Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 16 de 17

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Jogo, Mulheres e Morte

Capítulo XVII · Bertha seguiu comigo no avião. Os outros

 

foram no avião que Philip fretara. No último momento, Paul Endicott decidiu também ir, só pelo passeio.

O trabalhar rítmico do motor do avião

convidou-me a dormitar, pouco depois de termos descolado. De vez em quando, Bertha acordava-me com perguntas. Respondia por monossílabos e voltava ao conforto acolhedor do sono.

Não deve discutir com Arthur Whitewell,

Donald.

Hum, hum.

Você é diabólico. A velha Bertha sempre

soube que você não estava apaixonado por nenhuma mulher. Bem, você apaixona-se mesmo, e eu quero dizer com verdadeiro amor; mas, ama mais a sua profissão do que a qualquer mulher. Responda-me, Donald, não é assim?

Julgo que sim.

Diga-me uma coisa, foi Helen Franley quem

matou o homem com quem vivia?

Helen não vivia com ele.

Oh, essa piada já é velha!

Tratava-se de uma sociedade.

Bertha resmungou:

Julga que eu sou saloia?

Não lhe dei resposta. Passados alguns

minutos, Bertha acordou-me novamente.

Ainda não respondeu à minha pergunta. - Qual?

Se ela o matou.

Espero que não.

Não precisei de olhar para Bertha para

compreender que os seus pequenos olhos estudavam todas as linhas do meu rosto, procurando surpreender alguma expressão reveladora.

Helen Franley sabe muita coisa acerca de

quem cometeu aquele assassínio?

Talvez.

Alguma coisa que não disse à polícia? Possivelmente.

Aposto em como ela lhe disse o que era.

Conseguiu levá-la a dizer. Meu Deus, Donald, como é que você faz isso?

Hipnotiza-as? Suponho que sim. Não lhes

consegue com certeza impingir as atitudes do homem das cavernas. Faz com que elas venham até si. Suponho que é esse seu jeito de começar à pancada ao mais pequeno sinal, mesmo quando sabe que está liquidado. Deve ser isso. As mulheres adoram os homens corajosos.

A minha cabeça caiu para a frente, com um

solavanco, ao adormecer profundamente. Bertha puxou-me para cima.

Oiça, querido, acaso já lhe ocorreu o que é que

vai acontecer agora?

O que é?

Whitewell tem dinheiro, influência e miolos.

Com certeza que não se deixa vencer.

Não respondi.

Aposto que essa Franley faria praticamente

tudo o que você lhe pedisse.

Aquela observação pareceu-me que não pedia

resposta.

Bertha insistiu:

Aposto que o assassino está neste momento

aflito da vida. Supõe que a Franley sabe verdadeiramente quem foi que o matou?

Penso que sabe, respondi.

Então já lho disse.

Não.

Mas ela dirá à polícia... se lho perguntarem. Julgo que não.

Donald!

- O que é?

Julga que o assassino sabe isso? Isso o quê?

Que ela não falará.

Isso depende de quem for o assassino,

respondi.

Bertha disse subitamente:

Donald, você sabe quem é o assassino, não é

verdade?

Não sei.

Não sabe o quê?

Não sei se sei ou não.

Bertha comentou:

Essa é uma resposta dos diabos. Não é? Concordei e voltei a adormecer nos

poucos segundos de silêncio intempestivo que se seguiram. Quando acordei, estávamos a aterrar no aeroporto de Reno. Fora a mudança de aceleração no trabalhar do motor que me acordara. Bertha Cool estava sentada muito direita, procurando demonstrar o seu descontentamento com um silêncio dignificante.

Circulámos sobre o aeroporto para aterrar, e o

outro avião encontrava-se mesmo atrás de nós, aterrando poucos minutos depois.

Paul Endicott falou de modo a ser ouvido por

todos:

Soube que há um avião que parte para S.

Francisco dentro de quinze minutos. Não vejo razão para ir com vocês e depois voltar a correr. Gostei muito do passeio, e suponho que agora já está tudo resolvido.

Depois olhou com ar interrogativo para

Whitewell e apertou-lhe a mão.

Felicidades, meu velho.

Philip respondeu-lhe.

Sou eu que vou precisar de sorte. Achas que

ela me conhecerá, pai?

Whitewell respondeu secamente: Tenho a impressão que sim.

Endicott apertou a mão a Philip. Não percas a compostura nem a coragem.

Estamos todos fazendo força por ti, todos nós.

Philip tentou dizer qualquer coisa, mas os

seus lábios trémulos apenas balbuciaram uma resposta. Endicott encobriu o seu embaraço continuando a falar, sem parar, de modo que Philip nada tivesse que dizer.

Mantivemo-nos num pequeno grupo

compacto, à espera do táxi que tínhamos chamado pelo telefone. Disse-lhes que tinha de fazer uma chamada e pedi-lhes desculpa. Queria saber o que havia com Helen e Louie, mas a bomba de serviço Acme, na estrada de Susanville, não tinha número na lista telefónica. Voltei para junto do grupo à espera do táxi. Por fim, este apareceu e entrámos todos.

Arthur Whitewell ficou para trás para umas

últimas palavras com Endicott, depois apertaram as mãos, e Whitewell sentou-se no banco da frente. Qual é o nome do hospital? perguntou Bertha.

O “Haven of Mercy”disse eu ao motorista, e

olhei para a expressão de Arthur Whitewell. O seu rosto encontrava-se absolutamente imóvel e sem expressão. Parecia que estava a posar para um fotógrafo do século passado, concentrando-se para nem sequer piscar os olhos. Philip era exactamente o oposto. Mordia os lábios, coçava as orelhas, mexia-se no lugar, olhava para fora pela janela do táxi, tentando evitar os nossos olhares, sem dúvida desejando poder escapar aos nossos pensamentos. Parámos defronte do hospital. Dirigi-me a Bertha incisivamente:

Isto vai ser pura e simplesmente uma questão

de família.

Arthur Whitewell virou-se para o filho:

Julgo, Philip, que é melhor ires sozinho. Se o

choque de te ver não aclarar as coisas, não fiques desanimado. Faremos com que o Dr. Hinderkeld venha até cá, e ele com certeza conseguirá bons resultados.

E se ao ver-me lhe voltar a memória?

Perguntou Philip.

O pai pôs-lhe a mão no ombro. Eu fico à espera.

Bertha Cool olhou para mim. Comentei:

Uma coisa de que nunca gostei foi estar à

espera num hospital. Dentro de uma hora, estou de volta. Acho que será o suficiente para o caso de ser preciso auxílio meu, e se não puder cá estar dentro de uma hora, ficarão com tempo suficiente para se normalizarem as coisas.

Bertha perguntou:

O que é que vai fazer?

Oh, há umas coisas que tenho de fazer. Vou

no mesmo táxi.

Whitewell disse para Bertha: Parece que temos os dois de ir para a sala de

espera, onde é costume os pais andarem para trás e para diante, quando esperam o nascimento de um filho.

Cá pela minha parte, não, disse Bertha. Vou

até à cidade com Donald. Voltamos dentro de uma hora. E depois tomamos o pequeno almoço?

Excelente ideia, respondeu Whitewell. Bertha fez-me sinal com a cabeça. Whitewell falou para Bertha, num tom de voz

suficientemente alto para que Philip pudesse ouvir: Palavra que não sei como agradecer-lhe... Oh, bem, falaremos disso mais tarde. Tenho a certeza que compreende.

Em seguida colocou afectuosamente a mão no

ombro de Bertha.

A sua compreensão e simpatia querem dizer

para mim muito mais do que jamais compreenderá. E espero que consiga dominar... toda a situação. Bem...a sua voz interrompeu-se numa espécie de soluço. Bateu-lhe no ombro afectuosamente e afastou-se de nós.

Philip, que se dirigira à recepção para indagar

acerca de Corla, entrou num elevador acompanhado por uma enfermeira.

Arthur Whitewell estava a instalar-se numa

cadeira quando Bertha saiu na minha companhia para o ar livre.

Bem, disse-lhe em tom casual, vamos de táxi

até à cidade e...

A mão de Bertha segurou-me pelo braço.

Puxou-me de maneira a olhar de frente para ela, e empurrou-me de encontro à parede do hospital.

Vá para o diabo com essas coisas. Pode ser

que consiga enganar os outros, mas a mim não. Onde é que vai?

Vou ver Helen Franley.

Também eu, disse Bertha.

Não preciso de dama de companhia. Isso é o que você pensa.

Veja lá se utiliza a cabeça. Helen está deitada.

Não posso aparecer lá, acordá-la e dizer-lhe: “Permite-me que te apresente a Sra. Cool...”

Está doido. Se Helen está deitada, não vai

junto dela.

Não é desse tipo. Fica de guarda junto da

porta. Donald Lam, que diabo é que pretende?

Já lhe disse.

Pois é, disse. Já de tal maneira o conheço como

se fosse um livro aberto. Deve ter qualquer coisa na forja.

Está bem. Se quer vir, ande daí. Agora sim.

Dirigimo-nos ao táxi.

O que há? Perguntou Bertha. Dirigi-me ao motorista:

Quero que você nos leve fora da cidade, até

lhe dizer para parar, depois apeamo-nos, e espere por nós até voltarmos.

O motorista olhou para. mim com ar suspeito. Ponha o seu conta quilómetros em zero

quando atravessarmos a linha férrea. Pretendo a quilometragem certa desde a partida até à chegada. Enquanto estiver à espera receberá por estacionamento, mas não quero as luzes acesas nem o motor a trabalhar. Está a compreender-me?

O motorista respondeu-me ainda de certo

modo duvidoso:

Eu sei que o senhor é uma pessoa decente,

mas quando se faz um serviço para fora da cidade, assim nessas condições, em que ficamos à espera numa estrada, em geral recebemos...

Dei-lhe dez dólares.

É o suficiente? perguntei-lhe. Está muito bem, respondeu com um sorriso. Não se esqueça de pôr o conta-quilómetros

em zero quando atravessar a linha.

Esteja descansado.

Bertha Cool encostou-se no assento de trás. Dê-me um cigarro, querido, e diga-me

para que é isto tudo.

Quem matou Jannix? perguntei-lhe, dando-

lhe ao mesmo tempo o cigarro.

Como é que eu hei-de saber? Alguém que fosse íntimo de Arthur

Whitewell, respondi-lhe.

Porquê? Perguntou Bertha.

Aí é que está. Jannix andava a explorar a coisa

no campo da chantagem. Alguém o atraiçoou.

Bertha esqueceu-se de acender o cigarro. Vamos lá pôr as coisas direitas, disse ela

inclinando-se para a frente.

A primeira parte disto tudo não tem

dificuldade. Helen Franley não escreveu a Corla Burke. Alguém o fez, alguém que deu o nome de Helen Franley, e disse a Corla para responder.

E então?

Não está a compreender?

Não, disse Bertha secamente. Se Corla tivesse caído na ratoeira, teria casado

com Philip Whitewell, e o casamento transformar-se-ia em bigamia. O combinado seria conseguir o divórcio de Jannix. Sabe bem o que teria acontecido. Nunca haveria divórcio. Jannix continuaria a explorá-la até à última gota.

Uma vez que estivesse casada com Philip,

Corla nunca poderia mexer-se pára conseguir o divórcio. Jannix tê-la-ia então na posição que queria.

E você julga que Helen Franley não escreveu

aquela carta?

Sei perfeitamente que não o fez. Porquê?

Em primeiro lugar, porque mo disse. Em

segundo lugar, porque não era aquela a espécie de carta que teria escrito a uma mulher na posição de Corla Burke. Alguém deve ter escrito a carta... e alguém íntimo de Helen Franley.

Como é que sabe isso?

Porque esse alguém disse a Corla para enviar

a resposta para Helen Franley, Posta Restante.

E porque razão não haveria de escrever para

sua casa?

Para que Helen Franley não recebesse a carta.

Da primeira vez que Helen foi para Las Vegas, recebia o correio na Posta Restante. Jannix ia buscar o correio de vez em quando, e possivelmente tinha uma autorização escrita para receber qualquer correio que fosse dirigido a Helen.

Estou a compreendê-lo, disse Bertha. Os empregados dos correios foram demasiado

cumpridores.

Essa foi uma das coisas que os outros não

previam.

Estou a ver, estou a ver. Continue. Os correios

entregaram a carta directamente a Helen Franley. Evidentemente, não fazia qualquer sentido quando a leu. Mas porque razão é que Jannix foi morto?

Porque Jannix estava metido na coisa, mas

não pensou nela sozinho. Estava alguém atrás dele, alguém que queria...

Uma parte no produto da chantagem?

Perguntou

Bertha.

Não. Essa foi a isca que deram a Jannix para

engolir.

Mas a pessoa que o fez era alguém que

conhecia suficientemente bem Corla Burke para saber que esta nunca iria para a frente com o casamento, em tais circunstâncias. Por consequência, era alguém que pretendia impedir o casamento.

Não tinha por objectivo a chantagem. Mas, quem foi? Quem estava por de trás de

tudo?

Bem, várias pessoas. Arthur Whitewell, um

dos Dearbornes... ou os três. Poderia ter sido Endicott, e poderia ter sido o próprio Philip.

Continue.

O plano era interessante. Executou-se com

perfeição.

O único sarilho foi, depois de executado,

Jannix ter compreendido que tinham feito dele um parvo. Não gostou da coisa. Por isso ameaçou que falaria.

E por causa disso apanhou um tiro?

perguntou Bertha.

Exatamente.

Bertha afirmou:

Arthur Whitewell não faria uma coisa dessas. Não tem qualquer álibi.

E os Dearbornes? perguntou Bertha. São um

grupo esfomeado de caçadores de dotes. Não confio em nenhum deles.

Também é a minha opinião.

O táxi entrou na rua principal da cidade do

Reno, cheia de casas de jogo, deu uns solavancos ao atravessar a linha do comboio, e dirigiu-se para fora da cidade pelo distrito residencial. Bertha insistiu:

Assim, agora vai ver Helen Franley e tentar

conseguir as informações que esta tiver?

Nada disso. Vou deixá-la de fora. Tudo o que

pretendo é ter a certeza de que o outro também a deixa de fora.

Não estou a compreender.

Quando parti de Las Vegas, tive o cuidado de

o fazer em circunstâncias tais que muito lhe daria para falar. Pretendia que dissesse a toda a gente, que estava ligado de qualquer modo ao caso, que malandro eu tinha saído, que fugira sem mais nem menos com Helen Franley. Essa informação não tinha grande importância, a não ser para uma pessoa.

Para quem?

Para o assassino.

Disparate! Penso que não se trata nada disso.

Está apaixonado por essa rapariga, Donald Lam, e porque está apaixonado preocupa-se com ela. Mas só para o caso de ter razão, vou também assistir ao final.

Pode esperar no táxi, se assim quiser. Mas ninguém teria possibilidades de chegar lá

primeiro que nós; pelo menos dispomos de muito tempo.

Não estou assim tão confiado nisso. Lembre-

se que Endicott ficou para trás, no aeroporto; que Arthur Whitewell não acompanhou o filho ao quarto de Corla; e que Ogden Dearborne é piloto e é dono de um avião. Ogden nada disse para colocar o avião à disposição de Philip. Por quê?

Talvez por não ser o único dono. É possível que assim seja, e também é possível

que tenha pretendido ir a qualquer parte, a toda a pressa.

Com a irmã? Perguntou Bertha. Ou com a mãe.

Bertha Cool comentou:

Ora vejam lá! Aí está o que acontece quando

um detective apanha a doença do amor. Não há dúvida nenhuma de que estaria muito mais confortável, se tivesse ficado à espera no hospital, ao pé de Arthur. Na minha opinião não está bom da cabeça.

Não é preciso vir comigo. Já lhe disse que o

táxi pode levá-la outra vez.

Pois aí é que está. Se eu fico aqui, a tremer e a

enregelar, não acontece absolutamente nada. Se faço pouco de si por estar doentinho do coração, e voltar para o Reno, passada meia hora agarra o assassino, arranja uma grande propaganda e ainda por cima ri-se de mim. Sabe que mais?

Vou assistir ao espectáculo.

Muito bem, como quiser, respondi-lhe. Já me conhece o suficiente para saber que

nunca falto retorquiu Bertha.

Juntei as mãos de encontro ao vidro da janela

do táxi, e olhei para fora, a fim de ver se me orientava. Subimos uma pequena colina, fizemos a curva e começamos a descer pelo outro lado. A bomba da gasolina, com a vivenda isolada cerca de cem metros atrás, apareceu por curtos momentos recortada no horizonte. Depois, ficou para trás, enquanto o automóvel passava defronte.

Abri o vidro de separação no interior do carro. Pare o carro aqui.

O motorista encostou o carro a um dos lados

da estrada.

Não acelere o motor, desligue-o

simplesmente, e depois apague as luzes.

Não estou a perceber.

Pretendo que você espere aqui. O motorista travou, desligou o motor e as

luzes, e comentou:

Parece-me que o senhor está enganado. Aqui

à volta não há absolutamente nada.

Não faz mal, respondi-lhe. Saio aqui e vou dar

uma vista de olhos.

Bertha saiu comigo. Na parte oriental do céu

podia descortinar-se um clarão ainda ligeiro, que ainda nem sequer tinha cor. O frio do deserto parecia maior depois do calor que estava dentro do carro.

Começámos a caminhar. O motorista ficou a

olhar para nós, por uns momentos, depois voltou-se, recostou-se no automóvel e puxou para cima a gola do sobretudo.

Bertha perguntou-me:

É muito longe?

Cerca de um quilómetro.

Bertha voltou-se repentinamente. Vou voltar para o automóvel. Vá para o diabo

mais isto tudo.

Está bem, volte com o táxi para a cidade.

Tenho um carro que é suficientemente bom para me levar onde quer que seja. Logo que tenha verificado estar tudo bem, volto para o hospital.

Bertha voltou para trás sem dizer palavra, em

direção ao táxi. Tinha percorrido cerca de cinquenta metros quando vi as luzes do táxi acenderem-se novamente. Afastei-me para a berma da estrada, enquanto o táxi fazia a curva, esperei até que a luz vermelha de trás quase desaparecesse ao longe, e depois continuei o meu caminho.

O clarão a oriente tornou-se mais intenso.

Havia agora luz suficiente para se reconhecerem os objectos como manchas negras contra um fundo cinzento. À minha frente podia ver a bomba da gasolina, com uma pequena casa anexa, e depois, cem metros atrás, a vivenda. Escondi-me nas sombras e esperei.

A luminosidade do céu estava a aumentar.

Alguém que estivesse, escondido nas sombras poderia ter visto aproximar-me, ao longo da estrada... mas não com clareza suficiente para me reconhecer; apesar de tudo eu ainda teria sido bastante notado. Fazia frio. O ar encontrava-se tão quieto como o reflexo de um plácido lago de montanha. Sentia dores nas pontas das orelhas, devido ao frio. O nariz também estava gelado. Tinha vontade de bater com os pés no chão, mas contudo não me atrevia a mexer-me. O ruído de um automóvel na estrada chamou-me a atenção... Notável a maneira como se consegue ouvir tão longe o motor de um automóvel. Senti uma grande ansiedade. Certamente era o meu homem que chegava. Agora, que estava aqui, perguntei a mim mesmo o que aconteceria. E se Louie tivesse estado outra vez a beber? Ou suponhamos que o homem que se aproximava tinha uma pistola e não estava disposto a perder tempo com argumentos? Ou... O automóvel fez a curva.

Os faróis brilharam iluminando a estrada.

Nem sequer abrandou, continuando em grande velocidade e afastando-se à distância. O ruído do motor diminuiu de intensidade até se transformar num silêncio gelado.

Cruzei os braços e bati com eles no corpo.

Estava a tremer, e os meus dentes batiam. Os meus pés pareciam pedaços de gelo. Não apareceram outros automóveis, nenhum som, apenas o frio silencioso.

Olhei para o relógio. Voltando o mostrador

para leste conseguia ver as horas distintamente. Só daí a três quartos de hora o sol começaria a ter qualquer calor. Era-me impossível continuar por mais tempo a aguentar aquele frio. Não sabia até que ponto o ar seco do deserto conseguia extrair todo o calor, mesmo através das roupas.

Não quis acordar a rapariga. Nos bicos dos

pés fui até junto da outra janela, e chamei, em voz baixa e cautelosa:

Louie! Eh, Louie!

Não se ouviu qualquer ruído. Apanhei uma pequena pedra e bati com ela ao

de leve na janela. Nada aconteceu. Voltei a bater com a pedra e soltei um pequeno assobio. Esperei, à escuta, e nada ouvi.

O céu a leste, estava agora cor de laranja, e as

estrelas tinham-se afastado para muito longe, no espaço. Nesse momento fui atacado por verdadeiro paroxismo de tremor.

Bati na janela com os nós dos dedos e chamei: Louie! Oh, Louie! acorda!

Os poucos segundos de silêncio que se

seguiram, pareceram-me horas.

Dei a volta à cabine até junto da porta de

entrada e bati ao de leve. Depois, quando não recebi qualquer resposta, tentei o puxador da porta.

A porta não estava fechada à chave. Abriu-se

lentamente.

Lá fora fazia frio, mas o ar estava fresco. Aqui

dentro havia uma estagnação da atmosfera que parecia que o ar ainda estava mais frio. Naquele momento tive a impressão de que nunca mais voltaria a aquecer. Louie não devia ter deixado a porta sem estar fechada à chave. Tinha-o advertido especialmente sobre isso, e logo nesta noite... Fechei cuidadosamente à chave a porta atrás de mim, e atravessei a sala na ponta dos pés. As tábuas rangiam. Dei a volta ao puxador, abri a porta lentamente, e chamei baixinho:

Louie!

Havia luz suficiente no céu, agora, para se

poderem divisar claramente os objectos dentro do quarto. A cama encontrava-se feita.

Fiquei a olhar para a cama vazia, à medida

que o significado do que aquilo queria dizer começou gradualmente a entrar-me no pensamento.

Voltei-me e dirigi-me à porta do quarto de

Helen Franley.

Não tive a preocupação de bater, dei

simplesmente à volta ao puxador e depois um pontapé na porta.

A cama de Helen estava vazia. Passaram-se

cerca de meia dúzia de segundos antes de poder distinguir uma mancha branca em cima da almofada. Dirigi-me para o pé da cama.

Era um sobrescrito selado, com o meu nome e

morada. Como estava selado, Helen deve ter pretendido, para o caso de eu não voltar à cabine, que a carta me fosse enviada.

Rasguei o sobrescrito e li:

 

“Querido

Suponho que esta é a única saída. Tu tens a tua vida e eu tenho a minha. As duas nunca se ligaram e nunca se ligarão. Tu és tu, e eu sou eu. Tenho que sair da cidade. Aquele dinheiro que te dei tirei-o das máquinas das moedas, e um polícia descobriu-me. Consegui fugir, mas a polícia anda à minha procura. Depois de teres partido, falei com Louie. Louie conhece o mundo e sabe o que eu sinto. Não poderei trabalhar nas máquinas das moedas sem ter um homem que seja expedito com os punhos e que conheça o negócio. Louie vê as coisas à minha maneira. Mas lembra-te de uma coisa, Donald, trata-se unicamente de uma sociedade. Essa é uma das coisas que ficou bem esclarecida. Assim não terei com Louie os mesmos sarilhos que tive com Pug. Louie sabe a quem pertence o meu coração... e adora o chão que pisas. Neste momento, suponho que já sabes tudo acerca de Pug. Tenho a impressão de que já o sabias há muito tempo. Era ele ou nós ambos. Tinha aquela pistola guardada na gaveta da secretária, onde possuía os seus papéis e coisas que não queria deixar para trás. Disse-lhe que um dia lhe daria uma gaveta da secretária. Eu sabia que havia ali uma pistola. Quando Pug começou a ficar furiosamente ciumento, tirei a pistola e escondi-a na cozinha, no armário dos pratos. Sabia que ele nunca a iria procurar ali. Depois de Pug nos ter encontrado juntos na ruua e ter tido aquele sarilho com a polícia, foi directamente para casa. Era esperto. Fechou as luzes e escondeu-se no armário da roupa.

Eu cheguei alguns minutos depois das nove horas,

acendi as luzes e Pug abriu a porta do armário. Estava verdadeiramente tresloucado.

Nada podia fazer contra ele. Jurou que havia de

nos matar a ambos.

Acusou-me de o ter denunciado à polícia. Bateu-

me, e depois correu para a secretária a fim de ir buscar a pistola. Corri para a porta.

Pug não me deixou sair. Fugi para a cozinha e

fechei a porta. Mas não tive tempo de a fechar à chave. Lutamos uns momentos de ambos os lados da porta, e depois ele conseguiu abri-la, atirando-me de encontro ao lava-loiças. Abri a porta do armário dos pratos e tirei de lá a pistola. Pug continuava a avançar para mim.

Não estou nada arrependida. Tinha que fazê-lo. De

acordo com a tua ética, deveria ter chamado a polícia, ficar em casa e contar-lhes a minha história, deixar que investigassem o meu passado, que me fizessem perguntas acerca do meu modo de vida, meterem-me na prisão e todo o resto. Pois bem, não é essa a minha maneira de ver. Fui até à porta da casa do lado e bati fará me certificar de que não estava ninguém em casa. Ninguém respondeu de modo que saí simplesmente, e deixei a porta aberta. Deitei fora a pistola num sítio onde nunca ninguém a encontrará.

Jurei que nunca diria nada, mas não sou capaz de

esconder seja o que for. A rapariga com as narinas de coelhinho chama-se Dearbome.

Está apaixonada por Philip Whitewell. Alguém,

pertencente à organização de Whitewell, que não queria que o casamento se fizesse, mandou investigar o passado de Corla Burke. Descobriram tudo e encontraram Sid Jannix. Eu não o conhecia por este nome. Conhecia-o como sendo Harry Beegan, e chamava-lhe Pug por ter sido pugilista.

Julgo que Pug tenha escrito a carta a Corla Burke e a tenha assinado com o meu nome. Tinha bastante habilidade para falsificar assinaturas. Queria arranjar maneira de colocar Corla Burke numa posição em que a pudesse ter na mão. Mas Corla era mais esperta do que ele. Pug não engendrou todo o plano. Foi outra pessoa que o fez, alguém que não queria que o casamento se realizasse.

O pai de Philip sabia da carta que me fora escrita.

Escreveu aos Dearbornes para me procurarem. Foi o rapaz que investigou, mas a irmã começou a andar à minha volta tentando criar amizade comigo. Suspeitava de Pug. Desconheço como é que ela soube, mas sabia de certeza que Pug estava ligado a Corla Burke. Pretendia fazer com que eu falasse. O seu jogo era tão óbvio que limitei-me a dar-me por desentendida e a nunca a tomar seriamente. Já tinha há cerca de uma semana aquele apartamento em que tu me descobriste.

Sabia que as coisas se estavam a aproximar do fim,

com Pug, e pretendia arranjar maneira de o deixar para sempre, quando resolvesse acabar com tudo. Sabia que Pug nunca pensaria em procurar-me num outro apartamento da mesma cidade.

Mas depois de o ter morto, tinha que ficar

completamente quieta.

Saí para comprar umas coisas para comer... e vê lá

tu quem encontrei na rua! A jovem Dearborne. Esta sabia que eu estava escondida e ofereceu-se para me ajudar. Porquê, não sei. Pug tinha-me tirado todo o dinheiro no momento em que eu entrara no quarto, e por isso não tinha mais que trinta cêntimos comigo. Eloise Dearborne ofereceu-se para me comprar os alimentos. Deixei-a.

Levamos o teu carro por alguns dias. Penso que

não deves precisar dele. Quando o deixarmos, enviar-te-ei uma carta para te dizer onde o poderás encontrar:

Gosto mais de ti do que qualquer outra pessoa que

até hoje tenha vindo a este mundo, e se me vou embora é porque não quero que haja nada que possa estragar a recordação dos bons momentos que passámos juntos. Sei que está tudo acabado. Sei que não poderemos continuar os dois. Sei que se tentasse fazê-lo, alguma coisa aconteceria que arrancaria a doçura à memória desses momentos.

Louie não compreende todos os pormenores, mas

sabe o suficiente para ficar com uma ideia. Diz ele que se tu quiseres alguma vez que alguém morra, tudo o que tens afazer é pôr um anuncio nas colunas dos jornais de Los Angeles dizendo: “Louie, o tipo chama-se tal e tal”. Louie é capaz de dar a vida por ti. Louie diz que é por causa de tu seres um verdadeiro campeão que as pessoas pensam de ti dessa maneira. Eu julgo que é por causa de seres tão decente e honesto. De qualquer maneira, somos ambos inteiramente teus e dizemos-te ambos... adeus.”

 

Tremia de frio e de nervos. A minha mão

tremia de tal modo que me era difícil segurar a carta. Pus o duche a correr com água quente. Quando a água estava boa e bastante quente, despi-me, deixando a água correr o mais quente que me era possível aguentar. Quando acabei, sentia-me bastante melhor. Esfreguei-me com uma toalha, fui até à cozinha, e procurei qualquer coisa dentro do fogão.

Não há ninguém como Louie para pensar em

pequenas coisas como esta. Tinha deixado o fogão com lenha seca e papel por baixo, de modo que só era preciso acender um fósforo.

Quando o fogão estava bem aceso, tirei a

tampa e deitei dentro a carta de Helen, deixando-a arder. Pus café na cafeteira, e fui ver ao armário das loiças se, por acaso, ainda haveria whisky. Não encontrei nenhum. O calor que me fora dado pelo duche quente abandonou-me e estava novamente a tremer, junto do fogão.

O céu, para leste, estava cor de laranja vivo.

Depois apareceu o sol. O fogão a lenha cumpriu a sua missão, e os meus ossos começaram a aquecer. O café principiou a ferver, e bebi duas grandes chávenas. Nessa altura, compreendi que estava cheio de fome. Parti alguns ovos para dentro de uma frigideira, mexi-os, pus algum pão a torrar, e bebi mais uma chávena de café com os ovos e com as torradas. Nessa altura a cozinha já estava com uma atmosfera bastante quente e agradável.

Tentei fumar um cigarro, mas tudo o que se

encontrava dentro da casa me fazia nervos. Tudo me fazia lembrar Helen. Toda a casa vibrava com recordações... embora estivesse tão desolada como um túmulo.

Fiz a mala e saí de casa para esperar à luz do

Sol. Não me era possível continuar mais tempo dentro de casa.

O dono da bomba de gasolina, apareceu nessa

altura, a esfregar os olhos de sono. Caminhei até junto dele e disse-lhe:

Tive que me ir embora de avião. Os outros

seguiram no automóvel. Ficaram algumas coisas de alimentos, dentro de casa, que você pode utilizar, se quiser, o homem agradeceu-me e olhou-me com curiosidade:

Pareceu-me ouvir a sua mulher e o outro

homem irem-se embora a noite passada.

Dirigi-me para a estrada. Estava a caminhar

há cerca de três minutos quando um automóvel vindo de Reno parou um pouco à minha frente. Olhei para o carro, o meu coração batendo apressado.

Uma mulher estava a descer um vidro do

carro. O braço escondia-lhe a cara. Dirigi-me para o automóvel, correndo pelo alcatroado.

O vidro acabou de descer. O braço da mulher

afastou-se de modo a poder ver-lhe a cara. Era Bertha.

Onde é que tem estado? perguntou-me. Estive a pôr as minhas coisas em ordem.

Não apareceu ninguém, pois não? - Não.

Pensei isso mesmo. Tinha tudo um aspecto

assim um bocado esquisito. Bem, vamos embora. Temos trabalho a fazer.

O quê e onde?

Em primeiro lugar, temos de voltar para Las

Vegas.

O tal tenente Kleinsmidt da polícia está a fazer

um barulho dos diabos, e você é a única pessoa que pode tratar com ele.

O que é que aconteceu a Philip e à rapariga? Bertha resmungou:

Perda de memória! Bem, está tudo a correr

pelo melhor, se Philip engolir a pastilha.

Mas fizeram as pazes? perguntei. Fizeram as pazes! Você devia tê-los visto. Onde é que eles estão agora? Tomaram um avião para Los Angeles. Temos

de voltar para trás para pormos as coisas em pratos limpos com Kleinsmidt.

Bem, venha daí.

Entrei no carro, e disse para o motorista: Muito bem, agora vamos para o aeroporto. Um avião estava à nossa espera. Embarcámos.

Eu não estava disposto a falar. Passados momentos, Bertha deixou de insistir comigo. Depois, gradualmente, a tensão nervosa abandonou-me. Mergulhei num sono profundo.

Um automóvel esperava-nos em Las Vegas. Hotel Sal Sagev, disse Bertha, e depois para

mim:

Tem um aspecto péssimo. Tome um banho,

faça a barba e depois venha ter ao meu quarto. Entretanto, farei com que Kleinsmidt apareça.

O que é que ele tem? Perguntei. Bem, pensa que você fugiu com uma

testemunha, e não gosta da maneira como toda a gente desapareceu da cidade, a noite passada, sem lhe dizerem nada. Também pensa que deveria ter interrogado Corla Burke. Pensa também que o assassínio lhe deve ter dado uma pista qualquer sobre Corla.

É necessário que você ponha tudo direito. É

preciso uma boa história.

Bem sei, respondi.

Fomos para o hotel. Disse a Bertha que tinha

um botão da camisa a cair, e pedi-lhe uma agulha e linha. Bertha tornou-se inesperadamente maternal, e ofereceu-se para pregar o botão, mas não aceitei. Logo que a porta do quarto de Bertha se fechou, corri para o elevador. Até ao quarto onde Helen Franley tinha vivido, a distância não era grande. Dirigi-me para lá a pé. Imobilizei-me por uns momentos ao fundo da escada, o tempo suficiente para ter a certeza de que não andava ninguém ali próximo, espetei o dedo com a agulha e espremi algum sangue. Nas pontas dos pés, subi as escadas... e depois voltei a descê-la nas pontas dos pés.

Bertha Cool estava a falar ao telefone quando

entrei.

Ouvi-a dizer:

Tem a certeza disso? ... Com mil diabos... Já

investigou no aeroporto? ... Está bem. Partimos daqui no avião da tarde.

Logo à noite encontramo-nos em Los

Angeles... Ainda bem.

Dê-lhes os meus parabéns. Adeus. Bertha desligou e voltou-se para mim. Que coisa estranha!

Quer dizer que Endicott não apareceu?

perguntei-lhe.

Os pequenos olhos de Bertha brilharam

intensamente.

Donald, não há dúvida que consegue dizer as

coisas mais...

Porquê?

Como é que sabia que ele não apareceu? Oh, não sei. Qualquer coisa que disse pelo

telefone.

Está doido. Você sabia que Endicott não ia

aparecer.

Para onde é que ele foi?

Não sei.

Pois bem, não tomou o tal avião para S.

Francisco, no Reno. Desapareceu completamente. Estendi-me e bocejei.

Quando é que aparece o tenente Kleinsmidt? Está a caminho.

Alguém bateu à porta. Fui abrir, e Kleinsmidt

entrou.

Você! exclamou ele.

Exactamente.

Você sempre me saiu um bom malandro. O que é que eu tenho de mal? Fugir daqui, deixando-me em má situação,

depois das oportunidades que tentei dar-lhe.

Estive a trabalhar para si.

Obrigado! respondeu em tom sarcástico. Tal como vejo as coisas, aquilo que lhe

interessa é o assassino de Jannix.

Exactamente, uma coisa assim tão sem

importância: mas, a verdade é que o chefe anda cheio de complexos estranhos.

O chefe está a perseguir-me, e surgiram

algumas críticas, aqui e ali, algumas sugestões de que a sua partida foi de certo modo repentina, que eu poderia ter protegido melhor os interesses do público, fazendo com que você estivesse em lugar seguro. Onde é que está Helen Franley?

Não faço a menor ideia.

Você foi-se embora com ela.

Hum, hum.

Onde é que a deixou?

No Reno.

E depois?

Encolhi os ombros,

Não falemos nisso. Ela fugiu com outro tipo. Senti os olhos de Bertha fixando-se em mim.

Kleinsmidt perguntou-me:

E quem é o tipo desta vez?

Um homem chamado Hazen. Aquele que identificou o cadáver? Esse mesmo.

Na minha opinião, não tem nada o aspecto de

um homem que é cobiçado pelas mulheres.

Também eu cometi o mesmo erro, meu caro

tenente.

Parece-me que tenho que fazer uma pequena

verificação do que me conta, Lam.

À vontade, disse-lhe. Posso dar-lhe o nome do

homem que tem uma bomba de gasolina, onde nós alugámos uma vivenda.

E que é que ele sabe?

Disse-me esta manhã que tinha ouvido a

minha mulher e outro homem afastarem-se no carro, durante a noite.

Kleinsmidt comentou:

É pena. Parece-me que você não está com bom

aspecto.

Naturalmente, necessita de repouso. Não sei

se sabe que aqui em Las Vegas temos um dos melhores climas da região.

Pode ter a certeza que ficávamos bastante

sentidos se voltasse a partir inesperadamente. Vou arranjar as coisas para que não o faça.

Bem, se eu fosse a si não estava com tanta

pressa. Há uma outra coisa que tem mais pressa. O quê?

Lembra-se de Paul Endicott, o braço direito

de Whitewell?

Com certeza.

Não sei se você ouviu Whitewell dizê-lo, mas

Whitewell tencionava dar sociedade ao filho quando este se casasse.

Como sabe, os fiscais dos impostos têm

sempre ideias estranhas sobre essas coisas. Quando fosse formada a nova sociedade pretenderiam ver os livros, mesmo que Whitewell não quisesse.

Notei um brilho de interesse nos olhos de

Kleinsmidt.

Continue, disse ele.

Não sei ao certo, mas estava capaz de apostar

que uma vista de olhos aos livros de Whitewell revelariam a verdadeira razão pela qual Endicott não queria que o casamento se realizasse.

Foi essa a razão pela qual levou Helen Franley

a escrever a carta a Corla Burke, a qual a faria pensar que o casamento não se poderia realizar.

O que é que dizia a carta? perguntou

Kleinsmidt.

Não sei exactamente, mas parece que o pai de

Corla Burke abandonara a família quando esta tinha quinze anos.

Não pretendo que seja citado o meu nome,

mas julgo que a carta lhe dizia que o pai tinha sido preso e estava a cumprir uma pena numa penitenciária. Naturalmente, Corla não poderia casar-se nessas circunstâncias. Pensou que não seria leal para com Philip.

Essa é a sua versão, disse o tenente. Vamos

ouvir agora o próximo capítulo.

Corla ficou nervosíssima. De qualquer modo

estava à beira de um colapso nervoso devido a excesso de trabalho.

Começou a investigar. Evidentemente, não se

tratava de um assunto que pudesse confiar a alguém, de modo que resolveu empatar as coisas a fim de poder afastar-se e adiar o casamento até saber a verdade.

Isso não lhe deveria ter levado muito tempo. Pois não, confirmei, se por acaso um colapso

nervoso a não fizesse perder o rumo. Encontraram-na ontem, em Reno, sem saber quem era, onde estava, e porque se encontrava ali.

Kleinsmidt quase fechou os olhos para me

dizer:

Lembre-se de uma coisa, Lam, uma vez fui no

seu jogo.

Mas, queimei-me. Você faz um jogo muito

estranho, cheio de curvas. Desta vez terá que dar-me algo que o chefe possa engolir.

E que julga você que estou a fazer agora?

perguntei-lhe.

Diabos me levem se sei. E, além disso,

suspeito disto tudo.

Endicott lutava para Conseguir todas as

demoras que fossem possíveis. Jannix devia apoiar o seu plano. Jannix devia ser a testemunha que juraria que o pai de Corla estava preso.

Endicott pagava-lhe. Mas você sabe como era

Jannix. Um temperamento exaltado e um pouco desconfiado. Endicott cometeu o erro de ir vê-lo, e encontrou Jannix num dos seus momentos de irritação. Quando se foi embora, Jannix estava morto.

Muito interessante, não há dúvida, disse o

tenente.

Simplesmente está cheio de falhas. Isso tudo

são palermices, mesmo em teoria. Por acaso não tem quaisquer factos que dêem base a essa história de fadas?

Imensos.

Kleinsmidt perguntou-me:

Bem, pode começar por me dizer como é que

aconteceu Endicott ter cometido o assassínio no momento exacto em que estava sentado num cinema. O chefe estaria interessado nisso.

Se uma mulher tivesse morto Jannix, este

tinha sido morto entre as oito e cinquenta e às nove e quinze. Se um homem o tivesse morto, poderia ter sido em qualquer altura.

Que interessante!

O mal, consigo, é ter arranjado uma teoria e

depois tentar encontrar factos que condigam com a teoria. Na sua ideia, como as pessoas que viviam na casa do lado não tinham ouvido um tiro, este deve ter sido disparado enquanto os vizinhos não estavam em casa.

Tente disparar um tiro lá em casa, sem que a

velha do lado o não oiça, disse-me Kleinsmidt.

Com certeza. Ela não ouviu nenhum tiro.

Estava na estação. Por consequência, o assassínio foi cometido enquanto não estava ninguém no prédio.

Claro, e então o que é que está mal nisso? Suponha que ela não tinha saído? Então teria ouvido o tiro.

Acha que sim?

Evidentemente.

Mas suponha que não o ouviu? Não compreendo o que é que você pretende. Se não tivesse ouvido, vocês teriam que

descobrir porquê, não é verdade? perguntei-lhe.

Naturalmente.

O cadáver foi encontrado num apartamento.

As pessoas que viviam na casa do lado tinham saído entre as oito e cinquenta e as nove e vinte. Isso tornou as coisas bastante simples, para si. Conseguiu arranjar maneira de limitar a hora do crime a um intervalo de trinta minutos, e começou a fazer perguntas de acordo com esse facto. Bem, se uma mulher tivesse morto, a coisa estava bem.

E por que razão um homem tornaria as coisas

diferentes?

Respondi-lhe:

Um homem forte poderia ter morto Jannix no

beco, ou num automóvel, ou fora da cidade, metido o cadáver num carro, parado no beco, agarrado no cadáver ao ombro, ter carregado com ele para o apartamento de Helen Franley e depois deixá-lo ficar lá. Em seguida podia ter ido para o cinema e procurado arranjar um álibi. Por acaso não lhe pareceu um pouco estranho que Endicott tenha vindo à pressa para Las Vegas, apenas para ir ao cinema? Não há dúvida que deve ser um “fan” dos bons.

Kleinsmidt abanou a cabeça. É uma estupidez. Até cheira mal.

Muito bem, você queria que eu lhe desse

alguma coisa para levar ao chefe. Agora não diga que não lhe dei.

Essa é a sua história, disse Kleinsmidt. Até a

maneira como você a conta, está cheia de falhas. Se tentasse levá-la ao chefe, acabaria por fazer ricochete, e era eu o atingido.

Muito bem, então é o seu funeral. É possível que seja o meu funeral. Mas você é

a pessoa que vai chorar mais no enterro. Venha daí. Voltei-me para Bertha:

Pode mandar o correio para mim ao cuidado

do tenente Kleinsmidt.

O diabo, é que eu vou, disse Bertha,

levantando-se.

Quem julga você que é? perguntou ela,

olhando para Kleinsmidt. De uma coisa pode estar certo. Não se vai sair bem disto tudo. Julgo que nesta cidade também há advogados.

O tenente respondeu-lhe:

Com certeza. Faça o favor de ir procurar os

advogados.

Entretanto, o Sr. Lam vem comigo. Kleinsmidt agarrou-me pelo braço. Vamos embora, sem barulho.

Saímos sossegadamente. Bertha Cool ficou à

porta do quarto, dirigindo cumprimentos a Kleinsmidt. Este não lhe prestou atenção.

Quando atravessámos o átrio do hotel,

Kleinsmidt disse-me:

Lamento muito, Lam. Na verdade, aborrece-

me bastante ter que o fazer, mas esta história não tem pés nem cabeça.

Por que é que não arranja uma história

melhor?

Cá por mim, está bem. Mas, não se esqueça de

Bertha.

Garanto-lhe que a minha patroa não vai ficar

sentada. Mais tarde, quando tiver uma oportunidade para pensar nisto tudo, meu caro tenente, este vai ser o seu momento de maior embaraço. É possível que consiga escrever uma história, daquelas que ganham prémios...

Eu sei bem que você não tem importância de

maior; mas, se por acaso me conseguisse levar a abandonar a história, era capaz de nunca mais ouvir o resto.

O tenente levou-me para o comando. Não me

mandou para uma cela, mas deixou-me num gabinete com um polícia de guarda. Cerca do meio-dia, apareceu o chefe Laster.

Este disse-me:

Bill Kleinsmidt esteve a falar comigo. Ainda bem.

E a senhora Cool está à espera no gabinete do

lado, juntamente com um advogado e um pedido de “habeas-corpus”.

Bertha é uma pessoa que sabe utilizar as

mãos. Em geral, quando assume um compromisso, tem um pau na mão.

O chefe respondeu-me:

Essa sua teoria não me parece assim tão

disparatada como pareceu a Kleinsmidt.

É apenas uma teoria.

Evidentemente você tinha alguma coisa em

que baseá-la.

Nada que mereça a pena discutir. Mas tinha alguma prova?

Não. Foi apenas uma ideia.

Mas eu sempre gostaria de saber o que foi. Oh, apenas uma ideia.

O chefe abanou a cabeça.

Você tinha com certeza mais alguma coisa

para ligar à teoria do que uma simples ideia. Acaso a rapariga lhe disse qualquer coisa?

Levantei as sobrancelhas, e disse com

surpresa exagerada: Porquê? Acaso sabe ela alguma coisa?

Isso não responde à minha pergunta. Ela

disse-lhe alguma coisa?

Tenho a certeza de que não era capaz de me

lembrar.

Falamos de muita coisa. Você sabe como as

coisas são quando se está com uma rapariga vários dias.

E noites, acrescentou ele.

Não lhe respondi.

O chefe da polícia tomou uma atitude

pensativa. Passado um pedaço voltou a falar.

Não há dúvida que você é um tipo estranho. Então, o que é que há agora? Depois de Bill me ter contado essa sua teoria,

resolvi ir dar uma vista de olhos e voltei a fazer uma busca à casa.

Andámos nas escadas, examinando os

degraus, um por um.

Encontrámos meia dúzia de pingos de sangue. Ah, sim?

O chefe respondeu:

Isso faz com que o álibi de Endicott

desapareça completamente.

E já lhe fez perguntas sobre isso? Não podemos. Desapareceu. Mas, como?

Foi consigo para Reno, a noite passada, e essa

foi a última vez que alguém o voltou a ver.

Então não tomou o avião para S. Francisco? Não.

E o que é que diz Whitewell? Whitewell está a dizer muita coisa. Falei com

ele pelo telefone. Já mandou chamar os contabilistas.

Bem, isso é tudo muito interessante, mas

aconselho-o a não manter Bertha Cool à espera muito tempo. Sabe que ela é capaz de entrar repentinamente em acção.

O chefe levantou-se com um suspiro. Mas sempre gostaria que você me dissesse

quais as provas que encontrou. Isso auxiliaria bastante.

Desculpe-me. Mas tratava-se apenas de uma

teoria.

Você com certeza teve um indício qualquer. Não estou a ver como é que chega a essa

conclusão.

Parece-me uma dedução perfeitamente justa e

lógica. Só porque um cadáver é encontrado em determinado local, isso não quer necessariamente dizer que o crime tenha sido cometido ali.

Quando é que parte de Las Vegas? Logo que consiga arranjar avião, e não vou

falar com quaisquer jornalistas, e pelo que me diz respeito, você é a pessoa que solucionou o crime.

O chefe virou os olhos para um lado e

respondeu-me:

Oh, essa é uma coisa que não me interessa

absolutamente nada.

Bem, estou a dizer-lhe isto, só para o caso de

lhe interessar.