados sustentado por uma floresta de 336 colunas de mármore.

– Olhem só para isso – disse Langdon, parado a poucos metros de distância. – Vocês não vão acreditar.

A Dra. Sinskey se virou. Langdon apontou um cartaz na parede que anunciava o concerto.

Meu Deus.

A diretora da OMS havia acertado ao identificar o estilo da música que estava sendo executada; era de fato uma peça romântica. No entanto, não havia sido composta por Berlioz, mas por outro compositor do gênero: Franz Liszt.

Naquela noite, nas profundezas da terra, a Orquestra Sinfônica Estatal de Istambul estava executando uma das obras mais conhecidas de Franz Liszt – a Sinfonia Dante –, uma composição inteira inspirada pela descida de Dante Alighieri ao Inferno.

– Faz uma semana que a sinfônica está tocando esse concerto – disse Langdon, examinando as letras miúdas do cartaz. – É um espetáculo gratuito. Patrocinado por um doador anônimo.

Elizabeth Sinskey achava que sabia quem era o doador. Pelo visto, o pendor de Zobrist para a teatralidade era também uma impiedosa estratégia prática. Aquela semana de concertos gratuitos atrairia milhares de turistas a mais do que o normal para dentro da cisterna, colocando-os em uma área congestionada... onde iriam respirar o ar contaminado para em seguida retornar a suas casas, tanto em Istambul quanto no resto do mundo.

– Senhor? – disse o porteiro, chamando Brüder. – Temos lugar para mais duas pessoas.

O agente se virou para a Dra. Sinskey.

– Chame as autoridades locais. Independentemente do que encontrarmos lá embaixo, vamos precisar de ajuda. Quando a minha equipe chegar, peça que eles me chamem pelo rádio para que eu os atualize. Vou descer e ver se consigo descobrir onde Zobrist pode ter amarrado esse troço.

– Sem máscara de gás? – estranhou a doutora. – Você não tem como saber se o saco de Solublon está intacto.

Brüder fechou a cara e ergueu a mão para sentir o vento morno que subia pela porta.

– Detesto dizer isso, mas, se o agente infeccioso tiver sido liberado, calculo que todo mundo na cidade já deva estar infectado.

Elizabeth Sinskey estava pensando a mesma coisa, mas não quisera dizer nada na frente de Langdon e Mirsat.

– Além do mais – acrescentou Brüder –, já vi o que acontece com multidões quando minha equipe chega usando roupas de proteção. Enfrentaríamos o pânico generalizado e uma debandada.

A diretora da OMS decidiu acatar a sugestão do agente; afinal ele era o especialista e não era a primeira vez que enfrentava uma situação como aquela.

– Nossa única alternativa realista é supor que lá embaixo ainda seja seguro, partir para a ação e tentar conter a ameaça – disse-lhe Brüder.

– Está bem – concordou a Dra. Sinskey. – Faça isso.

– Tem mais um problema – interveio Langdon. – E Sienna?

– O que tem ela? – indagou Brüder.

– Sejam quais forem as suas intenções aqui em Istambul, ela é muito boa com idiomas e deve falar um pouco de turco.

– E daí?

– Sienna sabe que o poema menciona o ―palácio afundado‖ – continuou Langdon. – E, em turco, ―palácio afundado‖ aponta literalmente... – Ele indicou a placa em cima da porta, que dizia ―Yerebatan Sarayi‖ – ... para cá.

– É verdade – concordou Sinskey, parecendo esgotada. – Ela pode muito bem ter entendido isso sem nem precisar passar por Santa Sofia.

Brüder olhou para a única porta da cisterna e resmungou um palavrão.

– Certo, se ela estiver lá embaixo e planejar romper o saco de Solublon antes de conseguirmos isolá-lo, pelo menos não deve ter chegado há muito tempo. A área é imensa e ela provavelmente não faz a menor ideia de onde procurar. Além disso, com tanta gente por perto, talvez não consiga entrar na água sem ser notada.

– Senhor? – tornou a chamar o porteiro. – Gostaria de entrar agora?

Brüder viu outro grupo de espectadores atravessando a rua na direção deles e assentiu para o porteiro.

– Eu vou junto – disse Langdon, indo atrás dele.

Brüder se virou para encará-lo.

– Nem pensar.

Langdon assumiu um tom de voz inflexível:

– Agente Brüder, um dos motivos para estarmos nessa situação é o fato de Sienna Brooks ter passado o dia inteiro me enganando. E, como o senhor mesmo disse, talvez já estejamos todos infectados. Vou ajudá-lo, queira o senhor ou não.

Depois de encará-lo por alguns segundos, Brüder acabou cedendo.

 

Quando Langdon atravessou a porta e começou a descer a escada íngreme atrás de Brüder, sentiu a rápida lufada de ar morno vinda das entranhas da cisterna. A brisa úmida trazia consigo os acordes da Sinfonia Dante de Liszt, bem como um cheiro conhecido, mas indescritível: o de uma grande aglomeração de pessoas reunidas em um espaço fechado.

De repente, sentiu-se envolvido por uma mortalha espectral, como se dedos compridos, invisíveis, se estendessem das profundezas da terra para arranhar sua pele.

Essa música.

Nesse exato momento, o coro da orquestra sinfônica – composto por uma centena de vozes – entoava um trecho conhecido da peça, articulando cada sílaba do texto macabro de Dante.

– Lasciate ogne speranza, voi ch"entrate!

As seis palavras do verso mais famoso de todo o Inferno subiram pela escada como o agourento fedor da morte.

Acompanhado por um crescendo de trompetes e trompas, o coro tornou a entoar o mesmo alerta.

– Lasciate ogni speranza, voi ch"entrate!

Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais!