Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 9 de 11 · parte 4/4

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Joseph Anton: Memórias

8. Sr. Manhã e sr. Tarde

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

* * *

 

Houve m ais algum as coisinhas boas. Gloria B. Anderson, do serviço de notícias do The New York Times, voltou a entrar em contato depois de quatro anos da proibição de seus chefes à sua proposta de dar a ele um a coluna internacional, para dizer que dessa vez todos estavam m uito em penhados em que ele escrevesse para o j ornal. Não havia nada a ganhar em guardar ressentim entos. Tratava-se do The New York Times e isso lhe daria um a plataform a m ensal por todo o m undo. E provavelm ente pagaria o salário de Frank Sussurrante, de Bery l, a faxineira, e talvez de um a babá tam bém .

Sua sobrinha Mishka, um a m enininha pálida, m uito m agrinha, de seis anos, vinha revelando assom brosos dotes m usicais num a fam ília em grande parte sem ouvido. A Purcell School e a Menuhin School estavam lutando por ela. Sam een escolheu a Purcell porque Mishka não era apenas um a virtuose m usical, ela estava anos à frente de sua faixa etária na escola tam bém , e a Purcell era m elhor por fornecer aos alunos um a boa educação geral. A Menuhin era um a estufa m usical m uito focada. A extraordinária precocidade de Mishka tinha um preço. Ela era brilhante dem ais para sua idade e j ovem dem ais para seus iguais acadêm icos, de form a que era e seria sem pre um a criança solitária. Mas tinha assom brado a todos na Purcell e na Menuhin e j á em sua tenra idade estava claro que aquilo, um a vida na m úsica, era tudo o que queria. Um dia, no carro da fam ília, quando seus pais estavam discutindo os prós e contras das duas escolas, a pequena Mishka perguntou, do banco de trás: “Essa decisão não deve ser m inha?”.

A Purcell School disse a Sam een que Mishka era excepcionalm ente dotada e que seria um privilégio recebê-la. Ela com eçaria a frequentá-la em setem bro, porque eles não adm itiam estudantes tão j ovens, e ela seria a pessoa m ais nova a receber um a bolsa de estudos com pleta em toda a história da escola. Grande excitação! Um a nova estrela estava surgindo na fam ília e eles teriam de protegê-la e orientá-la até ela ter idade suficiente para brilhar sozinha.

Ele ganhou o Grande Prêm io Budapeste de Literatura e foi recebê-lo. Em Budapeste, o prefeito, Gábor Dem szky, que tinha sido um im portante editor de textos sam izdat durante a era soviética, abriu o gabinete envidraçado de sua sala para revelar os livros preciosos, outrora ilegais, que eram agora em blem as de seu m aior orgulho. Tinham sido im pressos num a prensa portátil de Huddersfield, que eles transportavam secretam ente de apartam ento em apartam ento durante a noite para im pedir que caísse em m ãos erradas; a m áquina era tão im portante que nunca a m encionavam em conversas, usando um nom e de m ulher para se referir a ela. “Huddersfield foi um a parte im portante da luta contra o com unism o”, disse Dem szky. Depois, em barcaram na lancha da prefeitura e subiram e desceram o Danúbio em alta velocidade. O grande prêm io em si foi um a surpresa: um a pequena caixa de m etal gravado que, quando aberta, revelava-se cheia de notas de dólar am ericano estalando de novas. Muito útil.

Zafar foi fazer um curso de italiano em Florença e estava m uito contente. Houve várias m ulheres na vida dele, um a cantora de ópera com quem ele rom peu porque “de repente ela com eçou a m e lem brar m inha m ãe”, e um a loira alta, um tanto m ais velha. Evie era agora sua m elhor am iga e ele crescera tão próxim o da fam ília dela, os Dalton, que seu pai e sua m ãe às vezes ficavam encium ados. Mas Zafar estava aproveitando a vida, planej ando excursões a Siena, Pisa e Fiesole. Ele não tivera um a infância das m ais fáceis e era m uito bom vê-lo crescer e se tornar aquele suj eito ótim o, cheio de autoconfiança, abrindo suas asas.

Harold Pinter e Antonia Fraser foram j antar na Bishop’s Avenue. Robert McCrum , um pouco m ais lento do que de hábito, com um sorriso doce e vago no rosto, e sua m ulher, Sarah Ly all, eram os outros convidados. E, quando Harold descobriu que Robert trabalhava para o The Observer, com o qual tinha tido um a inesquecível polêm ica política, e que Sarah trabalhava para o detestado, por ser am ericano, The New York Times , ele partiu para um de seus m ais ruidosos, prolongados e m enos atraentes ataques de pinterism o.

 

Caro Harold,

Você sabe de minha admiração por você e, espero, que valorizo muitíssimo sua amizade; mas não posso deixar os acontecimentos de ontem à noite passarem sem comentário. Robert, um bom homem que vem lutando bravamente para se recuperar de um derrame, simplesmente não está capacitado para falar e discutir com a desenvoltura que teve um dia, e diante do seu ataque recolheu-se a um silêncio angustiado. Sarah, de quem gosto muito, ficou quase reduzida às lágrimas e, pior ainda, surpresa de se ver na posição de defender o sionismo-imperialismo dos Estados Unidos como encarnado no The New York Tim es. Elizabeth e eu sentimos, ambos, que nossa hospitalidade foi desrespeitada e nossa noite, arruinada. Um grande golpe, mesmo. Não posso deixar de dizer que isso tudo é importante para mim. Acontece o tempo todo e, como seu amigo, tenho de pedir que PARE COM ISSO. Sobre Cuba, sobre Timor Leste, sobre tantas questões você está tão mais certo do que errado que essas tiradas — nas quais você parece concluir que os outros não notaram as ofensas que o indignaram — são apenas cansativas. Acho que você nos deve desculpas.

Com muito amor,

Salman

 

Caro Salman,

Sua carta foi muito dolorosa de ler, mas fico muito grato por ela. Você escreve como um amigo de verdade. O que diz é absolutamente verdadeiro e nesse caso a verdade é amarga. Não há como justificar meu comportamento e não tenho como me defender. Só posso dizer o seguinte: eu me escuto atacando e incomodando, mas é como uma dança de são Vito, uma febre, um mergulho horrendo — e evidentemente bêbado — na incoerência e no insulto. Lamentável. Sua carta foi de fato como uma chicotada de água gelada e teve um forte efeito sobre mim. Tenho de acreditar que não é tarde demais para eu crescer. Envio minhas mais sinceras desculpas a você e Elizabeth. Gosto muito de vocês dois. Escrevi também a McCrum.

Com o meu amor,

Harold

 

Caro Harold,

Obrigado por sua carta. Nós te amamos muito. Água por baixo da ponte.

Salman

No dia seguinte ao prim eiro aniversário de Milan, tom aram um avião para os Estados Unidos, para passar lá três m eses. Três meses! Seria seu período m ais longo de liberdade — na casa da Little Noy ac Path. Fazia um ano que tinham estado na casa de John Avedon e sabido da m orte de Diana, e depois houvera o fenôm eno global de sua m orte, o m ilagre das flores e tudo, e ele estava de volta a Bridgeham pton com seus im aginários Orm us e Vina, e o chão se abria debaixo dos pés de Vina, ela era engolida pela terra e se transform ava num fenôm eno global tam bém . Ele estava chegando ao fim do rom ance, term inando o capítulo “Sob seus pés” e escrevendo o capítulo “Vina divina”, e naturalm ente a m orte de Diana havia afetado Vina e parecia certo ele escrever essa passagem no lugar onde tinha ouvido a notícia. Ele escreveu um a canção para Orm us, a canção que Orm us escreveu para ela, seu hino órfico de am or perdido, o que eu adorava roubou o meu amor, era o chão sob os seus pés, e continuou em direção ao fim lennonesco do livro que não acabava nunca.

Nos m eses que se seguiram , o livro foi term inado, revisado, polido, im presso e dado para outras pessoas lerem . No dia em que term inou de trabalhar nele, no pequeno estúdio que tinha sua própria escada e que se tornara seu ninho de verão, ele fez um a prom essa a si m esm o. O chão que ela pisa era um de seus três livros realm ente longos, ao lado de Os versos satânicos e Os filhos da meia-noite. “Monstros de 250 m il palavras, nunca m ais”, ele disse a si m esm o. “Livros m ais curtos, m ais frequentes.” Durante m ais de dez anos ele m anteve essa prom essa, escrevendo dois rom ances curtos e dois m édios entre 2000 e 2009. Então com eçou a trabalhar em suas m em órias e se deu conta de que tinha caído do cavalo.

Era o verão de Monica e não estava claro se o presidente Clinton sobreviveria à tentativa de im peachm ent. Circulavam horríveis piadas de hum or negro.

As manchas no vestido não podiam fornecer uma identificação incontestável porque todo mundo em Arkansas tem o mesmo DNA.

“A felicidade escreve em branco”, escreveu Henry de Montherlant. “Não aparece na página.” A felicidade naquele verão era um a casa branca baixa cercada de cam pos verdes em m eio a m ontes e florestas, e cam inhar com Elizabeth e seus filhos pela praia no fim da tarde enquanto o sol descia sobre o m ar e um a névoa escurecia o horizonte. Era ir até a loj a de xerox perto de Bridgeham pton Com m ons e esperar enquanto faziam cópias de seu rom ance. “Pode voltar m ais tarde”, dizia a m ulher, m as ele esperava. Era o j antar de prim eiro aniversário de casam ento com Elizabeth no Am erican Hotel. Era um a viagem ao Yankee Stadium com Don DeLillo para ver os Yankees j ogarem com os Angels, m esm o perdendo a partida. E era um a carta de seu novo editor, Michael Naum ann, da Henry Holt, que falava de O chão que ela pisa em linguagem tão elogiosa que ele não podia repetir para ninguém . Porém , apenas seis dias depois que a carta chegou, Michael Naum ann se dem itiu da Holt e foi ser o novo m inistro da Cultura alem ão. Ah, bem, ele pensou. Ainda era um a carta m aravilhosa.

Nigella telefonou de Londres. O câncer de John tinha voltado, definitivam ente. Ele teria de rem over um a grande parte da língua. John Diam ond, um dos hom ens m ais articulados, m ais sagazes, engraçados e verbais que ele conhecera, privado da capacidade de falar. Era um a coisa triste, ruim .

E Susan Sontag estava com câncer tam bém .

Voltaram a Londres e, com o sem pre, foi com o dar de cara num a porta fechada. A produção de Haroun e o mar de histórias estava em fase de ensaios no National Theater, m as a polícia disse que seria perigoso dem ais ele com parecer à estreia porque “o inim igo esperaria que estivesse presente” e seria preciso um a operação policial de im ensa m agnitude e m uito dispendiosa. Então, im ediatam ente, ele voltou à guerra. Foi levado à fortaleza da árvore de Natal dos espiões e o sr. Manhã e o sr. Tarde disseram a ele que não, não havia indício de nenhum a atividade específica, m as, sim , a avaliação de risco continuava alta com o sem pre. Em 22 de setem bro de 1998, ele teve um a reunião de esclarecim ento com Bob Blake, o sucessor de Helen Ham m ington, e Blake adm itiu que seu desej o de estar presente à estreia de Haroun era natural e que o risco envolvido realm ente não era tão grande.

O chefe da British Airway s, Bob Ay ling, finalm ente concordou em recebê-lo. Falou de seu encontro com Zafar e com o tinha ficado profundam ente em ocionado. Abria-se um a fresta na porta. Ele foi à casa de Clarissa na Burm a Road, depois de longo tem po. Zafar estava dando um a festa para com em orar o com eço de sua vida de estudante universitário em Exeter. Seu filho ficou deliciado de ouvir o que Ay ling tinha dito, de sentir que aj udara seu pai. E então, nessa noite, a televisão, o rádio e o telefone enlouqueceram .

A cnn deu a notícia. O presidente Khatam i, do Irã, havia declarado “encerrada” a am eaça de m orte. Depois disso, ele passou a noite inteira ao telefone. A correspondente Christiane Am anpour disse estar “certa de que estava acontecendo”, e que tinha citações extraoficiais de Khatam i de que logo haveria m ais novidades e que ele havia chegado a um “acordo” com Kham enei a respeito da questão. Às nove e m eia da noite, “seu” novo hom em no Foreign Office, Neil Crom pton, telefonou e pediu um a reunião para as dez e m eia da m anhã seguinte. “Algum a coisa está acontecendo, com certeza”, disse ele. “Provavelm ente boas notícias. Vam os torcer j untos.”

No Foreign Office havia um a crescente anim ação. “Tudo bem ”, ele disse, “m as precisam os ter um a declaração inequívoca sobre a fatwa e a recom pensa. O governo britânico precisa ter a possibilidade de fazer um a declaração clara de que term inou. Senão, estarem os deixando o Irã desim pedido e perm itindo um ataque passível de ser negado por parte da linha dura ou do Hezbollah. Se for boa notícia, o senhor Blair é que deve divulgar. O hom em m ais im portante deles está falando, então o nosso deve falar tam bém .” A Assem bleia Geral da onu estava em sessão em Nova York. Representantes da Grã-Bretanha e do Irã se encontrariam à tarde para discutir o caso. Os dois m inistros do Exterior, Robin Cook e Kam al Kharrazi, iam se encontrar na m anhã seguinte. Parecia que o Irã realm ente queria fazer um acordo.

Robin Cook telefonou às nove da m anhã do dia 24 — quatro da m anhã em Nova York! — e contou o que achava que se podia obter. “Vam os conseguir um a garantia, m as a fatwa não será form alm ente revogada, porque dizem que isso não pode acontecer, agora que Khom eini m orreu. Parece não haver nenhum a atividade da linha dura no Irã. É o m elhor acordo que podem os conseguir. É o discurso m ais forte que ouvim os deles até agora.” Então, lá estava ele, entre a cruz e a espada. A recom pensa e a fatwa perm aneceriam , m as o governo iraniano se “dissociaria” delas e “nem estim ularia, nem perm itiria” que ninguém cum prisse a am eaça. Robert Fisk estava dizendo no The Independent que aquilo não era m ais um a questão do interesse do Irã. Seria verdade? Na m elhor das hipóteses, Cook estaria certo, os iranianos estavam propondo um com prom isso genuíno e realm ente queriam deixar esse assunto para trás, pôr fim ao conflito, e o governo britânico tam bém estaria em penhando seu prestígio ao aceitar o acordo, e qualquer traição a este faria am bos os lados parecerem tolos. A m aior am eaça à sua vida sem pre viera do Ministério da Inteligência e Segurança do Irã e, se eles estavam sendo “dispensados”, era coisa que o sr. Tarde e o sr. Manhã possivelm ente teriam condições de confirm ar. E um acordo público de alta visibilidade faria todo m undo sentir que a história estava acabada. De facto levaria a de jure.

E, na pior das hipóteses, a linha dura continuaria tentando m atá-lo e, no m om ento em que a proteção fosse retirada, conseguiria.

 

* * *

 

Nesse dia, às quatro da tarde, ele se encontrou com Frances D’Souza e Carm el Bedford no escritório da Artigo 19 em Islington, e os três estavam m uito preocupados. O acordo parecia inadequado, o que ofereciam não era suficiente, m as se ele não tivesse um a reação positiva seria visto com o obstrutor, e se aceitasse a cam panha de defesa perderia todo poder de barganha. Sua única esperança, ele disse a Frances e Carm el, era que a credibilidade de am bos os governos repousasse no acordo.

Os três foram ao Foreign Office para encontrar-se com Derek Fatchett às 17h20. Ele sem pre gostara de Fatchett, um hom em honesto, direto, e agora Fatchett estava olhando direto em seus olhos e dizendo: “O acordo é genuíno, os iranianos estão em penhados, todos os setores da liderança concordaram . Estou pedindo que você confie no governo britânico. Saiba que Neil Crom pton e seus colegas aqui no Foreign Office vêm negociando isso há m eses, agindo com a m aior firm eza possível. Eles têm certeza de que os iranianos estão falando sério”. “Por que eu deveria acreditar?”, ele perguntou a Fatchett. “Se eles não vão cancelar nada, por que não posso concluir que é tudo brincadeira?” “Porque”, disse Fatchett, “no Irã ninguém brinca com o caso Rushdie. Esses políticos estão arriscando suas carreiras. Não fariam isso, a m enos que tivessem certeza do apoio dos níveis superiores.” Khatam i tinha acabado de voltar a Teerã depois da Assem bleia Geral, onde havia declarado que “a questão Salm an Rushdie está com pletam ente encerrada”, e fora saudado e abraçado no aeroporto pelo representante pessoal de Kham enei. Era um indício significativo.

Ele perguntou sobre a inform ação de segurança que acabara de receber do sr. Manhã e do sr. Tarde, segundo a qual não tinha havido nenhum a redução na am eaça à sua vida. “Está desatualizada”, Fatchett disse. Ele perguntou sobre o Hezbollah no Líbano e Fatchett respondeu: “Eles não estão envolvidos”. Ele continuou fazendo perguntas durante algum tem po e de repente algum a coisa se abriu dentro dele, um a grande em oção o inundou, e ele disse: “Tudo bem ”. Disse: “Nesse caso, viva!, e obrigado, obrigado a todos vocês, do fundo do m eu coração”. As lágrim as subiram e um a grande em oção o silenciou. Ele abraçou Frances e Carm el. Ligaram a televisão e lá estavam Cook e Kharrazi lado a lado em Nova York, ao vivo na Sky News, anunciando o fim da fatwa. Ele estava sentado na sala de Fatchett no Foreign Office, vendo o governo britânico fazer o m elhor para salvar sua vida. Depois, saiu com Derek Fatchett, as câm eras estavam esperando e ele foi em direção a elas e disse: “Parece que acabou”. “O que isso significa para o senhor?”, perguntou um a linda m oça segurando um m icrofone. “Significa tudo”, ele disse, controlando as lágrim as. “Significa liberdade.”

 

Quando ele estava no carro, Robin Cook telefonou de Nova York e ele lhe agradeceu tam bém . Até a polícia ficou com ovida. “É m uito excitante”, disse Bob Lowe. “Um m om ento histórico.”

Em casa, Elizabeth levou tem po para acreditar, m as aos poucos a anim ação cresceu. Martin Bache, um dos am igos m ais antigos dela, dos tem pos de faculdade, estava lá, e Pauline Melville chegou depressa, então cada um dos dois tinha um a das pessoas m ais próxim as consigo, o que estava certo. E Zafar estava lá, m ais visivelm ente em ocionado que seu pai j am ais vira. E havia o telefone, o telefone. Tantos am igos, tantos sim patizantes. William Ny gaard ligou; talvez o telefonem a m ais im portante de todos. Andrew, chorando. Ele ligou a Gillon para agradecer m uito. Ligou para Clarissa para agradecer por ela ter cuidado de Zafar durante aqueles longos e árduos anos. Os am igos telefonaram um depois do outro. As cerimônias da alegria, ele pensou. Chegara o dia que ele nem esperava m ais. E, sim , era um a vitória, sobre um a coisa im portante, não apenas sua vida. Tinha sido um a luta por coisas im portantes e eles tinham vencido, todos eles, j untos.

Ele telefonou para Christiane Am anpour e lhe deu um a frase. Todos os outros teriam de esperar a entrevista coletiva no dia seguinte.

E, se estivesse vivendo num conto de fadas, teria ido para a cam a e acordado um hom em livre, as nuvens teriam sido afastadas do céu, ele, sua m ulher e seus filhos viveriam felizes para sem pre.

Ele não estava vivendo num conto de fadas.

 

Para algumas pessoas, este não é um grande dia. Eu gostaria de pensar particularmente na família do professor Hitoshi Igarashi, o tradutor japonês de Os versos satânicos, que foi assassinado. Gostaria de pensar no tradutor italiano, dr. Ettore Capriolo, que foi esfaqueado e felizmente se recuperou. E em meu notável editor norueguês, William Nygaard, que recebeu várias balas nas costas e misericordiosamente teve uma completa recuperação. Não vamos esquecer que esse caso foi horrível, horrível, e eu gostaria de dizer também o quanto sinto pelas pessoas que morreram em manifestações, principalmente no subcontinente indiano. Sabe-se que, em muitos casos, eles nem sabiam contra quem estavam se manifestando ou por quê, e a perda dessas vidas foi um desperdício chocante, que lamento da mesma forma ao lado de tudo o que aconteceu.

A razão de estarmos aqui é registrar o fim de uma ameaça terrorista do governo de um país contra os cidadãos de outros países, e isso é um grande momento que tem de ser reconhecido como tal. A razão de termos sido capazes de lutar nessa campanha, de tanta gente ter criado comitês de defesa em todo o mundo, a razão de essa questão ter se mantido viva não é apenas o fato de a vida de uma pessoa estar em perigo — porque o mundo está cheio de pessoas cujas vidas estão em perigo —, a razão é que aqui se lutava por algumas coisas incrivelmente importantes: a arte do romance e, além disso, a liberdade da imaginação e a questão essencial e abrangente da liberdade de expressão, e o direito de todo ser humano de andar sem medo pelas ruas de seu próprio país. Muitos de nós, que não éramos políticos por vocação, nos dispusemos a nos tornar animais políticos e lutar essa luta porque ela valia a pena ser lutada, não apenas para mim, não apenas para salvar minha pele, mas porque ela representa muitas coisas importantes para nós no mundo.

Não creio que seja o momento de sentir nada além de uma séria e grave satisfação por um dos maiores princípios da sociedade ter sido defendido.

Gostaria de agradecer a todas as pessoas que ajudaram nessa luta. Frances e Carmel e a Artigo 19, os comitês de defesa dos Estados Unidos, Escandinávia, Holanda, França, Alemanha e de outros países foram essenciais. Esta luta foi travada por pessoas comuns. No final dela, ocorreu uma negociação política que resultou num final feliz. Mas o combate deu certo por causa das pessoas comuns, leitores, escritores, livreiros, editores, tradutores e cidadãos. Hoje é o dia de todos, não apenas o meu dia. Creio que devemos reconhecer que, por trás da questão do terrorismo, da segurança, da Divisão Especial, do quanto custou e de tudo isso, existe uma coisa fundamental que todos tentamos defender, e foi um privilégio poder defendê-la.

Ele falou sem anotações, de im proviso, para a im prensa que lotava o escritório da Artigo 19 e agradeceu tam bém a Elizabeth e Zafar por seu am or e apoio. Foi film ado descendo sozinho a Upper Street, em Islington, um “hom em livre”, e levantou um punho tím ido e inseguro. Depois, houve um dia de entrevistas. Chegou em casa pensando que o dia tinha ido bem e encontrou à sua espera um editorial do Evening Standard descrevendo-o com o um irritador social e um a pessoa difícil. E a abordagem dos noticiários da bbc e da itn foi “Sem desculpas”. Esse era o resum o da m ídia britânica aos acontecim entos do dia. Aquele irritador social, aquela pessoa difícil se recusara, m esm o depois de tudo, a pedir desculpas por seu livro horrível.

 

Nesse dom ingo, ele levou Zafar à universidade Exeter, com Elizabeth e Clarissa. Quando Zafar entrou em seu quarto na ala Lopes, o rosto de seu pai se fechou e a tristeza tom ou conta dele. Tentaram consolá-lo e apoiá-lo, m as logo estava na hora de ir em bora. Foi um m om ento difícil para Clarissa. “Ele não precisa m ais de nós”, ela disse, e teve de baixar a cabeça para esconder as lágrim as. “Precisa, sim ”, ele disse. “Não vai a lugar nenhum . Ele nos am a e vai ficar por perto. Só está crescendo.”

Voltaram a Londres tarde e descobriram que as reportagens de televisão de cunho “sem desculpas” haviam sido traduzidas no Irã com o “observações insultuosas”, e lá estava o em baixador iraniano nom eado Muham m adi reafirm ando a fatwa, e os j ornais iranianos a exigir que ele fosse m orto, dizendo que, se ele se acreditava seguro, seria m ais fácil de assassiná-lo.

Dois dias depois, ele estava de volta à Spy Central para um a reunião conj unta com o sr. Manhã e o sr. Tarde representando os serviços de segurança e um certo Michael Axworthy, representando o Foreign Office. Para seu horror, o sr. Tarde e o sr. Manhã disseram que não podiam garantir sua segurança nem diante dos m em bros da Guarda Revolucionária iraniana (os te m idos pasdaran, im piedosos “protetores” da revolução islâm ica), nem dos assassinos por procuração do Hezbollah libanês, e o resultado era que am bos se recusavam a reduzir o nível dois da avaliação de risco. Eram questões sobre as quais ele havia pressionado especificam ente Derek Fatchett e recebera garantias categóricas, Fatchett chegara a dizer que a inform ação dos serviços de segurança estava desatualizada. Ficou claro que os serviços de segurança, assim com o a Scotland Yard, estavam furiosos com o Foreign Office por este ter se apressado a fechar esse acordo. Disseram que dem orariam até o Natal para verificar a posição iraniana e que não havia garantia de que fossem chegar a um bom resultado.

Foi nessa altura que ele com eçou a gritar com Michael Axworthy, que com eçou a suar e trem er. Tinham m entido para ele, gritou, m entiras deslavadas, e o Foreign Office estava cheio de m alandros e filhos da puta de duas caras. Axworthy saiu da sala para fazer um telefonem a e voltou para dizer, com louvável autocontrole, que Robin Cook iria ligar para ele no dia seguinte, às 11h40, em ponto.

Depois, um a reunião na Scotland Yard, onde houve m uita consideração por sua raiva. Richard Bones, o agente da Divisão Especial que estivera na reunião com o serviço de inteligência, sentado, calado, ao fundo, disse: “O senhor recebeu um tratam ento terrível. Sua análise foi perfeita. Darei testem unho disso se o senhor precisar”. A polícia concordou em continuar com a proteção com o antes, até a situação se esclarecer. E, quando ele se acalm ou, realm ente lhe ocorreu que as coisas no Irã poderiam se tranquilizar depois do choque inicial pelo acordo. Talvez ele só precisasse esperar algum tem po e no Natal estivesse livre.

De m anhã, Robin Cook telefonou para reafirm ar o com prom isso do governo em garantir que o problem a fosse solucionado. “Estou decepcionado com a análise de segurança que deram a você”, ele disse. “Pedi um a avaliação do sis para o fim de sem ana.” Cook concordou com ele que era preciso, que deveria haver um resultado positivo no Natal: dentro de três m eses.

Mais de três anos se passariam antes que o sr. Manhã e o sr. Tarde com eçassem a se sentir tranquilos.

 

A reação à declaração Cook-Kharrazi ficou m ais e m ais severa. Metade dos m em bros do Parlam ento iraniano assinou um a petição pedindo que a fatwa fosse cum prida. Um m isterioso novo grupo de “estudantes radicais” ofereceu um a nova recom pensa, de 190 m il libras, por sua m orte. (Isso depois revelou-se um erro; a som a de fato era 19 m il.) A bonyad, ou fundação, Khordad, m antida por Sanei da Recom pensa, aum entou sua oferta para 300 m il dólares. O chargé d’affaires iraniano, Ansari, foi levado ao Foreign Office para receber um protesto britânico, e culpou a cobertura da im prensa britânica, as declarações de m inistros britânicos e de Rushdie, que tinha posto “o Ministério das Relações Exteriores em Teerã sob um a grande pressão — eles não esperavam que a notícia fosse tão grande”. Mas ele efetivam ente renovou o com prom isso iraniano de Nova York. Fosse lá o que fosse que isso podia significar.

Clarissa estava preocupada. Dois hom ens de “aspecto m uçulm ano” tinham ido procurar Zafar pelo nom e em casa, m as ele estava em Exeter, evidentem ente. Ela achou que talvez fosse porque ele agora era um eleitor registrado.

Alun Evans, executivo da British Airway s a quem solicitaram que entrasse em contato com ele e que estava m uito “do seu lado”, telefonou para dizer que acreditava que a com panhia aérea estava “para m udar” e que depois de resolvidas questões “com parativam ente m enores” deveriam poder tom ar um a decisão positiva. “Dentro de algum as sem anas.” E ele tinha razão. Algum as sem anas m ais tarde, depois de nove anos e m eio im pedido de viaj ar na linha aérea nacional, ele foi recebido de volta a bordo.

A peça Haroun e o mar de histórias estreou e foi um a produção excepcional, na qual a atm osfera m ágica adequada era obtida com um m ínim o de despesas, o m ar, feito de faixas de seda ondulantes, os atores realizando pequenos truques de m ágica ao representar seus papéis; e no m om ento culm inante, quando Haroun descobre a fonte de todas as histórias, um a lanterna ilum inava os rostos da plateia, e identificava a própria plateia com o a fonte preciosa. Mais um a vez, com o havia acontecido na tarde de autógrafos em Ham pstead sobre a qual o com andante Howley havia arm ado tam anha confusão, não houve m anifestações nem problem as de segurança. Apenas um a boa noite no teatro.

Ele m andou o m anuscrito de O chão que ela pisa para Bono ver o que achava e para que apontasse qualquer furo óbvio quanto à indústria m usical que precisasse ser corrigido. O que aconteceu foi com pletam ente inesperado. Bono telefonou para dizer que tinha pegado algum as letras do texto de O chão que ela pisa e escrito “algum as m elodias”. “Um a delas é m uito bonita”, disse. “Aquela da faixa-título do livro. É um a das coisas m ais bonitas que j á fizem os.” Ele sorriu. Não sabia, disse, que seus rom ances tinham faixa-título, m as, sim , sabia a qual canção o m úsico se referia. A vida inteira, eu te adorei,/ a voz de ouro, a beleza que hipnotiza. Bono queria que ele fosse a Dublin para poder tocá-la para ele. Aquele rom ance era sobre o lim iar perm eável entre os m undos im aginário e real, e ali estava um a das canções im aginárias atravessando o lim iar e se tornando um a canção de verdade. Sem anas depois ele foi m esm o para a Irlanda e, na casa de Paul McGuinness, em Annam oe, condado de Wicklow, Bono o fez entrar e sentar no carro para ouvir as fitas dem o. Seu sistem a de som do carro não era com o o som do carro de outras pessoas. Era um sistem a de som com pleto. Bono tocou a faixa três vezes. Ele gostou desde a prim eira vez. Não tinha nada a ver com a m elodia que ele havia im aginado em sua cabeça, m as era um a balada que ficava no ouvido e o U2 era bom com baladasm em oráveis. Ele disse que gostou, m as Bono continuou tocando para ter certeza de que ele não estava dizendo qualquer coisa e, quando finalm ente se convenceu, disse: “Vam os entrar em casa e tocar para todo m undo”.

A Índia anunciou que estava suspendendo a proibição a suas visitas. A inform ação foi veiculada no Six O’Clock News,da bbc. Vij ay Shankardass estava triunfante. “Logo m ais”, disse, “você vai ter seu visto.” Quando ele ouviu a notícia a sensação de tristeza foi, de início, m aior do que a alegria. “Nunca pensei”, ele escreveu em seu diário, “que não sentiria alegria diante da perspectiva de ir à Índia, m as agora é esse o caso. Quase abom ino a ideia. No entanto, irei. Vou recuperar m eu direito de ir. Tenho de m anter essa ligação por m eus filhos. Para poder m ostrar a eles o que am ei e o que pertence tam bém a eles.” E, sim , era um governo nacionalista hindu, do pbj (Partido Bharatiy a Janata), que estava lhe dando perm issão para ir, e inevitavelm ente diriam que a concessão do visto era um ato antim uçulm ano, m as ele se recusou a ocupar o papel de dem ônio que tinham construído para ele. Era um hom em que ainda am ava o país onde nascera apesar do longo exílio e da proibição de seu livro. Ele era um escritor para quem a Índia tinha sido a fonte m ais profunda de inspiração e aceitaria o visto de cinco anos quando fosse oferecido.

Sua reação m elancólica inicial se desvaneceu. Ele falou sobre voltar à Índia, alegre e em polgado, num j antar com um grupo de escritores com o qual havia participado de um a leitura filantrópica organizada por Julian Barnes. Louis de Bernières se encarregou de instruir seu alegre e em polgado colega a não ir sob nenhum a circunstância, porque ao aparecer lá ele iria insultar dolorosam ente os m uçulm anos indianos outra vez. De Bernières então fez um a pequena palestra sobre a história da política hindu-m uçulm ana para um escritor cuj a vida criativa e intelectual inteira havia sido engaj ada nesse assunto e que, possivelm ente, sabia m ais a respeito do que aquele autor de um rom ance que notoriam ente distorcera a história da resistência com unista grega à invasão das forças italianas da ilha de Cefalônia na Segunda Guerra Mundial. Foi o m ais perto que ele chegou de dar um soco no nariz de outro rom ancista. Helen Fielding, que tam bém fazia parte do grupo, viu o sangue chegando aos olhos dele e de repente se pôs de pé com o sorriso m ais alegre que foi capaz de exibir. “Bom ! Que noite adorável. Sim plesm ente adorável. Eu j á vou!”, ela exclam ou, e isso salvou a noite, perm itindo que ele tam bém se levantasse e se despedisse, e o nariz do sr. De Bernières perm anecesse confortavelm ente não socado.

 

Ele teve um a reunião particular com Derek Fatchett, que repetiu: Confie em mim. Todas as inform ações de inteligência vindas do Irã eram uniform em ente positivas. Todos os partidos tinham assinado o acordo, todos os cachorros haviam sido dissuadidos. Sanei era um a arm a perdida e, de qualquer form a, não tinha o dinheiro. “Vam os continuar trabalhando em todos os itens”, ele disse. “O im portante agora é m anterm os a coragem .” Fatchett disse que sua própria declaração que qualificara o acordo com o “um a vitória diplom ática da Grã-Bretanha” tinha sido um problem a no Irã. “Com o a sua declaração: ‘Significa liberdade’.”

Estavam lhe pedindo para fazer um a coisa difícil: calar a boca. Se o fizesse, as vozes furiosas gradualm ente silenciariam e a fatwa se desvaneceria.

Enquanto isso, em Teerã, m il estudantes do Hezbollah saíram em m anifestação, dizendo que estavam prontos a efetuar os ataques ao autor e seus editores, prontos a am arrar bom bas em seus corpos, e assim por diante; cantando a velha e triste m úsica dos terroristas.

Ele foi encontrar-se com Robin Cook na Câm ara dos Com uns. Cook disse que havia recebido confirm ação de que Kham enei e todo o Conselho Consultivo havia “assinado o acordo de Nova York”. Disso se concluiria que todos os assassinos haviam sido dissuadidos. Ele tinha certeza, disse, sobre o Ministério da Inteligência e Segurança do Irã e o Hezbollah-Líbano. Seus assassinos tinham sido dispensados. Quanto aos m em bros da Guarda Revolucionária, era um caso de “inteligência negativa”. Não havia nenhum sinal de que houvesse um ataque a cam inho vindo desse lado. “Recebem os um a garantia do governo iraniano de que ele im pedirá que qualquer pessoa deixe o Irã para atacar você. Eles sabem que seu prestígio está em risco.” O significado sim bólico da aparição “om bro a om bro” de Cook-Kharrazi havia sido cuidadosam ente pesado e fora transm itido pela televisão em todos os países m uçulm anos do m undo, “e, se você for assassinado, sinceram ente, a credibilidade deles desm orona”. Ele disse tam bém : “O assunto não está encerrado para nós. Vam os exercer m ais pressão e esperam os m ais resultados”.

Então o secretário do Exterior do Reino Unido fez um a pergunta que não era fácil de responder. “Por que você precisa de um a cam panha de defesa contra m im ?”, Robin Cook quis saber. “Estou preparado para oferecer pleno acesso a você, e relatórios regulares. Estou lutando a seu favor.”

Ele respondeu: “Porque m uita gente acha que estou sendo vendido por vocês, que um acordo fraco está sendo apresentado com o forte e que estão m e pondo de lado por razões com erciais e geopolíticas”.

“Ah”, Cook disse, desdenhoso. “Estão achando que Peter Mandelson m e diz o que fazer.” (Mandelson era o m inistro de Com ércio e Indústria.) “Não é assim ”, disse ele, e depois, repetindo Derek Fatchett: “Você vai ter de confiar em m im ”.

Ele ficou em silêncio um longo m om ento, e Cook não tentou apressar sua decisão. Será que estou sendo enganado?, perguntou a si m esm o. Poucos dias antes tinha gritado com Michael Axworthy por estar sendo traído. Mas ali estavam dois políticos de quem gostava e que tinham lutado m ais arduam ente por ele do que quaisquer outros durante um a década, e estavam lhe pedindo para ter fé, não perder a coragem e, acim a de tudo, durante algum tem po, ficar quieto. “Se você atacar a Fundação Khordad, será um a grande notícia para o governo iraniano, porque então este não vai poder ir contra eles sem parecer que foi m otivado por você.”

Ele pensou e pensou. A cam panha de defesa havia com eçado para com bater a inércia dos governos. Agora, ali estava seu próprio governo prom etendo trabalhar energicam ente a seu favor. Talvez fosse um a nova fase: trabalhar com o governo em vez de contra ele.

“Tudo bem ”, ele disse. “Aceito.”

Ele foi ver Frances D’Souza na Artigo 19 e pediu-lhe que dissolvesse a cam panha de defesa. Carm el Bedsford estava em Oslo, num a reunião com representantes de vários com itês de defesa e, quando ele telefonou para contar o que decidira, ela explodiu de raiva, culpando Frances pela decisão. “Ela foi selecionada para um trabalho no Foreign Office! É do interesse dela encerrar a questão!” Frances e Carm el não se davam m ais. Ele teve certeza de que tinha tom ado a decisão correta.

Então, a Cam panha de Defesa de Rushdie term inou. “Vam os esperar”, ele escreveu em seu diário, “que eu estej a certo em m inha decisão. Mas, de qualquer form a, ela é m inha. Não posso culpar m ais ninguém .”

 

aldeões iranianos oferecem recom pensa por rushdie. Residentes de uma aldeia iraniana próxima do mar Cáspio estabeleceram uma nova recompensa, que inclui terras, uma casa e tapetes, pela morte de Salman Rushdie. “A aldeia de Kiyapay dará 4500 metros quadrados de terra arável, 1500 metros quadrados de pomares, uma casa e dez tapetes como recompensa”, disse um representante da aldeia. Os 2 mil aldeões também abriram uma conta bancária para coletar doações.

 

Não era fácil m anter a calm a, m anter silêncio, m anter a coragem .

 

Ele foi a Nova York fazer um film e para a televisão francesa a respeito de O chão que ela pisa. Im ediatam ente o m undo se abriu. Ele andou pelas ruas da cidade sozinho e não se sentiu em perigo. Em Londres, vivia encurralado pelos cuidados dos serviços de inteligência britânicos, m as ali em Nova York a vida estava em suas m ãos; ele podia resolver sozinho o que era sensato e o que era perigoso. Podia reconquistar sua liberdade nos Estados Unidos antes que os britânicos concordassem que era hora de devolvê-la a ele. A liberdade não é dada, é conquistada. Ele sabia disso. Tinha de agir a partir dessa noção.

Bill Buford, usando um a m áscara de Marte ataca, levou-o a um j antar de Halloween. Ele, com um keffiyeh na cabeça, um chocalho de bebê num a m ão e um pãozinho na outra, foi

fantasiado de “Sheik, rattle and roll”.c

 

De volta a Londres, era o aniversário de setenta anos de Jeanne Moreau e ele foi convidado para um alm oço em hom enagem a ela na residência do em baixador francês. Sentou-se entre Moreau, ainda glam ourosa e até sexy aos setenta anos, e a grande ballerina Sy lvie Guillem , que queria ver a peça Haroun. Moreau revelou-se um a trem enda raconteuse. Tam bém à m esa estava o apparatchik da em baixada, cuj a função era j ogar perguntas interessantes a ela: “Agorra você pode contarr com o conheceu o grran dirrectorr frrancês François Truffaut”, e ela partiu para a história. “Ah, François. Foi em Cannes, sabe, e eu estava lá com Louis.” “Querr dizerr, nosso grran dirrectorr tam bém frrancês Louis Malle...” “É, Louis, e estávam os no Palais du Ciném a e François veio cum prim entar Louis, e durante algum tem po os dois andam lado a lado e eu sigo atrás com outro hom em , depois estou andando ao lado de François e é m uito estranho porque ele não m e olha no rosto, olha sem pre para o chão, e às vezes dá um a olhada rápida e baixa os olhos de novo, até que finalm ente olha para m im e diz: ‘Pode m e dar o núm ero do seu telefone?’” “E você deu telefon parra ele”, disse o apparatchik. Ele assum iu as perguntas e pediu a ela para contar com o tinha sido trabalhar com Luis Buñuel em Diário de uma camareira. “Ah, don Luis”, ela disse com sua voz profunda e rouca de fum ante, “era adorável. Um dia eu disse a ele: ‘Ah, don Luis, se eu fosse sua filha!’, e ele m e disse: ‘Não, m inha querida, você não deve querer isso, não, porque se fosse m inha filha eu a trancaria em casa e você não faria cinem a!’.”

“Sem pre gostei da m úsica que você canta em Jules et Jim”, ele disse a ela enquanto tom avam seu Château Bey chevelle. “‘Le tourbillon’. Foi escrita para m im . Era um ex-am ante, sabe, e quando rom pem os ele com pôs aquela m úsica. E quando François diz que quer que eu cante eu proponho a m úsica e ele aceita.” “E agora”, disse ele, “agora que a cena do film e é tão fam osa, você ainda pensa nela com o a m úsica que seu ex-am ante com pôs para você ou é ‘a m úsica de Jules et Jim’?” “Ah”, ela disse, dando de om bros, “agora é a m úsica do film e.”

Antes que ele fosse em bora da résidence, o em baixador puxou-o de lado e disse que ele havia recebido a m ais alta honraria, commandeur, da Ordre des Arts et des Lettres; um a honra im ensa. A decisão tinha sido tom ada anos antes, disse o em baixador, m as o governo francês anterior a abafara. Mas agora haveria um a festa para ele na résidence e ele receberia a m edalha e a fita. Era um a notícia m aravilhosa, ele disse, m as dias depois a coisa com eçou a patinar. A m ulher responsável por enviar os convites disse que estava “suspendendo o fogo” porque estava “esperando a aprovação de Paris” e então, estranham ente, nem o em baixador nem o attaché cultural Olivier Poivre d’Arvor podiam ser encontrados. Depois de vários dias sem com unicação, ele telefonou para Jack Lang, que lhe disse que o presidente do Irã tinha visita m arcada à França para dentro de dez dias e por isso o Quai d’Orsay estava procurando ganhar tem po. Lang fez alguns telefonem as e deu certo. Olivier telefonou. Seria possível escolher um a data em que o próprio M. Lang podia ir e fazer as honras? Sim , ele disse. Claro.

 

Zafar deu um a festa e queria que ele fosse. A equipe de proteção levou-o depressa para o clube noturno e depois tentou fechar os olhos para as coisas que norm alm ente acontecem nesses lugares. Ele se viu num a m esa com Dam on Albarn e Alex Jam es, do Blur, que tinham ouvido falar de sua colaboração com o U2 e queriam gravar um a m úsica com ele tam bém . De repente, seus serviços com o letrista estavam sendo solicitados. Alex tinha bebido um a boa parte de um a garrafa de absinto, o que talvez não tivesse sido m uito sábio. “Eu tenho um a ideia do caralho”, ele disse. “Eu escrevo a letra e você escreve a m úsica.” Mas, Alex, ele disse delicadam ente, eu não sei com por m úsica e não toco nenhum instrum ento. “Não im porta”, Alex disse. “Eu ensino você a tocar guitarra. Não leva m ais que m eia hora. Não tem dificuldade nenhum a. Você com põe a m úsica e eu escrevo a letra. Vai ser foda.” A colaboração com o Blur não se concretizou.

 

Ele encontrou-se com Bob Blake, que agora era chefe do Esquadrão “A” da Scotland Yard, para falar sobre o futuro. Um novo rom ance seria editado no ano seguinte, disse, e ele precisava ter liberdade para prom ovê-lo devidam ente, com anúncios de aparições públicas e tardes de autógrafos. A essa altura, j á haviam feito suficientes eventos desse tipo, para ter certeza de que não haveria problem as. Além disso, ele queria prolongar ainda m ais a escalação de proteção. Achava que as com panhias aéreas ficavam m ais contentes quando ele era levado até o avião pela equipe de proteção e os eventos públicos tam bém gostavam do envolvim ento da polícia em suas aparições, m as, fora isso, ele e Frank podiam cuidar de quase tudo. Curiosam ente, Blake pareceu receptivo à sua proposta, o que sugeria que a avaliação de risco estava m udando, m esm o que ele não tivesse ainda sido inform ado da m udança. “Tudo bem ”, Blake disse, “vam os ver o que podem os fazer.” Ele estava preocupado com a Índia, porém . Na opinião do sr. Manhã e do sr. Tarde, se ele fosse à Índia em j aneiro ou com eço de fevereiro, havia o risco de um ataque iraniano. Poderia saber em que baseava esse tem or? “Não.” “Bom , de qualquer form a, eu não estava planej ando ir à Índia nessa época.” Quando disse isso, ele viu que o policial relaxou visivelm ente.

 

Ele chegou ao escritório do secretário do Exterior na Câm ara dos Com uns e encontrou Stephen Lander, diretor-geral do m i5, esperando por ele ao lado de Robin Cook, que tinha m ás notícias. Tinham recebido relatórios da inteligência, disse Cook, sobre um a reunião com o Conselho Suprem o de Segurança Nacional Iraniano — o sim ples fato de Cook dizer esse nom e lhe valeu um olhar de censura de Lander, m as ele disse m esm o assim —, no qual Khatam i e Kharrazi não tinham conseguido pacificar a linha dura. Kham enei “não estava em posição” de dissuadir os m em bros da Guarda Revolucionária ou o Hezbollah. De form a que sua vida perm anecia em risco. Mas Cook acrescentou que estava “pessoalm ente” em penhado, ao lado do Foreign Office, em resolver os problem as, e não havia provas do planej am ento de nenhum ataque, a não ser a preocupação com a Índia. Nenhum a grande probabilidade de um ataque em nenhum país ocidental, disse Lander. Nenhuma grande probabilidade era um frio consolo, m as era só isso que havia para ele. “Avisei Kharrazi”, disse Cook, “que sabia da reunião do conselho e ele ficou bem chocado. Tentou dizer que o acordo continuava valendo. Ele sabe que as reputações dele e de Khatam i estão em j ogo.”

Não desanime.

 

Nada nunca era perfeito, m as esse nível de im perfeição era difícil de aceitar. Mesm o assim , ele m anteve a determ inação. Precisava voltar a tom ar as rédeas da vida em suas próprias m ãos. Não podia esperar m ais que o “fator im perfeição” caísse a um nível aceitável. Mas, quando falou com Elizabeth sobre os Estados Unidos, ela não deu ouvidos. Ela ouvia Isabel Fonseca dizendo: “Os Estados Unidos são um país perigoso e todo m undo tem um a arm a”. O antagonism o dela ao seu sonho de Nova York estava crescendo. Às vezes, ele parecia ver de fato um rasgo ou fenda entre eles, aum entando, com o se o tecido do m undo fosse um a folha de papel e eles estivessem em partes opostas, afastando-se um do outro, com o se fosse inevitável que m ais cedo ou m ais tarde suas histórias tivessem de continuar em páginas separadas, apesar dos anos de am or, porque quando a vida com eçava a falar em im perativos os vivos não tinham chance, senão obedecer. O m aior im perativo dele era a liberdade, o dela era sua terra natal, e, sem dúvida, em parte por ela ser m ãe é que a vida nos Estados Unidos sem proteção lhe parecia insegura e irresponsável, e em parte porque ela era inglesa e não queria que seu filho crescesse am ericano, e em parte porque ela não conhecia bem os Estados Unidos, porque os Estados Unidos para ela não eram m uito m aiores que Bridgeham pton, e ela tem ia que em Nova York fosse ficar isolada e sozinha. Ele entendia todos os seus m edos e dúvidas, m as sua própria necessidade era um a ordem e ele sabia que faria o que tivesse de ser feito.

Às vezes, o am or não bastava.

Era o aniversário de 82 anos de sua m ãe. Quando ele contou pelo telefone que tinha um livro novo para ser lançado em 1999, ela disse, em urdu: “Is dafa koi achchhi si kitab likhna”. “Dessa vez, escreva um livro bom .”

a P. M.: post meridiem, depois do m eio-dia, ou tarde; A. M.: ante meridiem, antes do m eio-dia, ou m anhã. (N. T.)

b Tia Dahlia: a m ais tolerante da dupla de tias do personagem Bertie Wooster, cavalheiro herói de dez rom ances e trinta contos do escritor inglês P. G. Wodehouse (1881-1975). (N. T.)

c Trocadilho com “Shake, rattle and roll”, canção de rock and roll de Jesse Stone, sucesso de Bill Haley & His Com ets. Shake é “sacudir”; rattle é chocalho; e roll é pãozinho e “rolar” na expressão rock and roll. (N. T.)