Inferno

Dan Brown · Capítulo 25 de 90

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Inferno

C a P Í T U L o 2 7

 

Quando a polícia entrou no Palazzo Pitti, Sienna e Langdon já batiam em retirada para dentro do palácio, mudando de direção para fugir dos agentes que se aproximavam. Atravessaram correndo o cortile e tornaram a passar pelo café onde um burburinho já se espalhava, com turistas esticando o pescoço para tentar localizar a origem de toda aquela comoção.

Sienna ficou admirada que as autoridades os tivessem achado tão depressa. O drone deve ter desaparecido porque já nos localizou.

Ela e Langdon encontraram o mesmo túnel estreito pelo qual tinham descido dos jardins e, sem hesitar, mergulharam nele de volta, subindo os degraus às pressas. No final, a escada dobrava à esquerda e contornava um alto muro de contenção. Enquanto corriam, acompanhando-o, a altura do muro diminuía, até toda a extensão dos Jardins de Boboli ficar visível.

De repente, Langdon pegou o braço de Sienna e a puxou para trás, agachando-se junto ao muro para se esconder. Sienna também tinha visto.

A uns 300 metros de distância, no aclive acima do anfiteatro, uma falange de policiais vinha descendo, vasculhando bosques, falando com turistas e se comunicando por meio de walkie-talkies para coordenar a busca.

Estamos encurralados!

Quando conheceu Robert Langdon, Sienna jamais teria imaginado que a situação chegaria àquele ponto. Foi muito além do que eu esperava. Ao sair com ele do hospital, pensara que eles estivessem fugindo de uma mulher armada de cabelos espetados. Agora fugiam de toda uma força militar e das autoridades italianas. Percebeu que as chances de conseguirem escapar eram quase nulas.

– Tem alguma outra saída? – perguntou Sienna, ofegante.

– Acho que não – respondeu Langdon. – Este jardim é uma cidade murada, igual ao... – Ele se deteve, virou-se e olhou para o leste. – Igual ao Vaticano. – Uma estranha fagulha de esperança atravessou seu rosto.

Sienna não conseguia imaginar o que o Vaticano tinha a ver com aquela enrascada, mas Langdon começou a assentir, olhando para a parte de trás do palácio, a leste.

– Não garanto nada – disse ele, puxando-a. – Mas talvez haja outra maneira de sair daqui.

De repente, dois vultos contornaram o muro de contenção e se materializaram bem na sua frente, quase trombando com eles. Ambos vestiam preto e, por um instante de pavor, Sienna achou que fossem os soldados que tinham invadido seu prédio. Quando passaram, contudo, viu que eram apenas dois turistas – italianos, supôs, a julgar pela roupa estilosa de couro preto.

Então Sienna teve uma ideia. Com o sorriso mais caloroso possível, tocou o braço de um dos turistas.

– Può dirci dov"è la Galleria del costume? – perguntou, falando depressa em italiano, querendo saber como chegar ao famoso museu da indumentária localizado dentro do palácio. – Io e mio fratello siamo in ritardo per una visita privata. – Meu irmão e eu estamos atrasados para uma visita particular.

– Certo! – O homem lhes sorriu, parecendo disposto a ajudar. – Proseguite dritto per il sentiero! – Virou-se e apontou para o oeste, ao longo do muro, na direção contrária à que Langdon estivera olhando antes.

– Molte grazie! – agradeceu Sienna, abrindo outro sorriso enquanto os dois homens se afastavam.

Langdon assentiu para ela, impressionado, parecendo entender por que tinha feito aquilo. Se a polícia começasse a interrogar os turistas, talvez fosse informada de que eles estavam a caminho do museu da indumentária, que, segundo o mapa na parede à sua frente, ficava na ponta ocidental do palácio... o extremo oposto da direção em que iriam.

– Temos que chegar àquele caminho ali – disse ele, apontando para o outro lado de uma esplanada, em direção a uma trilha que seguia por outro declive, para longe do palácio.

O caminho de cascalho era protegido na parte mais alta por cercas vivas imponentes, proporcionando proteção suficiente das autoridades que agora desciam a encosta a poucas centenas de metros dali.

Sienna calculou que as chances de conseguirem atravessar a área descoberta até o caminho protegido eram mínimas. Turistas reunidos na esplanada observavam a polícia com curiosidade. Ao longe, já era possível ouvir de novo o leve zumbido do drone.

– É agora ou nunca – falou Langdon, pegando-a pela mão e puxando-a em direção à esplanada, onde começaram a ziguezaguear por entre os turistas, cada vez mais numerosos.

Sienna teve o impulso de sair correndo, mas Langdon a segurou firme, andando por entre a multidão a passos rápidos porém calmos.

Quando enfim chegaram à entrada do caminho, Sienna olhou para trás por sobre o ombro para ver se alguém os localizara. Os únicos policiais à vista, virados para o outro lado, olhavam para cima, na direção do som do drone que se aproximava.

Ela tornou a se virar e saiu correndo com Langdon pela trilha.

Logo à sua frente, o horizonte da antiga Florença agora despontava acima das árvores. Ela viu a cúpula de telhas vermelhas do Duomo e a torre verde, vermelha e branca do campanário de Giotto. Por um instante, também conseguiu divisar as ameias da torre do Palazzo Vecchio – seu destino aparentemente inalcançável –, mas à medida que foram descendo o caminho, os altos muros de contenção voltaram a bloquear a vista.

Quando chegaram ao pé do declive, Sienna, sem fôlego, se perguntou se Langdon saberia mesmo para onde eles estavam indo. A trilha desembocava em um jardim em forma de labirinto, mas Langdon, parecendo confiante, dobrou à esquerda em direção a um amplo pátio de cascalho e começou a contorná-lo, mantendo-se atrás de uma cerca viva à sombra das árvores mais altas. O pátio estava deserto. Era um estacionamento para funcionários, não uma área turística.

– Para onde estamos indo? – perguntou Sienna.

– Estamos quase lá.

Lá onde? Todo o pátio era cercado por muros que tinham a altura de, no mínino, três andares. A única saída que ela via era uma passagem para carros à esquerda, fechada por uma enorme grade de ferro fundido que parecia remontar à época do palácio original, quando era preciso resistir aos exércitos invasores. Para além dessa grade, viu a polícia reunida na Piazza dei Pitti.

Mantendo-se junto à vegetação que contornava o pátio, Langdon seguiu adiante, encaminhando-se diretamente para o muro à frente deles. Sienna correu os olhos pelo paredão em busca de alguma entrada, mas tudo o que pôde ver foi um nicho contendo o que devia ser a estátua mais feia que já vira.

Meu Deus, os Médici podiam comprar qualquer obra de arte do mundo e foram escolher logo essa?

A escultura diante deles representava um anão obeso e nu montado em uma tartaruga gigante. Os testículos do anão estavam esmagados contra o casco do animal, cuja boca babava água como se ele estivesse doente.

– Eu sei – disse Langdon, sem diminuir o passo. – Esse daí é Braccio di Bartolo, um famoso anão da corte. Acho que eles deveriam colocá-lo dentro daquela banheira gigante.

Langdon dobrou bruscamente à direita e seguiu em direção a um lance de escadas que Sienna não tinha visto até então.

Uma saída?!

Mas a esperança durou pouco.

Assim que fez a curva e começou a descer os degraus atrás de Langdon, ela percebeu que estavam correndo rumo a um beco sem saída, só que as paredes agora eram duas vezes mais altas do que as demais.

Além disso, Sienna notava que sua longa jornada estava prestes a terminar à entrada de uma caverna... uma funda gruta escavada naquela parede. Não é possível que ele esteja nos levando para lá!

Sobre a entrada escancarada da caverna, portentosas estalactites se assomavam como punhais. Dentro da cavidade, formações gotejantes se contorciam e escorriam pelas paredes, como se a pedra estivesse derretendo e assumindo formas que, para espanto de Sienna, incluíam algumas que lembravam seres humanos parcialmente enterrados nas paredes, cujos corpos pareciam estar sendo consumidos pela pedra. A cena toda lhe pareceu digna do Mappa dell"Inferno de Botticelli.

Por algum motivo, Langdon parecia inabalado e continuou correndo direto para a entrada da caverna. Mais cedo, ele tinha feito um comentário sobre a Cidade do Vaticano, mas Sienna estava certa de que não havia cavernas bizarras dentro dos muros da Santa Sé.

Quando chegaram mais perto, os olhos de Sienna foram atraídos pelo entablamento que se estendia sobre a entrada – um conjunto fantasmagórico de estalactites e saliências rochosas indistintas que pareciam engolir duas mulheres reclinadas e ladeadas por um escudo incrustado com seis bolas ou palle: o famoso brasão da família Médici.

Langdon dobrou à esquerda de repente, afastando-se da entrada e seguindo em direção a algo que Sienna ainda não tinha visto: uma pequena porta cinza à esquerda da caverna. Feita de madeira gasta, não parecia ter muita importância, como se fosse uma despensa ou um armário para guardar ferramentas.

Langdon correu até a porta, claramente esperando poder abri-la, mas não havia maçaneta, apenas uma fechadura de latão. Pelo jeito, só podia ser aberta por dentro.

– Droga! – Os olhos de Langdon brilharam de aflição. Seu ar esperançoso desaparecera quase por completo. – Eu estava torcendo para...

De repente, o zunido penetrante do drone ecoou nas paredes altas que os cercavam. Sienna se virou e viu a aeronave se erguer bem acima do palácio e vir em sua direção.

Langdon também o viu, óbvio, pois agarrou a mão de Sienna e disparou em direção à caverna. Os dois se agacharam no último instante, sumindo de vista sob as estalactites.

Que final mais apropriado, pensou ela. Nós dois correndo pelos portões do inferno.

C A P Í T U L O 2 8

 

Cerca de um quilômetro a leste dali, Vayentha estacionou. Ela havia chegado à cidade velha pela Ponte alle Grazie e então dera a volta até a Ponte Vecchio – a famosa ponte de pedestres que interligava o Palazzo Pitti à antiga Florença. Depois de prender o capacete na moto, atravessou a ponte e se misturou aos turistas.

Uma brisa fresca de março soprava rio acima, agitando os cabelos curtos espetados de Vayentha e fazendo-a lembrar que Langdon conhecia sua aparência. Ela parou em uma das muitas barracas da ponte, comprou um boné de beisebol com os dizeres amo firenze e o enterrou na cabeça.

Alisou o macacão de couro para disfarçar a pistola e se posicionou perto do meio da ponte, recostando-se de forma casual em uma coluna, de frente para o Palazzo Pitti. Dali podia ver todos os pedestres que cruzavam o Arno em direção ao centro da cidade.

Langdon está a pé, pensou. Se ele conseguir passar pela Porta Romana, esta ponte será a rota mais lógica para chegar à cidade velha.

Sirenes soavam a oeste, na direção do Palazzo Pitti, e ela se perguntou se isso era uma boa ou má notícia. Será que ainda estão procurando por ele? Ou já o terão encontrado? Ao aguçar os ouvidos na tentativa de obter alguma pista sobre o que estava acontecendo, escutou um novo som de repente: o zunido agudo de alguma coisa acima dela. Por instinto, seus olhos se voltaram para o céu e na mesma hora ela viu um pequeno helicóptero guiado por controle remoto sobrevoando em alta velocidade o palácio e mergulhando em direção às copas das árvores rumo ao canto noroeste dos Jardins de Boboli.

Um drone de reconhecimento, pensou com uma onda de esperança. Se ele está no ar, Brüder ainda não encontrou Langdon.

O drone se aproximava depressa. Parecia vasculhar o canto noroeste dos jardins, área mais próxima da Ponte Vecchio e da posição de Vayentha; isso a deixou ainda mais animada.

Se Langdon despistou Brüder, sem dúvida deve estar vindo nesta direção.

Enquanto ela observava, no entanto, o drone de repente deu um rasante e mergulhou atrás de um muro de pedra alto, sumindo de vista. Ela o ouviu pairar em algum ponto abaixo das copas das árvores, como se houvesse localizado algo de interessante.