Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo IX · Bertha Cool dormitava. Estava completamente
vestida, e a porta não estava fechada à chave. Depois de a ter aberto, fiquei parado por uns momentos à entrada, observando a maneira como Bertha se encontrava estendida num cadeirão, a cabeça ligeiramente inclinada para um lado, a respiração fazendo-se ouvir ritmadamente.
Olá, Bertha. Esteve deitada e levantou-se, ou
estava à espera...
Abriu os olhos, e endireitou-se. Não houve período de transição do sono para
o despertar.
Num segundo estava a ressonar gentilmente,
os lábios entreabrindo-se ligeiramente com cada respiração. Agora, estava completamente acordada, fixando em mim os seus olhos duros e brilhantes.
Meu Deus, Donald, esta deve ser a cidade
mais maldita de todas. Foram-no buscar ao comboio?
Como vê.
A polícia disse-me que o ia fazer. Eu respondi-
lhes que os processaria, se o fizessem. O que é que lhes disse?
- Nada.
Não lhes deu qualquer satisfação? Que eu saiba, não.
O tenente é uma pessoa correcta. O chefe da
polícia é difícil de tragar. Entre. Sente-se. Dê-me aquele maço de cigarros que está ali e acenda um fósforo. E se mandássemos vir café ?
Dei-lhe os cigarros, acendi um fósforo, fui até
junto do telefone, pedi o bar e disse-lhes para mandarem café, leite e açúcar.
Bebe o café simples, não é verdade?
perguntou Bertha.
- É.
Bem, então não mande vir o leite nem o
açúcar.
Olhei para ela, surpreendido. Agora tenho a impressão que o leite e o açúcar
tiram o sabor ao café.
Liguei novamente para o empregado do bar. Olhe, afinal não mande o leite nem o açúcar.
Mande bastante café e depressa.
Voltei-me para Bertha.
Bem, então o que é que temos? Não sei. Cerca das duas e meia, a polícia
apareceu de surpresa. Tinham encontrado o cadáver cerca da meia-noite, segundo penso. Houve grande borborinho. A polícia queria saber tudo acerca do nosso caso, quem era o nosso cliente, e onde é que poderiam encontrá-lo.
Disse-lhes?
Na verdade, nada disse.
E foi muito difícil?
Nem por isso. Disse-lhes que se tratava de
segredo profissional.
É possível que tivesse tido dificuldades se
entretanto a polícia não tivesse descoberto que você tinha ido para Los Angeles. Parece que isso era tudo o que necessitavam para prosseguir. Afirmaram que iam apanhar o comboio, utilizando um avião, e que o fariam voltar para trás.
Até que horas é que a obrigaram a estar a pé? A maior parte da noite.
E por acaso não terão chegado até Whitewell? Passado um pedaço.
Como?
Começaram a farejar tudo.
Quando é que Whitewell voltou aqui ao seu
quarto? Perguntei-lhe. A noite passada depois de eu ter partido?
Pois, meu caro, aí é que está. Whitewell não
voltou.
Quer dizer que não o viu mais? Não vi.
Quando é que o viu, depois disso? Cerca das quatro horas da madrugada? - Onde?
Apareceu aqui, depois de a polícia ter ido
interrogá-lo.
Desculpou-se bastante por nos ter envolvido
nisto tudo.
Whitewell é um homem muito simpático,
Donald. O que é que ele queria?
Que quer dizer?
Quando veio cá, às quatro horas da manhã. Bem, queria apenas saber como é que eu tinha
suportado o interrogatório e queria pedir desculpa por me ter envolvido num caso que me colocava em tal posição.
E depois de ter feito isso tudo, o que é que
queria?
Porquê? Nada!
Não mencionou qualquer coisa, mais ou
menos casualmente?
Oh, queria saber o que tínhamos dito, e eu
respondi-lhe que não tinha necessidade de se preocupar, pois você não daria quaisquer informações. Disse-me que esperava, em especial, que você nada dissesse acerca do caso em que estava a trabalhar ou acerca de quaisquer cartas. Respondi-lhe que se podia ir deitar absolutamente descansado sobre esse assunto.
E Philip? Estava também com o pai? Não. Essa foi a razão pela qual o pai não veio
cá.
Tinha tido com Philip uma divergência
qualquer.
Sobre o quê?
Não sei bem, querido, mas julgo que foi por sua causa.
Porquê?
Philip parece estar muito entusiasmado
consigo. Queria que o pai lhe desse pulso livre para fazer aquilo que quisesse, para encontrar Corla. O pai respondeu-lhe que isso ia sair muito caro, que logo que descobrisse provas demonstrando que Corla partira de sua livre vontade dispensaria os nossos serviços. Depois Philip sugeriu que Corla poderia ter desaparecido por alguém estar a fazer chantagem sobre ela, ou outra coisa parecida, e o pai respondeu que se fosse esse o caso, Corla não era com certeza a espécie de rapariga que pretenderia para a família; suponho, além disso, que os nervos de Philip estivessem arrasados. Tiveram uma discussão, e o pai veio-se embora, deixando Philip sozinho no casino.
Semicerrei os olhos e pensei naquilo tudo. Isso deveria ter-se passado cerca das oito
horas, ou alguns minutos depois?
Julgo que sim.
Não disse à polícia nada a esse respeito? Disse à polícia que tratasse da sua vida e que
eu trataria da minha, respondeu Bertha. Os ignorantões! Até queriam saber que espécie de provas poderia dar de que tinha estado sempre no hotel. Aqui estava eu, à espera que Whitewell aparecesse, e por causa da discussão com Philip não apareceu...
Para onde é que ele foi ?
Estava muito aborrecido. Sabe que ele gosta
imenso daquele filho, ama-o verdadeiramente, praticamente adora o chão que ele pisa, de modo que estava terrivelmente aborrecido.
Até se esqueceu de telefonar e de me dizer
que não vinha. Não...
Mas onde é que ele foi?
Não foi a parte nenhuma.
Quer dizer que voltou para o hotel, para o seu
quarto?
Ah! Estou a compreender. Não. Estava muito
nervoso.
Andou às voltas pela rua durante um pedaço,
e depois voltou ao hotel e tentou adormecer. Whitewell, o filho e o Sr. Endicott tinham alugado um apartamento. Philip não apareceu até cerca das onze horas. A polícia verificou que Whitewell era o meu cliente e obrigou-o a levantar-se. Pobre homem!
Suponho que não deva ter dormido muito a
noite passada.
Que pormenores sabe acerca do assassínio? Quase nada. Sei que foi morto a tiro. Nada
mais!
Que calibre tinha a pistola?
Não sei.
Encontraram a arma no apartamento? Julgo que não.
E ninguém ouviu o tiro?
Não. Você conhece bem aquele prédio. É
numa rua transversal, e por cima da loja só existem aqueles dois apartamentos.
A loja fecha às seis horas. Alguém andou à
procura de qualquer coisa na cozinha. As portas dos armários debaixo do lava-loiças encontravam-se abertas e no chão algumas panelas. Parece-me que também foram encontrados alguns pingos de sangue próximo da porta que dá para a cozinha.
Consegui algumas informações das perguntas
que a polícia fez, mas esta não parece disposta a dar informações.
Ainda bem, foi uma boa coisa, ele ter sido
morto.
Estava a pedir isso mesmo.
Donald, não fale dessa maneira. Porque não?
Utilizariam essa declaração contra si. A polícia já tem muito contra mim, neste
momento; mas, não vai dar a parte alguma.
O criado do comboio não se lembrava de si? Parece que não.
E o seu bilhete?
Não foram revisá-lo.
E também não foram receber a marcação do
“wagon-lit”?
Não. Embarquei no comboio, meti-me na
cama e adormeci.
É estranho o condutor não o ter acordado para
revisar o bilhete.
Isso aconteceu por causa do criado não me ter
visto.
Não comunicou ao condutor que alguém
tinha embarcado com um bilhete para o número nove, inferior.
Isso vem dificultar bastante as coisas, não é
verdade?
Talvez.
Bertha continuou:
Bem, não há dúvida nenhuma que você é um
diabo bastante esperto. Parece que consegue não ir parar à cadeia, mas temos de fazer alguma coisa para auxiliar Whitewell.
Acha que este assassínio está relacionado com
o desaparecimento de Corla Burke?
Ainda não sei. Harry Beegan poderia ter sido
morto por uma porção de pessoas... e entre elas o meu muito querido amigo, tenente William Kleinsmidt, da polícia de Las Vegas.
Não seja parvo, Donald. Se Kleinsmidt o
tivesse morto, teria admitido que disparara a pistola... apresentando-se como um herói... “Um polícia sem medo mata um criminoso desesperado que aterrorizou a vizinhança” ou coisa neste estilo.
Não tenho a certeza disso. Estou
simplesmente a sugeri-lo como possibilidade.
Não estou a ver que seja sequer possível. Pois eu vejo.
- Porquê?
Os cidadãos não gostam de um polícia
demasiado expedito com a pistola. Kleinsmidt andava à procura de Pug, e o tenente estava bastante sentido., Pug sabia aplicar as mãos e o tenente não estava com disposição para se deixar maltratar.
Mas Kleinsmidt podia ter afirmado que o
fizera em legítima defesa, sem interessar o que, na verdade, acontecera.
Hum, num.
Donald, isso não são maneiras de me tratar.
Que é que não está certo naquilo que estou a dizer?
Respondi:
Pug estava desarmado. Encontrava-se em
casa. Com certeza não há um só juiz que aceitasse essa versão. Um polícia tem a obrigação, segundo pensa toda a gente, de ser capaz de dominar um homem desarmado sem ser preciso nada mais que um sopapo.
Mas Pug era um bom pugilista. Um polícia tem obrigação de dominar um
homem desarmado.
Que é que o faz pensar que fosse Kleinsmidt o
assassino?
Nada.
Julguei que pensasse que fosse ele. Disse-lhe que era uma probabilidade.
Bem, mas o que é que o faz pensar nessa
probabilidade ?
A maneira como a polícia tenta tão
afincadamente culpar alguém.
Quer dizer a si?
Sim, entre outros.
Arthur Whitewell pediu-me que o avisasse
logo que chegasse.
Whitewell sabia que Kleinsmidt tinha ido
atrás de mim?
Não sei. Sabia que alguém ia buscá-lo. Muito bem, avise-o pelo telefone. Dei o telefone a Bertha. Esta tossiu duas vezes
para falar.
Quer fazer o favor de ligar para o quarto do
sr. Whitewell.
Bom dia, Arthur. Bertha. Oh! Não seja
trocista! Donald encontra-se aqui... Sim... Isso é estupendo!
Desligou, voltou-se para mim: Vem já cá acima.
Sentei-me, acendi um cigarro e perguntei-lhe: Há quanto tempo é que isso começou? O quê?
Isso de vocês se tratarem pelos nomes
próprios.
Oh, não sei bem. Sem darmos por isso
começámos a chamar-nos pelos nomes próprios. No fim de contas, já tivemos que passar por muitas coisas juntos... este assassínio e a investigação.
- E Philip?
Não o vi, a não ser por uns momentos quando
a polícia lhe estava a fazer perguntas.
Endicott voltou para Los Angeles? Não. Ainda cá está, mas quer ir-se embora. E Whitewell também pensa voltar? Por alguns dias, não. Dê-me um cigarro,
querido.
Dei-lhe um cigarro, e acendi um fósforo.
Alguém bateu à porta. Fui abrir. Era Whitewell, acompanhado de Endicott.
Não há dúvida, disse Whitewell, apertando-
me a mão que não era bem esta a maneira como tínhamos previsto que voltássemos a encontrar-nos, não é verdade, Lam?
Sem dúvida.
Endicott seguiu o exemplo de Whitewell
apertando-me a mão, mas não disse palavra.
Whitewell estava junto de Bertha, sorrindo-se. Não sei como é que consegue tal coisa. - O quê?
Passou praticamente uma noite em claro e
mesmo assim tem o aspecto fresco de quem passou a noite na cama desde as dez horas da noite. Não posso deixar de me maravilhar com a sua vitalidade.
Bertha respondeu, tolamente: Gostava de ser a décima parte daquilo que
você pensa que sou.
Intervim no diálogo.
Suponho que contaram ambos a vossa história
a Kleinsmidt.
Acenaram com a cabeça.
O tenente tem estado a verificar as vossas
declarações.
Ainda hão-de vê-lo mais umas vezes. É
teimoso que nem um burro. Posso acrescentar até, que pode tornar-se perigoso.
Ninguém disse palavra por alguns segundos,
depois foi Endicott quem falou:
Sim, tenho a impressão de que você tem
razão.
Bem, pelo sim pelo não, o melhor é passarmos
em revista os factos e...
Interrompi o que ia a dizer ao ouvir o som de
tacões de borracha no corredor. Em seguida, alguém bateu à porta.
Aposto em como é a polícia..
Ninguém quis apostar. Abri a porta. Era Kleinsmidt.
Entre, disse-lhe. Não duvido que alguém vai
sugerir tomarmos café.
Boa ideia disse Whitewell. Uma excelente
ideia.
Bom dia, tenente.
Kleinsmidt não esteve com pezinhos de lã. Preciso de verificar umas certas coisas. Você,
Whitewell, não me contou tudo o que aconteceu ontem à noite.
Receio não compreender o que quer dizer,
respondeu Whitewell.
O senhor não estava ontem à noite, cerca das
nove horas, à esquina das ruas Beech e Washington?
Whitewell hesitou.
Não sei disse passados momentos, como é que vou cooperar consigo, meu caro tenente. Você parece estar decidido a...
Deixe-se de subterfúgios, disse-lhe
Kleinsmidt. – Estava ou não estava?
Whitewell olhou para o tenente. - Não.
Tem a certeza?
Evidentemente.
Não esteve lá em qualquer momento, digamos
entre as oito e quarenta e cinco e às nove e quinze?
Não, não estive lá, em qualquer altura, ontem
à noite.
Kleinsmidt virou-se para trás, abriu a porta,
olhou lá para fora e acenou com a cabeça.
Prepare-se Whitewell, avisei-o. Ouvimos passos miúdos no corredor, depois
apareceu à porta uma rapariga.
Entre, disse Kleinsmidt. Olhe para as pessoas
que se encontram nesta sala e diga-me se alguma delas é a pessoa que você viu a noite passada.
A jovem atravessou a ombreira da porta.
Havia algo de desafio orgulhoso em todo o seu ar, como se soubesse que toda a gente estava contra si, tendo-se refugiado numa indiferença pretensiosa. Não dava a impressão de ter sido forçada a levantar-se a hora tão matutina. De certo modo, ao olhar-se para ela, sentia-se que não se tinha deitado e que não estava acostumada a dormir antes de nascer o dia. As faces tinham um pouco de cor a mais, e as linhas da sua boca eram duras.
Mas tinha tido cuidados consigo, cuidara do
corpo, das mãos, e tivera cuidado especial nas roupas que vestia; uma mulher quase a chegar aos trinta anos que tinha aprendido a nunca baixar a guarda, por um momento que fosse.
Sabia-se o que ia dizer, antes de ter
pronunciado qualquer palavra. Os seus olhos percorreram a sala, e depois fixaram-se em Whitewell. Mas antes de ter podido dizer alguma coisa, Bertha Cool chegou-se para a frente, na sua cadeira.
Não, isso é que não pode ser, disse para
Kleinsmidt.
Não e aqui, no meu quarto, que você vai
arranjar armadilhas.
Se tiver de haver alguma identificação,
coloque o homem ao lado de outro homem, aproximadamente da mesma idade e da mesma constituição física e...
Mas afinal quem é que manda aqui?
Perguntou indignado Kleinsmidt.
É possível que seja você. Mas estou a dizer-lhe
como é que terá de fazê-lo para poder ter algum valor.
Basta que tenha valor para mim. E então?
Encontra-se aqui essa pessoa?
A jovem levantou um dedo e apontou para
Whitewell.
Muito bem. Agora espere lá fora, disse
Kleinsmidt.
Um momento, disse Whitewell. Exijo saber... Espere lá fora.
A rapariga acenou com a cabeça e saiu pela
porta, ombros para trás, queixo levantado, ancas balouçando com o exagero suficiente para indicar que sabia muito bem o que estávamos a pensar e para nos dizer o que é que devíamos fazer.
A porta fechou-se. Kleinsmidt interrogou: - Então?
Whitewell ia para dizer qualquer coisa. Um momento, interrompi.
Olhou para mim, as sobrancelhas arqueadas
numa interrogação silenciosa, à maneira de alguém suficientemente bem educado para revelar surpresa ou aborrecimento de qualquer outro modo.
O senhor já disse o que tinha a dizer, disse-lhe
eu.
Não estava lá. Nada mais pode acrescentar a
isso e... fiz uma pausa significativa nada pode retirar ao que disse.
Kleinsmidt virou-se, fixando em mim o seu
olhar.
É advogado? Perguntou.
Não dei resposta.
Porque se não o é disse Kleinsmidt com ênfase
nós não gostamos de pessoas que pratiquem advocacia sem
autorização... pelo menos neste Estado; e ao pretender dar
conselhos a uma pessoa acusada... Interrompeu-se bruscamente, e perguntei-lhe: Acusada de crime?
Kleinsmidt não respondeu. Voltou-se depois para Endicott.
O senhor chama-se Paul G. Endicott?
Perguntou.
Endicott acenou que sim.
Está associado à Whitewell? Trabalho para ele.
De que forma?
Estou encarregado dos negócios, quando
Whitewell se ausenta.
E que faz quando Whitewell está presente? - Faço com que as coisas corram normalmente. Uma espécie de gerente?
- Sim, suponho que sim.
- Há quanto tempo trabalha com Whitewell? Há dez anos.
Conhecia uma jovem chamada Corla Burke? - Sim, vi-a.
- Falou com ela?
- Apenas por uns momentos. - Onde?
Uma noite em que ela foi ao escritório. Sabia que Corla e Philip iam casar-se? Sabia.
Quando é que chegou a Las Vegas? Ontem à tarde.
Como ?
Com Philip.
- No automóvel dele?
Sim.
Por que é que eu não ouvi falar de si até
agora?
Endicott olhou para ele calmamente. Nada
havia de antagonismo nesse olhar, nem de submissão. Era um olhar puramente desinteressado, em parte humorístico, talvez condescendente.
Garanto-lhe que não sei respondeu com a
inflexão exactamente devida na sua voz.
Endicott era claramente um tipo de homem
para dirigir realmente um negócio. Não cuidar simplesmente dos pormenores, mas de executar, e tomar decisões. Não era um homem que se pudesse atordoar. Tão pouco que pudesse ser amedrontado. Decidia o que tinha a fazer, e executava integralmente os seus planos. Tudo isso se revelou naquele instante em que os dois homens se olharam de frente.
Kleinsmidt sentiu quem tinha pela frente.
Abandonou os seus modos autoritários.
Em face das circunstâncias, Endicott, pretendo
saber o que fez a noite passada.
Quando?
Bem, o que é que estava a fazer cerca das nove
horas, por exemplo?
Estava no cinema.
- Onde?
No cinema «Casa Grande». >; A que horas é que entrou no cinema?? Oh, não sei, talvez cerca de um quarto para as
nove... ou talvez um pouco mais cedo. É verdade, agora que estou a pensar nisso, julgo que tenha sido pouco depois das oito e meia.
Até que horas esteve lá?
Até ver o espectáculo completo. Suponho que
tenha lá estado cerca de duas horas.
Quando é que soube do assassínio? Whitewell disse-me hoje de manhã. Que lhe disse ele?
Pensou que havia a possibilidade de ficar
retido em Las Vegas e, nesse caso, desejava que eu regressasse de avião a Los Angeles.
Porquê tanta pressa?
Porque é preciso manter a firma a funcionar. Como é que eu sei que o senhor foi a noite
passada para o cinema entre as oito e meia e um quarto para as nove?
Endicott respondeu:
Garanto-lhe que não sei.
Qual era o filme?
Oh, uma comédia ligeira, algo acerca de um
marido divorciado que voltou quando a sua mulher estava para se casar outra vez. Criaram-se situações bastante interessantes.
Não me poderá descrever melhor a história? - Não.
Suponho que não há qualquer possibilidade
de que tenha guardado o talão do bilhete?
Endicott respondeu:
É possível.
Começou a procurar mecanicamente nas
algibeiras.
De uma algibeira tirou vários talões de
bilhetes, olhou para estes, escolheu um, e afirmou:
É possível que seja este.
Kleinsmidt foi até junto do telefone, e marcou
um número.
O cinema não está aberto a estas horas da
manhã disse-lhe Endicott.
Estou a telefonar para casa do gerente. Momentos depois, Kleinsmidt dizia pelo
telefone:
Frank, aqui fala Bill Kleinsmidt. Desculpa se
te acordei, mas um copo de água quente com um pouco de sumo de limão, e um passeio, far-te-ão bem, para abater a barriga. Olha, espera um momento. Não te exaltes... Queria perguntar-te uma coisa acerca dos bilhetes do cinema. Tenho o talão de um bilhete que foi vendido a noite passada. Este tem um número. Não haverá maneira de me poderes dizer quando foi vendido esse bilhete? Oh, ah... um momento. Não desligues.
Kleinsmidt agarrou no talão, estudou-o, e
falou novamente ao telefone:
Tem o número 6943... o quê? Sim, tem. Duas
letras.
B Z. Oh, tens a certeza? Está bem, obrigado. Receio, disse para Endicott que terá de rever
um pouco essa questão das horas.
Endicott tirou um cigarro, bateu a ponta deste
de encontro a uma unha, comprimindo o tabaco dentro do cigarro.
Desculpe, mas não poderei fazê-lo. Esses bilhetes estão marcados, disse-lhe
Kleinsmidt.
No cinema têm tido tantos aborrecimentos
com bilhetes atrasados, que decidiram fazer exactamente com que soubessem quando é que foi vendido o bilhete... em que altura do espectáculo, por outras palavras. Deste modo, resolveram criar um código. A é sete horas. B é oito horas, e nove horas, D dez horas. X, Y e Z, representam períodos de quinze minutos.
Por exemplo, um bilhete que tenha um B quer
dizer que foi vendido entre as oito horas e às oito e quinze. BX quer dizer que o bilhete foi vendido entre as oito e quinze e às oito e trinta. BY, quer dizer oito e trinta as oito e quarenta e cinco, e BZ quer dizer oito e quarenta e cinco às nove. Na bilheteira têm um carimbo automático, ligado ao relógio, e as letras vão mudando automaticamente.
É pena, respondeu Endicott. Mas eu ainda
julgo que tenha entrado no cinema antes das oito e quarenta e cinco.
Está bem, mas mesmo que tivesse entrado
antes das oito e quarenta e cinco, poderia ter-se levantado e saído.
Um sorriso lento aflorou aos lábios de
Endicott.
Parece-me, meu caro, que ainda não é desta
vez que tenho de concordar consigo. Na altura não compreendi a sorte que tivera, mas se quiser ter o trabalho de verificar, descobrirá que o filme principal terminou cerca das oito e cinquenta e cinco, e que logo a seguir se realizou um sorteio.
Foi chamado o número de um bilhete. Não sei
porquê, li o número do meu bilhete incorrectamente e levantei-me para ir ao palco. Compreendi o erro. O público riu-se de mim.
É uma coisa que pode verificar. Ah, sim? Perguntou o tenente. A voz de Endicott não tinha nem mais nem
menos que o tom preciso de condescendência divertida.
Como o senhor muito bem manifestou...
sim... afirmou.
Aí está uma coisa que vou investigar. Terei
que voltar a falar consigo, disse o tenente.
Se o quiser fazer, venha até Los Angeles. Não parta para Los Angeles sem eu lho dizer.
Endicott riu-se. Meu caro senhor, se me
quiser fazer mais quaisquer perguntas, o melhor é fazê-las já, porque dentro de duas horas vou a caminho de Los Angeles.
Está a pretender tornar-se independente?
Perguntou Kleinsmidt.
Não, nada disso. Simplesmente acontece que
tenho profunda aversão a deixar correr um negócio de qualquer maneira só porque você pretende reter em Las Vegas toda a gente, até ter terminado uma investigação. Compreendo de certo modo a sua posição, e não o censuro de modo algum, mas eu tenho as minhas responsabilidades.
Posso fazer com que seja intimado na
qualidade de testemunha.
Endicott pensou, no caso, acenou lentamente,
e respondeu: Erro meu, meu caro tenente, na verdade, pode.
E nesse caso não poderia sair de Las Vegas
enquanto o assunto não estivesse esclarecido.
É verdade... e o resultado poderia ser
desagradável.
Para si este é um assunto bastante importante.
Para mim é meramente uma interrupção desagradável, e procuro fazer com que se torne o menos inconveniente possível.
Suponha que chegamos a um compromisso,
sugeriu Kleinsmidt. Se eu nada fizer para interferir com a sua partida, o senhor virá, de sua própria vontade, se o mandar chamar?
Está bem... mas, com duas condições.
Primeiro, que seja realmente necessário; segundo, que consiga preparar as coisas da firma, de modo a poder vir.
Endicott dirigiu-se para a porta. Se nada tens a objectar, Arthur, disse, já com
uma das mãos agarrando no puxador da porta, partirei daqui por volta das dez horas. Deverei chegar ao escritório pouco depois do meio-dia. Whitewell acenou que sim.
Bem, tu querias escrever uma carta aceitando
aquela opção que te foi dada por...
Sim, interrompeu Whitewell, como se
estivesse ansioso por manter os seus assuntos em privado.
Endicott tirou a mão do puxador da porta, e
apontou para a secretária.
Escreve uns apontamentos. Basta que
menciones a opção. Estava datada do dia 16 do mês passado.
Whitewell escreveu em letra apressada um
bilhete, assinou-o com uma assinatura de certo modo floreada. Kleinsmidt observava-o, estudando todos os movimentos que fazia.
Aqui não há selos, disse subitamente Endicott.
Vou lá abaixo à recepção comprar alguns. Há lá uma máquina onde se vendem...
Whitewell interrompeu-o.
Não é preciso, Paul. Trago sempre comigo
sobrescritos já selados, prontos para momentos como este. Não é bem a mesma coisa que um sobrescrito novinho em folha, mas os correios não se importam.
Tirou da algibeira um sobrescrito de correio
aéreo, já selado, e entregou-o a Endicott, por cima da secretária.
Preenche a morada. Sabes qual é. Olhei rapidamente para Bertha para ver se o
hábito de Whitewell de trazer consigo sobrescritos de correio aéreo, já selados, lhe tinha chamado a atenção. Aparentemente, não tinha.
Whitewell fechou o sobrescrito, entregou-o a
Endicott.
Mete-o no correio, Paul.
Endicott agarrou no sobrescrito. Não conheço bem as ligações do correio aéreo,
aqui em Las Vegas, mas mesmo que a carta tenha de ir até S. Francisco e voltar para trás, deverá chegar ao destino amanhã de manhã, o mais tardar... o que te dará tempo suficiente.
Kleinsmidt observou-o.
Repentinamente, voltou-se e riu-se para
Bertha.
Desculpe, Sra. Cool, por tê-la acordado tão
cedo. Faça por esquecer o incómodo. Se vocês aceitarem estas interrupções filosoficamente, vai ser tudo mais fácil, para todos nós.
Dirigiu-se rapidamente à porta, abriu-a e foi-
se embora.
Olhei para Arthur Whitewell. Já não era o
adulador, o pai de certo modo preocupado com o filho. Revelou-se em vez disso um homem de pensamentos rápidos e incisivos, capaz de tomar decisões imediatas.
Muito bem, Endicott, vais tomar conta da
firma.
Eu ficarei aqui até estar tudo solucionado. É
melhor partires já para Los Angeles.
Endicott concordou, com um aceno. Estou disposto a oferecer até oitenta e cinco
dólares por acção, para conseguirmos aquelas acções de que estivemos a falar a noite passada. Compreendes?
Compreendo.
Não dou mais que cinquenta mil por aquela
Empresa Consolidated. Julgo que existem boas perspectivas de petróleo naquela proposta apresentada pela Fargo. Subirei no máximo até setenta e cinco mil, mas quero que o meu dinheiro seja o último a entrar e o primeiro a sair, com o maior bolo possível.
Compreendes ?
Queres que lhes diga...
Não. Escuta. Estão a cometer sempre o mesmo
erro.
O erro que todos os novos fazem em
negócios... não calcularem devidamente o capital de que vão necessitar. Coloca vinte mil dólares no contrato. Estipula a condição de que os accionistas terão de entrar com mais vinte mil. Depois cala-te e espera os acontecimentos. Quando os calos começarem a doer, pedirão quantias pequenas, dois mil a cinco mil dólares. Continuas sem dizer nada. Esperas que fiquem desesperados, depois faz-lhes a nossa proposta.
Para ter posição dominante? perguntou
Endicott.
Para dominar as comuns e as primeiras
preferidas, cobrindo o meu investimento. Quero continuar a dominar depois de ter retirado todo o dinheiro que lá tiver colocado.
Endicott humedeceu os lábios. Julgo que isso não será possível. É possível se agires como eu disse. Eles estão
a pedir trinta e cinco mil dólares. Pergunta se não terão possibilidade de arranjar vinte mil dólares entre si, se eu entrar com vinte mil dólares. Conseguirão fazê-lo... e pensarão que será o capital suficiente.
Estou a compreender, respondeu Endicott. Não fales neste caso, foram as instruções que
Whitewell lhe deu a seguir. Se algum jornalista entrar em contacto contigo, ri-te. Estou aqui em viagem de negócios. Põe em relevo, o mais casualmente possível, que cheguei a Las Vegas várias horas antes do assassínio ter sido cometido.
Por outras palavras, trata-se de uma viagem
de negócios.
Os negócios que tenho aqui são
suficientemente importantes para me forçarem a vir de avião e ficar cá vários dias. Philip está comigo, para me auxiliar e tomar conhecimento de vários pormenores. Compreendes?
Perfeitamente.
Bem, quanto a Philip, como sabes é um jovem
com o sangue na guelra, impulsivo. Está apaixonado e preocupadíssimo com o desaparecimento da jovem com quem ia casar.
Compreendes com certeza o estado de nervos
em que se encontra. Temporariamente está zangado comigo. Tivemos uma discussão. Penso que Philip não está neste momento disposto a vir até junto de mim com um ramo de oliveira na mão. Também penso que as autoridades não o devem deixar sair de Las Vegas. Se o deixarem, irá ter contigo. Confio em ti para o manteres na ordem.
Endicott acenou a cabeça.
Em nenhumas circunstâncias deverá falar com
os jornalistas.
Julgo que poderei deixar isso ao seu bom
senso, mas se vires que está a escorregar, chama-o à razão. Se necessitares de alguma coisa, entra em contacto comigo pelo telefone.
Até quando esperas ficar em Las Vegas? Não sei, talvez algum tempo. Mas certamente já estarás no escritório dentro
de dois ou três dias. A investigação não deverá demorar mais...
É possível que esteja preso, disse Whitewell,
secamente.
Endicott juntou os lábios e deu um pequeno
assobio.
Penso que o melhor é ires-te embora, disse
Whitewell.
Há uma pequena possibilidade da tua partida
poder ser empatada.
Julgo que não disse Endicott. A hora que está
impressa no bilhete do cinema e o sorteio afastam de mim qualquer suspeita. Mas é palermice suspeitar de todas as pessoas que não têm um álibi ou que tenham estado nas redondezas. Não há dúvida que é uma maneira estranha de fazer a coisa. Porque é que eles não procuram o motivo e depois começam a verificar as horas.
Porque Kleinsmidt é um polícia demasiado
zeloso, numa comunidade isolada, respondeu Whitewell Não podemos esperar mentalidades e cérebros metropolitanos... e tu acabas por perder as ligações, se não partes imediatamente.
Endicott levantou-se, inclinou-se perante
Bertha Cool, apertou-me a mão e sorriu-se para Whitewell, dizendo: Vamos a isto! e saiu. Whitewell atravessou o quarto, indo até junto da porta, e o ruído do correr da lingueta na fechadura fez-me compreender que a sua atitude para comigo tinha um objectivo definido.
Bem, Lam, então o que é que pode fazer? Bertha respondeu:
Arthur, você pode confiar na agência, nós... Whitewell nem sequer se voltou para ela, fez
unicamente um gesto de silêncio com a palma da mão.
Se nos disser...
Esteja calada repreendeu Whitewell. A ordem fora dada com uma tal autoridade
que Bertha Cool remeteu-se mecanicamente a um silêncio surpreso e desconfortável.
Então, Lam? O que é que você quer e o que é
que pode fazer?
Em primeiro lugar, tem de me dizer contra o
que vou trabalhar. Kleinsmidt já sabe acerca de Corla. Isso quer dizer que os Clutmers estiveram à escuta.
Whitewell respondeu:
A rapariga está enganada. Nunca estive
próximo da casa de Miss Franley.
No entanto, parece-me que ela não está a
mentir respondi.
Também julgo que não. Mas não vê o que isso
quer dizer? Entre mim e Philip existe uma grande semelhança.
A rapariga viu Philip. Não tinha razão especial
para o observar atentamente, viu-o simplesmente passar na rua. Se Philip tivesse estado aqui, hoje de manhã, ela tê-lo-ia identificado.
Estava ansiosa por criar boa impressão junto
da polícia; viu-me, e havia semelhança suficiente... temos de manobrar as coisas de modo que nunca se encontre com Philip.
A rapariga já identificou o senhor. Agora não
volta atrás.
Bem, faça com que não volte atrás. Tem
quaisquer sugestões a fazer?
Evidentemente. Agora o senhor tem que fazer
com que ela o veja algumas vezes, falando e andando de um lado para o outro na sua frente. Depois, quando vir Philip, este parecer-lhe-á um estranho.
Excelente.
Philip tem algum álibi ?
Não sei. Essa é uma das coisas que
pretendia que descobrisse.
Acha que devo informá-lo de que estou a
trabalhar nesse sentido?
Não. Era sobre isso mesmo que queria falar
consigo.
Não deve dar-lhe a entender que está a
trabalhar em qualquer coisa que não seja o desaparecimento de Corla Burke.
Isso quer dizer mais despesas e... Está bem, não tem importância. Bertha Cool endireitou-se, na cadeira em que
estava sentada.
A desculpe-me disse ela, mas... Whitewell fez-lhe novo gesto com a Mão pondo-a de parte.
Bertha retorquiu:
Vá para o diabo! Não julgue que alguém irá
estipular preços nesta agência, a não ser Bertha Cool.
Whitewell voltou subitamente a ser o que era,
sorrindo-lhe.
Desculpe-me, Bertha. Ninguém estava a tentar
passar por cima de si. Pretendia simplesmente que Lam compreendesse o que há a fazer, porque é preciso que comece imediatamente.
Bertha retribuiu-lhe o sorriso. A sua voz era
toda veludo.
Sabe, Arthur, nós temos de nos pagar melhor
quando trabalhamos em casos de crime.
Quanto mais?
Bertha olhou para mim e indicou-me a porta.
Está tudo bem, querido, o melhor é começar a
trabalhar sem mais demoras.