Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo XIV · Cerca das duas da tarde encontrei Louie.
Estava sentado a uma mesa, na sala das traseiras de uma daquelas tabernas ordinárias das ruas transversais. Uma garrafa meia de whisky encontrava-se em cima da mesa, à sua frente. Os nós dos dedos da mão que estava a agarrar no copo não tinham pele e deitavam sangue. Os seus olhos estavam vidrados e parados, com uma intensidade enorme. Louie balbuciava qualquer coisa quando cheguei junto dele.
Olhou para mim.
Oh, é você, disse, com voz pastosa. Afastei a garrafa de whisky para um lado. E se viesse para casa, Louie? Franziu a testa.
É verdade, você tem razão. Agora tenho uma
casa, não é? Eu... oh, meu Deus.
Levantou-Se, meteu a mão na algibeira das
calças e tirou de lá duas notas de um dólar e algumas moedas.
Sabe o que fiz, companheiro? perguntou Louie, os seus olhos observando-me com aquela expressão fixa. Gastei todo o dinheiro que me deu... tudo o que sobrou da mercearia, à excepção destes cobres. Falhei miseravelmente.
Sinto de vez em quando aproximar-se o vício,
e quando me ataca, nada posso...
Em quem é que você bateu, Louie? Perguntei. Olhou para a mão ensanguentada e carregou
as sobrancelhas.
Ora veja lá se não tem piada. Julguei que tinha
batido em alguém, e depois pensei que isso era uma espécie de ideia fixa que um homem tem quando está piela. Naturalmente foi da última vez. Espere um momento. Deixe-me pensar.
Já sei quem foi. Foi Sid Jannix. Em tempos
esteve quase a disputar o título. Um bom profissional... mesmo muito bom, mas eu apliquei-lhe o velho um-dois. Deixe mostrar como é. Ganhei com ele o campeonato da marinha... deve ter sido o campeonato... claro, foi em Honolulu, em...
Ora, deixe ver. Terá sido...
Vamos embora, Louie, vamos para casa. Não está aborrecido por causa do dinheiro,
pois não?
Não.
Compreende como estas coisas são? Com certeza.
Você é o melhor amigo que um tipo pode ter.
A primeira vez que lhe dei um soco, vi logo que gostava de si, tal como se tivesse apertado a mão a um tipo, dar-lhe um soco no queixo e... bem, vamos para casa.
Consegui levá-lo até ao passeio, aguentei-o
pela rua abaixo e metemo-nos no automóvel. Estávamos a meio caminho quando a enormidade do seu abuso de confiança se lhe tornou visível. Queria sair imediatamente do automóvel.
Deixe-me sair, amigo. Eu não sou digno de
viajar no mesmo automóvel consigo. E agora não posso encarar Miss Helen. Sabe o que é que eu fiz? Roubei o dinheiro.
Sabia que você não tinha muito, tinha
somente o dinheiro que economizara, e eu roubei-o. Quero ir-me embora...
O que eu merecia era que batesse com a
cabeça em qualquer lado e morresse. Não presto para nada. De qualquer modo já fui muito massacrado. Não tenho... não tenho nenhuma força de vontade.
Coloquei o meu braço por cima dos seus
ombros e agarrei-lhe na mão. Louie procurava abrir o fecho da porta.
Esqueça-se disso, Louie, disse, enquanto
guiava o carro com uma das mãos. Nenhum, de nós é perfeito. Eu também tenho os meus defeitos.
Quer dizer que me perdoa?
- Claro.
Não fica zangado?
- Não.
Começou a chorar, e depois embrenhou-se
num arrependimento lacrimoso até que chegámos à vivenda. Helen e eu metemo-lo na cama.
Bem, disse Helen, depois de Louie estar
deitado e de lhe termos colocado ao lado uma grande garrafa com água e agora?
Eu fico ao pé dele respondi-lhe. Leva o carro,
vai à cidade, e vai ao cabeleireiro de que estavas a falar.
Helen olhou para mim, e hesitou uns
momentos.
- Tenho que te dar um cheque. Não tenho... Helen riu-se.
Não penses nisso. Eu tenho dinheiro. Todo o dinheiro de que necessitas? Claro. Quando me vim embora trouxe o
dinheiro todo, o meu e o de Pug. E ouve uma coisa, Donald, se te faltar o dinheiro, posso emprestar-te. Eu sei que quem paga as despesas és tu, e sei também que quando tudo terminar vais ficar melhor do que estavas, mas se te vires aflito, basta dizeres.
Obrigado.
Adeus, disse Helen.
Até logo.
Encaminhou-se para a porta, depois voltou
para trás, encostou-se a mim, e beijou-me.
O senhorio esteve aqui enquanto foste à
cidade, disse casualmente. Chamou-me Sra. Lam. Vê lá agora se lhe destróis a ilusão. Adeus.
Depois de Helen sair. sentei-me à mesa da
cozinha agarrei num guia telefónico e fiz uma lista das casas a quem ia telefonar. Encontrei algumas listas velhas, estive a ler um pedaço e depois comecei a sentir os efeitos dos exercícios matinais. Adormeci, acordando de vez em quando o suficiente para me lembrar que deveria ir ver como é que Louie estava.
Mas levantar-me daquela cadeira confortável
parecia ser um esforço demasiado grande, e voltava a adormecer.
Acordei finalmente o suficiente para ir ver
Louie. Este ouviu a porta abrir-se. Olhou para mim com uns olhos encarniçados.
Olá, companheiro, e se me desse um pouco de
água?
Está aí nessa garrafa, junto da cama. Louie agarrou na garrafa, tirou o copo, e
bebeu cerca de metade da água.
Eu sei que sou um malandro, disse ele,
colocando a garrafa no chão e evitando os meus olhos. Sei isso muito bem.
Não é nada.
Palavra que gostava que não fosse tão bom. Esqueça-se disso.
Gostava de lhe fazer qualquer pequeno
favor... por exemplo matar alguém, ou qualquer outra coisa.
Sorri-me para ele.
E a cabeça como é que está? Dói-lhe? Dói-me sempre. Penso que é essa a razão por
que me entrego à bebida. Tenho dores de cabeça há tanto tempo que já me habituei a elas. Sempre quis dar ao público a satisfação do dinheiro que gastou. No ringue, levantava-me sempre e encaixava socos uns atrás dos outros, quando devia era estar deitado no tapete, ouvindo os passarinhos. E agora aqui estou eu, um bêbedo e com umas dores de cabeça permanentes.
Daqui a bocado já está melhor. Porque é que
não volta a dormir?
Não. Vou levantar-me e beber muita água. O
que é que aconteceu ao resto da garrafa de whisky?
Deixei-a lá ficar.
Já a tinha pago, lamentou-se. Está melhor lá na taberna do que ao pé de si. Tem razão, mas não consigo deixar de pensar
nela; parece-me que vou ficar a pensar na meia garrafa de whisky...
O melhor que tem a fazer é dar-me um
pontapé e pôr-me na rua, antes que lhe arranje algum sarilho. Não valho tanta maçada.
Não pense mais nisso. Quando tiver o
estômago direito, sentir-se-á melhor.
Os seus olhos encarniçados viraram-se
novamente para mim.
Vou-lhe dizer uma coisa. Vou ensinar-lhe
tudo o que sei, todos os pequenos truques do ringue. Vou fazer de si um pugilista.
Está bem. Mas agora oiça. Eu tenho que ir dar
uma volta. Helen foi à cidade. Dentro de algumas horas estará de volta. Acha que poderá olhar pela casa?
Com certeza.
E não se vai embora?
Onde é que estão as minhas calças? Ali, em cima da cadeira.
Vire as algibeiras do avesso, e tire de lá todo o
dinheiro.
Pode ter a certeza que então não saio. Você já me deu o troco... ou o que restava. Louie suspirou fundo.
Muito bem, então não há azar. Pode-se ir
embora.
Ajeitou as almofadas debaixo da cabeça e
pediu-me um cigarro.
Logo que a água deixe de andar às voltas no
estômago, fico fino.
Dei-lhe um cigarro, e saí de casa. Dirigi-me a
pé pela estrada em direcção à cidade, mas cerca de quinhentos metros adiante um automóvel parou junto de mim e deu-me uma boleia.
Uma tabacaria vendia jornais de todas as
principais cidades americanas. Encontrei um jornal de Las Vegas.
A polícia falava muito no desaparecimento de
Helen Franley.
Tinham descoberto finalmente um
apartamento onde Helen estivera escondida, desde a noite do assassínio. Tinha desaparecido, e a polícia, ao investigar as actividades de um certo Donald Lam, um investigador particular que tinha estado a trabalhar numa outra faceta do caso, estava convencida de que a rapariga, um antigo pugilista chamado Hazen. e Lam tinham saído juntos da cidade. A polícia estava inclinada a acreditar que Helen Franley estivera implicada no assassínio ou possuía informações de grande valor, e que o detective particular, procurando cortar o caminho à polícia, lhe oferecera a possibilidade de fugir em troca das informações que ela pudesse dar. Havia fortes sintomas de que as autoridades considerariam isso como um caso grave, e que Lam poderia ver-se envolvido numa acção judicial por entravar a acção da polícia. Hazen, segundo parecia, estava também implicado. Este tinha identificado o corpo como sendo o de um antigo pugilista chamado Sidney Jannix.
Evidentemente, a polícia ainda não me ligara
com a compra do automóvel em segunda mão.
Telefonei para mais algumas casas, impingi-
lhes a minha história já conhecida, cortei o artigo do jornal de Las Vegas, deixei o resto do jornal numa cabine telefónica, e regressei a casa.
Tive que andar a pé cerca de dois quilómetros
até conseguir uma boleia.
Helen voltou cerca de uma hora depois de
mim. Louie fez o jantar e lavou a loiça. Fomos os três ao cinema, e depois deitámo-nos.
Louie Hazen estava a arrancar-me da cama,
quando eu ainda julgava que nem sequer tinha dormido. No ar, sentia-se o frio do amanhecer.
Vamos embora. Temos de ir para a estrada
enquanto está frio. Não quero que você transpire.
Sentei-me na beira da cama, e esfreguei os
olhos.
Não está bem frio, está gelado, protestei. Quando sairmos de casa já não sente nada. Colocou-me uma das mãos debaixo dos
braços, e obrigou-me a pôr-me de pé. Senti as pernas todas torcidas, de doridos que estavam os músculos.
Oh, diabo, hoje de manhã não posso. Tenho
que descansar.
Vamos embora, disse ele, e começou a
empurrar-me.
O melhor, é esquecermos esta coisa. Afinal, eu
não estou a treinar para ir combater e nós podemos...
Louie abriu a janela, arrancou a rede, lançou-a
ao chão, atirou os meus sapatos de ténis, as calças e uma camisola leve pela janela, e depois, antes de eu compreender qual era a sua intenção, agarrou-me como se eu não pesasse absolutamente nada, e pôs-me da parte de fora da janela. Depois, fechou-a e trancou-a.
A porta também estava fechada. Cá fora fazia,
na verdade, frio. Agarrei nas roupas e dirigi-me para o outro lado da casa, contrário à estrada, e vesti-me a tremer, respirei fundo, e comecei a correr atrás de Louie pela estrada fora. Cada passo que dava era uma verdadeira agonia.
Louie observava-me constantemente, olhando
para a expressão da minha cara e para a maneira como mexia as pernas. Parecia saber exactamente quando é que as dores me deixavam, e depois também sabia exactamente quando é que se tornava difícil a minha respiração.
Viemos a passo todo o regresso, respirando
fundo. Subitamente, aprendi o truque de Louie, de respirar com o diafragma, sorvendo o ar até bastante fundo, e expirando todo o ar que cá estava dentro antes de voltar a respirar.
Louie, observando-me, acenou em sinal de
aprovação.
Regressamos à cabine e calçamos as luvas de
boxe. Louie deu-me instruções.
Agora vou treiná-lo na maneira de dar
murros com força. Ora bem, dê um soco com a mão direita na minha luva. Com toda a força. Não, não, não. Não tome balanço.
Pareceram-me intermináveis horas o tempo
que estivemos ao sol, e depois Louie meteu-me debaixo do duche, e voltou a martelar e a bater nos meus músculos, e quando eu já estava completamente vestido Helen Franley tinha na cozinha um saboroso aroma a café.
Nessa manhã, mais tarde, consegui uma pista. Um membro de uma associação de crédito a
retalho tinha entregue mercearias a uma sr.a Sidney Jannix, num apartamento de Califórnia Street.
Dirigi-me para lá, arrumei o carro, subi as
escadas, e toquei à campainha.
A mulher que abriu a porta era Corla Burke. Posso entrar? Perguntei.
Quem é o senhor?
Um amigo de Helen Franley. Franziu a testa. Por um momento, notei uma
expressão rápida de alarme nos seus olhos.
Como é que me encontrou?
Isso respondi, é uma história muito comprida.
Conto-lha aqui, ou dentro de casa?
Dentro de casa, respondeu Corla, e deixou a
porta aberta para que eu pudesse entrar.
Sentei-me junto da janela. Corla Burke,
sentada defronte de mim, de modo que a luz do dia marcava-lhe os traços fisionómicos, fez o meu jogo, iniciando a conversa.
Não podia simplesmente aproveitar-me do
oferecimento de Miss Franley. Escrevi-lhe a dizer isso mesmo.
Adoptei uma atitude como se estivesse de
certo modo entristecido.
Não vejo por que.
Não seria leal.
Penso que teria sido muito melhor do que
fazer aquilo que você fez.
Verifiquei que sentira o toque. Não sabia, evidentemente, o que... bem, eu
não poderia saber o futuro e riu-se nervosamente.
Miss Franley pensava que podia tentar ser leal
consigo e que você não tinha sido... bem, digamos que não tinha apreciado devidamente.
Lamento. Como é que aconteceu o senhor vir
aqui?
Era o lugar lógico para a procurar. Porque é que queria encontrar-me?
Pensei que talvez pudesse fazer-se alguma
coisa para pôr as coisas direitas.
Não, agora não.
Ainda penso que sim.
Receio que você seja demasiado optimista.
Peço-lhe o favor de agradecer a Miss Franley em meu nome e diga-lhe que não quero que ela pense que eu não estava agradecida, e julgo que... bem, julgo que não há mais nada para lhe dizer.
Olhei à minha volta, notei uma mala aberta, e
peças de roupa desdobradas em cima de uma mesa e em duas cadeiras.
Numa mesa, a um canto, junto da janela,
estava uma mala de senhora, luvas e um chapéu. Um envelope selado estava ao canto da mesa.
Importa-se que eu fume?
De modo nenhum. Já agora ofereça-me
também...
Dei-lhe um cigarro, acendi um fósforo, e
consegui deslocar-me de tal modo que estava próximo da mesa para agarrar num. cinzeiro, e nessa altura apanhei a carta.
Corla viu o que estava a acontecer e correu
para junto da mesa. Mas apanhei primeiro a carta. Corla tentou tirar-ma.
Se não tem o carimbo postal de Las Vegas,
não estou interessado. Se tem, vou lê-la, disse-lhe eu.
A rapariga redobrou os seus esforços, e
agarrou-me num braço. Consegui afastá-la. Continuei a evitar que se aproximasse, e tirei a carta de dentro do envelope.
Fora escrita à pressa e dizia:
“Donald Lam, um detective particular, está a
trabalhar no caso.
Entrou em contacto com Helen Franley. O rapaz
de Helen, um homem com o nome de Beegan, foi assassinado a noite passada. Você não está em segurança no Reno. Arranje um esconderijo noutra parte qualquer”.
A carta estava assinada simplesmente com as
iniciais “A. W.”.
Sejamos francos e pouparemos tempo. Eu sou
Donald Lam. Arthur Whitewell contratou-me para a encontrar... e fez com que Philip soubesse de tudo, evidentemente. Agora talvez seja melhor contar-me a sua história.
Corla Burke limitou-se a olhar para mim, todo
o seu espírito de luta havia desaparecido. Tinha uma expressão de vencida e de quem caíra numa ratoeira.
Eu tenho uma teoria. Posso contar-lha se por
acaso isso a auxilia a contar a sua história.
Corla não respondeu, continuou
simplesmente a olhar para mim como se eu fosse somente aquilo que restara depois de um ciclone.
Penso que Arthur Whitewell não queria que o
filho casasse consigo. Pensava que Philip poderia fazer um casamento mais vantajoso. Mas Philip estava muito apaixonado, e Whitewell é um pouco psicólogo. Sabia que, no fim de contas, pouco poderia fazer. Philip era inexperiente e ingénuo nalgumas coisas, mas bastante homem noutras. Seu pai nunca o compreendera inteiramente, mas verificava que existia uma brecha que nunca conseguira vencer. Sabia que qualquer tentativa para se meter entre vocês dois, teria como resultado uma zanga permanente. E depois algo aconteceu que ele pôde aproveitar. Encontrou a oportunidade de que andava à procura. Manejou as coisas de modo talque você desapareceu simplesmente da cena e deixou quePhilip se restabelecesse o melhor que podia.
Mas Philip reagiu muito pior do que o pai
previra, de modo que tinha que se fazer alguma coisa. Não se tratava de uma desilusão normal. Philip é um sentimental, bastante sensível nos sentimentos e ilusões. Nunca aprendeu que as pessoas algumas vezes podem ser avaliadas pela cara. Era demasiado para ele.
Corla agora chorava, baixinho. Não tentou
dizer nada.
Não seria capaz de falar.
Encaminhei-me para a janela, e olhei para um
pátio das traseiras que estava bastante cheio de lixo e caixas velhas. Uma corda de roupa pendia, sem qualquer espírito, de dois paus. Pequenas poças de água reflectiam a luz do sol. Uma pá e um balde de praia, de um garoto, estavam em cima de um pequeno monte de areia. Continuei de costas voltadas a fim de que Corla pudesse chorar à sua vontade e recompor-se sem sentir que eu estava a observá-la.
Passaram-se vários minutos antes desta
conseguir dominar-se e falar.
O senhor pensa que Whitewell esperava que
me encontrasse? Perguntou-me.
Não sei. Sei somente que nos contratou para a
encontrar.
Mas ele combinou comigo que tinha de
arranjar as coisas de modo que desaparecesse para não voltar a ser encontrada.
Foi uma das coisas em que insistiu. Exatamente.
Então, contratá-lo seria simplesmente um
gesto para acalmar Philip?
Pois.
Constatei que Corla tentava agarrar-se a um
raio de esperança.
Mas custa muito dinheiro contratar um bom
detetive, não é verdade?
- É.
E o senhor deve ser bom... bastante bom? Se ela pretendia enganar-se a si mesma, eu
não me importava.
Por isso, respondi:
Nós julgamos que sabemos trabalhar. Não me poderá dizer alguma coisa que me
desse uma ideia acerca daquilo que Whitewell pensa realmente neste momento?
Não, pelo menos enquanto você não me disser
o que é que aconteceu. Depois talvez consiga juntar os cordelinhos e encontrar uma resposta.
Mas você parecia saber. Sabia tudo acerca de
Helen Franley.
Não, sabia apenas que ela lhe tinha escrito
uma carta.
Presumi o que dizia.
Que pensa você que a carta dizia? Pensei que fosse uma ratoeira. Armada por Helen Franley? Julgo que Helen Franley nunca escreveu essa
carta.
Mas deve tê-lo feito.
Suponha que você me conta primeiro tudo o
que sabe, e me deixa tirar as conclusões depois.
Suponho que sabe a causa que me forçou a vir Embora, disse ela.
Sid Jannix?
Acenou com a cabeça.
Conte-me primeiro o que houve consigo. Quando era rapariga, tinha a cabeça no ar.
Sempre tive em mim algo de selvagem. Gostava do boxe e dos pugilistas. Nunca me interessei por jogos de beisebol, mas gostava do râguebi. Sidney andou na escola comigo. Pertenceu à equipa de râguebi. Depois a escola arranjou uma classe de pugilismo, e Sidney tornou-se no melhor pugilista da escola. Transformou-se numa espécie de herói. O boxe acabou porque os pais dos alunos se opuseram, mas Sidney era o ídolo de todos os rapazes. Na altura, não compreendi o facto.
Estávamos no nosso último ano do curso
secundário.
Bem, mantive-me junto de Sidney, e a minha
família não gostava. Sidney passou para o pugilismo profissional, e adoptou a atitude de que era uma espécie de mártir, e que eu... bem, quando Sidney ganhava o dinheiro suficiente para me sustentar, fugi com ele e casamos.
Corla encolheu os ombros, em gesto de
cansaço, depois acrescentou:
Evidentemente foi um erro terrível. Fez uma pequena pausa como procurando
encontrar uma maneira de rodear o que tinha para dizer, depois voltou à sua descrição.
- Vivemos juntos durante cerca de três meses.
Durante as primeiras duas ou três semanas estava completamente hipnotizada.
Depois, pouco a pouco, comecei a vê-lo
exactamente como era. Era um touro e um covarde. Quando podia, e era capaz de dominar alguém, não tinha piedade nos castigos.
Quando não o podia fazer, tinha sempre
desculpas. No pugilismo, tornou-se suficientemente bom para quase ter chegado ao cume, e depois, quando começou a defrontar-se com bons pugilistas... mas, isso é começar a contar-lhe a história depressa demais. Na altura em que casei com ele, acabava de terminar os combates preliminares, e começava a chamar a atenção. Isso subiu-lhe terrivelmente à cabeça. Tornou-se numa criatura emotiva, intensamente ciumento. Começou a tratar-me como se eu fosse apenas um objecto que lhe pertencesse. Poderia ter suportado tudo isso se não tivessem sido as pequenas coisas... pequenos buracos por onde se escapava a podridão, e eu podia ver o que estava por debaixo.
Não é preciso entrar em todos esses
pormenores observei. Diga-me apenas o que aconteceu depois de o ter abandonado.
Na escola tinha aprendido alguma coisa de
comércio.
Consegui um emprego. Procurei sempre
aperfeiçoar o meu trabalho como secretária, e tive a satisfação de saber que estava a ser bem sucedida. Consegui ir subindo de posição.
Não houve divórcio?
Eu julgava que Sid tinha conseguido o
divórcio. Mas isso foi a maior canalhice que me fez. Disse-lhe que queria ser livre. Respondeu-me que seria melhor esperar um ano e conseguir o divórcio com o argumento de abandono do lar.
Disse que não queria ter uma porção de
alegações de crueldade no registo. Afirmou que isso prejudicaria a sua carreira.
Esperamos que o ano passasse. Esse foi um
ano grande para Sidney. Subiu até ao máximo, durante os sete ou oito primeiros meses desse ano, e depois, em três meses, desceu até ao fundo. Não sei tudo o que aconteceu, mas o seu “manager” chegou à conclusão de que Sid era covarde.
Tinha sido um terror no ringue com os
pugilistas que conseguia dominar, mas... bem, não sei. É uma história muito complicada, e julgo que se meteu em qualquer combinação suja... traiu o seu «manager» e perdeu um combate de propósito, ou qualquer coisa parecida. Não sei o suficiente do que aconteceu, para falar nisso. Apenas ouvi boatos, mas, de qualquer modo, cerca de dez meses depois da data da nossa separação, veio ter comigo. Nessa altura estava desesperado.
Disse-me que nunca tinha conseguido ser o
mesmo, desde que eu partira. Afirmou que lhe tinha tirado a inspiração da sua vida.
Isso ao fim de dez meses? perguntei.
Sim respondeu-me ela, e na sua voz havia
azedume.
Durante todo o tempo que estava a subir,
mostrou-se muito bondoso e com ares superiores; mas quando lhe tiraram o chão de baixo, começou a pedir-me simpatia. Bem, de qualquer modo, disse-me que era aquela espécie de homem que necessitava de uma mulher que fosse a sua inspiração, que sabia que nunca me levaria a voltar, que tinha encontrado outra rapariga, que nunca poderia ter para com ela os mesmos sentimentos que tivera comigo, mas que esta estava muito apaixonada e que ele também gostava dela.
Corla riu-se com azedume.
- Isso era característico de Sidney. Ela amava-
o desesperadamente e ele gostava um pouco dela. E que queria ele? Perguntei.
Queria ir para o Reno a fim de conseguir o
divórcio.
E sugeriu-lhe que você pagasse? voltei a
perguntar.
Acenou com a cabeça.
E por que é que não o fez?
Mas. eu dei-lhe dinheiro. E Sidney disse-me
que conseguira o divórcio.
E a rapariga?
Disse que se tinha casado com ela. Foi essa a
razão pela qual não me dei ao incómodo de ir verificar os registos de divórcio.
E ainda não se tinha divorciado? Não. No final de contas, tinha-me
simplesmente tirado o dinheiro que lhe dera para se dar ares com a tal rapariga.
Queria casar-se com ela. Esta tinha algumas
economias.
Sidney conseguiu arrancar-lhas. Essa rapariga era Helen Franley? Perguntei. Não, chamava-se Sadie qualquer coisa.
Esqueci-me do seu último nome, mas lembro-me que ele estava sempre a falar em Sadie, e eu tinha curiosidade em saber que espécie de rapariga seria.
Muito bem. Depois que aconteceu? Absolutamente nada, durante anos. Perdi
completamente o contacto com ele, e já quase nem pensava em Sid.
Abandonou o pugilismo. Penso que a
Comissão de Boxe tinha arranjado umas provas que o impediam de voltar a combater. Julgo que naturalmente ele também não queria fazê-lo. Não era aquela espécie de pugilista capaz de aguentar o castigo no ringue.
E foi então que você encontrou Philip?
Sim, adoptei o nome de Corla Burke a fim de
apagar todo o passado e começar de novo. Bem vê, meu pai...
Agora já compreendo por que mudou de
nome.
Conte-me o resto.
A princípio, ele...
Não é preciso tanta coisa. Conte-me só o que
se passou com Helen Franley.
Recebi aquela carta estranha de Helen
Franley.
Dizia que tinha lido nos jornais que eu
tencionava casar-me quase imediatamente, que tinha relações de amizade com Sidney, e que ouvira Sidney falar de mim, de tal modo que pôs a si própria a interrogação sobre se eu saberia que Sidney nunca se divorciara. Acrescentou que Sidney estava bastante mudado daquilo que era, quando eu o conhecera, que se tinha estabilizado e, na verdade, pretendia fazer alguma coisa de si. Dizia ainda julgar que Sidney não tivesse dinheiro para conseguir imediatamente um divórcio, mas que se eu não quisesse esperar, Helen poderia arranjar as coisas de modo a eu me casar, e depois do casamento Sidney arranjaria o divórcio. Disse que Sid tinha tido azares, mas que dentro de algumas semanas voltaria a ter dinheiro. Poderia então pretender perante o meu marido que tinha havido qualquer irregularidade na declaração da minha idade, ou qualquer coisa desse género, e levá-lo novamente a casar-se comigo, ou então que continuaria a viver com ele e que seria um casamento de lei comum.
Não há dúvida que a carta era estranha.
Quanto dinheiro é que queria? Perguntei.
Helen Franley nem sequer mencionou
qualquer coisa desse género. Disse simplesmente que pensava que se Sidney conseguisse arranjar o suficiente para montar um negócio, isso seria tudo o que pretendia e que não voltaria a ouvir falar dele. Ficou com a impressão de que Helen lhe estava a escrever a pedido de Sidney?
Não. Disse-me que ele nada sabia acerca da
carta, e que estava disposto a escrever a Philip Whitewell no caso do casamento estar para se realizar, visto não querer que Philip ficasse na posição de cometer o crime de bigamia.
Que gentileza para com Philip, não é verdade? Bem... oh, isso era o que se poderia esperar de
Sidney.
Miss Franley parecia ser bastante agradável.
Olhava para as coisas sob o meu ponto de vista. Como é que ela soube que a senhora era realmente mulher de Sidney? Como é que a encontrou sob o nome de Corla Burke?
Não disse... escreveu apenas aquela carta. Compreendo. Quer dizer, a proposta em
resumo era que se você não prometesse a Sidney Jannix dinheiro suficiente para montar um negócio, este impediria o seu casamento.
Se prometesse cuidar dele, com o dinheiro que
poderia conseguir de seu marido, instalar-se-ia comodamente e você tornar-se-ia na galinha que poria ovos de ouro para ele.
Bem, se quer ver as coisas sob esse aspecto. É a única maneira que há de encarar a
questão.
Então pensa que Helen Franley era... Julgo que Helen Franley nunca escreveu essa
carta.
Mas disse-me para lhe responder. O que você fez?
Evidentemente.
E foi essa a carta que Arthur Whitewell ditou? - Não a ditou.
Mas sabia o que dizia?
Sim, sabia.
Conte-me isso, pedi-lhe a seguir.
Bem, eu estava a pedir isso mesmo. Merecia
tudo aquilo.
Suponho que nunca serei capaz de lho
explicar, a si ou a qualquer outra pessoa, nem mesmo a mim própria. Mas... bem, tinha simplesmente riscado da minha vida aqueles três meses em que fora casada com Sidney Jannix.
Com isso quer dizer que nada contou a
Philip?
Acenou com a cabeça.
E Philip nada sabia acerca de Sidney Jannix ou
que você tinha sido casada?
Pois.
Assim, quer dizer que a carta de Helen
Franley foi como que uma bomba que lhe tivesse rebentado directamente em cima da cabeça?
Foi isso mesmo.
E o que é que fez a seguir?
Agarrei na carta e fui falar com Philip. Aonde?
Ao seu escritório. Tínhamos um encontro
marcado para essa noite.
Mas, afinal não se encontrou com Philip? Não. Philip tinha sido chamado por causa
de um negócio bastante importante, e deixara-me um bilhete dizendo-me que estava muito pesaroso mas que não poderia sair comigo nessa noite, que tentara avisar-me pelo telefone, mas que não conseguira. Dizia ainda que telefonaria cerca das onze horas da noite para ver se poderia almoçar com ele no dia seguinte.
Arthur Whitewell estava no escritório?
perguntei.
Estava.
E ficou a saber pela sua expressão que havia
qualquer coisa que não estava a correr bem?
Não. Julgo que não. Foi bastante amável e
simpático.
Tinha-se reconciliado com o nosso casamento.
Sabia, evidentemente, que não aprovava o casamento, mas de qualquer modo o pai de Philip foi bastante amável.
Mas, você contou a Arthur Whitewell toda a
história ?
Contei.
E, disse-lhe eu, observando-a
cuidadosamente, suponho que isso o tenha feito cair de um quarto andar?
Foi um choque terrível para ele. Mas a sua
reacção foi magnífica. Disse-me em primeiro lugar que a princípio não aprovara a escolha, mas que finalmente compreendera que Philip estava loucamente apaixonado por mim, e que gostava suficientemente dele para lhe desejar tudo o que o tornasse feliz; que se Philip me queria, não levantaria objecções para eu entrar na família e que estava disposto a que nenhum de nós viesse alguma vez a saber que não aprovava inteiramente. Foi suficientemente franco para me dizer isto mesmo. Fui atraída para ele, como nunca o tinha sido. Consolou-me e... bem, mostrou-se tão compreensivo e tolerante, e contudo olhou para o assunto todo sob um aspecto de muito bom senso. Qual era então a sua opinião?
Disse-me, evidentemente, que assim não se
poderia ir para a frente com o casamento, e disse-me aquilo que eu já sabia, que se Philip soubesse que eu tinha sido casada, que havia um outro homem que tinha sido... o primeiro nos meus afectos, que tinha sido meu marido, que tinha vivido comigo, que... bem, se conhece Philip, certamente compreende o que poderia pensar. É um carácter anormalmente sensível, e... seu pai confirmou os meus mais profundos receios, sobre esse ponto.
Continue, conte o resto disse-lhe eu. Mostrei-lhe a carta de Helen Franley.
Apreciou imenso a minha honestidade, em todo o assunto. Afirmou que muitas mulheres se teriam tentado a fazer o casamento e proceder exactamente conforme Miss Franley sugeria. Mas aconselhou-me a que o melhor que havia a fazer era escrever a Miss Franley e dizer-lhe que o casamento estava agora completamente posto de parte, de modo que Jannix não poderia entrar em contacto com Philip.
Por que razão pretendia ele impedir que
Jannix entrasse em contacto com Philip?
Não queria que Philip fosse desiludido tão
brutalmente.
Era essa a ideia por detrás de tudo. Eu devia
salvar-me das aparências, mas não era só por minha causa. Era para proteger Philip.
E quem é que sugeriu isso?
Bem, pensámos na coisa juntos, numa espécie
de colaboração.
Whitewell disse que por agora, pelo menos,
teria de desaparecer da cena, de modo que Philip nunca pudesse saber o que acontecera até se ter acostumado à minha ausência, e que depois poderíamos dar-lhe a saber a verdade. Disse ainda que no momento em que eu conseguisse o divórcio de Jannix e não houvesse razão para que não nos casássemos, poderia encontrar-me novamente com Philip e explicar-lhe tudo.
Acaso você não se sentiu com vontade de ir
ter com Philip e contar-lhe tudo francamente...
Bem, para lhe dizer a verdade, sr. Lam, pensei
isso mesmo. Foi essa a razão por que fui ao escritório. Queria ter uma conversa com Philip e explicar-lhe tudo. Queria tentar acabar tudo de modo que não o magoasse muito.
Mas o pai disse-me que conhecia Philip
melhor do que eu, e que o mais aconselhável era desaparecer em circunstâncias tais que ficasse a impressão de que me acontecera alguma coisa bastante anormal. Na verdade, julgo que Whitewell pensava tanto em si como em seu filho. Bem vê, os convites do casamento tinham sido feitos e já estava a data marcada; e se... bem, o senhor sabe como as coisas são.
É sempre necessário dar qualquer explicação,
em tais circunstâncias. A família Whitewell encontrava-se numa situação esquisita.
Por outras palavras, Whitewell não queria
chegar ao clube, junto dos seus amigos, e um destes perguntar-lhe: “Então o teu filho sempre se casou hoje?”, e ter que responder: “Não. Afinal a mulher tinha outro marido, de modo que desistiu.”
Corla Burke quase cambaleou.
Estou a ser um pouco bruto porque pretendo
que você veja as coisas sob o meu ponto de vista, disse-lhe eu.
E qual é o seu ponto de vista? Ainda não sei bem, ou parece-me que sei. Qual é?
Não está a ver? Philip ter-lhe-ia perdoado.
Teria insistido em que não era sua a culpa, que procurasse arranjar o divórcio e que o casamento com ele seria simplesmente adiado.
Julgo que Philip nunca me teria perdoado o
não lhe ter contado a história do meu primeiro casamento.
Pois eu penso o contrário.
Pois bem, eu não penso isso, e conheço Philip
melhor do que o senhor.
O pai dele conhece-o bastante bem, e o pai
pensava que sim, argumentei.
O que é que o leva a dizer tal coisa ? O pai aproveitou a oportunidade para a
afastar e forçá-la a fazer alguma coisa que Philip nunca lhe perdoará.
Não compreende? Se você alguma vez
voltasse para junto de Philip e tentasse explicar-lhe o que se passou, estaria perdida.
Philip nunca lhe perdoaria o sofrimento por
que passou quando desapareceu, em circunstâncias que desconhecia e, portanto, não se poderia saber o que lhe tinha acontecido.
Philip tem andado torturado pensando que
você talvez tivesse sido raptada ou estivesse em perigo. Que... perdoe-me, não disse isto para que começasse outra vez a chorar, mas pretendo apenas que compreenda.
Mas o sr. Whitewell prometeu que contaria
tudo a Philip se este começasse a andar muito preocupado com...
Isso, era tudo o que eu queria saber,
interrompi-a.
- O quê?
Isso quer dizer que Whitewell a enganou. Não vejo como.
Não compreende? Se ele alguma vez
explicasse a Philip, teria necessariamente de lhe dizer como é que sabia, e, para fazê-lo, tinha de confessar a Philip que tomara parte no logro, que tinha conversado consigo, que fora ele quem a impedira de ver Philip e de lhe contar tudo. Philip provavelmente perdoar-lhe-ia, a você... e alguma coisa poderia arranjar-se. Arthur Whitewell poderia arranjar um chamado negócio importante em Nova Iorque e levar Philip consigo.
O casamento teria de ser adiado até ao
regresso, e Whitewell poderia explicar aos seus amigos que fora apenas adiado.
Entretanto, você poderia conseguir o seu
divórcio de Jannix.
Philip nunca perdoará ao pai ter manobrado
as coisas deste modo. E se conhecer os verdadeiros factos, agora nunca lhe perdoará a si.
Corla respondeu:
Não consigo compreender. Eu julguei que
você estivesse a trabalhar para o sr. Whitewell.
Contratou-me, de facto.
E então?
Mas, contratou-me para a encontrar, para
descobrir a razão por que partira e o que lhe acontecera. Era isso tudo o que eu tinha a fazer, e já o fiz.
Corla estava sentada e olhando para mim
como se tivesse levado um grande soco no queixo.
Mas o que é que vai fazer?
Não vou fazer nada. A senhora é que vai fazer
tudo.
Fazer o quê?
Vai cortar as vazas ao velhote.
Confesso que não compreendo. Você desapareceu em circunstâncias tais que
qualquer pessoa poderia pensar que tivera um súbito ataque de amnésia.
Sim. Até foi isso que se pretendia aparentar. Whitewell, evidentemente, sugeriu-lhe
escrever a Helen Franley, de modo que Sidney não escrevesse a Philip?
Pois foi.
E deu-lhe uma folha de papel e um sobrescrito
já selado?
Deu.
E enquanto você pensava que estava a
colaborar, a parte essencial do seu desaparecimento foi pensada por Whitewell.
Bem... sim, julgo que sim. Disse-me que eu
tinha de salvar a honra da família, e que seria melhor e mais bonito que Philip continuasse a amar-me e que sempre lhe fosse querida a memória do nosso amor, do que ser brutalmente desiludido e talvez até me criasse ódio.
Muito bem. Você fez exactamente aquilo que
queria aparentar.
- O quê?
Perdeu a memória.
Não compreendo.
Pois é muito simples. Você perdeu totalmente
a memória.
Estava no escritório. Ia agarrar num lápis e
subitamente... zás! A memória ficou em branco. Deu por si no meio da rua, sem qualquer ideia sobre quem seria ou qual seria o seu nome ou por que razão é que se encontrava ali.
Mas de que serviria isso ? Para quê ? Não vê? Um polícia encontra-a, sofrendo de
amnésia.
É levada para um hospital, e a Agência de
Detectives Bertha
Cool encontra-a. Você não consegue lembrar-
se do seu nome.
Na sua memória não existe nada, mas a
Agência de Detectives
B. Cool descobriu-a, e Philip vem identificá-la.
No momento em que Philip olha para si, o choque de ver o homem quê ama fá-la voltar à razão e...
Pare com isso! Gritou Corla. Pare! Não sou
capaz!
Por que não?
Você está a retalhar-me o coração! Você não está boa, repreendi-a. Estou a falar-
lhe com a cabeça. Acabe com esse maldito sentimentalismo e meta mãos à obra.
Oh, é absolutamente impossível! Não falemos
nisso.
Não seria capaz de enganar Philip dessa
maneira.
Por que não?
Porque seria... seria desleal.
Não, não o seria mesmo nada. A parte desleal
já você fez. Agora tratava-se simplesmente de pôr as coisas direitas.
Você devia olhar para a cara de Philip, ver as
linhas de sofrimento em volta da sua boca, as olheiras, as maçãs do rosto salientes...
Quer fazer o favor de se calar? Não, enquanto você não me prometer fazer
aquilo que lhe sugeri.
Mas não posso fazê-lo.
Por que não?
Bem, por uma coisa, porque existe Sidney
Jannix.
Philip e eu nunca poderíamos casar por
causa...
Por causa de quê?
Porque sou uma mulher casada. Não, isso é que não é, você é viúva. Sou... o quê?
Viúva.
Então não é verdade, aquilo que dizia aquela
rapariga Franley? Sidney não está vivo? Ele...
Sidney estava vivo na altura em que a carta
foi escrita.
Agora não está.
Corla estudou-me por uns segundos. Veja lá, naturalmente você está para aqui com
brincadeiras...
Nada disso. Estou preparado para lhe provar
aquilo que afirmo.
Tirei da algibeira o recorte que tinha feito do
jornal de Las Vegas e entreguei-lho.
O amigo de Helen Franley era Sidney Jannix.
A senhora não está casada com ninguém. Está viúva.
Corla leu a notícia cuidadosamente. Observei
os seus olhos andando para trás e para a frente à medida que iam mudando de linha. Passados uns momentos, os olhos pararam de mexer, mas Corla continuou com eles fixados no papel, fingindo estar ainda a ler, ganhando tempo para pensar antes de ter que enfrentar a situação.
Subitamente, olhou para mim. Então foi assassinado?
- Foi
Quem... quem foi o assassino?
A polícia não sabe.
Mas você sabe, não é verdade? Tenho uma ideia.
Os olhos da jovem mudaram novamente de
expressão.
Mordeu o lábio inferior, lentamente. O senhor foi contratado para solucionar o
assassínio? Perguntou-me repentinamente.
- Não.
Teria o senhor... bem, se soubesse quem foi,
teria necessariamente de...
- Não.
Corla estendeu-me a mão.
Sr. Lam, acredite que é uma pessoa simpática. Então faz aquilo que eu lhe disse? Faço.
Muito bem, lembre-se de que alugou este apartamento com o nome da sr.a Sidney Jannix. Não deve ter qualquer ligação com esta casa. É indispensável que a polícia nunca a identifique com este apartamento. Isso seria fatal. Desapareça daqui. Envie a sua bagagem... ou melhor, compre um bilhete para S. Francisco, despache a bagagem e fique com o talão na carteira. Julgo que Whitewell lhe deu o dinheiro suficiente para as despesas, não deu?
Sim. Insistiu em que aceitasse dinheiro de
modo a poder deixar ficar todo o meu dinheiro quando desaparecesse.
Isso fazia parte do cenário.
Se Philip tivesse utilizado a massa cinzenta,
isso teria sido uma das pistas para o convencerem de que o seu desaparecimento fora planeado antecipadamente e financiado.
Muito bem, agora desapareça daqui. Faça as
coisas de maneira que nunca ninguém se lembre de a ligar com este apartamento.
Vá para o meio da rua e comece a andar às
voltas. Procure um polícia. Pergunte-lhe que cidade é esta. Continue a fazer coisas disparatadas até alguém vir ter consigo, mas faça o que fizer, não beba uma gota de qualquer bebida alcoólica.
Porquê?
Porque se descobrirem álcool no seu hálito,
prendem-na como alcoólica. Se você estiver completamente lúcida, e mesmo assim agir de maneira estranha, chamarão um médico.
É possível que o médico tente lançar-lhe uma
armadilha.
Pode desconfiar. Você terá de resistir a isso.
Acha que é capaz de fazê-lo?
Posso tentar. Farei qualquer coisa.
Bem, felicidades, disse-lhe eu, e voltei a
apertar-lhe a mão.
Para onde é que o senhor vai? Vou esperar até que você dê entrada no
hospital, e depois vou descobri-la. Depois disso, vou para Las Vegas e comunicarei o caso a Whitewell.
Você está a dar-me uma grande oportunidade,
não é?
Não vejo razão para a lançar pela borda fora,
se conseguir levar o barco a porto de salvamento. Os seus olhos procuraram os meus, e sorria-se de certo modo ironicamente.
Você tenta ser duro e calejado... e afinal não
passa de um sentimentalista, lá no fundo. Faz-me lembrar Philip.
Dirigi-me para a porta.
Bem, veja se consegue estar no hospital antes
do anoitecer.
Farei o melhor que puder.
Desci as escadas e cheguei à rua. A elevada
altitude dava às sombras um clarão ligeiramente avermelhado. Tudo à minha volta, a vida da cidade, fazia-se com o seu ritmo constante. Reno gaba-se de ser a maior das mais pequenas cidades do mundo), e pode também gabar-se de ser a mais característica.
Existe uma individualidade na cidade que
salta imediatamente à vista: vaqueiros caminhando pelos passeios com as suas botas de montar de saltos altos, mulheres desiludidas da vida esperando que termine o seu período de residência, beldades voluptuosas que jogam às escondidas com a vida e se encontram no Reno durante um período de transição, procurando abertamente alguns contactos masculinos temporários e não sendo muito exigentes. Jogadores cruzam-se com turistas. Os vaqueiros passam a maior parte do dia na companhia de rancheiros janotas. Pessoas em gozo de férias, com a pele queimada pelo sol, gozando o clima saudável, misturam-se com turistas macilentos que andam a bisbilhotar a capital do divórcio.
Pretendi arranjar alguns momentos para
pensar bem nas coisas, antes de voltar à vivenda. Misturei-me com a multidão, entrei num dos casinos mais populares, e num canto comecei a observar despreocupadamente as expressões daqueles que estavam reunidos em volta da roda da fortuna. Atrás de mim, ouvia o trabalhar constante de uma máquina de moedas.
De vez em quando, podia ouvir o tilintar de
moedas caindo na abertura dos pagamentos.
Voltei-me para observar.
Helen Franley, de costas para mim, estava
muito atarefada fazendo batota numa das máquinas de vinte cêntimos.
Dirigi-me calmamente para a porta e saí.