Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 17 de 17

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Jogo, Mulheres e Morte

Capítulo XVIII · O telefone tocou dois minutos depois de ter

 

tocado o despertador. Atendi. No outro extremo, estava Bertha.

Está acordado, querido?

Agora estou.

Eu não o queria incomodar.

- O que é?

Whitewell telefonou-me. Parece que faltam

cerca de quarenta mil dólares.

É pena.

Pediu-me para ir ter com ele ao escritório, às

oito horas, a fim de nos pagar.

Porquê tão cedo?

Tem que ir apanhar o avião das dez horas

para S. Francisco.

Compreendo.

E eu quis acordá-lo para ter a certeza de que

tinha as suas despesas todas... aquela sua viagem a Reno e todo o resto.

Já fiz uma lista, pormenorizada, e meti-a num

sobrescrito, que está em cima da sua secretária.

Muito bem.

Se quiser falar comigo, pode telefonar para o

Golden Motto. Vou lá tomar o pequeno almoço.

Está bem, querido.

Já tomou o pequeno almoço? Perguntei-lhe. Agora ando a tomar só sumos de frutas.

Parece que não consigo voltar a ter apetite.

Está bem, eu estou no escritório depois de

comer.

Desliguei o telefone, tomei um duche, fiz a

barba, vesti-me sem pressas e saí.

No Goden Motto a dona da casa tinha um

aspecto um tanto ou quanto pálido.

Bom dia, disse ao entrar na sala das traseiras e

sentando-me na minha mesa favorita.

A criada veio ter comigo.

Ovos e presunto, disse-lhe. O que é que tem a

madame?

A criada riu-se.

Parece que teve um desmaio. Vai ver, daqui a

bocado já aqui está ao pé de si a contar-lhe. Quer sumo de tomate?

Um sumo de tomate duplo com um pouco de

água mineral. É possível que Bertha Cool me telefone. Se ela...

O. K., digo-lhe que o senhor está aqui. Eu...

olhe ali vem ela.

Levantei os olhos para ver Bertha Cool entrar

pela porta com aquele ar decisivo de «bull-dog», os olhos a brilhar.

Levantei-me e fiz as honras da mesa,

sentando-a do outro lado.

Bertha deu um suspiro fundo, que lhe parecia

vir da sola dos pés, sorriu-se para a criada e disse a esta: Tenho uma disposição horrível quando o estômago está vazio. Dá-me ganas de arrancar a cabeça a alguém.

Traga-me farinha, presunto e ovos, uma

chávena grande de café, com bastante leite.

A criada afastou-se em direcção à cozinha. Parabéns, disse eu a Bertha.

Porquê?

Parece que já lhe voltou o apetite. Bertha resmungou.

Aquele velho maluco!

Quem?

Arthur Whitewell.

O que é que ele fez?

A maneira como tentou impingir-me aquela

história de eu ser uma mulher atraente.

Levantei o sobrolho.

Eu não me importava, disse ela. Na verdade,

julgo que até gostei da coisa, pelo menos enquanto era apenas uma questão social, mas quando o velho maluco tentou dar-me ainda mais manteiga a fim de me levar a cobrar um preço mais barato pelos nossos serviços, vi logo qual era o seu jogo.

Parece-me que fui uma parva, querido. Mas

enfim, uma mulher gosta de ouvir aquelas coisas, e se não fosse terem entrado em jogo os negócios, é possível que nunca tivesse compreendido até que ponto ele era hipócrita.

Mas conseguiu o dinheiro, não é verdade? Se consegui! respondeu-me com os olhos a

brilhar.

A criada trouxe o meu sumo de tomate. Bebi-

o, e depois, enquanto esperava pelo resto, procurei uma porção de moedas nas algibeiras e dirigi-me para a máquina de moedas.

A dona da casa veio ter comigo,

apressadamente.

Vá-se embora, vá-se embora. Está avariada. O que é que tem a máquina? Não sei, mas um homem e uma rapariga

estiveram aqui a jogar na máquina, há cerca de uma hora, e em menos de cinco minutos conseguiram três “potes”. Pense só nisso, três potes, para não falar na verdadeira chuva de moedas que conseguiram tirar da máquina. Está com certeza avariada.

Mas porquê, o que é que lhe faz pensar que a

máquina esteja avariada? Você sempre me dizia que havia pessoas que vinham cá e ganhavam...

Bem, cortou ela, agora é diferente. Já telefonei

ao mecânico para vir cá. Não se aproxime da máquina.

Voltei para a mesa.

O que é que foi? perguntou Bertha. Nada, a não ser que provavelmente o meu

carro deve-me ser hoje entregue.

Oh, já foi entregue. Esqueci-me de lhe dizer. O

empregado de um parque de estacionamento disse que uma rapariga tinha lá deixado um carro para si. É um cangalho velho.

Não respondi.

A criada trouxe a comida e colocou-a sobre a

mesa.

Não sei porquê, mas não tinha vontade de

comer. Estava a pensar naqueles pequenos almoços no deserto e no Reno.

Bertha limpou com o pão os últimos restos da

gema de ovo que tinha no prato, levantou os olhos para mim e perguntou:

O que é que tem?

Não sei. Não tenho vontade de comer. Qual coisa! Uma pessoa deve sempre comer

um pequeno almoço forte. Não é possível conservarem-se as forças com o estômago vazio.

Bertha voltou a chamar a criada. Traga-me uma Via-Láctea, disse ela, e depois

voltou-se para mim: Vou guardar a tableta na mala para o caso de ter vontade de comer cerca das dez horas. A sua Bertha tem estado muito doente, querido. Mesmo muito doente.

Eu sei, respondi-lhe, mas agora está

completamente curada, não é verdade?

Bertha abriu a mala, tirou de lá a tablete de

chocolate e mexeu-lhe com ternura.

Vou dizer a toda a gente que Bertha está

completamente curada, comentou.

 

FIM

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