Joseph Anton: Memórias
7. Um caminhão de estrume
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
No coração de O último suspiro do mouro estava a ideia do palim psesto, um quadro escondido debaixo de outro quadro, um m undo debaixo de outro m undo. Antes de ele nascer, seus pais haviam contratado um pintor de Bom baim para decorar seu futuro quarto com anim ais de contos de fadas e cartuns e o artista em pobrecido Krishen Khanna aceitara a encom enda. Ele havia pintado tam bém um retrato da bela e j ovem m ãe do Salm an ainda não nascido, Negin, m as seu m arido, Anis, não gostara do quadro e se recusara a com prá-lo. Khanna tinha guardado a tela rej eitada no estúdio de seu am igo Husain e um dia este pintara um quadro seu por cim a e o vendera. Então, em algum lugar em Bom baim havia um retrato de Negin Rushdie feito por Krishen, que, evidentem ente, veio a ser um dos principais artistas de sua geração, escondido debaixo de um a pintura de Husain. Krishen disse: “Husain sabe onde cada quadro dele foi parar, m as não conta”. A bbc tentou fazê-lo contar, m as o velho bateu a bengala raivosam ente no chão e negou que a história fosse verdadeira. “Claro que é verdade”, Krishen disse. “Ele só está preocupado que você queira destruir a pintura dele para encontrar o retrato de sua m ãe, e se ofendeu de você procurar m eu quadro e não ligar para o dele.” Por fim , ele passou a achar que o retrato era m ais evocativo perdido do que achado — perdido, era um lindo m istério; achado, podia ser que o j ulgam ento de Anis Rushdie se com provasse correto e que o então aprendiz Khanna não tivesse feito um a boa obra — e suspendeu a busca.
Ele posou para Bhupen em seu estúdio na Edwardes Square, Kensington, e contou-lhe a história do quadro perdido. Bhupen riu, deliciado, e continuou trabalhando. Seu retrato estava sendo feito de perfil, na tradição dos retratos da corte indianos, e com o um bom nawab ele vestia um a cam isa transparente, só que a sua, conform e pintada por Bhupen, parecia m ais de náilon que de puro algodão. Bhupen com eçara desenhando, com um único gesto, um perfil a carvão que captava sem nenhum esforço os traços dele. A pintura que cobriu essa linha única de carvão sob certos aspectos parecia m enos com o retratado e m ais com o personagem do m ouro Zogoiby no rom ance. “É um a pintura de vocês dois”, disse Bhupen. “Você com o o m ouro e o m ouro com o você.” Então, havia um retrato perdido debaixo daquele retrato tam bém .
A pintura com pleta acabou sendo com prada pela National Portrait Gallery e Bhupen se tornou o prim eiro indiano a ter um a obra nesse m useu. Bhupen m orreu em 8 de agosto de 2003, no m esm o dia que Negin Rushdie. Não havia com o ignorar a coincidência, em bora o significado dessa sincronicidade perm anecesse fugidio. Ele perdeu um am igo e a m ãe no m esm o dia. Já havia significado suficiente.
O rom ance foi publicado. Ele continuou pressionando suas fronteiras. Participou de sua m aior aparição preanunciada até então, no Fórum de Escritores do The Times,no Central Hall Westm inster, ao lado de Martin Am is, Fay Weldon e Melvy n Bragg. Leu um a passagem de O último suspiro do mouro e agradeceu ao público por com parecer a sua “festinha de libertação”. Sim , havia segurança, ele tivera de entrar e sair pela porta dos fundos, num carro blindado, m as estava lançando seu livro. E, não, não houve m anifestações e os chefões da polícia na Yard com eçaram , enfim , a relaxar.
Ele estava planej ando um a coisa m uito am biciosa. Seus editores latino-am ericanos perguntaram se poderia visitar o Chile, o México e a Argentina em dezem bro, e ele resolveu fazer isso e depois ir para a Nova Zelândia e a Austrália. Seria um a j ornada m onum ental e ele estava decidido a realizá-la. Era preciso falar com m uitas linhas aéreas, m as, agora que tinha a seu favor a Lufthansa, além da Iberia, da Air France, da Austrian Airlines e da Scandinavian Airlines, era m ais fácil argum entar. Aos poucos, o traj eto foi elaborado, aprovações solicitadas e recebidas; o em baixador do México em Londres, Andrés Rozental, encontrou-se com ele e Carlos Fuentes e aj udou a planej ar a etapa m exicana da viagem ; e depois, surpreendentem ente, im provavelm ente, os planos estavam feitos. Tinham licença para ir.
Foram a Oslo, para o lançam ento norueguês de O último suspiro do mouro, e ele fez um a leitura no grande salão da Universidade de Oslo, o Aula, com m urais de Edvard Munch. Era a prim eira leitura preanunciada fora do Reino Unido e tanto ele com o William Ny gaard sentiram que tinham dado um grande passo à frente. Uma vitória sobre seus opressores, William disse, e conseguimos isso juntos. William ainda estava num ritm o um pouco lento por causa dos ferim entos, ainda com um pouco de dor, m as cheio de vida. Nessa noite, em Oslo, para surpresa de todos, a aurora boreal encheu o céu. Ela raram ente aparecia em Oslo, que fica m uito ao sul, e nunca em outubro, que é cedo dem ais, m as lá estavaela, um a aurora verde aparecendo “em honra”, disse William , “de sua Aurora”. A heroína de O último suspiro do mouro era Aurora Zogoiby e era com o se ela estivesse lá no alto, dançando no céu, em algum lugar entre as gigantescas cortinas verdes que arqueavam e ondulavam loucam ente de horizonte a horizonte. Todo m undo em Oslo estava telefonando para os am igos, dizendo saia, olhe o céu, está incrível. A aurora ficou no céu durante um a hora ou m ais, e parecia um sinal de tem pos m elhores.
Robert McCrum tinha tido um derram e na casa da St. Peter’s Street, 41. Ele e Sarah Ly all tinham se casado havia apenas dois m eses e, enquanto ela estava fora, ele quase m orrera. Robert sobrevivera, m as um braço estava paralisado, ele só conseguia andar alguns passos de cada vez e era im possível dizer quanto tem po duraria a lim itação. Ele estava m elhorando um pouco e tanto ele com o Sarah se apegavam àquilo com o sinal de esperança. A Maldição da St. Peter’s Street atacava outra vez.
Ele foi com Christopher Hitchens visitar Robert e Sarah e, de certa form a, desculpar-se pela Maldição. Era estranho voltar à sua antiga casa, onde estava quando, com o havia com eçado a dizer, o excrem ento atingira o sistem a de ventilação. Vários fantasm as entraram e saíram do quarto enquanto ele e Hitch conversavam com o am igo doente. Não ficaram m uito tem po. Robert precisava descansar.
Nos instantâneos que sua m em ória guardava da vida nesses dias, a polícia estava sem pre ausente, apagada das fotos da história com o o líder com unista Clem entis no com eço de O livro do riso e do esquecimento, de Milan Kundera. Para aj udá-lo a atravessar os dias, ele tentava se forçar a esquecer que estava sem pre cercado de guarda-costas e que as considerações de segurança pesavam tanto em sua vida diária. Ele esquecia as pequenas privações cotidianas. Não podia pegar sua própria correspondência ou buscar o j ornal na varanda de casa. Havia colisões de pij am as na cozinha que nunca deixavam de ser em baraçosas. Havia Joe, o codinom e cada vez m ais detestado. (Seria m esm o necessário evitar cham á-lo por seu próprio nom e dentro de sua própria casa?) Havia a falta de toda espontaneidade. Gostaria de dar uma volta, por favor. Tudo bem, Joe, nos dê uma hora, para a gente preparar. Mas daqui a uma hora não vou mais querer dar uma volta. E, cada vez que ele efetivam ente saía, eles o levavam a um “ponto de troca” e o faziam sair de um carro, o carro associado à casa, e entrar em outro, o carro associado a suas aparições públicas. Durante o resto da vida ele detestaria esses “pontos de troca”, Nutley Terrace, Park Village East, ele se encolhia por dentro cada vez que passava por esses lugares, m as na época forçava-se a não registrá-los, descolava-se do corpo do hom em que passava de um veículo para outro e quando chegava a seu destino se recusava a pensar na proteção, estava apenas saindo com seus am igos, sendo ele m esm o.
Para seus am igos era o contrário, a segurança era tão fora do com um para eles, tão estranha e em ocionante, que era praticam ente só disso que se lem bravam . Quando lhes perguntava de suas lem branças daquela época, eles falavam dos policiais. Você se lembra daquele que seduziu nossa babá?, Lembra daqueles dois realmente bonitos?, todo mundo estava a fim deles, lem bravam -se das cortinas fechadas e da porta do j ardim trancada. Mesm o aos olhos de seus am igos ele estava se tornando um a apresentação de slides e a polícia era o acontecim ento principal. Mas, quando ele próprio tentava lem brar daqueles dias, a polícia nunca estava presente. Tinha estado, é claro, m as sua lem brança decidira que não.
Mas às vezes era im possível realizar esse pequeno truque m ental. Nos instantâneos da m em ória ele preservava sua viagem à Am érica do Sul, os policiais do Chile bem no m eio da fotografia, assustadores, inesquecíveis, ruidosos.
Instantâneos do Chile. Havia duas forças policiais diferentes no Chile, os Carabineros fardados e a Policía de Investigaciones, à paisana, e enquanto ele e Elizabeth estavam no ar, voando para Santiago, essas duas grandes instituições entraram em choque sobre a decisão de perm itir que ele entrasse no país. Ele deveria falar num a feira literária, m as quando desceram do avião, num dia quente e m uito lum inoso, foram cercados por policiais fardados e levados a um abrigo sufocante em algum ponto da pista do aeroporto, enquanto gritavam em espanhol à toda volta. Seus passaportes foram levados. Nenhum falante do inglês apareceu para servir de intérprete, e, quando ele tentou perguntar o que estava acontecendo, gritaram com ele e ordenaram , com gestos inconfundíveis, que voltasse a seu lugar e calasse a boca. Bem-vindo à Sudamerica, ele pensou, suando bastante.
Em 1993, Augusto Pinochet não era m ais presidente, m as ainda era o com andante em chefe das Forças Arm adas, e m esm o no outono do patriarca ninguém tinha nenhum a dúvida quanto ao poder e influência que continuava exercendo. No Chile de Pinochet, as forças de segurança eram onipresentes. Só que, no caso dele, os dois sistem as policiais estavam num a luta canina, e ele era o osso. Lem brou-se de um a passagem de O imperador, de Ry szard Kapuściński, em que o autor descrevia os dois serviços de inteligência inteiram ente independentes de Haile Selassie, cuj a tarefa principal era espionar um ao outro. Ele se lem brou tam bém , algo m enos divertido, de que estava num país em que desaparecim entos e assassinatos sem explicação tinham sido coisa com um até recentem ente. Será que eles haviam sido “desaparecidos”?
Depois de serem m antidos no abrigo durante talvez duas horas, foram levados a um a instalação policial descrita com o hotel. Não era um hotel. A porta do quarto deles não abria por dentro. Havia guardas arm ados postados do lado de fora. Ele pediu insistentem ente que devolvessem seus passaportes, que cham assem seu editor e que o deixassem falar com o em baixador britânico. Os guardas davam de om bros. Não falavam inglês. Mais horas se passaram . Não havia nada para com er ou beber.
Seus captores ficaram descuidados. A porta do quarto foi deixada aberta e, em bora o “hotel” estivesse cheio de hom ens fardados, não havia guarda na porta. Ele respirou fundo e disse a Elizabeth: “Vou tentar um a coisa”. Pôs os óculos escuros, saiu do quarto e com eçou a descer a escada na direção da porta de entrada.
Ninguém se deu conta do que ele estava fazendo até estar dois andares abaixo e então havia hom ens gritando e gesticulando à sua volta na escada, m as ele continuou descendo. What you do? Where you go? Not possible. Estava na recepção agora e havia um a pequena nuvem de hom ens engalanados, de óculos espelhados, à sua volta; hom ens arm ados, ele notou, m as tinha se acostum ado àquilo. Where you go? Stop. You stop. Ele sorriu o m ais docem ente possível. “Vou dar um a volta”, disse, indicando a porta e fazendo um gesto de andar com os dedos. “Nunca estive em Santiago antes, sabe. Parece linda. Pensei em dar um passeio.” Os Carabineros não sabiam o que fazer. Am eaçaram , gritaram , m as ninguém tocou-lhe um dedo. Ele continuou andando. Passou pela porta, seu pé tocou a calçada, não fazia ideia de onde ir, realm ente, m as virou à direita e continuou andando. “Sir, o senhor tem de parar im ediatam ente, por favor.” Um intérprete tinha aparecido com o que por m ágica. “Vej o que finalm ente tiraram o coelho da cartola”, ele disse, ainda rindo, ainda andando. “Sir, o que o senhor está fazendo, por favor, não é perm itido.” Ele sorriu ainda m ais. “Diga a eles que, se estou com etendo um crim e, eles têm de m e prender e m e m andar para a cadeia”, disse. “Do contrário, quero o em baixador britânico no telefone dentro dos próxim os dois m inutos.” Dois m inutos depois, ele estava falando com a em baixada. “Graças a Deus”, disse o funcionário do outro lado. “Estam os o dia inteiro tentando descobrir o que aconteceu com o senhor. O senhor sum iu do m apa.”
O hom em da em baixada chegou à instalação policial m inutos depois. Nenhum diplom ata havia sido m ais bem -vindo. “Não faz ideia da disputa que está acontecendo”, disse o hom em . “Eles quase m andaram o avião virar e voltar.” Agora que a diplom acia internacional entrara em cena, Elizabeth e ele tiveram permissão de ir para um hotel de verdade, onde encontraram um a delegação de escritores chilenos, entre os quais Antonio Skárm era, autor do rom ance O carteiro e o poeta, de 1985, que havia sido film ado recentem ente. Skárm era, um hom em grande, com um grande coração, recebeu-o de braços abertos e com um dilúvio de pedidos de desculpas. Um escândalo. Uma vergonha para nós, chilenos. Agora vamos melhorar tudo, agora que sabemos que está aqui, e em segurança.
Havia coisas que não eram possíveis e outras que eram possíveis. Já era tarde dem ais para o com prom isso na feira literária. Mas no dia seguinte haveria um a reunião de escritores, artistas e j ornalistas em um pequeno teatro, e ele teria permissão de se dirigir a eles. Depois disso, ele e Elizabeth teriam um a am ostra da verdadeira hospitalidade chilena na vinícola Concha y Toro e num a bela estância ao sul de Santiago. Eram coisas boas, m as os instantâneos desses prazeres desbotaram e se apagaram . As fotos de seu breve “desaparecim ento” aos cuidados dos Carabineros não desbotou. O Chile não parecia um país ao qual fosse bom voltar em breve.
Instantâneos da Argentina. Em m eados dos anos 1970, ele foi a um a leitura de Jorge Luis Borges no centro de Londres e no pódio, ao lado do grande escritor, que parecia um a versão m ais lúgubre, latino-am ericana, do com ediante francês Fernandel, havia um a linda j ovem de feições j aponesas, quem é essa?, ele se lem brava de ter pensado, e agora, tantos anos depois, ali estava María Kodam a cam inhando em sua direção para recebê-los em Buenos Aires, a lendária viúva de Borges, María K, com seu cabelo de zebra, e iam alm oçar no restaurante que tinha o nom e dela. Depois do alm oço, ela os levou à Fundación Internacional Jorge Luis Borges, localizada não na velha casa verdadeira de Borges, m as na casa vizinha, porque o dono da casa de verdade não quisera vendê-la; a casa da fundação era um a im agem espelhada da casa “real” e parecia adequado que Borges fosse im ortalizado num a im agem espelhada. No andar superior, havia um a recriação exata da sala de trabalho do escritor, um a cela m onástica, estreita e despoj ada, com um a m esa sim ples, um a cadeira de espaldar reto e um catre num canto. O resto do andar estava cheio de livros. Se alguém nunca tivera a sorte de conhecer Borges, conhecer sua biblioteca era a segunda m elhor coisa. Naquelas estantes poliglotas, estavam os exem plares queridos do escritor: Stevenson, Chesterton e Poe, ao lado de livros em m etade das línguas da espécie hum ana. Ele se lem brou da história do encontro de Borges com Anthony Burgess. Temos o mesmo nome, Burgess dissera ao m estre argentino, e depois, procurando um a língua com um para um a conversa que fosse ininteligível para os ouvidos em torno deles, ficaram com o anglo-saxão e conversaram alegrem ente na língua de Beowulf.
E havia um a sala cheia de enciclopédias, enciclopédias de tudo, de cuj as páginas nascera, sem dúvida, a fam osa e falaciosa The Anglo-American Cyclopaedia, um a “reim pressão literal, m as delinquente, da Encyclopaedia britannica de 1902”, em cuj o 46o volum e os personagens fictícios “Borges” e “Bioy Casares” tinham encontrado um artigo sobre a terra de Uqbar na grande ficción “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e tam bém , claro, a enciclopédia m ágica do próprio m undo de Tlön.
Ele poderia passar o dia inteiro entre aqueles livros num inosos, m as tinha apenas um a hora. Ao saírem , María deu a Elizabeth um presente precioso, um a pedra “rosa do deserto”, um dos prim eiros presentes que Borges tinha dado a ela, disse, e espero que seja tão feliz como nós fomos.
“Você se lem bra”, ele perguntou a María, “de um ensaio que Borges escreveu com o prefácio para um livro de fotografias da Argentina de um fotógrafo cham ado Gustavo Thorlichen?”
“Lem bro”, ela disse. “O ensaio em que ele fala da im possibilidade de fotografar os pam pas.”
“Os pam pas sem fim ”, ele disse, “os pam pas borgeanos que eram feitos de tem po, não de espaço: é aí que m oram os.”
Em Buenos Aires, havia segurança, m as era contornável, apagável. As notícias da loucura da polícia chilena haviam chegado antes dele e os guardas argentinos queriam parecer m elhores, de form a que lhe deixaram certo espaço para respirar. Ele pôde fazer seu trabalho para o livro O último suspiro do mouro, e até encaixar um pouco de turism o com um a visita a um a cripta fam iliar no cem itério Recoleta, onde Eva Perón estava enterrada e onde um a plaquinha à la Lloy d Webber convidava os passantes a não chorar por ela. No me llores.Tudo bem , não choro, não, ele disse silenciosam ente a ela. Tudo o que quiser, m adam e.
Pediram que ele se encontrasse com o m inistro das Relações Exteriores da Argentina, Guido di Tella, e a cam inho do encontro o funcionário da em baixada britânica que o acom panhava m encionou que o film e Evita, de Alan Parker, estrelado por Madonna, não havia recebido perm issão para film ar na Casa Rosada. “Se puder dizer algum a coisa a respeito”, m urm urou o diplom ata, “seria um a aj uda. Se puder achar um j eito de tocar no assunto na conversa.” E ele falou. Depois que o señor Di Tella perguntou sobre a fatwa e havia feito os j á tradicionais (e altam ente vazios) ruídos de apoio, ele perguntou ao m inistro sobre os problem as do film e. Di Tella fez um gesto de “o que eu posso fazer?”. “A Casa Rosada, com o sabe, é a sede do governo, é difícil perm itir que rodem um film e lá.”
“Sabe”, ele respondeu, “é um film e de grande orçam ento, e será feito, e, se o senhor não perm itir que film em na Casa Rosada, eles vão encontrar outro edifício para fazer as vezes da sede da presidência, talvez, não sei, no... Uruguai.”
Di Tella ficou rígido. “No Uruguai?”, exclam ou.
“É. Talvez. Talvez no Uruguai.”
“Tudo bem ”, disse Di Tella. “Me dê licença um m om ento, por favor. Tenho de fazer um telefonem a.”
Pouco depois dessa conversa, Evita recebeu perm issão para film ar na Casa Rosada. Quando o film e foi lançado, ele leu que Madonna havia feito um lobby pessoal com o presidente da Argentina para obter a perm issão, e talvez tivesse sido essa a verdadeira razão da m udança de posição. Mas talvez o Uruguai tivesse algum a coisa a ver com isso tam bém .
Instantâneos do México. Sim , havia policiais por toda parte e, sim , ele conseguiu lançar seu livro e falar sobre liberdade de expressão e ver as relíquias dos benditos astecas, a casa de Frida Kahlo e Diego Rivera, em Coy oacán, a sala onde o assassino Mercader enfiou o picador de gelo no crânio de Trotsky e, sim , conseguiu participar da Feira do Livro de Guadalaj ara ao lado de Carlos Fuentes, voou de helicóptero sobre as m ontanhas onde crescia o agave azul até a cidade de Tequila para alm oçar num a das antigas haciendas de tequila com os outros escritores que tinham falado na feira, havia um a banda de mariachis e todo m undo exagerou na tequila Tres Generaciones, houve dores de cabeça e outros efeitos conhecidos. E, sim , sua visita a Tequila forneceu o cenário para a cena próxim a do com eço de O chão que ela pisa, em que a cidade é sacudida por um terrem oto, os barris racham e a tequila corre com o água pelas ruas. E depois de Tequila, ele e Elizabeth se hospedaram , com Carlos e Silvia Fuentes, num a casa assom brosa cham ada Pascualitos, que era na verdade um arquipélago de cabanas cobertas de palha palapa com vista para o oceano Pacífico e que aparece em livros elegantes sobre arquitetura contem porânea, e, sim , ele se deu conta de que am ava o México. Mas tudo isso não vinha ao caso.
O que interessava era que certa noite, na Cidade do México, Carlos Fuentes disse: “É um a loucura você nunca ter se encontrado com Gabriel García Márquez. É um a pena ele estar em Cuba agora, porque de todos os escritores do m undo você e Gabo são os dois que precisam se conhecer”. Ele se levantou, saiu da sala e voltou m inutos depois para dizer: “Há alguém no telefone com quem você tem de falar”.
García Márquez dizia não conseguir falar inglês, m as na verdade entendia a língua bastante bem . Quanto a ele, seu espanhol falado era lam entável, m as, por outro lado, conseguia entender o que as pessoas diziam , contanto que não usassem m uita gíria e não falassem depressa dem ais. A outra língua que os dois tinham em com um era o francês, então estavam tentando usá-lo, só que García Márquez — em quem ele não conseguia pensar com o “Gabo” — voltava sem pre ao espanhol; e ele ouviu m ais inglês do que pretendia saindo de sua própria boca. Mas, estranham ente, no instantâneo que sua m em ória fez da longa conversa, não havia problema de língua. Os dois estavam apenas conversando um com o outro, calidam ente, afetuosam ente, fluentem ente, dizendo coisas a respeito dos livros um do outro e dos m undos de onde eles brotavam . Ele falou dos m uitos aspectos da vida latino-am ericana que se assem elhavam à experiência do sul da Ásia — eram am bos m undos com um longo passado colonial, m undos em que a religião estava viva, era im portante e m uitas vezes opressiva, nos quais generais e civis disputavam o poder, em que havia grandes extrem os de riqueza e pobreza e um a boa dose de corrupção pelo m eio. Não era de surpreender, disse ele, que a literatura da Am érica Latina encontrasse um público tão pronto no Oriente. E Gabo disse — “Gabo!” Parecia presunção, com o cham ar um deus pelo apelido íntim o de fam ília — que a literatura de escritores latino-am ericanos tinha sido profundam ente influenciada pelos contos m aravilhosos do Oriente. De form a que tinham m uito em com um . Então, García Márquez lhe fez o m aior elogio que ele j am ais havia recebido. De todos os escritores fora da língua espanhola, disse ele, os dois que sempre tento acompanhar são J. M. Coetzee e você. Apenas essa frase fez a viagem inteira valer a pena.
Só quando desligou o telefone foi que se deu conta de que García Márquez não havia feito um a única pergunta sobre a fatwa, ou sobre o m odo com o ele vivia agora. Tinham conversado de escritor para escritor, sobre livros. Isso tam bém era um alto elogio.
Instantâneos do colapso do tempo, antes do dia em que. Voaram do México para Buenos Aires, para a Terra do Fogo e acom panhando a costa do Chile em direção à Nova Zelândia. Quando atravessaram a linha internacional de data, seu cérebro desistiu. Você podia dizer a ele que eram quatro e m eia da terça-feira passada que ele acreditaria. A linha de data era tão perturbadora que o tem po se esfarelava em suas m ãos com o pão am anhecido e não dava para dizer nada a respeito, as pessoas diziam que tudo bem , claro, por que não. A linha de data revelava o tem po com o um a ficção, um a coisa que não era real, fazia você pensar que qualquer coisa podia acontecer, os dias podiam correr para trás se quisessem , ou sua vida podia se desenrolar com o um carretel de film e se espalhando loucam ente de um proj etor quebrado para o chão. O tem po podia ser staccato, um a série de m om entos desconectados, fortuitos, sem sentido, ou poderia sim plesm ente erguer as m ãos em desespero e se acabar. Essa súbita perplexidade fez sua cabeça flutuar e ele quase desm aiou. Quando voltou a si, estava na Nova Zelândia, de volta à língua inglesa, o que era reconfortante. Mas havia um a perplexidade m aior à espera. Ele não ouviu as asas do anj o exterm inador, m as elas estavam ali, acim a dele, baixando todo o tem po.
Instantâneos dos dias antes do dia em que. Na Nova Zelândia e na Austrália a segurança era m ais sensata, m enos intrusiva, m ais fácil de aceitar. Mas havia um a coisa que eles não sabiam . Ao atravessarem a ilha North passando pelo m onte Ruapehu, que estava em erupção havia m eses, e do qual subia um a coluna de fum aça inclinada raivosam ente pelo céu, não estavam pensando em sinais nem em portentos. Na Austrália, passaram um fim de sem ana num a propriedade adequadam ente cham ada de “Happy Daze” [Alegre torpor], nas m ontanhas Blue, perto de Sy dney, hospedados na casa de Julie Clarke e Richard Neville, o grande pós-hippie, ex-editor da revista Oz, um dos acusados no fam oso caso de obscenidade pela publicação d e Oz — Número para colegiais e cronista da contracultura dos anos 1960 no sem inal livro de m em órias Hippie hippie shake, e naquela zona de felicidade (dorm iram num a casa na árvore) não era possível pensar em m uita coisa além de paz e am or. Não podiam im aginar que estavam a dois dias do m ais perto que j am ais chegaram de serem m ortos, o m ais perto do m om ento letal em todos aqueles anos am eaçadores.
Instantâneos do dia em que. Decidiram perm anecer depois da parte profissional da viagem e passar um Natal ao sol, e a polícia concordou que podiam ficar sem proteção, um a vez que ninguém saberia que eles ainda estavam no país. O rom ancista Rodney Hall, que m orava num a bela propriedade isolada em Berm agui, New South Wales, a quatro horas de carro ao sul de Sy dney, convidou-os a ficar lá. O Natal em Berm agui, Rodney garantiu, seria totalm ente privado, e idílico. Zafar saiu de Londres e se encontrou com eles em Sy dney quando com eçaram as férias escolares. Aos dezesseis anos e m eio, era um rapaz alto, de om bros largos, com um a notável segurança física. Na m anhã em que a polícia se retirou e os deixou sozinhos, tom aram um café para com em orar, num lugar perto da praia de Bondi, e um hom em de aparência árabe ficou olhando para eles e depois parou na calçada fazendo telefonem as urgentes, cheios de gestos. Zafar se levantou e disse: “Acho que eu vou lá, trocar um a palavrinha”, e seu pai teve a estranha e prazerosa sensação de ser protegido pelo filho, m as pediu que ele não fosse. O hom em ao telefone acabou não sendo im portante e foram até onde seu sedã Holden alugado estava estacionado para com eçar a longa viagem para o sul.
Elizabeth havia levado um audiolivro m ulticassete da Ilíada, de Hom ero, pôs no toca-fitas do carro e eles deslizaram pelo sul de New South Wales na via expressa Princes, passando por Thirroul, o subúrbio de Wollongong onde D. H. Lawrence escreveu Canguru, e desceram para o litoral, a m úsica de didjeridu dos nom es de locais australianos em contraponto aos nom es próprios trágicos, m arciais da Grécia antiga e de Troia, Gerringong, Agam enon, Nowra, Príam o, Ifigênia, Tom erong, Clitem nestra, Wandandian, Jerrawangala, Heitor, Yatte Yattah, Monday ong, Andrôm aca, Aquiles; e Zafar, em balado pela antiga lenda do m ar cor de vinho escuro, rico em peixes, se esticou no banco de trás e dorm iu profundam ente.
Mais ou m enos na m etade da viagem , chegaram à cidadezinha de Milton, e ele vinha dirigindo havia duas horas, talvez devesse parar e passar a direção para Elizabeth, m as, não, ele insistiu, estava bem , contente de continuar no volante. A fita term inou e por um m om ento — um a fração de um instante — seus olhos baixaram para o botão de ejetar e um a variedade de coisas aconteceu m uito depressa, através do tem po, o Tem po, que parecera tão pouco confiável desde que atravessaram a linha de data, pareceu ficar m ais lento e quase parar. Um enorm e cam inhão contêiner articulado saiu de um a estrada lateral e fez um a curva aberta para a esquerda, e ele sustentaria sem pre que a cabine do m otorista atravessara a linha branca, em bora Elizabeth se lem brasse de que ele é que desviara ligeiram ente para a direita, m as, qualquer que tivesse sido a razão, de repente houve aquele gigantesco ruído de dilaceram ento, o horrível ruído m ortífero de m etal com m etal, quando a cabine atingiu com força a porta do m otorista, curvando-a para dentro, e o tem po em câm era lenta ficou ainda m ais lento, parecia que ele estava raspando no cam inhão por um a eternidade, vinte segundos talvez, ou um a hora talvez, e quando o cam inhão finalm ente os soltou o Holden deslizou de lado no asfalto, na direção do m ato da m argem , e logo adiante, vindo na direção deles, havia um a árvore frondosa, sólida, e a certo m om ento, enquanto lutava com a direção, um a ideia se form ou devagar em sua m ente em câm era lenta, não vou conseguir desviar dessa árvore, nós vamos bater nessa árvore, ah, pronto, estamos batendo na árvore, nós batemos... agora, e olhou para Elizabeth quando ela foi lançada para a frente contra o cinto de segurança, os olhos arregalados, a boca aberta, e um a nuvem branca de vapor saiu de sua boca com o um balão de história em quadrinhos, e naquele m om ento ele tem eu que pudesse estar vendo a vida deixar o corpo dela e gritou com um a voz que não era dele você está bem? e perguntou-se o que faria o resto da vida se não ouvisse um a resposta.
Zafar acordou. “Aconteceu algum a coisa?”, perguntou, sonolento. “O que foi?” Bom , Zafar, sabe, está vendo esta árvore aqui no m eio do carro, parece que foi isso que aconteceu.
Estavam vivos. Foi um acidente daqueles que, nove entre dez vezes, m atam todo m undo no carro, m as essa fora a décim a vez e ninguém nem quebrou osso nenhum . O carro podia ter entrado em baixo do cam inhão e nesse caso teriam sido decapitados, m as em vez disso havia ricocheteado num a roda. E no piso de trás, j unto a seu filho adorm ecido, havia um a caixa de vinho aberta que estavam levando de presente para Rodney. Quando o carro bateu na árvore, as garrafas foram lançadas à frente com o m ísseis e explodiram no para-brisa. Se aquelas garrafas tivessem atingido Elizabeth ou ele, os dois teriam o crânio fraturado. Mas os m ísseis voaram por cim a de seus om bros, e não acertaram ninguém . Elizabeth e Zafar saíram do carro sozinhos, sem nem um arranhão. Ele teve um pouco m enos de sorte. A porta do m otorista estava am assada e precisou ser aberta por fora. Ele tinha sérias contusões e vários cortes no antebraço direito e no pé direito, calçado com sandália. Saliente no antebraço, havia um inchaço em form a de ovo, que ele tom ou por sinal de fratura. A boa gente de Milton veio aj udar e ele foi levado a um relvado, onde se sentou, incapaz de falar, perdido em alívio e choque.
Outro lance de sorte: havia um pequeno centro m édico próxim o, o Milton-Ulladulla Hospital, de form a que a am bulância chegou rapidam ente. Os hom ens de branco correram até ele, pararam e olharam fixo. “Desculpe, am igo, m as você é Salm an Rushdie?” Naquele m om ento, ele realm ente não queria ser. Queria ser um a pessoa anônim a recebendo tratam ento m édico. Mas, sim , era. “Ah, tudo bem , am igo, acho que talvez não sej a um a boa hora para pedir isso, m as pode m e dar um autógrafo?” Dê um autógrafo para o cara, ele pensou. Ele é que está com a ambulância.
A polícia chegou e foi interrogar o m otorista do cam inhão, que ainda estava sentado na cabine, coçando a cabeça. Aparentem ente, não tinha acontecido nada com o veículo. O Holden fora destruído por aquele m astodonte e o m onstro não tinha nem um arranhão visível. A polícia estava dando um a dura no m otorista, porém . Eles tam bém tinham percebido que o hom em tonto e ferido sentado no m ato era Salm an Rushdie e então quiseram saber qual era a religião do cam inhoneiro. O m otorista ficou confuso. “O que a m inha religião tem a ver com isso?” Bom , ele era muçulmano? Era islâmico? Era ariano? Por isso é que tinha tentado m atar o sr. Rushdie? Quem sabe um dos asseclas do aiatolá? Estava cum prindo aquela coisa, aquela fatso? O pobre m otorista balançava a cabeça, confuso. Não sabia em quem tinha batido. Estava dirigindo seu cam inhão e não conhecia nenhum fatso. No fim , a polícia acreditou nele e deixou que fosse em bora.
O contêiner do cam inhão estava cheio de fertilizante fresco. “Está m e dizendo”, ele disse a Zafar e Elizabeth, um pouco histérico, “que nós quase fom os m ortos por um cam inhão de merda? Nós quase m orrem os debaixo de um m onte de esterco?” Sim , era isso m esm o. Depois de escapar de assassinos profissionais durante quase sete anos, ele e seus entes queridos quase tinham encontrado seu fim debaixo de um a portentosa avalanche de estrum e.
No hospital, um a série de exam es cuidadosos determ inou que estavam todos bem . O braço dele não estava quebrado, apenas fortem ente contundido. Ele telefonou para Rodney Hall, que disse que ia buscá-los de carro im ediatam ente, m as isso queria dizer que chegaria dentro de duas horas. Nesse m eio-tem po, a m ídia chegou em batalhões. O pessoal do hospital fez um m agnífico trabalho m antendo os j ornalistas à distância, recusando-se a com entar quem estava ou não estava recebendo tratam ento no local. Mas a m ídia sabia o que sabia e ficou à espera. “Pode ficar aqui até seu am igo chegar, se quiser”, disseram os m édicos e as enferm eiras. Então eles ficaram na ala de em ergência e esperaram , olhando um para o outro atentam ente com o para se certificar de que os outros realm ente ainda estavam ali.
Rodney chegou, apressado e cheio de solicitude. A im prensa ainda estava lá fora, ele disse, então com o fariam ? Sim plesm ente passar por eles, deixar que fotografassem e ir em bora? “Não”, ele disse a Rodney. “Em prim eiro lugar, não quero um a fotografia m inha todo m achucado e com o braço na tipoia em todos os j ornais am anhã. E, em segundo lugar, se eu sair no seu carro, eles não vão dem orar para descobrir onde vou estar hospedado, e isso vai estragar o Natal.”
“Posso levar Elizabeth e Zafar”, Rodney sugeriu, “e m e encontrar com você uns três quilôm etros ao sul daqui. Ninguém conhece Zafar e Elizabeth, acho que conseguim os sair sem cham ar a atenção.”
O dr. Johnson, o j ovem e atencioso m édico que cuidara deles, tinha um a sugestão. “Meu carro está no estacionam ento dos funcionários”, disse. “A im prensa não vai estar lá. Posso levar o senhor para encontrar seus am igos.”
“É m uita gentileza sua”, ele disse. “Tem certeza?”
“Está brincando?”, respondeu o dr. Johnson. “Deve ser a coisa m ais excitante que aconteceu em Milton em todos os tem pos.”
A casa de Rodney ficava num pequeno prom ontório j unto a um a praia quase deserta, cercada por um a floresta de eucaliptos, e era tão isolada e idílica com o ele havia prom etido. Foram m uito bem recebidos e cuidados, com vinho e j antar; leram livros em voz alta, cam inharam , dorm iram e lentam ente o choque do acidente passou. No dia de Natal nadaram no m ar da Tasm ânia de m anhã, e a ceia natalina foi ao ar livre, no gram ado. Silencioso, ele olhou Elizabeth e Zafar, e pensou: Ainda estamos aqui. Olhe só para nós. Ainda estamos todos vivos.
a Citação bastante frequente na obra de Saul Bellow Dezembro fatal,de 1982. A frase diz “‘For God’s sake’, the dog is saying, ‘open the universe a little more!’” (“Pelo am or de Deus”, diz o cachorro, “abra o universo um pouco m ais!”). (N. T.)
b Post-office é “correio”; m as, ao lado dos postcolonial, postmodern, postsecular, postintectual, postliterate anteriores, adquire um sentido literal de “pós-ofício”, “pós-profissão”. Po-co e po-mo são abreviações cult de “pós-colonial” e “pós-m oderno” que m uitos associam à obra de Rushdie. (N. T.)
c A frase no balão, em péssim o inglês, era: “You shouldn’t otter done it”. Otter quer dizer “lontra” em referência à foto m encionada e ao m esm o tem po é corruptela de ought to, “devia”. (N. T.)