Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 11 de 17

Páginas do PDF

Jogo, Mulheres e Morte

Capítulo XII · Bertha Cool perguntou

 

Quem é? - quando bati à porta. Donald.

- Entre. A porta não está fechada. Abri a porta. Bertha Cool estava de pé

defronte do espelho grande, olhando por cima do ombro para a sua imagem no espelho.

Que diabo é que se passa? Perguntei. A sua resposta foi irritada.

Estou apenas a olhar para mim. Já uma

mulher não pode olhar para ver como é que está a saia, sem que você pense que há alguma coisa de anormal?

Dirigi-me para uma cadeira e sentei-me.

Bertha Cool continuava a estudar-me ao espelho, de vários ângulos.

Que idade julga que tenho? Perguntou-me

subitamente.

Não sei.

Bem, adivinhe.

Não quero.

Deus do céu, com certeza formou alguma

opinião.

Uma pessoa tem sempre ideia da idade de

alguém. Que idade pensa que eu tinha quando me viu pela primeira vez? Não, nessa altura não. Que idade julga que tenho agora?

Não tenho ideia nenhuma sobre a sua idade.

Não sei sequer que idade lhe poderão dar. Vim simplesmente dizer-lhe que me vou embora.

Bertha voltou-se de repente. Os seus olhos

duros e cintilantes, eram punhais dirigidos aos meus.

Vai-se embora?

- Foi isso mesmo que eu disse. Mas você não pode abandonar-me. Por que não?

Porque... porque, está a trabalhar num caso.

Você está... mas o que é que eu faria sem si?

Arranjar-se-ia. Ainda outro dia disse que

antes de me conhecer também mantinha a agência a funcionar. Que desde o momento em que me empregara andava sempre em água a escaldar.

Mas por que razão é que quer abandonar-me?

Perguntou Bertha aproximando-se e sentando-se numa cadeira de onde podia olhar-me de frente.

Vou-me embora.

Vai-se embora?

- Vou.

Para onde? Porquê?

Não sei para onde. Estou apaixonado. Muito bem, mas por que razão há-de

abandonar o emprego só porque está apaixonado?

Porque penso que será melhor assim. Bertha Cool respondeu sarcasticamente: Sabe uma coisa? Toda a gente consegue

apaixonar-se e mesmo assim continuar nos seus empregos. Muitos conseguem casar-se e mesmo assim continuam a trabalhar. Não me pergunte como é que o fazem, porque eu não sei, mas já tem acontecido; e se você é um indivíduo de recursos, com certeza descobre alguma maneira. Dizem-me que muitos homens querem manter as mulheres, e para fazê-lo, têm de trabalhar.

Alguns homens até não chegam a casar-se

enquanto não arranjam emprego. É uma pena, mas na verdade é isso que acontece. Afirmam que há estatísticas a provar o facto.

Bem sei. Mas eu vou-me embora. E como é que vai sustentar essa sua

carriçazinha, ou acaso ela tem fortuna própria?

Cá nos arranjaremos.

Donald Lam, ouça-me bem. Não pode sair

assim sem mais nem menos e deixar-me no meio do sarilho, e o que é mais, você não está apaixonado. Tem apenas uma pequena queda por alguma que lhe fez olhos de carneiro mal morto.

Meu Deus, se soubesse tanto acerca das

mulheres como eu sei, nunca pensaria em casar com uma. Não se engane a si próprio.

As mulheres querem todas segurança, e não

querem ser solteironas. As mulheres são caçadoras, Donald, caçadoras impiedosas, experimentadas e sem princípios, que falam em tons melaços, fazem olhos de carneiro mal morto, mas estão sempre a pensar lá por trás: «Bem, este homem não é exactamente aquilo que eu pretendo, mas escapa, e tem um coração tão bondoso e gentil que com certeza consigo manobrá-lo à minha vontade, e poderei levá-lo até uma proposta de casamento sem sequer saber que esteve sempre preso com uma argola enfiada no nariz. É demasiado cavalheiro para me rejeitar.» Elas...

Esta rapariga não é nada disso. Oh, não! Não, evidentemente que não. Ela é

diferente.

É mesmo.

Bem, por que razão é que ela não o deixa

continuar no seu trabalho?

Porque não gosta da polícia. Porque não gosta

de detectives.

Tenho a certeza de que não se apaixonaria por

mim se eu continuasse a ser detective particular.

Mas que mal tem ser detective particular? Algumas pessoas têm simplesmente

complexos, nada mais.

Quem é ela?

Não a conhece.

Mas quem é ela?

É uma rapariga simpática, mas nunca lhe

deram oportunidades...

Quem é ela?

É a rapariga em casa de quem foi encontrado

o cadáver de Harry Beegan.

Bertha Cool respirou fundo, cruzou os braços,

olhou para mim fixamente, depois lentamente expirou o ar e abanou a cabeça.

Por essa é que eu não esperava. Palavra que

não sei o que hei-de fazer consigo.

Arranje alguém para me substituir. Donald, está a falar a sério ? Claro que estou.

Compreende o que está a dizer? Naturalmente.

Quer dizer que vai abandonar o seu trabalho,

simplesmente para fazer o jogo de uma mulher que faz batota nas máquinas de moedas como meio de vida, e que ainda por cima vivia em comum com um pugilista falhado?

O melhor é deixarmos a rapariga fora da

nossa discussão.

Não se engane a si próprio, ela está

apaixonada é pela sua carteira. Se deixar o emprego, põe-o a andar.

Aquela rapariga, não. Bem vê, ela sabe quem

assassinou Harry Beegan.

Bertha Cool respondeu:

Bem, ouça-me com atenção, querido, sabe tão

bem como eu que... ela o quê?

Sabe quem assassinou Harry Beegan. - Como?

Tinha uma sociedade com Beegan.

Naturalmente, este contou-lhe tudo.

Uma sociedade! replicou Bertha. É verdade. Eram sócios. Era tudo uma

combinação comercial.

Oh, sem duvida, resmungou Bertha. Uma

combinação comercial. Evidentemente, Beegan vivia em sua casa, mas tratava-se só de uma combinação comercial. A rapariga é uma pequena amimada e não pensaria nunca em casar-se com um detective particular. Oh, meu Deus, isso não. E por causa de Beegan ser seu sócio, este disse-lhe tudo. Presumo que falaram os dois, depois dele estar morto.

Quer fazer o favor de a deixar em paz? Estou apenas a tentar impedir-lhe que trocem

de si.

Dentro de seis meses, perguntará como é que

pôde ser um burro tão completo.

Julgo que não.

Pois bem, eu julgo que sim. Aliás tenho a

certeza.

Já agora sempre lhe quero dizer mais alguma

coisa. Se essa rapariga sabe quem assassinou Harry Beegan, o melhor que tem a fazer é dizê-lo. Na minha opinião, trata-se de uma maneira de empatar o tempo. Naturalmente foi ela que o assassinou. Aliás deve ter sido. Beegan foi encontrado morto em sua casa.

Quer fazer o favor de passar um cheque do

dinheiro que tenho a receber e deixar-se de conversas?

Raios me partam se o farei, pelo menos

enquanto você não recuperar o juízo. Se estivesse bêbedo não lhe dava o dinheiro, e não vou com certeza fazê-lo enquanto está doido.

E o que é que vou fazer para encontrar Corla

Burke?

Pode contratar alguém para esse trabalho,

alguém com mais experiência do que eu e que esteja ansioso por conseguir posição.

Bertha Cool retorquiu:

Não estou muito convencida de que o

assassínio de Beegan não esteja ligado com o desaparecimento de Corla Burke.

Helen Franley é uma rapariga decente. Nada

sabe acerca disso. Tudo o que sabe é quem assassinou Harry Beegan, e sabe bem como são estas raparigas. Não dão com a língua nos dentes. Essa é mais uma razão pela qual deixo o emprego. A mim dir-me-á tudo o que sabe. Se estivesse a trabalhar para si, teria de trair essa confiança, e não quero estar numa tal posição.

Donald, você está completamente doido! Não, estou apaixonado.

Bem, o facto de estar apaixonado não quer

dizer que fique com as células cerebrais paralisadas. Não tem que...

Alguém bateu levemente à porta. Bertha

respondeu:

Faça favor de entrar.

A porta abriu-se, e Arthur Whitewell

apareceu à entrada.

Olá, Arthur. Faça favor de entrar.

Este disse-lhe:

Pensei que quisesse dar uma pequena volta

pela cidade, e ir ver os jogos de roleta. No fim de contas, não podemos deixar que os nossos assuntos monopolizem todo o tempo.

Só trabalho e nada de divertimentos, não está

certo. Um vestido novo?

É verdade. Encomendei-o. E fica-me bem. Se fica! Está estupendo.

Bertha retorquiu:

Nunca pensei que ainda viria o dia em que

voltaria a vestir vestidos já feitos.

Resposta de Whitewell:

A Bertha tem uma maneira muito especial de

se vestir.

Qualquer coisa que ponha no corpo fica-lhe

bem. Você tem umas linhas admiráveis... de proporções exactas.

Bertha Cool respondeu maliciosamente: Adulador!

Palavra. É mesmo assim. E se fôssemos dar

uma volta, e arriscar alguns dólares na roda da sorte?

Quer saber o que me aconteceu? Diga.

Donald quer abandonar tudo. Está a ver?

Abandonar o quê?

Deixar de trabalhar para mim. Whitewell virou-se na minha direcção. As

sobrancelhas estavam direitas.

Quando é que Donald quer sair? Agora, respondi. Imediatamente. O que é que aconteceu? Perguntou

Whitewell, olhando de Bertha para mim.

Está apaixonado, explicou Bertha. A rapariga

é uma jovem doce e inocente que...

Levantei-me e dirigi-me para a porta. Se vai discutir os meus assuntos particulares,

provavelmente sentir-se-á mais à vontade se eu não estiver aqui.

E se vai falar acerca da rapariga, não quero

ouvir. É demasiado boa para a poder compreender.

Fechei a porta atrás de mim e caminhei ao

longo do corredor. Tinha dado uma dúzia de passos quando ouvi a porta abrir-se, depois a voz de Bertha Cool: Deixe-o ir, Arthur. De nada serve. Uma vez que tenha tomado uma decisão, não há nada...

A porta ao fechar-se cortou o resto da frase de

Bertha.

Regressei a pé ao «Cactus Patch». Louie

Hazen ainda não voltara. Fui mais abaixo, ao Correio, e perguntei à empregada: O meu nome é Donald Lam, e trabalho para a Agência de Detectives B. Cool. Espero um telegrama de Los Angeles que me deve ser enviado para o Hotel Sal Sagev. Se...

Um momento, disse a empregada. Vou ver. Regressou passados alguns minutos. Estava mesmo a ser recebido quando o senhor

entrou.

Ainda bem, recebo-o aqui mesmo e poupo o

trabalho de o enviarem ao hotel.

A empregada olhou para mim por uns

momentos e depois perguntou:

Tem consigo algum dos seus cartões? Dei-lhe um dos cartões da agência. A empregada mirou-o, abriu uma gaveta,

meteu-o dentro desta, e entregou-me o telegrama. Fora expedido por Elsie Brand e dizia:

 

“Envio via aérea informações Sidney Jannix. Casado Eiva Picará 4 Dezembro 1933. Não há registo de qualquer divórcio. Mais alguém tem andado à procura dos registos. Julgo seja detective representando alguma agência e interessado em Eiva Picará. Complexo dieta deve ser devido a solicitação biológica. Não a deixes cair com muita força pois pode não ressaltar.”

Coloquei o telegrama na algibeira e dirigi-me

de novo ao “Cactus Patch”.

Um dos empregados veio até junto de mim e

tentou fazer com que aceitasse um maço de fichas com os cumprimentos da casa. Afirmou que Breckenridge ficaria muito satisfeito se eu “me sentisse como em casa”.

Disse-lhe que agradecia, mas que estava à

espera que Louie Hazen aparecesse, e que preferia sentar-me um bocado a ver o ambiente.

Depois tentou fazer com que aceitasse uma

bebida, e mostrou-se desapontado por eu nada o deixar fazer para me agradar. Também, não parecia compreender a minha atitude.

Passado, um bocado, afastou-se. Estava à espera há cerca de um quarto de hora

quando chegou Louie.

Correu tudo bem? Perguntei. Depende do que queira dizer com isso. Os

tipos são doidos. Sabe o que tentaram fazer? Quiseram meter-me ao barulho.

Metê-lo ao barulho em quê? Dizendo que fui eu que matei Sid Jannix. Você está doido, retorqui.

Não, eles é que estão doidos.

Mas como é que as coisas chegaram a esse

ponto?

Bem, tratava-se na verdade de Jannix, está a

ver? Identifiquei-o, e a polícia quis saber como é que eu sabia.

Parecem pensar que só por ter visto uma vez

um homem num ringue não poderia identificá-lo ao vê-lo já morto.

Por causa disso disse-lhes que na verdade não

o poderia ter identificado se o visse já inteiriçado, mas que o tinha visto e tinha falado com ele na noite anterior, que o tinha visto em acção. Quando se combate para viver, aprende-se a observar pequenas peculiaridades no estilo de um pugilista, e uma vez que as tenha notado ficam na memória para toda a vida. Pois bem, os tipos quiseram saber tudo sobre a maneira como o tinha visto em acção, e logo que lhes contei, começaram a atirar-se a mim, dizendo que eu estava ressentido contra Sid Jannix, que este era bom de mais para mim, e que me tinha prejudicado no meu trabalho, e eu tinha jurado vingar-me. Chamaram Breckenridge ao telefone e fizeram-lhe perguntas acerca do assunto e perguntaram-lhe ainda se eu não teria dito que estava disposto a vingar-me.

Que disse Breckenridge?

Disse-lhes que eu talvez tivesse perdido um

pouco a cabeça, mas que não me dessem grande importância, porque eu tinha a mania dos socos. Está a ver isto? Louie Hazen com a mania dos socos! É uma verdadeira anedota!

E depois?

Bem, nessa altura desceram mesmo à cidade,

deram-me o tratamento completo, gritando-me aos ouvidos que eu sabia quem o tinha morto e todo o resto. Passado um bocado julgo que devo tê-los convencido, de que nada sabia sobre o assunto, e disseram-me para me vir embora. O diabo que os leve.

Estive sempre a trabalhar enquanto o

assassínio era cometido.

É o que lhe digo, são doidos. Tenho algum dinheiro junto, Louie.

Breckenridge diz que lhe dá uma licença de trinta dias. E se me começasse a treinar?

Quer dizer para pugilista?

Acenei com a cabeça.

Os olhos de Louie cintilaram. Assim é que é falar! Podemos fazer alguma

coisa de si. Coragem não lhe falta. Está disposto a subir ao ringue?

Não. Queria apenas aprender alguma coisa

sobre boxe.

Ótimo... mas...

Economizei algum dinheiro, Louie. Pagar-lhe-

ei exatamente aquilo que está a receber aqui. Não perde nada com isso, e o emprego estará cá quando voltar.

Louie respondeu-me:

Mas eu podia treiná-lo aqui mesmo. Podíamos

arranjar espaço lá em baixo, na cave, e podia treiná-lo todos os dias...

Não. Quero sair daqui e ir para um sítio onde

esteja completamente livre de todos. Iremos para qualquer lado e montaremos um pequeno campo de treino... perto de Reno, talvez. Estará connosco uma rapariga.

Uma rapariga!

Hum, hum.

Piscou os olhos por um momento, e depois

sorriu-se com modo apreciador.

Quando é que partimos?

Imediatamente. Vou arranjar um carro em

segunda mão que nos sirva a todos. Acamparemos pelo caminho, e faremos tudo pelo melhor. Não nos custará muito dinheiro.

Bravo, disse Louie, sou um óptimo campista.

É uma das coisas de que eu gosto, cozinhar no campo.

Então vá fazer as malas. Temos que partir à

pressa.

Tenho a ideia de que a polícia talvez tente

impedir-nos de partir se não escaparmos entretanto. Por um momento, notei uma expressão de receio nos seus olhos, depois respondeu: Não podemos partir assim com essa pressa toda. Tenho algumas luvas, mas são muito leves. Precisamos de luvas mais pesadas para treino. Além disso precisamos de um saco de treino. Vendi o meu quando saí de Los Angeles, mas podemos comprar um bom por...

Arranjaremos isso no Reno, respondi-lhe.