Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo VI · Os “cocktails” em nada ajudaram. Philip
Whitewell mostrou-se triste e desolado. O pai esteve sempre a olhar para mim como um jogador de «poker» olha para um parceiro que apostou uma porção de fichas azuis, depois de ter anunciado um jogo bastante fraco à distribuição. Bertha tentou esvoaçar como se fosse a pomba da paz e manter as coisas a correrem pelo melhor, mas revelando indícios de estar quase a quebrar devido à fadiga.
Era um papel novo para Bertha, quase tão
estranho para si como a relativamente esguia e elegante silhueta com que se apresentava. Whitewell tinha de algum modo conseguido hipnotizá-la. Subitamente Bertha estava plenamente consciente do facto de que era uma mulher. De que modo isso iria afectar o seu sentido comercial, era algo que ainda estava para ser visto. Quando a recém-descoberta faceta romântica de Bertha Cool fosse de encontro à sua cupidez comercial, ia sem dúvida haver uma grande colisão. Pela minha parte, estava a jogar as cartas com a maior atenção, bastante disposto a falar da política e dos armamentos... mas tinha deixado de falar acerca de Corla Burke.
Jantamos. A noite estava quente. Insectos
esvoaçavam na rua em torno dos candeeiros de iluminação. As portas e as janelas encontravam-se todas abertas. Os naturais da terra e os turistas andavam em mangas de camisa. A transpiração não se notava, a não ser quando uma pessoa se encostava para trás. Então sentia-se a camisa molhada. Outras vezes, o ar seco evaporava a transpiração tão depressa quanto esta se formava. Whitewell pagou a conta. Enquanto esperava troco, Philip falou comigo:
Lam, tenho imensa confiança em si. Obrigado.
Acha que encontrará Corla? Seu pai é que nos está a pagar, respondi. Mas eu não compreendo. O pai pretende que
você encontre Corla. Não é verdade, pai?
Whitewell respondeu:
Sim, Philip, se isso for possível com um
razoável dispêndio de tempo e de dinheiro.
Mas não estás a compreender, pai. Não pode
ser uma questão de dinheiro. Há algo por detrás disto tudo, alguma coisa sinistra, terrível...
Está bem, mas não vamos agora discutir o
assunto enquanto fazemos a digestão.
Mas tu prometes-me que manterás o Sr. Lam...
Isto é, a Sra. Cool e o Sr. Lam a trabalharem no caso?
Isso, Philip, é uma coisa que só eu poderei
decidir.
Voltou-se para mim: Lam, se for capaz de
encontrar essa carta e se essa carta revelar definitivamente que Corla partira voluntariamente, penso que Philip e eu estaríamos dispostos a aceitar tal acontecimento como estando terminado o seu trabalho.
Presumo que o senhor não tem quaisquer
pretensões sobre essa carta?
Penso que a carta falaria por si. Mas, pai, isto não pode ficar assim. Temos de
encontrar Corla. Temos de encontrá-la!
A criada voltou com o troco. Whitewell deu-
lhe uma gorjeta exactamente de dez por cento e meteu o resto do dinheiro na algibeira.
Você não comeu nem sequer o que era
habitual. Perdeu o apetite? Perguntei a Bertha.
É verdade. Não senti vontade de comer. Bem
não quero dizer que não tenha apetite; mas já perdi aquela sofreguidão que tinha quando era... mais forte.
Whitewell perguntou ao filho: Já viste alguma vez aqueles casinos onde se
joga, Philip?
Não, respondeu este.
Whitewell olhou significativamente para
Bertha.
Quer vir connosco jogar um pouco ou prefere
voltar ao hotel e ter uma conferência com o seu auxiliar?
Bertha já compreendeu o sentido. Nós vamos para o hotel, respondeu. Deviam ser aproximadamente oito horas.
Subimos até ao quarto de Bertha. Esta puxou a porta que fechou a chave.
Donald, o melhor é dar-me essa carta. Olhei para o relógio.
Não acha que seria melhor completar as
minhas investigações?
Acerca de quê?
Acerca da carta.
Donald, que diabo pretende você? O que é
que quer ir fazer a Los Angeles?
Tenho várias razões. Se quer ficar aqui por
causa do clima, alguém deve estar em Los Angeles para dirigir o negócio.
Os olhos de Bertha fuzilavam. Diabos o comam, Donald. Não é preciso fazer
esse segredo todo comigo. Porque é que quer sair daqui?
Foi apenas uma sugestão.
Bertha suspirou.
Está bem, vá apanhar o seu maldito comboio. Quando é que a vejo?
Não sei. Gosto de estar aqui. - O clima?
Evidentemente, o clima. Porque razão havia
eu de ficar por aqui?
Não sei.
Também julgo que não. Bom, vá-se embora e
apanhe o comboio.
Não diga aos Whitewells para onde é que fui,
enquanto o comboio não partir.
O que é que eu lhes digo?
Diga-lhes que fui fazer outra investigação.
Vou deixar um bilhete no porteiro, a dizer-lhe que decidi tomar o comboio para Los Angeles, e que você deve esperar aqui por mim.
Deixarei instruções para que o bilhete lhe seja
entregue às nove e trinta, ou então pode telefonar para o porteiro e perguntar se deixei algum recado. Whitewell não deve gostar disto.
É verdade, concordei. É possível que não
goste.
Bertha olhou para mim como se tentasse ler os
meus pensamentos, depois virou-se com um gesto de irritação.
Abri a porta, dirigi-me rapidamente ao meu
quarto e meti a roupa numa maleta. A minha experiência com Bertha ensinara-me que era da maior conveniência viajar apenas com uma pequena mala. Tinha ainda meia hora para o comboio. Passei o tempo estudando a carta e analisando as conversas que tinha tido.