Joseph Anton: Memórias
6. Por que é impossível fotografar os pampas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Na m anhã seguinte à sua volta para Oslo, vindo da Feira de Livro de Frankfurt, William Ny gaard ia sair para trabalhar quando viu que seu carro estava com um dos pneus traseiros vazio. Ele não sabia que o pneu tinha sido rasgado por um pistoleiro, que estava escondido nos arbustos atrás do carro. O pistoleiro calculara que William iria na direção dele para abrir o porta-m alas e pegar o estepe, e um a vez nessa posição seria com o caçar um pato. Mas William era chefe de um a grande em presa editorial e não tinha nenhum a intenção de trocar o pneu. Pegou o telefone e cham ou o serviço de atendim ento. Isso colocou um problem a para o pistoleiro: devia sair do esconderij o e se revelar para ter um a boa visão do alvo, ou devia atirar de onde estava, m esm o que William não estivesse onde ele queria que estivesse? Ele resolveu atirar. William foi atingido por três proj éteis e caiu no chão. Um grupo de m eninos de treze anos viu um hom em “m oreno, com pele ruim ” correndo, m as o pistoleiro não foi preso.
Se William não fosse um hom em atlético, quase com certeza teria m orrido. Mas o ex-ás do esqui perm anecera em form a e isso salvou sua vida. O m ais extraordinário foi que, assim que William saiu da unidade de tratam ento intensivo, os m édicos puderam dizer que ele ficaria plenam ente recuperado. As traj etórias das balas através de seu corpo, disseram , as únicas que elas podiam ter feito sem m atá-lo ou deixá-lo paralítico. William Ny gaard, um grande editor, era tam bém um hom em de sorte.
Quando ele ficou sabendo que William tinha sido alvej ado, teve certeza de que seu am igo recebera as balas destinadas a ele. Lem brou-se do orgulho do editor no dia da festa ao ar livre da Aschehoug, um ano antes. A m ão de William em seu om bro, enquanto o conduzia por entre a m ultidão surpresa, apresentando-o a este rom ancista, àquela cantora de ópera, a um m agnata dos negócios aqui, a um a figura política ali. Um gesto de liberdade, William tinha dito, e agora ele estava às portas da m orte por causa disso. Mas, graças à sua decisão de não trocar o pneu m urcho, e depois ao m ilagre das traj etórias das balas, ele sobreviveu. Chegou o dia em que o editor ferido estava bastante bom para falar brevem ente ao telefone. Seu colega Halfdan Freihow, da Aschehoug, ligou para Carm el e disse que William estava ansioso para falar com Salm an e que ele podia ligar para o hospital. Sim, claro. Um enferm eiro atendeu o telefone e alertou que a voz de William estava m uito fraca. Então, este foi posto ao telefone e m esm o depois do alerta foi um choque ouvir com o ele soava debilitado; respirava com dificuldade, seu inglês im pecável cheio de erros, sofrim ento em cada sílaba.
De início, ele nem entendera que tinha sido alvej ado, perm anecera consciente até a polícia chegar e dera aos guardas o núm ero de telefone de seu filho. “Gritei com o um diabo”, ele disse, “rolei e rolei pela pequena ladeira e foi isso que m e salvou, acho, porque estava fora da visão dele.” Teria de ficar um longo tem po no hospital, m as, ofegou, um a recuperação com pleta era possível, sim . “Os tiros erraram todos os órgãos.” Depois, disse: “Só quero que você saiba que estou realm ente orgulhoso de ser o editor de Os versos satânicos, de ser parte desse caso. Talvez agora eu tenha de viver um pouco com o você, a m enos que peguem o hom em ”. Desculpe, William, tenho de lhe dizer que me sinto responsável... William interrom peu as desculpas e disse, debilm ente: “Não diga isso. Não está certo você dizer isso”. Mas como eu posso não sentir que... “Sabe, Salm an, sou adulto e, quando concordei em publicar Os versos satânicos, entendi que haveria riscos, e assum i esses riscos. O erro não é seu. A pessoa a ser culpada é quem puxou o gatilho da arm a.” É, mas... “Mais um a coisa”, disse Wiliam . “Acabei de encom endar um a grande reim pressão.” Bênção sob pressão, Hem ingway dizia. Coragem verdadeira aliada a altos princípios. Um a união que nenhum a bala conseguiria destruir. E as balas tinham sido m uito m alditas, calibre 44, ponta oca, destinadas a m atar.
A im prensa escandinava ficou em pé de guerra por causa dos tiros em Ny gaard. A associação dos editores noruegueses exigiu saber qual seria a resposta do governo norueguês ao Irã. E um ex-em baixador iraniano que havia passado para o grupo de oposição Muj ahidin-e Khalq ou pm oi (People’s Moj ahedin Organization of Iran [Organização dos Muj ahidin do Povo do Irã]) anunciou que havia revelado à polícia norueguesa quatro m eses antes que estavam planej ando um ataque contra William .
Os governos nórdicos ficaram furiosos, m as os tiros assustaram as pessoas. O Ministério da Cultura holandês planej ava convidá-lo para ir a Am sterdam , m as estava recuando, assim com o a com panhia aérea Roy al Dutch. O Conselho da Europa, que m eses antes havia concordado com um a reunião, cancelou o com prom isso. Gabi Gleichm ann, que estava liderando a “cam panha Rushdie” na Suécia — em bora ela e Carm el Bedford estivessem constantem ente em desacordo —, recebeu proteção policial. Na Grã-Bretanha, os ataques ad hominem continuaram . Um artigo n o Evening Standard cham ou-o de “presunçoso” e “louco”, zom bou dele por desej ar tanta atenção e escarneceu dele dizendo que não valia a pena por ter se conduzido tão m al. A estação de rádio londrina lbc estava fazendo um a enquete que perguntava ao público britânico “se devem os continuar apoiando Rushdie”, e no j ornal The Telegraph foi publicada um a entrevista com Marianne Wiggins, em que ela cham ava seu ex-m arido de “tristonho, tolo, covarde, vaidoso, farsesco, m oralm ente am bíguo”. Clive Bradley, da British Publishers Association, disse que Trevor Glover, da Penguin no Reino Unido, estava im pedindo um a declaração sobre William . Ele telefonou para Glover, que de início fingiu que não tinha feito isso, achara que era “só um a conversa casual”, m as “nossa, estam os todos um pouco nervosos agora, será que devíam os fazer barulho público?”, depois finalm ente concordou em telefonar para Bradley e suspender o veto da Penguin.
Ele recebeu um a carta am eaçadora, a prim eira em m uito tem po, alertando que sua “hora está chegando” porque “Alá tudo viu”. A carta estava assinada por D. Ali, da “Liga Antirracista do Partido dos Trabalhadores Socialista de Manchester”. Ele dizia que seus associados estavam vigiando todos os aeroportos e que tinham gente em todos os bairros — “Liverpool, Bradford, Ham pstead, Kensington” —, e, com o a escuridão do inverno era “m elhor para fazer o trabalho”, ele logo estaria de “volta ao Irã”.
Houve um a noitada no apartam ento de Isabel Fonseca, com Martin Am is, Jam es Fenton e Darry l Pinckney , e Martin o deixou deprim ido ao contar que George Steiner achava que ele tinha “com eçado um a grande confusão”, que o pai de Martin, Kingsley Am is, dissera que, “se alguém parte para a confusão, não pode reclam ar quando a consegue”, e que Al Alvarez afirm ara que ele tinha “feito isso porque queria ser o escritor m ais fam oso do m undo”. Para Germ aine Greer, ele era um “m egalom aníaco”, John le Carré o havia cham ado de “bobo” e Elizabeth Jane Howard, ex-m adrasta de Martin, e Sy bille Bedford achavam que ele tinha “feito aquilo para ganhar dinheiro”. Seus am igos ridicularizavam essas afirm ações, m as no fim da noite ele se sentiu aborrecido e só o am or de Elizabeth o resgatou. Talvez devessem se casar, ele escreveu em seu diário. Quem poderia am á-lo m ais, ser m ais valente, m ais doce e dar m ais de si m esm a? Ela havia se com prom etido com ele e m erecia o m esm o de volta. Em casa, com em oraram seu prim eiro ano na Bishop’s Avenue, 9, passaram um a noite deliciosa e ele se sentiu m elhor.
Em sua atm osfera beckettiana, curvado em seu estúdio de m adeira, ele era um hom em perdido em um vazio ridículo: Didi e Gogo ao m esm o tem po j ogando contra o desespero. Não, ele era a antítese dos dois; eles esperavam Godot, enquanto ele esperava por algo que esperava não viesse nunca. Quase todos os dias havia m om entos em que ele deixava pender os om bros, depois os erguia de novo. Com ia dem ais, parou de fum ar, ofegava, discutia com o vazio, esfregando os punhos nas têm poras, sem pre pensando, pensando com o um fogo, com o se pensar pudesse queim ar seus m ales. Quase todos os dias eram assim : um a luta contra a desesperança, m uitas vezes perdida, m as nunca perdida para sem pre. “Dentro de nós”, José Saram ago escrevera, “existe algo que não tem nom e. Esse algo é o que nós som os.” Esse algo que não tinha nom e dentro dele sem pre vinha em seu socorro no final. Ele rilhava os dentes, balançava a cabeça para clarear as ideias e ordenava a si m esm o seguir em frente.
William Ny gaard deu seus prim eiros passos. Halfdan Freihow disse que William tinha resolvido se m udar de casa por causa do “perigo nos arbustos” que o im pediria de “dar um a m ij ada no j ardim tarde da noite”. Estavam procurando um apartam ento num prédio de alta segurança para ele m orar. O pistoleiro não foi encontrado. O editor dinam arquês do rom ance, Johannes Riis, disse que as coisas estavam tranquilas na Dinam arca e que ele tinha “a vantagem de um a esposa calm a”. Ele pensava no perigo com o algo com parável a atravessar um a rua, disse, e seu autor, ao ouvir isso, ficou m ais um a vez hum ilhado em presença da coragem verdadeira. “Estou furioso”, Johannes acrescentou, “por um a obscenidade dessas continuar fazendo parte do sistem a em que vivem os.”
Na prim eira reunião do cham ado “Parlam ento Internacional de Escritores” em Estrasburgo, ele ficou preocupado com o nom e, porque os m em bros não eram eleitos, m as os franceses deram de om bros e disseram que na França un parlement era apenas um lugar onde as pessoas falavam . Ele insistiu que a declaração que estavam elaborando contra o terror islâm ico fizesse referência a Tahar Dj aout, Farag Fouda, Aziz Nesin, Ugur Mum cu e à recém -com batida escritora de Bangladesh Taslim a Nasrin, além de a ele próprio. Susan Sontag entrou em cena, abraçou-o e falou apaixonadam ente em francês fluente, cham ando-o de un grand écrivain que representava a cultura secularista crucial que os extrem istas islâm icos queriam suprim ir. A prefeita de Estrasburgo, Catherine Trautm ann, queria lhe dar a liberdade da cidade. Catherine Lalum ière, do Conselho da Europa, prom eteu que este assum iria sua causa. Nessa noite, houve um a festa para os escritores visitantes e ele foi abordado por um a m ulher iraniana loucam ente apaixonada, “Hélène Kafi”, que o censurou por não abraçar a causa do Muj ahidin-e Khalq. “Não quero ser agressiva, Salm an Rushdie, m as je suis un peu deçu de vous, você devia saber quem são seus am igos de verdade.” No dia seguinte, a m ulher declarou à im prensa que ela, e através dela a pm oi, tinha aderido ao “com itê Rushdie” francês e que isso fora a causa das granadas atiradas na em baixada da França e nos escritórios da Air France em Teerã. (Na verdade, a causa foi a decisão da França de dar asilo à líder da pm oi, Mary am Raj avi, e não tinham nada a ver com o “caso Rushdie”.)
Ele sentou-se num sofazinho verm elho com Toni Morrison, que acabara de ganhar o Prêm io Nobel, e Sontag, que exclam ou: “Meu Deus, estou sentada entre os dois escritores m ais fam osos do m undo!” — diante do que am bos, ele e Toni, com eçaram a garantir que o dia dela em Estocolm o certam ente chegaria logo. Susan perguntou o que ele estava escrevendo. Ela havia indicado com exatidão a coisa que m ais o preocupava. Para conduzir a cam panha contra a fatwa, praticam ente tivera de deixar de ser um escritor ativo. Esse era o efeito anulador de se envolver em política. Sua cabeça estava cheia de linhas aéreas, m inistros, queij o feta e ele se afastara dos doces recessos da m ente onde ronda a ficção. Seu rom ance estava em pacado. Essa cam panha, que as pessoas diziam que estava indo tão bem , seria de fato um j eito de dim inuí-lo aos olhos do m undo e de si m esm o? Ele estava efetivam ente aj udando a se transform ar em nada m ais que um a caricatura plana, bidim ensional, no centro do “caso Rushdie”, abdicando de sua pretensão à arte? Ele tinha ido de Salman para Rushdie para Joseph Anton e agora talvez estivesse se transform ando em ninguém . Era um lobista fazendo lobby por um espaço vazio que não continha m ais um hom em .
Ele disse a Susan: “Fiz um voto de no próxim o ano ficar em casa e escrever”.
Para atingir o ápice — um encontro com o presidente — era preciso abordá-lo de m uitas direções ao m esm o tem po. A abordagem do m onte Clinton tinha sido feita por ele pessoalm ente, pelo com itê de defesa Rushdie e pela Artigo 19, pelo em baixador britânico em Washington em nom e do governo britânico, pelo pen Am erican Center. Ary eh Neier, da Hum an Rights Watch, Nick Veliotes, da Association of Am erican Publishers, e Scott Arm strong, do Freedom Forum , estavam entre as pessoas que trabalhavam pelo encontro. Além disso, Christopher Hitchens insistia com seus contatos na Casa Branca para fazer com que ele acontecesse. Christopher não era adm irador de Bill Clinton, m as tinha am izade com o conselheiro m ais próxim o do presidente, George Stephanopoulos, e falou com ele diversas vezes. Parecia que o pessoal de Clinton estava dividido entre aqueles que lhe diziam que a fatwa não era um a questão am ericana e aqueles que, com o Stephanopoulos, queriam que ele fizesse o que era certo.
Dois dias depois de sua volta a Londres, veio o “sinal verde de Washington”. Prim eiro, disseram a Nick Veliotes que o presidente não estaria no encontro. Este aconteceria com o conselheiro de Segurança Nacional, Anthony Lake, com um a “passada” do vice-presidente Gore. Na em baixada dos Estados Unidos, em Grosvernor Square, seu contato Larry Robinson confirm ou que seria um encontro com Lake e Gore. Ele receberia proteção de “porta a porta”, isto é, do avião até o Massachusetts Institute of Technology (onde seria hom enageado: Alan Lightm an, autor de Sonhos de Einstein, professor do m it, havia lhe telefonado oferecendo um título de professor honorário), do m it para Washington, e de Washington até deixar o país novam ente. Dois dias depois, disseram a Frances que Gore estaria no Extrem o Oriente e Lake talvez não estivesse disponível, de form a que a reunião aconteceria com o secretário de Estado, Warren Christopher, e com o “núm ero dois” de Lake. O encontro com Warren Christopher teria lugar no Treaty Room , com a presença de fotógrafos. Ele falou com Christopher Hitchens, que tem ia que esse fosse um caso de Clinton “dar um a passada”. Nessa noite, o acordo foi m udado outra vez. O encontro seria com Anthony Lake e Warren Christopher e o secretário assistente do Departam ento de Estado para a dem ocracia, direitos hum anos e trabalhistas, John Shattuck. A presença do presidente “não estava confirm ada”. A reunião seria na véspera do dia de Ação de
Graças e o presidente tinha m uita coisa a fazer. Tinha de “perdoar um peru”.c Talvez não tivesse tem po de aj udar um rom ancista tam bém .
No aeroporto j fk havia oito carros esperando, em vez dos discretos três que tinham prom etido. O encarregado, Jim Tandy, era um grande progresso em relação ao tenente Bob, de fala m ansa e atencioso, um hom em alto, m agro, de bigode, com olhos grandes e rosto sério. Ele foi levado prim eiro ao apartam ento de Andrew, onde a polícia estava fazendo de sua chegada um grande acontecim ento, im pedindo até m esm o outros m oradores do prédio de usarem os elevadores. Isso seria bem recebido, ele pensou. Ele seria o dr. Ren, um diplom ata paquistanês, m as ninguém acreditou nisso.
Dentro do apartam ento de Andrew, havia am igos para saudá-lo. Norm an Mailer desej ou-lhe sorte e Norris Mailer disse: “Se encontrar com Bill, diga que m ando um abraço”. Na j uventude, ela havia trabalhado na cam panha de Clinton quando era candidato a governador do Arkansas. “Cheguei a conhecê-lo m uito bem ”, disse ela. Tudo bem , ele respondeu polidam ente a Norris, eu digo para ele. “Não”, ela disse, pondo a m ão elegante sobre seu braço com o Margaret Thatcher em seu m om ento m ais sensível. “Você não está entendendo. Estou dizendo que cheguei a conhecê-lo muito bem.” Ah. Certo. Claro, Norris. Nesse caso, com toda certeza vou m andar seu abraço.
Paul Auster e Siri Hustvedt foram m uito afetuosos; foi o com eço do que viria a ser um a am izade m uito próxim a. Don DeLillo estava lá tam bém . Vinha trabalhando em um livro “im enso e m uito vasto”, disse. Iria se cham ar Submundo. “Eu entendo um pouco de subm undos”, ele respondeu. Paul e Don queriam produzir um folheto com um texto sobre a fatwa, para ser inserido em cada livro vendido nos Estados Unidos no dia 14 de fevereiro de 1994, m as disseram que o custo de produção seria de 20 m il dólares, o que tornava a ideia im praticável. Peter Carey chegou e disse, com seu costum eiro tom de hum or ácido: “Oi, Salm an, você está horrível”. Susan Sontag, que havia concordado em ser sua “cobertura” no m it, estava ansiosa para pôr em prática a tram a. David Rieff, filho dela, estava cheio de tristeza pela Bósnia. Annie Leibovitz falou um pouco de suas fotos da Bósnia, m as pareceu estranham ente relutante em se m ostrar na presença de Susan. Sonny e Gita Mehta chegaram e Gita estava com um aspecto doentio e abatido. Disseram que ela estava bem agora, recuperando-se do câncer, e ele esperava que fosse verdade. E de repente Andrew disse: “Ah, m eu Deus, esqueci de convidar Edward Said”. Aquilo era m uito grave. Com certeza, Edward ia se ofender.
Ele e Elizabeth dorm iram na casa de Andrew e quando acordaram viram um a fila de lim usines pretas paradas na rua, além de um a grande e nada sutil van azul com o letreiro esquadrão de bom bas. Em seguida, fizeram a viagem de carro até Concord, Massachusetts, onde seriam recebidos por Alan e Jean Lightm an. Alan levou-os para um a cam inhada em torno do lago Walden e, quando chegaram às ruínas da cabana de Thoreau, ele disse a Alan que, se algum dia escrevesse sobre aquela viagem , a cham aria de “Da cabana de troncos à Casa Branca”. A cabana ficava decepcionantem ente próxim a da cidade e Thoreau poderia facilm ente sair para tom ar um a cervej a se quisesse. Não era exatam ente um retiro na selva.
Na m anhã seguinte, ele foi levado a um hotel em Boston e Jean Lightm an levou Elizabeth para conhecer a cidade. Andrew e ele ficaram ao telefone para ver que progresso tinha havido ou poderia haver. Ficou claro que Frances e Carm el discordavam de Scott Arm strong, em bora Christopher Hitchens estivesse a seu favor. Dentro da Casa Branca, Hitch acrescentou, Stephanopoulos e Shattuck estavam do seu lado e tentando convencer o presidente, m as não havia nada definido a revelar. Um funcionário, Tom Robertson, apareceu para dizer que a reunião tinha sido atrasada em m eia hora, passando das 11h30 para o m eio-dia. O que isso significava? Significava algum a coisa? Scott e Hitch disseram depois que a m udança de horário ocorrera im ediatam ente depois de George Stephanopoulos e outros conversarem com o responsável pela agenda do presidente... de form a que... talvez. Dedos cruzados.
À tarde, ele foi com Andrew Wy lie ver a casa de infância deste. A nova proprietária, um a senhora de uns cinquenta anos com um grande sorriso, cham ada Nancy, olhou a fila de carros e perguntou: “Quem é toda essa gente lá fora?”. Depois, disse “Ah” e perguntou se ele era quem parecia ser. De início, ele disse: “Não, infelizm ente”, e ela replicou: “Você quer dizer ‘felizm ente’. Aquele coitado não deve levar um a vida m uito boa, não é?”. Mas a m ulher tinha todos os seus livros, então ele se revelou, ela ficou em ocionada e quis que ele os autografasse. A casa evocava m uitas m em órias a Andrew porque grande parte dela, até m esm o o papel de parede do andar de cim a, continuava com o fora trinta anos antes, e as letras AW ainda estavam gravadas na m adeira das estantes da biblioteca, e na m oldura de um a porta ainda havia a m arca de um m etro de altura de Andy Wy lie, com seu nom e.
Jantaram no m it, recebidos pelo incrivelm ente estrábico diretor, e chegou a hora do Evento. Ele nunca havia recebido nenhum título honorário antes, então estava um pouco nervoso por se tornar um professor honorário. Disseram -lhe que o m it não gostava de outorgar doutorados honorários, e só um a vez em sua história havia outorgado um título de professor honorário. Essa pessoa era Winston Churchill. “Ilustre com panhia para um escritor, Rushdie”, ele disse a si m esm o. O Evento estava anunciado com o um a noite com Susan Sontag, m as, quando Susan se levantou para falar, disse à plateia que ela só estava ali para apresentar um outro escritor cuj o nom e não podia ser anunciado com antecedência. Ela então falou a respeito dele com carinho e descreveu seu trabalho com palavras que significaram m ais para ele do que o título de professor. Finalm ente, ele entrou no palco da palestra por um a portinha nos fundos. Falou brevem ente, depois leu trechos de Os filhos da meia-noite e a história de “Colom bo e Isabel”. Em seguida, ele e Elizabeth foram levados em bora e houve um voo para Washington tarde da noite. Chegaram em estado de algum a exaustão ao apartam ento dos Hitchens, um pouco depois da m eia-noite. Ele
conheceu Laura Antonia, a filha de Hitch e Carol, e foi convidado a ser seu padrinho secular.d Ele aceitou de im ediato. Com ele e Martin Am is com o m entores não religiosos, ele pensou, a m enininha não tinha a m enor chance. Ele estava com a garganta irritada e um dente áspero que lhe cortava a língua. A últim a notícia de Clinton não era m ais que um talvez. Hitch confessou que abom inava Carm el, que estava atrapalhando tudo por desorganização, disse. Estava na hora de dorm ir e aj eitar as coisas para a m anhã seguinte.
A m anhã trouxe um a batalha entre am igos. Scott Arm strong veio dizer que a Casa Branca havia decidido não oferecer Clinton nem Gore. Disseram a ele: “Bela tentativa, m as não”. Carm el tinha com eçado um a cam panha por telefone envolvendo Ary eh Neier e outros, e isso fora “contraproducente”. Quando Carm el e Frances chegaram , a tensão explodiu e todo m undo gritava com todo m undo, acusação e contra-acusação, Frances dizendo que Scott é que tinha estragado as coisas. Por fim , ele teve de pedir que dessem um a trégua. “Tem os de realizar um a coisa aqui e preciso da aj uda de vocês.” Scott arranj ou para que a entrevista coletiva pós-Casa Branca fosse realizada no National Press Club, de form a que isso era algum a coisa, ao m enos. Então, a discussão esquentou outra vez. Quem iria com ele à Casa Branca? Ele só podia levar duas pessoas. As vozes se exaltaram de novo, o clim a pesou. Eu telefonei para este e aquele. Eu fiz isto e aquilo. Andrew depressa se retirou da disputa e Christopher disse que não via razão para ser um dos escolhidos, m as as ongs continuaram se enfrentando.
Mais um a vez, ele pôs fim à disputa. “Elizabeth vai com igo”, disse, “e eu gostaria que Frances fosse tam bém .” Zangadas, caras enevoadas se retiraram para os cantos do apartam ento de Christopher ou para fora dele. Mas a disputa se encerrou.
A caravana de carros estava à espera para levá-los até o núm ero 1600 da Pennsy lvania Avenue. Assim que se viram dentro do carro designado, os três se dobraram num ataque contagiante de riso nervoso. Perguntaram -se se, no fim , os deveres de Clinton com Tom , o peru, o im pediriam de com parecer ao encontro, e se assim fosse o que as m anchetes do dia seguinte diriam . “Clinton perdoa peru”, ele im provisou. “Rushdie é destrinchado.” Ha ha ha ha ha ha ha ha ha! Então chegaram à “entrada dos diplom atas”, a porta lateral, e foram adm itidos. A política m undial, o grande j ogo suj o, inevitavelm ente se afunilava para aquela m ansão branca m iúda na qual um hom em grande e rosado num a sala oval tom ava decisões de sim ou não apesar de ensurdecido pelos m urm urantes talvezes dos auxiliares.
Ao m eio-dia, foram conduzidos por um a escada estreita ao pequeno escritório de Anthony Lake, passando por um a m ultidão de auxiliares sorridentes, excitados. Ele disse ao secretário de Segurança Nacional que era excitante estar na Casa Branca afinal, e Lake, piscando, disse: “Bom , então espere um pouco, porque vai ficar ainda m ais excitante”. O presidente dos Estados Unidos havia concordado em se encontrar com ele! Às 12h15, atravessariam para o Prédio Executivo Velho e lá encontrariam o sr. Clinton. Frances com eçou a falar depressa e conseguiu convencer Lake de que ela devia ir tam bém . Então a pobre Elizabeth ficaria de fora. Havia m uitos livros esperando para ser autografados na antessala do escritório de Lake e ele estava assinando os volum es quando Warren Christopher chegou. Elizabeth ficou distraindo o secretário de Estado, enquanto Lake e ele iam até o presidente. “Isto devia ter acontecido anos atrás”, Lake disse a ele. Encontraram Clinton num corredor debaixo de um a cúpula cor de laranj a e George Stephanoupolos estava lá tam bém , com um largo sorriso, além de duas aj udantes que pareciam deliciadas. Bill Clinton era ainda m ais alto e m ais cor-de-rosa do que ele im aginara e m uito afável tam bém , m as foi direto ao ponto. “O que posso fazer por você?”, quis saber o presidente dos Estados Unidos. Um ano inteiro de cam panha política o havia preparado para a pergunta. Quando você é o Requerente, tem de saber claramente o que quer do encontro, ele aprendera, e sempre pedir algo que esteja ao alcance deles conceder.
“Senhor presidente”, ele disse, “quando sair da Casa Branca tenho de ir ao Press Club, e lá vão estar vários j ornalistas querendo saber o que o senhor tinha a dizer. Eu gostaria de contar a eles que os Estados Unidos estão aderindo à cam panha contra a fatwa iraniana e apoiando as vozes progressistas do m undo.” Clinton acenou com a cabeça e sorriu. “É, pode dizer isso”, respondeu, “porque é verdade.” Fim do encontro, pensou o Requerente, com um pequeno sobressalto de triunfo no coração. “Tem os am igos com uns”, disse o presidente. “Bill Sty ron, Norm an Mailer. Eles estão insistindo com igo a seu respeito. A esposa de Norm an, Norris, sabe, trabalhou em m inha prim eira cam panha política. Chegam os a nos conhecer bastante bem .”
O Requerente agradeceu ao presidente pela reunião e disse que o encontro tinha um a im ensa im portância sim bólica. “É verdade”, disse Clinton. “Deve ser um a m ensagem para o m undo. A intenção é que sej a um a prova do apoio am ericano à liberdade de expressão e de nosso desej o de que os direitos no estilo da Prim eira Em enda se espalhem por todo o m undo.” Não foram tiradas fotografias. Seria dem onstração excessiva. Mas o encontro tinha acontecido. Era um fato.
Quando voltaram para a sala de Anthony Lake, ele notou que Frances D’Souza estava com um enorm e sorriso bobo. “Frances”, ele perguntou, “por que está com esse sorrisão bobo?” A voz dela soou distante, pensativa. “Não acha”, ela perguntou, langorosa, “que ele segurou m inha m ão um pouquinho a m ais?”
Warren Christopher estava m ais do que apaixonado por Elizabeth quando voltaram . Christopher e Lake concordaram im ediatam ente que a fatwa estava “em prim eiro lugar na agenda am ericana com o Irã”. O desej o que tinham de isolar o Irã era até m aior do que o dele. Eles tam bém eram a favor de congelar o crédito e estavam trabalhando para isso. O encontro durou um a hora e depois, ao voltar para o apartam ento dos Hitchens, todos os Requerentes estavam tontos com o sucesso. Christopher contou que Stephanopoulos, que tinha pressionado m uito pelo encontro com Clinton, tam bém estava anim ado. Ele telefonara para Hitch assim que aconteceu. “A águia pousou”, dissera.
A entrevista coletiva — setenta j ornalistas na véspera do Dia de Ação de Graças, m elhor do que Scott Arm strong esperava — correu bem . Martin Walker, do The Guardian, am igo de Hitch, disse que foi “perfeita”. Depois veio o quiproquó, a entrevista exclusiva com David Frost, que não podia ser um suj eito m ais alegre e que o brindou com supers, fantásticos, queridos, maravilhosos durante sim plesm ente séculos quando a entrevista term inou e queria de qualquer jeito se encontrar com ele para um drinquezinho em Londres antes do Natal.
Jim Tandy, chefe dos porm enores de segurança, deu a nota dissonante. “Um hom em suspeito do Oriente Médio” estivera rondando o edifício e partira com três outros num carro. Tandy perguntou: “Quer ficar ou devem os levar o senhor para outro lugar?”. Ele disse: “Fico”, m as a decisão final tinha de ser de Christopher e Carol. “Fique”, eles disseram .
O em baixador britânico ofereceu um a recepção para eles. Foram recebidos na porta da em baixada por um a Am anda de voz sofisticada e m acia que lhes disse que se tratava do único edifício de Luty ens nos Estados Unidos e depois: “Claro que ele construiu tanta coisa em Nova Delhi... Já estiveram na Índia?”. Ele deixou passar. Os Renwick eram anfitriões elegantes. A esposa francesa de sir Robin, Annie, se apaixonou im ediatam ente por Elizabeth, que estava fazendo m uitas conquistas em Washington. “Ela é tão calorosa, tão direta, tão calm a; faz você sentir que a conhece há m uito tem po. Um a pessoa m uito especial.” Sonny Mehta foi à recepção e contou que Gita estava bem . Kay Graham com pareceu e não disse quase nada.
Passaram o Dia de Ação de Graças com os infinitam ente hospitaleiros Hitchens. Os j ornalistas e docum entaristas ingleses Andrew e Leslie Cockburn tam bém estavam lá com sua filhinha de nove anos, Olivia, um a m enina m uito inteligente, que contou com grande fluência exatam ente por que era fã de Haroun e o mar de histórias e depois cresceu e se tornou a atriz Olivia Wilde. Havia um adolescente ruivo — m uito m ais tím ido que Olivia, em bora fosse vários anos m ais velho — que disse que antes quisera ser escritor, m as agora não queria m ais, “porque, vej a o que aconteceu com você”.
O encontro com Clinton foi notícia de prim eira página de todos os lugares e teve cobertura quase unanim em ente positiva. A im prensa britânica pareceu dim inuir a significação do encontro, m as as reações fundam entalistas previsíveis receberam grande destaque. O que tam bém era previsível.
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Depois do Dia de Ação de Graças, Clinton pareceu fraquej ar. “Estive com ele só por dois m inutos”, disse. “Alguns assessores m eus não queriam o encontro. Espero que as pessoas não entendam errado. Não pretendo insultar ninguém . Só queria defender a liberdade de expressão. Acho que fiz o que era certo.” E assim por diante, bem gelatinoso. Não soava com o o Líder da Nação Livre tom ando posição contra o terrorism o. O The New York Times sentiu a m esm a coisa e publicou um editorial com o título “Chega de hesitação, por favor”, encoraj ando o presidente a sustentar sua boa ação sem precisar pedir desculpas por isso; para ser consequente com suas ideias (ou talvez as de George Stephanopoulos e de Anthony Lake?). No program a Crossfire, Christopher Hitchens enfrentou um m uçulm ano aos gritos e Pat Buchanan dizendo “Rushdie é um pornógrafo” cuj a obra era “suj a” e atacando o presidente por ter se encontrado com um a pessoa assim . Foi deprim ente assistir ao program a. Tarde da noite ele telefonou para Hitch, que lhe disse que o entrevistador, Michael Kinsley, achava que a oposição tinha sido “derrotada”, que a questão voltar “ao prim eiro plano” outra vez era um a coisa boa e que Clinton estava “segurando a barra”, m uito em bora houvesse um a batalha nos bastidores entre o grupo de Lake-Stephanopoulos e os auxiliares que só pensavam em segurança. Christopher tam bém lhe disse palavras sábias:
O fato é que nunca se consegue algum a coisa em troca de nada. Toda vez que se acerta
um ponto, os velhos argum entos contrários são desenterrados e usados de novo. Mas isso
tam bém quer dizer que eles serão derrubados de novo, e percebo um a im ensa indisposição
dos opositores em m ostrar a cara e entrar no j ogo. Você j am ais teria recebido um editorial
d o The Times se não fosse essa hesitação, e o efeito geral disso é revigorar quem apoia
você. Nesse m eio-tem po, ainda tem os a declaração de Clinton e o encontro conseguido por
Christopher/Lake, e isso ninguém tira de você. Portanto, anime-se.
Christopher depressa se tornara — ao lado de Andrew — o am igo e aliado m ais dedicado que ele tinha nos Estados Unidos. Poucos dias depois, ele telefonou para dizer que John Shattuck, no Departam ento de Estado, havia sugerido que ele, Hitch, Scott Arm strong, do Freedom Forum , e talvez Andrew Wy lie form assem um grupo inform al para fazer “progredir” a reação dos Estados Unidos. Hitch havia falado com Stephanopoulos na recepção, onde as pessoas estavam ouvindo, e George dissera, com firm eza: “A prim eira declaração é a que levam os em conta; espero que você não ache que voltam os atrás”. Um a sem ana depois ele m andou um fax — ah, os dias de fax, tão distantes! — sobre a reunião “incrivelm ente” boa com o novo chefão do contraterrorism o, o em baixador Robert Gelbard, que estava prom ovendo o caso em vários fóruns do G7, m as enfrentando “relutância” dos j aponeses e, adivinhe, dos britânicos. Gelbard prom eteu discutir a questão das linhas aéreas com a Autoridade Aeronáutica Federal, cuj o novo chefe de segurança, alm irante Fly nn, era um “am igo”. Além disso, contou Christopher, Clinton tinha dito a alguém que gostaria de ter passado m ais tem po com o autor de Os versos satânicos, m as que Rushdie estava com “m uita pressa”. Isso era engraçado e m ostrava, na opinião de Hitch, que ele estava satisfeito que a reunião tivesse acontecido. Tony Lake estava dizendo às pessoas que o encontro havia sido um dos pontos altos do ano. Scott Arm strong estava aj udando bastante tam bém , Hitch disse. Nenhum deles ficara im pressionado com Frances e Carm el, o que era preocupante: e o que, quase im ediatam ente, precipitou um a crise.
Um relato da aventura de Washington apareceu no The Guardian e, no artigo, Scott Arm strong e Christopher Hitchens m anifestaram suas dúvidas sobre a utilidade de Frances e Carm el à causa. “Você com prom eteu seriam ente a Artigo 19 nos Estados Unidos”, Frances disse em tom de raiva extrem a e j ustificada. “Arm strong e Hitchens nunca falariam com o falaram sem a sua aprovação tácita.” Ele tentou dizer a ela que nem sabia que essa questão estava em andam ento, m as ela replicou: “Tenho certeza de que você está por trás disso”, acrescentando que, com o resultado do que ele havia feito, a MacArthur Foundation podia suspender a verba essencial da Artigo 19. Ele respirou fundo, escreveu um a carta ao The Guardian defendendo Frances e Carm el e telefonou confidencialm ente para Rick MacArthur. Este disse, não sem razão, que pagava m etade do orçam ento de Frances. Era política da fundação levar organizações até o ponto em que pudessem “diversificar sua base econôm ica” e isso significava desenvolver visibilidade nos Estados Unidos. Fora culpa de Frances, disse ele, ela não ter conseguido obter atenção para o papel de liderança da Artigo 19 na “m aioria dos casos de direitos hum anos im portantes no m undo”. Ele continuou falando com Rick até MacArthur concordar em não cortar verbas por enquanto.
Quando desligou o telefone, ele estava m uito zangado. Tinha levado Frances com ele à Casa Branca e elogiara o trabalho da Artigo 19 em todas as entrevistas coletivas posteriores, e sentiu-se inj ustam ente acusado. O fax de acom panham ento de Carm el Bedford — “A m enos que possam os desfazer o dano causado por esses interesseiros, faz algum sentido continuarm os?” — piorou ainda m ais as coisas. Ele passou um fax para Frances e Carm el, dizendo o que achava de suas acusações e por quê. Não falou nada do telefonem a confidencial a Rick MacArthur, nem de seu resultado. Alguns dias depois, Carm el m udou de tom e m andou faxes apaziguadores, m as de Frances não veio nada. Ela ficou am uada com o Aquiles em sua tenda. O choque de suas acusações não se apagou.
Carm en Balcells, a legendária agente literária todo-poderosa da Espanha, telefonou de Barcelona para Andrew Wy lie, para dizer que o grande Gabriel García Márquez estava escrevendo um a “rom antização baseada na vida do sr. Rushdie”. Acrescentou que ela seria “inteiram ente escrita pelo autor, que é um escritor bem conhecido”. Ele não soube o que responder. Devia estar lisonj eado? Porque não se sentia lisonj eado. Ele seria agora obj eto da “rom antização” de outra pessoa? Se os papéis estivessem trocados, ele sentiria que não tinha o direito de se pôr entre outro escritor e sua própria biografia. Mas sua vida talvez tivesse se tornado propriedade pública e se ele tentasse im pedir o livro podia im aginar as m anchetes: rushdie censura m árquez. E o que queria dizer “rom antização”? Se García Márquez escrevesse sobre um autor latino-am ericano perseguido por fanáticos cristãos, boa sorte para ele. Mas, se Márquez se propunha a entrar em sua cabeça, então ele sentiria isso com o um a invasão. Pediu que Andrew expressasse sua preocupação e seguiu-se um longo silêncio de Balcells, depois do qual chegou um a m ensagem dizendo que o livro de Márquez não era sobre o sr. Rushdie. Então o que significava todo o estranho episódio?, ele se perguntou.
Gabriel García Márquez nunca publicou nenhum a “rom antização” nem nada que tivesse qualquer sem elhança com o que Carm en Balcells propusera. Mas a abordagem de Balcells esfregou sal em sua ferida autoinfligida. García Márquez quisera, ou não quisera, escrever ou um a obra de ficção ou de não ficção a respeito dele, m as ele próprio não tinha escrito nem um a palavra de ficção o ano inteiro — não, por m ais de um ano. Escrever sem pre havia sido o centro de sua vida, m as agora coisas avançavam das m argens preenchendo o espaço que estivera sem pre livre para seu trabalho. Ele gravou um a introdução para o film e sobre Tahar Dj aout, para a televisão. Ofereceram -lhe um a coluna m ensal para distribuição m undial pelo serviço de notícias do The New York Times e ele pediu a Andrew que aceitasse.
O Natal estava chegando. Ele estava exausto e, apesar de todo o sucesso político do ano, sentindo-se para baixo. Conversou com Elizabeth sobre o futuro, sobre ter um filho, sobre com o poderiam viver, e se deu conta de que ela nem im aginava com o se sentir segura sem proteção policial. Ele a encontrara no m eio de um a teia de aranha e a teia era a única realidade em que ela confiava. Se um dia ele chegasse ao ponto de não precisar m ais de proteção, será que ela teria m edo de continuar a seu lado? Era um a nuvenzinha no horizonte. Será que cresceria até cobrir o céu inteiro?
Thom asina Lawson m orreu, com apenas 32 anos. Clarissa estava fazendo quim ioterapia. E Frank Zappa m orreu tam bém . O passado caiu em cim a dele quando leu isso, encurralando-o com em oções poderosas e inesperadas. Em um de seus prim eiros encontros, Clarissa e ele tinham ido ver o Mothers of Invention no Roy al Albert Hall, e no m eio do show um negro baratinado com cam isa verm elha brilhante subiu ao palco e quis tocar j unto com a banda. Zappa concordou, im passível. “Hã-hã, sim , senhor”, disse, “e qual é o instrum ento de sua escolha?” Cam isa Verm elha resm ungou algum a coisa sobre trom pa e Zappa gritou: “Dá um a trom pa aqui pra esse cara!”. Cam isa Verm elha com eçou a soprar, desafinado. Zappa ouviu alguns com passos e então, num aparte, disse: “Hum m , O que será que nós podem os tocar para acom panhar esse cara e sua trom pa? Já sei! O poderoso, m aj estoso órgão do Albert Hall!”. E então um dos Mothers subiu para o banco do órgão, abriu todos os registros e tocou “Louie Louie”, enquanto Cam isa Verm elha soprava, desafinado e inaudível. Era um a de suas prim eiras lem branças felizes, e agora Zappa tinha ido em bora e Clarissa lutava pela vida. (Ao m enos o trabalho dela estava preservado. Ele tinha telefonado para seus patrões na ap Watt e observado com o ia pegar m al se dispensassem um a m ulher que estava lutando contra um câncer e era m ãe do filho de Salm an Rushdie. Gillon Aitken e Liz Calder tam bém telefonaram a seu pedido, e a agência aquiescera. Clarissa não sabia que ele tivera algo a ver com aquilo.) Ele a convidou para passar o Natal com eles. Ela foi com Zafar, sorrindo fragilm ente, parecendo caçada, e deu a im pressão de gostar do dia.
As pessoas tam bém escreviam cartas para ele, com o as cartas im aginárias em sua cabeça. Cem escritores árabes e m uçulm anos publicaram conj untam ente um livro de ensaios escrito em m uitas línguas e publicado em francês, Pour Rushdie, defendendo a liberdade de expressão. Cem escritores que em sua m aioria entendiam do que ele estava falando, que vinham de um m undo onde seu livro havia nascido e que, m esm o que não gostassem do que ele dizia, estavam dispostos a defendê-lo, com o Voltaire teria defendido seu direito de falar. Com ele, o gesto profético se abriu aos quatro ventos do imaginário, escreveram os editores do livro, e em seguida a cavalgada de vozes grandes e pequenas do m undo árabe. Do poeta sírio Adonis: A verdade não é a espada/ nem a mão que a segura. E Moham m ad Arkun, da Argélia: Eu gostaria de ver Os versos satânicos disponíveis a todos os muçulmanos para que possam refletir de um modo mais moderno sobre o status cognitivo da revelação. E Rabah Belam ri, da Argélia: O caso Rushdie revelou muito claramente a todo o mundo que o islã [...] demonstra agora sua incapacidade de passar impune por qualquer exame sério. E, da Turquia, Fethi Benslam a: Em seu livro, Salman Rushdie foi até o fim, de uma vez por todas, como se ele realmente quisesse ser, inteiramente sozinho, todos os diferentes autores que existiram na história de sua tradição. E Zhor Ben Cham si, do Marrocos: Devíamos ser realmente gratos a Rushdie por ter aberto o imaginário para os muçulmanos outra vez. E a argelina Assia Dj ebar: Esse príncipe escritor [...] não está nunca senão eternamente nu e solitário. Ele é o primeiro hom em a viver na condição da m ulher muçulmana (e [...] é também o primeiro homem a ser capaz de escrever do ponto de vista de uma mulher muçulmana). E Karim Ghassim , do Irã: Ele é nosso vizinho. E o palestino Ém ile Habibi: Se não conseguirmos salvar Salman Rushdie — Deus nos livre! —, a vergonha perseguirá toda a civilização global como um todo. E o argelino Moham m ed Harbi: Com Rushdie, reconhecemos o desrespeito, o princípio do prazer que é a liberdade na cultura e nas artes, como uma fonte de exame frutífera para nosso passado e presente. E Sonallah Ibrahim , do Egito: Quem tiver consciência tem de ir em auxílio desse grande escritor em seu sofrimento. E o escritor franco-m arroquino Salim Jay : O único homem verdadeiramente livre hoje é Salman Rushdie. [...] Ele é o Adão de uma biblioteca futura: a da liberdade. E Elias Khoury, do Líbano: Temos a obrigação de lhe dizer que ele personifica a nossa solidão e que sua história é a nossa história. E o tunisino Abdelwahab Meddeb: Rushdie, você escreveu o que nenhum homem escreveu [...]. Em vez de condená-lo, em nome do islã, eu o parabenizo. E Sam i Naïr, franco-argelino: Salman Rushdie tem de ser lido.
Obrigado, m eus irm ãos e irm ãs, ele respondeu silenciosam ente à centena de vozes. Obrigado por sua coragem e com preensão. Desej o a todos um feliz Ano-Novo.
a Há aqui um j ogo de palavras intraduzível: “recom pensa” é bounty, “m otim ” é mutiny. Mutiny on the Bounty é um episódio de m otim ocorrido no navio da Marinha britânica Mutiny em 1789. Fascinados com os encantos tropicais do Taiti, os m arinheiros se am otinaram , instalaram -se na ilha e queim aram o navio. O com andante Bligh e alguns m arinheiros fizeram um a viagem arriscada até o Tim or e dali para a Inglaterra. O episódio deu origem a canções, livros e film es. (N. T.)
b No original: “I am the boolsheet Eco” . Boolsheet é a pronúncia italianada de bullshit, “papo furado”, “bobagem ”. (N. T.)
c Desde 1947, a associação dos criadores de peru dos Estados Unidos dá um peru de presente ao presidente no Dia de Ação de Graças. Em 1963, o presidente John Kennedy resolveu não com er o peru, m as poupar sua vida, e isso passou a ser um a tradição da data. Os perus, vivos, são levados para fazendas e “levam um a vida norm al”. (N. T.)
d No original: ungodparent. Godparent significa “pai em Deus”, “padrinho”, e ungodparent, “pai sem Deus”. (N. T.)