Jogo, Mulheres e Morte

A. A. Fair · Capítulo 4 de 17

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Jogo, Mulheres e Morte

Capítulo IV · Subi novamente as escadas do apartamento

 

de Helen Franley. Tinha a cara inchada. Com as pontas dos dedos sentia um alto no lado direito do queixo, e um outro um pouco abaixo da maçã do rosto, do lado esquerdo da cara. Julgo que os altos não se notavam muito, mas doíam-me bastante.

Toquei à campainha e esperei. Ninguém me respondeu.

Toquei novamente.

Subitamente, abriu-se a porta do apartamento

do lado.

A mulher que tinha falado comigo da outra

vez apareceu à porta.

Ah, é o senhor. Julgo que ela está em casa. Até

julguei que você estivesse a tocar aqui à porta. O que é que se passa?

Não lhe responde?

Dê-lhe tempo. É possível que não tenha

ouvido a campainha.

Qual coisa! Em minha casa oiço a campainha

como se fosse a da minha porta. Até julguei que estivesse a tocar à minha campainha. Talvez...

A voz do homem ouviu-se impaciente no

interior da casa:

Vê lá se sais daí da porta e deixas de

bisbilhotar a vida dos outros.

Não é costume meu bisbilhotar a vida dos

outros.

Não, nem por isso.

Julguei que este senhor tivesse tocado à nossa

campainha e...

Sai da porta.

A porta fechou-se.

Tornei a tocar à campainha de Helen Franley. A porta abriu-se cautelosamente, apenas

alguns centímetros.

Reparei que estava colocada a corrente de

segurança, que impedia a porta de abrir-se mais. Vi uns olhos frios a perscrutar-me e ouvi a sua exclamação de surpresa. Era a rapariga que estivera a jogar às moedas.

Como é que me encontrou?

Posso entrar?

Não... certamente que não... o que é que quer? Nada tenho a ver com o que se passou no

“Cactus Patch”... E é bastante importante.

Hesitou um momento, depois tirou a corrente

da porta.

Estudou-me curiosamente, quando entrei. Não ligue importância à minha cara. Vai ficar

como nova.

Deram-lhe com bastante força? Julgo que sim. Tive a sensação de que o

prédio me caía em cima.

Riu-se.

Entre para aqui e sente-se.

Segui-a até a uma pequena sala. Indicou-me

uma cadeira.

Sentei-me.

Não estava sentada aqui? perguntei-lhe. Não. Estava sentada nesta cadeira. A cadeira em que me sentei ainda estava

quente.

Dá-me licença que fume?

Com certeza. Eu estava a fumar quando o

senhor entrou.

Agarrou num cigarro que estava a arder num

cinzeiro, próximo da sua cadeira.

Vou pôr as cartas na mesa.

Gosto de pessoas assim, respondeu-me ela. Sou detective particular.

Empalideceu e ficou como que paralisada

numa espécie de atenção cortês.

Que mal há nisso? Perguntei-lhe. N-nada.

Não gosta de detectives particulares? Depende do... do que procurarem. Procuro informações acerca de uma pessoa

amiga.

R-receio que não possa ajudá-lo. Eu... Ouvi uma porta ranger. Helen Franley deitou

um olhar rápido por cima de mim, depois mudou a direcção dos olhos e manteve-se silenciosa, esperando alguma coisa.

Falei sem voltar à cabeça:

Já agora o melhor que tem a fazer é juntar-se a

nós, Sid.

Ouvi passos rápidos atrás de mim, e senti que

estava alguém próximo da minha cadeira.

O melhor é pôr todas as cartas na mesa, disse

uma voz de homem.

Todas as que lhe dizem respeito estão já na

mesa.

Voltei-me e olhei então para ele. Era o mesmo

homem que tinha estado a jogar nas máquinas de moedas, e notei naquele momento que tinha vestígios de uma verruga na orelha direita. Estava irrequieto... e perigoso.

Sente-se, disse-lhe eu, e junte-se a nós. Não

tenho nada a esconder.

Respondeu-me:

Você apareceu no “Cactus Patch” numa altura

bastante estranha. Pode ser que tenha sido pura coincidência e talvez...

Não fale tão alto. A inquilina do lado é

bastante curiosa.

E eu que o diga, disse Miss Franley. Sid Jannix sentou-se.

Nós não vamos dizer nada durante cerca de

cinco minutos.

Durante esses cinco minutos, você vai fartar-

se de falar.

Então, vai haver cerca de quatro minutos de

silêncio respondi-lhe. Chamo-me Donald Lam. Trabalho para a Agência de Detectives B. Cool. Tento encontrar Corla Burke. Tenho razões para pensar que Miss Franley sabe onde Corla se encontra.

Fez uma careta.

Para que quer encontrá-la?

Por causa de um cliente.

Não estará você a armar-se em esperto? Não. Mas também não sou tão parvo que

ande para aí a dizer os nomes de todos os clientes a quem quer que me pergunte.

Muito bem, Miss Franley não faz ideia onde se

encontra Corla Burke, porque não conhece nenhuma Corla Burke.

Então por que é que Miss Franley lhe

escreveu uma carta?

Não escreveu carta nenhuma. Conheço pessoas que dizem que Miss Franley

o fez... pessoas que estão em posição de o saber.

Devem ser malucos. Helen não escreveu carta

nenhuma.

Miss Franley falou nessa altura: Eu nem sequer sei quem é Corla Burke. É você

a segunda pessoa que me fala nela.

Sid olhou rapidamente e de relance. Quem foi a primeira?

Um engenheiro da barragem. Os seus olhos brilharam.

Por que razão não me disseste? Por que é que o havia de fazer? Nem sequer

sabia do que ele estava a falar. Deram-lhe um número errado, com certeza.

Helen voltou-se para mim:

E presumo que foi ele que lhe deu a indicação

e é essa a razão por que você está aqui.

Qual era o nome desse homem? perguntei-lhe. Aquele que veio cá da primeira vez? Sim.

Ia para responder, depois olhou para Sid

Jannix e hesitou claramente.

Continua disse ele.

Não sei o nome do homem. Não mo disse. Estás a mentir.

Helen exasperou-se.

Porque razão é que te havia de mentir, meu

palerma?

Ora vejam lá, naturalmente queres saber o

nome de todos os vendedores que vêm aqui à porta procurar vender um aspirador?

Sid voltou-se para mim.

Como é que teve essa ideia de que Helen teria

escrito a carta?

Algumas pessoas pensam que o tenha feito. Quem são essas pessoas?

Pessoas que comunicaram com a Agência. A

Agência mandou-me cá.

Quem eram as pessoas?

Isso terá de perguntar à Agência. Sid voltou-se para Helen Franley. Mas tu não escreveste nenhuma carta? Evidentemente que não.

Voltou-se para mim.

Que nome é que você me chamou... que nome

foi?

Não estou a compreender.

Quando entrou, você disse qualquer coisa... Oh, chamei-lhe Sid.

Onde é que foi buscar esse nome? Não é esse o seu nome ?

- Não.

Desculpe o meu erro. Então, qual é? Harry Beegam.

Desculpe.

Quem é que lhe disse que eu me chamava

Sid?

Pensei que fosse esse o seu nome. Olhou para mim desconfiado e disse

lentamente:

Pois tenha atenção. O meu nome é Harry

Beegam.

Os amigos tratam-me por Pug. Não gosto que

me tratem por outros nomes.

Muito bem, pela minha parte, esteja

descansado.

Voltou-se para Helen Franley. Nos seus olhos

brilhavam luzes, pequenas luzes indo e vindo, como se fossem o reflexo do céu num lago de uma montanha quando o vento levanta pequenas ondas.

Se eu soubesse que tu estavas a atraiçoar-me

disse ele, faria...

Tira da cabeça de uma vez para sempre essa

ideia de que és capaz de me assustar e de que sou tua escrava.

Eu vivo a minha vida. Entre nós só existe uma

sociedade, nada mais.

Ah, sim?

Foi isso mesmo que disse.

Pug voltou-se para mim.

Pretendo saber mais alguma coisa acerca

desse seu cliente.

Pode perguntar isso a Bertha Cool. Está

hospedada no Hotel Sal Sagev.

O tal cliente encontra-se cá na cidade? Também terá que perguntar isso a Bertha

Cool.

Parece-me que vou estar bastante interessado

nesse seu cliente.

Se fosse a si não estava, pelo menos depois

daquilo que Kleinsmidt me disse acerca da sua pessoa, disse-lhe eu.

Quem é Kleinsmidt?

O polícia, aquele homenzarrão que me

agarrou quando as coisas deram para o torto.

Como é que aconteceu isso, de você se meter

no sarilho?

Eu não me meti. Entrei no casino e ganhei um

“pote”.

Você não foi tão parvo que tivesse ido fazer

batota numa máquina de moedas de níquel quando as de dez cêntimos e de vinte cêntimos estavam todas preparadas, não é verdade?

Tinha só moedas de níquel por isso as joguei,

respondi-lhe.

Vi que estava a observar-me com uma

expressão intrigada.

Você tirou algum parafuso falso e deixou-o

fora?

Não sei nada acerca de parafusos. Só sei que

meti a moeda na máquina e que não ganhei nada até que apareceram umas quantas laranjas. Na vez seguinte, apanhei um “pote”.

E depois?

Depois apareceu o empregado, e começamos

a discutir.

Continue.

Depois apareceu o gerente, e o polícia. O

polícia era o tenente William Kleinsmidt. Levaram-me para o escritório e viraram-me do avesso.

Encontraram alguma coisa? Uma porção de moedas de níquel e... Você sabe o que eu quero dizer. Arame, broca,

tigelas, ou qualquer outra coisa?

A rapariga interrompeu:

Pug, parece-me que ele está fora disso. Não estejas tão certa, respondeu Pug, sem

tirar os olhos de mim. O que é que eles encontraram?

Encontraram que eu tinha chegado a Las

Vegas algumas horas antes, de avião. Verificaram que há seis meses que não vinha a Las Vegas, que sou um detective particular, que sou empregado de Bertha Cool e que Bertha Cool se encontrava no hotel esperando pelo meu relatório.

Pug olhou para mim cuidadosamente. Não seria melhor que dissesse a verdade? Respondi-lhe:

Kleinsmidt ficou convencido de que eu estava

a contar a verdade.

Deve ser parvo.

E Breckenridge, o gerente, ficou convencido

de que eu estava a dizer a verdade.

Você quer dizer que entrou por ali dentro e

não sabia que as máquinas estavam preparadas?

A mulher que vive aqui ao lado disse-me que

podia encontrar Helen Franley junto das máquinas de moedas no Cactus Patch.

Trocaram olhares. Pug deu um assobio. Como é que ela sabia? perguntou a rapariga. Disse que a tinha visto ali várias vezes, ao

passar na rua.

Gostaria que ela, para quebrar a monotonia,

se ocupasse da sua vida, disse Helen, com um ar feroz. Também lhe disse que Pug estava aqui, neste momento, não disse?

Acenei com a cabeça e respondi: Não era preciso dizer-me. Já sabia que ele

estava no roupeiro.

Não há dúvida que sabia, disse Pug, ironicamente.

A cadeira estava quente. Helen estava a fumar

um cigarro. O seu cigarro encontrava-se no cinzeiro, próximo da outra cadeira, e costuma deixar baton no papel dos cigarros.

O cigarro que estava neste cinzeiro não tinha

baton.

Oh diabo, ele é mesmo detective, disse Pug. Afinal, dizem-me ou não o que pretendo

acerca de Corla Burke?

Não sabemos nada, sinceramente, disse a

rapariga.

Não sabem nada acerca dela? Não, sinceramente. A não ser aquilo que li nos

jornais.

Você leu aquilo que os jornais disseram? - Li.

Nos jornais de Las Vegas ?

Helen olhou para Pug, depois deixou que o

seu olhar se desviasse para outro lado.

Pug disse nessa altura:

O melhor é esquecer tudo. Pode ter a certeza

que não vai fazer-lhe um interrogatório.

Posso ao menos fazer umas perguntas, não

posso?

Não.

Julgo que os jornais de Las Vegas nada

publicaram.

Os jornais de Los Angeles publicaram alguma

coisa, mas não deram grande relevo. O homem com quem Corla ia casar não era uma pessoa tão conhecida que pudesse fazer com que o assunto se tornasse de interesse geral. Foi apenas mais um caso de pessoas desaparecidas.

Muito bem, Helen diz apenas que não sabe

nada desse caso.

À excepção daquilo que leu nos jornais,

salientei.

Pug franziu a testa.

Ouça, amigo, você já foi longe demais,

compreende?

Não. Não estou a compreender nada,

respondi.

Está bem, talvez aconteça alguma coisa que

lhe faça avivar a memória.

Para eu trabalhar, alguém está a pagar. O que é que isso tem que ver com o caso ? Quer dizer que as pessoas que contrataram a

minha agência para encontrar Corla Burke estão dispostas a gastar dinheiro.

Muito bem. Que gastem dinheiro. E, disse eu, se um tribunal de Los Angeles

tivesse a ideia de que existia alguma coisa por detrás do desaparecimento, sem dúvida chamaria testemunhas.

Ótimo. Que chamem testemunhas. A testemunha que prestar declarações perante

o tribunal terá de fazê-lo sob juramento. E as mentiras que disser serão perjúrio, e você sabe bem o que isso quer dizer. Ora, acontece que estou aqui como amigo. Pode dizer-me tudo aquilo que sabe, e eu tentarei encontrar Corla Burke. Poderia deixá-lo a você de fora, se conseguisse algum resultado.

Se você for prestar declarações num tribunal

de Los Angeles, a situação pode ser diferente.

Esqueça isso. Eu não quero aparecer perante

nenhum tribunal.

Acendi um cigarro.

Helen Franley interveio:

Bem, vou dizer-lhe. Eu...

Está calada, disse-lhe Pug.

Cala-te tu. Sei muito bem o que estou a fazer.

Deixa-me contar-lhe.

Estás a falar demais.

Não, não estou. Nem estou a falar o suficiente.

Oiça-me bem, Sr. Lam, eu sou como qualquer outra mulher. Sou curiosa. Pois bem, depois deste Sr. Dearbor... aquele engenheiro que começou a fazer-me perguntas, resolvi-me a descobrir do que é que ele estava a falar, de modo que escrevi a uma pessoa amiga em Los Angeles para conseguir recortes de jornais.

Muito bem, agora está tudo a correr melhor. E

o que diziam os jornais?

Essa pessoa enviou-me os recortes dos jornais

pelo correio.

Mas o que é que você conseguiu saber? Nada que você não saiba. Soube apenas

aquilo que vinha nos jornais.

Eu não li ainda os jornais respondi-lhe.

Comecei a trabalhar no caso há apenas umas horas. Tem consigo os recortes dos jornais?

Estão na gaveta da secretária. E se me deixasse vê-los?

Não pense nisso disse Pug.

Lá começas tu! Não há razão para que o sr.

Lam não veja os recortes dos jornais.

Pôs-se de pé, escapou-se à mão de Pug que

procurava agarrá-la, e, com andar gracioso, desapareceu pela porta do quarto, regressando passados poucos momentos com uns recortes de jornais na mão. Dei-lhes uma vista de olhos.

Tinham sido cortados de um jornal e estavam

presos uns aos outros com um “clip”. Os recortes eram bastante irregulares como se a pessoa que recortara o tivesse feito apressadamente.

Pode emprestarmos por algumas horas?

Perguntei.

De manhã, volto a dar-lhos.

Não, disse Pug.

Voltei a entregar os papéis à rapariga. Não vejo por que razão os não poderá levar,

Pug disse ela.

Escuta-me, filha, nós não vamos auxiliar a lei.

Se essa rapariga fugiu, alguma razão tinha para o fazer. Preocupemo-nos com a nossa vida e escusamos de ter sarilhos.

Pug voltou-se para mim.

Não estou exactamente a ver o que é que quer.

O que é que está a pensar?

No caso da máquina das moedas. Há

qualquer coisa de estranho em tudo isso. Você também não trabalha no ramo?

Abanei a cabeça.

Nem mesmo nas horas de folga? Ouça, quando se trata de máquinas de

moedas, sou autenticamente uma nulidade. Há uma máquina de moedas no Golden Motto, o restaurante onde vou comer, em Los Angeles. A máquina não devia estar lá, mas como se encontra numa das salas de jantar particulares, somente os clientes usuais sabem da sua existência. Bertha Cool fica maluca pela maneira como eu atiro dinheiro fora naquela máquina.

Todas as vezes que vou comer, procuro

moedas de níquel nas algibeiras. Normalmente, apenas perco quinze ou vinte cêntimos. Julgo que nunca ganhei nada naquela máquina, a não ser alguns pequenos pagamentos. Pug afirmou:

É isso mesmo que você está a pedir. As

máquinas que estão nos restaurantes estão todas viciadas. Põem roletes nos discos de modo que conseguirem-se duas cerejas e um sino é quase tão difícil como conseguir um «pote» ou a medalha de ouro.

Outras pessoas conseguem ganhar nela, duas

ou três vezes por semana. A dona do restaurante costuma contar-me como alguns caixeiros viajantes têm muita sorte na máquina.

Ela diz que eles ganham?

Já conseguiram um «pote» três ou quatro

vezes.

Mas você nunca viu?

Não. É a mulher do restaurante que me conta.

De vez em quando vem dizer-me que eles ganharam.

Pug olhou para mim com um ar

condescendente.

Isso é brincadeira de crianças. Provavelmente,

a dona da casa diz aos caixeiros viajantes que há um detective particular que consegue despejar sempre a máquina jogando só entre vinte e cinco cêntimos e meio dólar, saindo sempre cheio de dinheiro.

Helen Franley interrompeu.

Não há dúvida que você é de força. - Porquê?

Pela maneira como enfrenta Pug. A maior

parte das pessoas tem medo dele. Não há dúvida de que te entra em casa, não é verdade Pug?

- O quê?

Este homem que não te liga nenhuma. Estás doida.

Não estava com segunda intenção, Pug. Sim, é melhor que não o pretendas. Helen olhou novamente para mim. Você deve conhecer meio mundo. Sabe o que

eu quero dizer, conhece muitos tipos diferentes.

Nem por isso.

O que é que vai fazer com Corla quando a

encontrar?

Vou falar com ela.

Então vai dizer ao homem que estava para

casar com ela?

Sorri e respondi:

Direi à minha patroa. Ela dirá ao nosso

cliente. O nosso cliente utilizará a informação da maneira que lhe der na gana. Não me importa absolutamente nada o que fará.

O cliente paga a Bertha Cool, e Bertha Cool

paga-me a mim.

E é tudo.

Pug entrou na conversa:

Pois é como eu te digo, minha filha. Toda a

gente neste mundo anda na vida. É preciso agarrar nas coisas onde as encontramos.

Helen sorriu-se para mim.

Pug pensa que me anda a roer a consciência. Por causa do trabalho com as máquinas de

moedas?

Hum, hum.

Esquece isso, filha, disse-lhe Pug. Helen respondeu-lhe:

As máquinas são todas desonestas. As

máquinas roubam o cliente. Porque razão não havemos de roubar as máquinas?

Não é a mesma coisa que roubar, afirmou

Pug.

Trata-se simplesmente de ir buscar um pouco

do capital empatado pelo público... e nós somos o público, não é verdade?

Pelo que diz respeito às máquinas

automáticas, não há dúvida de que somos. Os donos utilizam artimanhas mecânicas para impedirem que as máquinas façam pagamentos, e nós utilizamos artimanhas mecânicas para as fazer pagar.. Ficamos quites.

Penso que o polícia, o tenente Kleinsmidt, lhes

anda a preparar uma armadilha. Ele...

Oh, claro está. Temos de desaparecer. Sempre

me disseram que nunca devia tentar trabalhar em Nevada com toda a protecção que as casas de jogo tem neste Estado, mas tinha que tentar. Na Califórnia, é diferente. Veja, por exemplo, em Calermo Hot Springs. Ali é sempre possível encontrar-se onde jogar. Isso é justamente o pior de tudo. Bom jogo quer dizer concorrência. Recordo-me que uma vez tentei trabalhar numa casa imediatamente depois de uma outra quadrilha lá ter estado. Os donos tinham estado a verificar as máquinas, e quando viram que o roubo era muito pequeno, contrataram alguns detectives particulares para ver o que acontecia, e quem é que o fazia.

Helen Franley riu-se com um certo

nervosismo.

Foi aí que arranjei este meu complexo de

inferioridade com os detectives particulares. Quase nos apanharam. De nada lhes teria servido, disse Pug.

Poderiam ter-nos arranjado um grande

sarilho.

Podiam ter falado, admitiu Pug, mas era tudo. Pois bem, não gosto nada disto, Pug. Era

muito melhor que arranjasses outra coisa.

Oh filha, isto é bom, mesmo muito bom de

dizer.

Casualmente, intervim.

Vou ter que regressar a Los Angeles. Você está a portar-se de um modo muito

estranho, nisto tudo. Não estará você a tentar pescar-nos? Perguntou Pug.

Abanei com a cabeça.

Pug franziu a testa e olhou para mim com

uma expressão de suspeita. Repentinamente, virou-se para Helen.

Vai arranjar as tuas coisas.

O que é que queres dizer?

A expressão de Pug tornou-se hostil. Há a possibilidade deste tipo estar a tentar

empatar-nos enquanto a polícia nos procura. Onde é que tens as moedas?

No meu... tu bem sabes.

Oh, então vai à rua e troca-as. Se a polícia cá

vier, não quero ter uma porção de moedas por aí espalhadas.

E você, camarada, o melhor é ir-se embora.

Como disse, tem muito que fazer.

Gostaria de fazer mais algumas perguntas. Pug levantou-se, aproximou-se de mim e pôs-

me a mão no ombro.

Eu sei que você gostava, mas nós temos que

fazer.

Estamos muito atarefados. Sabe como as

coisas são.

Vê lá, Pug, não o aleijes...

Esquece isso, filha. Junta as moedas e troca-as

em notas.

Este tipo vai-se embora imediatamente, e tu

tens que fazer.

Os olhos de Helen estudaram Pug por uns

momentos, depois dirigiram-se para mim. Sorriu-se, aproximou-se, e estendeu-me a mão.

Você é um tipo às direitas. Gosto de homens

da sua força. Não há dúvida que você tem garra.

Vai-te embora. Entra lá no quarto e junta as

moedas cortou Pug.

Cá vou.

Pug levou-me em direcção à porta. Adeus, disse eu a Helene obrigado. Onde é

que poderei encontrá-la, se quiser entrar em contacto consigo?

Foi Pug que respondeu à pergunta, e a sua

expressão era bastante fria.

Isso, meu caro, era o que eu estava para lhe

dizer depois de sair, mas assim como assim posso dizer-lho já.

Não pode.

Não pode, o quê?

Não pode vê-la.

Porquê?

Por duas razões. A primeira é porque você

não saberá onde ela está, e a segunda é porque eu não quero. Está a ver?

Helen interveio:

Pug, não te ponhas assim.

Vamos embora, disse Pug e agarrou-me por

um cotovelo.

Empurrou-me com gentileza, mas com

insistência.

Por cima do ombro, disse para ela: Vai lá para o quarto e despacha-te. Pug abriu a porta.

Adeus, meu caro. Tive prazer em conhecê-lo,

mas não torne a aparecer. Adeus.

A porta fechou-se.

Olhei para a porta da casa do lado e vi uma

pequena frecha de luz por baixo da porta.

Nas pontas dos pés desci as escadas. Segui ao longo do passeio e meti-me no vão

de uma escada, a observar a rua, e esperei. As luzes já estavam acesas.

Passado um bocado, vi Helen Franley

caminhando pelo passeio, com um pequeno embrulho que chamaria a atenção em qualquer parte.

Segui atrás da rapariga.

Esta entrou num dos casinos, e começou a

jogar na roda da sorte, o tempo suficiente para se tornar familiar para os outros jogadores. Depois foi até à caixa, abriu a mala, tirou uma porção de moedas de níquel e outras moedas, e trocou-as em notas. Saiu, atravessou a rua, entrou noutro casino e repetiu a operação.

Quando saiu da segunda vez, estava à espera

dela.

- Olá.

Nos seus olhos, notei uma ligeira expressão

de medo.

O que é que você está a fazer aqui ? Estou aqui.

Pois bem, não devem vê-lo a falar comigo. Porque não? Tenho uma porção de perguntas

que gostava de lhe fazer em particular.

Não, não, por favor, você não pode. Porque não?

Olhou à sua volta compreensivamente. Não compreende? Pug é muito ciumento.

Tive um trabalhão dos diabos depois de você sair. Ele pensa que eu... pensa que eu fui demasiado gentil para consigo, que estava a tentar protegê-lo. Caminhei a seu lado.

Não faz mal. Caminhamos pela rua abaixo e... Não, não, por aqui não. Olhe, vá por ali e vire

à direita naquela esquina. Entre naquela rua mais escura. Meu Deus, era melhor que não se expusesse dessa maneira.

Você escreveu uma carta a Corla Burke. Por

que é que o fez e o que é que dizia?

Mas, eu nunca lhe escrevi.

Tem a certeza?

Tenho.

Não lhe enviou uma carta uns dias antes de

desaparecer?

- Não.

Corla era loura. Na minha opinião penso que

não era daquele tipo de fazer as coisas só por impulso. Quer ver a fotografia dela?

Oh, sim. Tem alguma consigo? Levei-a até junto de uma porta que estava

iluminada e tirei as fotografias da algibeira. Estavam um pouco machucadas por causa da cena que tivera com o empregado do “Cactus Patch”.

Está a ver? Tem o aspecto de ter reflexos

rápidos, mas no fundo é uma pensadora.

Como é que sabe isso?

Pela expressão da cara.

Como eu gostava de saber essas coisas, disse

Helen.

Você sabe. Inconscientemente toda a gente

procura adivinhar o carácter de uma pessoa assim que a conhece.

Talvez conheça alguém com narinas finas e... Pois é, mas metade das vezes engano-me.

Oh, se soubesse as vezes que tenho sido enganada, só porque me abri completamente. Olho para as pessoas, e das duas uma: ou gosto delas ou não gosto. Se gosto delas, entrego-me completamente. Ora diga-me... você chama-se Donald, não é?

É verdade.

OK. Agora oiça, Donald, temos que acabar

com isto.

Pug torna-se perigoso quando está com os

ciúmes, e esta noite tenho a certeza de que está nessa fase. Pela maneira como se portou quando saí, é quase certo que começa a sentir-se inquieto e procurou seguir-me. Esse é o defeito de Pug.

Não consegue ter calma. Quando se enerva,

fica completamente fora de si.

Onde é que posso entrar em contacto consigo,

Helen?

Não pode.

Não haverá uma maneira de a ver, alguma

pessoa amiga para quem possa escrever...

Helen abanava com a cabeça. Dei-lhe um dos meus cartões de visita. Olhe, a minha morada é esta. Pense no

assunto e veja se consegue arranjar alguma maneira de me manter em contacto consigo. Algum sítio onde possa ir ter consigo no caso de ser importante ouvir as suas declarações.

Não quero fazer quaisquer declarações. Pode confiar em mim. Se tratar lealmente

comigo, pode ter a certeza que serei leal para consigo.

Helen meteu o meu cartão na mala.

Vou pensar nisso, Donald. Talvez lhe envie

um cartão, a dizer-lhe onde é que poderá encontrar-me.

Faz isso, não faz?

Talvez... Donald, posso dizer-lhe uma coisa...

e você não se zanga?

Porquê ?

Lá em cima não lhe estava a dizer toda a

verdade.

Pensei isso mesmo.

Ouça, vamos para um sítio onde possamos

falar, pois Pug é capaz de aparecer, não tarda nada.

Na sala do hotel ou...

Não, não, um sítio aqui perto. Olhe, venha

para aqui...

Agora escute, Donald. Gostava de saber

exactamente por que é que pensou que eu estava a mentir.

Pensei. Além disso tenho provas de que

enviou uma carta a Corla Burke.

Eu não menti. Simplesmente não lhe disse

toda a verdade.

Vou ser franca consigo. Quis sê-lo, lá em cima,

mas não pude por causa de Pug. Não sabia o que havia de fazer.

Finalmente decidi que se você tivesse a

coragem de esperar por mim quando saísse, lhe diria... talvez.

- O que é?

Corla escreveu-me.

Ora bem. Quando?

Um dia antes de ter desaparecido, suponho. E você tinha-lhe escrito?

Não, não tinha. Acredite sinceramente. Nunca

a vi na minha vida. Nada sabia acerca dela.

Continue.

Bem, praticamente é só isto. A carta foi-me

entregue.

Era dirigida a Helen Franley, Posta Restante,

Las Vegas.

Por acaso os correios repararam na carta,

sabiam que eu tinha uma casa e mudaram a morada de modo que me foi entregue.

Estava acesa uma luz num armazém, numa

transversal.

Iluminava o suficiente para se poderem ver as

coisas, mais ou menos claramente. Fi-la parar defronte da montra.

Deixe vê-la.

Se Pug alguma vez soubesse... Mas o que é que ele tem que ver com isto? Na verdade, irritou-se, nada. Disse-lhe no

princípio que éramos apenas sócios. Mas ele tem uns ciúmes loucos.

Evidentemente, quer sempre mais... e depois

odeia a polícia.

Diz ele que é evidente que havia uma outra

Helen Franley em Las Vegas, possivelmente de passagem, e que eu recebi uma carta que era dirigida à outra. Confesso que não sei.

Não sou capaz de perceber as coisas, mas Pug

diz que não devo correr riscos.

A carta.

Você promete que não...

Depressa. Você não tem a noite toda. E eu

também não.

Deixe vê-la.

Helen abriu a mala, tirou um sobrescrito e

entregou-mo.

Meti-o na algibeira.

Não, não, não faça isso. Preciso da carta. Pug

pergunta-me por ela logo que entrar. Quer queimá-la.

Quero levar a carta para um sítio onde possa

lê-la e estudá-la à procura de uma pista.

Donald, você não pode fazer isso. Dê-lhe só

uma vista de olhos. Eu posso dizer-lhe o que é que a carta diz. Eu... oh, meu Deus!

Olhei, seguindo a direção dos seus olhos

espantados.

Pug encontrava-se à esquina da rua principal,

olhando para baixo e para cima.

Helen agarrou-me no braço.

Depressa. Para aqui...

Pug voltou-se, olhou para a transversal, viu-

nos, deu um passo duvidoso em frente como se procurasse ver-nos melhor, e depois dirigiu-se rapidamente para nós.

Que havemos de fazer? perguntou ela.

Fuja você. Eu fico. Corra até àquela esquina,

que eu tentarei demorá-lo...

Não, Donald, não faça isso. Pug é muito

perigoso.

É meio-doido. E...

Agarrei-lhe no braço e dirigimo-nos ao

encontro de Pug.

Não podia ver-lhe distintamente a cara. A rua

estava mal iluminada e a sua expressão não se podia adivinhar. Um automóvel dobrou nesse momento a esquina atrás de nós.

Os faróis iluminaram a cara de Pug com um

clarão vivo e duro.

A sua expressão era de intenso ódio. Helen Franley viu aquela expressão e tentou

virar-se, levando-me atrás.

Pug não disse uma palavra. Tinha os olhos

fixos em mim.

Estendeu o braço direito, agarrou a rapariga

pelo pescoço e deu-lhe um empurrão atirando-a de encontro à parede.

Procurei acertar-lhe um soco no queixo. Ou fosse por a rua estar mal iluminada e ele

não ver o meu movimento, ou porque o seu ódio era tão intenso que nem via o que eu fazia, ou simplesmente porque desdenhou das minhas possibilidades, não procurou defender a cara com as mãos ou esquivar-se. O meu murro acertou-lhe no queixo. Inconscientemente, lembrei-me do que Louie me tinha dito, para empregar o balanço do corpo ao dar um murro. O choque do meu punho com o seu queixo foi tão violento que até pensei que tivesse partido o braço.

Mas, a cabeça dele nem sequer se mexeu. Foi

como se tivesse dado um murro numa parede de cimento.

Traidor, malandro...praguejou Pug, ao mesmo

tempo que um murro me assentava no queixo.

Fora dado com a esquerda. A violência fez

com que me desequilibrasse. Sabia, no entanto, que a direita vinha a seguir. Por isso tentei desviar-me, o que fez com que tropeçasse. O tropeçar salvou-me, porém, a cara, pois que a sua mão direita apanhou-me pelo ombro, atirando-me ao chão, para a sarjeta.

O automóvel aproximou-se de nós. Os faróis

cegavam-nos.

Cheguei a julgar que o carro ia atropelar-me.

Levantei-me e vi que Pug vinha na minha direcção, sem pressa, mas com uma expressão de ódio malévolo e incisivo. O automóvel já tinha parado. Ouvi uma porta bater e passos atrás de mim. Ouviu-se uma voz:

Não faça isso.

Pug não ligou importância à voz. Os seus

olhos estavam somente fixados em mim.

Pareceu-me ver uma aberta na guarda de Pug

e atirei-me contra ele.

Um grande corpanzil entrepôs-se entre mim e

Pug. Ouvi o som peculiar de um punho fechado ao bater contra outro corpo e depois vi um homenzarrão e Pug, agarrados um ao outro, começarem a andar às voltas. O ombro do homenzarrão chocou comigo atirando-me para um lado. Antes de eu conseguir voltar, Pug tinha-se desenvencilhado. Vi os seus ombros balouçarem ligeiramente e depois o outro homem voltou a meter-se ao meio, entre mim e Pug.

Novamente um som cavo, mas mais

profundo, e o homenzarrão veio de roldão para trás e ao cair levou-me debaixo.

Ouvi berros. Uma mulher gritava. Também

ouvi passos, correndo na nossa direcção.

Alguém se inclinou sobre nós. Fazia todos os

esforços para me libertar daquele peso. Os faróis do automóvel mostraram-me a cara de Pug, com uma expressão feroz, inclinado sobre mim. Empurrou o corpo inerte do homem para um lado, como se não pesasse nada. Abaixou-se. A sua mão direita agarrou-me pela camisa junto ao pescoço. Começou a içar-me.

Alguém estava atrás do meu adversário. Vi

um “casse-tête” fazendo uma curva no ar e ouvi o som que fez ao bater na cabeça de Pug. À mão que me agarrava pela camisa largou-me. Caí para trás de encontro ao guarda-lama do carro.

Quando consegui endireitar-me, havia uma

enorme actividade entre as pessoas que me rodeavam. Ouvi grunhidos e outra pancada, depois o som de passos a correr, desta vez afastando-se.

O homenzarrão que caíra por cima de mim

procurava pôr-se de joelhos. A sua mão direita foi até à algibeira de trás, das calças, e vi aço azul a brilhar, reflectido pelos faróis do automóvel. Consegui ver o perfil do homem quando levantou a pistola e virou a cabeça. Era o tenente Kleinsmidt.

Um homem saiu de junto do aglomerado de

pessoas.

Está tudo bem, Bill? perguntou. Kleinsmidt respondeu com voz pastosa: Onde é que ele está?

Fugiu. Acertei-lhe em cheio com o «casse-

tête», mas isso não o fez parar.

Kleinsmidt conseguiu pôr-se de pé. Eu estava em cima do guarda-lama do carro.

Tive que segurar-me a este para conseguir levantar-me. Kleinsmidt agarrou-me, virou-me bruscamente, e depois exclamou:

- Oh!

Desculpe, tenente, e acrescentei inspirado:

Tentei agarrá-lo para si.

Não há dúvida que você tem coragem,

afirmou, e ao mesmo tempo esfregou o queixo.

Para que é que tu querias apanhá-lo, Bill?

Perguntou o homem que tinha o “casse-tête”.

É uma quadrilha que opera nas máquinas de

moedas respondeu Kleinsmidt, e depois acrescentou como se tivesse tido um segundo pensamento: Resistência à autoridade.

Bem, conseguimos com certeza apanhá-lo.

Kleinsmidt virou-se para mim: Sabe onde é que ele vive?

Sacudi a sujidade e a poeira que me cobriam.- Não.

Que caminho é que ele tomou? perguntou

Kleinsmidt.

Meia dúzia de pessoas ofereceram-se

imediatamente dando informações. Kleinsmidt olhou por uns momentos para a parte detrás do automóvel, como se hesitasse, depois foi-se embora a pé, acompanhado pelo outro homem. O pequeno ajuntamento de pessoas foi atrás deles para assistir ao resto.

Coxeando, afastei-me nas trevas. Sete horas, e

Bertha estava com certeza à minha espera.