Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo X · O frio penetrante da noite no deserto
desfizera-se perante o embate dos raios do sol. A residência dos Dearborne parecia não ter vida. O sol brilhante iluminava a frente do edifício e transformava o estuque branco num clarão que feria a vista.
Sentado no carro que alugara, estacionado do
outro lado da rua e a meio do quarteirão, eu esperava... absorvendo o calor transmitido pelo sol e tentando não dormitar.
Tentei-o fumando cigarros, mas isso apenas
abrandou a tensão nervosa, e fez com que sentisse ainda maior indolência.
Havia na atmosfera uma sonolência pesada
que penetrava em tudo. Fechei os olhos para os descansar da grande luminosidade... e não fui capaz de abrir novamente as pálpebras.
Dormitei durante dez segundos ou dez
minutos. Repentinamente, acordei, censurando-me a mim mesmo, desci um dos vidros do carro, tentei respirar fundo e o mais rapidamente possível, fazendo entrar uma super-abundância de
oxigéniono meu sistema circulatório. Tentei pensar em alguma coisa que me fizesse exasperar. A porta da casa abriu-se e Ogden Dearborne saiu.
Parou defronte da porta por uns momentos,
esticando os braços por cima da cabeça. Deixei-me escorregar pelo assento do automóvel, de modo a ficarem apenas os olhos acima do nível da porta.
Ogden olhou para o céu, depois para um
pequeno jardim defronte da casa, endireitou-se, espreguiçou-se outra vez, como um homem que não tivesse um só cuidado no mundo, apenas um engenheiro com um emprego do Estado, pagando as suas contas regularmente, as eleições já realizadas, o seu Partido no poder e os impostos que fossem para o diabo.
Depois, casualmente, voltou para dentro de
casa.
Passados três segundos de ter fechado a porta,
esta voltou a abrir-se e saiu Eloise Dearborne.
Esta não perdeu tempo olhando para a rua, ou
para o panorama. Caminhou com passos rápidos, firmes, evidentemente tendo um destino definido.
Endireitei-me no assento do automóvel e vi-a
afastar-se.
Eloise voltou a uma esquina, para o lado
esquerdo, três quarteirões mais abaixo. Pus o motor a trabalhar, mantive-me o mais escondido possível, e entrei com o automóvel na curva.
Agora era fácil segui-la. Aquela área tinha
mais edifícios, e muitas lojas. A jovem entrou numa pequena mercearia, e eu estacionei o carro, parando o motor.
Esperei durante cerca de dez minutos, depois
Eloise saiu, trazendo dois grandes sacos de papel. Desta vez percorreu apenas metade do quarteirão. Um letreiro numa porta dizia: “Pequenos apartamentos”.
Saí do automóvel, dirigi-me rapidamente à
mercearia, comprei uma lata de leite condensado, que me custou dez cêntimos, e dirigi-me à casa dos apartamentos. Uma mulher estava a varrer o corredor. Mostrei-lhe a lata de leite com um meio sorriso, e perguntei-lhe: Onde é que poderei encontrar a rapariga que acaba de entrar com os embrulhos?
A mulher parou de varrer, olhou para mim e
viu a lata do leite.
O que é que aconteceu? Ela perdeu alguma
coisa?
Parece que sim.
Julgo que está no apartamento 2-A. É no
primeiro andar, mesmo em frente.
Agradeci-lhe, subi até meio das escadas,
esperei que o barulho da vassoura acabasse, e ouvi uma porta bater.
Depois desci as escadas a correr, entrei no
automóvel, atirei a lata do leite para o assento detrás e dirigi-me à companhia dos telefones.
Inter-Urbana, chamada de estação para
estação. Dê-me o número da Agência de Detectives B. Cool, em Los Angeles.
Com urgência, se faz favor.
Elsie Brand apareceu na linha, logo que a
central fez a ligação em Los Angeles.
Está? Elsie? Como vai essa formosura?
perguntei.
Muito mal. Como é que está a patroa? Com certeza que não acreditas. Emagreceu de
tal modo que agora pesa cerca de setenta e cinco quilos.
- O quê?
Estou a falar a sério. E ainda há mais, está a
tornar-se coquete.
Deves ter bebido demais. Quando é que vocês
voltam?
Não sei. Agora escuta. Vai à redacção de um
jornal, onde tenhas pessoas conhecidas. Na secção de Arquivo procura tudo o que houver acerca de um homem chamado Sid Jannix, que foi pugilista. Em determinada altura foi um nome bastante conhecido. Vê se arranjas algumas fotografias ou então pede a um fotógrafo para tirar cópias das fotografias que houver. Depois envia-mas pelo correio aéreo, para o Hotel Sal Sagev.
No teu nome verdadeiro? perguntou Elsie. Hum, hum, e Bertha também está registada
com o seu nome. Estamos ambos naquele hotel. Mas temos mais. Vai à repartição de estatísticas e vê se Sidney Jannix era casado.
Vê também se se divorciou. Depois de
conseguires essa informação, telegrafa-me.
O. K. Aqui em Los Angeles temos alguns
clientes à espera. Um deles é um caso de chantagem, e o outro é um caso de atropelamento e fuga. O que é que lhes digo?
Diz-lhes que a Agência de Bertha Cool não
poderá prestar-lhes neste momento os seus serviços, únicos no género, a menos que paguem muitíssimo bem. Vê até que ponto estão dispostos a pagar. Se vires que é bom...
A voz da telefonista interrompeu: Três minutos.
Afastei imediatamente o auscultador do
ouvido, e pousei-o no descanso, mas momentos antes de o fazer ainda ouvi um estalido, sinal inconfundível de que Elsie Brand tinha sido mais rápida do que eu. Bertha Cool não admitiria jamais que numa chamada interurbana se gastasse mais que um período. “Levei menos de três minutos a dizer a meu marido que acabávamos tudo”, era seu costume dizer, “e nada do que se disse então foi tão importante. De modo que se vocês não são capazes de dizer tudo o que precisam em três minutos, têm de aprender”.
Saí dos telefones e entrei num restaurante,
tomei uma chávena de café, presunto e ovos, e depois dirigi-me ao “Cactus Patch”. Um empregado disse-me que Louie Hazen só entraria de serviço às cinco horas da tarde, mas quando me dirigia para a saída, um outro empregado chamou-me e disse-me para esperar uns momentos. Parece que Louie se encontrava na cave, a reparar algumas máquinas.
Fiquei à espera enquanto o mandavam
chamar.
Louie apareceu, olhou para mim com ar de
dúvida, por uns momentos, depois reconheceu-me, e a sua expressão abriu-se num sorriso.
Olá, camarada, disse ele avançando para mim
com a mão estendida.
Estendi a mão, mas a sua já não estava lá. O
próprio Louie não estava lá. Com grande agilidade, empurrou a minha mão direita para um lado, e quando os meus olhos encontraram finalmente os seus, foi apenas a alguns centímetros de distância, o seu punho direito encostado com gentileza, mas com firmeza à boca do meu estômago.
Tem que estar alerta, companheiro. É preciso
estar sempre prevenido.
Fixei-o nos olhos, vi o seu nariz amachucado a
pequena distância, o sorriso aberto que revelava dois dentes a menos no lado esquerdo.
Não estava à espera desta, pois não? Abanei a cabeça.
É preciso estar sempre em guarda, se alguma
vez quiser ser pugilista. Acredite sinceramente, era capaz de fazer de si um bom pugilista. Podia ensinar-lhe a arte, e você seria dinamite. Você é um tipo de coragem. Tem aquela coragem que é necessária para se fazer um pugilista. Gostava imenso de treiná-lo.
Agarrei-o por um braço.
É possível que um dia me disponha a isso.
Onde é que podemos falar?
Levou-me para um canto.
O que há?
Queria que me fizesse um favor. Diga tudo o que quiser. Sabe uma coisa?
Fiquei a gostar de si no momento em que lhe dei o murro. Você sabe como as coisas são. Há pessoas de quem se tem a impressão que vamos gostar, mas no momento em que se lhe aperta a mão gelamos, por dentro. No momento em que você me tocou, houve uma espécie de electricidade. Bem, ou qualquer coisa parecida. No momento em que lhe dei um murro no queixo... é verdade, como é que está o seu queixo?
Dorido.
Você é na verdade um tipo às direitas. Tem
coragem.
Dê-me seis meses e faço de si um pugilista. Louie, queria que me fizesse uma coisa. Com certeza. Já lhe disse que o fazia. Basta
dizer.
Leu os jornais da manhã?
- Não.
Então dê-lhes uma vista de olhos. Porquê?
A noite passada foi morto um homem. Morto?
Hum, hum. Com um tiro de revólver. Os olhos de Louie aumentaram de tamanho.
Quer dizer assassinado?
Exactamente. Bem, tenho uma surpresa para
si. Adivinhe quem era?
Louie abanou a cabeça vagamente. O homem que esteve aqui a jogar nas
máquinas das moedas, a noite passada.
Você refere-se a Sid Jannix, o boxeur que só
fazia um assalto?
A polícia pensa que o seu nome é Harry
Beegan.
Pois estão enganados, é na verdade Sid
Jannix. Conheci-o no momento em que o vi lançar aquela esquerda, com o ombro esquerdo levantado de fronte do queixo, e lançar logo de seguida a direita. Era indiscutivelmente uma característica do velho Jannix. Se me lembro, da maneira como ele os deitava para o tapete...
Ouça, Louie, queria que me fizesse uma coisa. Oh, com certeza. Tudo o que você quiser. O
que é?
Queria que fosse à morgue e identificasse o
cadáver.
Não o cadáver do homem que a noite passada
andou à pancada consigo, quando estava a fazer batota nas máquinas de moedas, mas sim como Sid Jannix, um antigo companheiro do box e diga que em tempos combateu com ele...
Mas, eu nunca combati com ele. Bem, não era um combate a sério, era um
combate de treino que foi combinado no ginásio.
Oh, diabo, eu não queria ir à morgue, faz-me
calafrios.
Não lhe faz mal nenhum.
Bem sei, mas também não me vai fazer bem
nenhum.
Oh, bom, se você não quer ir... Um momento, companheiro, eu não disse que
não o fazia. Disse apenas que não queria fazê-lo. Não queria que fosse fazer alguma coisa que não gostasse.
Não faz mal. Se você quer que eu o faça, faço
mesmo.
Quando é que quer que vá lá? Imediatamente.
Ajeitou a gravata, vestiu o casaco, e sorriu-se
para mim com aquele modo jovial e amistoso. Já vou a caminho. Olhar para um cadáver não vai com certeza criar boa disposição para o meu pequeno almoço, mas de qualquer maneira... Onde é que eu posso encontrá-lo quando voltar?
Volto cá mais tarde.
Muito bem. Até logo. Mas não se esqueça.
Não estou a brincar consigo. Podia fazer de si um bom “boxeur”. É o que lhe digo, você tem fibra. Vou pensar nisso, prometi, e observei Louie caminhando ao longo da fila das máquinas de moedas, saindo pela porta da frente, a cabeça e o pescoço assentes nos ombros com aquele ar inconfundível de dureza que caracteriza um homem habituado à violência do box.
Dirigi-me ao bar. O empregado veio até junto
de mim e perguntou: O que deseja? Perguntei-lhe: Breckenridge já entrou?
Já. Parece-me quê está lá em cima. Quer falar
com ele?
Exactamente.
Como se chama?
Lam.
Como é que se escreve?
- L-A-M.
O empregado do bar virou-se rapidamente
para o espelho, olhou para um pedaço de papel que estava pendurado, e perguntou-me: O senhor chama-se Donald Lam?
Acenei que sim.
O patrão fez uma recomendação a seu
respeito. Tudo o que quiser é seu. Que quer beber?
Neste momento, nada. Quero apenas falar
com Breckenridge.
O empregado do bar fez um sinal com os
olhos para um homem que passaria facilmente por um turista que andava a observar a casa, a olhar para os jogos. A indolência do homem dissolveu-se imediatamente numa energia decidida, à medida que se aproximava.
Este senhor quer falar com o patrão, disse-lhe
o empregado do bar.
Uns olhos frios fixaram-se em mim, e o
empregado do bar acrescentou apressadamente:
Chama-se Lam. O patrão recomendou que... O frio dos olhos deixou de existir. Uma mão
bem cuidada, com um grande anel de diamantes, foi-me estendida. O homem apertou-me a mão efusivamente.
Ainda bem que o senhor apareceu. Não quer
umas fichas para tentar a sorte, ou...
Não, obrigado. Queria falar com
Breckenridge.
Imediatamente, respondeu. Venha comigo. Levou-me até junto ’da porta que dava para
as escadas que levavam ao 1.º andar. Reparei que havia um pequeno diafragma disfarçado na parede. O homem que me acompanhava falou através deste: Está aqui Donald Lam, Harvey. Levo-o comigo para cima...
A porta abriu-se silenciosamente, e subimos
as escadas.
Quando nos encontrávamos quase no cimo da
escada, o meu companheiro afastou-se sem mais cerimónias regressando ao casino, para recomeçar a sua fiscalização. Não sei exactamente o momento em que me deixou porque Harvey Breckenridge dirigia-se para mim de mão estendida e um sorriso na face. Dava a impressão de ser um homem que não sorria muitas vezes, e quando o fazia, os seus lábios finos, comprimiam-se secretamente como se estivessem dispostos a cooperar no sorriso apenas com a condição de que a causa fosse mantida em religioso segredo.
Entre. Faça favor de se sentar. Entrei e sentei-me.
Que quer beber?
Nada, obrigado. Não há ninguém, cá na casa,
que não tenha insistido para que eu bebesse qualquer coisa.
Ainda bem. Verifiquei a sua história, Lam.
Lamento muito sinceramente o que aconteceu a noite passada.
Você foi bastante simpático. Sabe, que se
quisesse podia-nos ter provocado um bom sarilho. Agradeço-lho bastante.
Compreendi que estava agradecido, respondi,
acenando com a mão na direcção do casino.
Está tudo em ordem?
Sem dúvida alguma.
Alguma coisa que queira, é só pedir. Diga aos
rapazes como se chama, e tudo o que houver é seu. Não pretendia abusar, mas tenho um pedido a fazer-lhe.
- O que é?
- É possível que lhe peça para me emprestar
um dos seus homens.
O sorriso desapareceu da sua cara. Estava tão
isenta de qualquer expressão como se acabasse de receber um jogo de elevado valor, durante uma partida de “poker”.
- Qual deles?
Louie Hazen.
Os seus olhos perderam a expressão de
dureza, depois sorriu-se e, passado um momento, riu-se abertamente.
Que é que pretende fazer? perguntou.
Assassiná-lo?
Não. É possível que ele me possa prestar uns
serviços.
Haverá algum inconveniente em emprestar-
mo por uns tempos?
Meu Deus, de modo algum! Leve-o com os
meus cumprimentos.
Evidentemente, pagar-lhe-ei os salários
enquanto estiver...
Nada disso. Dar-lhe-ei uma licença de trinta
dias e continuarei a pagar-lhe. Trinta dias será o suficiente para si?
Uma semana será o suficiente. Leve-o por quanto tempo quiser. O pobre
diabo! Não me agrada ter que despedi-lo, mas... bem, você sabe como ele é. É inofensivo e suficientemente bem intencionado, mas tem a mania dos socos. Possivelmente ainda me arranja algum sarilho grave se o mantiver aqui. Por outro lado. Também não gostaria de o largar sem mais nem menos. Na verdade, Lam, faz-me um favor se o tirar daqui por uns tempos.
Entretanto, vou tentar encontrar outro
trabalho para ele.
Você não o tem há muito tempo, pois não? Pois não. Aliás não lhe devo nada. Devia pô-lo
na rua simplesmente, mas não sou capaz de o fazer. Existe nele alguma coisa que inspira compaixão. É tal e qual como um cão vadio que se aproxima de nós a abanar o rabo, com um modo tão amistoso e ansioso que uma pessoa não tem coragem de lhe dar um pontapé e enviá-lo de novo para a vadiagem.
Quando é que o quer?
É possível que o queira imediatamente. - Logo que ele vier, faça com que venha cá
acima para lhe dar ordens. O que é que pretende dele, se acaso não estou a ser intrometido? Fixei o seu olhar indagador.
Pretendia que me ensinasse boxe. Está à sua disposição - respondeu-me
Breckenridge, mas já não se sorria, e nos seus olhos notava-se uma certa concentração quando apertámos as mãos e me fui embora.