Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 12 de 17

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Jogo, Mulheres e Morte

Capítulo XIII · Tinha a certeza de que Bertha estava à minha

 

espera no hotel. Por essa razão não voltei lá. O dinheiro que tinha economizado estava depositado para ser levantado em cheques de viagem, e assim comprei um carro velho, uma camisa de lã, umas calças e um casaco de couro, roupas para cama, um fogão a gasolina, panelas, alimentos enlatados e estava pronto a partir às três e trinta da tarde.

Tínhamos o aspecto típico de campistas

quando saímos da cidade. Ninguém tentou fazer-nos parar. Passámos perto de uma porção de polícias que nos miraram dos pés à cabeça e nos deixaram seguir.

Metemos pela estrada Beatty; o automóvel

fazia uma média de sessenta quilómetros por hora. Ao fim da tarde meti a uma estrada secundária que seguia pelo deserto.

A algumas centenas de metros da estrada

principal parei o carro fora do caminho, num espaço sem vegetação.

Estará bem aqui? perguntei a Louie. Está muito bem.

Helen Franley saiu do carro sem dizer

palavra, e começou a tirar coisas para fora.

Trouxeste cobertores com fartura, disse ela. Vamos precisar deles.

Os seus olhos encontraram os meus. Duas camas ou três?

- Três.

- O. K.

Helen estendeu os cobertores na areia do

deserto. Louie tirou o fogão de gasolina de dentro da caixa de cartão em que vinha empacotado, colocou-o em cima do estribo do automóvel, encheu o depósito de gasolina, e passados alguns minutos estava a começar a ferver uma cafeteira com café.

Que posso fazer? perguntei-lhe. Nada, respondeu Louie. Deixe-se estar por aí.

Você é o chefe da família. Não está bem assim? perguntou ele olhando para Helen Franley.

Está muito bem.

Como é que a trato quando chegar o

momento de a chamar para comer? perguntou-lhe Louie, com o seu sorriso desdentado.

- Helen.

O. K. Eu chamo-me Louie. Não está zangada

comigo por causa daquele negócio das máquinas de moedas?

Mesmo nada, respondeu Helen, e estendeu-

lhe a mão.

Louie apertou-lhe a mão e sorriu mais uma

vez.

Vamo-nos dar bem.

O pugilista começou a sua tarefa, agarrando

panelas e cafeteiras, e depois nas latas de conservas. Nem um só gesto seu era inútil. Não parecia estar com grandes pressas, mas conseguia fazer as coisas com uma rapidez incrível.

Helen e eu tentamos uma ou duas vezes

auxiliá-lo, mas Louie afastou-nos impaciente.

Não vamos ter festa. Não vamos pôr mesa

nem comerem grande estilo. Não temos água suficiente para lavarmos tudo muito bem e não vamos ter muitos pratos, mas garanto-lhes que o jantar lhes vai encher o estômago.

Passado um pedaço, a brisa do deserto trouxe

até nós o cheiro de feijões, feijões e alho e cebola frita.

Louie, perguntei-lhe, que prato é esse? Isto, respondeu ele com orgulho, é um prato

que eu próprio inventei. Cortam-se as cebolas em rodelas finas, deitam-se dentro de um pouco de água, e deixam-se cozer até secar a água. Depois deita-se um pouco de óleo e fritam-se.

Junta-se um pouco de alho, depois abre-se

uma lata de feijões e junta-se-lhes um pouco de molho. Garanto-lhes que é bom.

Helen e eu sentámo-nos lado a lado, em cima

dos cobertores, olhando para o céu enquanto um artista invisível se dava ao trabalho de pintar um pôr de sol no deserto, trabalhando rapidamente com cores vivas e um pincel pródigo.

Estávamos ainda a olhar para o pôr do sol

quando Louie nos colocou nas mãos os pratos bastante quentes.

Ora aqui está, tudo completo. Come-se tudo

no mesmo prato, quero dizer que têm de comer tudo e depois limpá-lo com o pão.

Começamos a comer. Os feijões sabiam

melhor do que qualquer outra refeição de que tinha memória, acompanhados de um pão fresco que ensopou o molho que ficou no prato, depois de termos comido tudo.

Helen suspirou.

Parece-me que nunca comi uma coisa que me

soubesse tão bem. Donald, porque é que não te lembraste mais cedo disto?

Não sei. Naturalmente porque sou estúpido,

respondi.

Os últimos restos da luz do dia

desapareceram. O céu encheu-se de estrelas.

Eu lavo os pratos, disse Helen. Louie sentiu-se insultado.

Que sabe uma rapariga como você acerca de

lavar os pratos? De qualquer maneira, não é próprio. Ora, repare numa coisa. Aqui no deserto não temos muita água, está a ver? Eu mostro-lhe como é que se faz.

Louie levou os pratos para pequena distância

de nós, à frente do carro, acendeu os faróis, com os calcanhares abriu pequenos sulcos no chão e depois apanhou areia. Deitou a areia nos pratos e começou a esfregá-los. Quando acabou, a areia tinha ensopado tudo o que ficara nos pratos e estes estavam completamente limpos. Em seguida deitou água a ferver sobre eles, apenas algumas colheres em cada um.

A água limpou os restos de areia, e deixou os

pratos a brilhar de limpos.

Ora aí está, anunciou Louie orgulhosamente.

Muito mais limpos do que se tivessem aqui um alguidar cheio de água. Agora deixamos ficar os pratos em cima do estribo do carro e já ficam prontos para o pequeno almoço. A que horas é que quer partir?

Depois digo-lhe, respondi.

Pensei em puxar os meus cobertores para aqui

e... disse Louie.

Assim está bem, retorquiu Helen. Fiz as três

camas, lado a lado.

Louie esperou alguns minutos, e depois

respondeu:

Muito bem.

Sentámo-nos nos cobertores durante algum

tempo.

E se fizéssemos uma fogueira? perguntou

Louie.

Pode acontecer que alguém ande à nossa

procura na estrada, respondi.

É verdade. Naturalmente andam. E se

tivéssemos um pouco de música?

Você trouxe um aparelho de rádio? perguntei. Trouxe uma coisa melhor, respondeu Louie. Tirou a gaita de beiços da algibeira, envolveu-

a ternamente nos seus dedos e colocou-a na boca.

Não era bem a espécie de música de que

estava à espera.

Estava preparado para a música normal das

gaitas de beiço, mas Louie deu-nos de tudo. A música que saía da harmónica parecia de algum modo misturar-se com a calma tranquilidade da noite do deserto. Integrou-se na escuridão, nas areias silenciosas e nas estrelas.

Helen chegou-se para mim e encostou-se ao

meu ombro.

Passei-lhe o braço pela cintura. Sentia a sua

respiração lenta e regular, o calor da sua cara e o perfume do seu cabelo.

A mão de Helen agarrou na minha. Senti os

seus ombros elevarem-se ao respirar fundo, e depois suspirou.

A noite ainda estava quente. Por duas vezes,

no espaço de uma hora, ouvimos motores de automóveis aproximando-se à distância. Faróis dançavam vagamente para cima e para baixo, ao longo da estrada, criando sombras estranhas.

Aparte esses dois carros, o deserto pertencia-

nos inteiramente.

As melodias de Louie tinham a majestade da

música de órgão. Isso devia-se, em parte, ao ambiente, ao deserto e às estrelas num céu que parecia ter sido lavado de novo e polido por uma dona de casa cósmica. Louie tocava de ouvido, mas era sem dúvida um artista, e a sua harmónica realizava coisas que se julgariam impossíveis.

Depois, passado um bocado, Louie parou de

tocar, deixando simplesmente a música transformar-se em silêncio e ficámos ali sentados, olhando para as estrelas, para os contornos pouco visíveis do automóvel, para a vegetação baixa do deserto, sentindo o silêncio eterno.

Helen segredou baixinho:

Parece que estamos mais próximos do céu. Sentia-lhe o calor do corpo através das suas

roupas e das minhas, sentia o peso da sua cabeça apoiada no meu ombro. Uma ou duas vezes os seus músculos contorceram-se involuntariamente, à medida que a tensão nervosa diminuía e o seu corpo se entregava à lassidão.

Passados momentos, uma brisa tão leve, que

era quase imperceptível, começou a percorrer o deserto, mas era uma brisa fria. O calor desapareceu completamente. A brisa aumentou de intensidade. Agora sentia-se o ar correr. Helen chegou-se mais a mim. Encolheu as pernas e encostou com força os seus joelhos contra a minha perna. Por algum tempo, voltou o calor, depois a brisa apareceu novamente, e Helen endireitou-se com um arrepio. Está a arrefecer, disse Louie.

São horas de ir para a cama, anunciou Helen.

O meu cobertor é o da ponta. Donald, tu dormes no meio.

Helen arrastou-se para cima do seu cobertor, e

tirou o vestido. Estava demasiado escuro para se verem os pormenores, mas a luz das estrelas revelou os contornos gerais do seu corpo, enquanto o vestido escorregava pelas pernas abaixo. Observei-a sem curiosidade e sem me sentir muito consciente disso. Dava a impressão de que estava a observar, à luz das estrelas, uma linda estatueta. Helen cobriu-se com os cobertores, mexeu-se e voltou-se durante uns momentos, tirando as roupas interiores, depois sentou-se para vestir o pijama, abotoando o casaco no pescoço.

Boa noite, disse ela.

Boa noite, respondi.

Louie, ligeiramente embaraçado, ficou calado,

pretendendo pensar que Helen tivesse falado apenas para mim.

Mas esta levantou-se um pouco, apoiando-se

sobre o cotovelo.

Louie! chamou.

- O que é?

Boa noite.

Boa noite, respondeu ele, gaguejando um

pouco.

Esperamos alguns minutos até que Helen se

tivesse acomodado nos seus cobertores, depois Louie e eu despimos a nossas roupas e enfiamo-nos nos cobertores, tendo apenas vestida a roupa interior.

Perguntei a mim mesmo que frio iria fazer. Já

sentia a ponta do nariz gelada. As estrelas no céu, directamente por cima de mim. Pensei que talvez uma delas caísse, e se assim fosse podia cair em cima de mim... depois subitamente abri os olhos e no céu existia uma variedade completamente diferente de estrelas. Debaixo de mim o chão estava duro e os meus músculos doridos, mas o ar fresco e limpo, com aquela qualidade rara do frio sem poeiras, tinha-me purificado o sangue, sugando todos os venenos, e deixando-me tão aliviado como se tivesse estado a dormir um mês seguido.

Fechei novamente os olhos. Acordei um

pouco antes do amanhecer, e vi um brilho azul-esverdeado no céu, prenunciador da aurora. Depois o azul-esverdeado transformou-se em laranja pálido. A cor de laranja aumentou de intensidade, tornou-se mais viva, e depois uma pequena nuvem tomou grande relevo. Ouvi o respirar ritmado de Helen, a meu lado, e ouvi o ressonar plácido de Louie, do outro lado, e pensei em levantar-me, mas depois resolvi deixar-me ficar no quente dos cobertores.

Quando acordei, o sol encontrava-se acima do

horizonte, criando longas sombras no chão, devido às elevações de terreno e à vegetação. Uma série de contorções e pequenos ruídos, nos cobertores a meu lado, indicaram-me que Helen Franley estava a vestir-se. Louie estava curvado sobre o fogão, no estribo do carro, e o cheiro do café chegou até às minhas narinas.

Nunca houve nada que satisfizesse tanto a

alma, tão cheio de promessas, como o cheiro a café ao ar livre, depois do ar puro e fresco ter feito o seu trabalho e uma pessoa compreender que está verdadeiramente esfomeada.

Helen Franley levantou-se, e a sua figura era

esbelta e graciosa. Os raios dourados do sol matinal retocavam as suas linhas jovens de uma cor alaranjada a vermelha. Olhou para mim, reparou que eu estava a olhar para ela, e naturalmente disse:

Bom dia, Donald.

Olá, respondi.

Louie voltou-se ao ouvir-lhe a voz e logo a

seguir curvou-se sobre o fogão.

Nos olhos de Helen podia ler-se gracejo. Bom dia, Louie, chamou ela. Bom dia, respondeu Louie por cima do

ombro.

Helen acabou de se vestir.

Palavra que era capaz de me apaixonar por

este modo de vida. Pergunto a mim mesma porque é que alguém não o inventou mais cedo.

Já existe há mais tempo do que nós, observei. Helen de pé virou-se para leste, o sol

iluminando-lhe a cara. Subitamente, abriu os braços em direcção ao sol, num gesto impulsivo, depois virou-se, sentou-se, e calçou os sapatos.

Louie chamou a nossa atenção: Meia bacia de água para cada um, e é tudo o

que há.

O café está pronto dentro de cinco minutos. Lavámos a cara, as mãos e os dentes, e ficámos

sentados em cima dos cobertores enquanto Louie nos servia ovos mexidos, café, presunto cozinhado de maneira tal que tinha um sabor como que a nozes, mas sem ser demasiado áspero. Tinha acendido uma pequena fogueira, tinha-a deixado morrer ficando em carvões acesos e algumas pequeninas pedras metidas no meio dos carvões serviam de apoio para as fatias de pão que torrara, e que besuntara de manteiga.

Todas as garfadas que levava à boca me

pareciam estar cheias de uma energia deliciosamente saborosa. Sentia-me como se não necessitasse já de lições de boxe, como se fosse capaz de enfrentar qualquer homem e deitá-lo por terra só com as mãos.

Depois do café ficámos sentados durante

alguns minutos, a fumar, e a apreciar o calor do Sol. Acabámos de fumar os cigarros. Olhei para Louie. Olhámos ambos para Helen.

Esta acenou com a cabeça. Começámos a

dobrar os cobertores, e metemo-los no carro. Nenhum de nós falou. Não tínhamos necessidade de palavras.

Meia hora depois, os pratos já lavados e

arrumados, o carro pronto a partir, pusemo-nos a caminho, através do deserto, o motor cheio de ruídos de pistões e rolamentos, mas conseguindo dar-nos os seus sessenta quilómetros por hora.

O Sol elevou-se mais no céu. A sombra do

automóvel diminuiu de tamanho. O calor tépido deu lugar ao verdadeiro calor.

O pneu de trás teve um furo. Louie e eu

mudamos o pneu.

Não foi grande contrariedade. Não estávamos

nervosos, nem tínhamos pressa. Tudo parecia deslocar-se e fazer-se no seu devido tempo... completamente diferente daqueles momentos em que tinha andado às voltas no automóvel da Agência tentando chegar a qualquer lado com grande pressa.

Nessa altura, havia um furo e tudo saía mal. O

carro saltava fora do macaco, as porcas não apertavam, o tampão nunca ficava bem colocado.

Não nos apressámos. Tínhamos à nossa frente

todo o tempo de que precisássemos. Por vezes, parávamos simplesmente para apreciar o panorama.

Viajámos durante todo esse dia, voltámos a

acampar no deserto, durante a noite, e chegámos ao Reno cerca do meio-dia do dia seguinte.

Muito bem, disse Louie, já cá estamos. Que

ordens temos, patrão?

O carro estava coberto de poeira. Eu

necessitava de fazer a barba. Louie tinha pêlos pretos a aparecerem pelo queixo e pela cara. Os três estávamos queimados pelo sol do deserto e pelo vento, mas nunca me senti em toda a minha vida com tanta calma e sossego.

Vamos para um parque de estacionamento,

enquanto nos limpamos, e procuramos saber o que há a fazer.

Encontrámos um parque de estacionamento

para automóveis.

A mulher alugou-nos uma cabine com dois

quartos e três camas. Tomámos duche. Louie -e eu fizemos a barba, e em seguida saí para fazer um reconhecimento.

Telefonei para a companhia dos telefones e

perguntei se a Sra. Jannix tinha telefone. Não tinha. Telefonei para todos os hotéis, e perguntei-lhes se tinham a Sra. Jannix como hóspede. Não tinham. Telefonei para os serviços públicos.

Estes não quiseram dar qualquer informação. Regressei ao parque de estacionamento,

trouxe os outros dois comigo e fomos à procura de casa.

Finalmente, quando estava quase a anoitecer,

encontrei um lugar ideal para aquilo que pretendíamos. Um homem tinha uma pequena bomba de gasolina a cerca de doze quilómetros da cidade. Ainda começara a montar um parque de estacionamento para automóveis, mas acabara-se-lhe o dinheiro e tudo o que tinha era uma vivenda de madeira a cerca de cem metros da estrada.

Enchemos o carro de mantimentos e fizemos a

mudança nessa noite. Louie tocou valsas com a sua gaita de beiços e Helen e eu dançámos por algum tempo. Na vivenda, havia um pequeno fogão a lenha, e assim mantivemos o interior confortável com o calor que apenas é dado por um fogão de lenha numa cozinha.

Louie arrancou-me da cama ao romper da

manhã. Era a altura, explicou ele, de começar a trabalhar.

Helen sorriu-se para mim, meio a dormir. Divirtam-se.

Virou-se para o outro lado e adormeceu

novamente.

Calcei os sapatos de borracha, apertei o cinto,

bebi um copo de água quente com sumo de limão e segui Louie.

O Sol estava nesse momento a nascer. O ar

frio penetrava-me pela roupa fina.

Louie viu-me tremer.

Dentro de minutos isso passa-lhe. É

suficientemente leve para não suar muito. Vamos embora, venha daí.

Louie começou por um pequeno trote. Segui

atrás dele.

Tínhamos percorrido cento e cinquenta

metros e o frio deu lugar a um calor reconfortante.

A certa altura, compreendi que a inclinação

era grande.

Os meus pulmões começaram a pedir ar.

Louie, contudo, continuou a correr. Agora íamos pelo alcatroado da estrada.

O ruído das solas de borracha de Louie

começou a tornar-se monótono.

Ainda falta muito? Perguntei. Não fale, disse-me por cima do ombro. Continuei a correr atrás de Louie. As minhas

pernas pesavam tanto que pareciam ser feitas de chumbo. Corríamos lentamente, de modo que conseguia manter a respiração, mas já me sentia cansado, terrivelmente cansado. Parecia que tínhamos corrido durante quilómetros, quando Louie se voltou subitamente para trás, e me observou com o olhar de um treinador profissional.

Está bem, agora caminhamos um bocado. Começámos a caminhar a passo rápido,

respirando fundo o ar frio e limpo. As minhas pernas estavam cansadas, mas a modificação na acção muscular era um alívio.

Passados alguns minutos, Louie começou

novamente a correr, e eu atrás dele. Cerca de quinhentos metros apareceu a vivenda. Pareceram-me horas até chegar junto dela.

Louie não estava cansado. Notava-se que

respirava mais profundamente, mas mais nada.

Tente respirar também com a parte inferior

dos pulmões.

Bem, agora vamos fazer mais alguns

exercícios, os exercícios preliminares.

Trouxe um par de luvas de boxe endurecidas

pelo suor e colocou-as nas minhas mãos.

Bem, disse ele, o golpe mais enganador e o

mais difícil de acertar é o directo puro. Ora, vamos lá a ver um directo da esquerda.

Lancei uma esquerda.

Louie abanou a cabeça.

Isso não é um directo.

Porquê?

Porque o cotovelo veio também com o soco,

mas da parte de fora do corpo. Mantenha o cotovelo sempre junto do corpo quando levanta o punho. Primeiro a esquerda, depois a direita.

Tentei novamente. Louie não gostou mas

mostrou-se paciente.

Olhe uma coisa. Tire fora essa luva da mão

direita por uns momentos. Vou mostrar-lhe como se faz.

E mostrou-me. E instruiu-me, e obrigou-me a

dar socos com a esquerda até um ponto tal em que quase não podia levantar o braço.

Não é bom, nem é mau. Com o tempo

melhora. Agora, vamos tentar um directo da direita. Bem, quando se dá um directo com a direita...

Uma Voz sonolenta gritou da janela. Não seria melhor que fossem dar um passeio

em vez de terem todo esse trabalho, Louie?

Olhei para a janela do quarto. Helen Franley,

com os cotovelos apoiados no parapeito, um quimono caindo-lhe do colo, observava-nos com uma expressão de ironia nos olhos.

Louie respondeu, muito sério: Existem momentos em que um homem não se

pode dar ao luxo de passear, Miss Helen... Talvez tenha de lutar para a defender.

Não vale a pena, respondeu-lhe Helen. Eu

gosto dos homens com olhos negros, e além disso tenho de ir lavar os dentes.

Saiu da janela. Louie voltou-se para mim com

aquele seu característico sorriso desdentado.

Ali está uma rapariga digna de si. O que eu

quero dizer é: que rapariga!

Acenei com a cabeça.

Louie olhava para mim com uma expressão

especulativa, como se pretendesse dizer mais alguma coisa, talvez perguntando a si mesmo se se atreveria a ensinar-me algo que não fosse boxe. Mas era-lhe difícil encontrar as palavras. Por fim, afirmou: Ouça-me bem, amigo, você sabe quem eu sou. Sou seu companheiro, está a compreender?

Acenei.

Estou a seu lado. Seja qual for o seu jogo,

estou a seu lado.

Acenei novamente.

Balbuciou atrapalhadamente: Bem, agora não se ponha a fazer loucuras por

minha conta. Vamos embora, levante os braços e voltemos ao princípio. Um, dois... um, dois... um, dois...

Estava tão cansado que quase não podia

mexer-me, quando terminámos. Tinha a pele coberta de suor. Louie inspeccionou-me.

Para si nada de duches frios. Isso dos duches

frios está bem para os indivíduos que têm uma camada de gordura sob a pele, mesmo que não lhes faça tão bem como estes julgam.

Tome um duche quente, mas não muito

quente, apenas um pouco mais quente do que a pele. Experimente a temperatura com as mãos, e depois meta-se debaixo. A princípio parecer-lhe-á um duche frio, e a primeira reacção é abrir mais a torneira da água quente, mas não o faça. Mantenha-se debaixo do duche, ensaboe-se bem e esfregue-se muito.

Em seguida, deixe a água arrefecer um pouco

mais, não o suficiente para lhe provocar um choque, mas deixe-a simplesmente arrefecer até sentir que gostaria de sair debaixo do duche, e nessa altura saia mesmo rapidamente. Esfregue-se bem com uma toalha, e depois meta-se na cama... nessa altura, entro eu em acção.

Tomei o duche. As toalhas fornecidas pelo

dono da vivenda eram uns panos pequenos e finos, que já estavam encharcados ainda eu não tinha enxugado metade do corpo.

Louie estava à minha espera no quarto

quando estendi o corpo húmido em cima da cama. Tinha uma garrafa na mão e, enquanto deitava o líquido da garrafa na palma da mão, pareceu-me que este cheirava a álcool, avelãs e rum. Depois Louie meteu mãos à obra. Amassou, martelou, massajou, deu palmadas, esfregou e depois voltou a repetir toda a operação.

Comecei a sentir uma lassidão deliciosa. Não

era bem como se estivesse sonolento, mas podia sentir sangue novo e limpo afluindo aos músculos, sentia a pele a latejar.

Da cozinha, ouvia-se o barulho das panelas.

Louie soltou uma pequena exclamação, atravessou o quarto e abriu a porta: Que é isso, o cozinheiro aqui sou eu.

A voz bem timbrada de Helen Franley

respondeu-lhe: Era. Agora foi promovido a treinador. Levo já o pequeno almoço.

Louie voltou para junto da cama. Que grande companheira! afirmou, retesando

os dedos e metendo-os pelos músculos de cada lado da minha espinha.

Louie demorou meia hora a massajar-me

como queria, depois vesti-me, sentindo-me ligeiramente cansado, mas não fatigado. Helen tinha a mesa posta, com limas, café, torradas, bifes e batatas fritas. Quando começámos a comer, Helen levantou-se para ir fritar as empadas.

Sentia fome mas, não era uma fome muito

grande, uma fome simples, mas o que comia não parecia fazer qualquer efeito. Comi, comi e o estômago não havia meio de encher.

Louie observava com ar aprovador. Helen Franley observou:

Você vai fazer com que ele engorde tanto que

não se pode mexer.

Não aumentará mais que quilo e meio,

respondeu Louie. Donald está a gastar energias, e são precisos alimentos para fornecer essa energia. Não engordará absolutamente nada, mas vai ficar mais sólido!

Os olhos de Helen procuraram os meus. Por que razão apareceu esse desejo súbito de

te tornares mestre na masculina arte do boxe? perguntou-me.

Cansei-me de ser um saco humano. E por essa razão abandonas o emprego,

contratas um treinador e inicias imediatamente o treino de estrada, massagens, esgrima de punhos e treino regular de combate.

Exatamente.

Quando te decides a fazer qualquer coisa, não

vais em meios termos, não é verdade?

Não.

Nalgumas coisas, pelo menos, respondeu e

afastou-se.

Bem, camarada, depois de comer não faz

nada. Está a ver? Durante uma hora fica sentado a digerir os alimentos.

Leia o jornal e não procure mexer-se. Não

faça nada que consuma energia.

Nunca nada me soube tão bem na vida como

aquela hora de completo descanso que se seguiu. Depois anunciei que tinha que fazer. Louie queria que eu fizesse alguns exercícios respiratórios, mas eu insisti em que tinha de ir à cidade.

Helen disse que necessitava de mercearias, e

deu-me uma lista. Louie ofereceu-se para ir comigo e comprar os géneros.

Helen disse que ficaria na cabine para

arrumar as coisas.

Durante todo o caminho até à cidade de Reno,

Louie falou de Helen.

Uma rapariga estupenda, disse ele. Cheia de

coragem.

É feita da mesma massa que os campeões. Se

lhe der um soco na garganta é possível que os joelhos se lhe comecem a dobrar, mas uma pessoa não é capaz de dar por isso.

Arrumei o carro num parque de

estacionamento e disse a Louie que estaria de regresso dentro de meia hora.

Cá estarei, prometeu ele. Tem a lista dos

géneros?

Entreguei-lhe a lista e dei-lhe vinte dólares. Dinheiro para despesas. Quando se tiver

gasto, diga-me que lhe dou mais.

Nos seus olhos podia ler-se a mesma devoção

que nos olhos de um cão olhando para o dono.

Entrei num dos hotéis, arranjei uma lista dos

telefones, fechei-me na cabine telefónica, e meti mãos ao trabalho.

Telefonei para as Associações de Retalhistas,

casas de crédito e até para a companhia do gelo. Expliquei-lhes que pertencia ao Bureau de Crédito Preferencial de S. Francisco. Estava a ver se conseguia algumas informações acerca de uma senhora chamada Eiva Jannix. Sabia que essas firmas não tinham quaisquer pedidos de crédito, mas que pretendia que verificassem todas as suas vendas durante os próximos dias, e que se conseguissem qualquer informação aguardassem até que eu voltasse a telefonar.

É uma coisa extraordinária. Utilize-se seja que

argumento for, não se consegue tirar informações a uma casa comercial a não ser que uma pessoa se apresente como sendo de uma organização de crédito, e então as firmas virarão tudo do avesso. Raramente perguntam ou pedem quaisquer credenciais.

Basta dizer-lhes que estamos a tratar de uma

questão de crédito, e o mundo pertence-nos.

Fui aos Bancos, disse-lhes que andava a tentar

encontrar um cheque roubado, perguntei-lhes se tinham quaisquer transacções comerciais com uma sr.a Jannix, ou sr.a Sidney Jannix, ou ainda sr.a Eiva Jannix.

A maior parte dos Bancos acreditou. Um deles

não.

O gerente queria saber mais coisas acerca de

mim. Não sei porquê, talvez pela maneira como o gerente falou, tive a ideia de que a sr.a Jannix talvez fosse cliente desse Banco.

Um homem pode dizer que possui a

informação que se deseja sem violar quaisquer éticas, mas se acontece possuir a informação toma um ar estranho ao fornecê-la.

Regressei ao automóvel. Tinha passado uma

hora e dez minutos. Não havia sinal de Louie Hazen, em nenhum dos lados da rua.

Sentei-me e esperei durante quinze minutos.

O Sol subia nesse momento passando por cima dos telhados dos edifícios, e enviava os seus raios quentes até aos passeios. Sentia-me sonolento. Os músculos e os nervos estavam completamente lassos. Não queria saber de nada que se relacionasse com Bertha Cool ou com a agência de detectives. Fechei os olhos para evitar o clarão do Sol... e acordei subitamente de um sono tão profundo que foram precisos alguns segundos para compreender onde estava e como tinha chegado até ali.

Olhei para o relógio.

Tinham-se passado mais de duas horas, desde

que deixara Louie.

Escrevi um bilhete e coloquei-o no volante:

“Volto dentro de dez minutos. Não saia daqui”. Voltei a fazer mais algumas chamadas telefónicas, procurando cobrir alguns furos que me tivessem escapado.

Voltei para junto do carro e o bilhete ainda se

encontrava no volante. Não havia sinal de Louie. Pus o carro a trabalhar e voltei à cabine. Helen tinha andado a varrer. Tinha o cabelo tapado por um lenço, atado à cabeça, para evitar a poeira.

Olá, disse Helen depois de eu ter entrado com

as compras. O que é que fizeste de Louie?

Não sei.

O que é que aconteceu?

Louie foi comprar os géneros. Disse-lhe para

esperar no carro quando regressasse, e para estar lá dentro de meia hora. Mas não apareceu. Esperei mais de uma hora.

Helen tirou o lenço do cabelo, colocou a

vassoura num canto, foi à casa de banho, lavou as mãos, e quando voltou esfregava a pele com uma loção.

Esta é uma boa altura para conversarmos,

disse ela.

Acerca de quê?

De muitas coisas.

Sentei-me a seu lado num pequeno sofá.

Helen levantou-se passados uns momentos e sentou-se numa cadeira defronte de mim.

Quero olhar para ti, explicou. Se me vais

mentir, quero sabê-lo.

Isso não me parece muito encorajador. Gosto de ti, respondeu Helen. Obrigado.

Gostei de ti desde o primeiro momento em

que te vi.

Isso leva a qualquer lado? perguntei-lhe. Sem dúvida.

Bem, então, continua.

A técnica ortodoxa para uma pequena jovem e

decente é mostrar-se muito modesta e, se tu te interessas, guiar-te-ei muito suavemente. Pois bem, eu não faço as coisas dessa maneira. Quando gosto de alguém, entrego-me completamente.

Quando não gosto, não gosto simplesmente, e

nada mais há a fazer.

Acenei com a cabeça.

Aquela primeira noite no deserto foi

praticamente a noite mais feliz de toda a minha vida. A segunda noite foi quase tão boa, disse Helen.

E agora? perguntei-lhe.

Agora, não aprecio nada.

Porquê?

Pensei que gostasses de mim. Mas, eu gosto.

Qual coisa! Respondeu com uma pequena

careta.

Depois os seus olhos encararam os meus. Não

será por causa daquilo que eu fazia... do negócio com as máquinas de moedas... que arrefeceste?

Mas não arrefeci. Gosto de ti. Sim, eu sei.

Durante alguns segundos esteve silenciosa, e

depois continuou: Bem, o facto de ter estado com Pug e de ter trabalhado naquele negócio das máquinas, e de ter andado às voltas por minha própria conta, fez-me criar a ideia que estou de um lado do muro e os polícias do outro lado. Não existe qualquer razão especial para eu ter essa impressão, a não ser o facto de ter tido vários encontros com a polícia, especialmente durante o negócio das máquinas de moedas. Uma ou duas vezes, Pug foi apanhado. O dono da máquina dizia que ia queixar-se à polícia e levar-nos a tribunal. Mas nós sabíamos que era “bluff”. Contudo, a polícia aparecia sempre e por sua própria conta tentava arrancar-nos tudo o que podia até nos deixar ir embora. Pois bem, comecei a olhar para os polícias como sendo... bem, só polícias.

Não disse palavra.

Helen evitou os meus olhos mais uma vez,

olhando para as biqueiras dos sapatos.

Muito bem, Donald, afirmou por fim, se tu

pensas que sei alguma coisa acerca do assassínio de Pug, e se pensaste que poderias enganar-me por causa de ter um fraco por ti, pretendendo que abandonavas a carreira de detective, levando-me a dizer aquilo que sei, desse modo... pois bem, Donald, disse ela olhando para mim subitamente com uma expressão firme e decidida, julgo que seria na verdade capaz de te matar, se é esse o teu jogo.

Não te censurava, respondi.

Helen continuou a estudar-me. Ias a dizer mais alguma coisa? Sorri e abanei a cabeça.

Helen levantou-se subitamente.

Vai para o diabo, sempre gostava de saber que

influência é que tu tens sobre mim, mas só te digo isto... Ainda penso que estás a trabalhar naquele caso. Não te esqueças do que te disse.

Não esqueço. Onde é que julgas que Louie

tenha ido?

Não faço a menor ideia. Deste-lhe algum

dinheiro?

- Dei.

Há qualquer coisa em Louie que não está

certa observou Helen.

- O quê?

Tem a mania dos socos.

Já sei isso há muito tempo.

Sim, bem sei.

Notas mais alguma coisa nele? Não sei. Relaciona-se tudo com aquela mania.

Mais tarde ou mais cedo, todos os pugilistas apanham a mania.

Julgo que Pug também sofria do mesmo mal.

Impede-os de verem as coisas como tu as vês, ou como eu as vejo. Ouve, Donald, julgas que passados uns tempos, se continuares junto de mim e eu ficar louca por tua causa, digo tudo o que sei?

Não tenho pensado nisso.

Bem, então pensa agora.

Está bem, assim farei.

Se alguma vez tentares arrancar-me alguma

coisa do género, mato-te. Odiar-te-ia... Não seria só ódio... mas... mas seria para mim qualquer coisa de bastante fundo, Donald. Por favor, sê leal comigo. Se é esse o teu jogo, o melhor é desistirmos já desta nossa pequena festa, e talvez eu possa esquecer. Se esperar mais alguns dias, nunca conseguirei recompor-me.

Tens algumas pessoas amigas aqui?

perguntei-lhe.

Não.

Para onde é que irias e o que farias? A expressão nos olhos de Helen endureceu. Vê lá, não julgues que vais amedrontar-me

com essa ideia. Em qualquer altura que necessite de um homem para me sustentar, basta-me tomar uma dose mais forte de pílulas para dormir. Podia sair daqui, neste momento mesmo, sem mais nada que as mãos a abanar e... bem, consigo arranjar-me, e não tenho necessidade de me vender, tão-pouco.

Que é que farias?

Não sei. Encontrava qualquer coisa. E que tal?

Vou-me já embora?

Pelo que me diz respeito, não.

Pelo que vejo não estás disposto a abrir-te

comigo.

Se não queres dizer-me nada daquilo que

sabes acerca de Pug, espero que nunca o faças.

Helen levantou-se e colocou-se de pé à minha

frente.

Está bem, vou dizer-te o que tenho a dizer em

palavras que toda a gente entende. Podes ter de mim tudo o que quiseres. Podes pedir-me seja o que for, e eu fá-lo-ei. E se me perguntares acerca de Pug, e aquilo que sei da noite em que foi morto, eu... bem, provavelmente falaria, mas no momento em que me fizesses essa pergunta, ficaria a saber a razão por que fizeste tudo isto e com a mão Helen fez um gesto largo em que se incluía o parque de estacionamento. E quando verificasse que o tinhas feito só para me levares até um ponto em que não poderia responder não, a qualquer coisa que me pedisses... ficaria tão doente cá dentro, que nunca seria capaz de me sentir limpa ou decente, ou que ainda existia alguma coisa no mundo que fosse decente... Compreendes?

Compreendo.

Muito bem. Então o que fazemos a seguir? Suponho que temos de ir à cidade e ver se

encontramos Louie em qualquer dos bares.

Helen estudou-me por um segundo ou dois,

depois começou a rir às gargalhadas, mas no seu riso não havia sombra de azedume.

Levantei-me e aproximei-me. Não compreendes que não pretendo nada a

que não tenha direito?

Os olhos de Helen semicerraram-se. Continua.

Há uma coisa em que acertaste. Sou, na

verdade, detective. E estou a trabalhar. Não quero dizer que esteja a trabalhar para a Agência B. Cool. Estou simplesmente a trabalhar num caso. Estou a fazer com que algumas outras pessoas consigam ser tratadas com lealdade. Estas dependem de mim, saibam-no ou não. Se eu não fizer este trabalho, julgo que mais ninguém o fará.

E assim pretendes que eu te diga o que sei

acerca de...

Não quero que me digas absolutamente nada.

Gosto muito de ti. Julgo que és uma das raparigas mais interessantes que encontrei até hoje. Mas nunca te pediria para saíres de Las Vegas e vires comigo se não se tratasse de uma questão de trabalho. Estou a gozar a vida plenamente. Sinto-me feliz.

Gosto de estar perto de ti. Gosto da maneira

como fazes as coisas. Gosto de tudo o que te diz respeito. Mas estou a trabalhar num caso, e a razão por que me encontro aqui, contigo, é porque isso entra no conjunto das coisas necessárias para que esse trabalho seja bem sucedido.

E quando o trabalho terminar? Estava a recear essa pergunta. Respondi-lhe:

Provavelmente, encarregam-me de outro.

E não vais perguntar-me o que sei acerca de

Pug?

- Não.

Nunca?

- Não.

E não planeaste tudo isto de modo a dizer-te

tudo o que sei?

- Não.

E é por causa de não quereres alguma coisa

sob motivos falsos que disseste...

Acenei que sim.

E acaso já te ocorreu que nunca me beijaste ? Naturalmente.

Os olhos de Helen fitavam os meus, e havia

neles um clarão brilhante como nunca lhes tinha encontrado.

Suponho que é agora a altura em que nos sai o

“pote”, Donald.