Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 9 de 11 · parte 3/4

Páginas do PDF

Joseph Anton: Memórias

8. Sr. Manhã e sr. Tarde

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

Em Londres, o secretário do Ministério dos Negócios Interiores trabalhista, Jack Straw, sem pre disposto a ser sim pático com os eleitores islâm icos, anunciou nova legislação que estenderia a lei de blasfêm ia, arcaica, obsoleta e digna de ser repelida, a outras religiões além da anglicana, possibilitando assim , entre outras coisas, que Os versos satânicos fosse outra vez perseguido e provavelm ente proibido. Que bom que “o governo de seus am igos” estava no poder, ele pensou. A tentativa de Straw acabou fracassando, m as o governo Blair continuou tentando encontrar m aneiras de tornar ilegal a crítica religiosa — isto é, ao islã — durante vários anos. A certa altura, ele foi ao Ministério dos Negócios Interiores para protestar contra isso, acom panhado de Rowan Atkinson (“Mr. Bean vai a Whitehall”). Rowan, na vida real um hom em ponderado, que falava baixo, perguntou àqueles descarados e ao vice-m inistro sobre sátira. Eram todos seus fãs, claro, e queriam que ele os am asse de volta, então disseram : Ah, comédia, nós adoramos sátira, não há problema algum. Rowan balançou a cabeça, com ar tristonho, e disse que num sketch de televisão recente tinha usado um a cena de m uçulm anos rezando aj oelhados num a sexta-feira, ele achava que em Teerã, com um a narração que dizia: “E continua a busca pelas lentes de contato do aiatolá”. Isso seria perm itido dentro da nova lei, perguntou, ou na verdade ele iria para a prisão? Ah, sim , tudo bem, disseram , claro que tudo bem, nenhum problem a. Hum , disse Rowan, m as com o ele poderia ter certeza disso? É fácil, eles responderam , você apresentaria o roteiro para ser aprovado por um departam ento do governo, e sem dúvida que conseguiria, e assim teria certeza. “Eu m e pergunto por quê”, Rowan ponderou delicadam ente, “não m e sinto seguro com isso.” No dia em que essa decisão estarrecedora foi apresentada à Câm ara dos Com uns para o voto final, os correligionários trabalhistas, achando que a revolta contra o decreto seria tão grande que ele seria vencido, disseram a Tony Blair que não havia necessidade de ficar até a contagem dos votos. Então o prim eiro-m inistro foi para casa e seu decreto perdeu por um voto. Se ele tivesse ficado, a votação acabaria em em pate, o presidente da casa teria votado a favor do governo conform e sua obrigação e o decreto teria se tornado lei vigente. Chegou perto assim .

 

A vida avançava a pequenos passos. Barry Moss, o chefe da Divisão Especial, foi visitá-lo e contou que o novo acordo havia sido aprovado e que ele ia em pregar Frank Bishop com Dennis Chevalier com o substituto, e a polícia se retiraria com pletam ente da casa da Bishop’s Avenue. A partir de 1o de j aneiro de 1998, sua casa seria dele e ele poderia decidir todos os seus “m ovim entos privados” sozinho com a aj uda de Frank. Ele sentiu que um grande peso foi rem ovido de seus om bros. Ele, Elizabeth e Milan estavam prestes a ter um a vida privada na Inglaterra, pela prim eira vez.

Frances D’Souza ligou para dizer que Fallahian, o m ui tem ido m inistro da Inteligência iraniano, havia sido substituído por um certo sr. Naj af-Abadi, supostam ente um “tipo liberal, pragm ático”. Bom , vam os ver, ele respondeu.

Gail Rebuck concordou que a Random House do Reino Unido recebesse im ediatam ente em seus arm azéns a edição em brochura de Os versos satânicos feita pelo consórcio e colocasse o cólofon da Vintage na próxim a reim pressão do livro, que seria necessária provavelm ente por volta do Natal. Tratava-se, na verdade, de um grande passo; a m uito esperada “norm alização” da condição do rom ance no Reino Unido, nove longos anos depois do lançam ento.

A srta. Arundhati Roy ganhou o Booker Prize, com o era esperado — ela era a favorita —, e no dia seguinte disse ao The Times que a literatura dele era m eram ente “exótica”, enquanto a dela era verdadeira. Isso era interessante, m as ele resolveu não responder. Então veio da Alem anha a notícia de que ela havia dito a m esm a coisa a um j ornalista lá. Ele telefonou para David Godwin, o agente dela, para dizer que não achava bom dois vencedores indianos do Booker serem vistos se atacando em público. Ele nunca dissera em público o que achava de O deus das pequenas coisas, m as, se ela quisesse um a briga, sem dúvida ele toparia. Não, não, disse David, tenho certeza de que citaram incorretam ente o que ela disse. Logo depois, ele recebeu um a m ensagem de pazes da srta. Roy, alegando a m esm a coisa. Deixe estar, ele pensou, e seguiu em frente.

Günter Grass faria setenta anos e o Thalia Theater, em Ham burgo, estava planej ando um a grande com em oração de sua vida e obra. Ele voou para Ham burgo com seus novos m elhores am igos, a Lufthansa, e participou do evento ao lado de Nadine Gordim er e de praticam ente todos os escritores alem ães im portantes. Depois da parte pública da noite, houve m úsica e dança e ele descobriu que Grass era um grande dançarino. Todas as m oças da festa queriam girar nos braços dele e Günter incansavelm ente valsou, gavotou, polcou e foxtrotou noite adentro. Assim , ele tinha agora duas razões para invej ar o grande hom em . Sem pre invej ara a habilidade de Grass com o artista plástico. Com o devia ser liberador term inar a escritura do dia, ir para um ateliê e com eçar a trabalhar de um j eito com pletam ente diferente os m esm os tem as. Que fantástico ser capaz de criar suas próprias capas! Os bronzes, e as gravuras de ratos, sapos, linguados, enguias, e m eninos com tam bor eram obras de beleza. Mas agora havia tam bém sua dança para adm irar. Realm ente, era dem ais.

As autoridades de Sri Lanka estavam dando sinais positivos quanto à perm issão ao proj eto d e Os filhos da meia-noite, m as, segundo um a das produtoras da bbc, Ruth Caleb, im punham com o condição que ele não com parecesse às film agens. Tudo bem , ele disse, é ótim o ser tão popular, e poucos dias depois Tristram passou um fax do Sri Lanka. “Estou com a perm issão em m inha m ão.” Foi um m om ento alegre. Mas as coisas acabaram se revelando m ais um a longa série de falsos alvoreceres.

Milan estava com eçando a falar, com grande ênfase, “Ha! Ha! ha”. Quando seus pais repetiam para ele, ele ficava deliciado e falava de novo. Seria sua prim eira palavra — a palavra que representa o riso, não apenas a risada em si? Ele parecia desesperado para falar. Mas, naturalm ente, era cedo dem ais.

Elizabeth ia visitar Carol por alguns dias. Eles não faziam am or desde o casam ento, fazia m uitos, m uitos m eses. “Estou cansada”, ela disse, e depois ficou até as duas da m anhã colando fotografias de casam ento num álbum . Mas as coisas entre eles estavam bem , no geral m uito bem , e isso tam bém logo deixou de não estar bem . O negócio do amor é crueldade, que por nossa vontade transformamos para viver juntos.

 

Quando olhou para trás, para o registro do que tinha feito de sua vida, ele entendeu que era m ais fácil anotar um a coisa desagradável do que um m om ento de felicidade, era m ais fácil registrar um a briga do que um a palavra am orosa. A verdade era que durante m uitos anos Elizabeth e ele haviam tido um relacionam ento fácil e am oroso a m aior parte do tem po. Mas não m uito depois do casam ento a calm a e a felicidade com eçaram a dim inuir e as fissuras, a aparecer. “O problem a de um casam ento”, ele escreveu depois, “é com o a água das m onções que se acum ula em cim a de um telhado plano. Você não se dá conta de que ela está lá em cim a, m as vai ficando m ais e m ais pesada, até que um dia, com um grande estrondo, o telhado inteiro cai em cim a da sua cabeça.”

 

Um a m ulher cham ada Flora Botsford era a correspondente da bbc em Colom bo, m as foi intriga dela, na opinião do produtor, Chris Hall, “que nos atrapalhou”. Às vezes era fácil acreditar que o pessoal da m ídia preferia que as coisas dessem errado porque tudo vai bem não era um a m anchete atraente. O em penho de Botsford, com o funcionária da bbc, em provocar dificuldades para um a produção im portante da em issora era surpreendente, ou, de m aneira m ais deprim ente, não era surpreendente. Ela se encarregou pessoalm ente de telefonar para diversos parlam entares m uçulm anos cingaleses procurando citações hostis e encontrou um , e um era o que bastava. Escrevendo para o The Guardian, Botsford com eçava assim : “Foi confirm ado na sem ana passada que, correndo o risco de ofender os m uçulm anos locais, a bbc vai film ar no Sri Lanka um a controversa série de cinco capítulos baseada no livro Os filhos da meia-noite, de Salm an Rushdie”. Em seguida, seu parlam entar cuidadosam ente desenterrado teve seu m om ento de glória.

 

Ao m enos um político m uçulm ano no Sri Lanka está fazendo o possível para im pedir o

proj eto, levantando a questão no Parlam ento. “Salm an Rushdie é um a figura m uito

controversa”, disse A. H. M. Azwar, parlam entar da oposição. “Ele aviltou e difam ou o

Profeta Sagrado, coisa que constitui um ato im perdoável. Muçulm anos de todo o m undo

detestam a sim ples m enção de seu nom e. Deve ter havido um a razão forte para a Índia

proibir a film agem , e devem os cuidar para não despertar sentim entos públicos aqui.”

 

As reverberações se espalharam depressa. Na Índia, houve m uitos artigos dizendo que era um escândalo a Índia ter negado perm issão para a film agem , m as em Teerã o m inistro das Relações Exteriores iraniano cham ou o em baixador do Sri Lanka para protestar. Chris Hall tinha perm issão escrita da própria presidente Chandrika Bandaranaike Kum aratunga e por um m om ento parecera que a presidente m anteria sua palavra. Mas então um grupo de parlam entares m uçulm anos exigiu que ela m udasse sua decisão. Ataques islâm icos excepcionalm ente venenosos foram desferidos contra o autor de Os filhos da meia-noite na m ídia do Sri Lanka. Ele era um covarde traidor da raça, e Os filhos da meia-noite, um livro que insultava e ridicularizava seu próprio povo. Um funcionário do Ministério das Relações Exteriores anunciou que a perm issão para a realização do film e havia sido revogada, m as seus superiores o desm entiram . O vice-m inistro disse: “Vão em frente”. O vice-m inistro da Defesa garantiu “pleno apoio m ilitar”. No entanto, a espiral declinante havia com eçado. Ele farej ou a chegada da catástrofe, m esm o quando o m inistro das Relações Exteriores do Sri Lanka e o conselho de produção do film e confirm avam que a perm issão para film agem fora dada. Houve o que Chris Hall descreveu com o um a reunião bêbada com os intelectuais locais no escritório de produção da bbc, e todos eles eram a favor. A im prensa do Sri Lanka estava quase toda apoiando a produção tam bém . Mas a sensação de dissolução im inente perm anecia. Um a sem ana depois, a perm issão para film ar foi revogada sem nenhum a explicação, apenas seis sem anas após a perm issão por escrito ter sido dada pela presidente. O governo estava tentando aprovar um a legislação de transferência de posse ardilosa e precisava do apoio de um pequeno grupo de parlam entares m uçulm anos. Por trás da cena, o Irã e a Arábia Saudita am eaçavam expulsar seus trabalhadores do Sri Lanka se a produção fosse realizada.

Não houve nenhum protesto público contra a produção nem na Índia, nem no Sri Lanka. Em am bos os países o proj eto fora assassinado. Ele sentia com o se alguém tivesse batido nele com m uita força. “Não posso cair”, pensou, m as estava arrasado.

Chris Hall continuava convencido de que o artigo de Flora Botsford tinha acendido o fogo. “ A bbc não tratou bem você”, ele disse. A presidente Kum aratunga escreveu-lhe um a carta, desculpando-se pessoalm ente pelo cancelam ento. “Li seu livro intitulado Os filhos da meia-noite e gostei m uito. Gostaria de vê-lo film ado. No entanto, às vezes considerações políticas pesam m ais que causas talvez m ais valiosas. Espero que chegue um tem po no Sri Lanka em que as pessoas com ecem a pensar de novo racionalm ente, em que os valores m ais profundos da vida prevaleçam . Então m eu país de novo se tornará o ‘Serendib’ que m erece ser.” Em 1999, ela sobreviveu a um a tentativa de assassinato perpetrada pelos Tigres Tâm eis, m as ficou cega de um olho.

 

O ato final da história da film agem de Os filhos da meia-noite, o ato com final feliz, com eçou onze anos depois. No outono de 2008, ele estava em Toronto para a publicação de seu rom ance A feiticeira de Florença e um a noite foi j antar, fora das atividades de prom oção do livro, com um a am iga, a diretora de cinem a Deepa Mehta. “Um livro seu que eu realm ente gostaria de film ar é Os filhos da meia-noite. Quem tem os direitos?” “Por acaso”, ele respondeu, “eu tenho.” “Então, posso film ar?”, ela perguntou. “Pode”, ele respondeu. Ele cedeu a ela a opção de film agem por um dólar e durante os dois anos seguintes trabalharam para levantar o dinheiro e escrever o roteiro. Os roteiros que tinha escrito para a bbc pareciam agora engessados, rígidos, e ele ficou contente de a série nunca ter sido feita. O novo roteiro parecia m ais adequadam ente cinem atográfico e o instinto de Deepa para o film e era m uito próxim o do dele. Em j aneiro de 2011, Os filhos da meia-noite, agora um longa-m etragem , não um a série de tv, voltou à Índia e ao Sri Lanka para ser film ado, e trinta anos depois da publicação do rom ance, catorze anos depois do cancelam ento da série da bbc, o film e foi enfim realizado. No dia em que as film agens principais term inaram em Colom bo, ele sentiu que um a m aldição se desfizera. Outra m ontanha havia sido escalada.

No m eio das film agens, os iranianos tentaram sustar o proj eto outra vez. O em baixador do Sri Lanka foi cham ado ao Ministério das Relações Exteriores em Teerã para ser inform ado do desprazer do Irã quanto ao em preendim ento. Durante dois dias, a perm issão para o film e foi novam ente revogada. Mais um a vez, tinham um a carta de perm issão do presidente, m as ele tem ia que esse presidente tam bém fosse se m ostrar fraco diante da pressão. Dessa vez, porém , o resultado foi diferente. O presidente disse a Deepa: “Vá em frente e term ine seu film e”.

O film e foi concluído e a estreia, prevista para 2012. Que cascata de em oções aquela sim ples frase escondia. Per ardua ad astra, ele pensou. A coisa estava feita.

 

Em m eados de novem bro de 1997, John le Carré, um dos poucos escritores que tinham se posicionado contra ele quando com eçara o ataque a Os versos satânicos, reclam ou no The Guardian que estava sendo inj ustam ente “m aculado” e “m anchado com o pincel antissem ita” por Norm an Rush no The New York Times Book Review, e descreveu “todo o peso opressivo do politicam ente correto” com o um a espécie de “m ovim ento m acarthista ao contrário”.

Ele não deveria revelar seus sentim entos, é claro, m as não conseguiu deixar de responder. “Seria m ais fácil ficar do lado dele”, escreveu num a carta ao j ornal, “se ele não estivesse tão disposto a se j untar à prim eira cam panha de vilipêndio a um colega escritor. Em 1989, durante os piores dias do ataque islâm ico a Os versos satânicos, Le Carré, bastante pom posam ente, j untou forças com m eus atacantes. Seria elegante se ele adm itisse que com preende um pouco m elhor a natureza da Polícia do Pensam ento agora que, pelo m enos em sua própria opinião, ele é que está na linha de fogo.”

Le Carré m ordeu a isca em grande estilo: “A verdade para Rushdie é autorreferente com o sem pre”, ele respondeu.

 

Nunca m e j untei a seus atacantes. Nem tom ei o cam inho fácil de proclam á-lo um lím pido

inocente. Minha posição era que não existe lei na vida nem na natureza que diga que

grandes religiões podem ser insultadas im punem ente. Escrevi que não existe nenhum

padrão absoluto de liberdade de expressão em nenhum a sociedade. Escrevi que a

tolerância não surge ao m esm o tem po e da m esm a form a para todas as religiões e

culturas, e que a sociedade cristã tam bém , até bem recentem ente, definia os lim ites de

liberdade pelo que era sagrado. Escrevi, e escreveria de novo hoj e, que, no tocante à

m aior divulgação do livro de Rushdie em brochura, eu estava m ais preocupado com a

m oça na Penguin Books que podia ter as m ãos explodidas na correspondência do que com

os roy alties do autor. Quem quisesse ler o livro na época tinha am plo acesso a ele. Meu

propósito não era j ustificar a perseguição a Rushdie, que, com o qualquer pessoa decente,

eu deploro, m as fazer soar um a nota m enos arrogante, m enos colonialista e m enos

autoj ustificativa do que a que vínham os ouvindo da segurança do cam po de seus

adm iradores.

 

A essa altura, o The Guardian estava gostando tanto da briga que publicava as cartas na prim eira página. Sua resposta a Le Carré apareceu no dia seguinte:

 

John le Carré [...] diz que não se j untou aos ataques a m im , m as afirm a tam bém que “não

há lei na vida ou na natureza que diga que as grandes religiões podem ser insultadas

im punem ente”.Um exam e superficial dessa form ulação pretensiosa revela que (1) ela

assum e a linha convencional e radical do islam ism o de que Os versos satânicos não é nada

m ais que um “insulto” e (2) sugere que qualquer pessoa que desagrade aos islâm icos

convencionais, reducionistas e radicais perde o direito de viver com segurança [...]. Ele diz

que está m ais interessado em salvaguardar os funcionários envolvidos na publicação do

que em m eus roy alties. Mas é exatam ente essa gente, os editores de m eu rom ance em uns

trinta países, ao lado dos funcionários de livrarias, que m ais apaixonadam ente apoia e

defende m eu direito à publicação. É ignóbil que Le Carré os use com o argum ento para a

censura quando eles tão coraj osam ente defendem a liberdade. John le Carré tem razão em

dizer que a liberdade de expressão não é absoluta. Tem os as liberdades pelas quais lutam os

e perdem os as que não defendem os. Sem pre achei que George Sm iley sabia disso. Seu

criador parece ter esquecido.

 

A essa altura, Christopher Hitchens j untou-se à celeum a sem ser convidado e sua resposta levaria o rom ancista de espionagem a picos ainda m ais altos de apoplexia.

“A conduta de John le Carré em suas páginas é m uito parecida com a daquele hom em que, depois de se aliviar no próprio chapéu, se apressa em enfiar o chapeau transbordante na própria cabeça”, opinou Hitch com sua característica discrição.

 

Ele costum ava ser evasivo e eufem ístico sobre a solicitação aberta de assassinato por

recom pensa, porque os aiatolás tam bém têm sentim entos. Agora ele nos diz que sua m aior

preocupação é com a segurança das m oças da correspondência. Além disso, ele

arbitrariam ente contrapõe a segurança delas e os roy alties de Rushdie. Devem os concluir

então que ele não faria obj eção a Os versos satânicos se o livro fosse escrito, publicado e

distribuído gratuitam ente em barracas sem vendedores? Isso satisfaria ao m enos aqueles

que parecem acreditar que a defesa da liberdade de expressão deve ser livre de custos e

livre de riscos. Na realidade, nenhum a funcionária da correspondência se feriu ao longo de

oito anos de desafio à fatwa. E, quando as nervosas cadeias de livrarias da Am érica do

Norte por um breve período de fato suspenderam a distribuição de Os versos satânicos

invocando questões de “segurança”, foram os sindicatos de funcionários que protestaram e

voluntariam ente se postaram j unto às vitrines defendendo o direito de os leitores

com prarem e exam inarem qualquer livro. Aos olhos de Le Carré, essa valente decisão foi

tom ada em “segurança” e foi, além disso, blasfem a em relação a um a grande religião!

Será que não poderíam os ter sido poupados da revelação do conteúdo de seu chapéu —

digo, de sua cabeça?

 

No dia seguinte, foi a vez de Le Carré:

 

Qualquer pessoa que tenha lido ontem as cartas de Salm an Rushdie e de Christopher

Hitchens poderá se perguntar em que m ãos caiu a grande causa da liberdade de expressão.

Sej a do trono de Rushdie ou da sarj eta de Hitchens, a m ensagem é a m esm a: “Nossa

causa é absoluta, não adm ite dissidência nem qualificação; quem a questiona é por

definição um a pessoa ignorante, pom posa, sem iletrada”. Rushdie despreza m inha

linguagem e arrasa um discurso ponderado e bem recebido que fiz na Anglo-Israel

Association e que o The Guardian resolveu republicar. Dois aiatolás raivosos não poderiam

ter feito m elhor trabalho. Mas será que essa am izade vai durar? É de adm irar que Hitchens

suporte a autocanonização de Rushdie há tanto tem po. Rushdie, pelo que posso entender,

não nega o fato de ter insultado um a grande religião. Ao contrário, ele m e acusa — note-se

sua linguagem absurda com o sem pre — de seguir a linha convencional, reducionista e

radical do islam ism o. Eu não sabia que eu era tão esperto. O que sei de fato é que ele

desafiou um inim igo conhecido e gritou “j ogo suj o” quando este reagiu de acordo. A dor

que ele teve de suportar é terrível, m as isso não faz dele um m ártir, nem — por m uito que

ele fosse gostar — elim ina toda discussão sobre as am biguidades de sua participação em

seu próprio declínio.

 

Vam os até o fim nisso, ele pensou.

É verdade que cham ei [Le Carré] de pom poso, o que é bem brando diante das

circunstâncias. “Ignorante” e “sem iletrado” são chapéus de burro que ele m esm o põe na

cabeça [...]. O costum e de Le Carré de escrever boas críticas sobre si m esm o (“m eu

discurso ponderado e bem recebido”) ele desenvolveu porque, bem , alguém tinha de

escrevê-las [...]. Não tenho a intenção de repetir m ais um a vez as m uitas explicações de

Os versos satânicos, um rom ance do qual continuo extrem am ente orgulhoso. Um

rom ance, sr. Le Carré, não um deboche. Você sabe o que é um rom ance, não sabe, John?

 

Ah, e assim por diante. As cartas dele, Le Carré disse, deviam ser leitura obrigatória a todos os estudantes de curso secundário na Grã-Bretanha com o um exem plo de “intolerância cultural m ascarada de liberdade de expressão”. Ele queria encerrar a briga, m as se sentiu obrigado a responder à alegação de que enfrentou um inimigo conhecido e depois gritou “jogo sujo”:

 

Suponho que nosso herói de Ham pstead diria a m esm a coisa de m uitos escritores,

j ornalistas e intelectuais do Irã, da Argélia, do Egito, da Turquia e de outros países, que

tam bém estão lutando contra o islam ism o, e por um a sociedade secularizada; em resum o,

pela libertação da opressão das Grandes Religiões do Mundo. De m inha parte, tentei,

durante estes anos difíceis, cham ar a atenção para a luta dessas pessoas. Alguns dos

m elhores — Farag Fouda, Tahar Dj aout, Ugur Mum cu — foram assassinados por sua

disposição de “enfrentar um inim igo conhecido”. [...] Acontece que não acredito que

sacerdotes e m ulás, e m uito m enos bom bardeadores e assassinos, sej am as m elhores

pessoas para estabelecer os lim ites do que se pode pensar.

 

Le Carré silenciou, m as então seu am igo William Shawcross pulou para a arena. “As pretensões de Rushdie são ultraj antes e [...] exalam o fedor da autocom iseração triunfalista.” Isso era estranho, porque Shawcross era o diretor dem issionário da Artigo 19, que teve então de escrever um a carta rechaçando suas alegações. O The Guardian relutava em deixar a história m orrer e seu editor, Alan Rusbridger, telefonou para saber se ele gostaria de responder à carta de Shawcross. “Não”, ele disse a Rusbridger. “Se Le Carré quer que seus am igos choram inguem por procuração, problem a dele. Eu disse o que tinha de dizer.”

Vários j ornalistas atribuíram a hostilidade de Le Carré àquela antiga crítica ruim a A casa da Rússia, m as ele ficou de repente dom inado pela tristeza pelo que havia acontecido. O Le Carré de O espião que sabia demais e O espião que saiu do frio era um escritor que ele havia adm irado por m uito tem po. Em um a época m ais feliz, tinham até subido j untos ao m esm o palco em defesa da Cam panha de Solidariedade à Nicarágua. Ele se perguntava se Le Carré reagiria bem se ele oferecesse o ram o de oliveira. Mas Charlotte Cornwell, irm ã de Le Carré, expressou sua raiva a Pauline Melville quando se encontraram num a rua do norte de Londres — “É! Quanto ao seu am igo!” —, de form a que os sentim entos no cam po dos Cornwell estavam exasperados dem ais para um a iniciativa de paz poder dar certo j á. Mas ele lam entou a briga e sentiu que ninguém tinha “vencido” a discussão. Os dois tinham perdido.

Não m uito depois desse confronto, ele foi convidado à Spy Central para falar a um grupo de chefes de setor, e a form idável Eliza Manningham -Buller, do m i5, um a m ulher com a

aparência exata de seu nom e, a m eio cam inho entre a tia Dahlia de Bertie Wooster b e a rainha, estava furiosa com Le Carré. “O que ele acha que está fazendo?”, ela perguntou. “Será que não entende nada? É um idiota com pleto?” “Mas antigam ente ele não era um de vocês?”, ele perguntou. Eliza Manningham -Buller era um a daquelas raras e valorosas m ulheres capazes de efetivam ente roncar. “Hah!”, ela roncou, com o um a genuína tia de Wodehouse. “Acho que ele trabalhou para nós em algum tipo de função m enor durante cinco m inutos, m as nunca, m eu caro, chegou ao nível das pessoas com quem você está conversando hoj e, e pode crer que, depois dessa história, nunca vai chegar.”

Onze anos depois, em 2008, ele leu um a entrevista com John le Carré em que seu ex-adversário disse, a respeito do antigo contratem po entre am bos: “Talvez eu estivesse errado. Mas, se estava errado, era pelas razões certas”.

 

Ele havia escrito quase duzentas páginas de O chão que ela pisa quando a esperança de Paul Auster de colocá-lo no elenco do film e O mistério de Lulu se evaporou. O sindicato dos cam inhoneiros — “Pode im aginar isso, os cam inhoneiros grandes, fortes?”, ele lam entou — declarou-se m uito tem eroso de contar com o sr. Rushdie no film e. Queriam m ais dinheiro, claro, taxa de risco, m as era um a produção de baixo orçam ento e não havia m ais dinheiro. Paul e seu produtor, Peter Newm an, batalharam para fazer acontecer, m as no fim tiveram de adm itir a derrota. “No dia em que percebi que não íam os conseguir”, Paul disse a ele, “fui para um a sala sozinho e chorei.”

Seu papel foi, em cim a da hora, para Willem Dafoe. O que, ao m enos, era elogioso.

 

Ele foi ouvir Edward Said falar no escritório da London Review of Books e um j ovem cham ado Asad levantou-se e confessou que, em 1989, era o líder da Sociedade Islâm ica de Coventry e tinha sido o “representante de West Midlands” nas dem onstrações contra Os versos satânicos. “Mas tudo bem ”, ele explodiu, envergonhado, “eu agora sou ateu.” Bem , era um progresso, ele disse a Asad, m as o j ovem tinha m ais a dizer. “E então, recentem ente”, Asad exclam ou, “li o seu livro e não consegui entender todo o barulho que fizeram a respeito!” “Isso é ótim o”, ele disse, “m as perm ita-m e observar que você, que não tinha lido o livro, foi a pessoa que organizou o barulho todo.” Ele se lem brou do velho provérbio chinês às vezes atribuído a Confúcio: Se ficar sentado na beira do rio tempo suficiente, o corpo de seu inimigo um dia passa boiando.

 

Milan estava com sete m eses, sorrindo para todo m undo, resm ungando constantem ente, alerta, bem -hum orado, lindo. Um a sem ana antes do Natal, com eçou a engatinhar. A polícia estava desm ontando seu equipam ento de vigilância e indo em bora. No dia de Ano-Novo, Frank Bishop passaria a trabalhar para ele e depois de algum as sem anas de “transição” eles teriam sua casa só para eles, e por causa disso tanto ele com o Elizabeth sentiram , apesar de todas as decepções, que o ano estava term inando bem .

 

No com eço do ano do com eço do fim , quando ele fechou a porta pela últim a vez para os quatro policiais que tinham vivido com eles sob tantos nom es diferentes e em tantos lugares diferentes durante os nove anos anteriores, e assim encerrou o período de proteção 24 horas que Will Wilson e Will Wilton haviam oferecido na Lonsdale Square no fim de um a vida anterior, ele se perguntou se estava reconquistando a liberdade para ele e sua fam ília ou assinando a sentença de m orte de todos. Ele era o m ais irresponsável dos hom ens ou um realista com um bom instinto que queria reconstruir, em particular, um a vida privada real? A resposta só poderia ser obtida em retrospecto. Dentro de dez ou vinte anos, ele saberia se seu instinto fora correto ou errado. A vida era vivida para a frente, m as j ulgada para trás.

Então, no com eço do ano do com eço do fim ; sem saber do futuro; com um filho bebê que estava cuidando dos negócios que um bebê tem de cuidar, o negócio de sentar pela prim eira vez com as costas eretas, o negócio de tentar se pôr de pé no berço, falhando, tentando de novo, até o dia em que deixou de ser um ser engatinhante e se tornou Homo erectus, bem a cam inho de ser sapiens; enquanto o irm ão m ais velho do bebê ia passar um ano de aventuras no México, onde seria preso pela polícia, observaria baleias brincando, nadaria em piscinas debaixo de altas cachoeiras em Taxco, observaria os m ergulhadores saltarem dos rochedos de Acapulco com tochas acesas na m ão, leria Bukowski e Kerouac, encontraria sua m ãe e iria com ela a Chichen Itza e Oaxaca, assustaria seu pai passando períodos alarm antem ente longos sem dar notícias, seu pai, que não podia evitar tem er pelo pior, que tem ia em silêncio pela segurança do filho desde o dia das cham adas telefônicas sem resposta e da casa identificada por engano com a porta da frente aberta nove anos antes; um a viagem da qual o rapaz de dezoito anos voltaria tão m agro, tão queim ado de sol, tão bonito que, quando tocou a cam painha e o pai o viu pelo m onitor do porteiro eletrônico, não o reconheceu. Quem é?, ele gritou, assom brado, e então se deu conta de que aquele j ovem deus era seu próprio filho; enquanto todas as coisas corriqueiras da vida cotidiana continuavam , e era certo que continuassem , m esm o em m eio a um a outra existência envolvente que continuava a ser extraordinária, veio o dia, um a segunda feira, 26 de j aneiro de 1998, em que dorm iram sozinhos em casa e, em vez de ficarem apavorados com o silêncio à sua volta e a ausência dos grandes policiais adorm ecidos, eles não puderam deixar de sorrir, ir para a cam a cedo e dorm ir com o m ortos; não, com o m ortos, não, com o seres vivos e desim pedidos. E então, às 3h45 da m anhã, ele acordou e não conseguiu voltar a dorm ir.

 

Mas a dureza do m undo nunca estava m uito longe. “Está fora de questão Rushdie receber perm issão para visitar a Índia num futuro próxim o”, disse o funcionário do governo indiano. O m undo se tornara um lugar onde sua chegada a um a terra que ele am ava levaria a uma crise política. Ele pensou no m enino Kay da história A rainha da neve, de Hans Christian Andersen, que tinha frios cacos de um espelho do diabo no olho e no coração. Sua tristeza era esse caco e ele tem ia que fosse transform ar sua personalidade e fazê-lo ver o m undo com o um lugar cheio de ódio, tom ado por pessoas desprezíveis e abom ináveis. Às vezes, ele topava com essa gente. Num a festa de aniversário de sua am iga Nigella, ele acabara de receber a notícia dolorosa de que o m arido dela, John, estava com um novo tum or e que os indícios não eram bons, quando foi confrontado por um j ornalista cuj o nom e não conseguiria escrever nem dez anos depois, que, tendo bebido talvez um copo de vinho a m ais, com eçou a ofendê-lo num a linguagem tão descom edida que ele acabou tendo de ir em bora da festa. Durante dias depois desse episódio, ele não conseguiu trabalhar, viu-se incapaz de escrever, incapaz de entrar em outros lugares onde um hom em podia ir até ele e xingá-lo, cancelou com prom issos, ficou em casa e sentiu o caco de espelho frio em seu coração. Dois j ornalistas am igos, Jon Snow e Francis Wheen, contaram -lhe que o m esm o j ornalista tam bém havia atacado os dois, e com linguagem m uito sem elhante, e com o a desgraça adora com panhia ele se alegrou ao saber disso. Mas durante outra sem ana não conseguiu trabalhar.

Talvez por estar perdendo a fé no m undo em que era obrigado a viver, ou em sua capacidade de encontrar alegria nele, introduziu em seu rom ance a ideia de um m undo paralelo, um m undo em que as ficções eram reais e seus criadores não existiam , no qual Alexander Portnoy era real, m as Philip Roth, não, no qual Dom Quixote vivera um dia, m as Cervantes, não; e de um a variante desse m undo, em que Jesse Presley era o gêm eo que sobrevivia, enquanto Elvis m orria; no qual Lou Reed era m ulher e Laurie Anderson, hom em . Ao escrever o rom ance, o ato de habitar um m undo im aginado parecia de algum a form a m ais nobre do que a vulgar m issão de viver no m undo real. Mas ali adiante estava a loucura de Dom Quixote. Ele nunca acreditara no rom ance com o um lugar para o qual escapar. Não podia com eçar a acreditar em literatura escapista agora. Não, ia escrever sobre m undos em colisão, sobre realidades em luta por um m esm o segm ento de espaço-tem po. Era um a época em que realidades incom patíveis colidiam com frequência um as com as outras, com o Otto Cone havia dito em Os versos satânicos. Israel e Palestina, por exem plo. Além disso, a realidade em que ele era um hom em decente, honrado e bom escritor havia colidido com um a outra realidade em que ele era um a criatura dem oníaca e um escrevinhador sem talento. Não era claro que am bas as realidades pudessem coexistir. Talvez um a delas acabasse excluindo a outra.

Chegou a noite da festa do Esquadrão “A” no Peelers, o Baile da Polícia Secreta, e nesse ano Tony Blair estava presente e a polícia aproxim ou os dois. Ele falou com o prim eiro-m inistro, fez seu apelo e Blair foi sim pático, m as não se com prom eteu. Depois disso, Francis Wheen lhe fez um grande favor. Escreveu um artigo no The Guardian atacando Blair por sua passividade no caso Rushdie, por sua recusa em se pôr ao lado do escritor e dem onstrar apoio. Quase im ediatam ente houve um telefonem a de Fiona Millar, braço direito de Cherie Blair, que pareceu m uito contrita e convidou Elizabeth e ele para j antar em Chequers, a residência oficial de cam po do prim eiro-m inistro, no nono aniversário da fatwa. E, sim , tudo bem levar Milan, seria um a ocasião inform al entre fam ília e am igos. Milan, para com em orar o convite, aprendeu a acenar.

 

* * *

 

Caro sr. Blair,

Obrigado pelo jantar. E em Chequers! Obrigado por permitir que víssemos a casa. O diário de Nelson, a máscara mortuária de Cromwell — fui estudante de história, de forma que gostei de tudo isso. Elizabeth gosta de jardins e adorou as bétulas etc. Para mim todas as árvores são “árvores” e todas as flores são “flores”, mas, sim, gostei das flores e árvores. Gostei também de ver que toda mobília era ligeiramente desbotada, levemente desarrumada, o que faz o lugar parecer uma casa em que as pessoas vivem de verdade e não um pequeno hotel campestre. Gostei de ver os empregados tão mais bem-vestidos que os convidados. Aposto que Margaret Thatcher nunca usou blue jeans ao receber convidados.

Lembro-me de encontrar o senhor e Cherie num jantar em casa de Geoffrey Robertson pouco depois que o senhor se tornou líder do partido. Nossa, como o senhor estava tenso! Pensei: aqui está um homem que sabe que, se perder a próxima eleição, todo o seu partido pode desaparecer pelo ralo. Enquanto isso, Cherie estava relaxada, confiante, culta, sob todos os aspectos a bem-sucedida advogada com amplos interesses artísticos. (Foi nessa noite que o senhor admitiu que não ia ao teatro e não lia por prazer.) Bem, que diferença fez ter conseguido seu posto! Em Chequers seu sorriso era quase espontâneo, sua linguagem corporal revelava naturalidade, todo o seu ser em calma. Cherie, por outro lado, parecia no limiar de um colapso nervoso. Ao nos mostrar a casa — “E aqui, claro, é a famosa Long Room, e aqui, vejam só, é o famoso blá, e pendurado neste parede o famoso blá blá blá” — ela nos passou a sensação de que preferia se enforcar a desempenhar aquele papel secundário da boa esposa, châtelaine de Chequers durante os próximos cinco ou dez anos. Era como se vocês dois tivessem trocado de personagens. Tão interessante.

E durante o jantar sua família foi adorável, Gordon Brown e sua Sarah, Alastair Campbell e sua Fiona, muito agradáveis de fato. E Cameron Mackintosh! E Mick Hucknall! E a ardente namorada de Mick, como é mesmo o nome dela? Não podíamos esperar nada melhor. Animou-nos muitíssimo, posso confessar, porque tínhamos tido um dia difícil, Elizabeth e eu, absorvendo as alegrias anuais que nos vêm do Irã. Sanei da Recompensa ofereceu um bônus se eu for assassinado nos Estados Unidos, “porque todo mundo odeia a América”. E o promotor chefe Morteza Moqtadaie anunciou que “é obrigatório que se derrame o sangue desse homem”, e a rádio estatal de Teerã especula se “a destruição desse homem inútil pode insuflar vida nova ao islã”. Um pouco perturbador, sabe? Tenho certeza de que o senhor pode entender que meu humor não estivesse dos melhores.

Mas devo dizer que estou começando a gostar bastante de Robin Cook e Derek Fatchett. Foi muito importante neste indesejado aniversário ficar sabendo que o secretário do Exterior pede o fim da fatwa, pede que o Irã estabeleça um diálogo para encerrá-la. Houve secretários do Exterior, vou lhe contar!, que... mas é melhor não falar do passado. Só queria dizer que me senti grato pela nova administração e seu desejo de combater o fanatismo religioso.

Ah, ouvi dizer que vocês são religiosos devotos, o senhor e Cherie. Parabéns pelo trabalho realmente excelente de esconder isso.

Lembro-me de um momento marcante do jantar. Bem, de dois. Lembro do senhor balançando Milan no colo. Foi muito gentil. E depois, pelo que me lembro, o senhor começou a falar de liberdade e pensei: estou interessado nisso, então me afastei da ardente namorada de Mick Hucknall para ouvir o senhor, e lá estava o senhor falando da liberdade de mercado como se fosse isso que entendia por liberdade, o que não podia ser verdade, porque o senhor é um primeiro-ministro trabalhista, não é?, então devo ter entendido errado, ou talvez fosse uma coisa do Novo Trabalhismo, liberdade = liberdade de mercado, um novo conceito, talvez. De qualquer forma, uma surpresa e tanto.

E então estávamos indo embora, os funcionários agradando Milan, dizendo que era bom ter crianças pequenas na casa, porque primeiros-ministros tendem a ser mais velhos, com filhos crescidos, mas agora havia os passos frequentes dos pezinhos dos jovens Blair e isso devolvia vida à casa. Gostamos disso, Elizabeth e eu, e gostamos de ver o enorme ursinho de pelúcia no hall de entrada, presente de um chefe de Estado estrangeiro, o presidente, talvez, do Sombrio Peru. “Como se chama?”, perguntei, e Cherie disse que o senhor ainda não havia pensado num nome, e sem uma pausa eu disse: “Devia se chamar Tony Bear”. O que, admito, pode não ter sido brilhante, mas ao menos foi rápido, e merecia talvez um pequeno sorriso?, mas, não, seu rosto estava como uma pedra e o senhor disse: “Não, não acho que seja um bom nome” e fui embora pensando: Ah, não, o primeiro-ministro não tem senso de humor.

Mas não me importei. Seu governo estava do meu lado e isso queria dizer que as pequenas notas dissonantes podiam ser ignoradas, e mesmo depois, durante sua época como primeiro-ministro, quando as notas dissonantes ficaram mais altas e mais discordantes, e ficou realmente difícil não prestar atenção nelas, sempre tive um fraco pelo senhor, não poderia nunca odiá-lo como tanta gente começou a odiá-lo, porque o senhor, ou pelo menos por seus sr. Cook e sr. Fatchett, trataram sinceramente de mudar minha vida para melhor. E por fim conseguiram. O que não anula inteiramente a invasão do Iraque, mas teve peso na minha balança pessoal, com toda certeza.

Muito obrigado novamente por uma noite adorável.

 

No dia seguinte ao j antar em Chequers — dia em que a notícia foi divulgada —, o Irã anunciou que estava “surpreso” com o pedido de Robin Cook pelo fim da fatwa. “A fatwa vai durar 10 m il anos”, dizia a declaração iraniana, e ele pensou: Bem, se eu conseguir viver por 10 mil anos, ótimo.

E no dia seguinte, na sala de espera dos em baixadores no Foreign Office, ele e Robin Cook sentaram -se lado a lado, enfrentaram a im prensa e os fotógrafos e Cook fez certo núm ero de observações firm es, sem concessões, e outra m ensagem foi enviada em alto e bom som para o governo de Khatam i no Irã. Seu agente de proteção, Keith William s, m urm urou para ele ao saírem do prédio: “Deixaram o senhor orgulhoso, sir”.

A nova posição assertiva do governo britânico parecia estar surtindo algum efeito.

Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e nova com issária para direitos hum anos da onu, foi a Teerã, encontrou-se com altas autoridades e anunciou depois de sua visita que o Irã “de m aneira nenhum a” apoiava a im plem entação da fatwa. O rapporteur especial da onu no Irã foi inform ado que “pode haver algum progresso possível quanto à fatwa”. E o m inistro das Relações Exteriores da Itália, Lam berto Dini, encontrou-se com seu equivalente iraniano Kam al Kharrazi e soube que o Irã “estava inteiram ente disposto a cooperar com a Europa na solução dos problem as políticos existentes”.

 

Eles agora tinham um a casa fam iliar. Um dos quartos dos policiais estava sendo transform ado em quarto de brinquedos de Milan e a “sala de estar” deles, onde a m obília estava praticam ente acabada, podia servir com o sala de j ogos, e haveria dois quartos extras. “Se a casa for descoberta, será um im enso problem a”, diziam constantem ente, m as a verdade era a seguinte: a casa nunca foi descoberta. Nunca ficou conhecida, nunca apareceu nos j ornais, nunca se tornou um problem a de segurança, nunca exigiu os prom etidos gastos “colossais” com equipam ento de segurança e horas de funcionários. Isso não aconteceu e um a das razões, ele veio a acreditar, era a bondade das pessoas com uns. Ele tinha certeza de que os pedreiros que haviam trabalhado na casa sabiam para quem estavam trabalhando e não engoliram a história de “Joseph Anton”; não m uito depois que a polícia se retirou e Frank com eçou a trabalhar para eles, houve um problem a com a porta da garagem — um a porta de m adeira suspeitam ente pesada com um a chapa de aço escondida por dentro — e a com panhia que a instalara m andou um m ecânico, que, batendo papo com Frank, disse: “Você sabe de quem era esta casa, não sabe? Era daquele senhor Rushdie. Coitado”. Então as pessoas sabiam quando “não deviam ” saber. Mas ninguém fofocou, ninguém foi aos j ornais. Todo m undo sabia que o caso era sério. Ninguém abriu a boca.

E, pela prim eira vez em nove anos, ele tinha um a “equipe exclusiva” de agentes de proteção para suas aventuras “públicas” (refeições em restaurantes, passeios em Ham pstead Heath, um cinem a ocasional, e de vez em quando um evento literário — um a leitura, um a tarde de autógrafos, um a palestra). Bob Lowe e Bernie Lindsey, os belos diabos que se tornaram os xodós da cena literária londrina, alternando-se com Charles Richards e Keith William s, que não. E os Motoristas Doidões, Russell e Nigel, que se alternavam com Ian e Paul. Esses hom ens não eram apenas “exclusivos” no sentido de trabalharem apenas na Malaquita e em nenhum a outra operação. Eram tam bém com prom etidos com a causa, totalm ente do lado dele, prontos a travar suas batalhas. “Nós todos adm iram os sua resistência”, Bob disse a ele. “De verdade.” Eram da opinião de que não havia razão para ele não ter um a vida tão rica quanto quisesse, e que era função deles tornar isso possível. Eles convenceram os chefes de segurança de várias com panhias aéreas relutantes, que haviam sido influenciadas pela contínua recusa da British Airway s em transportá-lo, que não deviam seguir o exem plo da ba. Queriam que a vida dele fosse m elhor e estavam prontos a aj udar. Ele nunca esqueceria, ou deixaria de valorizar, sua am izade e apoio.

Eles perm aneciam em guarda. Paul Topper, o supervisor da equipe na Yard, disse que os relatórios da inteligência indicavam “atividade”. Não era hora para descuidar.

Houve um a notícia triste: Phil Pitt — o agente conhecido por seus colegas com o “Ram bo” — tinha sido forçado a se aposentar devido a um a doença degenerativa na coluna, e podia acabar num a cadeira de rodas. Havia algum a coisa m uito chocante na queda de um daqueles hom ens grandes, em form a, fortes, ativos. E aqueles hom ens eram protetores profissionais. Era m issão deles garantir que outras pessoas estivessem bem . Não podiam desm oronar. Aquilo estava errado.

 

Elizabeth queria m ais um filho, e logo. Ele sentiu o coração pesado. Milan era um presente tão grande, um a tam anha alegria, m as ele não queria rodar m ais nenhum a vez a roleta da genética. Tinha dois filhos lindos e estava m ais do que bom . Mas Elizabeth era um a m ulher determ inada quando queria algum a coisa — podia-se até usar a palavra teimosa — e ele tem ia que, se recusasse, ia perdê-la e, com ela, Milan. O que ele precisava não era de um novo bebê. Era de liberdade. Essa necessidade talvez nunca fosse suprida.

Dessa vez, ela concebeu rapidam ente, enquanto ainda estava am am entando Milan. Mas dessa vez não tiveram sorte. Duas sem anas depois da confirm ação da gravidez, aconteceu a tragédia crom ossôm ica de um aborto.

Depois do aborto, Elizabeth afastou-se dele e dedicou-se exclusivam ente ao pequeno Milan. Encontraram um a babá, Susan, filha de um funcionário da Divisão Especial, m as ela se recusou a em pregá-la. “Quero alguém só por um a ou duas horas por dia”, disse. “Só um a pequena aj uda com o m enino.”

Suas vidas se tornaram separadas. Ela não queria nem andar no m esm o carro que ele, preferindo usar seu próprio carro com o bebê. Ele quase não se encontrava com ela durante o dia e na grande casa vazia sentia que sua vida tam bém estava se esvaziando. Às vezes, com iam j untos um a om elete por volta das dez da noite e ela dizia estar “cansada dem ais para ficar acordada”, enquanto ele estava alerta dem ais para ir dorm ir. Ela não queria acom panhá-lo a lugar nenhum , e se ressentia se ele sugeria sair sem ela. Então o aprisionam ento pelo bebê continuou. “Quero m ais dois filhos”, ela disse, claram ente. Não havia m uita conversa além disso.

Os am igos com eçaram a notar a distância cada vez m aior entre eles. “Ela não olha m ais para você”, disse Caroline Michel, preocupada. “Ela nunca toca em você. Qual é o problem a?” Mas ele não queria contar qual era o problem a.

Milan com eçou a andar. Tinha dez m eses e m eio.

 

* * *

 

A Random House recebeu a edição em brochura de Os versos satânicos em seus arm azéns e im ediatam ente a im prensa britânica fez o possível para agitar as coisas. O The Guardian fez um a provocante m atéria de prim eira página, sugerindo que a decisão da Random House ia “reavivar” os problem as, o que de fato aconteceu im ediatam ente. O Evening Standard am eaçou publicar um artigo afirm ando que a Random House tinha se decidido sem se aconselhar com a polícia. Dick Stark telefonou ao j ornal para dizer que a inform ação era incorreta, então o j ornal am eaçou fazer um a reportagem dizendo que a Random House tinha ido em frente apesar do conselho da polícia. Dick Stark falou com os hom ens da fortaleza da árvore de Natal e eles disseram que o risco era “m ínim o”, o que tranquilizou Gail Rebuck. Andrew, Gillon e ele tinham m antido a edição em brochura do consórcio em catálogo havia cinco anos j á, de form a que essa m udança de arranj o de arm azenam ento nem devia ter sido notícia. A publicação em brochura tinha sido “norm alizada” em toda a Europa, no Canadá e até nos Estados Unidos, onde a gráfica Owl, da Henry Holt, assum ira a distribuição sem qualquer problem a. Mas algum as m atérias hostis podiam tornar a experiência britânica bem diferente. A Random House e a Divisão Especial trabalharam duro para tranquilizar o Standard e por fim sua m atéria não foi publicada. E n o The Telegraph apareceu um artigo equilibrado, com edido, inteiram ente sensato. O risco dim inuía. No entanto, a Random House instalou scanners de bom bas em sua sala de correspondência e alertou os funcionários. Todos os executivos principais estavam preocupados com a possibilidade de a im prensa provocar um a grande reação islâm ica. Mas para seu grande crédito eles estavam se preparando para reim prim ir e lançar a edição da Vintage. “Tenho certeza de que a pior coisa que podem os fazer é vacilar ou dem orar”, disse Sim on Master. “Se tiverm os um bom fim de sem ana, vam os im prim ir.” Na Rússia, os editores de Os versos satânicos estavam sendo am eaçados por m uçulm anos locais. Isso era alarm ante. Mas, no final das contas, nada aconteceu na Inglaterra e finalm ente a publicação em brochura de Os versos satânicos foi assum ida pela Vintage Books e o trabalho norm al, retom ado. O consórcio estava dissolvido.

Continuar: parte 4 de 4