Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo V · Segui para o Hotel Apache, dirigi-me à sala de
estar, encontrei um lugar, tirei da algibeira a carta que Helen Franley me tinha dado, e examinei-a cuidadosamente.
Estava escrita num papel de boa qualidade,
mas a folha era de um tamanho pouco normal. A aresta superior tinha pequenas irregularidades, tão pequenas que eram quase imperceptíveis a menos que se examinasse cuidadosamente. O papel tinha um ligeiro perfume. Não me era possível saber que espécie de perfume. No tipo de letra havia uma certa sugestão de angularidade reprimida.
A carta dizia.
“Querida Helen Franley:
Agradeço-lhe a sua carta, mas de nada serve.
Agora não poderei irpara a frente com o casamento. Não seria leal para ele. Aquilo que você sugere é impossível. Vou-me embora. Adeus.”
Corla Burke
Estudei o sobrescrito em que fora expedida a
carta. Era um sobrescrito de via aérea, estampado. A morada da posta restante, na parte da frente, fora escrita pela mesma mão que escrevera a carta. Alguém na estação dos correios tinha riscado esta indicação e escrito a morada do apartamento de Helen.
Voltei a meter a carta no sobrescrito, coloquei-
o na minha algibeira, e depois mudei de opinião. Voltei a tirar a carta do sobrescrito, coloquei-a na algibeira interior do casaco, pus o sobrescrito na algibeira exterior, e regressei a pé ao Hotel Sal Sagev.
Bertha recebeu-me com estranheza. Donald, que diabo tem andado a fazer? A trabalhar.
Andou outra vez à pancada. Está que é uma
miséria.
Tome lá esta escova. Não, diga-me primeiro, o
que descobriu?
Pistas.
Bem, agora não se ponha com reticências. O
que é que aconteceu?
Soube que esta rapariga era uma viciada nas
máquinas de moedas. Assim, teria que esperar até às três ou quatro horas da manhã para que chegasse a casa, ou teria de ir à sua procura junto das máquinas de moedas.
Está bem, mas não era preciso jogar nas
máquinas de moedas só porque estava à espera.
Qualquer pessoa se torna notada, se anda ali
pelo meio e não joga.
Que interessa isso, que se torne notado. Quem
é que se preocupa? No fim de contas, meu caro, nós estamos a trabalhar para ganhar dinheiro, e não para nos importarmos com o que Las Vegas possa pensar. Não julgue que vai meter na conta de despesas o dinheiro que gastou a jogar.
Esteja descansada.
Afinal que é que lhe aconteceu? Houve pancada.
Isso não era preciso dizer. Andou novamente
com a cara pelas mãos dos outros.
Tenho assim um aspecto tão mau? Terrível.
Dirigi-me para o espelho. Afastei uma mesa
de modo a ser-me possível ver o corpo inteiro. Na mesa, encontrava-se ainda na sua embalagem original a segunda tablete de chocolate de Bertha. O meu fato estava bastante sujo. A cara tinha um aspecto estranho.
Por que é que andou à pancada? perguntou
Bertha.
Da primeira vez foi por causa de alguém ter
pensado que eu estava a fazer batota nas máquinas de moedas.
E andou à pancada por isso? Não. Fui preso.
Até aí já tinha compreendido. O que é que
aconteceu depois ?
Vi outra vez a rapariga. Onde é que está
Whitewell?
Deve estar a chegar. Recebeu um telegrama. O
filho vem a caminho de Las Vegas. Está à espera que este chegue.
De onde é que ele vem?
De Los Angeles.
Como é que vem?
De automóvel. Houve uma questão comercial
qualquer urgente e Philip vem acompanhado pelo braço direito de seu pai, um homem que trabalha com ele há muitos anos.
Acaso Philip sabe o que é que o pai está a
fazer aqui?
Julgo que não, mas também penso que o pai
vai pô-lo ao corrente.
Quer dizer que vai contar ao filho que nos
contratou e aquilo que estamos aqui a fazer?
Julgo que sim. Donald, Whitewell é um
homem extremamente simpático, não é?
Hum, hum.
E bastante observador. Tem muito bom gosto. Hum, hum.
Sabe que é viúvo, e não me surpreenderia se
se sentisse um pouco só. Não que esteja a pensar em casar-se. Aprecia bastante a sua independência, mas sente a falta de qualquer coisa. No fundo, é uma criança. Todos os homens o são.
Gostam de se sentirem amparados,
especialmente quando as coisas correm mal.
Hum, hum.
Donald Lam, está a ouvir o que eu digo ? Claro, estou a ouvir.
Bem, então veja lá se contribui com alguma
coisa para a conversa além desses grunhidos.
Não quer que concorde consigo? Quando um homem é tão simpático como
Whitewell, devia com certeza ter alguma coisa para acrescentar àquilo que digo.
Impossível. Ninguém seria capaz. Os lábios de Bertha comprimiram-se,
formando uma linha.
Por vezes, meu diabo, chego a odiar o chão
que pisa!
Não come a tablete de chocolate? Coma-a você.
Não quero. Que tem de especial a tablete? Não sei. A outra caiu-me mal. Já jantou? Não. Tenho tido muito que fazer. Bem, Whitewell sugeriu que comêssemos
todos juntos...
Isto é, se você voltasse. Disse, e a sua boca
descomprimiu-se dando a sugestão de um sorriso tolo, que queria que o filho me conhecesse. Parecia estar especialmente ansioso por fazê-lo.
Encantador.
Alguém bateu à porta.
Vá abrir.
Abri a porta. Whitewell encontrava-se no
corredor.
Um pouco atrás de si um rapaz que se via
imediatamente ser seu filho. A mesma testa alta, um nariz comprido e direito, uma boca bem talhada. Os olhos do pai eram incisivos, com uma expressão ligeiramente irónica. Os olhos do filho tinham a mesma cor, mas não tinham a mesma incisão nem a mesma expressão. Davam a impressão de que o rapaz se arrastava pela vida sem tirar grande prazer. Atrás do rapaz encontrava-se um homem com cerca de quarenta anos de idade, calvo, atarracado, com um ar de pessoa de capacidade e com a constituição física de um urso pardo.
Whitewell apresentou-nos.
Philip, o sr. Donald Lam. Sr. Lam, o meu filho
Philip Whitewell.
O jovem alto inclinou ligeiramente a cabeça,
estendeu a mão, apertou a minha delicadamente, mas sem grande entusiasmo.
Prazer em conhecê-lo.
Querem fazer o favor de entrar? perguntei. O pai transformou a ocasião numa grande
cerimónia.
Sr.a Cool, permita-me que lhe apresente o
meu filho, Philip. Philip, esta é a senhora de quem eu te falei.
Philip olhou para Bertha com curiosidade, por
momentos, antes de se inclinar, e afirmou: Sra. Cool, tenho muito prazer em conhecê-la. O meu pai tem falado muito em si.
O homem atarracado, que parecia ter ficado
esquecido, sorriu e estendeu-me a mão.
Endicott.
Lam, retorqui.
Apertámos as mãos. Whitewell virou-se.
Oh! Desculpe-me depois falando para Bertha:
Permita-me que lhe apresente Paul Endicott. Trabalha comigo há muitos anos. É o verdadeiro cérebro da minha firma.
Eu retiro apenas os lucros e pago o imposto de
rendimento.
Paul faz o trabalho.
Endicott sorriu-se, o sorriso bem humorado
de um homem que é suficientemente rico e poderoso para não se aborrecer com qualquer coisa.
Bertha irradiava felicidade. Levantou-se
mesmo da sua cadeira para ser uma dona de casa perfeita, telefonou para o restaurante do hotel, e mandou servir alguns “cocktails”.
Whitewell virou-se para mim. Sugeri à sr.a Cool que poderíamos jantar
todos juntos, ao saber que o meu filho vinha a Las Vegas. O senhor já deu a volta à cidade?
- Já Descobriu alguma coisa? Sim, de facto.
Conseguiu saber de Miss Franley? Sim.
Falou por acaso com ela?
Falei.
Estudou-me por uns momentos como se
tivesse dito alguma coisa que não esperava ouvir. Depois afirmou, com uma pequena gargalhada: Já pus Philip ao corrente de tudo. Philip sabe que a Sra. Cool dirige uma agência de detectives e que eu a contratei para saber o que acontecera a Corla Burke. Sabe que o senhor trabalha para ela, de modo que se por acaso descobriu alguma coisa de valor como pista, pode dizê-lo à vontade.
Tirei o sobrescrito da algibeira, mostrei-o ao
jovem Whitewell e perguntei-lhe: Esta letra é dela?
Agarrou o sobrescrito ansiosamente, olhou
para este com uma expressão velada dos olhos.
É a letra dela, sim, disse, por fim. O pai agarrou no sobrescrito. A senhora tem razão. Lam, de facto, trabalha
depressa.
Eu bem lhe disse.
Whitewell meteu os dedos dentro do
sobrescrito. Manifestou espanto ao ver que não estava lá dentro carta alguma.
Não devia estar aqui uma carta? Perguntou. Julgo que sim.
Mas isso teria sido uma pista. Concordei acenando com a cabeça. Onde é que está a carta?
Miss Franley não a tem.
Não a tem!
- Não.
Que é que lhe fez?
Encolhi os ombros.
E ela não se lembrava do que é que a carta
dizia?
Não sei.
Bertha Cool interveio.
Por que é que não sabe? Não falou com ela?
Falei, mas o rapaz dela não gostou da minha
técnica.
Resolveu fazer de mim saco de treino de boxe. Não há dúvida que tem o aspecto disso
mesmo.
Farei com que o prendam, afirmou Whitewell. Não é preciso. Quando tentava dar-me os
últimos retoques, apareceu um polícia.
O que é que aconteceu ao polícia? Está em tão mau estado como eu. Bertha Cool e Whitewell trocaram olhares. Bem, disse Whitewell, você agora pode ir ter
com Miss Franley e saber o que há acerca da carta.
O melhor é deixar arrefecer as coisas um
pouco.
Bertha franziu a testa, como se houvesse
alguma coisa que a intrigava. Depois:
Donald, vá ao seu quarto e vista uma camisa
lavada.
Veja se consegue tirar a poeira do fato. Não
trouxe outro fato?
Não.
Bem, então arranje-se o melhor que puder. Endicott falou nessa altura:
Parece que temos tempo de expedir alguns
telegramas, Arthur. Philip, o melhor é vires também. Desculpa-nos, não é verdade, sr.a Cool?
Consegui tirar a maior parte da sujidade que
cobria o meu fato, mas a gravata estava completamente rasgada, e o colarinho da camisa amachucado e sujo. Vesti uma camisa lavada, pus outra gravata, coloquei toalhas quentes na cara para sair um pouco do inchaço, penteei-me e regressei ao quarto de Bertha.
Depois da porta se fechar, Bertha virou-se
para mim.
Foi a primeira vez que o vi fazer tal coisa,
Donald.
- O quê?
Declarar-se vencido. Não estou a censurá-lo,
meu caro, mas não consigo compreender a razão por que não procurou descobrir a carta.
Tirei a carta da algibeira e entreguei-lha. O que é isso?
A carta de Corla.
Onde é que a arranjou?
Deu-ma Helen Franley.
Então mentiu a Whitewell?
Não. Não lhe disse que não tinha a carta.
Disse sim que a rapariga não a tinha. E ela não a tinha. Tinha-ma dado.
Os olhos de Bertha pestanejaram. Que ideia é essa?
Leia a carta.
Bertha leu a carta, e depois olhou para mim. Não compreendo. Por que razão havemos de
esconder isto ao nosso cliente?
Tem consigo a carta que Whitewell escreveu?
perguntei.
A que me deu?
Sim.
Porquê?
Deixe vê-la.
Bertha disse impaciente.
Deixemo-nos dessas coisas. Falemos antes da
questão desta Burke.
Julgo que podemos descobrir algo mais
examinando a carta de Whitewell.
Que pretende dizer?
Olhe para a carta. Está escrita num papel de
boa qualidade. Repare nas dimensões da folha. Repare na maneira como está dobrada. Está a compreender? Aquela folha de papel pertence a um papel comercial timbrado. Alguém cortou a parte de cima da folha, com o timbre, utilizando uma faca bem afiada.
Bertha piscou os olhos. Passados uns
momentos, retorquiu:
Parece que começo a compreender, mas já
agora continue.
Whitewell não gostou da ideia do filho se
casar com Corla Burke. Chamou Corla ao escritório. Fez-lhe alguma proposta que esta aceitou. Corla desapareceu, mas pretendeu não ficar mal vista. Tinha, portanto, que desaparecer dando a aparência de que poderia ter sido forçada a isso, ou que fugia de alguma coisa de que tinha receio.
E então para que escreveu a carta? Perguntou
Bertha.
A carta, respondi, justifica a coisa. É a
liquidação, na parte que nos toca. Corla Burke não conhecia qualquer Helen Franley. Helen Franley não conhecia qualquer Corla Burke. Mas Arthur Whitewell tinha amigos aqui, em Las Vegas. Esses amigos estavam em posição de procurarem e encontrarem uma rapariga que pudesse servir de capa. Whitewell escreveu esta carta como medida preventiva e de segurança.
Aí está uma coisa que eu não compreendo. Lembre-se, de que ele é pai de Philip. No fim
de tudo, procura defender os interesses do filho. Foi essa a razão por que interveio.
Naturalmente.
Um homem da sua posição não gostaria de
ver seu filho sofrer indefinidamente. Se se tratasse apenas do golpe da mulher que amava o abandonar, Philip esquecer-se-ia.
O pai sabia isso. Mas se Philip imaginasse que
a rapariga tinha sido raptada ou estava em perigo e que ele a tinha abandonado, nunca esqueceria. Seria um choque nervoso tão prolongado que alteraria completamente toda a sua carreira. Evidentemente, é isso o que está a acontecer.
E depois ?
E depois o pai era suficientemente esperto
para saber que seria isso mesmo que ia acontecer. Lembra-se de uma coisa? Disse que era psicólogo amador. Com certeza não teria esquecido essa possibilidade.
Agora estou a compreendê-lo. Poderia ter
tirado esta carta da manga do casaco e dizer: “Vê lá tu, meu filho, o que encontrei”. Teria evidentemente que colocar a carta num sítio qualquer onde uma agência particular de detectives a pudesse encontrar.
Exactamente. Esta carta demonstra que Corla
Burke” desapareceu de sua própria vontade. Pretende que nós encontremos a carta, e está disposto a pagar-nos para o fazermos. Depois mostrá-la-á a seu filho.
Bertha piscou novamente os olhos. Muito bem, querido, se se trata de uma
brincadeira, vamos jogar às escondidas com ele. Vamos andar às voltas, durante seis dias, metemos despesas, encontramos esta carta no sétimo dia de modo a podermos conseguir ainda um bónus, e ensinamo-lo a não nos julgar parvos. Era essa a sua ideia?
Bem, não era isso exactamente. O que era então?
No fim dá o mesmo resultado. Se eu o acusar
de ter escrito a carta e de se ter visto livre de Corla Burke. Nunca poderei dizer se o fez ou se o não fez...
Donald Lam, que julga que vai fazer?
Whitewell é nosso cliente. Não pode acusá-lo de nada.
Não, mas se nos calarmos por uns tempos,
Whitewell começará a exercer pressão aqui e ali a fim de que a carta venha parar às nossas mãos. Quando começar a mexer-se, terá de aparecer em campo aberto, o suficiente para o apanharmos com a boca na botija.
E depois?
Ficávamos a saber mais alguma coisa acerca
deste caso.
Donald disse Bertha lá está você outra vez.
Agora está a pensar no coração despedaçado de Corla Burke.
Gostaria que lhe fosse dado um pouco de
lealdade.
Apanhou pela frente um homem rico que
evidentemente utilizou alguma forma de chantagem.
O que é que ele fez?
Não sei. Mas, na minha opinião, Corla não
teria desaparecido por dinheiro. Julgo que Whitewell é daquela espécie de indivíduos que seria capaz de a transformar num farrapo, de corpo e alma. Seria capaz de torturar seja quem for, que se metesse no seu caminho.
Donald, como é que você pode dizer tais
coisas?
Whitewell é um homem muito simpático. É simpático quando o quer ser, mas é
implacável quando se trata de conseguir aquilo que quer.
Não o somos todos?
Sorri-me.
Alguns de nós.
Parece-me que isso é uma piada bastante suja. Não respondi.
Abra essa mala, meu caro, e procure na bolsa.
A carta de Whitewell encontra-se lá, disse-me Bertha.
Tirei a carta e examinei-a contra a luz. O tipo
de papel era o mesmo. Coloquei as duas folhas lado a lado. A carta de Corla Burke tinha sido escrita no mesmo papel. A parte de cima, com o timbre, tinha sido dobrada e cortada com uma faca afiada.
Não há dúvida, estivemos armados em
tansos! Disse Bertha.
Dobrei a carta de Corla Burke e meti-a na
algibeira.
Que fazemos a seguir? Perguntou Bertha. Gostaria de verificar as coisas em Los
Angeles. Quanto tempo é que Whitewell vai ficar aqui?
Julgo que um dia ou dois.
Quer vir a Los Angeles comigo, hoje à noite? Não. Estou muito cansada, e gosto deste clima
do deserto. Achava melhor... Há um comboio às nove e vinte. Vou marcar lugar.