Jogo, Mulheres e Morte
Capítulo XI · A primeira vez que bati à porta do
apartamento 2-A, fi-lo suavemente, mas com insistência.
Uma voz de mulher, perguntou do outro lado:
- Sim? Quem é?
A voz parecia procurar não revelar medo. Não disse nada, esperei cerca de vinte
segundos, depois bati novamente, desta vez com maior insistência. A voz feminina fez-se ouvir mais próxima da porta.
Quem é?
Agora já era possível notar-se um tom de
pânico.
Voltei a não dizer nada, esperei apenas...
esperei bem trinta e cinco segundos. Depois, bati novamente, desta vez ainda com mais força.
Quem... a sua voz interrompeu-se. Ia levantar a mão para bater pela quarta vez
quando ouvi a chave dar a volta à fechadura, e a porta abrir-se alguns centímetros. Com o ombro empurrei a porta. Helen Franley cedeu perante mim, quando entrei no quarto e a ela me dirigi. Fugira-lhe completamente a cor. Tinha a mão na garganta.
Então? Perguntei.
Fecha... fecha a porta, Donald. Virei-me um pouco, e com a ponta do pé
empurrei a porta, que se fechou.
Então? voltei a perguntar.
Senta-te, Donald. Meu Deus, não olhes para
mim dessa maneira!
Sentei-me, tirei um maço de cigarros da
algibeira, ofereci-lhe um, tirei outro para mim, e estendi-lhe um fósforo aceso.
Helen tocou-me na mão para guiar a chama
até junto do seu cigarro. Senti-lhe o braço a tremer. As pontas dos dedos estavam geladas.
Como é que me encontraste? Facilmente.
Não. Não podia ter sido fácil. Esqueces-te de que sou detective. Não me importa que fosses mesmo a polícia
inteira.
Não era fácil. Já vivi o suficiente para saber
como é que hei-de cuidar de mim quando estou em sarilhos.
Está bem, que diferença faz ter sido fácil ou
difícil?
Encontrei-te, não é verdade? - Porquê?
Porque queria ouvir a tua história. Não tenho qualquer história. É pena.
Que queres dizer?
A polícia não vai gostar disso. Donald, tu não vais... tu não vais... A polícia encontrar-te-á.
Não. Isso não conseguirá.
Sorri-me simplesmente, e fiz esse sorriso o
mais superior que podia.
A polícia não tem nada contra mim. A não ser que o homem assassinado vivia
contigo, em tua casa, e...
Ele não estava a viver comigo! Passava a maior parte do tempo Já em casa,
não é verdade?
Sim, algum, mas não... não estava a viver
comigo.
Podes prová-lo?
Evidentemente que não. Não costumo levar
para a cama um notário público.
Tirei o cigarro da boca e bocejei. Donald, o que é que tu tens? Com certeza não
pensas que eu o matei?
Não o mataste?
Não sejas parvo.
Alguém o fez.
- E, já agora se mo perguntas, estava a pedir
isso mesmo.
A polícia devia estar interessada nessa
declaração.
Bem, a polícia de mim não ouviria nada.
Naturalmente julgavas que ia dar com a. língua nos dentes?
Provavelmente não.
Pois podes apostar o teu último dólar, em que
não o faria.
Tens um álibi?
Para que horas?
Oh, cerca de dez minutos para as nove até
cerca das nove e vinte.
Não, não tenho.
Azar.
Donald, escuta-me. Como é que me
encontraste? Eu julguei que era impossível alguém encontrar-me.
Facilmente.
- Está bem, mas como?
Isso é um segredo profissional. Suponho que gostarias que eu fosse
condenada por assassínio?
Não. Acredites ou não, vim para te auxiliar.
Os seus olhos perderam um pouco daquela
expressão de fugitiva.
És um cavalheiro.
Não podes continuar aqui.
Por que não?
É demasiado fácil encontrar-te. Eu pensei que nunca me encontrariam... pelo
menos em mil anos.
Encontrar-te-iam em mil minutos. O que é que ias sugerir?
Podia fazer-te sair da cidade. Como?
Segredo.
Está bem, qual é o preço?
Quero saber o que aconteceu. Estás na verdade disposto a fazer-me sair da
cidade, Donald?
Acredita que sim.
És na verdade um tipo estranho. Pretendo alguma coisa.
O quê?
Informações.
Só isso?
- Sim.
Helen retorquiu:
Parece-me que nunca conheci um homem,
como tu.
Dize-me uma coisa, a polícia anda à minha
procura?
O que pensas?
Por que é que eles não vão procurar o
verdadeiro criminoso?
Andam à procura de pistas.
Bem, e o que é que eu vou fazer? Tirar pistas
das mangas do casaco, tirar algumas mais das meias, colocá-las numa bandeja de prata e dizer: “Aqui as tem, Sr. guarda.”
Isso é contigo e com a polícia. Se não dizes o
que sabes, podes ficar colocada numa posição bastante grave. Foste a última pessoa a ver Harry Beegan vivo.
Não fui. Acabei tudo com ele logo a seguir à
cena de pancadaria.
Fugiste com ele.
Eu corri pela travessa abaixo. Alguns minutos
depois Pug veio atrás de mim, agarrou-me pelo braço, e corremos os dois quase até ao fim da travessa. Naquele sítio havia um tapume bastante alto. Pug agarrou em mim e levantou-me até ao ponto em que podia elevar-me. Depois de eu ter subido para cima do tapume, estendi-lhe a mão e ajudei-o a subir.
E depois?
Esperámos durante um pedaço enquanto os
polícias passavam próximo. Podíamos ouvi-los falar, víamos as luzes das suas lâmpadas eléctricas e ouvíamos as perguntas que faziam. Atrás dos polícias vinha uma porção de pessoas, em seguida afastámo-nos calmamente.
E depois?
Depois, respondeu ela, disse-lhe que era um
traidor, e que estava tudo acabado. Pug sabia que eu estava a falar verdade.
E bateu-te?
Nada disso. Pediu-me e implorou-me,
prometeu quenão voltaria a interferir, disse-me que os ciúmes eram maisfortes do que a sua vontade, porque me amava muito, mas que tinha tido a sua lição e que compreendia perfeitamente que não poderia interferir na minha vida.
Mudaste de opinião?
Afastei-me.
E que é que lhe aconteceu?
Começou a seguir-me, e então voltei para trás
e disse-lhe que arranjaria sarilho se me seguisse.
Ameaçaste chamar a polícia?
Não, evidentemente que não. A polícia e eu
nãoandámos na mesma escola.
Ameaçaste gritar?
Não, disse-lhe aquilo mesmo. Disse-lhe que
arranjaria sarilho.
E que querias dizer com isso? Não sei o que é que queria dizer, mas estava
farta.
Assassínio? Perguntei-lhe.
- Evidentemente que não. Disse aquilo apenas
para que me deixasse sozinha.
- Mas não o ameaçaste de que arranjarias
sarilho ?
- É verdade.
Não será isso o mesmo que dizer que o
matarias?
Já te disse que não sei o que pretendia dizer.
Apenas queria que se afastasse. Tê-lo-ia ameaçado de arrancar a Lua do céu e dar-lhe com ela na cabeça se me tivesse ocorrido essa ideia. Estava irritadíssima.
Achas que alguém te poderia ter ouvido? - Não.
Tu tinhas passado por cima do tal tapume? - Pois.
Como é que voltaste à rua?
Segui ao longo do tapume, vi as luzes de um
salão de bilhar, entrei pelas traseiras, e saí para a rua.
Estavam homens no salão?
Estavam.
A jogar bilhar?
Dois ou três estavam.
Olharam para ti fixamente?
Se olharam!
Achas que se lembrarão de ti? Oh, suponho que sim, respondeu-me, a sua
voz revelando enfado.
- Pela maneira como me miraram, se tivesse
um sinal do tamanho de uma cabeça de alfinete um pouco abaixo do joelho da minha perna esquerda, lembrar-se-iam dele durante vinte anos. Acha que isso responde à sua pergunta, Sr. detective?
Não há dúvida que sim. E os segundos
andares desses edifícios? Não haveria lá nenhuma casa de apartamentos para alugar ou algum hotel?
Não sei.
Reparaste se havia alguma luz nas janelas? Não.
Terias reparado se houvesse luz nas janelas? Não sei. Estava furiosa. Quando estou furiosa,
não reparo nas coisas.
Voltemos a Harry Beegan.
Isso é que não. Ouve, Donald, quero sair
daqui.
Podes levar-me?
Posso.
O que é que eu tenho que fazer? Exactamente aquilo que eu disser. Durante quanto tempo?
Talvez duas ou três semanas. A fim de poder sair?
Em parte isso. O resto é o preço que cobro por
te fazer sair.
Olhou-me com uma expressão intrigada. Acaso estarás a fazer-me uma proposta a
sangue-frio?
Não é uma proposta desonesta. Então o que é?
Uma combinação.
O que é que tu queres de mim? Penso que podes auxiliar-me. A fazer o quê?
A esclarecer um caso em que estou a
trabalhar.
Oh, isso! Disse ela.
Sacudi a cinza do cigarro.
Está bem, disse repentinamente, quando é que
partimos?
Quando é que podes ter as malas feitas? Já tenho as malas feitas. Não trouxe nada
comigo.
Não havia tempo para mais. Nem sequer uma mala de viagem? Apenas uma mala pequena.
Quando é que a conseguiste? Quero dizer,
quando é que foste ao apartamento buscá-la?
Não gostavas de saber?
Saber-se-á mais tarde ou mais cedo. Então nessa altura saberás.
E acerca de Eloise Dearborne? O que sabes a respeito de Eloise Dearborne? Onde é que ela vive?
Aqui.
Aqui! Então, o que é que ela faz? O irmão é o engenheiro da barragem Boulder. Helen abanou a cabeça.
Não a conheço.
Quem era, perguntei-lhe, a rapariga ruiva com
um nariz de coelhinho que andou contigo no “Cactus Patch”?
Não sei a quem te referes.
Não conheces ninguém com esta descrição?
Não. É possível que tenha parado e passado
uns momentos com alguém, mas não tenho qualquer pessoa amiga parecida com essa. Que idade tem?
Oh, vinte e três ou vinte e quatro anos. Abanou a cabeça.
Bem. É possível que tenhamos de partir à
pressa.
- O. K.
Bem. Quando formos em viagem, não
devemos fazer nada que possa chamar a atenção. Em determinadas alturas pode acontecer que... em que tu terás de...
Helen riu-se.
Demoraste tempo a chegar até isso, não é
verdade,
Donald?
Respondi-lhe:
- É.
Levantei-me e saí.