Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo VII · O comboio chegou a Las Vegas à tabela.
Embarquei e ainda tive de esperar um quarto de hora. Na carruagem-cama tinha-me sido destinado um dos beliches inferiores. As carruagens tinham ar condicionado. Na estação ainda fazia bastante calor, e depois do calor tórrido do deserto a temperatura amena dentro das carruagens quase provocava arrepios de frio. Como não tinha mais nada para fazer, despi-me enquanto o comboio ainda estava na estação de Las Vegas, meti-me no beliche, verifiquei que um cobertor não sabia nada mal e adormeci. Nem sequer cheguei a dar pela partida do comboio.
Sonhei que havia um grande tremor de terra.
As linhas do comboio estavam torcidas e retorcidas, que mais pareciam uma serpente a tentar fugir de um ferro em brasa.
O comboio foi apanhado no redemoinho. As
carruagens saltavam umas por cima das outras...
Uma voz repetia sempre, num sussurro
“número nove inferior, número nove inferior...” e compreendi então que o tremor de terra era provocado por umas mãos que puxavam pelo cobertor.
Esfreguei os olhos.
O que é que há?
Este senhor quer falar-lhe imediatamente.
Que diabo! respondi, lutando ainda contra a
sensação de irrealidade e com uma irritação crescente.
Acenda a luz disse uma outra voz. Sentei-me no beliche e abri as cortinas. O tenente Kleinsmidt estava de pé no
corredor, tendo a seu lado o criado de casaco branco e olhos meios esbugalhados.
O comboio seguia naquele momento com
lentidão, mas a aumentar a velocidade. Lá longe podia ouvir-se o silvo do trabalhar da locomotiva, o qual ressoava pelos tejadilhos das carruagens. O corredor era rodeado de um lado e do outro de cortinas verdes que balouçavam com o movimento do comboio. Aqui e além, apareceram cabeças de passageiros curiosos que queriam saber o que se passava.
Olhei para Kleinsmidt.
Que ideia é esta? perguntei.
Você tem que voltar para trás, Donald Lam. Para trás? Para onde?
Para Las Vegas.
Quando?
Agora mesmo.
É melhor arranjar outra solução. Às oito e
trinta, em ponto, chego a Los Angeles.
O polícia olhou para o relógio. Embarquei em Yermo às duas e meia. Às três
e dez fazemos uma pequena paragem em Barstow. Entretanto, você veste-se para termos tempo de desembarcar.
Não há dúvida que vocês estão a dar-me uma
enorme cooperação em troca das facilidades que vos dei.
O tenente ainda pensou em dizer qualquer
coisa, depois mudou de opinião e respondeu:
Comece a vestir-se, Lam. Estou aqui em
missão oficial, e se lhe digo para se vestir também o estou a fazer na minha capacidade oficial.
Como é que você conseguiu chegar até aqui?
Perguntei aceitando a situação, e ao mesmo tempo comecei a tirar o pijama.
Kleinsmidt estava com um cotovelo apoiado
ao beliche de cima, de modo que a olhar para mim o fazia de cima para baixo.
De avião. Um automóvel vem neste momento
atrás do comboio.
Uma voz de homem, irritado, perguntou do
beliche de cima:
Porque é que não mandam montar um
telefone do comboio para terra?
Perdão, disse o tenente.
O criado aproximou-se.
Desculpem-me. Mas se não se importam... Está bem, disse-lhe eu. Nós ficamos calados. Vesti-me em silêncio. Kleinsmidt agarrou na
mala quando acabei de lhe meter as minhas coisas dentro.
Seguiu à minha frente até junto do toilette.
Que é que você quer de dentro da mala, Lam?
perguntou.
A escova dos dentes, e escova do cabelo... Olhou para o relógio.
Muito bem. Agora vou servir de seu criado de
quarto.
Penteei-me, lavei os dentes e a cara e procurei
a camisa.
Kleinsmidt deu-ma. Tinha estado com a
camisa na mão, a olhar para ela.
Voltei a guardar a escova do cabelo, a escova
e a pasta dos dentes, dentro da mala. Kleinsmidt fechou-a e pegou nela.
Eu levo-a, disse ao tenente.
Não faz mal. Levo-a eu.
O criado bateu à porta.
Dentro de minutos chegamos a Barstow. Só
fazemos uma paragem de alguns segundos. Seria melhor que estivessem já à porta, prontos a desembarcar.
Kleinsmidt acenou com a cabeça. O criado indicou uma porta na parte de trás
da carruagem.
Acendi um cigarro.
Afinal o que é que há? perguntei a Kleinsmidt. Desculpe, Lam, mas neste momento não vou
dizer nada.
Não há dúvida. Pela maneira como você está a
proceder, uma pessoa é levada a pensar que está a trabalhar num. Caso de assassínio.
Logo depois de ter feito esta afirmação estava
capaz de ter cortado a língua. A expressão que apareceu na sua cara disse-me tudo o que havia a dizer.
Como é que soube que houve um assassínio,
Lam?
Mas, houve?
Foi isso que você disse.
Não seja parvo. Eu disse que você estava a
atravessar por uma agonia tal como se tivesse havido um assassínio.
Não foi isso exactamente que disse. O diabo se não foi.
Você sabe bem que não foi.
Está bem. Estava apenas a utilizar uma
maneira de falar. Mas isso não quer dizer que não me conte as coisas.
Falaremos acerca de outras coisas até
chegarmos a Las Vegas.
O comboio abrandou a marcha. Atravessámos
o vestíbulo.
O criado encontrava-se à porta da carruagem,
com a mão no trinco. Quando o comboio parou, abriu a porta, desceu para o exterior e ficou à espera. Continuava a ver os seus olhos meio esbugalhados.
O ar puro do deserto penetrou-me nas
narinas. Mesmo dentro da carruagem com ar condicionado conseguia aspirar às emanações das pessoas que dormiam. No deserto, o ar puro, frio e seco dissolvia essas impurezas dos pulmões tão rapidamente que produzia o efeito de uma punhalada.
Quis dar uma gorjeta ao criado. Este estendeu
a mão para receber, depois subitamente arrependeu-se.
Não, obrigado. Está bem assim. Não quero
dar-lhe azar... queria dizer... bom dia.
Voltei a colocar a moeda na algibeira. Olhei para frente, ao longo do comboio.
Soprava um vento ligeiro. Fumo e vapor da locomotiva eram lançados para trás e dissolviam-se em fragmentos. Kleinsmidt caminhava à minha frente, levando a mala, parecendo saber muitíssimo bem para onde se dirigia. Fora da estação, olhei para o céu. As estrelas brilhavam com firmeza, muito próximas de mim, sem tremerem e com uma luz muito brilhante.
O clima do deserto, nas suas alterações
bruscas e bastante típicas, tinha passado do calor para um frio intenso e seco.
Tem sobretudo? perguntou Kleinsmidt. - Não.
Bem, o carro tem aquecimento. Seguimos até junto de um automóvel
estacionado. Um homem saiu deste e abriu a porta de trás.
Kleinsmidt fez-me entrar em primeiro lugar,
depois meteu a mala e sentou-se a meu lado.
Vamos embora, disse ele para o motorista.
Pusemo-nos em movimento, saindo dos terrenos da estação de caminho de ferro numa grande curva, até à estrada, e atravessámos uma ponte. O interior do carro estava aquecido, mas eu sentia a proximidade das estrelas; os amplos espaços do deserto, estendendo-se para cada lado, para trás e para a frente, dava às coisas uma impressão de insignificância fria.
Voltei-me para Kleinsmidt.
Está um tempo óptimo.
É verdade.
Mas que ideia é esta? Você está a acusar-me
de algum crime ?
Você volta simplesmente para trás e nada
mais.
Se não sou acusado de nada, não tem
qualquer autoridade para me tirar assim de um comboio e fazer-me voltar para trás.
É possível que assim seja. Contudo, o chefe
disse para trazê-lo, e é essa a razão por que vamos agora para Las Vegas.
De quem é este automóvel?
Aluguei-o ao quilómetro. Lá mais adiante está
um avião à espera.
Bem, de qualquer modo estou satisfeito por
sermos amigos. Se não o fôssemos, você poderia ter ficado aborrecido e nada me diria.
O tenente riu-se com a piada. O motorista virou-se para trás, depois voltou-se rapidamente para a frente para fixar os olhos na estrada.
Resolvi encostar-me para trás e fechei-me em
silêncio.
Kleinsmidt mordeu a ponta de um charuto e
começou a fumar. Não se ouvia um som além do ruído provocado pelo vento frio do deserto ao assobiar em volta do carro, e o ruído do motor.
Cerca de meia hora depois o carro abrandou. À nossa frente um quadrado de luzes de
várias cores assinalava um aeroplano. O motorista quase parou o automóvel, procurou um desvio com um farol móvel, encontrou o caminho e aproximou-se do campo de aterragem. Quase imediatamente, ouvi o ruído do motor de um avião que começou a trabalhar.
Kleinsmidt disse para o motorista: Dê-me um recibo de modo que possa meter a
corrida na conta das despesas.
O motorista recebeu o dinheiro que lhe deu
Kleinsmidt e passou-lhe um recibo à pressa. O tenente abriu a porta, agarrou na minha mala e saímos para o frio da noite. O motorista do automóvel fez marcha atrás e seguiu em direcção à estrada. O motor do avião estava a trabalhar com regularidade.
Debaixo dos meus pés ouvia o estalar da
areia.
Pelo canto da boca Kleinsmidt falou comigo.
Se soubessem que eu disse alguma coisa
estava perdido.
Você deve chegar ao gabinete do chefe sem
saber absolutamente nada.
Porquê? Perguntei.
Kleinsmidt mediu a distância que ia até ao
avião e abrandou um pouco o passo de modo a poder chegar lá sem ser demasiado cedo.
A que horas é que saiu de junto de Bertha
Cool, no Hotel Sal Sagev? perguntou-me.
Porquê? Não sei. Sim, afinal, sei. Foi pouco
depois das oito horas.
Para onde é que se dirigiu?
Para o meu quarto.
Fazer o quê?
A mala.
Não foi à recepção comunicar que saía? Não. Encarreguei Bertha de fazê-lo. De
qualquer modo teria que pagar mais um dia pelo quarto e Bertha era quem pagava as contas. Sabia que eu ia para Los Angeles.
Disse alguma coisa a alguém no hotel, antes
de sair?
Não. Agarrei simplesmente na mala e vi-me
embora.
Deixei no porteiro um bilhete para Bertha. Esta mala é toda a bagagem que você tem? É. Mas porquê?
Em voz baixa informou-me:
Alguém foi morto. O chefe pensa que você
tem algo a ver com isso. Não sei o que o faz pensar assim, mas parece-me que houve uma pessoa que lhe deu indicações. Por isso não perca a cabeça. Depois de chegarmos ao avião não diga nada. Obrigado, tenente.
Está bem. Mas não se esqueça de pensar nisto
que eu lhe disse, e veja se consegue arranjar um álibi.
Para que horas?
Desde as nove menos dez até à hora em que o
comboio partiu.
Não posso. Cheguei à estação cerca das nove
horas.
O comboio partiu cinco minutos depois das
nove e eu embarquei nele.
O criado não se lembrava de si. Nem podia. Estava a falar com alguém. Como
a minha mala não era pesada, levei-a eu próprio ao entrar na carruagem.
Como estava cansado, despi-me
imediatamente e...
Deixe lá isso, disse o tenente ao aparecer o
piloto junto do avião.
Está tudo pronto? perguntou Kleinsmidt. Está, podem embarcar.
Entrámos na cabina de um avião mono-motor.
O piloto olhou para mim com curiosidade.
Já voou alguma vez?
- Já.
Então sabe como apertar o cinto e o resto? Sei.
O piloto desceu uma cortina atrás do seu
assento, acelerou o motor, e começámos a rolar na pista. Passados alguns minutos, as rodas deram uma série de esticões curtos e em seguida estávamos no ar. À nossa frente o farol circular do aeródromo cortava a escuridão da noite. Kleinsmidt tocou-me no joelho, levou um dedo aos lábios em sinal de silêncio, colocou a minha mala entre uma perna e o lado da cabina, fora do meu alcance. Fechou os olhos e quase imediatamente começou a respirar pesadamente.
Julgo que não estivesse a dormir.
Aparentemente, deveria ser uma espécie de armadilha para ver se eu tentava tirar alguma coisa da mala. Notei que mantinha a sola do sapato encostada ao canto da mala. Teria sentido imediatamente qualquer coisa, se eu por acaso tocasse na mala.
Comecei a recordar tudo o que se passara e
lembrei-me da maneira como agarrara na mala logo que entrou no comboio e nunca mais a largara desde que dela se apossara.
Depois lembrei-me da maneira como tinha
examinado a minha camisa no lavabo. Evidentemente, havia alguém que tinha dado ao chefe da polícia indicações bastante pormenorizadas.
CAPÍTULO VIII
O chefe da polícia, Laster, olhou para mim,
por cima da secretária.
Sente-se.
Puxei de uma cadeira e sentei-me. Kleinsmidt
sentou-se no outro extremo da sala, e cruzou as pernas.
A luz do dia começava a aparecer lá fora.
Havia luz suficiente para tornar a iluminação eléctrica das ruas apagada e pálida, mas não a suficiente para dispensar a iluminação artificial. Você chama-se Donald Lam e afirma ser um detective particular? Perguntou Laster.
É verdade.
Trabalha para a Agência de Detectives B.
Cool?
Trabalho.
Bem, você chegou ontem à tarde a Las Vegas
de avião, não é verdade?
É.
Imediatamente, começou a provocar uma
série de sarilhos.
Não.
Franziu o sobrolho.
Não? Perguntou sarcasticamente. Não. Começaram-me a provocar uma série de
sarilhos.
O chefe da polícia olhou para mim, como se
eu estivesse a brincar.
Bem, você envolveu o tenente Kleinsmidt
numa cena de pancada, teve uma discussão com o empregado encarregado das máquinas de jogos do “Cactus Patch”, depois andou à pancada na rua com um homem chamado Deegan, não é verdade?
Respondi-lhe:
O empregado do “Cactus Patch” deu-me um
soco.
Depois chamou a polícia. O tenente
Kleinsmidt apareceu.
Quanto à outra cena, um homem atacou-me,
sem provocação, assim como a Kleinsmidt. O tenente começou na verdade a levar a melhor e o homem fugiu... bastante à pressa.
Pelo canto dos olhos olhei para Kleinsmidt.
Sorria-se.
Gostou daquela versão da cena. Laster tentou outro caminho. Ontem você foi à casa de Helen Franley, não é
verdade?
- É.
Como é que conseguiu a morada? Deu-ma um cliente da agência. Ia a dizer qualquer coisa, mas decidiu não o
fazer, consultou alguns apontamentos que tinha sobre a secretária, olhou subitamente para mim e perguntou:
Harry Beegan era o amante dela, não é
verdade?
Confesso que não sei.
Mas portava-se como se o fosse? Receio que não esteja em posição de o julgar. Você estava a bordo do comboio para Los
Angeles, que parte de Las Vegas às nove e vinte?
Estava.
Apanhou o comboio no último momento, não
é verdade?
Não.
A que horas é que entrou para o comboio? Logo que o comboio chegou à estação. Quer dizer que estava à espera na estação e
que subiu para o comboio logo que este parou?
Foi isso que disse.
Bem, agora pense cuidadosamente, porque a
sua resposta pode ser bastante importante.
Importante para quem ? perguntei. Para si, entre outras pessoas. Não consigo ver qualquer razão para pensar
cuidadosamente a que horas entrei no comboio.
Vai manter essa afirmação?
- Vou.
Você não apanhou o comboio no momento em
que este ia partir?
Não.
Não entrou no comboio depois deste ter
estado no cais durante algum tempo?
Não.
Você embarcou para o comboio logo que este
parou?
Bem, esperei que os outros passageiros
descessem, isso talvez tenha levado um minuto ou dois.
Mas você estava ali, de pé, junto do comboio,
à espera que os outros passageiros desembarcassem...
Exatamente. Mas o que quer isto dizer?
Pretendo saber mais alguma coisa acerca do comboio, primeiramente. Você estava na estação às nove e cinco?
Estava na estação às nove horas, em ponto. Em que ponto da estação?
Estava de pé, a apanhar o fresco. Oh, disse o chefe como se me tivesse
apanhado nalguma confissão esmagadora, você não estava dentro da estação?
Mas acaso terei dito que estava? Franziu o sobrolho.
Estava à espera no lado de fora? Exatamente.
Quanto tempo esteve à espera até o comboio
aparecer?
Não sei. Cinco minutos, talvez dez. Viu alguém que o conhecesse, ao pé do
comboio?
- Não.
O chefe olhou para Kleinsmidt. Mande entrar os Clutmers, Bill. Kleinsmidt abriu uma porta que dava para
um corredor.
Entretanto, dirigi-me ao chefe: Bem, como já respondi às suas perguntas,
talvez agora me queira dizer o que é que se passa. Momentos depois, abriu-se a porta, e a mulher da casa ao lado do apartamento de Helen Franley entrou no gabinete; um pouco atrás, o marido. Tinham ambos o aspecto de terem passado mal a noite. Os olhos estavam vermelhos.
Os músculos da cara retesados. O chefe voltou-se para mim: Conhece o sr. e a sr.a Clutmer? De vista.
Quando é que os viu pela última vez? Não me lembro.
Viu-os depois das oito e meia, ontem à noite? - Não.
O chefe da polícia voltou-se para Clutmer: Este homem afirma que estava na estação à
espera que chegasse o comboio das nove e cinco. O que é que pensa acerca disto?
Foi a Sra. Clutmer que respondeu à pergunta. Isso é absolutamente impossível. Já lhe disse
que não poderia ter estado na estação. A única maneira pela qual poderia ter apanhado o comboio era com este já em movimento, porque nós não saímos da plataforma até ao momento em que o comboio se preparava para partir.
Tem a certeza que não podia ter estado lá?
A certeza absoluta. Tínhamos estado a falar
nele e com certeza que dava pela sua presença se lá tivesse estado.
A que horas é que chegaram à estação? Deviam faltar cinco ou dez minutos para as
nove.
Tivemos que esperar cerca de dez minutos
pelo comboio, e este chegou à tabela.
Laster voltou-se para mim.
Ora aqui tem.
Importa-se que fume? Respondi-lhe. Franziu a testa. Kleinsmidt sorriu-se. Laster dirigiu-se novamente à sra. Clutmer: Este homem diz que estava fora da estação, na
plataforma, à espera do comboio. Bem, e vocês em que ponto estavam?
Por algum tempo estivemos dentro da
estação, e depois fomos lá para fora e esperámos de pé na plataforma. Mas observámos as pessoas que desembarcaram, e as que embarcaram.
Não quero dizer que seja bisbilhoteira, mas
gosto simplesmente de saber o que é que se passa. Gosto de utilizar o meu poder de observação, nada mais.
Laster voltou-se para mim.
Então? Perguntou.
Acendi um fósforo, com este acendi a ponta
do cigarro, e aspirei fundo.
A Sra. Clutmer começou voluntariamente a dar informações.
Helen Franley tem, sem dúvida, certa
simpatia por este jovem. Na verdade, ela e o amigo tiveram a noite passada uma discussão por causa dele.
Como é que sabe que era por causa dele?
Perguntou o chefe.
Podia-se ouvir perfeitamente na minha casa
aquilo que diziam. Estavam a falar muito alto. Quase que gritavam um para o outro. O amigo dela acusou-a de ter uma queda por este, e ela respondeu que se quisesse que o faria, que Beegan não tinha assinado nenhum contrato consigo. Depois Beegan disse-lhe que lhe mostraria se tinha ou não contrato com ela, e acrescentou que tinha dado uma porção de informações que não devia dar. Depois empregou uma expressão esquisita... isto é, chamou-lhe um nome qualquer. Foi Clutmer que tapou aquela falha nas informações.
Chamou-lhe pombinha, disse secamente, e
reduziu-se novamente ao silêncio.
Está a ouvir, Lam? perguntou o chefe. Estou.
Muito bem, e o que é que tem a dizer? - Nada.
Não vai desmentir?
Desmentir, o quê?
Que discutiram por sua causa. Sei lá se discutiram.
E ainda afirma que estava na estação?
Já lhe disse onde é que estava. Mas estes senhores dizem que não havia
possibilidade de você ter subido para o comboio logo que este entrou na estação.
Ouvi isso perfeitamente.
Então, e depois?
Têm direito a ter a sua opinião... e nada mais.
Eu estava no comboio.
A sr.a Clutmer interveio:
Tenho a certeza absoluta!
Foi a vez de Kleinsmidt falar. Ora, um momento, sr.a Clutmer. A senhora e
o seu marido foram à estação falar a umas pessoas que vinham no comboio, não é verdade?
Sim.
Pessoas amigas, suponho?
Sim.
E aguardavam com Ansiedade o momento de
lhes falar?
Naturalmente. O que é que julga que
tínhamos ido lá fazer?
E estavam excitados?
Nem por isso.
Sabiam a que horas chegava o comboio? Sabíamos.
A que horas é que saíram de vossa casa? Deviam faltar vinte minutos para as nove. E foram a pé para a estação? Fomos.
Sendo assim, chegaram à estação um quarto
de hora antes da chegada do comboio?
Exactamente. É isso mesmo que tenho estado
a dizer.
Nós estávamos lá. Se lá tivesse estado alguém,
tínhamo-lo visto com certeza.
Por que razão é que foram tão cedo para a
estação?
Bem, queríamos ter a certeza de que
estaríamos à chegada do comboio.
Sabiam que este fazia uma paragem de quinze
minutos?
Estavam bastante excitados por terem a
oportunidade de se encontrarem com velhos amigos?
Bem, esperávamos o momento com
ansiedade.
E logo que o comboio entrou na estação,
começaram à procura dos vossos amigos?
Bem, começamos a olhar para as pessoas, não
há dúvida.
Onde é que estavam os vossos amigos? De pé, no vestíbulo.
E vocês tiveram então uma conversa animada
na plataforma?
Evidentemente.
Os vossos amigos não podiam ficar uns
tempos em Las Vegas?
Não. iam para Los Angeles em viagem de
negócios, iam outras pessoas com eles.
E vocês estiveram a falar até ao momento em
que o condutor gritou: «partida»?
Sim.
Depois os vossos amigos voltaram a subir
para o comboio?
Claro.
Bem, esperaram que o comboio partisse, ou
vieram-se logo embora?
Viemo-nos logo embora, mas o comboio
partiu imediatamente.
Ouvimo-lo pôr-se em andamento quando
atravessávamos a sala de espera. E já agora também posso acrescentar.
Esperámos até ao momento em que o criado
da carruagem fechou a porta.
A porta da carruagem em que viajavam os
seus amigos?
Bem, claro que foi essa.
Kleinsmidt olhou para o chefe, mas não disse
nada.
O chefe olhou para mim, franziu a testa e
depois voltou-se para a sr.a Clutmer. Depois olhou para o marido desta.
Como é que se chama... o seu primeiro nome? Robert.
Você estava com a sua mulher? Estava.
Concorda com tudo o que ela diz? Bem... bem... eu... eu... eu... de certo modo
concordo.
Em que ponto é que não concorda? Oh, eu concordo com ela, na verdade. Acha que há qualquer possibilidade de este
homem ter estado na estação e que não o tenham visto?
Bem, existe uma pequena possibilidade... só
uma pequena possibilidade.
Seria por acaso pedir muito, se me dissessem
o que é que se passa? Perguntei.
Foi a Sra. Clutmer quem respondeu: O quê, não sabe? Eles...
Não é preciso mais nada, Sra. Clutmer. Eu
trato do Resto, interrompeu o chefe.
A mulher olhou para mim.
Bem, não era preciso interromper-me. Eu ia só
dizer-lhe...
Sou eu quem lhe digo.
Mas, pode ler a notícia nos jornais. Suponho
que não se tem feito grande segredo. Eu...
O chefe fez um gesto para Kleinsmidt. Este
levantou-se e disse para o casal.
Está muito bem. Já não é preciso mais nada. Deixa-os ir para casa disse o chefe. Vocês podem voltar para casa disse-lhes
Kleinsmidt.
Ora ainda bem, e já não é sem tempo! Essa
ideia de levantarem uma pessoa da cama à meia-noite e obrigarem-nos...
Leva-os lá para fora, disse o chefe exaltado.
Kleinsmidt fê-los sair, quase ao empurrão, e
fechou a porta atrás de si.
O chefe voltou-se para mim. As coisas não têm lá grande aspecto, para si. Parece que morreu alguém. Quem foi? O tenente Kleinsmidt abriu a porta, entrou
novamente e fechou a porta.
O chefe Laster olhou para algumas notas que
tinha assentes num livro com capa de couro e que estava aberto em cima da secretária. Em seguida tirou uma caneta da algibeira e rabiscou alguns apontamentos.
Levantou os olhos do livro, tapou a caneta,
meteu-a na algibeira.
Harry Beegan foi morto a tiro a noite passada,
entre as oito e quarenta e cinco e as nove e vinte e cinco.
Lamento muito.
Olharam ambos para mim. Nada mais disse e
não lhes dei qualquer expressão facial que pudessem interpretar.
A rapariga com quem ele vivia parece ter-se
escapulido prosseguiu o chefe.
Viviam os dois?
Bem, estava sempre lá em casa. Há uma certa diferença nisso, repliquei. Alguns minutos antes de ter sido morto...
digamos dentro das duas horas que antecederam a sua morte... você falou com a rapariga. Beegan meteu-se a meio. Vocês tiveram uma discussão. Em seguida você foi-se embora. Beegan acusou a rapariga de ter um fraco por si. Tinha ciúmes.
Acusou-a de que ia sair para se encontrar
consigo. Mas ela jurou que não ia fazer nada disso. Saiu e encontrou-se consigo.
Beegan seguiu-a. Beegan e você andaram à
pancada por causa da rapariga. Julgo que era justo imaginar que você tinha combinado com a rapariga fugirem os dois a Beegan, encontrando-se em Los Angeles. A rapariga desapareceu para ir ter ao encontro marcado.
Não estou a compreender bem o seu
raciocínio.
Você estava a trabalhar num caso. A sua
patroa estava na cidade. Estava projectada uma estadia sua, na cidade, por dois ou três dias.
Quem disse isso.
É fácil de presumir. A sua patroa ainda cá
está.
O caso em que estou a trabalhar relaciona-se
com o desaparecimento de alguém em Los Angeles. É aí que a pista começa, e é sem dúvida o melhor sítio para ir à procura de indícios.
O chefe da polícia ignorou a minha
argumentação.
Subitamente, a noite passada, você anunciou
que ia a Los Angeles no primeiro comboio que aparecesse. Saiu do Hotel Sal Sagev, que é mesmo ao pé da estação, muito tempo antes da hora do comboio. Você tinha todos os motivos, e incentivos, e todas as oportunidades para matar Harry Beegan, e sabe tão bem como eu que as coisas são assim mesmo.
Beegan foi morto a tiro na casa da rapariga?
Perguntei.
Foi.
Como é que lhe é possível fixar tão
rigorosamente a hora do assassínio e mesmo assim ter um período de tempo indefinido no meio?
Os Clutmers estavam na casa ao lado até ao
momento em que saíram para ir à estação. Quando o comboio partiu voltaram directamente para casa. Não tinham ouvido absolutamente nada... não vinham quaisquer sons do apartamento do lado. Ouviam com facilidade vozes em tom elevado na casa de Helen Franley. Sem dúvida nenhuma teriam ouvido um tiro. Isso fixa a hora do assassínio, exactamente dentro desses limites.
A não ser que os Clutmers estejam a mentir. Porque razão haviam de mentir? Suponha que não gostavam de Beegan, e que
tinham estado a aguardar uma oportunidade para lhe tratarem da saúde? Quando é que foi descoberto o cadáver?
Pouco antes da meia noite.
Muito bem, suponha que regressaram a casa,
encontraram Beegan à porta da casa da rapariga, ou na escada?
Travam discussão. Ou então entram no
apartamento, atrás dele, e dão-lhe um tiro à queima roupa. Se os incluir na lista dos suspeitos, o assassínio poderia ter ocorrido em qualquer outro momento, antes do cadáver ter sido descoberto.
Isso soa a tolice.
Talvez lhe pareça tolice a si. A mim parece-me
tolice o senhor pensar que fui eu que o matei.
Você queria a rapariga.
Não a queria mais a ela do que a uma centena
de outras raparigas atraentes.
O suficiente para correr o risco de apanhar
uma sova?
Eu estava a trabalhar.
Sei isso, respondeu o chefe da polícia, e com
as pontas dos dedos afagou o queixo, você tem uma grande devoção pelos seus deveres.
Quando estou a trabalhar num caso, procuro
saber a verdade... tal como você.
Bem, a propósito dessa afirmação, os
Clutmers nada têm a ver com o caso. O que quer, por consequência, dizer que se mantém a hora do assassínio. Ora, pense um bocado, Lam. Seja franco. Se ia, na verdade, encontrar-se com a rapariga, nós acabaremos por descobrir. E se isso é tudo o que têm a ver com o caso, esqueceremos o que se passou.
Mas, você sabe muitíssimo bem que era essa a
razão por que queria ir a Los Angeles. Não é verdade?
Não estou a compreendê-lo.
Você combinou com a rapariga encontrarem-
se em Los Angeles.
Nada disso.
O facto de desmentir, em nada me influencia. Está muito bem. Só é pena que me tenha
arrancado do comboio.
Que pretende dizer?
Sou apenas um detective particular. Não
tenho a pretensão de lhe dizer como deve dirigir as suas coisas, mas se me tivesse deixado ir até Los Angeles e depois me tivesse mandado seguir e eu me encontrasse, de facto, com a rapariga, então já tinha alguma coisa sobre que se basear. Tal como as coisas estão agora, não tem a menor probabilidade de provar que ia encontrar-me com ela.
É uma dedução lógica.
Você não está bom da cabeça! Laster replicou:
Existe outra coisa, aliás uma circunstância,
bastante suspeita. Quando Kleinsmidt lhe perguntou se sabia onde é que vivia Beegan, você não lho disse.
É verdade. Não lho disse.
Mas já tinha estado no apartamento.
Beegan não vivia lá.
Mas a rapariga vivia.
Não foi isso o que o tenente me perguntou. ’’ Não estará você a ser exageradamente
técnico?
O tenente perguntou-me se sabia onde é que
Beegan vivia.
Bem, você sabia o que ele queria dizer. E por saber onde vivia a rapariga e não o ter
dito a Kleinsmidt, o senhor pensou que eu estava a encobrir qualquer coisa?
Claro.
Não vi qualquer razão para envolver a
rapariga.
O chefe da polícia finalizou a nossa conversa. Por agora nada mais.
Posso ir-me embora?
- Pode.
Quero ir para o Hotel Sal Sagev. Pois bem, vá.
Não vejo que haja qualquer razão para ir a pé.
Não se esqueça que fui arrancado de um comboio que seguia para Los Angeles. Já tinha o transporte e a cama pagos. O que é que pensa fazer sobre este assunto?
Laster pensou durante um momento, depois
respondeu:
Nada.
Quero voltar para Los Angeles. Que ideia! Você não pode sair da cidade
enquanto não terminarem as investigações.
E quando será isso?
Não sei.
Vou apresentar-me a Bertha Cool. Se a patroa
me disser para ir a Los Angeles, vou mesmo.
Não autorizarei tal coisa.
Se estiver fechado à chave, não vou. Se não
estiver fechado, vou mesmo. Bem, e se o tenente me levasse ao Hotel Sal Sagev?
Laster replicou:
Não seja parvo. São apenas alguns quarteirões
de distância. Não há dúvida de que é um cliente dos caros.
Kleinsmidt disse-me isso mesmo, mas... Você não está bom. Estou a dar-lhe todas as
facilidades.
Podia fazer com que me mandasse pôr em Los
Angeles.
É possível que ainda o faça, depois de falar
com Bertha Cool.
Neste momento, tudo o que tenho a dizer é
que pretendo ir ao Hotel Sal Sagev.
Kleinsmidt levantou-se, e interveio. Venha daí, Lam.
Cá fora estava estacionado um automóvel da
polícia, Kleinsmidt sorria-se quando eu entrei no carro.
E então? perguntei-lhe.
Eu disse ao chefe para o deixar chegar a Los
Angeles, fazer com que a polícia de Los Angeles o seguisse, verificar se você se encontrava com a rapariga, e, no caso afirmativo, prendê-los a ambos; no caso contrário, que o deixasse em paz. Não me deu ouvidos. Disse que tinha a certeza que fora você quem matara Beegan, que, segundo as indicações, você era um fedelho que diria tudo quanto sabia se o arrancássemos do comboio, o trouxéssemos até cá, e não falássemos consigo durante o caminho.
Bocejei.
O automóvel de Kleinsmidt seguia
vagarosamente pelas ruas, e deixou-me à porta do hotel.
Então, e você, meu caro? perguntei-lhe. O que é que quer dizer ?
O que é que estava a fazer a noite passada
entre as oito e quarenta e cinco e as nove e vinte e cinco?
Andava à procura de Beegan. Não o encontrou, pois não?
Vá para o diabo, respondeu Kleinsmidt, e
sorriu.