Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 7 de 11 · parte 2/4

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Joseph Anton: Memórias

6. Por que é impossível fotografar os pampas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Com a aj uda do suave encoraj am ento de Elizabeth, sua desilusão se apagou. Ele estava de novo encontrando sua voz, ela disse, e seu Erro estava se dissolvendo no passado, em bora ele precisasse continuar dizendo a m esm a coisa durante anos. Ele era ouvido com respeito, e isso inegavelm ente era agradável depois do feio repúdio de tanta gente a seu caráter e a sua obra. Aos poucos, foi adquirindo prática em apresentar suas razões. Durante os piores excessos do com unism o soviético, argum entava, os m arxistas ocidentais haviam tentado distanciar o “socialism o existente de fato” da Verdadeira Fé, a visão de Karl Marx de igualdade e j ustiça. Mas, quando a União Soviética entrara em colapso e ficara claro que o “socialism o existente de fato” havia poluído fatalm ente o m arxism o aos olhos de todos aqueles que aj udaram a derrubar seus déspotas, não fora m ais possível acreditar num a Verdadeira Fé intocada pelos crim es do m undo real. Agora, com os Estados islâm icos forj ando novas tiranias e j ustificando m uitos horrores em nom e de Deus, separação sem elhante se dava entre os m uçulm anos; assim , havia o “islã existente de fato” das teocracias sanguinárias e havia a Verdadeira Fé de paz e de am or.

Ele achava isso difícil de engolir, e tentava encontrar as palavras certas para dizer por quê. Era fácil entender os defensores da cultura m uçulm ana; quando a Babri Masj id caiu, doeu tanto para ele quanto para eles. E ele tam bém se com ovia com as m uitas delicadezas da sociedade m uçulm ana, seu espírito caritativo, a beleza de sua arquitetura, pintura e poesia, suas contribuições à filosofia e à ciência, seus arabescos, sua m ística e a suave sabedoria de m uçulm anos de m ente aberta com o seu avô, pai de sua m ãe, dr. Ataullah Butt. O dr. Butt de Aligarh, que trabalhava com o m édico de fam ília e estava envolvido tam bém com a faculdade Tibby a da Universidade Muçulm ana de Aligarh, onde a m edicina ocidental era estudada lado a lado com os tradicionais tratam entos com ervas indianos, que fazia peregrinação a Meca, que recitara suas orações cinco vezes por dia todos os dias de sua vida — e era um dos hom ens m ais tolerantes que seu neto conhecera, ranzinzam ente bem -hum orado, aberto a qualquer tipo de criancice e pensam ento rebelde adolescente, até à ideia da não existência de Deus, um a ideia totalm ente m aluca, ele diria, m as que tinha de ser discutida. Se o islã fosse o que o dr. Butt acreditava, não havia m uita coisa errada.

Mas algum a coisa estava corroendo a fé de seu avô, corroendo e corrom pendo, transform ando-a num a ideologia de lim itação e intolerância, proibindo livros, perseguindo intelectuais, erigindo absolutism os, transform ando o dogm a num a arm a com a qual se bate no não dogm ático. Essa coisa precisava ser com batida e para com batê-la era preciso dar-lhe um nom e, e o único nom e era islã. O islã que existia de fato havia se tornado seu próprio veneno e m uçulm anos m orriam por causa dele, e isso precisava ser dito na Finlândia, na Espanha, nos Estados Unidos, na Dinam arca, na Noruega, em toda parte. Ele diria isso, se ninguém m ais dissesse. Queria falar tam bém pela ideia de que a liberdade é herança de todos e não, com o dizia Sam uel Huntington, um a ideia ocidental alheia às culturas do Oriente. À m edida que o “respeito pelo islã”, que era o m edo da violência islâm ica sob a capa tartufiana da hipocrisia, ia ganhando legitim idade no Ocidente, o câncer do relativism o cultural com eçara a roer as ricas m ulticulturas do m undo m oderno e pela ladeira escorregadia eles todos podiam cair para o Pântano do Desânim o, o charco do desespero de John Buny an.

Ao batalhar de país em país, batendo às portas dos poderosos e tentando encontrar pequenos m om entos de liberdade nas garras desta ou daquela força de segurança, ele tentava encontrar as palavras que precisavam não só de um defensor com o ele, m as tam bém daquilo que ele representava, ou queria representar de agora em diante.

 

Um “pequeno m om ento de liberdade” aconteceu quando ele foi convidado a um concerto do U2 em Earls Court, durante a turnê Achtung Baby, com seus autom óveis Trabant psicodélicos pendurados. A polícia disse sim im ediatam ente quando ele contou: finalm ente um a coisa que os policiais queriam fazer! Acontece que Bono tinha lido O sorriso do jaguar e, com o visitara a Nicarágua m ais ou m enos na m esm a época, estava interessado em encontrar seu autor. (Ele nunca se encontrou com Bono na Nicarágua, m as um dia sua intérprete de olhos brilhantes, a loira Margarida, um a sósia de Jay ne Mansfield, gritou, em polgada: “Bono vem para cá! Bono está na Nicarágua!”, e depois, sem nenhum a m udança na voz ou no brilho dos olhos, acrescentou: “Quem é Bono?”.) E então lá estava ele em Earls Court, parado nas som bras, ouvindo. Atrás do palco, depois do show, ele foi levado para um trailer cheio de sanduíches e crianças. Não havia tietes nos shows do U2; apenas creches. Bono chegou e foi im ediatam ente coroado de filhas. Ele gostava de falar de política — Nicarágua, um protesto próxim o contra arm azenam ento inseguro de lixo nuclear em Sellafield, no norte da Inglaterra, seu apoio à causa de Os versos satânicos. Não ficaram m uito tem po j untos, m as nasceu um a am izade.

 

Nigella Lawson e John Diam ond se casaram em Veneza. Assim com o todos os am igos dela, ele ficou m uito feliz com a notícia. Onde John estivesse, havia sem pre um a risada. Na festa que deram no Groucho Club para com em orar o casam ento, o bolo foi feito por Ruthie Rogers e desenhado, Ruthie contou, por seu m arido, o grande arquiteto em pessoa. John disse, inocente: “É m esm o? Sendo um proj eto de Richard Rogers, os ingredientes não deviam estar todos do lado de fora?”.

 

* * *

 

A Alem anha era o m aior parceiro com ercial do Irã. Ele tinha de ir até lá. Um a integrante m inúscula, feroz, do Bundestag alem ão, cham ada Thea Bock, pretendia, disse ela, garantir que ele se encontrasse com “todo m undo”. Mas prim eiro ele precisava chegar a Bonn, e não podia viaj ar nem pela Lufthansa, nem pela British Airway s. Thea Bock entrou em cena com um a pequena aeronave particular, verm elho vivo, com o um a coisa saída da história da Prim eira Guerra Mundial: “Biggles e a fatwa”. O avião era tão pequeno e antigo que as janelas se abriam. Voava tão baixo que ele tem ia que fossem bater num a m ontanha ou num a torre de igrej a. Era com o andar pelo céu num riquixá m otorizado. Felizm ente o tem po estava bom , um dia ensolarado, calm o, e o piloto foi hábil para voar sem problem as com aquele fut-fut até a capital alem ã, onde as reuniões foram tão bem , graças aos esforços de Thea Bock, que os iranianos ficaram seriam ente abalados, porque ali, de repente, estava Rushdie sendo saudado calorosam ente por Bj örn Engholm , líder dos social-dem ocratas, por Rita Süssm uth, porta-voz do Parlam ento, e por m uitos dos m ais im portantes parlam entares alem ães; e, na ausência do m inistro das Relações Exteriores, Klaus Kinkel, ali estava Rushdie sendo recebido por dr. Schirm er, chefe do setor cultural do m inistério. O em baixador iraniano falou acaloradam ente na televisão alem ã e disse ter certeza de que a Alem anha não iria com prom eter suas relações com o Irã por causa daquele hom em . Disse tam bém que os assassinos am ericanos ou israelenses podiam estar a postos para m atar o apóstata, fingindo ser assassinos m uçulm anos, só para fazer o Irã ficar m alvisto.

O em baixador Hossein Musavian foi convocado a se apresentar ao Ministério das Relações Exteriores da Alem anha no dia seguinte. “Vam os proteger o senhor Rushdie”, disse o assistente do m inistro. “Depois de nossa conversa m uito franca, ele [o em baixador iraniano] sabe que é esse o caso.” As sugestões de um assassinato pela inteligência am ericana ou israelense foram consideradas “absurdas”. O em baixador Musavian disse que suas observações tinham sido “deturpadas”.

Então havia momentum, com o dizia Frances; m as será que a massa crítica (um dos term os favoritos dela) seria atingida? Não ainda. O Conselho de Mesquitas de Bradford fez outra declaração desagradável, alegando que a cam panha estava piorando as coisas e que o autor não devia esperar nenhum a “consideração” da com unidade m uçulm ana. O presidente do conselho, Liaquat Hussein, acreditava plenam ente que era um hom em im portante dizendo um a coisa im portante. Mas ele soava com o um a voz do passado. Seus quinze m inutos de fam a term inaram .

Ele estava em Estocolm o para receber o Prêm io Kurt Tucholsky, dado a escritores que resistiam a perseguições, e para falar perante a Academ ia Sueca. O Irã condenou o prêm io, claro. O m inistro da Justiça iraniano se m anifestou, assim com o o generoso aiatolá Sanei. Caro ministro da injustiça, ele com eçou, m as em seguida abandonou a carta im aginária. Algum as pessoas não m ereciam receber cartas, nem m esm o na im aginação. Meu caro Sanei da

Recompensa, posso chamar sua atenção para a possibilidade de um motim?a Talvez o senhor e seus colegas possam terminar como Bligh, vagando num barquinho, esperando chegar à costa do Timor.

A Academ ia Sueca se reunia num lindo salão rococó no piso superior do velho edifício da Bolsa de Valores de Estocolm o. Em torno de um a longa m esa, dezenove cadeiras estofadas de seda azul-pálido. Um a era para o rei, para o caso de ele aparecer; ficava vazia se ele não viesse, o que era o usual. Nas costas das outras cadeiras havia num erais rom anos de i a xviii. Quando um acadêm ico m orria, um novo m em bro era eleito para ocupar sua cadeira e sentar nela até ser transferido para a academ ia m aior no céu. Ele logo pensou no anim ado suspense de G. K. Chesterton O homem que era quinta-feira, sobre um a célula anarquista cuj os sete líderes tinham com o codinom es os dias da sem ana. Porém , ele não estava na presença de anarquistas. Recebera perm issão para entrar no santuário da literatura, a sala onde era atribuído o Prêm io Nobel, para se dirigir a um a reunião am igável e grave de em inências grisalhas. Lars Gy llensten (xiv) e Kerstin Ekm an (xv), os acadêm icos que haviam se retirado daquela m esa para protestar contra a pusilânim e falta de reação de seus colegas à fatwa, não com pareceram . Suas cadeiras eram um a censura vaga. Isso o entristeceu; ele esperava produzir um a reconciliação. O convite da academ ia tinha sido feito com o com pensação por seu silêncio anterior. Sua presença ali indicava o apoio deles. Um a vigésim a cadeira, sem núm ero, foi puxada para a m esa, j unto ao lugar vago do rei, ele se sentou nela, falou e respondeu a perguntas até os acadêm icos se darem por satisfeitos. Elizabeth, Frances e Carm el tiveram perm issão de assistir, e sentaram -se em outras cadeiras, encostadas à parede.

No cerne da disputa em torno de Os versos satânicos, ele disse, por trás de todas as acusações e da violência, estava um a questão de profunda im portância: Quem deve ter controle da história? Quem tem , quem deveria ter, o poder não só de contar as histórias com as quais, e dentro das quais, nós todos vivem os, m as tam bém de determ inar com o essas histórias podem ser contadas? Porque todo m undo vive através e dentro de histórias, as cham adas grandes narrativas. A nação era um a história, a fam ília outra, a religião um a terceira. Com o artista criador, ele sabia que a única resposta para a questão era: Toda e qualquer pessoa tem, ou deveria ter, esse poder . Devíam os todos ter a liberdade de questionar as grandes narrativas, de discutir com elas, satirizá-las, e insistir para que m udassem para refletir a m udança dos tem pos. Devíam os falar delas com reverência, com irreverência, com paixão, causticam ente ou do j eito que escolhêssem os. Isso era nosso direito com o m em bros de um a sociedade aberta. Na verdade, podia-se dizer que nossa capacidade de recontar e refazer a história de nossa cultura era a m elhor prova de que nossa sociedade era realm ente livre. Num a sociedade livre, a discussão sobre as grandes narrativas nunca cessavam . Era a discussão em si que interessava. A discussão era liberdade. Mas num a sociedade fechada os que possuíam o poder político ou ideológico invariavelm ente tentavam calar esses debates. Nós contamos a história para você, eles diziam , e nós dizemos o que ela significa. Nós vamos contar como a história tem de ser contada e proibimos você de contá-la de qualquer outro jeito. Se você não gosta do jeito que contamos a história, então você é um inimigo do Estado ou traidor da fé. Não tem direitos. Ai de você! Nós perseguimos você e ensinamos o sentido de sua recusa.

O anim al contador de histórias tinha de ter liberdade para contar suas histórias.

No final do encontro, ele recebeu um presente. Do outro lado dessa sala havia um restaurante bem conhecido, Den Gy ldene Freden (“A Paz Dourada”), que pertencia à academ ia. No final de suas reuniões sem anais, os Dezoito, ou quantos deles aparecessem , se retiravam para j antar num a sala particular do Paz Dourada. Cada um deles pagava, na entrada, com um a m oeda de prata que tinha o lem a da academ ia, Snille och smak. Talento e gosto. Quando deixavam o restaurante, a m oeda era devolvida a eles. Essas m oedas nunca eram dadas ao público em geral, m as ele deixou a academ ia esse dia com um a delas no bolso.

 

Em Nova York, dessa vez não havia caravana de autom óveis esperando, nenhum tenente Bob preocupado com o que Elizabeth poderia fazer com um garfo. (Ele tinha viaj ado pela Scandinavian Airlines, pela rota m ais longa, via Oslo.) Havia um pessoa da segurança para atravessar com ele o aeroporto, m as só isso. Não fora program ada nenhum a aparição pública, então a polícia am ericana estava disposta a deixá-lo em grande parte por sua própria conta. Ele teve perm issão para gozar alguns dias de quase liberdade, o m ais perto disso que chegara em quatro anos. Ficou no apartam ento de Andrew Wy lie e os policiais do ny pd perm aneceram dentro de seus carros na rua, lá em baixo. Durante esses dias, fez as pazes com Sonny Mehta. E j antou com Thom as Py nchon.

Um a das m elhores qualidades de Andrew era não gostar de anim osidades. “Você e Sonny deviam fazer as pazes”, ele disse. “São am igos há tanto tem po. É o certo a fazer.” E havia um a boa razão com ercial para oferecer um ram o de oliveira. A longo prazo, a Random House era a editora m ais provável para assum ir a publicação de Os versos satânicos em brochura. A Penguin nunca faria isso e, com o ela era a distribuidora da Granta Books, isso tornava o relacionam ento a longo prazo com a Granta difícil de considerar, apesar de toda a excepcional am izade e heroísm o de Bill. “Não podem os perder de vista o obj etivo”, Andrew disse, “e o obj etivo é a publicação norm al de todos os seus livros, inclusive Versos.” Agora que a edição do consórcio tinha saltado a barreira da edição em brochura, ele acreditava que seria possível convencer Sonny a assum ir novos livros sem m edo, e tam bém a aceitar a responsabilidade a longo prazo do catálogo anterior. “Não im ediatam ente”, Andrew disse, “m as talvez depois que eles publicarem o próxim o rom ance. Acho que vão topar. E é isso que deve ser feito.” Ele e Gillon tinham ido na frente para negociar com Sonny e a Knopf a publicação de O último suspiro do mouro. Tinham tam bém acalm ado Bill, que ficara m uito aborrecido ao saber de seus planos. Mas Bill era am igo prim eiro e editor em segundo lugar, e tinha o coração bastante grande para entender a posição de Andrew. Ele havia resgatado Haroun de Sonny e agora concordava em entregar o Mouro de volta para ele, sem rancor.

Antes que o acordo pudesse ser assinado, ele e Sonny tinham de baixar as arm as, e esse era o real propósito da viagem a Nova York. Andrew havia contatado tam bém a agente (e esposa) de Py nchon, Melanie Jackson, e o recluso autor de O arco-íris da gravidade concordou com o encontro. Ao final de duas reuniões, estava tudo com binado. Ele e Py nchon j antaram com Sonny no apartam ento deste na cidade. A rixa com Sonny foi reparada com um abraço e a questão de Haroun não foi discutida. Era o j eito taciturno de Sonny fazer as coisas — deixar coisas inconvenientes por dizer e seguir em frente — e talvez tenha sido m elhor. Então Py nchon chegou, com o exato aspecto que Thom as Py nchon devia ter. Era alto, usava um a cam isa xadrez de lenhador verm elha e branca e calça j eans, tinha o cabelo branco de Albert Einstein e os dentes da frente do Pernalonga. Depois da prim eira m eia hora de conversa form al, Py nchon pareceu relaxar e então falou prolongadam ente sobre a história do trabalhism o am ericano e de sua própria participação no m ovim ento, que vinha dos prim eiros dias de seu trabalho com o escritor técnico na Boeing, do sindicato de escritores técnicos. Era estranho pensar naqueles autores de m anuais do usuário m encionados pelo grande rom ancista am ericano, que eles talvez considerassem com o aquele suj eito que costum ava escrever boletins de segurança para o m íssil cim -10 Bom arc, sem saber que o conhecim ento de Py nchon sobre esse m íssil havia inspirado suas excepcionais descrições dos foguetes V-2 caindo sobre Londres na Segunda Guerra Mundial. A conversa prolongou-se m uito além da m eia-noite. A certa altura, Py nchon disse: “Vocês devem estar cansados, não?”, e, sim , estavam , m as estavam pensando tam bém : Este é Thomas Pynchon, não podemos dormir.

Quando Py nchon finalm ente foi em bora, ele pensou: Tudo bem, então agora somos amigos. Quando vier a Nova York talvez a gente se encontre para um drinque ou para comer alguma coisa e aos poucos vamos nos conhecer melhor.

Mas nunca m ais se encontraram .

 

Dias estim ulantes. Ele deu um a volta de buggy com Gita no parque e, em bora um a velha tenha gritado “Uau!”, ninguém m ais m exeu um dedo. Ele tom ou café da m anhã com Giandom enico Picco, que disse: “Os Estados Unidos são a chave”. Cam inharam por Battery Park e entraram no Lincoln Center. No escritório de Andrew ele teve um a reunião em ocionante com Michael Herr, que se m udara para os Estados Unidos e m orava num a casa no norte do estado na cidade de sua infância, Cazenovia, Nova York, a um pulo de Chittenango, cidade natal de L. Frank Baum , autor de O mágico de Oz. E Sonny deu um a festa para ele, e Paul Auster, Siri Hustvedt, Don DeLillo, Toni Morrison, Susan Sontag, Annie Leibovitz e Paul Sim on estavam todos lá. Seu m om ento favorito naquela noite de liberação, quando se sentiu outra vez parte do único m undo que ele sem pre quisera habitar, foi quando Bette Bao Lord perguntou a Susan Sontag, na cara, realm ente querendo saber a resposta: “Susan, você tem algum a m ania interessante?”.

Ele e Elizabeth foram a Long Island com Andrew e Cam ie Wy lie, à casa deles em Water Mill, e lá se j untaram a eles Ian McEwan, Martin Am is, David Rieff, Bill Buford e Christopher e Carol Hitchens. Andrew deu um a festa em que Susan Sontag revelou um a de suas m anias m ais interessantes. Ela era na realidade duas Susans, a Susan Boa e a Susan Má; enquanto a Susan Boa era brilhante, engraçada, leal e um tanto pretensiosa, a Susan Má podia ser um m onstro violento. Um a j ovem agente da agência Wy lie com entou algum a coisa sobre o conflito da Bósnia que não foi do gosto de Susan, a Susan Má surgiu rugindo de dentro dela e a garota correu o risco de ser devorada. Não era um a luta j usta. Susan Sontag versus aquela m ocinha, que de qualquer form a não podia revidar porque a escritora era um a cliente im portante da agência Wy lie. Era preciso salvar a vida dela, e ele e Bill Buford se aproxim aram e silenciaram a poderosa Sontag, bom bardeando-a com trivialidades. “Ei, Susan, o que você acha da rotação dos Yankees?” “O quê? Do que você está falando? Estou me lixando para a rotação dos Yankees. Eu estava dizendo para esta m ocinha aqui...” “Sei, m as, Susan, você tem de adm itir, El Duque é fantástico.” “Não, isso não im porta, essa m ocinha aqui acha que na Bósnia...” “O que achou do vinho, Susan? Acho que o tinto pode estar um pouco com gosto de rolha.” E por fim Sontag foi silenciada, derrotada pela inconsequência, e a j ovem agente pôde ir em bora.

O tem po em novem bro estava frio, m as eles corriam na praia, brincavam com um a bola de futebol e atiravam pedras na água, faziam tolos j ogos de palavras (O j ogo Títulos que Não Chegavam a Ser Bons, com o por exem plo: Sr. Jivago, Adeus às armas de fogo, Por quem os sinos tocam, Dois dias na vida de Ivan Denisovitch, Mademoiselle Bovary, A história dos Forsyte, O grandioso Gatsby, Motorista de táxi, O amor nos tempos da gripe, Toby Dick, Engano-22, Raspberry Finn) e não havia seguranças à vista. Nesses dias de am izade, ele viu um lam pej o de esperança no futuro. Se os Estados Unidos lhe perm itissem ir para solo am ericano e ali ficar sossegado, assum indo os riscos, talvez fosse a m elhor possibilidade de encontrar algum a liberdade a curto prazo; talvez ele pudesse obter um a liberdade provisória ao m enos, por um m ês, um ano, ou dois, ou três, enquanto lutava por um fim às am eaças. O que era ele, afinal, senão um a m assa oprim ida, ansiando por respirar com liberdade? Ele ouviu a canção da estátua no porto e ela parecia estar cantando para ele.

 

Sua editora no Canadá, Louise Denny s, sobrinha de Graham Greene e m elhor editora de Toronto, além de ser um a m etade do m elhor e m ais bonito casam ento feliz que ele conhecia (do ótim o e igualm ente bonito Ric Young), queria que ele fizesse um a de suas aparições surpresa no evento beneficente anual do pen canadense, do qual ela era presidente. Louise tinha certeza de que em seguida viriam reuniões com os principais políticos e que o Canadá podia ser convencido a “em barcar” entusiasticam ente. Encontraram um avião particular. Era um avião e tanto, com o interior decorado por Ralph Lauren, e foi o voo transatlântico m ais confortável de sua vida. Mas ele preferia ter esperado na fila em Heathrow com o qualquer outro passageiro, viaj ando com o todo m undo viaj ava. Quando a vida consistia num a série de crises e soluções de em ergência, era a norm alidade que parecia um luxo, infinitam ente desej ável, e im possível de obter.

Em Toronto, foram recebidos por Ric Young e pelo rom ancista John Ralston Saul, representando o pen, e levados à casa de Michael Ondaatj e e Linda Spalding. No dia seguinte com eçou o trabalho. Ele foi entrevistado, entre m uitos outros, pelo im portante j ornalista canadense Peter Gzowski, que perguntou, em seu program a de rádio, sobre sua vida sexual. “Sem com entários”, ele respondeu. “Mas isso não quer dizer nada de sexo?”, Gzowski insistiu. Durante o alm oço, ele conheceu o prem iê de Ontario, Bob Rae, cuj a aj uda havia sido crucial para conseguir o avião. Rae era j ovem , sim pático, loiro, usava tênis e disse que tinha concordado em subir ao palco no evento beneficente, em bora sua esposa achasse que podia ser m orto. Acontece que a segurança canadense havia alertado todos os políticos a não se encontrarem com ele; ou isso pode ter sido um a desculpa conveniente. Qualquer que fosse a razão, estava se m ostrando difícil com binar os encontros. Nessa noite, ele e Elizabeth j antaram na casa de John Saul e da j ornalista de televisão e futura governadora-geral do Canadá Adrienne Clarkson, e depois do j antar Adrienne se levantou e cantou para eles “Hello, y oung lovers” com um a voz boa, forte.

Na noite seguinte, estavam todos atrás do palco no Winter Garden Theater e ele vestiu a cam iseta do pen que Ric lhe levara. John Irving chegou, sorridente. Peggy Atwood entrou depressa com um chapéu de caubói e j aqueta franj ada e deu-lhe um beij o. Então com eçou a parte “Rushdie” do program a e a sensação era da m ais alta honra literária, enquanto escritor após escritor contava um a parte da horrenda cronologia da fatwa e depois se sentava no palco. John Irving falou afetuosam ente do prim eiro encontro de am bos m uito tem po antes e leu o com eço e o fim de Os filhos da meia-noite, e em seguida foi Atwood quem o apresentou. Ele entrou no palco e 1200 pessoas abriram a boca e com eçaram a clam ar sua solidariedade e am or. Essa história de se tornar ícone era m uito esquisita, ele pensou. Não se sentia um ícone. Sentia-se... de verdade. Mas naquele m om ento aquilo podia ser a m elhor arm a de que dispunha. O sim bólico ícone Salm an que seus apoiadores haviam construído, um idealizado Salm an da Liberdade que defendia im pecável e inabalavelm ente os valores m ais elevados, reagia e poderia no fim , talvez, derrotar a versão dem oníaca de si m esm o construída por seus adversários. Ele ergueu o braço e acenou, e quando o vozerio silenciou falou com leveza de caça às bruxas, do perigoso poder da com édia, e em seguida leu seu conto “Cristóvão Colom bo e a rainha Isabel da Espanha consum am seu relacionam ento”. Louise quis que ele fizesse isso, para estar ali com o escritor entre gente literária, oferecendo a eles sua escrita. Quando a história term inou, Louise foi até ele e leu um a m ensagem de apoio da secretária de Estado de assuntos externos do Canadá, Barbara Macdougall, e Bob Rae se aproxim ou e o abraçou — o prim eiro chefe de governo do m undo a fazer isso —, e o vozerio com eçou de novo. Foi um a noite que ele nunca esqueceu.

A em baixada iraniana em Ottawa protestou j unto ao governo canadense que não havia sido avisada com antecedência da visita dele. Foi a m elhor piada da sem ana.

 

* * *

 

E antes, durante e depois dessas viagens, ele e Elizabeth se m udaram para sua nova casa. Era um a casa que ele nunca teria escolhido, num a área em que ele nunca desej aria viver; grande dem ais porque os policiais tinham de m orar com ele, cara dem ais, conservadora dem ais. Mas David Ashton Hill tinha feito um trabalho m aravilhoso e Elizabeth a tinha m obiliado lindam ente, ele tinha um fantástico escritório, e acim a de tudo era sua casa, não alugada em nom e dele por representantes atenciosos, nem encontrada para ele por policiais, nem em prestada por am igos por bondade; e ele a adorou, entrou nela num a espécie de êxtase. Não há lugar como a minha casa. O bim bom óvel passou pelo portão eletrônico, a porta blindada da garagem se ergueu e se fechou quando ele passou e lá estava ele. Nenhum policial j am ais o forçaria a sair. Meu irmão, estou velho demais para sair viajando outra vez, dissera Carlos ii depois da Restauração, e ele sentia a m esm a coisa que o rei. Ele pensava tam bém em Martinho Lutero. Hier stehe ich. Ich kann nicht anders. Martinho Lutero não estava falando de bens im obiliários, claro. Mas era assim que ele se sentia. Cá estou eu, disse a si m esm o. Aqui eu tam bém m e sento, trabalho, ando de bicicleta ergom étrica, assisto tv, tom o banho, com o, durm o. Não posso fazer m ais nada.

 

Bill Buford tinha lhe pedido que fosse um dos j urados do prêm io de Melhor Jovem Rom ancista Britânico de 1993. Em 1983, ele estivera na prim eira dessas listas, ao lado de Ian McEwan, Martin Am is, Kazuo Ishiguro, Graham Swift e Julian Barnes. Agora estava lendo o trabalho de j ovens escritores: Jeanette Winterson, Will Self, Louis de Bernières. A. L. Kennedy, Ben Okri, Hanif Kureishi. Seus com panheiros de j úri eram A. S. By att, John Mitchinson, das livrarias Waterstone’s, e o próprio Bill. Houve descobertas agradáveis (Iain Banks) e tam bém decepções (Sunetra Gupta não era cidadã britânica, não podia participar). Concordaram rapidam ente sobre m ais da m etade dos escritores incluídos entre os vinte finalistas e então com eçaram as discordâncias interessantes. Ele discutiu com Antonia By att sobre Robert McLiam Wilson e perdeu. Ela preferia D. J. Tay lor, m as foi um a batalha que ela, por sua vez, não venceu. Houve um desentendim ento quanto a quais filhas de Lucian Freud podiam incluir, Esther Freud ou Rose Boy t. (Esther foi escolhida, Rose não.) Ele era grande adm irador do trabalho de A. L. Kennedy e conseguiu reunir apoio suficiente para superar a oposição de Antonia By att. Era um debate apaixonado, sério e no fim havia dezesseis escritores sobre os quais todos os j urados concordavam e quatro sobre os quais discordavam com igual força. Então foi publicada a lista e as piranhas do pequeno tanque da cena literária londrina pularam em cim a dela.

Harry Ritchie, do The Sunday Times, conseguiu o direito exclusivo de revelar os vinte escolhidos e concordou em apoiar a prom oção devidam ente, m as resolveu arrasar com a lista. Ele telefonou para Ritchie e perguntou: “Você leu todos esses escritores? Porque eu não tinha lido antes de assum ir esse trabalho”. Ritchie adm itiu que, da lista, lera apenas um a m eia dúzia. O que não o im pediu de m enosprezá-los. Aparentem ente, ninguém podia contar nem com seus quinze m inutos de glória antes de com eçarem a atacar. Levava-se um a cacetada na cabeça assim que se saía do ovo. Três dias depois, Jam es Wood, o m alévolo Procusto da crítica literária, que atorm entava suas vítim as na m esa estreita de suas ideologias literárias inflexíveis, esticando-os dolorosam ente ou cortando-os na altura dos j oelhos, deu aos vinte seu tratam ento no The Guardian. Bem -vindos à literatura inglesa, rapazes e garotas.

No Natal, ele e Elizabeth puderam convidar Graham Swift e Candice Rodd a passar o dia com eles. No dia seguinte, Nigella Lawson e John Diam ond, e Bill e Alicj a Buford vieram j antar. Elizabeth, que adorava a festa e todos os seus rituais — ele tinha com eçado a cham á-la afetuosam ente de “fundam entalista natalina” —, ficou m uito feliz de poder “fazer o Natal” para todo m undo. Depois de quatro anos, podiam passar o feriado em sua própria casa, com sua própria árvore, retribuindo aos am igos a hospitalidade e sim patia de anos.

Mas as asas do anj o da m orte nunca estavam m uito longe. A irm ã de Nigella, Thom asina, estava se saindo m al de sua batalha contra o câncer de m am a. Orlando, filho de Antonia Fraser, sofreu um acidente de carro na Bósnia, quebrou m uitos ossos e teve um pulm ão perfurado. Mas sobreviveu. O nam orado da enteada de Ian McEwan estava num a casa que se incendiou em Berlim . Não sobreviveu.

Clarissa telefonou, aos prantos. Tinha recebido um aviso prévio de seis m eses na agência literária ap Watt. Ele falou com Gillon Aitken e Liz Calder. Era um problem a que tinha de ser solucionado.

 

Ele foi fotografado por Terry O’Neill dentro de um a espécie de j aula, para o The Sunday Times. Essa foto iria aparecer na capa da revista de dom ingo, para ilustrar um ensaio dele que receberia o título de “O últim o refém ”. Ao segurar as grades enferruj adas que O’Neill havia encontrado para ficar na sua frente, ele pensou se algum dia j ornalistas e fotógrafos voltariam a se interessar por ele com o rom ancista. Não parecia provável. Tinha acabado de ouvir da parte de Andrew que, apesar dos esforços da agência, a Random House se recusara a assum ir a publicação de Os versos satânicos em brochura. O consórcio não podia ser dissolvido ainda. No entanto, Andrew acrescentou, m uitas figuras im portantes da Random House — Frances Coady e Sim on Master, do escritório de Londres, e Sonny Mehta, em Nova York — declararam estar “m uito zangadas” com essa recusa dos chefões (os m esm os chefões que, ao se recusar a participar do consórcio para a publicação da brochura, tinham dito “não ser pressionados por nenhum m aldito agente”) e prom eteram trabalhar para “virar o j ogo”.

 

Um a viagem política a Dublin. Elizabeth e ele foram convidados a ficar na casa de Bono, em Killiney. Havia um a linda casinha de hóspedes no fundo do j ardim dos Hewson com um a vista em cinem ascope da baía de Killiney . Os convidados eram estim ulados a assinar seus nom es e rabiscar m ensagens ou desenhos na parede do banheiro. Na prim eira noite, ele teve um encontro com escritores irlandeses na casa do j ornalista do The Irish Times Paddy Sm y th, cuj a m ãe, a em inente rom ancista Jennifer Johnston, contou a história que Tom Maschler havia lhe contado em Jonathan Cape, depois de ler o prim eiro rom ance dela: ele achou que ela não era escritora e nunca m ais escreveria outro livro, razão por que não ia publicar aquele que havia escrito. Então houve fofocas literárias, m as tam bém trabalho político. O ex-prim eiro-m inistro Garret Fitzgerald foi um dos m uitos políticos presentes e todos se com prom eteram a apoiá-lo.

A presidente Mary Robinson o recebeu na residência oficial, Phoenix Park — seu prim eiro encontro com um chefe de Estado! —, ouviu com olhos brilhantes e em silêncio enquanto ele expunha seu caso. Ela falou pouco, m as m urm urou: “Não é pecado ouvir”. Ele falou na conferência de livre discurso “Let in the light”, no Trinity, e depois, durante o coquetel para os palestrantes, um a m ulher baixinha e forte e se aproxim ou e disse que, com o ele havia se oposto à regulam entação cham ada Seção 31, que expulsava o Sinn Féin da televisão irlandesa, “você elim inou todo risco a si m esm o de nossa parte”. “Sei”, ele disse, “e quem é esse ‘nós’?” A m ulher olhou nos olhos dele. “Você sabe m uito bem quem som os nós, porra”, ela disse. Depois de receber esse salvo-conduto do ira, ele foi levado ao legendário program a de entrevistas Late Late Show, de Gay By rne, e, com o Gay disse que tinha lido Os versos satânicos e gostado, a Irlanda inteira concluiu que o livro e seu autor deviam ser bons.

De m anhã, ele visitou a torre Martello, onde o altivo e gordo Buck Mulligan m orou com Stephen Dedalus, e subindo a escada para a cobertura da torre sentiu o que tantos sentiram antes dele, com o se estivesse entrando no rom ance de Joy ce. Introibo ad altare Dei, disse, baixinho. Depois, no Abbey Theater, um alm oço com escritores e um novo m inistro das Artes, o poeta Michael D. Higgins, e todos usando o button sou salm an rushdie. Depois do alm oço, dois outros Salm an Rushdies, Colm Tóibín e Derm ot Bolger, o levaram para um passeio em Howth Head (os agentes da força de paz Garda acom panhando a um a distância polida) e o guarda do farol, John, perm itiu que ele acendesse a luz. No dom ingo, Bono o levou escondido para um bar em Killiney, sem com unicar à Garda, e durante m eia hora ele ficou tonto com a liberdade sem proteção e talvez graças à Guinness sem proteção tam bém . Quando voltaram para a casa dos Hewson, a Garda olhou para Bono com um a triste acusação, m as evitou usar palavras duras com o filho favorito de seu país.

 

No The Independent on Sunday, ele era atacado pela direita e pela esquerda; o príncipe de Gales disse que ele era um m au escritor que custava m uito caro proteger, enquanto o j ornalista de esquerda Richard Gott, velho sim patizante soviético que fora forçado a se dem itir do The Guardian quando ficou provado que havia “aceitado ouro verm elho”, atacou suas opiniões políticas e sua escrita “alienada”. Ele sentiu de repente, com a força de um a epifania, a verdade do que tinha escrito em “Em boa-fé”: que a liberdade era sem pre tom ada, nunca dada. Talvez ele devesse recusar a proteção e sim plesm ente viver sua vida. Mas teria o direito de levar Elizabeth e Zafar a um futuro arriscado? Não seria irresponsabilidade? Devia discutir isso com Elizabeth e Clarissa tam bém .

Um novo presidente tom ou posse em Washington. Christopher Hitchens telefonou. “Clinton sem dúvida é pró-você”, disse. “Isso é garantido.” John Leonard publicou um texto na revista The Nation recom endando que o novo presidente, conhecido com o leitor sério e que tinha dito que seu livro favorito era Cem anos de solidão, de García Márquez, lesse Os versos satânicos.

Nos anos 1980, os Bailes da Polícia Secreta eram eventos beneficentes de levantam ento de fundos para a Anistia Internacional, m as os com ediantes e m úsicos que participavam quase certam ente não estavam inform ados de que a polícia secreta realm ente tinha um baile — ou pelo m enos um a festa bem grande. Todo inverno, por volta de fevereiro, a festa anual do Esquadrão “A” tom ava conta do Peelers, o grande espaço de bar-restaurante do piso superior da New Scotland Yard, e a lista de convidados era diferente de qualquer outra em Londres. Todos os que recebiam ou tinham recebido proteção eram convidados, e todos esses “im portantes” faziam todo o possível para com parecer, com o form a de agradecim ento aos agentes que tinham cuidado deles. Prim eiros-m inistros do passado e do presente, secretários de Estado da Irlanda do Norte, m inistros da Defesa, secretários do Exterior de am bos os partidos principais fofocavam e bebiam com os agentes de proteção e os Motoristas Doidões. Além disso, as equipes de proteção podiam convidar alguns de seus principais am igos e colegas que tivessem sido especialm ente colaborativos. Isso rendia um a sala bem cheia.

Naquela época, ele dizia que, se algum dia escrevesse a história de sua vida, o título seria As portas dos fundos do mundo. Qualquer um podia entrar pela porta da frente. Você tinha de ser realm ente alguém para entrar pela porta da cozinha, pela entrada de serviço, pela j anela de trás, pela lixeira. Mesm o quando foi levado ao baile da polícia secreta na New Scotland Yard, ele entrou pelo estacionam ento do subsolo e foi conduzido ao andar superior num elevador isolado para seu uso. Os outros convidados usaram a entrada principal, m as ele era o cara da entrada dos fundos. Contudo, um a vez no Peelers, ele era parte daquela alegre m ultidão — alegre, em parte, porque aparentem ente os únicos drinques servidos eram enorm es copos de uísque ou gim — e todos os m em bros de “sua” equipe vieram cum prim entá-lo com um anim ado “Joe!”.

Os agentes de proteção se divertiam especialm ente ao j untar celebridades que nunca se encontrariam norm alm ente, só para ver o que acontecia. Eles o conduziram por entre a m ultidão até o lugar onde um frágil idoso, com os restos de um fam oso bigode, estava parado, ligeiram ente curvado, ao lado da esposa solícita. Na verdade, ele j á havia topado com Enoch Powell um a vez antes, nos anos 1970, quando m orava na casa de Clarissa na Lower Belgrave Street. Fora com prar j ornal num a banca próxim a, Quinlan, e lá estava Powell vindo em sua direção. Powell no auge de sua fam a diabólica, poucos anos depois dos “rios de sangue” do discurso anti-im igrantes que destruíra sua carreira política. Como os romanos, parece que vejo o rio Tibre espumando com muito sangue, ele dissera, expressando o m edo que todos os racistas britânicos sentiam de estrangeiros m orenos. Nesse dia, na banca de j ornais Quinlan, o j ovem e não violento im igrante pensou seriam ente em dar um soco no nariz do notório Enoch e ficou para sem pre um pouco decepcionado consigo m esm o por não tê-lo feito. Mas a Lower Belgrave Street estava cheia de gente que precisava de um nariz sangrando — m adam e Som oza, a esposa do ditador, que m orava no vizinho núm ero 35, e aqueles bondosos Lucan do núm ero 46 (na época, lorde Lucan ainda não havia tentado m atar a esposa, m atando a babá em seu lugar; m as estava se encam inhando para isso). Quando se com eça a socar as pessoas é difícil saber onde parar. Talvez tivesse sido um a boa ideia se afastar de Enoch com seus olhos brilhantes e seu lábio superior pós-hitleriano.

E, vinte anos depois, ali estava Powell outra vez. “Não”, ele disse a seus protetores. “Não, prefiro que não.” E vieram os protestos de “Ah, vam os lá, Joe, ele é só um coroa agora” e aquele que conseguiu vencer suas defesas: “A senhora Powell, está vendo, Joe”, disse Stanley Doll, “é um a vida dura para ela cuidar do velho. Ela realm ente quer conhecer você. Seria m uito im portante”. Assim , foi com Margaret Powell que ele e Elizabeth concordaram em se encontrar. Ela vivera em Karachi quando j ovem , no m esm o bairro que m em bros da fam ília dele, e queria falar dos velhos tem pos. O velho Enoch ficou ao lado dela, curvado, balançando a cabeça, em silêncio, decrépito dem ais para m erecer um soco. Depois de um intervalo cortês, ele pediu licença, pegou Elizabeth pelo cotovelo, virou-se e lá estava Margaret Thatcher, olhando diretam ente para ele com sua bolsa, seu cabelo cheio de laquê e seu sorriso m eio de lado.

Ele j am ais teria pensado que a Dam a de Ferro fosse um a pessoa am eaçada. Ao longo de toda a breve conversa, a ex-prim eira-m inistra o tocou com a m ão. Olá, meu caro, a m ão pousada de leve nas costas da m ão dele, como está indo?, a m ão dela com eçando a alisar seu antebraço, estes homens maravilhosos estão cuidando bem de você?, a m ão dela no om bro dele agora, era m elhor falar algum a coisa, ele disse a si m esm o, antes que ela com eçasse a acariciar seu rosto. “Estão, sim , obrigado”, ele disse, e ela se inclinou naquele fam oso aceno de bonequinho com a cabeça presa por um a m ola que fica balançando quando tocada. Ótimo, ótimo, a m ão acariciou seu braço outra vez, então, cuide-se bem, e teria term inado aí, não fosse Elizabeth interrom per para perguntar, com m uita firm eza, o que o governo britânico se propunha a fazer em relação às am eaças. Lady Thatcher pareceu ligeiram ente surpresa de ouvir palavras tão duras saindodos lábios de um a j ovem tão linda, e seu corpo se enrij eceu um pouco, Ah, minha cara, e agora era Elizabeth que ela acariciava, é, deve ser muito preocupante para você, mas acredito que nada vá mudar de fato enquanto não houver uma mudança de regime em Teerã. “É isso?”, Elizabeth perguntou. “É essa a sua política?” A m ão de Thatcher recolheu-se. O olhar firm e m udou e focalizou o infinito. Houve um vago aceno de cabeça, um som de Mmm perdido e ela se afastou.

Elizabeth ficou zangada o resto da noite. É isso? É só isso o plano deles? Mas ele pensou em Margaret Thatcher acariciando seu braço e sorriu.

 

O quarto aniversário da fatwa foi tão acalorado com o sem pre. Os m esm os ruídos de gelar o sangue em anaram de Teerã, onde o aiatolá Kham enei, o presidente Rafsanj ani, Nateq-Nouri, porta-voz do Parlam ento iraniano, e outros estavam claram ente abalados com o volum e crescente de obj eções oficiais a seu pequeno plano assassino. Suas am eaças recebiam respostas do Congresso dos Estados Unidos, da Com issão para os Direitos Hum anos da onu e até do governo britânico. Douglas Hurd falou em Estrasburgo e seu representante Douglas Hogg falou em Genebra, identificando o caso Rushdie com o “um a questão de direitos hum anos de grande im portância”. A Noruega estava em bargando um acordo de petróleo com o Irã; um a linha de crédito de 1 bilhão de dólares prom etida pelo Canadá ao Irã tam bém estava bloqueada. Ele próprio se via num lugar inesperado: pronunciando o serm ão — ou, com o não era um hom em do clero, o discurso — do púlpito da capela do King’s College.

Antes que ele com eçasse a falar, o reitor do King’s o alertou sobre o eco. “Faça pausas depois de poucas palavras”, ele disse, “senão a reverberação torna sua fala inaudível.” Ele sentiu que estava sendo introduzido num m istério: então era por isso que os serm ões sem pre soavam daquele j eito. “Estar aqui... nesta casa... é recordar... o que há de m ais belo... na fé religiosa”, ele com eçou a dizer, e pensou: Estou falando como um arcebispo. Ele prosseguiu, falando na casa de Deus sobre as virtudes do secularism o, e lam entando a perda de outros que com bateram o bom com bate — Farag Fouda no Egito, e agora o j ornalista m ais conhecido da Turquia, Ugur Mum cu, assassinado por um a bom ba em seu carro. A crueldade dos religiosos invalidavam suas pretensões de virtude. “Assim com o... esta capela... pode ser tom ada... com o sím bolo... do que há de m elhor... na religião...”, ele disse com sua m elhor dicção eclesiástica, “a fatwa... passou a ser... um sím bolo... do que há de pior. A fatwa em si... pode ser vista... com o um conj unto... de versos satânicos m odernos. Na fatwa... um a vez m ais... o m al... assum e a form a... de virtude... e os fiéis... são... enganados.”

 

No dia 26 de fevereiro de 1993, o World Trade Center em Nova York foi bom bardeado por um grupo liderado por um hom em do Kuwait cham ado Ram zi Yousef. Seis pessoas m orreram , m ais de m il ficaram feridas, m as as torres não caíram .

 

Am igos estavam lhe dizendo que a cam panha estava se tornando m uito eficaz e que ele estava se conduzindo bem , m as caía com m uita frequência no que Winston Churchill cham ara de “cachorro preto” da depressão. Lá fora, no m undo, ele conseguia lutar, ensinara a si m esm o a fazer o que tinha de ser feito. Quando chegava em casa, sem pre despencava, e era Elizabeth que cuidava do desastre. David Gore-Booth contou que o Foreign Office havia conversado com a British Airway s, m as a com panhia aérea estava decidida a não transportá-lo. Tom Phillips tinha term inado seu retrato do sr. Jovialidade e ofereceu-o à National Portrait Gallery, que resolveu não adquiri-lo “neste m om ento”. Às vezes, quando chegavam notícias desse tipo, ele bebia dem ais — nunca tinha sido um grande bebedor antes da fatwa —, e então seus dem ônios não podiam ser controlados e havia certo nível de m au hum or induzido pelo álcool. Tom Phillips lhe deu de presente o retrato Sr. Jovialidade; quando ele tentou pendurá-lo, descobriu que sua caixa de ferram entas havia desaparecido e explodiu num a raiva excessiva que Elizabeth considerou insuportável, e ela caiu em prantos. E disse a ele que a ideia de desistir da proteção era loucura, que ela não viveria com ele num a casa desprotegida. Se ele desistisse da proteção, m oraria ali sozinho.

Continuar: parte 3 de 4