Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 8 de 11 · parte 2/4

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Joseph Anton: Memórias

7. Um caminhão de estrume

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O serial killer Dennis Nilsen havia servido brevem ente na força policial, disse o sr. Ross, m as fora expulso depois de um ano, por ser hom ossexual. “Hoj e não se poderia m ais fazer isso, não é?”, refletiu o sr. Ross. “Ah, não, não se poderia.”

Num vidro grande havia um par de braços hum anos cortados no cotovelo. Pertenciam a um assassino britânico que tinha sido m orto a tiros quando em fuga pela Alem anha. A Scotland Yard havia pedido a seus colegas alem ães que m andassem as im pressões digitais do cadáver para poderem identificá-lo form alm ente e encerrar o caso. Os alem ães preferiram m andar os braços do assassino. “Peguem vocês as digitais”, disse o sr. Ross, im itando um sotaque. “Toque do velho senso de hum or alem ão.” E ele era um hom em que estavam tentando m atar. Toque do velho senso de hum or britânico, ele pensou. Ah, sim .

Nessa noite, com as im agens do Black Museum ainda vivas na im aginação, ele participou de um a leitura póstum a em honra de Anthony Burgess, no Roy al Court Theater, ao lado de John Walsh, Melvy n Bragg, D. J. Enright e Lorna Sage. Ele leu a parte de Laranja mecânica em que Alex e seus droogs, ou am igos, atacam o autor de um livro cham ado Laranja mecânica. Andava pensando bastante naquilo que Burgess cham ou de “ultraviolência” (inclusive violência contra escritores); sobre o glam our do terrorism o e com o isso fazia j ovens perdidos e desesperançados se sentirem fortes e poderosos. A gíria baseada no russo que Burgess criara para esse livro havia definido esse tipo de violência, glorificando-a e anestesiando as reações a ela, de form a que ela se tornara um a brilhante m etáfora do que transform ava a violência num a m oda. Ler Laranja mecânica era adquirir um a m elhor com preensão dos inim igos de Os versos satânicos.

 

Ele term inou “O cortesão”, de form a que a coletânea Oriente, Ocidente estava com pleta. Term inou tam bém a prim eira parte de O último suspiro do mouro, “Um a casa dividida”, que tinha um as 40 m il palavras. O bloqueio se rom pera afinal. Ele estava profundam ente m ergulhado no sonho. Não estava m ais em Cochin. Agora seu olhar m ental via a cidade de sua j uventude, que havia sido forçada a adotar um nom e falso. Os filhos da meia-noite tinha sido seu rom ance de Bom baim . Este seria um livro sobre um lugar m ais som brio, m ais corrupto, m ais violento, visto não através dos olhos da infância, m as usando o olhar m ais pessim ista de um adulto. Um rom ance de Mum bai.

 

Ele com eçara um a batalha j udicial na Índia para recuperar um a propriedade ancestral, o chalé de verão de seu avô em Solan, nos m ontes Shim la, que tinha sido tom ado ilegalm ente pelo governo no estado de Him achal Pradesh. Quando essa notícia chegou a Londres, o Daily Mail publicou um editorial sugerindo que, se ele quisesse ir em bora e m orar em Solan, sua passagem podia ser paga por um a subscrição pública porque seria m uito m ais barato do que continuar com a proteção. Se dissessem a qualquer outro im igrante indiano na Inglaterra que voltasse a sua terra, seria considerado racism o, m as aparentem ente era tolerável falar desse im igrante específico do j eito que quisessem .

No fim de j unho, ele foi à Noruega, encontrar-se com William Ny gaard, que estava se recuperando bem , m as lentam ente, dos ferim entos e deu-lhe um abraço. Em j ulho, ele escreveu a prim eira de um a série de cartas abertas à escritora bangladeshiana am eaçada Taslim a Nasrin para o diário de Berlim die tageszeitung. Depois dele, foram Mario Vargas Llosa, Milan Kundera, Czesław Miłosz e m uitos outros. Em 7 de agosto, a fatwa com pletou 2 m il dias. Em 9 de agosto, Taslim a Nasrin chegou a Estocolm o com a aj uda de Gabi Gleichm ann, do pen sueco, e recebeu asilo do governo da Suécia. Nove dias depois, ela foi agraciada com o Prêm io Kurt Tucholsky. Portanto, estava em segurança; exilada, privada de sua língua, seu país e sua cultura, m as viva. “O exílio”, ele havia escrito em Os versos satânicos, “é um sonho de glorioso retorno.” Escrevera isso sobre o exílio de um im ã parecido com Khom eini, m as a frase voltara com o um bum erangue e descrevia seu autor, e agora Taslim a tam bém . Ele não podia voltar à Índia, e Taslim a não podia voltar a Bangladesh; os dois só podiam sonhar.

 

Devagar, com cuidado, ele havia preparado algum as sem anas de escapada. Ele, Elizabeth e Zafar tom aram o trem noturno para a Escócia e lá foram recebidos pelos veículos da proteção, que tinham seguido na véspera. Na pequena ilha particular de Eriska, perto de Oban, havia um hotel tranquilo e eles passaram lá um a sem ana de férias, fazendo as coisas norm ais de férias — cam inhadas pela ilha, tiro ao alvo, m inigolfe — que pareciam um luxo indescritível. Visitaram Iona e, no cem itério em que os antigos reis da Escócia repousavam — onde o próprio Macbeth foi enterrado —, viram um túm ulo recente, a terra sobre ele ainda úm ida, no qual John Sm ith, o líder trabalhista, havia sido enterrado recentem ente. Ele encontrara Sm ith um a vez e o adm irara. Parou ao lado do túm ulo e baixou a cabeça.

E depois da Escócia veio a escapada de verdade. Elizabeth e Zafar pegaram um avião de Londres a Nova York. Ele teve de fazer o traj eto longo outra vez. Foi para Oslo, esperou, depois pegou o voo da Scandinavian Airlines para o aeroporto j fk e chegou debaixo de chuva forte. As autoridades am ericanas tinham pedido que ele perm anecesse a bordo e, depois que todos os outros passageiros desem barcaram , subiram a bordo e procederam às form alidades de im igração. Ele foi levado para fora do avião e conduzido de carro pela pista até o local do encontro m arcado com Andrew Wy lie. Depois, entrou no carro de Andrew e o m undo da segurança recuou e o deixou livre. Não haviam solicitado segurança e nenhum a segurança foi oferecida ou im posta. A prom essa da estátua do porto fora m antida.

Liberdade! Liberdade! Ele se sentia cem quilos m ais leve e com vontade de cantar. Zafar e Elizabeth estavam à sua espera na casa de Andrew, e nessa noite Paul Auster e Siri Hustvedt, e Susan Sontag e David Rieff apareceram , todos cheios de alegre descrédito por vê-lo livre de suas correntes. Ele levou Elizabeth e Zafar para dar um a volta de helicóptero sobre a cidade com Andrew Wy lie e o tem po todo Elizabeth e Andrew gritaram aterrorizados — Andrew alto, Elizabeth em silêncio. Depois do passeio, alugaram um carro da Hertz. O rosto redondo e rosado da m oça loira da Hertz, Debi, não deu o m enor sinal de reconhecê-lo quando digitou seu nom e no com putador. E então estavam com um sedã de luxo Lincoln só para eles! Ele se sentia com o um a criança com as chaves de um a loj a de brinquedos. Saíram para com er com Jay McInerney e Errol McDonald, da Random House. Era tudo intensam ente excitante. Willie Nelson estava no restaurante! E Matthew Modine! O m aître parecia preocupado, m as e daí? Zafar, agora com quinze anos, estava se sentindo adulto. Jay o tratava com o hom em , conversou com ele sobre garotas, e Zafar adorou. Foi para a cam a sorrindo e acordou com o sorriso ainda no rosto.

Iam para Cazenovia, Nova York, para ficar com Michael e Valerie Herr. Tinham enviado orientações precisas, m as ele telefonou a Michael antes de partir, só para garantir. “O único trecho de que não tenho certeza”, disse, “é com o sair de Nova York.” Com perfeito tim ing de com édia, Michael resm ungou: “É, todo m undo vem tentando descobrir isso há anos, Salm an”.

Cada instante era um presente. Dirigir pela interestadual foi com o um a viagem espacial, passando pelo aglom erado galáctico de Albany e a nebulosa Schenectady em direção à constelação de Sy racuse. Fizeram um a parada em Chittenango, que havia se transform ado num parque tem ático de Oz: calçadas de tij olos am arelos, lanchonete da tia Em , tudo horrendo. Correram para Cazenovia e lá estava Michael piscando para eles por trás dos pequenos óculos grossos, com seu sorriso irônico, e Valerie parecendo vagam ente beatífica e bem. Estavam no m undo de Jim e Jim . As filhas dos Herr estavam em casa e apareceu um cachorro corgi cham ado Pablo, que deitou a cabeça no colo dele e ninguém conseguia afastá-lo. Atrás da am pla casa de m adeira, havia um a lagoa cercada pela m ata. Fizeram um a cam inhada noturna debaixo de um a grande lua cheia. De m anhã, havia um veado m orto na lagoa.

Ele aprendeu a pronunciar “Skaneateles” a cam inho do lago Finger, onde o escritor Tobias Wolff tinha um a cabana. Com eram num a lanchonete de peixes, foram até o fim do píer, comportaram-se normalmente, sentiram -se anorm alm ente leves de alegria. À noite, pararam num a livraria e ele logo foi reconhecido. Isso deixou Michael nervoso, m as ninguém se agitou e ele garantiu a Michael: “Eu evito a livraria am anhã”. No dom ingo, ficaram em casa com os Herr, Toby Wolff veio para o alm oço, ele e Michael trocaram histórias do Vietnã.

A viagem até a casa de John Irving, em Verm ont, levou cerca de três horas. Pararam perto da fronteira estadual para alm oçar. O restaurante pertencia a um argelino cham ado Rouchdy, que inevitavelm ente ficou m uito excitado. “Rushdie! Tem os o m esm o nom e! Sem pre confundem eu com você! Eu falo, não, não, eu m uito m ais bonito!” (Em outra visita aos Estados Unidos, um m aître do Harry Cipriani, de Nova York, ficou igualm ente lírico: “Rushdie! Eu gosto de você! Aquele livro, seu livro, eu li! Rushdie, gosto do seu livro, aquele livro! Eu sou do Egito! Egito! No Egito, esse livro está proibido! Seu livro! Completamente proibido! Mas todo m undo leu!”.)

John e Janet Irving m oravam num a casa com prida na encosta da m ontanha na cidade de Dorset. John disse: “Quando falam os com o arquiteto, sim plesm ente enfileiram os guardanapos, alguns assim em ângulo. Dissem os para ele: Construa desse j eito, e ele construiu”. Em oldurada, na parede, havia um a lista de best-sellers do The New York Times , com Os versos satânicos um a posição acim a do livro de John. Havia outras listas de best-sellers em olduradas e em todas elas John era o núm ero um . Escritores locais vieram j antar e houve gritos, discussões, drinques. Ele se lem brou de que quando conheceu John tivera a ousadia de perguntar: “Por que tantos ursos em seus livros? Houve algum urso im portante na sua vida?”. Não, John respondera, e de qualquer form a — isso foi depois de O hotel New Hampshire — ele não escrevia m ais sobre ursos. Estava escrevendo o libreto para um balé de Bary shnikov, acrescentou, m as só havia um problem a. “Qual problem a?” “Bary shnikov não quer usar a roupa de urso.”

Foram a um a feira estadual e erraram desanim adoram ente na adivinhação do peso do porco. Um porco e tanto, ele disse, e Elizabeth respondeu: Radiante. Olharam um para o outro, era difícil acreditar que tudo aquilo estava realm ente acontecendo. Depois de dois dias, ele pôs Elizabeth e Zafar no Lincoln e rodaram para New London, para pegar a balsa até Orient Point, no North Fork de Long Island. Quando a balsa saiu de New London, um subm arino nuclear negro igual a um gigantesco cetáceo cego estava entrando no porto. Nessa noite, chegaram à casa de Andrew, em Water Mill. As coisas m ais sim ples os deixavam quase em êxtase. Ele andou a cavalo com Zafar em torno da piscina de Andrew e raram ente tinha visto seu filho adolescente tão contente. Zafar foi patinar pelas alam edas cheias de folhas e ele o acom panhou com um a bicicleta em prestada. Foram à praia. Zafar e a filha de Andrew, Erica, conseguiram o autógrafo de Chevy Chase num restaurante. Elizabeth com prou vestidos de verão em Southam pton. Então, o encanto se quebrou e estava na hora de voltar para casa. Elizabeth e Zafar retornaram por um a das grandes com panhias aéreas que estavam proibidas para ele. Ele foi até Oslo e m udou de avião. Vamos fazer isso de novo, e por muito mais tempo, ele prom eteu a si m esm o. Os Estados Unidos haviam lhe devolvido a liberdade durante uns poucos dias preciosos. Não havia narcótico m ais doce e, com o qualquer viciado, ele im ediatam ente quis m ais.

 

Seu novo contato no Foreign Office era um arabista cham ado Andrew Green, m as, quando este propôs um encontro, ele e Frances concordaram em recusar porque Green não tinha nada de novo a discutir. “Salm an está m uito deprim ido?”, Green perguntou a Frances. “É um a reação analítica ou em ocional?” Não, na verdade ele não está deprim ido, sr. Green, só está cansado de ser j ogado para lá e para cá.

Frances tinha escrito a Klaus Kinkel, que agora estava na presidência rotativa da União Europeia. Kinkel respondeu com um a m uralha. Não, não, não. E um m em bro da conservadora União Dem ocrata Cristã alem ã era o novo chefe do com itê de direitos hum anos do Parlam ento Europeu, que tam bém tinha m ás notícias. Os alem ães às vezes lem bravam m uito agentes do Irã na Europa. Pegaram suas vassouras e o estavam varrendo para debaixo do tapete outra vez.

Seus nove contos estavam sendo bem recebidos. Michael Dibdin, do The Independent on Sunday, escreveu que seu livro lhe fazia m ais bem e conquistava m ais am igos do que quaisquer discursos ou declarações, e isso soava certo. Então Cat Stevens — Yusuf Islam — borbulhou no The Guardian com o um peido num a banheira, ainda exigindo que Rushdie recolhesse seu livro e “se arrependesse”, dizendo que seu apoio à fatwa estava de acordo com os Dez Mandam entos. (Posteriorm ente, ele fingiria nunca ter dito essas coisas, nunca ter reclam ado o assassinato de ninguém , nunca ter j ustificado isso em nom e da “lei” de sua religião, nunca ter aparecido na televisão nem falado aos j ornais para vom itar seu lixo sanguinário e inculto, sabendo que vivia num a época em que ninguém tinha m em ória. Negações repetidas podiam estabelecer um a nova verdade que apagava a anterior.)

O novo assistente de Dick Wood, Rab Connolly, um hom em ruivo, firm e, feroz, ligeiram ente perigoso, que estava fazendo um curso de graduação em literatura pós-colonial nas horas vagas, apareceu em pânico falando sobre um cartum no The Guardian que m ostrava um a “rede vigente” com linhas que ligavam o sr. Anton a Alan Yentob, Melvy n Bragg, Ian McEwan, Martin Am is, Richard e Ruthie Rogers, e ao River Café. “Todas essas pessoas visitam a sua residência e isso pode ser prej udicial para a natureza secreta da proteção.” Ele ressaltou que a m ídia de Londres sabia havia m uito tem po quem eram seus am igos, portanto aquilo não era novidade, e depois de algum tem po Connolly concordou em perm itir que seus am igos continuassem a visitá-lo, apesar do cartum . Ele às vezes sentia que estava preso num a arm adilha de percepções. Se tentava sair de seu buraco e ficar m ais visível, a im prensa concluía que não estava m ais em perigo e agia de acordo, às vezes (com o no caso do cartum do The Guardian) fazendo a polícia sentir que havia aum entado o risco ao beneficiário da Malaquita. Então, ele era em purrado para dentro do buraco outra vez. Nessa ocasião, pelo m enos, Rab Connolly não perdeu a coragem . “Não quero im pedir que vá a lugar nenhum ”, disse ele.

Do nada, Marianne m andou um a m ensagem que Gillon lhe enviou por fax. “Contra a m inha vontade assisti você no Face to Face esta noite e gostei de ter visto. Lá estava você com o um dia o conheci — doce, bom , sincero, discursando sobre o Am or. Vam os enterrar o que fizem os j untos, por favor.” Em papel tim brado e sem assinatura. Ele respondeu dizendo que ficaria feliz de enterrar as arm as se ela, por favor, devolvesse suas fotografias. Ela não respondeu.

Em casa, havia m uitas pequenas irritações novas causadas por coabitar com quatro policiais. Dois adolescentes da rua ficaram olhando a casa e a polícia im ediatam ente concluiu que Zafar devia ter falado a seus colegas de escola onde estava. (Ele não tinha feito isso, e os adolescentes não eram da Highgate School.) Mais e m ais sistem as de segurança eletrônicos eram trazidos à casa e entravam em choque uns com os outros. Quando ligavam os alarm es, os rádios da polícia paravam de funcionar, e quando usavam os rádios os alarm es encrencavam . Instalaram um sistem a “perim etral externo” circundando o j ardim , e cada esquilo que corria, cada folha que caía disparavam o alarm e. “Às vezes, isto aqui fica parecendo os Key stone Cops”, ele disse a Elizabeth, cuj o sorriso era forçado porque a gravidez havia tanto desej ada não acontecia. A tensão crescia no quarto. O que não aj udava.

Elizabeth e ele j antaram com Hitch, Carol, Martin e Isabel depois da festa da London Review of Books e Martin estava trem endam ente enfático. “Claro que Dostoiévski não é nada bom , porra.” Beberam m uito vinho e uísque e ele com eçou a discutir ferozm ente com o am igo. Quando as vozes se elevaram , Isabel tentou intervir e ele virou para ela e disse: “Ah, vá se foder, Isabel”. Não queria dizer isso, m as a bebida liberou a ofensa. Im ediatam ente, Martin reagiu. “Não pode falar assim com m inha nam orada. Peça desculpas.” Ele disse: “Conheço Isabel há m uito m ais tem po que você e ela nem ficou ofendida. Está ofendida, Isabel?”. Isabel disse: “Claro que não”, m as Martin ficara insistente: “Peça desculpas”.

“Senão? Senão o quê, Martin? Senão nós vam os lá para fora?” Isabel e Elizabeth intervieram para acabar com aquela idiotice, m as Christopher disse: “Deixem a coisa se esgotar”. “Tudo bem ”, ele disse, “eu peço desculpas. Isabel, m e desculpe. Agora, Martin, você tem de fazer um a coisa para m im .” “O quê?” “Tem de nunca m ais falar com igo o resto da sua vida.”

No dia seguinte, estava se sentindo péssim o e seu hum or só m elhorou depois de ele falar com Martin e dissipar a briga, concordando com o am igo que essas coisas podiam acontecer de vez em quando e não afetavam o am or que tinham um pelo outro. Ele disse a Martin que um grande grito não gritado se acum ulara dentro dele e na noite anterior um a parte desse grito saíra no lugar errado, no m om ento errado.

 

Em novem bro, ele foi à reunião do Parlam ento de Escritores em Estrasburgo. Os hom ens da Raid tinham ocupado todo o últim o andar do Hotel Regent Contades para protegê-lo. Estavam tensos porque o processo dos assassinos de Shapur Bakhtiar estava em curso, e o tem a da conferência era a situação tensa com os m uçulm anos do fis [Front Islam ique du Salut] e do gia [Groupe Islam ique Arm é] na Argélia e sua presença na cidade com plicava consideravelm ente a tensão.

Ele se encontrou com Jacques Derrida, que o fez se lem brar de Peter Sellers em Um Beatle no paraíso, passando pela vida com um a m áquina de vento invisível perm anentem ente desm anchando seu cabelo. Ele logo se deu conta de que ele e Derrida não concordavam sobre nada. No setor da Argélia, ele argum entou que o islã em si, o Islã Existente de Fato, não podia ser exonerado dos crim es com etidos em seu nom e. Derrida discordou. A “ira do islã” era m otivada não pelo islã, m as pelos m alfeitos do Ocidente. Ideologia não tinha nada a ver com aquilo. Era um a questão de poder.

O pessoal da Raid ficava m ais inquieto a cada hora. Anunciaram um alerta de bom ba no teatro de ópera, onde os escritores se encontravam . Havia um cilindro suspeito e provocaram um a explosão controlada. Era um extintor de incêndio. O estouro ocorreu durante o discurso de Günter Wallraff e o deixou irritado por um m om ento. Ele estivera doente, com hepatite, e fizera um esforço especial para ir a Estrasburgo, “para estar com você”.

Nessa noite sobre Arte, pediram a ele que respondesse ao questionário Proust. Qual é sua palavra favorita? “Com édia.” E qual a de que m enos gosta? “Religião.”

No voo de volta, um a alem ã bastante j ovem ficou histérica quando ele em barcou no avião da Air France e saiu do avião, branca, chorando. Foi feito um anúncio para acalm ar as coisas. A passageira havia desem barcado porque não se sentia bem . Diante disso, um hom enzinho inglês se levantou e rugiu: “Ah, bom , nenhum de nós está se sentindo bem. Eu não estou m e sentindo bem . Vam os todos desem barcar”. Ele e a esposa, um a loira oxigenada de cabelo arm ado, com um tailleur Chanel azul elétrico e m uitas j oias de ouro, desceram do avião com o sr. e sra. Moisés liderando o Êxodo. Felizm ente, ninguém saiu atrás deles. A Air France concordou em continuar a transportá-lo.

 

O aiatolá Jannati disse em Teerã que a fatwa “está atravessada na garganta dos inim igos do islã, m as não pode ser revogada até aquele hom em m orrer”.

 

Clarissa estava se sentindo m elhor. No dia de Natal, ela insistiu em ficar com Zafar. Ele e Elizabeth foram à casa de Graham e Candice e à noite visitaram Jill Craigie e Michael Foot, que estivera no hospital com algum a coisa im pronunciável, m as fez um grande esforço para deixar o fato m ais leve. Finalm ente, Jill adm itiu que ele tivera um a hérnia abdom inal. Vinha vom itando, não conseguia com er e tem iam que fosse câncer, então quando souberam que era hérnia fora um grande alívio. “Todos os órgãos dele estão o.k.”, ela disse, em bora, é claro, na idade dele a operação fosse um problem a sério. “Ele fica m e dizendo o que fazer se ele não estiver mais aqui e é claro que eu não escuto”, contou Jill com seu m elhor tom de achar aquilo bobagem . (Ninguém poderia im aginar naquele m om ento que ele sobreviveria a ela onze anos.)

Michael tinha presentes para am bos, um a segunda edição de Lives of the poets para Elizabeth e um a prim eira edição de Lectures on the English Comic Writers para ele, am bos de William Hazlitt. Michael e Jill trataram -nos am orosam ente e ele pensou: Se eu pudesse escolher meus pais, estes teriam sido os melhores que eu poderia imaginar.

Sua própria m ãe estava bem e em segurança, longe dali, com 78 anos, e ele sentia saudades dela.

 

* * *

 

Minha querida Amma,

Mais um ano está fraco das pernas, mas nós, fico feliz de dizer, não estamos. Por falar em pernas, como vai sua “arthur-ite”? Quando eu estava na Rugby suas cartas para mim sempre começavam com a pergunta “Você está gordo ou magro?”. Magro queria dizer que não estavam alimentando direito o seu menino. Gordo era bom. Bem, estou emagrecendo, mas você deve ficar contente. Magro é melhor, no geral. Em minhas cartas da escola sempre tentei esconder o quanto eu era infeliz lá. Eram minha única ficção, aquelas cartas, “marquei 24 no críquete”, “estou me divertindo muito”, “estou bem, feliz”. Quando você descobriu o quanto eu estava arrasado, ficou horrorizada, claro, mas então eu já estava indo para a faculdade. Isso foi 39 anos atrás. Sempre escondemos um do outro as más notícias. Você também. Contava tudo a Sameen e dizia: “Não conte para Salman, ele vai ficar preocupado”. Que dupla nos dois éramos. De qualquer forma, a casa em que moramos “assentou”, para usar a linguagem da polícia. Não está atraindo a atenção dos vizinhos. Parece que conseguimos resolver as coisas e dentro deste casulo está tudo quase calmo, consigo até trabalhar. O livro está indo bem e já enxergo a linha de chegada. Quando um livro vai bem todo o resto na vida parece tolerável; até mesmo esta vida estranha. Andei avaliando o ano. Na coluna dos “menos”, desenvolvi “asma tardia”, uma pequena recompensa do universo por ter parado com meu vício do cigarro. Mas ao menos nunca mais vou poder fumar. Inalar fumaça é absolutamente impossível. A “asma tardia” é geralmente bem branda, mas também incurável. Incurábolha,para citar minha velha campanha. Como você sempre nos ensinou, “o que não tem remédio remediado está”. Na coluna dos “mais”: o novo líder do Partido Trabalhista, Tony Blair, disse umas coisas boas numa entrevista para Julian Barnes. “Ele tem absolutamente cem por cento do meu apoio [...]. Não se pode brincar com uma coisa dessas.” Absolutamente cem por cento é bom, não, Amma? Vamos esperar que essa porcentagem não caia quando ele virar primeiro-ministro. Os muçulmanos europeus parecem estar quase tão cheios da fatwa quanto eu. Os muçulmanos holandeses e os muçulmanosfranceses se manifestaram de novo. Os muçulmanos franceses apoiam a liberdade de expressão e a liberdade de consciência! Na Grã-Bretanha, é claro que ainda temos Sacranie e Siddiqui e os palhaços de Bradford, de forma que rimos muito. E no Kuwait um imã quer proibir a boneca “Barbie” porque é “blasfema”. Você algum dia pensou que a pobre Barbie e eu seríamos culpados do mesmo crime? Uma revista egípcia publicou trechos de Os versos satânicos ao lado de textos censurados de Naguib Mahfouz e exigiu que as autoridades religiosas percam o direito de dizer o que pode ou não ser lido no Egito. A propósito, Tantawi, o grande mufti do Egito, manifestou-se contra a fatwa. E, no discurso de abertura da reunião da Organização da Conferência Islâmica em Casablanca, o rei Hassan, do Marrocos, disse que ninguém tem o direito de declarar as pessoas infiéis ou decretar fatwas ou jihads contra elas. Acho que isso é bom. As coisas fundamentais se impõem com o passar do tempo. Fique bem. Venha me ver logo. Amo você.

Ah, P. S.: Aquela mulher, Taslima, está criando muitos problemas para Gabi G. na Suécia, denunciou-o (por quê?) e disse que não tem nada de bom para falar dele. Parece que ela é bem difícil e está afastando seus defensores por toda a Europa. Pobre Gabi, fez o máximo possível para tirá-la do perigo. Toda boa ação tem seu castigo, como dizem.

Feliz Ano-Novo!

Estou bem e feliz.

 

Ele term inou seu rom ance. Sete anos haviam se passado desde que Saladin Cham cha se virara da j anela que dava para o m ar da Arábia; cinco anos desde que Soray a, a m ãe de Haroun Khalifa, voltara a cantar. Esses finais ele tivera de descobrir durante o processo de escrita, m as tinha o final de O último suspiro do mouro quase desde o com eço. O réquiem no cem itério do m ouro Zogoiby para si m esm o: Vou me deitar sobre esta pedra talhada, encostar a cabeça debaixo destas letras, RIP, e fechar os olhos, seguindo o velho hábito de nossa família, de adormecer em momentos difíceis, com a esperança de despertar, renovado e feliz, num tempo melhor. Tinha sido útil saber as últim as notas da m úsica, saber o alvo para o qual todas as flechas do livro apontavam — narrativa, tem ática, com icidade, sim bolism o. Fora das páginas de livros, a questão de um fim satisfatório era quase sem pre im possível de resolver. A vida hum ana raram ente assum ia um a boa form a, só tinha sentido interm itentem ente, sua confusão era resultado inevitável da vitória do conteúdo sobre a form a, do qual e do quando sobre o como e o por quê. No entanto, com a passagem do tem po ele foi ficando m ais e m ais determ inado a conduzir sua história para o final que todos recusavam , no qual ele e seus entes queridos podiam ir além de um discurso de risco e segurança, para um futuro livre de perigo em que “risco” se tornava outra vez um a palavra para ousadia criativa e “seguro” era com o você se sentia quando estava cercado de am or.

Ele sem pre havia sido pós-algum a coisa, segundo aquele discurso literário elitista que dizia que toda escrita contem porânea era m era consequência — pós-colonial, pós-m oderna, pós-secular, pós-intelectual, pós-literatura. Agora, ele podia acrescentar sua categoria própria, pós-fatwa, àquele em poeirado post-office, e acabaria não apenaspo-co e po-m o, m as po-fa

tam bém .b Ele estava interessado em recuperação desde que escrevera Os filhos da meia-noite para recuperar sua origem indiana, e m esm o antes disso, de fato, pois não era ele um m enino de Bom baim , e essa própria m egalópole não era ela própria um a cidade construída em terra recuperada do m ar? Agora, m ais um a vez ele partiria para recuperar território perdido. Seu rom ance term inado seria publicado e com esse ato ele recuperava seu lugar no m undo dos livros. E planej aria um verão am ericano, negociaria pequenos increm entos de liberdade com os chefes de polícia e, sim , continuaria a pensar na pressão política, na cam panha de defesa, m as não tinha tem po para esperar um a solução política, precisava com eçar a segurar aqueles fragm entos de liberdade que estavam a seu alcance, para com eçar a se encam inhar para o final feliz que estava determ inado a escrever para si m esm o, passo a aliviante passo.

Andrew, falando sobre o Mouro no telefone, estava quase chorando. O lábio superior de Gillon ficou m ais rígido, m as ele tam bém estava com ovido. Ficou contente de ouvir a anim ação deles, m esm o sentindo que o desfecho ainda precisava ser trabalhado, que o personagem do vilão do ato final, Vasco Miranda, ainda não era bem aquilo. Elizabeth term inou de ler e ficou feliz com a dedicatória, Para E. J. W., cheia de m uitos elogios e alguns com entários editoriais m uito claros, m as achou tam bém que a m ulher j aponesa do últim o m ovim ento do livro, Aoi Uë, com o nom e todo de vogais, continha um pouquinho dela, e a com paração que o m ouro Zogoiby fazia dela com sua am ante anterior, a perturbada Um a — ele cham ava Aoi de “um a m ulher m elhor que ele am ava m enos” —, era realm ente um a com paração dela com Marianne. Ele teve de falar durante um a hora para convencê-la de que não era assim , que se ela queria se ver no rom ance devia olhar para a escritura, para a ternura e am orosidade que havia ali, que era o que ele havia aprendido por estar com ela, e que era a verdadeira m arca que ela deixava no livro.

Estava dizendo a verdade. Mas, ao dizer isso, sentiu que tinha dim inuído o rom ance, porque m ais um a vez tinha sido forçado a explicar seu trabalho e suas m otivações. A alegria de term inar ficou um pouco apagada, e ele com eçou a tem er que as pessoas só fossem capazes de ler o livro com um a versão codificada de sua vida.

Nessa noite, foram encontrar-se com Graham Swift e Cary l Phillips no restaurante Julie’s, em Notting Hill, e Dick Wood, que saíra j unto com a equipe de proteção para variar, e que não gostava de ficar na rua até tarde, m andou um recado à m eia-noite, ordenando que ele fosse em bora porque os m otoristas estavam cansados. Ele fizera isso um a vez antes, na festa de aniversário de Billy Connolly , e dessa vez ocorreu um a irritada altercação, com o beneficiário da Malaquita ressaltando que ele não teria m andado um recado infantilizante a nenhum outro beneficiário, e que adultos às vezes j antavam até depois da hora das bruxas. Dick m udou de tom , dizendo que a verdadeira razão do recado era um garçom que havia feito um telefonem a cochichado e suspeito. Caz Phillips investigou — o restaurante era um de seus pontos favoritos — e inform ou que o garçom havia ligado para a nam orada, m as ninguém da equipe de proteção, nem Rab, o auxiliar direto de Dick, tinha acreditado na história do telefonem a. “Ah, todo m undo sabia que não tinha nada a ver com o telefonem a”, Rab disse, rindo. “Dick estava cansado, só isso.” Rab apresentou “desculpas em nom e de toda a equipe” e prom eteu que tal coisa não voltaria a acontecer. Mas ele sentiu, m elancolicam ente, que sua esperança de um a vida social progressivam ente “com um ” tinha sido apagada. Dick, afinal de contas, era a pessoa que lhe dissera que ele fora m uito m altratado pela polícia, que havia lim itado sua liberdade desnecessariam ente.

Helen Ham m ington foi procurá-lo para tentar acertar as coisas, e um dia depois Dick apareceu tam bém , iniciando com as palavras “não espero que peça desculpas”, o que tornou a situação consideravelm ente pior. Durante a reunião, porém , ficou acertado que era preciso m aior “flexibilidade”. Dick pôs a culpa pela velha rigidez em Tony Dunblane, que j á não era m ais da equipe. “Agora que ele foi em bora, você vai ver que as pessoas são m ais tratáveis.” Mas o sr. Anton tinha gostado de Dunblane e o achara sem pre atencioso.

Ele recebeu duas cartas de ódio, um a fotografia de lontras com um balão dentro do qual

havia as palavras você não devia de ter feito issoc e um cartão de felicitações que dizia feliz fatwa, até breve, j ihad islâm ica. No m esm o dia, Peter Tem ple-Morris, do grupo tóri “anti-Rushdie”, fez um discurso num sem inário sobre o Irã na School of Oriental and African Studies, no qual disse, na presença aprovadora do chargé d’affaires iraniano, Ansari, que o sr. Rushdie era o único culpado por todo o problem a e que devia ficar quieto porque o “silêncio é de ouro”. Era um trocadilho interlingual: no Irã, o autor de Os versos satânicos às vezes era cham ado de “hom em dourado”, expressão idiom ática da língua pársi que significava um a pessoa desonesta, um rábula. Tam bém no m esm o dia, Frances telefonou para dizer que a Artigo 19 tinha gastado 60 m il libras na cam panha de defesa em 1994, m as levantara apenas 30 m il em doações e de agora em diante teria de cortar pela m etade suas atividades.

Na festa anual do Esquadrão “A”, ele ficou tocado ao descobrir que a equipe de proteção Malaquita estava se sentindo indiscutivelm ente dona de seu novo rom ance e decidira que ele “tinha” de ganhar o Booker Prize. “Tudo bem ”, ele disse aos rapazes, “vam os entrar em contato com o j úri e avisar que alguns hom ens fortem ente arm ados estão interessados no resultado.” Depois, ele e Elizabeth tiveram permissão para j antar no Ivy. (A equipe de proteção ocupou um a m esa j unto à entrada e ficou olhando as pessoas com o todo m undo.) Ele estava m uito em otivo, disse a ela, porque a finalização de O último suspiro do mouro, ainda m ais que a de Haroun e o mar de histórias, lhe dava a sensação de um a vitória contra as forças das trevas. Mesm o se o m atassem agora, ele não teria sido derrotado. Não tinha sido silenciado. Havia continuado.

Havia paparazzi na saída e todos sabiam quem era Elizabeth, m as quando ele saiu do restaurante disse: “Podem m e fotografar, m as ela não, por favor”, e todos respeitaram o pedido.

 

Clarissa estava bem novam ente. Pela prim eira vez, ouviram -se as palavras remissão total. Zafar tinha no rosto um grande sorriso que seu pai não via fazia um bom tem po. Ela estava tam bém se candidatando a um em prego de assessora literária do Arts Council, trabalho que ele a encoraj ara a experim entar. Ele telefonou para Michael Holroy d, que fazia parte do grupo de entrevistadores, e intercedeu apaixonadam ente por ela. A dificuldade podia ser sua idade, disse Michael: o Arts Council podia preferir alguém m ais j ovem . Ela com pareceu à entrevista e causou um a ótim a im pressão. Poucos dias depois, o em prego era seu.

O último suspiro do mouro estava conquistando novos am igos todos os dias. Seu editor francês, Ivan Nabokov, escreveu entusiasm ado de Paris. Sonny Mehta, caracteristicam ente pouco com unicativo, ainda não tinha lido o livro. “Sim ”, disse seu assistente a Andrew, “ele está preocupado.” O pesadelo era a perspectiva de Sonny poder entrar em pânico por causa do retrato que o livro traçava de um partido político de Bom baim cham ado “Eixo de Mum bai”, um retrato satírico do violento Shiv Sena, e que, consequentem ente, a Random House cancelasse o contrato, com o acontecera na época de Haroun. Mas, ao final de longos dias ansiosos em que, após receber um recado de que Sonny “pediu para você telefonar”, ele ouviu insistentem ente que o grande hom em não podia atender, finalm ente conversaram e Sonny disse que tinha gostado do livro. O contrato não seria rasgado dessa vez. Mais um pequeno passo adiante.

E em seguida um passo m aior. Depois de longas discussões dele com a Scotland Yard, Rab Connolly contou que quando O último suspiro do mouro fosse publicado ele teria permissão de fazer leituras públicas e noites de autógrafos, e que esses eventos seriam anunciados com seis dias de antecedência, evitando-se as sextas-feiras, para que a oposição m uçulm ana não pudesse usar as reuniões de oração das sextas-feiras para se organizar. “Divulgação no sábado, evento na quinta-feira seguinte”, disse Rab. “Isso é que foi com binado.” Era um a conquista. Sua editora Frances Coady e Caroline Michel, encarregada da publicidade, ficaram anim adas.

O passo à frente, quando aconteceu, pegou-o inteiram ente de surpresa. Clarissa estava m ais saudável dia a dia, em polgada com o novo em prego, o rendim ento escolar de Zafar m elhorava j unto com a saúde da m ãe e sua segurança aum entava sem ana a sem ana. Então, em m eados de m arço, ela telefonou para dizer que estivera pensando, e tam bém que fora inform ada a respeito, que precisava de m ais dinheiro. (Na época do divórcio, ele não tinha tido fundos para fazer um arranj o claro e vinha pagando um a m istura de pensão alim entícia e m anutenção do filho havia dez anos.) Os advogados tinham dito que ela podia obter grandes som as, disse ela, adm itindo pela prim eira vez que havia advogados envolvidos, m as ela aceitava 150 m il libras. “Tudo bem ”, ele disse. “Você venceu. Cento e cinquenta m il libras. Tudo bem .” Era m uito dinheiro, m as o problem a não era esse. A hostilidade, assim com o o am or, vinha de onde m enos se esperava. Ele não esperava que ela fosse cobrá-lo depois de tantos anos, depois de sua im ensa preocupação com ela durante sua doença, depois de seu esforço nos bastidores em favor dela com a ap Watt e o Arts Council. (Para ser j usto, ela não sabia desses telefonem as.) Não havia com o esconder de Zafar a súbita tensão entre sua m ãe e seu pai. O rapaz ficou m uito preocupado, m as insistiu em saber o que estava acontecendo. Zafar tinha quase dezesseis anos e observava ferozm ente pai e m ãe. Era im possível esconder dele a verdade.

 

O assistente do m inistro do Exterior do Irã, Mahm ud Va’ezi, estava se contradizendo: prom etera na Dinam arca que o Irã não m andaria assassinos para executar a sentença de m orte, depois, em Paris, no dia seguinte, afirm ou “a necessidade de im plem entação” dessa sentença. A política de “diálogo crítico” entre a União Europeia e o Irã, iniciada em 1992 para m elhorar os índices de direitos hum anos, apoio ao terrorism o e à fatwa, foi denunciada com o um fracasso absoluto. Não era crítica o bastante e, com o os iranianos não estavam interessados, não havia diálogo.

Depois das observações de Va’ezi em Paris, o que o governo britânico disse foi: nada. Outros países protestaram , m as do Reino Unido não se ouviu um pio. Ele passou alguns dias fum egando por causa da língua bífida de Va’ezi e então teve um a ideia. Sugeriu a Frances D’Souza que, se tom assem a declaração de Va’ezi na Dinam arca com o um a espécie de declaração de “cessar-fogo”, talvez conseguissem fazer os franceses pressionarem o Irã para desautorar as observações subsequentes do m inistro em Paris e concordar com um a prom essa pública de não im plem entação da fatwa, que teria de ser m onitorada de perto pela ue por um período estipulado, et cetera, et cetera, antes que qualquer m elhora em nível plenam ente diplom ático pudesse ocorrer. A ideia de um a “iniciativa francesa” estim ulou Frances. Ela andava deprim ida por seu recente encontro com Douglas Hogg, no qual ele dissera que nada podia ser feito a não ser continuar com a proteção; Kham enei estava no com ando e, portanto, o terrorism o iraniano continuaria. Hogg disse a Frances que os iranianos haviam lhe dito dezoito meses antes que eles não executariam a fatwa na Grã-Bretanha, m as não viram necessidade de m encionar o fato, porque não “significava nada”. Assim , a política do governo de Sua Maj estade foi a inércia, com o sem pre. Frances concordou em tentar acordar os aliados franceses. Entrou em contato com Jack Lang e Bernard-Henri Lévy e com eçaram a planej ar. Ele próprio chegou a telefonar para Jacques Derrida, que queria que ele fosse fotografado com os parlam entaristas franceses e o alertou: “Qualquer encontro será interpretado com o um sinal político, então tom e cuidado com certas pessoas”. Derrida estava falando de Bernard-Henri Lévy, sem dúvida, um a figura decisiva na França. Mas Bernard tinha sido firm e em seu apoio e ele não ia desonrar um am igo tão leal.

Continuar: parte 3 de 4