Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 14 de 17

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Jogo, Mulheres e Morte

Capítulo XV · Helen Franley apareceu toda apressada na

 

vivenda.

Com mil diabos, estou cheia de fome. Não

haverá nada para comer?

Vem já a caminho, disse-lhe Louie. Tenho

alguns feijões espanhóis no fogão, para não perderem o calor. Têm estado a cozer todo o dia. Vai ver como lhe sabem bem.

Feijões cozidos? Perguntou Helen. Bem, não são exactamente cozidos. Cozem-se,

depois fritam-se e depois cozinham-se com um pouco de alho. Não me diga que nunca provou feijões fritos à mexicana.

Não, mas pelo que você conta devem ser

bons.

Estão prontos dentro de um minuto. Louie foi para a cozinha a fim de tratar do

fogão.

Helen voltou-se para mim, casualmente. Donald, estavas-me a perguntar pelo dinheiro

que tinha.

E que dinheiro tens tu?

Não te rales. Vai tudo bem.

Não acredito. Quantos cheques é que ainda

tens?

Não te rales.

Deixa ver.

Estou a dizer-te que está tudo bem. Vá lá, deixa ver. Onde é que está o livro dos

cheques?

Tirei o livro para fora. Restavam três cheques

de vinte dólares.

Helen riu-se.

Isso é uma gota de água para as despesas que

tu tens.

Pois bem, eu também quero pagar uma parte

das despesas.

Nem por sombras.

Não estejas a brincar. Eu tenho muito

dinheiro, e resolvi contribuir. Tenta impedir-me. Abriu a mala, tirou um rolo de notas, desdobrou-as e tirou três notas de vinte dólares que voltou a colocar na mala e o resto deu-me.

Abanei a cabeça.

Está bem, então é um empréstimo -disse ela.

Depois pagas-me.

Quanto dinheiro é que há aí? Não sei. Talvez trezentos ou quatrocentos

dólares.

Conta.

Contei o dinheiro. No maço havia

quatrocentos e cinquenta dólares.

Onde é que arranjaste este dinheiro?

Perguntei-lhe.

Oh, tinha-o na mala. Lembra-te de que eu

tinha o dinheiro quando Pug e eu nos separámos. Meti o dinheiro na algibeira. Nada disse de que a tinha visto no casino.

Depois do jantar fomos à cidade e a uma

sessão de cinema.

Louie parecia estar satisfeito consigo mesmo.

Helen não disse grande coisa. Tinha um ar de calma satisfação.

No regresso, cantou pequenas quadras de

canções populares, e quando chegámos à vivenda forçou-nos a parar da parte de fora da porta e a olhar para as estrelas.

Receio que tudo vá acabar em breve. Sei

mesmo, evidentemente, que vai acabar, mas enquanto dura é magnífico, não é, Louie?

Louie retorquiu:

Ainda o pergunta? Bem sabe que pela

maneira como tudo caminha, parece que nascemos todos na mesma casa.

Rimo-nos e entrámos.

Esperei até que Helen estivesse no duche,

preparando-se para se deitar, e depois disse a Louie:

Julgo que o melhor é mandar um telegrama,

Louie.

Vou voltar à cidade. Não espere por mim, e

diga a Helen que talvez só volte dentro de uma hora, mais ou menos, porque tenho de esperar a resposta.

Fiz com que a minha voz parecesse casual, e o

seu tom convenceu Louie.

O. K., companheiro. Não se meta por vielas

escuras, e se alguém se fizer forte consigo, lembre-se das instruções do velho Hazen. Aplique-lhes o velho um, dois, e quando der, não se esqueça de levar o corpo atrás do braço.

Esteja descansado que não me esqueço,

assegurei-lhe, e saí calmamente e sem barulho.

Na cidade, comecei a dar a. volta aos

hospitais. Mostrei-me profundamente profissional e bastante casual... fazendo apenas o velho trabalho de rotina, apresentando o meu cartão ao empregado da recepção e explicando que andava à procura de uma pessoa que tinha desaparecido, e que havia a possibilidade de sofrer amnésia. Se por acaso tivessem qualquer caso de amnésia, se me informariam.

Há cerca de meia hora tivemos um caso

desses, fui informado no segundo hospital que visitei. Uma jovem...

Tirei as fotografias de Corla Burke da minha

algibeira.

Será esta? Perguntei.

Não sei. Não a vi. Mas vou chamar a

enfermeira.

Alguns momentos depois, uma enfermeira

gorducha olhou-me desconfiada, depois viu as fotografias e mostrou-se excitada.

Ah, é a rapariga!

Tem a certeza? Bem vê, não podemos permitir

qualquer engano.

Não, não há dúvida que é a mesma. Quem é

ela?

Tornei-me imediatamente cauteloso. Trabalho para um cliente. Não posso divulgar

qualquer informação enquanto não tiver consultado esse cliente, mas trata-se de um caso interessante. A jovem desapareceu praticamente na véspera do seu casamento... nervoso a mais.

Posso vê-la?

Terei de pedir ao médico.

Bem, se tem a certeza absoluta de que é a

mesma pessoa, não vale a pena estar a empatar-me com burocracias.

De qualquer modo. ela nem sequer me

conhece. Vou entrar em contacto com o meu cliente.

Mas, disse a enfermeira, talvez o senhor

conseguisse restabelecer-lhe a memória, fazendo-lhe perguntas, se por acaso sabe quem ela é.

Prefiro não correr esse risco. Acho melhor

informar o meu cliente para que entre em contacto com o médico.

É possível que isso seja melhor, disse a

enfermeira com ar duvidoso mas dê-me o seu nome e morada, se faz favor.

Dei-lhe um dos meus cartões. A enfermeira

que estava na recepção informou:

Já tenho a morada do Sr. Lam. Saí do hospital, entrei no carro e dirigi-me à

vivenda.

Helen Franley estava sentada no sofá em

pijama e quimono.

Porque razão é que não estás deitada? Estava à tua espera. Tu já sabias que ias voltar

à cidade, não é verdade?

- Já.

Durante alguns segundos Helen estudou a

minha expressão, e depois disse:

Está bem, Donald, está a acabar. Eu pensei

que talvez pudesse continuar. Não é preciso andares a disfarçar. Quando é que partimos? Respondi-lhe:

Tenho que apanhar um avião para Las Vegas.

Devo estar de regresso amanhã de manhã.

Queres que te leve ao aeroporto? Louie pode fazê-lo.

Prefiro ir eu.

Está bem anuí.

Helen dirigiu-se ao seu quarto, queixo

levantado, ombros direitos.

Nessa altura, apareceu Louie. O que é que há?

Louie, ouça-me com atenção. Esta talvez seja

uma das coisas mais importantes em que se tem metido.

O quê?

Vigiar Helen.

Louie mostrou-se surpreendido. O que é que há com ela? Acaso pensa que ela

está a atraiçoá-lo...

Quero dizer vigiá-la, protegê-la. Eu vou-me

embora agora, e estarei de volta amanhã, mas a partir deste momento nunca a perca de vista.

Porquê? O que e que aconteceu? Ela está em perigo.

- De quê?

De ser assassinada.

Os seus olhos animaram-se repentinamente. Companheiro, pode contar comigo. Apertámos as mãos.

Helen saiu do seu quarto, abotoando as

mangas da blusa.

Virou-se de costas para mim e pediu: Queres fazer-me o favor de abotoar as costas ? Abotoei a gola da blusa, e ajudei-a a vestir o

casaco.

Helen voltou-se lentamente à medida que eu

lhe vestia o casaco, de modo que ficou nos meus braços. Os seus olhos fixaram os meus. Os seus lábios estavam ligeiramente separados.

Sim, disse ela, quando eu a fitei. Beijei-a, deixei que o círculo dos seus lábios

ficasse pegado aos meus, depois ela afastou-se.

Vamos embora, Donald.

Louie interveio:

Eu vou também e guio o carro quando

voltarmos, para o caso de haver algum furo.

Helen olhou para ele e abanou a cabeça. Louie olhou para mim.

Agora não é preciso, mas depois dela voltar,

não se esqueça.

Louie acenou com a cabeça.

De que é que vocês os dois estão a falar? Disse a Louie para te vigiar e ter cuidado

contigo.

Os olhos de Helen revelaram uma expressão

de dor.

Não tinhas necessidade de fazer isso, Donald. Não é por aquilo que julgas respondi-lhe. É

outra coisa.

- O quê?

Outra coisa. Amanhã conto-te com mais

vagar.

Helen não fez mais qualquer pergunta, entrou

simplesmente no carro e pôs o motor a funcionar. A caminho do aeroporto, voltou-se para mim.

Por favor, compreende uma coisa, Donald.

Não tens que me explicar absolutamente nada.

Apertei-lhe com gentileza o braço. O facto de que tu queres fazer alguma coisa, é

suficiente para mim. É tudo o que pretendo saber. Tudo o que te peço é que me digas o que posso fazer para te auxiliar acrescentou.

Não voltámos a dizer palavra até chegarmos

ao aeroporto.

As estrelas pareciam olhos amigos, vigilantes,

suspensos por cima de nós, olhando para o mundo em baixo. No ar havia um certo frio. mas a atmosfera seca revigorava. Uma vez mais estivemos os dois a olhar para as estrelas. Desta vez não dissemos nada.

Beijei-a.

Queres que espere até tu partires? Preferia que não. Está frio.

Importavas-te muito se eu ficasse? - Não.

Gostava de te ver partir.

O. K., então anda daí.

Encontrámos um avião que estava pronto

para ser fretado.

Por sorte aconteceu que o piloto e dono do

avião se encontrava no aeroporto, a conversar com um dos pilotos dos aviões comerciais.

Quando o avião já tinha rodado na

plataforma, quando já se encontrava abastecido e o motor experimentado, Helen deu-me o braço, pôs-se a olhar para o avião, de contornos bem definidos devido às luzes intensas.

O piloto fez-me sinal com a cabeça. Helen

disse para o avião:

Tem cuidado com ele, avião. Depois olhou para mim.

Boa viagem, e afastou-se rapidamente. Observei-a enquanto se afastava pelo campo,

sem olhar uma vez para trás. Ouvi a voz do piloto:

Façam favor de ocupar os seus lugares! Entrei na cabina do avião e ajustei o cinto de

segurança.

Rolámos pelo campo fora, voltamo-nos para

trás e tomámos velocidade. Podia sentir o peso da aceleração empurrando-me de encontro às costas do assento. Depois, subitamente, o chão afastou-se e curvou-se para um lado, enquanto o avião fazia uma volta bastante larga.

Olhei para baixo, através da janela da cabine. Helen Franley estava de pé, junto do

automóvel, olhando para cima, para as luzes do avião. Conseguia distinguir, embora com dificuldade, os contornos ovais da sua cara, tive um último relance do automóvel, e depois o avião na sua curva fez com que Helen saísse do meu campo visual.

Alguns momentos depois o avião endireitou-

se, e com ele as luzes do solo. Por baixo de nós via-se a perder de distância o deserto coberto de vegetação. Por cima de nós as estrelas.

Atrás as luzes de Reno começavam a juntar-se

num clarão cintilante. Alguns minutos depois, tinham desaparecido completamente.