Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 1 de 17

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Jogo, Mulheres e Morte

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JOGO,

 

MULHERES

 

E MORTE

 

A. A. FAIR

CAPÍTULO I

 

O Dr. Crabtree deseja falar consigo, antes do

senhor ir ver a doente. Quer fazer o favor de me acompanhar? - disse-me a enfermeira.

Caminhava à minha frente. De todo o seu ar,

da maneira ritmada como soavam os saltos dos sapatos ao bater no chão, do restolhar do seu uniforme, emanava-se confiança própria dos bons profissionais. Voltou à direita, abriu uma porta e deixou-me passar.

O Sr. Lan, anunciou a enfermeira. Entrei e a enfermeira fechou a porta atrás de

mim.

O Dr. Crabtree era um indivíduo de nariz

esguio, encimado por uns olhos penetrantes. Ao encarar-me, tive a impressão de estar a olhar para uma linha recta e comprida, com um ponto de cada lado.

O Sr. Donald Lam?

Exactamente.

Uns dedos compridos e frios envolveram-me

a mão.

Faça o favor de se sentar.

Sentei-me e disse-lhe:

O meu avião parte dentro de quarenta e sete

minutos.

Vou tentar ser breve. Vem buscar a sr.a Cool?

Sim.

Que sabe acerca do seu estado? Pouco. Teve gripe e uma pneumonia. O

médico, em Los Angeles, sugeriu este sanatório para um longo repouso.

Disse-lhe por quê?

- Não.

O senhor é sócio da doente? Sou empregado.

Ela dirige uma agência de detectives? É verdade.

E deixou o senhor a dirigi-la na sua ausência? Exactamente.

A doente tem-lhe elevado apreço, uma estima

que é praticamente afeição.

As folhas de salários não o demonstram. Sorriu-se.

Bem, desejo que o senhor saiba exactamente

qual o seu estado. Não pretendo alarmá-la desnecessariamente, de modo que nada lhe direi. Mas se se tornasse necessário, desejava que o médico dela, em Los Angeles, lho dissesse.

O que é que há acerca do seu estado? O senhor sabia, evidentemente, quanto é que

ela pesava?

Exactamente, não. Disse-me uma vez que

tudo quanto comia se transformava em gordura. Afirmou que era capaz de fazer uma dieta de água pura e mesmo assim aumentar de peso.

O médico aceitou as minhas palavras na

acepção literal do termo.

Oh, dificilmente, disse ele. Aquilo que a Sra. Cool pretendia sem dúvida dizer era que as suas enzimas digestivas são bastante eficientes e que...

Consegue extrair a última gota de alimento de

tudo o que come.

Bem, mais ou menos isso.

Estudou-me por uns momentos. Fiz-lhe uma dieta bastante rigorosa. Não vai segui-la com certeza. É ao senhor que compete fazer com que a siga. Não posso, tenho o tempo todo tomado. Ela deixou-se arrastar para um estado

deplorável, no que diz respeito ao peso.

Não se importe, retorqui. Procurou ser magra

até ao momento em que verificou que o marido a atraiçoava, depois deixou-o para as suas amigas e passou a comer tudo o que lhe apetecia. De qualquer modo, foi isso que me disse uma vez. Depois o marido morreu e ela continuou a comer...

Bem, agora já atingiu um peso muito razoável,

e é necessário que mantenha esse peso. No fim de contas, como sabe, o coração dela não vai suportar para sempre o esforço de a manter de pé a ela e ao enorme peso de carnes que tem.

Existe não só o esforço extra devido ao peso a

mais, como, além disso, cada quilo de gordura exige metros de capilares para o manterem abastecido de sangue.

Já falou com a Sra. Cool acerca disso? - Já

Que respondeu?

Pude descortinar indignação nos seus olhos. Disse-me que podia ir para o diabo. Tal e

qual, meu caro senhor.

Isso não me surpreende.

O médico carregou num botão. A enfermeira

apareceu à porta, sem demora.

O Sr. Lam vem buscar a Sr. Cool. Já estará

pronta para partir?

Está sim, Sr. doutor.

Muito bem.

A conta está paga? Perguntei-lhe, tirando ao

mesmo tempo da algibeira a carta que enviara para o meu escritório.

O médico evitou o meu olhar. Já está paga. A Sra. Cool protestou, e nós

acertámos as... as... contas.

Segui a enfermeira por um comprido corredor

e, depois, subimos um lance de escadas. Parou defronte de uma porta.

Abri-a e Bertha Cool, gritou: Saia daqui para fora! Já paguei a minha conta

e não quero ver mais termómetros à minha frente... oh, é o Donald!

Que alegria para os meus olhos! Entre, meu

caro! Bem, não se ponha aí a olhar para mim dessa maneira. Entre! Agarre na minha mala, e vamos embora deste inferno o mais depressa possível. Mas... o que é que se passa?

Quase não a reconhecia! Disse-lhe.

Eu quase não me conheço a mim mesma.

Emagreci enquanto estive doente, e o médico diz que não poderei voltar a ter o mesmo peso. Que vá para o diabo! Sabe quanto é que eu peso, Donald? Oitenta quilos. Veja lá! Não tenho uma única peça de roupa que me sirva.

Está com bom aspecto.

Qual quê! Isso deve ser conversa fiada do

médico.

Disse-lhe para me envaidecer, não foi,

Donald? O aldrabão naturalmente disse-lhe que o meu coração já não podia aguentar o esforço.

Quem lhe deu essa ideia?

Seria uma péssima detective se não fosse

capaz de adivinhar o que pensa um tipo daqueles. Perguntar quando é que o avião chegava, quando eu estava à sua espera e dizer à enfermeira que queria vê-lo logo que você chegasse. Palermices!

O que é que tem feito lá pela agência, meu

querido?

Temos ganhado algum dinheiro? A sua

Bertha tem estado a fazer grandes despesas, e agora temos que ter cautela com todos os tostões que gastamos. E sabe o que fez o cobrador dos impostos? Valha-me Deus, Donald, está certo que sejamos patriotas; mas, eu não queria pagar o maldito programa de rearmamento, sozinha. Eu... Agarrei na mala e disse-lhe:

O avião parte às dez horas. Tenho um táxi à

espera

lá fora e...

Um táxi! À espera, lá fora!

Sim.

Mas, por que não o disse logo? Tem estado

para aqui a palrar enquanto o taxímetro está a marcar. Será isso uma maneira de me auxiliar a diminuir as despesas? Você é um bom rapazinho, Donald; mas, naturalmente, julga que o dinheiro cresce nas árvores, pela maneira como o atira pela janela fora...

A enfermeira segurou a mão de Bertha Cool,

quando esta saía à porta.

Adeus, Sra. Cool, muitas felicidades. Adeus, disse Bertha, sem olhar para trás. Seguia pelo corredor fora em passo rápido. O motorista não tem o taxímetro a contar

enquanto espera por nós, avisei-a.

Oh, retorquiu Bertha e, ao mesmo tempo,

abrandou o passo.

Descemos as escadas, saímos para a rua, e o

motorista do táxi pegou na mala de Bertha.

Para o aeroporto? Perguntou o motorista. Sim, respondi.

Bertha acomodou-se nos estofos do carro. O que há a respeito do Caso Gilman, Donald? Está encerrado.

Encerrado? Mas, como é que posso ganhar

dinheiro se você encerra o único caso decente...

Encontrámo-la. O homem pagou-nos um

bónus.

- Oh!

Agora temos outro caso.

- Qual?

Não sei. Um tal Whitewell escreveu para o

escritório a pedir que um representante nosso se encontrasse, hoje à noite, com ele, em Las Vegas.

Enviou dinheiro?

Não.

Que lhe disse?

Telegrafei-lhe a dizer que iria encontrar-me

com ele.

Não pediu um adiantamento? Não. De qualquer maneira temos que passar

por lá.

Posso parar em Las Vegas sem pagar mais

nada pelo bilhete.

Eu sei; mas, mesmo assim podia ter arrancado

algum dinheiro para despesas a esse tal Whiteside e...

Whitewell.

Está bem, não interessa o nome. O que é que

ele quer?

Não disse.

Tirei a carteira do bolso.

Aqui está a carta que me escreveu. Repare no

papel do sobrescrito. Podiam utilizá-lo em vez de chapas metálicas para a construção de aviões.

Bertha pegou na carta.

O melhor é eu ficar também em Las Vegas.

Não, senhora. Tem que descansar ainda mais

uma ou duas semanas.

Palermices! Eu própria falarei com o cliente. Não dissemos mais nada.

Chegámos ao aeroporto quinze minutos antes

da partida do avião. Sentámo-nos e esperámos. Passados momentos, o avião aterrou pelo lado leste, atravessou o campo e, na plataforma, começou a ser reabastecido.

Um alto-falante avisou os passageiros para

embarcarem.

Abriu-se uma porta da gare. Os mecânicos e empregados, que tinham

estado a reabastecer o avião e a fazer uma inspecção rápida dos motores, afastaram-se. A hospedeira abriu a porta do avião e um empregado uniformizado encostou uma escada. Entrámos no avião. Já lá se encontravam meia dúzia de passageiros em trânsito. Bertha sentou-se e suspirou longamente: Estou esfomeada, Donald. Vá ao bar do aeroporto e compre-me uma tablete de chocolate.

Não há tempo.

Não seja parvo. Ainda temos dois minutos. Parece-me que o seu relógio está atrasado. Recostou-se com um suspiro. O homem, que

estava sentado junto da janela, ao lado dela, lançou-lhe um olhar de esguelha.

Está bem instalada? Perguntei-lhe.

Está tudo bem, com excepção dos meus

joelhos que estão a tremer de fraqueza. Estou completamente vazia.

Os malditos médicos secaram-me em

absoluto.

O homem, que se encontrava a meu lado,

mostrou-me o seu relógio e apontou o mostrador. Faltavam ainda três minutos e meio para a partida.

Tenho a certeza, disse o homem, de que o meu

relógio está absolutamente certo.

Bertha esticou-se no seu lugar para procurar

ver o relógio do passageiro. Entretanto, eu dizia-lhe:

É verdade. Já sabia que o relógio desta

senhora estava ligeiramente atrasado. Como vê o meu está certíssimo. Tive o cuidado, hoje de manhã, de o acertar no aeroporto.

Tirei o meu relógio e mostrei-lho. Marcava a

mesma hora.

O homem ainda disse qualquer coisa, depois

mudou de opinião e pôs-se a olhar para fora do avião.

Entretanto, os motores do aparelho

começavam a trabalhar.

Um passageiro atrasado apareceu a correr.

Subiu as escadas e sentou-se num lugar vazio com todo o aspecto de uma pessoa que conseguira fazer uma coisa quase impossível.

Ao ver que o avião não partia imediatamente,

ficou surpreendido.

Bertha Cool olhou para o seu relógio de pulso

e depois voltou-se para mim. Dois minutos e quinze segundos depois o avião começou a rolar pela gare em direcção à pista.

Depois de termos descolado e do barulho dos

motores ter diminuído, transformando-se num sussurro monótono e grave, que convidava a dormir, Bertha começou a dormitar.

O homem, que estava sentado a meu lado,

virou-se de maneira que os seus lábios ficaram quase encostados ao meu ouvido:

O senhor não me compreendeu mal, acerca

das horas, pois não?

Não.

Riu-se.

Vai desculpar-me; mas, compreende,

interesso-me por psicologia.

É um assunto interessante.

O senhor esteve no sanatório de Springs? Ela é que esteve.

Ouvi aquilo que a senhora disse acerca dos

médicos e dos joelhos a tremerem. Parece-me bastante duro.

É verdade.

Estudou-me por alguns momentos, depois

encostou-se para trás, e voltou a olhar pela janela. Passada mais meia hora voltou-se novamente para mim.

Ela está a emagrecer?

Acenei afirmativamente.

Voltou para a sua janela por um pedaço, e

recostei-me.

Pouco depois, ouvi-o voltar-se e senti que

estava a olhar para mim. Abri os olhos. Estava a observar-me concentradamente.

Desviou o olhar à pressa.

Fiz-lhe sinal para se aproximar e disse-lhe, em

voz baixa:

O médico entende que ela deve emagrecer.

Teve gripe e uma pneumonia. Perdeu cerca de cinquenta quilos de peso.

O médico quer que mantenha o peso actual.

Mas, nunca negou nada à sua voracidade. Adora comer. Agora, quer fazer o favor de me deixar em paz para ver se durmo?

Pareceu surpreendido inicialmente, depois

percebeu a ideia e riu-se.

Está certo, disse.

Dormitei durante alguns minutos, depois

despertei quando descíamos para aterrar. O homem que se encontrava ao meu lado inclinou-se na minha direcção e bateu-me num joelho.

Os motores tinham agora sido reduzidos, e,

por isso, baixou a voz, perguntando-me apressadamente:

Há quanto tempo é que tinha tanto peso. Não sei.

Vai ter bastante trabalho para evitar que volte

a engordar.

Não vou. Isso seria a morte.

O senhor é parente?

- Não!

Pareceu desapontado por momentos, e depois

disse:

Talvez eu o possa auxiliar e ao mesmo tempo

tentarei fazer uma experiência psicológica interessante. Aposto em como faz já bastante tempo que nenhum homem reparou nela como mulher. Nesta paragem, vou tentar aproximar-me e depois verá o que acontece.

Não faça isso por minha conta. Gostaria de fazê-lo. Deve ser interessante. Isso é lá consigo.

O avião aterrou, deslizou pela pista

alcatroada, rolou passando em frente dos hangares indo parar próximo de um grande edifício de administração e gare de passageiros.

A hospedeira de bordo informou: Dez minutos de paragem.

Os motores calaram-se e a maior parte dos

passageiros saiu.

Como é que se sente? perguntei a Bertha. Fraca como uma franga.

Isso é de esperar, depois da sua doença. Estou morta de fome.

Vai sair?

Penso que sim. Queria comprar algumas

tabletes de chocolate.

Bertha saiu, encaminhou-se para o edifício, viu a tabacaria, atravessou o átrio, e comprou duas tabletes de chocolate.

O homem, que estivera sentado junto de mim

aproximou-se dela e disse-lhe qualquer coisa. Bertha olhou para ele com olhos duros, como se fossem diamantes. Este mirou-a dos pés à cabeça com ar aprovador, começou a afastar-se e, depois, voltou atrás e disse alguma coisa que fez Bertha sorrir.

Comprei um jornal e li os cabeçalhos. Alguns

minutos depois, o homem que tinha estado a falar com Bertha, aproximou-se de mim e disse em voz baixa:

Quer fazer uma aposta?

- Não.

Riu-se.

Era um pássaro na mão. Apostava consigo, o

que quisesse, em como ela não come a segunda tablete de chocolate.

Fechei o jornal.

Bertha pagou um níquel pela tablete, não

pagou?

Pagou.

Então, come-a com certeza.