Joseph Anton: Memórias
6. Por que é impossível fotografar os pampas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Depois disso, ele foi m ais cuidadoso com os sentim entos dela. Ela era um a m ulher valente, am orosa, e era sorte dele tê-la a seu lado, não ia se perm itir estragar tudo. Resolveu elim inar totalm ente o álcool e, em bora não conseguisse inteiram ente, as noites de excesso chegaram ao fim e ele retom ou a m oderação. Não ia cum prir a m aldição de Marianne e se transform ar num alcoólatra com o o pai. Ele se recusava a transform ar Elizabeth num a versão de sua própria m ãe sofredora.
Doris Lessing estava escrevendo suas m em órias e foi discutir o livro com ele. A m aneira de Rousseau, ela disse, era a única m aneira; você tinha de dizer a verdade, contar o m áxim o de verdade possível. Mas escrúpulos e hesitações eram inevitáveis. “Naquela época, Salm an, eu era um a m ulher bonita e havia nesse fato im plicações que você talvez não tenha levado em conta. As pessoas com quem eu tive, ou quase tive, rom ances... m uitos eram fam osos e vários ainda estão vivos. Eu penso m esm o em Rousseau”, ela acrescentou, “e espero que este livro sej a um trabalho em ocionalm ente honesto, m as será j usto ser honesto com as em oções dos outros?” De qualquer form a, ela concluiu, os problem as reais estariam no volum e dois. Ela ainda estava escrevendo o volum e um , cuj os personagens estavam todos m ortos ou “não se im portavam m ais”. Com m uitas risadas, ela foi em bora para escrever, estim ulando-o a fazer a m esm a coisa. Ele queria dizer, m as não disse, que estava de novo im aginando um a vida sem ser escritor, pensando na paz e na tranquilidade, talvez m esm o na alegria, dessa vida. Mas estava decidido a term inar o livro que estava escrevendo. Esse últim o suspiro ao m enos.
E o livro progredia devagar. Em Cochin, Abraham Zogoiby e Aurora da Gam a estavam se apaixonando com um “am or ardido”.
Em m eados de m arço ele finalm ente conseguiu voar para Paris. Os assustadores hom ens da Raid o cercaram quando ele desceu do avião e inform aram -lhe que tinha de fazer exatam ente, exatamente, o que eles m andassem . Levaram -no em alta velocidade até o Grande Arche de la Défense e lá estava Jack Lang, m inistro da Cultura e núm ero dois do governo francês, esperando para cum prim entá-lo ao lado de Bernard-Henry Lévy e levá-lo ao auditório. Ele tentou não pensar na m onstruosa operação de segurança em toda a volta do Arche e se concentrar na m ultidão excepcional à sua espera, que parecia reunir toda a intelligentsia e a elite política da direita e da esquerda. (Exceto Mitterrand. Sem pre, naqueles anos na França, sauf Mitterrand.) Bernard Kouchner e Nicolas Sarkozy, Alain Finkielkraut e Jorge Sem prún, Philippe Sollers e Elie Wiesel lado a lado, com portando-se cordialm ente uns com os outros. Patrice Chéreau, Françoise Giroud, Michel Rocard, Ism ail Kadaré, Sim one Veil — era um a sala poderosa.
Jack Lang, abrindo a program ação, disse: “Devem os hoj e agradecer a Salm an Rushdie, porque ele uniu a cultura francesa”. Isso produziu um a grande risada. Então, por duas horas, houve um intenso período de perguntas. Ele esperava ter causado um a boa im pressão, m as não havia tem po para descobrir isso, porque assim que a reunião term inou a equipe da Raid o tirou depressa da sala e levou-o em bora o m ais depressa possível. Iam levá-lo à em baixada britânica, que, sendo tecnicam ente solo britânico, era o único lugar em Paris onde ele podia passar a noite. Um a noite. O em baixador britânico, Christopher Mallaby, recebeu-o com grande am izade e cortesia e tinha até m esm o lido alguns de seus livros. Mas tam bém foi deixado claro que era um convite para um a só noite. Ele não podia pensar na em baixada com o seu hotel em Paris. Na m anhã seguinte, foi levado para o aeroporto e despachado da França.
No traj eto de ida e volta da em baixada, ficou chocado com a notícia de que a place de la Concorde estava fechada ao tráfego. Todas as ruas que davam para a Concorde estavam bloqueadas por policiais, para que ele, em sua caravana Raid, pudesse passar sem im pedim ento pela place. Ele ficou triste. Não queria ser a pessoa por quem fechavam a Concorde. A caravana passou por um café-bistrô e todo m undo que tom ava seu café debaixo do toldo olhou em sua direção com curiosidade e um certo ressentim ento se m isturando em seus rostos. Será, ele pensou, que algum dia serei de novo uma dessas pessoas tomando um café na calçada e olhando o mundo passar?
A casa era bonita, m as parecia um a gaiola dourada. Ele havia aprendido a suportar os ataques islâm icos a ele; afinal não era surpresa que fanáticos e preconceituosos continuassem a se com portar com o preconceituosos e fanáticos. Era m ais difícil lidar com a crítica britânica não m uçulm ana, que estava aum entando de volum e, e com a aparente falsidade do Foreign Office e do governo de John Maj or, que constantem ente prom etia um a coisa e fazia outra. Ele escreveu um artigo furioso, revelando toda a sua raiva e decepção. Cabeças m ais frias — Elizabeth, Frances e Gillon — convenceram -no a não publicá-lo. Achava, olhando para trás, que tinha sido um erro seguir o conselho deles. Toda vez que tinha escolhido se calar durante esse período de sua vida — por exem plo, durante o ano entre a fatwa e a publicação de “Em boa-fé” — o silêncio depois parecera um erro.
Na segunda feira, 22 de fevereiro, o escritório do primeiro-ministro anunciou que o sr. Major concordara em princípio em se encontrar comigo, como demonstração da determinação do governo de defender a liberdade de expressão e o direito de seus cidadãos a não serem assassinados por criminosos a soldo de um poder estrangeiro. Mais recentemente, foi marcada uma data para o encontro. Imediatamente, uma vociferante campanha dos membros menores do partido tóri procuraram fazer o encontro ser cancelado, por causa da interferência que ele significaria na “associação” da Grã-Bretanha com os mulás assassinos de Teerã. O encontro — que me asseguraram estar “tão garantido quanto possível” — foi hoje adiado sem explicação. Por uma curiosa coincidência, uma delegação comercial ao Irã prevista para maio poderá agora ocorrer sem embaraço. O Irã está saudando essa visita — a primeira desse tipo em catorze anos, desde a revolução de Khomeini — como um “avanço” nas relações entre os países. Sua agência noticiosa afirma que a Grã-Bretanha prometeu que disponibilizará linhas de crédito.
Está ficando cada vez mais difícil confiar na decisão do Foreign Office de lançar uma nova iniciativa internacional de “grande visibilidade” contra a notória fatwa. Pois não só corremos a fazer negócios com o regime tirânico, que a administração americana chama de “os fora da lei internacionais” e considera os maiores patrocinadores do terrorismo mundial, como também propomos emprestar o dinheiro com que farão negócios conosco. Enquanto isso, suponho que irão me oferecer uma nova data para meu pequeno encontro. Mas ninguém do número 10 da Downing Street falou comigo ou me escreveu.
O grupo de pressão tóri “anti-Rushdie” — sua própria descrição demonstra o desejo de seus membros de transformar essa questão em uma questão de personalidade, mais que de princípio — tem entre seus membros sir Edward Heath e Emma Nicholson, assim como o conhecido apologista dos interesses iranianos Peter Temple-Morris. Emma Nicholson nos diz que passou a “respeitar e gostar” do regime iraniano (cujo índice de mortes, mutilações e tortura de seu próprio povo acaba de ser condenado pelas Nações Unidas como um dos piores do mundo), enquanto sir Edward, ainda protegido pela Divisão Especial porque, vinte anos atrás, o povo inglês sofreu com seu governo enquanto primeiro-ministro, critica a decisão de oferecer proteção semelhante a um compatriota britânico que se encontra atualmente em perigo maior que ele. Todas essas pessoas concordam num ponto: a crise é culpa minha. Não importa que duzentos dos mais notáveis iranianos no exílio tenham assinado uma declaração de absoluto apoio a mim. Que esses escritores, pensadores, jornalistas e acadêmicos de todo o mundo muçulmano — onde o ataque à dissidência, cada vez mais intenso e acima de qualquer ideia secular, está ganhando força — tenham declarado à imprensa britânica que “defender Rushdie é defender a nós mesmos”. Que Os versos satânicos, uma obra legítima de imaginação livre, tenha muitos defensores (e, onde existem ao menos duas posições, por que os queimadores de livros têm a última palavra?) ou que seus oponentes não tenham sentido nenhuma necessidade de entender o livro.
Funcionários iranianos admitiram que Khomeini não chegou nem a ver um exemplar do romance. Juristas islâmicos declararam que a fatwa contraria a lei islâmica, sem falar da lei internacional. Enquanto isso, a imprensa iraniana oferece um prêmio de dezesseis moedas de ouro e uma peregrinação a Meca por um cartum que “prove” que Os versos satânicos não é absolutamente um romance, mas uma conspiração ocidental cuidadosamente engendrada contra o islã. Essa história toda não parece, às vezes, a mais negra das black com edies — uma atração de circo representada por palhaços assassinos?
Nos últimos quatro anos, fui difamado por muita gente. Não pretendo continuar dando a outra face. Se era certo atacar aqueles esquerdistas que eram companheiros de viagem do comunismo, e aqueles direitistas que procuravam apaziguar os nazistas, então os amigos do Irã revolucionário — empresários, políticos ou fundamentalistas britânicos — merecem ser tratados com igual desprezo.
Acredito que atingimos um ponto decisivo. Ou defendemos a sério a liberdade,ou não a defendemos. Se sim, então espero que o sr. Major muito em breve se disponha a levantar-se e cumprir o prometido. Gostaria muito de discutir com ele como aumentar a pressão sobre o Irã — na Comunidade Europeia, através da Commowealth e das Nações Unidas, no Tribunal Internacional de Justiça. O Irã precisa de nós mais que nós precisamos do Irã. Em vez de tremer quando os mulás ameaçam cortar os laços comerciais, sejamos nós a apertar os parafusos da economia. Em minhas conversas pela Europa e Estados Unidos, descobri um interesse generalizado de todos os partidos na ideia de uma proibição de oferta de crédito ao Irã, como primeiro estágio. Mas todos esperam que o governo britânico assuma a liderança. No jornal de hoje, porém, Bernard Levin sugere que dois terços de todos os tóris membros do Parlamento ficariam muito satisfeitos se assassinos iranianos conseguissem me assassinar. Se os membros do Parlamento efetivamente representam a nação — se estamos tão despreocupados com nossas liberdades —, então que seja: suspendam a proteção, revelem meu paradeiro e deixem virem as balas. De um jeito ou de outro. Vamos tomar uma decisão.
O m uito adiado encontro com John Maj or finalm ente aconteceu em 11 de m aio, em sua sala na Câm ara dos Com uns. Ele falou com Nigella Lawson antes do encontro e o equilíbrio dela foi um a grande aj uda. “Maj or não tem com o recusar a aj uda a você”, ela disse. “O m au estado da econom ia está a seu favor, porque, se ele não pode falar de sucesso econôm ico, terá de buscar algum a força m oral.” Ela tinha tam bém um a boa notícia: estava grávida. Ele contou isso a Elizabeth, sabendo que ela queria m uito engravidar tam bém . Mas com o podiam pensar em trazer um a criança àquele pesadelo, àquela branda prisão em que se encontravam ? E depois havia a translocação crom ossôm ica recíproca, que transform ava a gravidez num a roleta biológica. Um bebê não parecia a opção m ais sábia para um hom em que estava para im plorar ao prim eiro-m inistro aj uda para salvar a própria vida.
O prim eiro-m inistro não estava usando o sorriso de bom suj eito que era sua m arca registrada, nem falou sobre críquete. Ele pareceu fechado, talvez até m esm o um pouco defensivo, um hom em que sabia que ia ouvir pedidos para fazer coisas que talvez não quisesse fazer. Ele disse abertam ente que não seriam feitas fotografias desse encontro porque queria “m inim izar a reação do Irã e de seus próprios partidários”. Era um m au com eço.
“Eu gostaria de agradecer os quatro anos de proteção”, ele disse a Maj or. “Sou im ensam ente grato aos hom ens que cuidam de m im , arriscando a própria vida.” Maj or pareceu chocado. Esse não era o Rushdie que ele esperava, aquele que o Daily Mail descrevia com o “m alcriado, taciturno, deselegante, tolo, rabugento, feio, radical, arrogante e excêntrico”. Ficou logo claro que o prim eiro-m inistro tinha o Daily Mail na cabeça. (O j ornal havia publicado um editorial se opondo ao encontro.) “Talvez o senhor deva dizer coisas assim m ais frequentem ente em público”, ele disse, “para corrigir a im pressão que as pessoas têm a seu respeito.” “Prim eiro-m inistro”, ele replicou, “digo isso todas as vezes que falo com j ornalistas.” O político anuiu vagam ente, m as pareceu m ais relaxado e afável. Daí em diante, o encontro correu bem . Não era a prim eira nem a últim a vez que as pessoas descobriam , quando ele conseguia apagar de seus olhos o Rushdie de cartum do tabloide, que era um a pessoa bastante cordial. “O senhor engordou”, Maj or disse de repente. “Muito obrigado, prim eiro-m inistro”, ele respondeu. “Devia fazer o m eu trabalho”, acrescentou o prim eiro-m inistro, “perderia peso num piscar de olhos.”
“Ótim o”, ele respondeu. “Faço o seu trabalho se o senhor fizer o m eu.” Depois disso, ficaram quase am igos.
Maj or expressou sua concordância com a abordagem de alta visibilidade. “Você devia ir ao Japão e fazê-los tom ar vergonha e agir”, ele disse. Os dois discutiram um a resolução da Com m onwealth de que o Irã não podia caracterizar a questão com o um a diferença de opinião entre Oriente e Ocidente. Falaram do Tribunal Internacional de Justiça; Maj or não queria levar o caso a ela porque não queria “pintar o Irã encurralado”. E concordaram quanto ao valor de um encontro com o presidente Clinton. Ele contou ao prim eiro-m inistro o que Picco, o negociador de sequestros da onu, tinha dito. Os Estados Unidos são a chave. Maj or assentiu e olhou para seus auxiliares. “Vam os ver o que podem os fazer para aj udar”, disse.
Quando a notícia do encontro foi divulgada, ao lado de um a declaração do prim eiro-m inistro condenando a fatwa, o j ornal oficial do regim e iraniano reagiu com fúria. “O autor de Os versos satânicos irá, literalm ente, ser castigado.” Era um j ogo de alto risco. Ele estava deliberadam ente tentando subir as apostas e até esse ponto os iranianos estavam firm es, recusando-se a se dobrar. Mas agora só havia um cam inho a seguir. Ele tinha de subir de novo.
Clarissa telefonou para dizer que estava com um nódulo no seio, “e a probabilidade de que sej a câncer está num a escala de quatro para cinco”. Dentro de seis dias ela ia rem over o nódulo e fazer um a biópsia e o resultado estaria disponível um a sem ana depois. Havia um trem or em sua voz, m as ouvia-se a usual coragem estoica tam bém . Ele ficou m uito abalado. Telefonou de volta m inutos depois e se ofereceu para pagar por um tratam ento particular, tudo que ela precisasse. Conversaram sobre a possibilidade de evitar um a m astectom ia com pleta e ele passou a inform ação que havia recebido de Nigella e Thom asina sobre a alta qualidade da unidade de câncer de m am a do Guy ’s Hospital e o nom e do especialista, sr. Fentim an. A revista do The Sunday Times tinha publicado um a m atéria de capa sobre câncer de m am a e lá estava Fentim an de novo. Ele pensou: Ela tem de superar isso. Não merece uma coisa dessas. Ela vai superar. Ele e Elizabeth fariam tudo que pudessem . Mas diante da doença fatal a pessoa está sem pre sozinha. E Zafar teria de enfrentar isso tam bém ; Zafar, que j á passara quatro anos tem endo por um pai. O golpe tinha vindo não da direção que ele esperava. Agora era o genitor “seguro” que estava em perigo. Pensar no futuro era inevitável. Com o ele poderia dar um a vida decente a Zafar se o m enino perdesse a m ãe? Ele teria de viver naquela casa secreta, m as que fazer quanto a escola, am igos, vida no m undo “real”? Com o poderia aj udá-lo a curar a ferida de um a perda tão terrível?
Ele disse a Elizabeth que parecia que m etade da vida era um a espécie de luta pela luz do sol. Cinco m inutos ao sol e depois você é arrastado de volta para o escuro e m orre. Assim que disse isso, ele ouviu o personagem de Flory Zogoiby dizer isso tam bém , a m ãe de Abraham em O último suspiro do mouro. Não havia lim ite para a falta de vergonha na im aginação literária? Não. Não havia lim ites.
Ele contou ao agente de proteção Dick Billington sobre a possibilidade de Clarissa estar com câncer e Dick disse: “Ah, as m ulheres estão sem pre doentes”.
Sam een contou que tinha tido um a longa conversa com Clarissa, que queria relem brar os velhos tem pos. Ela havia sido valente, m as dissera que “j á basta de m á sorte”. A doença de Clarissa levou Sam een a pensar sobre sua própria m ortalidade. Ela queria perguntar se ele assum iria a guarda de suas filhas se ela e o pai delas m orressem .
Ele disse que sim , claro, m as que ela devia ter um plano B, considerando o perigo de vida que ele próprio corria.
Os resultados dos exam es chegaram do Bart’s — St. Bartholom ew’s Hospital — e eram m uito ruins m esm o. Clarissa tinha um carcinoma ductal invasivo, e havia sido detectado com talvez dezoito m eses de atraso. Seria preciso um a cirurgia radical. O câncer “provavelm ente” havia se espalhado pelo sistem a linfático. Ela teria de fazer exam es de sangue, e seus pulm ões, fígado e m edula óssea tam bém seriam exam inados. Ela falava com sua voz m ais controlada, m as dava para ouvir o terror debaixo das palavras. Zafar abraçou-a com força, disse ela, e ela quase chorou. Tinha j á, com grande esforço, se acostum ado à necessidade da m astectom ia, m as o que ia fazer, disse, se as notícias do fígado e da m edula fossem ruins? Com o encarar a inevitabilidade da m orte?
Ele telefonou para Nigella. Um hom em que ela conhecia estava experim entando novas técnicas para o tratam ento de câncer de fígado e obtendo algum sucesso. Era pouco a que se apegar, m as j á era algum a coisa.
Zafar foi dorm ir em casa. Ele estava sufocando os sentim entos. Sua m ãe sem pre fizera a m esm a coisa diante da adversidade. “Com o está m am ãe?” “Bem .” Era m elhor deixá-lo lidar com a notícia devagar, no seu próprio ritm o, em vez de se sentar com ele e apavorá-lo. Clarissa tinha falado com ele e usado a palavra câncer. Ele respondeu: “Você j á m e disse isso”. Mas ela não tinha dito.
Os resultados dos exam es chegaram . O sangue, os pulm ões, o fígado e a m edula óssea estavam todos livres de câncer. Mas era um “câncer ruim ”, disseram a ela. A m astectom ia era inevitável, e dez nódulos linfáticos teriam de ser rem ovidos tam bém . Ela quis um a segunda opinião. Ele quis que ela ouvisse um segundo m édico. Ele cobriria todos os custos. Ela foi a um oncologista altam ente recom endado, cham ado Sikora, no Ham m ersm ith Hospital, e Sikora não achou que fosse necessário fazer a m astectom ia. Com a rem oção do nódulo, ela podia fazer quim ioterapia e radioterapia e isso daria conta do recado. Quando soube que não iria perder os seios, ela ficou im ensam ente m ais leve. Era um a m ulher bonita e tinha sido difícil suportar a ideia da m utilação dessa beleza. Então ela teve de se consultar com o cirurgião que faria a rem oção do nódulo, um hom em cham ado Linn, e ele se revelou um a besta. Querida, ele a cham ou em sua voz pegaj osa, meu bem, por que você recusa tanto essa operação? Disse a ela que devia fazer a m astectom ia, contradizendo diretam ente o chefe de oncologia, Sikora, destroçando sua confiança recente e elim inando a j ustificativa de ter m udado do Ham m ersm ith Hospital para o Bart’s, onde tivera aconselham ento que valorizava e m édicos de que gostava de fato. Clarissa com eçou a entrar em pânico e ficou perto da histeria durante dois dias, até conseguir falar com Sikora de novo. Ele garantiu que o curso de ação proposto era o que iam seguir. Ela se acalm ou, e levou Zafar para um a sem ana de ciclism o pela França.
Sam een disse que seu am igo Kishu, cirurgião em Nova York, havia lhe dito que não se devia brincar com um câncer invasivo desse tipo, m as sim fazer a m astectom ia. No entanto, o rum o da não m astectom ia dera um im enso ânim o a Clarissa. Era difícil saber com o aconselhá-la. Ela não quis o conselho dele.
Seu advogado, Bernie Sim ons, telefonou. A sentença provisória de divórcio saíra e a separação de Marianne estaria com pleta dentro de algum as sem anas, quando recebessem a sentença definitiva.
Ele recebeu um recado de Bernard-Henri Lévy. Era um a boa notícia: ele recebera um prêm io suíço très important, o Prix Colette, da Feira de Livros de Genebra. Tinha de ir para a Suíça na sem ana seguinte e receber o prêm io num a grande cerim ônia form al na feira. Mas o governo suíço declarou-o visitante indesej ado e disse que se recusava a fornecer proteção policial para sua visita. Ele pensou no sr. Greenup dizendo que ele estava pondo em risco os cidadãos com seu desej o de se autoprom over. Nessa ocasião, o Greenup suíço venceu. Não haveria autoprom oção. Os cidadãos suíços estariam seguros. Tudo o que ele podia fazer era telefonar para a sala da Feira do Livro de Genebra na qual o prêm io era entregue. Bernard-Henri Lévy fez um discurso, dizendo que o prêm io havia sido atribuído por decisão unânim e do j úri. A presidente do j úri, m m e. Edm onde Charles-Roux, disse que o prêm io era fiel ao “espírito de Colette”, que “lutou contra a intolerância”. Porém os herdeiros de Colette ficaram furiosos com a atribuição do prêm io, provavelm ente discordando da opinião de m m e. Charles-Roux de que a escolha de Salm an Rushdie seguia o “espírito de Colette”. Expressaram seu desagrado recusando que o nom e da escritora fosse usado no futuro. Assim , ele se tornou o últim o agraciado com o Prix Colette.
Ele precisou tratar com um vizinho abelhudo, um cavalheiro m ais velho cham ado Bertie Joel. O sr. Joel chegou ao portão e disse, pelo interfone, que queria que alguém fosse até a casa dele “dentro de quinze m inutos”. Elizabeth não estava, então um rapaz da equipe teve de ir. Todo m undo ficou tenso; será que a identidade secreta do sr. Anton havia sido descoberta? Mas era apenas um problem a com um ralo de drenagem entupido que ficava entre as duas propriedades. O novo chefe da equipe de segurança, Frank Bishop, era um hom em m ais velho, falante, alegre e m em bro fanático do Mary lebone Cricket Club. Aconteceu que Bertie Joel tam bém era sócio e conhecera o pai de Frank. A conexão críquete apagou todas as suspeitas. “Os pedreiros m e disseram que a casa inteira estava recebendo blindagem de aço, então desconfiei de algum a conexão com a Máfia”, disse Bertie Joel, e Frank dissipou tudo com um a risada e o deixou tranquilo. Quando voltou e contou a todo m undo o que tinha acontecido, estava quase histérico de alívio. “Você m arcou um ponto aí, Joe”, disse Frank. “Marcou um ponto, sim .”
Houve outros m om entos sem elhantes. Um dia, o portão elétrico enguiçou aberto e um hom em parecidíssim o com o poeta Philip Larkin entrou e espiou o pátio. Em outra ocasião, um hom em postou-se na calçada com um a escada, tentando fotografar a casa por cim a da cerca viva. O que ele estava fazendo era um a m atéria de j ornal sobre a posse reintegrada de casas na rua. Num outro dia, um hom em de m otocicleta e um Volvo estacionaram do outro lado da rua, com três hom ens que estavam “agindo estranham ente”. Nesses dias, ele pensava: talvez existam realmente assassinos no bairro e eu esteja realmente correndo o risco de ser morto. Mas eram alarm es falsos. A casa não foi “estourada”.
Bernie Sim ons m orreu de repente; o delicado e indispensável Bernie, advogado de toda um a geração da esquerda britânica, o m ais sábio e cálido dos seres hum anos, que o tinha aj udado a com bater acusações m uçulm anas contra ele e sido um aliado inestim ável na luta contra a am eaça de retirada de proteção por parte de John Howley e Hellen Ham m ington. Bernie tinha apenas 52 anos. Estivera num a conferência em Madri e tinha acabado de j antar, subiu, teve um im enso ataque do coração e caiu de cara no tapete. Um fim rápido depois de um a boa refeição. Isso, ao m enos, era apropriado. Por toda Londres, as pessoas se com unicavam para ir ao velório. Ele falou com Robert McCrum , Caroline Michel, Melvy n Bragg. Para Robert, disse: “É terrível... m e dá vontade de ligar para Bernie e pedir para ele dar um j eito nisso”.
Era cedo dem ais para com eçar a encontrar seus contem porâneos nas páginas de obituário, m as no dia seguinte lá estava Bernie, com o Angela tinha estado, e ele tem ia que Clarissa pudesse estar logo. E Edward Said tinha llc, leucem ia linfocídica crônica, e Gita Mehta tam bém estava com câncer e ia ser operada. As asas, as asas tatalantes. Ele é que devia m orrer, m as as pessoas estavam todas tom bando à sua volta.
No com eço de j unho, Elizabeth levou Clarissa para o Ham m ersm ith Hospital, para outra cirurgia exploratória. O resultado foi prom issor. O cirurgião, sr. Linn, disse “não vej o m ais câncer”. Então talvez tivessem descoberto a tem po, e ela sobreviveria. Clarissa estava m uito confiante de que a notícia fosse boa. A radioterapia elim inaria qualquer célula rem anescente e, com o “apenas um , o m enor” dos nódulos linfáticos estava infectado, ela podia passar sem quim ioterapia, pensou. Ele tinha suas dúvidas, m as calou a boca.
Edward Said lhe disse que sua contagem de glóbulos brancos estava subindo e que talvez logo precisasse de quim ioterapia. “Mas eu sou um m ilagre am bulante”, disse ele. Seu m édico era o hom em que tinha “escrito o livro” sobre llc, um m édico de Long Island de origem indiana cham ado dr. Kanti Rai; os estágios da doença eram conhecidos com o “estágios Rai” por causa de seu trabalho, que definira a natureza da afecção. Então Edward, que tinha sido um tanto hipocondríaco até ficar de fato doente, diante do que virou im ediatam ente um herói coraj oso, tinha o m elhor dos m édicos e estava enfrentando a doença com toda a força. “Você tam bém é um m ilagre am bulante”, ele disse. “Nós dois não tem os o direito de estar vivos, m as estam os.” Ele disse que tinha visto um a entrevista com o aiatolá Sanei da Recom pensa no The New York Times. “Ele tem um cartum de você queim ando no inferno pendurado atrás da cabeça dele. Disse que o caminho para o Paraíso vai ser mais fácil quando Rushdie morrer.” A im ensa risada de Edward irrom peu quando ele sacudiu os braços para dissipar a observação do Recom pensador.
Em seu aniversário de 46 anos, recebeu am igos para j antar em casa. Nessa época, havia um a lista de pessoas aprovada pela Divisão Especial, am igos próxim os que eles conheceram ao longo dos anos, e que sabiam ser discretos e confiáveis. Bill Buford levou um excelente Côtes du Rhone e Gillon, um Puligny -Montrachet. Ele ganhou um a rede de Pauline Melville e um a linda cam isa de algodão azul de Nigella. John Diam ond tivera a sorte de ficar vivo depois que um ônibus passara o farol verm elho e batera em seu carro a setenta quilôm etros por hora em cim a da porta do m otorista. Felizm ente, a porta havia resistido.
Antonia Fraser e Harold Pinter levaram um a edição lim itada dos poem as de Harold. (Se Harold tivesse seu núm ero de fax, esses poem as chegariam de quando em quando e precisariam ser elogiados o m ais depressa possível. Um dos poem as era intitulado “Len Hutton”, em honra do fam oso batedor inglês. I saw Len Hutton in his prime/ Another time/ Another time [Vi Len Hutton em seu m elhor m om ento/ Outro tem po/ Outro tem po]. Só isso. O grande am igo de Harold e colega dram aturgo Sim on Gray deixou de com entar essa obra e Harold telefonou para brigar com ele. “Desculpe, Harold”, Sim on disse. “Não tive tem po de term inar de ler.” O sr. Pinter não percebeu a piada.)
O im portante escritor e j ornalista argelino Tahar Dj aout levou um tiro na cabeça e m orreu, o terceiro intelectual im portante a ser assassinado em um ano, depois de Farag Fouda no Egito e Ugur Mum cu na Turquia. Ele tentou cham ar a atenção da m ídia ocidental para seus casos, m as houve pouco interesse. Sua própria cam panha parecia estar estagnada. Christopher Hitchens ficou sabendo pelo em baixador britânico em Washington, sir Robin Renwick, que qualquer encontro com Clinton não ocorreria antes do outono, na m elhor das hipóteses. Frances e Carm el brigavam sem pre e depois brigavam am bas com ele. Ele expressou seu quase desespero a respeito e insistiu que pusessem o carro na rua outra vez e elas se reanim aram .
Ele fez um a segunda viagem a Paris para falar num a reunião da Académ ie Universelle des Cultures num grande salão do Louvre cheio de dourados, de afrescos e escritores: Elie Wiesel, Wole Soy inka, Yashar Kem al, Adonis, Ism ail Kadaré, Cy nthia Ozick... e Um berto Eco. Ele acabara de fazer a pior crítica que j am ais fizera de qualquer livro a O pêndulo de Foucault. Eco caiu em cim a dele e depois se com portou com im ensa elegância. Abriu os braços e gritou:
“Rushdie! Olhe aqui o Eco papo-furado!”.b Depois disso, estabeleceram ótim as relações. (No futuro, viriam a j untar forças com Mario Vargas Llosa para form ar um trio literário que Eco batizou de os Três Mosqueteiros, “porque prim eiro eram inim igos, e agora são am igos”. Vargas Llosa havia criticado Salm an por ser de esquerda. Eco criticara Mario por ser m uito de direita, e Salm an criticara a escrita de Eco, m as quando se encontraram se deram extrem am ente bem . Os Três Mosqueteiros atuaram com sucesso em Paris, Londres e Nova York.)
Os agentes de segurança eram loucam ente excessivos. Os bons hom ens da Raid tinham exigido que o Museu do Louvre fosse fechado por um dia. Havia m uitos hom ens com m etralhadoras por toda parte. Não deixavam que ele chegasse nem perto de um a j anela. E na hora do alm oço, quando os escritores foram a pé até a pirâm ide de vidro de I. M. Pei para descer e alm oçar, a Raid o obrigou a entrar num carro que rodou talvez cem m etros até a pirâm ide a partir da ala do Louvre em que a Académ ie se reunira, com hom ens arm ados de óculos espelhados andando em torno, arm am ento pesado à m ão. Era pior que louco; era em baraçoso.
No fim do dia, as forças de segurança inform aram que o m inistro do Interior, Charles Pasqua, tinha recusado perm issão para que ele pernoitasse na França, porque seria caro dem ais. Ele argum entou, porém , que lhe haviam oferecido hospedagem particular nas casas de Bernard-Henri Lévy, de Bernard Kouchner e de Christine Ockrent, e da filha de Jack Lang, Caroline, de form a que não haveria custos. Bem, na verdade, é porque nós identificamos uma ameaça específica ao senhor e não podemos garantir sua segurança. Nem a Divisão Especial acreditou nessa m entira. “Eles teriam passado essa inform ação para a gente, Joe”, disse Frank Bishop, “e não passaram .” Caroline Lang disse: “Se você quiser desafiar a ordem da Raid, nós acam pam os aqui no Louvre com você, e trazem os cam as, vinho e am igos”. Era um a ideia engraçada e tocante, m as ele recusou. “Se eu fizer isso eles nunca m ais m e deixam entrar na França.” Então Christopher Mallaby se recusou a dar perm issão para que ele ficasse na em baixada; m as alguém , britânico ou francês, conseguiu convencer a British Airway s a levá-lo de volta para Londres. Assim , pela prim eira vez em quatro anos, ele voou sem problem as com tripulação ou passageiros — m uitos dos quais foram até ele para expressar am izade, solidariedade e apoio — no avião da ba. Depois da viagem , porém , disse que haviam concordado com o voo sob pressão francesa “em nível operacional local” e tinham tom ado providências para “garantir que isso nunca m ais acontecesse”.
A gigantesca turnê Zooropa do U2 chegou ao estádio de Wem bley, e Bono telefonou para perguntar se ele gostaria de subir ao palco. A banda queria fazer um gesto de solidariedade e esse era o m aior que podiam im aginar. Surpreendentem ente, a Divisão Especial não fez obj eções. Talvez não achassem que haveria m uitos assassinos islâm icos num concerto do U2, ou talvez sim plesm ente quisessem assistir ao show. Ele levou Zafar e Elizabeth e, durante a prim eira m etade do show, ficaram sentados no estádio, assistindo. Quando ele se levantou para ir para trás do palco, Zafar disse: “Pai... não cante”. Ele não tinha nenhum a intenção de cantar, e o U2 m enos ainda de deixar que cantasse, m as, para brincar com o filho adolescente, ele retrucou: “Não vej o por que não. A banda de acom panham ento é bem boa, essa banda irlandesa, e tem 80 m il pessoas aqui, então... pode ser que eu cante”. Zafar pareceu agitado. “Você não entendeu, pai”, ele disse. “Se você cantar, eu vou precisar m e m atar.”
Atrás do palco, ele encontrou Bono com seu figurino de MacPhisto — o terno de lam ê dourado, a cara branca, os chifrinhos de veludo verm elho — e poucos m inutos depois tinham criado um trechinho de diálogo para fazerem . Bono ia fingir que ligava para ele no celular e enquanto “conversavam ” ele entraria no palco. Quando ele entrou, sentiu com o era ter 80 m il pessoas gritando para você. O público de um a leitura m édia do livro — ou m esm o num a grande noite de gala com o a com em oração do pen em Toronto — era um pouco m enor. Não havia garotas m ontadas nos om bros dos nam orados, e não se estim ulava a m ergulhar do palco. Mesm o nos m elhores eventos literários, havia apenas um a ou duas supermodels dançando perto da m esa do dj . Aquilo ali era m aior.
Quando escreveu O chão que ela pisa, foi útil ter um a sensação de com o era estar debaixo de toda aquela luz, incapaz de ver o m onstro que estava rugindo para você lá no escuro. Ele fez o possível para não tropeçar nos cabos de energia. Depois do show, Anton Corbij n tirou um a foto para a qual o convenceu a trocar de óculos com Bono. Por um m om ento, ele teve a chance de parecer divino com os óculos olhos-de-m osca do sr. B., enquanto o astro do rock olhava benignam ente para ele de trás de sua arm ação literária nada m oderna. Era a expressão gráfica da diferença entre os dois m undos que tinham se encontrado brevem ente, graças ao generoso desej o do U2 de aj udar.
Poucos dias depois, Bono telefonou, dizendo que queria crescer com o com positor. Num grupo de rock, o autor das letras se tornava apenas um a espécie de veículo para os sentim entos que estavam no ar, as palavras não conduziam a obra, a m úsica é que levava, a m enos que você viesse de um a tradição folk com o Dy lan, m as ele queria m udar. Você se sentaria comigo e me contaria como trabalha? Ele queria encontrar gente nova, gente diferente. Parecia ávido por alim ento m ental e por aquilo que cham ava de só por uma boa farra. Ele ofereceu sua casa no sul da França. Ofereceu am izade.
Ele dizia a seus am igos que havia sido am aldiçoado com um a vida interessante, que às vezes parecia um rom ance ruim escrito por ele m esm o. Um a de suas piores características de rom ance ruim é que os personagens principais que não tinham ligação com o resto da história podiam aparecer a qualquer m om ento, sem preparação, acotovelando-se na narrativa e am eaçando sequestrá-la. O dia 27 de m aio era a data em que, quatro anos depois, seu filho Milan nasceria, tom aria posse da data para sem pre, m as em 1993 esse dia assinalou a entrada de um indivíduo m uito diferente, o escritor, editor de j ornal e provocador turco Aziz Nesin.
Ele só havia se encontrado com Nesin um a vez, sete anos antes, quando o escritor turco é que estava em dificuldades. Harold Pinter convidara um grupo de escritores a ir a sua casa na Cam pden Hill Square, para organizar um protesto porque haviam inform ado Nesin que a Turquia decidira confiscar seu passaporte. Ele se perguntou se Nesin se lem brava de que o futuro autor de Os versos satânicos havia assinado de bom grado o protesto, e desconfiou que não. Em 27 de m aio, ele ficou sabendo que trechos não especificados de Os versos satânicos tinham sido publicados no j ornal de esquerda Aydinlik, do qual Nesin era editor chefe, sem que fosse solicitado nenhum acordo com autor, num a tradução turca que não fora enviada a ele (era prática norm al que traduções fossem lidas independentem ente pela qualidade e precisão antes da publicação), em desafio à proibição do livro na Turquia. O título dos excertos dizia salm an rushdie: pensador ou charlatão?. Nos dias seguintes m ais excertos foram publicados e o com entário de Nesin a esses excertos deixou claro que ele fechava com o lado “charlatão”. A agência Wy lie escreveu a Nesin para dizer que pirataria era pirataria e que, se ele lutava, com o dizia, pelos direitos de escritores havia m uitos anos, perguntava se estaria disposto a contestar o desrespeito do aiatolá Khom eini a esses direitos. A resposta de Nesin foi o m ais petulante possível. Ele publicou a carta da agência em seu j ornal e com entou: “O que a causa de Salm an Rushdie im porta para m im ?”. Afirm ou que pretendia continuar publicando, e que, se Rushdie não gostasse, “podia nos processar”.
O Aydinlik foi atacado, os funcionários presos, a distribuição suspensa e os exem plares, confiscados. Num a m esquita de Istam bul, um im ã decretou um a j ihad contra o j ornal. O governo turco, defendendo os princípios secularistas do país, decretou que o j ornal tinha de ser distribuído, m as a controvérsia continuou e o clim a continuou feio.
Ele sentiu que m ais um a vez ele e seu trabalho tinham se tornado peças de um j ogo alheio. O escritor turco Murat Belge, seu am igo, disse que Nesin tinha sido “infantil”, m as m esm o assim as forças que o atacavam não podiam ser bem -sucedidas. O m ais doloroso de tudo é que ele tam bém era um secularista declarado e deveria esperar m elhor tratam ento dos secularistas da Turquia. Um a brecha nas forças do secularism o só podia ser boa notícia para os inim igos do secularism o. Esses inim igos reagiram aos excertos do Aydinlik logo depois, e com extrem a violência.
No com eço de j ulho, Nesin foi a um a conferência secularista na cidade de Sivas, na Anatólia (a Anatólia era a parte da Turquia em que o extrem ism o islâm ico tinha m ais partidários). Inauguraram um a estátua de Pir Sultan Abdal, um poeta local que m orrera apedrej ado por blasfêm ia no século xvi. Nesin, com entou-se depois, proferiu um discurso declarando seu ateísm o e fez certas críticas ao Corão. Isso podia ser ou não verdade. Nessa noite, o hotel Madim ak, onde estavam hospedados os participantes, foi cercado por extrem istas entoando slogans e am eaças, e depois incendiado. Morreram queim adas 37 pessoas: escritores, cartunistas, atores e bailarinos. Aziz Nesin se salvou, deixando o edifício com aj uda de bom beiros, que não o reconheceram . Quando eles se deram conta de quem se tratava, com eçaram a espancá-lo e um político local gritou: “Este é o diabo que realm ente devíam os ter m atado”.
O horror do m assacre de Sivas foi cham ado pela im prensa internacional de “tum ulto Rushdie”. Ele foi a um program a de televisão para denunciar os assassinos e escrever artigos raivosos para o londrino The Observer e tam bém para o The New York Times. Era inj usto que o tum ulto levasse seu nom e, m as não era essa a questão. Os assassinatos de Farag Fouda, Ugur Mum cu, Tahar Dj aout e os m ortos de Sivas eram provas eloquentes de que o ataque a Os versos satânicos não era um incidente isolado, m as parte de um ataque islâm ico global aos livre-pensadores. Ele fez tudo o que estava a seu alcance para exigir ação — do governo turco, da reunião dos G7 que estava ocorrendo em Tóquio, do m undo. Houve um a perversa tentativa, j ustam ente na revista The Nation, de acusá-lo de “insulto rancoroso” contra os secularistas turcos (escrita por Alexander Cockburn, um dos m aiores m estres contem porâneos do insulto rancoroso), m as isso tam bém não im portava. Aziz Nesin e o autor cuj a obra ele roubara e denegrira nunca seriam am igos, m as, diante de tal ataque, ele ficaria do lado de todos os secularistas turcos, inclusive Nesin.
No Parlam ento iraniano e na im prensa, inevitavelm ente, houve discursos de apoio aos assassinos de Sivas. Assim era o m undo: aplaudia assassinos e vilipendiava hom ens que viviam (e às vezes m orriam ) pela palavra.
Horrorizado com as atrocidades de Sivas, o fam oso “j ornalista incógnito” Günter Wallraff, que, com seu livro im ensam ente bem -sucedido Cabeça de turco, havia se passado por trabalhador turco para expor o terrível tratam ento recebido por esses trabalhadores por parte de racistas alem ães e m esm o do Estado alem ão, entrou em contato e insistiu que o “desentendim ento” Nesin-Rushdie tinha de ser acertado. Nesin continuara a dar entrevistas atacando o autor de Os versos satânicos e seu livro horrível, e Wallraff e Arne Ruth, editor do diário sueco Dagens Nyheter,haviam tentado em penhadam ente detê-lo. “Se eu conseguir convencer Nesin a m e visitar aqui em casa, você, por favor, viria tam bém , para poderm os acertar isso?”, Wallraff perguntou. Ele respondeu que isso dependia do ânim o que Nesin estivesse disposto a dem onstrar num a reunião. “Até agora ele foi ofensivo e esquivo, e assim seria difícil eu com parecer.” “Deixe com igo”, Wallraff disse. “Se ele disser que vem com um a atitude positiva, você faria a m esm a coisa?” “Faria, claro.”
Ele foi de Biggin Hill para Colônia e, na casa de Günter, o grande j ornalista e sua esposa foram ruidosos, alegres e receptivos, e Wallraff insistiu im ediatam ente que j ogassem pingue-pongue. Wallraff se revelou um bom j ogador e venceu a m aioria das partidas. Aziz Nesin, um hom em pequeno, corpulento, de cabelos grisalhos, não se aproxim ou da m esa de pingue-pongue. Ele aparentava o que era; um hom em profundam ente abalado, que estava infeliz tam bém com a com panhia em que se encontrava. Sentou-se num canto e ali ficou, em burrado. Não era nada prom issor. Na prim eira conversa form al entre eles, com Wallraff com o intérprete, Nesin continuou tão desdenhoso com o tinha sido no Aydinlik. Ele tinha sua própria luta, contra o fanatism o turco, e não dava a m ínim a para aquela. Wallraff explicou-lhe que se tratava da m esm a luta. Depois do assassinato de Ugur Mum cu, tinham dito na Turquia que “aqueles que condenaram Salm an Rushdie agora haviam m atado Mum cu”. Um a derrota em um a batalha entre secularism o e religião era um a derrota em todas as batalhas. “Salm an apoiou você no passado, e falou de Sivas em toda parte”, disse ele, “então você tem de apoiá-lo agora.” Foi um dia longo. O amour-propre de Nesin parecia estar interferindo na reconciliação, porque ele sabia que teria de ceder e adm itir que fora deselegante. Mas Wallraff estava determ inado a não deixar que as coisas term inassem m al e no fim Nesin, resm ungando e protestando, estendeu a m ão. Houve um breve aperto de m ãos seguido de um abraço ainda m ais breve e de um a fotografia em que todo m undo parecia pouco à vontade, e então Wallraff exclam ou: “Ótim o! Agora som os todos am igos!”, e levou todos para um passeio de lancha no Reno.
O pessoal de Wallraff film ou o evento inteiro e elaborou um a notícia m ostrando Nesin e ele, em que denunciavam conj untam ente o fanatism o religioso e a debilidade da reação do Ocidente a ele. Pelo m enos em público, a brecha estava preenchida. Aziz Nesin e ele não tiveram m ais nenhum contato. Nesin viveu m ais dois anos, até que um infarto o levou em bora.
Caro Harold,
Obrigado por convidar Elizabeth, eu e os rapazes para ver sua produção de Oleanna, de Mamet, e pelo jantar no Grill St. Quentin depois. Talvez tenha sido errado de minha parte mencionar minhas reservas à peça, embora eu acredite ter dito várias coisas boas a respeito de sua produção do espetáculo. Foi errado de minha parte mudar de assunto e começar a conversar com Antonia sobre seu livro a respeito da Conspiração da Pólvora. (Confesso que ultimamente ando interessado em gente que quer explodir coisas.) Olhei para você com o canto dos olhos e você tinha começado a soltar fumaça pelas orelhas, seu cerne nuclear estava começando a derreter. A Síndrome da China era uma possibilidade efetiva. Para impedi-la, eu disse: “Harold, será que esqueci de mencionar que sua produção de Oleanna é um trabalho de gênio absoluto?”. “Esqueceu”, você disse, os dentes brilhando sem alegria. “Esqueceu, sim, com efeito, de mencionar isso.” “Harold”, eu disse, “sua produção de Oleanna é um trabalho de gênio absoluto.”
“Bom, bem melhor assim”, você disse, e evitou-se a calamidade nuclear. Há muito tenho o orgulho de poder dizer sinceramente que nunca fui “pinterado”. Fico aliviado de ter encontrado um jeito de conservar esse recorde.
Ele viaj ou a Praga para ver o presidente Václav Havel; este o saudou m uito calorosam ente, enfim nos encontramos!, e falou dele publicam ente com tam anha generosidade que seu m aior rival, o prim eiro-m inistro de direita Václav Klaus, “afastou-se” da reunião, dizendo que se tratava de um com prom isso “particular” do qual não tivera conhecim ento (em bora a polícia tcheca tivesse em prestado um dos carros de Klaus para uso do visitante). Klaus disse que esperava que ele não fosse “m achucar” as relações tchecas com o Irã.
Ele participou de um a conferência do pen em Santiago de Com postela — a Iberia não criou dificuldades — e foi questionado sobre reportagens recentes dos ataques do príncipe Charles a ele. Respondeu citando o que Ian McEwan havia dito a j ornalistas espanhóis num a visita ao país para divulgar um livro, um a sem ana antes: “É m uito m ais caro proteger o príncipe Charles do que Rushdie e ele nunca escreveu nada interessante”. Ao voltar a Londres, descobriu que o Daily Mail o estava vilipendiando por algo com o traição porque ousara fazer piada com o herdeiro do trono. “Ele está abusando da liberdade pela qual nós pagam os”, declarou a colunista Mary Kenny. Cinco dias depois, Os filhos da meia-noite foi considerado “Booker of Bookers”, o m elhor livro a ser agraciado nos prim eiros 25 anos do prêm io. Mal teve um dia para gozar as honrarias e o pêndulo oscilou de novo, e um a terrível calam idade se abateu sobre ele outra vez.