Joseph Anton: Memórias
7. Um caminhão de estrume
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Em 19 de m arço de 1995, ele pegou o trem Eurostar para Paris, foi im ediatam ente devorado pela Raid e levado a se encontrar com um grupo de m uçulm anos franceses coraj osos que tinha assinado um a declaração de apoio a ele. No dia seguinte, encontrou-se com im portantes figuras políticas francesas sauf Miterrand: o presidente eleito Jacques Chirac, grande, bam boleante, à vontade em seu corpo, com olhos m ortiços de assassino; o prim eiro-m inistro Édouard Balladur, hom em com um a boquinha em bico e de cuj a postura ereta os franceses gostavam de dizer que il a avalé son parapluie, ele engoliu seu guarda-chuva; Alain Juppé, m inistro do Exterior, um suj eito pequeno, calvo, rápido e inteligente que depois integrou a lista de políticos da era condenados por um crim e (m alversação de fundos públicos); e o socialista Lionel Jospin, que parecia o cavaliere nonesistente de Calvino, um espaço vazio dentro de um terno solto. Frances e ele propuseram um “plano de cessar-fogo” e todos concordaram . Juppé garantiu que colocara a ideia na pauta da reunião de m inistros do Exterior da ue, Balladur deu um a entrevista coletiva anunciando a iniciativa “deles”, Chirac disse que tinha falado com Douglas Hurd e que Hurd era “a favor”. Ele próprio deu um a entrevista coletiva na Assem bleia Nacional e voltou para casa achando que algum a coisa podia ter com eçado a m udar. Douglas Hogg m andou um recado m arcando um encontro para os próxim os dias. “Acho que ele vai dizer que, se o governo britânico apoiar a ‘iniciativa francesa’, haverá um a enorm e pressão dos legisladores tóri para suspender a proteção caso a iniciativa sej a bem -sucedida”, ele escreveu em seu diário. “Devo, portanto, ser absolutam ente claro quanto ao que quero e devo fazer o governo britânico aceitar a linguagem de ‘cessar-fogo’ e ‘m onitoram ento’ que passam os aos franceses. E ele tem de levantar a proibição da British Airway s”. Rab Connolly disse: “Hogg vai dizer que a am eaça continua m uito grande e que, portanto, a iniciativa francesa é inútil”. Bem, ele pensou, isso nós vamos ver.
Foi encontrar-se com Hogg para falar sobre a história da m escla de inércia e hostilidade do Foreign Office, e sem nenhum a disposição de ser apaziguado. Ele e seu trabalho tinham sido atacados por dois secretários do m inistério, Howe e Hurd; seguira-se um período de anos em que nenhum diplom ata ou político estava disposto a se encontrar com ele, e depois um período igualm ente insatisfatório de encontros secretos, que podiam ser desm entidos, com Slater e Gore-Booth. Ele tivera de criar pressão de outros governos para “acordar” os britânicos, e m esm o assim seu apoio tinha sido indiferente: John Maj or não perm itira fotos do encontro entre eles e, em bora tivesse prom etido um a “cam panha de alta visibilidade”, nada disso se concretizara. O próprio Hogg tinha deixado claro que a única política britânica era esperar um a “m udança de regim e” no Irã, o que não era provável. Ele ia perguntar quem estava dizendo à m ídia britânica que havia um “alto custo” para a Grã-Bretanha quando ele ia ao exterior, quando na verdade não havia custo nenhum . Por que as constantes m entiras sobre custos nunca eram corrigidas ou desm entidas?
Douglas Hogg ouviu com sim patia. Estava disposto a “acom panhar” a “iniciativa francesa” ou “o plano de cessar-fogo”, m as disse: “Tenho de alertar que existe ainda um alto risco à sua segurança. Acreditam os que os iranianos ainda estão ativam ente tentando achar você. E, se seguirm os esse rum o, os franceses e os alem ães vão depressa estabelecer vínculos com o Irã, assim com o o governo de Sua Maj estade. A pressão política vai term inar. Além disso, terei de enviar a você um a carta cerim oniosa de form a que eu possa dizer depois que você foi alertado dos perigos”.
Depois. Quer dizer, depois que ele fosse m orto.
“Estam os tentando m elhorar o texto da dém arche”, ele disse. “Que deve abranger todos os seus associados, ou sej a, todos aqueles am eaçados pela fatwa, tradutores, editores, livreiros, e assim por diante. E querem os que Balladur envie isso diretam ente para Rafsanj ani e consiga a assinatura do próprio Rafsanj ani se possível, porque quanto m ais im portante a assinatura, m aior a chance de eles realm ente dissuadirem os cachorros.”
Nessa noite, ele escreveu em seu diário: “Estou com etendo suicídio?”.
Larry Robinson, o contato da em baixada dos Estados Unidos, ligou para Carm el Bedford para saber o que estava acontecendo. Estava preocupado. “Você não pode confiar nos iranianos”, disse. “Vai estragar toda a nossa estratégia.” Carm el respondeu com franqueza. “O que você fez por nós? Existe algum a estratégia? Se existe, diga qual é, faça um a proposta. Se conseguirm os um acordo através da União Europeia, vam os aceitar, depois de seis anos e m eio em que ninguém ergueu um dedo para aj udar.” Larry Robinson disse: “Volto a ligar para você”.
Em 10 de abril, o dia crucial da reunião dos m inistros do Exterior da ue, o assistente de Hogg, Andy Ashcroft, ligou para dizer que Hurd e Maj or estavam am bos “do nosso lado” e que a iniciativa francesa era agora política do governo britânico. O sr. Anton frisou a necessidade de um período m onitorado, para garantir que os iranianos fizessem o que prom etessem fazer, e Ashcroft respondeu: “Com certeza é isso que vam os propor”. Quando desligou o telefone, ele ligou para o editor do The Times, Peter Stothard, e para o editor do The Guardian, Alan Rusbridger, e disse-lhes que ficassem à espera de novidades. Telefonou para Larry Robinson e disse: “Não se trata de um a alternativa para cancelar a fatwa. Nem tem a intenção de criar um a zona livre da fatwa, cercando a Europa e os Estados Unidos; é um acordo sem fronteiras”. Robinson fez ressalvas sensatas. “Isso pode neutralizar o Irã.” Mas ele ainda não tinha notícias de Washington, então não sabia se a adm inistração am ericana estava equilibrando “prós e contras”. Ele próprio sentia que a caça à recom pensa havia perdido a força, m as a am eaça do regim e, não.
“Bem , é um risco”, disse a Larry . “Mas, por outro lado, o que não é?”
Falou com Richard Norton-Tay lor, do The Guardian. Havia um a m inuta e a ue ia pedir ao Irã que a assinasse. Conteria um a garantia absoluta de não im plem entação e poderia ser um passo para o cancelam ento posterior da fatwa.
O encontro de m inistros do Exterior tinha corrido bem , disse-lhe Andy Ashcroft. A referência aos “associados” não havia sido acrescentada ao texto, m as os franceses concordaram que a troika de prim eiros-m inistros a discutiria oralm ente com o Irã. Ele concordou que era im portante conversar com a im prensa e enfatizar os pontos im portantes.
Eles conseguiram cham ar a atenção das pessoas. A notícia apareceu na prim eira página de todos os j ornais. O The Times queria fazer um acom panham ento. Por que o governo britânico não havia pensado em nada assim antes? O que se entendia era que ele havia tom ado a iniciativa e vendido a ideia aos franceses sem grande esforço do Foreign Office. Ótim o, ele pensou, muito bem.
Um a declaração na rádio Teerã dizia: Não faz sentido a UE pedir uma garantia formal de não implementação, uma vez que o governo iraniano nunca disse que iria implementar a fatwa. Soava com o m eio cam inho para a garantia. Então, em 19 de abril, às 10h30 (hora de Londres), os em baixadores da troika em Teerã (francês, alem ão e espanhol), ao lado do chargé d’affaires britânico Jeffrey Jam es, apresentaram as exigências da União Europeia ao m inistro das Relações Exteriores iraniano.
A dém arche estava feita, e a notícia foi transm itida im ediatam ente. O aiatolá Yazdi, chefe do j udiciário iraniano, ridicularizou a iniciativa e Sanei da Recom pensa disse: “Isso só vai garantir que a fatwa sej a cum prida m ais depressa”, e talvez tivesse razão. Mas Richard Norton-Tay lor, do caderno de notícias internacionais do The Guardian,disse a Carm el que Rafsanj ani, no fim de sua visita à Índia, dissera num a entrevista coletiva que o Irã não iria im plem entar a fatwa.
Zafar quis saber o que estava acontecendo. Quando ele contou, o rapaz disse: “Excelente. Excelente”. Seus olhos se ilum inaram de esperança e seu pai pensou: Se a démarche for assinada, vamos tentar fazer que signifique mesmo o que ela quer dizer.
A “iniciativa francesa” estava percorrendo seu cam inho pelo labiríntico intestino da mulácracia iraniana, sendo digerida e absorvida segundo os lentos m istérios daquele organism o arcaico. De vez em quando, havia pronunciam entos de todo tipo, positivos e negativos. Estes, ele considerava com o flatulência. Tinham cheiro, m as não tinham im portância. Até m esm o um boato ruidoso e chocante — o chefe da inteligência iraniana desertou, levando com ele documentos que comprovam o envolvimento do regime com o terrorismo internacional — não passou de um arroto subindo do estôm ago das m uitas cabeças desse Gargântua eclesiástico a rugir brevem ente através de um a de suas m uitas bocas contraditórias. (Nada supreendentem ente, esse boato acabou não se m ostrando verdadeiro; um nada gasoso.) A reação com pleta, oficial, viria em seu próprio ritm o.
Nesse m eio-tem po, ele foi de novo passar alguns dias na Áustria com Elizabeth, a convite de Christine e do m inistro da Cultura, Rudolf Scholten, que estavam depressa se tornando seus bons am igos e queriam lhes dar alguns dias “fora da j aula”. Quando chegaram , viram -se no m eio de um a tragédia fam iliar.
O pai de Rudolf havia sido atropelado e m orto naquela m anhã. “Não devem os ficar”, ele disse de im ediato, m as Rudolf insistiu. “Vai ser um a aj uda ter vocês aqui.” Christine acrescentou: “Realm ente, vocês devem ficar”. Mais um a vez, ele aprendeu com os outros um a lição de elegância e fortaleza.
Jantaram na casa repleta de obras de arte de um am igo íntim o de Scholten, Andre (“Franzi”) Heller, hom em de grande cultura, escritor, ator, m úsico, produtor e, acim a de tudo, criador de extraordinárias instalações públicas e espetaculares eventos arte-teatrais por todo o m undo. Heller estava em polgado com um a grande m anifestação, o Fest für Freiheit, ou Festival da Liberdade, program ado para dois dias depois, na Heldenplatz. Tinha sido na Heldenplatz, em 1938, que Adolf Hitler anunciara a Anschlussda Áustria. Realizar um a m anifestação antinazista na m esm a praça era realizar um ato de recuperação, lim pando a Heldenplatz da m ancha da m em ória nazista, e, com isso, desfechar um golpe contra o crescim ento do neonazism o atual. Murm úrios de nazism o estavam sem pre presentes na Áustria e a direita neonazista, liderada por Jörg Haider, vinha crescendo em popularidade. A esquerda austríaca sabia que seu adversário era forte, e reagiu se tornando m ais progressista e apaixonada. “Você deve ficar”, Franzi Heller disse de repente. “Tem de estar aqui, é m uito im portante que você suba ao palco para falar de liberdade.” Ele relutou a princípio, sem saber ao certo se era direito inseri-lo na narrativa de outras pessoas, m as viu que Heller estava determ inado. Então escreveu um breve texto em inglês, Rudolf e Heller traduziram para o alem ão e ele teve de ensaiar insistentem ente, com o um papagaio, repetindo palavras num a língua que não conhecia.
No dia da m anifestação na Heldenplatz, os céus se abriram e despencou um dilúvio sobre Viena, fazendo pensar que, se existia algum Deus, ele provavelm ente era neonazista com o Jörg Haider. Ou talvez Haider tivesse algum tipo de contato quase wagneriano com Frey r, o deus nórdico do tem po, e tivesse feito um a oração operística por aquela chuva de Ragnarök destruidora do m undo. Franzi Heller ficou m uito preocupado. Se pouca gente com parecesse seria um a catástrofe, um presente de propaganda a favor de Haider e seus seguidores. Ele não precisava ter se preocupado. Com o correr da m anhã, a praça com eçou a se encher de gente. A m ultidão era j ovem , envolta em plástico e portando guarda-chuvas inadequados ou sim plesm ente se rendendo com um dar de om bros à m onção irrelevante. Mais de 50 m il pessoas se reuniram na antiga praça corrom pida, com sua esperança de um futuro m elhor. No palco havia gente fazendo m úsica e discursos, m as a m ultidão foi a estrela da noite, a m ultidão encharcada, alerta, m agnífica. Ele pronunciou suas poucas frases em alem ão e a m ultidão encharcada deu vivas. Seu chefe de segurança, Wolfgang Bachler, ficou m uito alegre tam bém . “É o m elhor j eito de atacar Haider”, exultou.
Do outro lado da fronteira, na Feira do Livro de Frankfurt, a em inente estudiosa do islã Annem arie Schim m el recebeu o Prêm io da Paz dos Livreiros Alem ães e, para desânim o geral, deu entusiástico apoio à fatwa contra o autor de Os versos satânicos, um livro que ela havia condenado anteriorm ente. Diante dos protestos que se seguiram , ela tentou a “defesa Cat Stevens” — disse que não tinha dito —, m as depois, com o m uitas pessoas afirm aram à im prensa que estavam dispostas a prestar depoim ento sob j uram ento confirm ando que tinham ouvido o que ela dissera, durante um breve m om ento ela quis se desculpar por sua declaração, m as em seguida desistiu das desculpas. Ela era sem dúvida um a grande acadêm ica e um a grande dame de 73 anos, m as isso não significava que não fosse m em bro do Partido da Burrice de Cat Stevens.
A Artigo 19 m arcou um a viagem à Dinam arca, para um encontro com o prim eiro-m inistro e o m inistro do Exterior, e, apesar de sua sensação cada vez m aior de que esses encontros eram inúteis, ele foi. Johannes Riis, seu gentil editor de fala m ansa e cheio de princípios, estava com ele, e William Ny gaard, vindo de Oslo, tam bém com pareceu. Tiveram permissão para passear na rua em Copenhague e à noite, surpreendentem ente, visitar os j ardins Tivoli, onde andaram de carrinho bate-bate durante alguns m inutos de alegria, gritando e batendo uns nos outros com o m eninos. Ele olhou William e Johannes dirigindo seus carrinhos bate-bate pela pista do Tivoli e pensou: Nestes últimos anos, aprendi uma lição sobre o pior da natureza humana, mas também sobre o melhor dela, uma lição de coragem, princípios, desprendimento, determinação e honra, e no final é isso que quero lembrar: que estive no centro de um grupo de pessoas que se comportaram tão bem, tão nobremente como seres humanos são capazes de se comportar, e além desse grupo no centro de uma narrativa mais ampla cheia de gente que eu não conhecia, que nunca conheceria, gente tão determinada, como meus amigos nos carrinhos bate-bate, a não deixar que prevaleça a escuridão.
De repente, a “iniciativa francesa” ganhou vida. Jill Craigie telefonou m uito em polgada, para dizer que a notícia do “recuo iraniano” estava em todas as rádios. Ele não conseguiu nenhum a confirm ação de ninguém essa noite, m as a excitação de Jill foi contagiosa. E na m anhã seguinte a história estava em todos os noticiários. Am it Roy, autor da notícia de prim eira página d o The Telegraph, disse em particular a Frances D’Souza que havia passado três horas com o chargé d’affaires iraniano, Gholam reza Ansari, que dissera “coisas incríveis”. Não vamos nunca aplicar a fatwa, vamos recolher o dinheiro da recompensa. Ele ficou calm o. Tinha havido m uitos falsos am anheceres. Mas Zafar ficou anim ado. “Que m aravilha”, ele disse, com ovendo o pai quase às lágrim as. Em m eio ao barulho da m ídia, eles sentaram j untos e trabalharam em seu texto de inglês para a escola, Far from the madding crowd [Longe deste insensato m undo], para ele se preparar para os exam es de conclusão do curso secundário. Em vez de Kham enei e Rafsanj ani, falaram de Bathsheba Everdene, William Boldwood e Gabriel Oak.
Frances tinha ouvido dizer que j ornalistas ocidentais, inclusive cinco britânicos, estavam a cam inho de Teerã, convidados pelo regim e. Talvez um anúncio fosse im inente. “Não fale nada”, ele disse a Frances. “O m ulá gordo ainda não com eçou a cantar.” Mas na m anhã seguinte havia um a grande m atéria no The Times. Ele ficou calm o. “Conheço a realidade”, ele escreveu em seu diário. “Quando vou poder viver sem policiais? Quando as com panhias aéreas vão m e levar e os países vão perm itir que eu faça um a visita sem a histeria ao estilo Raid? Quando vou poder voltar a ser um a pessoa? Não ainda por algum tem po, acho. As ‘ fatwas secundárias’ im postas pelo m edo das pessoas são m ais difíceis de derrubar que a fatwa do m ulá.” Mas tam bém se pegou perguntando: Será que consegui mover essa porra dessa montanha?
Andy Ashcroft ligou do escritório de Hogg para dizer que o Foreign Office havia ficado “com pletam ente surpreso” com o barulho da m ídia. “Talvez os iranianos estej am envolvidos num processo de abrandam ento.” Ashcroft achava que a reação oficial só viria dentro de um m ês. A reunião do “diálogo crítico” entre Irã e União Europeia aconteceria em 22 de j unho e era nessa data que esperavam ouvir um a resposta oficial à dém arche.
Em 30 de m aio, depois da reunião dos m inistros do Exterior da União Europeia, o governo dinam arquês disse estar “confiante” de que o Irã “dará um a resposta satisfatória a dém arche antes do final da presidência francesa da ue”. Os franceses estavam pressionando bastante, os iranianos estavam levando o assunto a sério, pressionando por concessões por sua vez, m as a ue continuava firm e. “Está chegando”, ele escreveu em seu diário. “Está chegando.”
O parlam entar Peter Tem ple-Morris disse à rádio bbc: “Rushdie tem se com portado ultim am ente, está de boca fechada, e isso é que está possibilitando avanços”. Mas a entrevista de Velay ati, m inistro das Relações Exteriores iraniano, a Robert Fisk estava cheia do velho lixo, não se pode cancelar a fatwa, a oferta de recompensa é “liberdade de expressão”, e tudo m ais. Arrotos e flatulência. Na realidade, ele teve de esperar.
A polícia estava perdendo a coragem no que se referia à publicação de O último suspiro do mouro. Tinha sido m arcada um a leitura na Waterstone’s, em Ham pstead, m as agora a Scotland Yard estava retrocedendo em seu acordo para perm itir a publicação. O vice-com issário assistente estava “nervoso”, disse Helen Ham m ington, e as “fardas” locais, ainda m ais nervosas. Ela tem ia que eles superpoliciassem o evento, m as disse tam bém que os “peritos” em ordem pública tem iam um a m anifestação violenta da parte de um grupo cham ado Hizb ut-Tahrir, cuj os m em bros na descrição de Helen “usavam ternos”, “falavam em celulares” e eram m odernos e ágeis o suficiente para organizar um ataque rapidam ente. Rab Connolly foi visitá-lo e disse: “Tem gente na força policial que é m uito hostil a você e quer que essa leitura dê errado”. Ele contou tam bém que, em conversa com a Cathay Pacific Airway s sobre um a proposta de turnê de divulgação do livro na Austrália, ouvira dizer que em reuniões os operadores da British Airway s tinham feito “proselitism o de sua proibição”, encoraj ando outras linhas aéreas a fazer a m esm a coisa.
Com a aproxim ação do dia do lançam ento de O último suspiro do mouro, a batalha entre ele e os oficiais superiores da Scotland Yard, que cada vez m ais envergonhava a equipe Malaquita, explodiu num a guerra aberta. Rab Connolly telefonou para dizer que o com andante Howley estava fora do escritório e em sua ausência outro oficial graduado, o com andante Moss, tinha tom ado o partido do “nervoso” vice-com issário assistente, Skeete, contra ele. A polícia estava recuando de sua perm issão de leituras anunciadas. Connolly disse: Porque é você. Margaret Thatcher tam bém ia fazer um a turnê de divulgação de seu livro e todos os eventos dela autom aticam ente receberiam o m áxim o esforço da polícia porque — a velha frase de Greenup surgia outra vez — ela havia prestado um serviço ao Estado; m as o sr. Rushdie era um encrenqueiro e não m erecia a assistência policial. Os agentes que tratavam com ele m ais frequentem ente — Connolly, Dick Wood e Helen Ham m ington (que estava em casa de m olho por causa de um a perna quebrada) — estavam todos do seu lado, m as seus chefes foram inflexíveis. “Se ele for àquela livraria”, disse Moss, “vai sozinho.” Howley estava de volta do fim de sem ana, disse Rab Connolly, e, “indiscretam ente”, acrescentou, “pedi para falar com ele. Se não m e apoiar, eu m e dem ito da proteção e provavelm ente vão m e colocar em postos fardados de novo”. Essa frase sim ples foi de partir o coração.
Ele contou a Frances Coady e Caroline Michel, que ficaram perplexas. Tinham planej ado o lançam ento do livro com base no acordo com a polícia, que agora, no últim o m inuto, estava rom pido. Ele contou tam bém a Frances D’Souza. “Cheguei ao m eu lim ite”, ele disse. “Não vou m ais tolerar isso.” Se era para receber proteção, não podia ser essa, desse tipo tão crítico, tão pouco generoso. Se esse diktat fosse confirm ado, ele partiria para um a guerra pública. Os tabloides iam vilipendiá-lo, m as isso era o que j á faziam de qualquer form a. Que a Inglaterra decidisse.
Ele estava em guerra com policiais que achavam que ele não tinha feito nada de valor na vida. Talvez nem toda a Scotland Yard pensasse assim , porém . Dick Wood contou que o com issário assistente David Veness, o oficial m ais antigo a entrar na história até então, dera “sinal verde” para a leitura em Ham pstead, dizendo que iria “dizer a todos os nervosos para se acalm arem ”. Rab Connolly estava em casa, talvez pensando que ia perder o em prego quando fez seu ultim ato. Mas no fim não houve ultim ato. Na segunda-feira, Howley ordenou que Connolly cancelasse o evento e Connolly ligou para a livraria e o fez sem avisar nem o editor, nem o próprio autor.
Não era m ais um a batalha que pudesse ser vencida usando arm as convencionais. Ela estava se tornando term onuclear. Ele exigiu um a reunião com a Scotland Yard na m anhã seguinte e levou Frances Coady e Caroline Michel, representando a Random House, para declarar que seu plano de lançam ento estava sendo severam ente prej udicado pela polícia. Encontraram os m em bros da equipe Malaquita envergonhados — Helen Ham m ington, que tinha ido m esm o estando com a perna quebrada, Dick Wood e Rab Connolly, todos eles exasperados e m agoados porque estavam brigando com o chefe, que não estava acostum ado a essa insubordinação, e o resultado não fora bonito. Eram funcionários superiores, m as Howley tinha “gritado com eles”. A decisão do com andante, disse Helen, o rosto severo e para baixo sob o cabelo curto, era “absoluta”. A reunião estava term inada.
Foi quando ele, num a estratégia calculada, deliberadam ente explodiu e com eçou a gritar. Sabia que ninguém naquele escritório tinha culpa pelo que estava acontecendo e que, de fato, tinham arriscado as próprias carreiras por ele; m as, se não conseguia passar à frente deles, tinha perdido, e resolvera não perder. Então, com todo sangue-frio, sabendo que era sua única chance, perdeu as estribeiras. Se Helen não conseguia m udar a decisão, berrou, então era m elhor, porra, ela o pôr num a sala com alguém que pudesse, porque a Random House e ele tinham agido estritam ente de acordo com o que a polícia dissera ser possível, meses antes, e essa im posição de últim a hora sim plesm ente não podia existir, não podia existir de jeito nenhum, e se não entrasse naquela sala imediatamente ele iria falar em público do j eito m ais ruidoso e agressivo possível, portanto, m e bote lá dentro, Helen, senão. Ou, senão, porra. Cinco m inutos depois ele estava sozinho num a sala com o com andante John Howley .
Se ele tinha sido fogo com Helen, agora ele seria gelo. Howley estava lhe dando seu m elhor olhar gelado, m as ele era capaz de congelar m ais. O policial falou prim eiro. “Diante de sua insistente visibilidade”, Howley disse — referindo-se à dém arche —, “acreditam os que a m ídia vai pegar a história da sua leitura e usar com o notícia principal.” E depois disso haveria hordas de m uçulm anos gritando na frente da livraria. “Isso não é adm issível.” Ele m anteve a voz baixa ao responder:
A decisão não é aceitável. Não acredito no seu argum ento de ordem pública. O senhor está
sendo tam bém discrim inatório. Na m esm a página do The Times de hoj e que traz a história
de um possível relaxam ento iraniano há o anúncio de um evento relativo ao livro de
Thatcher e o senhor vai proteger esse evento. Além disso, com o o sr. Veness só deu a
perm issão ontem , todo m undo na Waterstone’s e na Random House sabe do que está
acontecendo, de form a que isso vai se tornar público m esm o que eu não faça nada. E eu
gostaria de lhe dizer que não vou m e conform ar em não fazer nada. Se não m udar sua
decisão, vou convocar um a entrevista coletiva e dar entrevistas a todos os j ornais m ais
im portantes, aos program as de rádio e televisão denunciando o senhor. Nunca fiz nada
além de agradecer a polícia até agora, m as posso e vou m udar de tom .
“Se fizer isso”, disse Howley , “vai ficar m uito m al.”
“Provavelm ente”, ele respondeu, “m as sabe de um a coisa? O senhor também vai ficar muito mal. Então a escolha é sua. Perm ita que o evento ocorra e nenhum de nós dois fica m al, ou proíba e nesse caso nós dois ficam os. Escolha.”
“Vou pensar no que disse”, Howley falou com sua voz cinza, seca. “Eu lhe darei um a resposta até o fim do dia.”
Andy Ashcroft ligou à um a da tarde. O G7 havia aderido à cam panha e concordado em exigir o fim da fatwa. A União Europeia estava pressionando bastante pela assinatura de Rafsanj ani e por todas as condições da dém arche francesa. “Você não deve aceitar apenas um a Europa livre da fatwa”, ele disse a Ashcroft. “E os iranianos, em com entário após o anúncio, devem determ inar que os m uçulm anos no Ocidente obedeçam às leis locais.” Ashcroft disse que estava “bastante otim ista”. “Estou brigando com a Divisão Especial”, ele disse ao funcionário do Foreign Office, “e seria bom se você pudesse dar um a cutucada nas coisas, porque não ia ser bom ter um a briga pública agora.” Ashcroft riu. “Vou ver o que posso fazer.”
Duas horas e m eia depois, Dick Wood telefonou para dizer que Howley tinha recuado. A leitura aconteceria dentro de dois dias. Não devia ser anunciada até a m anhã do evento. Era essa a concessão que ofereciam .
Ele aceitou.
Todos os lugares da Waterstone’s foram vendidos até a hora do alm oço. “Im agine se tivéssem os anunciado na segunda-feira, com o planej ado”, disse o diretor da divisão de Ham pstead, Paul Bagley. “Teríam os vendido m ilhares.” A Ham pstead High Street estava fervendo de guardas uniform izados, e não havia nem um único m anifestante à vista. Nenhum cavalheiro com barba, com faixa e expressão j usticeira enraivecida. Nem um . Onde estavam os ternos e celulares, os “m il fanáticos violentos” do Hizb ut-Tahrir? Não ali. Se não fosse pelas hordas de policiais na rua, teria parecido um evento literário absolutam ente com um .
Não foi, claro. Era sua prim eira leitura pública anunciada previam ente em quase sete anos. Era o dia do lançam ento de seu prim eiro rom ance adulto desde Os versos satânicos. O pessoal da Waterstone’s disse depois a Caroline Michel que fora a m elhor leitura que eles j á tinham visto, o que era bom ; para o próprio leitor soou com o um m ilagre. Ele estava de novo com seu público, depois de tanto tem po. Ouvir seu riso, sentir que se com oviam : extraordinário. Ele leu a abertura do rom ance, depois o trecho sobre os Lênins, e a passagem da “Mãe Índia”. Depois disso, centenas de exem plares do livro correram pela noite de Londres, em m ãos alegres. E nem um único m anifestante apareceu.
Ele havia atravessado seu rubicão. Não havia m ais volta. O pessoal da Waterstone’s Cam bridge estivera presente e quis prosseguir com o evento, dessa vez anunciado com dois dias de antecedência. Dick Wood disse que “todo m undo no departam ento ficou contente”. Ele se perguntou se isso incluía o com andante Howley. Um dia, depois dois dias, depois m ais. Passo a passo, de volta à vida real. Para longe de Joseph Anton, na direção de seu próprio nom e.
Ele m andou garrafas de cham panhe para todos os que haviam lutado a favor dele contra os figurões da Scotland Yard.
O barulho em torno da “iniciativa francesa” ficava m ais alto a cada dia. O j ornal The Independent noticiou que o chefe das células europeias de assassinos da Guarda Revolucionária Iraniana tinha escrito a Kham enei, reclam ando por ter recebido ordens de dissuadir seus cachorros, um a folha ao vento que indicava tanto que os cachorros haviam sido realm ente dissuadidos com o que Kham enei podia não se opor à m edida. Então, Arne Ruth, do Dagens Nyheter, inform ou sobre um a reunião “m uito anim adora” em Estocolm o. Ao lado de outros j ornalistas suecos, ele se encontrara com o m inistro iraniano Larij ani, que dissera, excepcionalm ente, que desej ava que escrevessem artigos frisando a “adm iração pela obra de Salm an Rushdie” por parte do Irã, porque queriam “m udar as disposições psicológicas”. Ainda m ais surpreendente foi a declaração oficial de Larij ani de que a fatwa não precisava ser cum prida, um a vez que não atendia aos m elhores interesses do Irã. Esse era o m esm o Larij ani que havia exigido com frequência a m orte do sr. Rushdie. Na questão de Sanei da Recom pensa, porém , Larij ani não tocou. O governo não podia fazer nada a respeito. Depois, um a piada. Por que o sr. Rushdie não processava Sanei pela lei iraniana? Ah, muito bem, ele pensou, pronunciando brevem ente com vogais dickensianas. Muito, muito bem mesmo.
O vento estava virando. As folhas voavam em m uitas direções. Se havia um a resposta soprando naquele vento, ele não fazia ideia de qual era.
Elizabeth estava aborrecida por não haver nem sinal de gravidez. Ela disse que ele devia fazer um “teste de esperm a”. Houve m om entos de tensão entre eles. Os dois ficaram preocupados.
Caroline Michel disse: “É, a excitação da m ídia está grande e pode ser usada para criar um a vida m elhor para você”. Ele não queria perm anecer preso para sem pre num m undo de som bras de diplom atas, agentes da inteligência, terroristas e contraterroristas. Se desistisse de seu próprio retrato do m undo e aceitasse aquele, nunca m ais escaparia. Estava tentando entender com o pensar e agir em resposta ao que podia estar para acontecer. Seria um a bela corda bam ba. Se Olafur Eliasson tivesse razão sobre a necessidade de um a resposta positiva da m ídia, então talvez ele devesse dizer que as coisas estavam m elhores, m as não resolvidas; que era o com eço do fim , m as não o fim ; um cessar-fogo, m as não ainda a paz final. O aiatolá Meshkini tinha dito recentem ente que qualquer fatwa podia ser anulada, e muitas tinham sido. Deveria m encionar isso? Talvez não. Os iranianos provavelm ente não iam gostar se ele citasse o aiatolá deles contra eles m esm os.
Andrew Green, do Foreign Office, ligou para inform á-lo do que estava planej ado. O texto iraniano ia tom ar a form a de “um a carta do m inistro do Exterior, Velay ati, declarando que seu assistente, Va’ezi, estava autorizado a divulgar a posição iraniana”, que não seria expressa na carta de Velay ati, m as num “anexo” a ela, que seria tam bém publicado pela im prensa iraniana. Green queria saber se isso era aceitável para ele ou não. Parecia que o Foreign Office não achava suficiente. Isso estava m uito longe da assinatura de Rafsanj ani, afinal.
Larry Robinson ligou da em baixada dos Estados Unidos. Ele sentia que os europeus estavam pressionando pela aceitação, m as os Estados Unidos e o Reino Unido não queriam . Ele tem ia que o Irã estivesse planej ando um “assassinato negável”. (Elizabeth tam bém tem ia que ele pudesse ser m orto em um a de suas leituras conquistadas a duras penas, m as Rab Connolly disse que os “espiões” diziam que os “do m al” não estavam planej ando fazer isso.)
O que fazer? Ele realm ente não sabia. O que deveria fazer?
A m ídia estava tratando esse m om ento com o se fosse o fim da questão da fatwa, m as talvez não fosse; e, nesse caso, ele perderia a atenção de todos, m as o perigo perm aneceria. Ou a alternativa era que, aceitando, em purrando as coisas para a frente, talvez ele pudesse usar a m ídia para criar um clim a em que a am eaça realm ente chegasse ao fim .
Se a União Europeia rej eitasse a resposta do Irã à dém arche, isso perm itiria que o Irã a acusasse de m á-fé e preciosism o e sugerisse que o Ocidente não queria resolver o problem a da fatwa — que ele estava sendo usado pelo Ocidente com o um a peça num j ogo m aior. E talvez estivesse. A adm inistração dos Estados Unidos e, até certo ponto, o governo britânico queriam pressionar m ais o Irã em term os políticos e nesse esforço a fatwa era útil a eles, sem dúvida. Mas, se ele aceitasse a resposta iraniana, a cam panha de defesa ia definhar e a fatwa e a oferta de recom pensa continuariam no lugar. Ele sentia faltar-lhe o chão.
O dia da resposta iraniana era tam bém o dia da leitura em Cam bridge. O anúncio com dois dias de antecedência tinha atraído um público enorm e e, é claro, todos estavam nervosos, disseram que ele teria de entrar por um a porta dos fundos, que se tentasse entrar pela porta da frente o evento seria cancelado. Mas estava acontecendo, e m ais um a vez não houve nem sinal de m anifestação. Seu próprio instinto, apoiado por conversas com artistas e j ornalistas na com unidade britânico-asiática, era que a energia dos protestos m uçulm anos britânicos havia se esgotado havia m uito. Essa fase estava superada.
Às 12h45 chegou um a notícia chocante e inesperada. Va’ezi, o assistente do m inistro do Exterior, dissera à Irna, a agência de notícias oficial iraniana, que o Irã havia rej eitado a dém archeeuropeia e que a iniciativa francesa estava m orta. Nessa m esm a m anhã, o Irã vinha inform ando à m ídia que o pedaço de papel de Va’ezi atenderia a todas as exigências da União Europeia, e agora ele dizia que nenhum a garantia escrita havia sido dada, nem seria dada.
Sim plesm ente assim .
Era im possível saber o que tinha acontecido em Teerã. Alguém tinha perdido um a briga e alguém havia vencido.
Elizabeth caiu em prantos. Ele ficou estranham ente calm o. Tinha de usar a planej ada entrevista coletiva para voltar ao ataque. Ao se recusar a dizer que não iam se envolver com terrorism o, os iranianos revelavam que podiam m uito bem fazê-lo. O colapso da iniciativa deixava o Irã nu à luz clara da atenção m undial. Era isso que ele tinha a dizer, o m ais alto possível.
Estranham ente, ele não tem ia por si m esm o, m as não sabia com o falar com aqueles que o am avam , com o contar a Zafar a notícia decepcionante, com o contar a Sam een. Ele não sabia com o dar força à chorosa Elizabeth, ou onde encontrar esperança. A sensação era de que talvez não houvesse nenhum a esperança. Mas ele sabia que precisava — e iria — continuar, ouvindo o lem a do poderoso Inom inável de Beckett. Não posso continuar. Vou continuar.
E é claro que a vida de fato continuou. Um a coisa ficou m ais clara que nunca: ele tinha de aceitar sua liberdade onde pudesse obtê-la. Um fim “oficial” não estava m ais parecendo possível, m as os Estados Unidos o atraíam para m ais um as férias de verão. O desinteresse dos policiais am ericanos em sua proteção era ótim o, na verdade um a verdadeira bênção. Nesse ano, Elizabeth, Zafar e ele puderam passar 25 dias felizes de verão de liberdade am ericana. Zafar e Elizabeth foram j untos num voo direto; ele lançou m ão dos am igos de Rudolf Scholten na Austrian Airlines para levá-lo ao j fk via Viena: um traj eto m uito longo, m as não im portava, ele estava lá!
E Andrew estava lá! E foram de carro diretam ente para Water Mill, para nove dias m aravilhosos na praia Gibson, e em casas de am igos, não fazendo nada e fazendo tudo. A sim plicidade daquilo — e o contraste com sua vida isolada na Grã-Bretanha — trazia-lhe lágrim as aos olhos. E depois de Water Mill foram de carro e balsa até Martha’s Viney ard, onde se hospedaram na propriedade de Doris Lockhart Saatchi, em Chilm ark, durante m ais oito dias. Sua m aior lem brança da viagem seria a genitália de William Sty ron. Elizabeth e ele visitaram os Sty ron em sua casa em Viney ard Haven e ali na varanda estava o grande escritor com short cáqui, sentado com as pernas abertas e sem cueca, seus tesouros generosa e inteiram ente expostos. Era m ais do que ele j am ais poderia esperar saber sobre o autor de As confissões de Nat Turner e A escolha de Sofia, m as toda inform ação era útil, ele adm itiu, e arquivou essa devidam ente para uso posterior.
Depois, três noites com os Irving, três com os Herr, e m ais três no apartam ento de Wy lie na Park Avenue. Zafar recebeu seus resultados da escola secundária na últim a noite, e, felizm ente, foram bons. Nos anos que se seguiram , ele se perguntou m uitas vezes com o teria sobrevivido sem a válvula de escape dessas j ornadas am ericanas, em que podiam fingir que eram gente norm al da literatura, cuidando de seus interesses, sem a com panhia de hom ens arm ados, e não parecia tão difícil. Ele depressa adquiriu a certeza de que, quando chegasse a hora, os Estados Unidos facilitariam a ele recuperar sua liberdade. Quando disse isso a Elizabeth, ela franziu o cenho e ficou irritada.
Na escuridão que se seguiu ao colapso da iniciativa francesa, houve um raio de luz inesperado. A Lufthansa cedeu à pressão pública. Houve um alm oço com o sr. e a sra. Lufthansa, diretor-geral Jürgen Weber und frau. Frau Weber revelou-se um a grande fã dele, ou pelo m enos foi o que disse. E, sim , teriam m uito prazer em transportá-lo, disse seu m arido. Teriam orgulho em transportá-lo. Fácil assim . Depois de m ais de seis anos de recusas — puf! — eles adorariam recebê-lo em seus aviões, a qualquer momento. Tinham tanta adm iração por ele. “Obrigado”, ele disse, e todo m undo pareceu satisfeito e evidentem ente houve m uitos livros para autografar.
A bbc fez um docum entário sobre O último suspiro do mouro e encom endou ao pintor indiano Bhupen Khakhar, seu am igo, o retrato dele para o film e. Era um rom ance sobre pintores e pintura, e sua am izade com um a geração de artistas plásticos indianos talentosos — com o próprio Bhupen acim a de todos — lhe perm itira pensar em escrevê-lo. Tinham se conhecido nos anos 1980, e am bos haviam se identificado um com o outro e rapidam ente ficaram am igos. Logo depois de seu prim eiro encontro, ele foi à exposição de Bhupen na galeria Kasm in Knoedler, em Londres. Em seu bolso havia um cheque recebido por um conto que acabara de vender para The Atlantic Monthly. Na exposição, ele se apaixonou pelo quadro Compartimento ferroviário de segunda classe e, quando descobriu que o preço na etiqueta era exatam ente o valor do cheque em seu bolso (a arte indiana na época era barata), ele alegrem ente transform ou seu conto na pintura do am igo e ela continuou sendo um a de suas posses m ais queridas desde então. Era difícil para artistas indianos contem porâneos escaparem da influência do Ocidente (um a geração antes, os fam osos cavalos de M. F. Husain tinham saltado diretam ente de Guernica, de Picasso, e a obra de m uitos outros grandes nom es — Souza, Raza, Gaitonde — era, para seu gosto, influenciada dem ais pelo m odernism o e pelo abstracionism o ocidental). Encontrar um a linguagem indiana que não fosse nem folclórica nem derivativa não tinha sido fácil, e Bhupen foi um dos prim eiros a conseguir isso, observando a arte de rua na Índia, os cartazes de cinem a, as fachadas pintadas das loj as e as tradições figurativa e narrativa da pintura indiana, criando a partir desse am biente visual um a obra de idiossincrasia, originalidade e percepção.