Joseph Anton: Memórias
8. Sr. Manhã e sr. Tarde
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Ele ligou para Clarissa e ela ligou para a escola. Depois ele telefonou para o abalado Zafar e tentou lhe dar am or e apoio pelo telefone, dizendo todas as coisas de sem pre sobre aprender a lição, tornar-se um m otorista m elhor depois disso, e assim por diante. “A escola inteira j á vai estar sabendo quando eu chegar lá”, disse ele, tristonho. “Uns caras passaram e m e viram .” Arrependido, no fim de sem ana o rapaz escreveu um a linda carta para a senhora cuj a m ureta ele havia derrubado, e por cuj o conserto seu pai, inevitavelm ente, teria de pagar.
O resultado do treino para o vestibular de Zafar chegou e seu rendim ento nessa im portante prelim inar foi m uito ruim . Duas notas C e um D em inglês. Ele disse a Zafar, furioso: “Se não tom ar um a providência im ediatam ente, você não vai para universidade nenhum a. Está indo de m al a pior”.
* * *
A antologia indiana estava pronta. Ele escrevera um a introdução que, sabia, seria questionada na Índia por ser m uito politicam ente incorreta, afirm ando que a literatura m ais interessante de escritores indianos estava sendo feita em inglês. Passara um a noite inteira com Anita e Kiran Desai, perguntando-se se isso era verdade. Elas contaram que vinham procurando um texto contem porâneo em híndi para traduzir para o inglês e não tinham encontrado nada que valesse a pena. Outras pessoas com quem ele falou disseram que, naturalm ente, havia algum as pessoas, Nirm al Verm a, Mahasveta Devi, no sul talvez O. V. Vij ay an e Anantham urthy, m as no geral aquele não era um m om ento rico para a literatura nas bhashas indianas. Então talvez sua opinião fosse válida, ou servisse ao m enos com o estím ulo para o debate, m as ele desconfiava que seria atacado; e foi.
Dois depois que Elizabeth e ele entregaram a antologia, a polícia quase m atou um a pessoa.
Ele estava em seu estúdio trabalhando em O chão que ela pisa quando ouviu um ruído m uito, m uito forte. Desceu a escada correndo e encontrou a equipe de proteção do hall de entrada parecendo chocada e, diga-se de passagem , culpada. Um dos m elhores agentes de proteção do grupo atual, um varapau grisalho e bem falante cham ado Mike Merrill, tinha disparado sua arm a por engano. Estava lim pado a pistola e não notou que havia um a bala no pente. A bala havia atravessado a sala de estar da polícia, aberto um buraco na porta fechada, passado com o um foguete pelo hall de entrada e feito um belo estrago na parede do outro extrem o. Foi pura sorte não haver ninguém ali no m om ento. A faxineira aprovada pela Divisão Especial, Bery l (que ele descobriu que era tam bém am ante de Dick Stark; ele era casado, tam bém , é claro), não estava lá; não era seu dia de trabalho. Elizabeth tinha saído e Zafar estava na escola. Então todo m undo estava seguro. Mas o acidente m udou algum a coisa para ele. E se Elizabeth ou Zafar estivessem passando? Dentro de poucos m eses, um bebê estaria na casa e havia balas voando por ali. Seus am igos o visitavam . Isso poderia ter acontecido a qualquer hora. “Essas arm as”, ele disse em voz alta, “vão ter de sair da m inha casa.”
Mike ficou m ortificado e não parou de se desculpar. Foi afastado da proteção e nunca m ais reapareceu, e isso foi um a perda. Um dos outros novos agentes de proteção, Mark Edwards, disse, num a tentativa de tranquilizá-lo: “Futuram ente, a lim peza e conferência das arm as vão ser realizadas na frente da parede dos fundos da casa, nunca perto de um a porta interna. O que foi feito era contra o regulam ento”. Ah, ele disse, então da próxim a vez vocês vão abrir um buraco na lateral da casa e talvez m atar um dos vizinhos? Não, obrigado. Ele havia sido tão confiante que nunca nem sonhara com um erro desses, m as agora acontecera e sua confiança j am ais seria restaurada. “O sim ples fato é que”, ele disse, “não posso m ais ter hom ens arm ados dentro da m inha casa.” Havia um novo chefão da Scotland Yard no caso, o detetive superintendente Frank Arm strong (que depois viria a ser agente de proteção pessoal de Tony Blair e na época era com issário assistente provisório “encarregado da pasta de operações”, o que queria dizer, essencialm ente, que seria a pessoa no com ando da Polícia Metropolitana). Foi m arcada um a reunião com Arm strong para dentro de um m ês. “Não posso esperar tudo isso”, ele disse à equipe envergonhada. “Quero essa reunião agora.”
Cham ou Rab Connolly, que foi à casa e fez seu relatório oficial. Ele disse a Rab que não desej ava fazer nenhum a reclam ação contra Mike nem contra ninguém , m as que o evento havia criado para ele um novo im perativo. As arm as precisavam sair da casa e tinha de ser im ediatam ente. Rab disse a frase de sem pre sobre o que aconteceria se a casa fosse descoberta, a “operação fardada pesada”, toda a rua fechada ao tráfego e não haveria m ais proteção porque “todo m undo se recusaria a fazê-la”. E disse então: “Se outra pessoa estivesse encarregada no com eço e tivesse tom ado a decisão adequada, você nem precisaria se esconder, e estaria agora num a situação com pletam ente diferente”. Bem , isso o fez sentir-se muito m elhor. Era assim que a polícia falava com ele. Se queria isto, não fariam aquilo. Se quisesse aquilo, endureciam com isto. Ah, e se a coisa toda tivesse sido feita direito desde o com eço, então não estaria dando errado agora, m as, com o estava dando errado, não podiam consertar.
Ele estava em choque. Haviam disparado um a arm a em sua casa. Elizabeth logo estaria de volta. Ele precisava se acalm ar antes que ela chegasse, para poder conversar com ela direito. Não ia aj udar nada se ficassem am bos histéricos. Ele tinha de se controlar.
* * *
Frank Arm strong, um hom em de sobrancelhas grossas e sorriso profissionalm ente alegre, um hom em truculento, acostum ado a m andar, foi até a casa com Rab e Dick Stark.
Ele estava preocupado com algum a coisa. Ronnie Harwood, am igo do sr. Anton, era um velho am igo do secretário do Interior, Michael Howard, e tinha pedido um a reunião para discutir a proteção de Rushdie. “De que se trata?”, Frank Arm strong quis saber. “Creio que se trata de m e perm itir viver com algum a dignidade”, ele respondeu. “E de dizer que precisam os ter um a estratégia para o que acontecerá se esta casa for descoberta. Tem de ser um a decisão política tanto quanto operacional. Preciso que todo m undo focalize essa questão e pense a respeito. É o que venho dizendo à liderança trabalhista e o que Ronnie vai dizer a Michael Howard.”
Tudo era político. Agora que Arm strong vira que ele tinha certa “m usculatura” política, ficou m ais cooperativo, gentil até. A divisão via com sim patia seu pedido de rem over o pessoal arm ado da propriedade, disse ele. Tinha um a proposta a fazer. Se estiver disposto a contratar um agente que esteja para se aposentar da divisão ou um motorista para trabalhar com o senhor, talvez até mesmo um dos agentes que conheceu aqui, talvez possamos nos retirar da casa e permitir que essa pessoa fique encarregada de todos os seus movimentos particulares, e oferecer proteção apenas quando o senhor se deslocar por espaços públicos.
Sim! Ele pensou, de im ediato. Sim, por favor. “Tudo bem ”, disse Arm strong. “Isso nos dá algum a coisa com que trabalhar.”
Ele falou com Frank Bishop. O sussurrante Frank, o grilo querido, o agente de proteção bondoso com quem Elizabeth e ele haviam desenvolvido o relacionam ento m ais próxim o. Frank estava prestes a se aposentar e estava “à altura” do novo trabalho. Dennis “Cavalo”, tam bém a um passo da aposentadoria, podia receber um pagam ento extra com o substituto, para ficar no lugar de Frank quando ele não estivesse bem , ou nos feriados. “Vou ter de conversar com m inha m ulher, claro”, disse Frank, e estava certo.
Frances D’Souza tinha um “chapa no m i6” que lhe disse que os espiões tinham pleno conhecim ento da gravidez de Elizabeth e sabiam que, com o resultado, tinham “no m áxim o três anos para resolver a questão”. A ideia de que seu bebê estava fazendo política o fez sorrir. O m i6, disse o chapa de Frances, vinha apresentando ao Foreign Office provas do alcance do terrorism o iraniano, “dez vezes m ais do que qualquer outro país, que os sauditas, que os nigerianos, qualquer um ”, e o resultado foi que o governo britânico concordou então que não fazia sentido ser bom com o Irã, que o “diálogo crítico” era bobagem e todo investim ento e com ércio com esse país tinha de cessar. Os franceses e os alem ães eram obstáculos, m as o m i6 acreditava que a nova “linha dura” ia “pôr os m ulás de j oelhos em cerca de dois anos”. Acreditarei quando vir com meus olhos, ele pensou.
E sem pre as asas daquele gigantesco pássaro preto, o anj o exterm inador, batendo perto. Andrew ligou para dizer que Allen Ginsberg estava com um câncer inoperável no fígado e tinha um m ês de vida. E notícias ainda piores. Nigella telefonou. John Diam ond estava com câncer na garganta. Os m édicos estavam tentando ser tranquilizadores. Era “curável, com o câncer de pele interno”, com radioterapia. Sete anos antes, tinham tratado Sean Connery, com sucesso. “Me sinto insegura”, Nigella disse, triste.
Inseguro era um a sensação que ele conhecia bem .
Isabel Fonseca tinha falado com Elizabeth e oferecido o lindo j ardim de sua m ãe em East Ham pton, com o deslum brante cam po de lilases rosados, cosm os roxos e brancos no fundo, com o local para o casam ento, e parecia perfeito. Mas poucos dias depois Elizabeth fez o que as pessoas sem pre fazem , leu o diário dele quando ele não estava em casa, descobriu o dia que ele passara em Paris com Caroline Lang e então tiveram a conversa dolorosa que as pessoas sem pre têm e era Elizabeth que agora se sentia arrasada e insegura, e a culpa era dele.
Conversaram durante os dois dias seguintes e lentam ente, com idas e vindas, ela com eçou a superar a questão. “Eu m e sentia tão segura com você”, ela disse, “sentia que nada podia se pôr entre nós dois.” E, num outro m om ento: “Não quero m ais nenhum problem a na nossa relação. Acho que seria a m orte para m im ”. E m ais tarde ainda: “Passou a ser m uito im portante para m im estar casada, porque então você não terá sido infiel”. “Ao nosso casam ento, você quer dizer?” “Isso.”
Ela sonhou com a infidelidade dele e ele sonhou que encontrava Marianne num superm ercado orgânico e lhe pedia que devolvesse suas coisas. “Não vou devolver nunca”, ela dizia e se afastava com seu carrinho.
O choque, a dor, o choro, a raiva vieram em ondas, e depois passaram . Ela estava a apenas um m ês de dar à luz. Decidiu que o futuro era m ais im portante que o passado. Ela o perdoou ou pelo m enos concordou em esquecer.
“O que você disse que sua m ãe tinha em lugar de m em ória, que a aj udava a aguentar seu pai?”
“Olvidória.”
“Preciso disso aí.”
A eleição geral foi convocada e, a não ser por um a pesquisa fraudulenta, os trabalhistas estavam m antendo um a vantagem de 20% sobre os conservadores. Depois de um a longa era tóri m al-hum orada havia um a excitação no ar. Nos últim os dias antes da vitória de Blair, Zafar com eçou os exam es vestibulares, seus pais cruzaram os dedos, e Rab Connolly anunciou que passaria a cuidar da sra. Thatcher e seria substituído por Paul Topper, que parecia inteligente, bom , em penhado e um pouco m enos irascível que Rab. Nesse m eio-tem po, a União Europeia estava se oferecendo para m andar em baixadores de volta ao Irã sem nem se im portar em conseguir a m enor garantia quanto à fatwa. O Irã, sem pre o j ogador m ais cinicam ente hábil, retaliou cham ando de volta seus em baixadores, barrando o enviado alem ão “por enquanto”, só porque sim . Ele afastou seus pensam entos da política e foi à prim eira e m uito anim adora leitura de m esa de seus roteiros de Os filhos da meia-noite na bbc.
Jornalistas xeretavam em torno da história do bebê, m uitos deles convencidos de que a criança j á havia nascido. O Evening Standard telefonou para Martin Am is. “Já foi visitar?” Ele achava ridículo pedirem que m antivesse segredo, m as nessa questão Elizabeth concordava com a polícia. Nesse m eio-tem po, um nom e foi surgindo. “Milan”, com o Kundera, sim , m as tam bém um nom e de etim ologia indiana, do verbo milana, m ixar, m isturar, com binar; portanto, Milan, um a m istura, um a com binação, um a união. Nom e não inadequado para um m enino em quem a Inglaterra e Índia estavam unidas.
Então chegou a época da eleição e ninguém estava pensando no bebê deles. Ele ficou em casa, não podia votar, porque ainda não podia se inscrever sem fornecer um endereço residencial. Leu nos j ornais que até os sem -teto haviam recebido dispensa especial que lhes perm itia preencher suas cédulas; m as para ele não havia dispensa especial. Ele pôs de lado os pensam entos am argos e foi às festas de eleição dos am igos. Melvy n Bragg e Michael Foot estavam fazendo um a festa de novo e dessa vez não haveria nenhum horrível anticlím ax. A advogada Helena Kennedy e seu m arido, o cirurgião Iain Hutchison, estavam dando um a festa tam bém . Os resultados saíram : foi um a grande vitória do “Novo Partido Trabalhista” de Blair. A alegria foi desenfreada. Convidados das festas contavam histórias de estranhos conversando alegrem ente uns com os outros no m etrô — na Inglaterra! — e m otoristas de táxi cantando alto. O céu clareava outra vez. O otim ism o, um a sensação de possibilidades infinitas, renascia. Agora haveria um a m uito necessária reform a da previdência social, e 5 bilhões de libras para o novo conselho de m oradia para aj udar a substituir as m oradias de propriedade pública que haviam sido vendidas para o setor privado durante os anos Thatcher, e a Convenção Europeia de Direitos Hum anos seria finalm ente incorporada à lei britânica. Alguns m eses antes da eleição, num a cerim ônia de entrega de prêm ios artísticos, ele havia desafiado Blair, que, segundo diziam , não se interessava pelas artes, e adm itia ler apenas livros sobre econom ia e biografias de políticos, a reconhecer o valor das artes para a sociedade britânica, a entender que as artes eram “a im aginação nacional”. Blair estava presente à cerim ônia e respondeu que era tarefa do Novo Trabalhism o estim ular a nação com sua im aginação, e nessa noite, à luz da vitória eleitoral, era possível não ver essa resposta com o um a evasão. Essa noite era para celebrar. A realidade podia esperar até o dia seguinte. Anos depois, na noite da eleição de Barack Obam a, ele sentiria a m esm a coisa outra vez.
Dois dias depois, a fatwa com pletou 3 m il dias. Elizabeth estava excepcionalm ente bonita e a data do parto se aproxim ava. O carro de Clarissa foi assaltado e sua pasta, com todos os seus cartões de crédito, foi roubada, j unto com os óculos de sol de Zafar, de que o ladrão evidentem ente tinha gostado. E à noite foram a um a festa da vitória oferecida pelo The Observer a Tony Blair num lugar cham ado Bleeding Heart Cry pt, um a reunião que Will Hutton cham ou de “o beij a-m ão”. Na festa, a nova elite blairiana recebeu-o m uito bem e tratou-o com o am igo — Gordon Brown, Peter Mandelson, Margaret Beckett, as duas Tessas, Blackstone e Jowell. Richard e Ruthie Rogers estavam lá, e Neil e Gleny s Kinnock. Neil puxou-o de lado e cochichou em seu ouvido: “Agora vam os fazer os bundões com parecerem ”. De fato. “Seu” lado estava no poder outra vez. Com o Margaret Thatcher gostava de dizer: Alegrem-se.
A cam inho da festa da vitória, Dick Stark entregou-lhe um a carta de Frank Arm strong, pedindo-lhe que “repensasse” todos os seus planos. Ele não queria que a existência do novo filho fosse divulgada publicam ente, não achava o casam ento um a boa ideia, não queria o nom e de Elizabeth no livro que ela coeditara. Era um aspecto vergonhoso de sua vida os policiais acharem que podiam falar-lhe nesse tom . Ele m andou um a resposta contida para Arm strong. A estratégia da polícia, disse, tinha de ser baseada no que era hum anam ente e decentem ente possível.
Com eteu o erro de ir ao program a Q&A with Riz Khan, na cnn, e as perguntas foram todas hostis. De Teerã perguntaram pela m ilionésim a vez “se ele sabia o que estava fazendo”, e da Suíça um hom em perguntou: “Depois de insultar os britânicos, Thatcher e a rainha, com o você ainda pode viver na Inglaterra?”, e da Arábia Saudita um a m ulher telefonou para dizer: “Ninguém devia prestar atenção nenhum a em você, porque nós todos sabem os quem é Deus”, e perguntar insistentem ente: “Mas o que você ganhou com seu livro? O que você ganhou?”. Ele tentou responder a todas essas perguntas com leveza, com bom hum or. Esse era seu destino, enfrentar a hostilidade com um sorriso.
Seu telefone tocou e um a m ulher do Daily Express disse: “Ouvi dizer que é hora de dar parabéns, que sua parceira está esperando bebê”. O The Sunday Times m andou um fax: “Soubem os que vai ter um bebê! Parabéns! Grande progresso! Claro que não vam os citar o nom e da m ãe nem da criança por razões de segurança, m as (a) com o vai conseguir ser pai?, e (b) terá de haver m ais segurança agora?”. O desej o de Arm strong de m anter o bebê em segredo era um absurdo e ele queria que Elizabeth tam bém não sentisse necessidade de m anter o segredo. Droga, pensou, deviam abrir esse assunto e não geraria tanta história. Quando a im prensa achava que estavam escondendo algum a coisa, só ficava m ais fam inta. No dia seguinte, o Express publicou a m atéria, em bora om itisse o nom e de Elizabeth. Que im porta?, ele pensou. Estava contente de abrir a história e a notícia era perfeitam ente agradável e benfazej a. Um segredo a m enos. Ótimo. Mas Elizabeth zangou-se e o nível de estresse subiu. Eles não entendiam as frases um do outro, enganavam -se com o tom de voz um do outro, brigavam por qualquer coisa. Ele acordou às quatro da m anhã e a encontrou chorando. Ela tem ia pela saúde de Carol. Estava alarm ada de ver seu nom e nos j ornais. Sentia tristeza pela infidelidade dele. Preocupava-se com tudo.
E então, na hora exata, lá estava Helen Ham m ington, cantando a m esm a canção. Se o endereço da casa fosse revelado, o custo da proteção triplicaria, ela disse. “Mas, em últim a análise, e um a vez que é pedido seu, Joe, e contanto que você entenda que é irreversível, estam os preparados para ir em frente com seu plano de renovar a equipe de proteção, e a escolha de Frank Bishop com o seu hom em de confiança foi aprovada.” Essa parte, ao m enos, foi razoavelm ente construtiva. Mas desse ponto em diante as coisas m udaram de rum o, para pior. “Não querem os que o nom e de Elizabeth apareça nessa antologia sua”, ela disse. “Isso, para falar com franqueza, nos horroriza. Ainda dá para m udar? Pode-se apagar?” Ele disse que, se Ham m ington quisesse um escândalo público, esse era o j eito de criar um . “Ela pode ser seguida”, disse Paul Topper, o suj eito novo. “Se m e dissessem que Elizabeth estava vivendo com você, eu conseguiria localizá-lo em um a ou duas sem anas, usando um ou dois hom ens.” Ele tentou m anter a calm a. Ressaltou que, quando a proteção com eçara, ele tinha um a esposa, cuj o nom e era m uito bem conhecido, cuj a foto estivera nas prim eiras páginas de todos os j ornais, e no entanto ela havia entrado e saído livrem ente de seus vários esconderij os e a polícia não tinha achado que isso era um problem a. Então agora ele tinha um a noiva cuj o nom e não era conhecido, cuj a fotografia nunca havia sido publicada. Não era razoável transform á-la num problem a.
Depois, disse m uitas coisas m ais. Disse: “Só estou pedindo que esta fam ília britânica possa viver sua vida e criar seu filho”. E disse tam bém : “Vocês não podem pedir que as pessoas não sej am quem são e não façam o trabalho que fazem . Não podem esperar que Elizabeth não vá assinar seu próprio trabalho e precisam aceitar que nosso filho vai nascer, vai crescer, e ter am igos, e irá à escola; ele terá direito a um a vida possível de ser vivida”.
“Tudo isso”, disse Helen, “está sendo discutido em níveis m uito altos do Ministério dos Negócios Interiores.”
Em 24 de m aio de 1997, Ali Akbar Nateq-Nuri, o “candidato oficial” da eleição presidencial iraniana, foi esm agadoram ente derrotado pelo candidato “m oderado” e “reform ista” Moham m ad Khatam i. Na cnn, m ulheres iranianas j ovens solicitavam liberdade de pensam ento e um futuro m elhor para seus filhos. Será que conseguiriam ? Será que ele conseguiria? Será que os novos políticos do Irã e da Inglaterra finalm ente resolveriam o problem a? Khatam i parecia estar se posicionando com o um a figura ao estilo de Gorbatchev, capaz de prom over um a reform a pelo lado de dentro do sistem a existente. Isso poderia ser inadequado, com o tinham sido a glasnost e a perestroica. Ele achava difícil se anim ar com Khatam i. Tinha havido m uitos falsos alvoreceres.
Na terça feira, 27 de m aio, Elizabeth foi ver seu obstetra, o sr. Sm ith, às quatro da tarde.
Assim que chegou em casa, por volta de seis e quinze, com eçaram contrações m uito rápidas. Ele alertou a equipe de proteção, pegou a sacola que tinha sido preparada e estava pronta no quarto deles havia m ais de um a sem ana e foram levados para a ala Lindo do St. Mary ’s Hospital, em Paddington, onde ficaram num quarto de canto vazio, quarto 407, que era, com o lhes disseram , onde a princesa Diana tivera seus dois bebês. O trabalho de parto progrediu rapidam ente. Elizabeth quis tentar não tom ar nenhum m edicam ento e, com sua determ inação de sem pre, conseguiu, em bora as exigências do parto a deixassem irreconhecivelm ente ranzinza. Entre as contrações, ela m andava que ele m assageasse suas costas, m as no instante em que com eçavam de novo ele não podia nem tocá-la e ela queria que ele sum isse de seu cam po de visão. A certa altura, ela exclam ou com icam ente para a parteira cham ada Eileen: “Seu perfum e m e dá enj oo, é insuportável!”. Muito docem ente, sem reclam ar, Eileen saiu, tom ou banho e trocou de roupa.
Ele olhou o relógio e de repente pensou: Ele vai nascer à meia-noite. Mas o m enino acabou nascendo oito m inutos m ais cedo. Às oito para a m eia-noite, Milan Luca West Rushdie nasceu, com três quilos e quatrocentos gram as, pés e m ãos im ensos e a cabeça coberta de cabelos. O trabalho de parto durara apenas cinco horas e m eia do com eço ao fim . Aquele m enino queria sair e ali estava, escorregadio em cim a da barriga da m ãe, o longo cordão um bilical cinzento enrolado em torno do pescoço e dos om bros. Seu pai tirou a cam isa e segurou-o j unto ao peito.
Bem-vindo, Milan, disse ao filho. Este é o mundo, com toda a sua alegria e horror, e ele espera por você. Seja feliz nele. Boa sorte. Você é nosso novo amor.
Elizabeth telefonou para Carol e ele telefonou para Zafar. No dia seguinte, prim eiro dia da vida de Milan, este recebeu a visita do irm ão, e dos “tios extras” Alan Yentob (que cancelou seu horário na bbc para ir ao hospital) e Martin Am is, que chegou com Isabel, a filha de am bos, Fernanda, e o filho dele, Jacob. Era um dia de sol.
Os agentes da Divisão Especial tam bém ficaram anim ados. “É o nosso prim eiro bebê”, disseram . Ninguém nunca tinha tido filhos quando sob proteção. Era a prim eira “estreia” de Milan: ele era o Bebê do Esquadrão “A”.
Ele estava aj udando Bill Buford a preparar um núm ero especial sobre a Índia para a The New Yorker e m arcaram um a sessão para um a fotografia especial de um grupo de escritores indianos. Ele se viu num estúdio de Islington com Vikram Seth, Vikram Chandra, Anita Desai, KiranDesai, Arundhati Roy, Ardashir Vakil, Rohinton Mistry, Am it Chaudhuri, Am itav Ghosh e Rom esh Gunesekera (ninguém sabia bem por que um escritor do Sri Lanka havia sido incluído, m as tudo bem , Rom esh era um bom suj eito e bom escritor). O fotógrafo era Max Vadukul e não se tratava de um a fotografia fácil de fazer. Com o Bill escreveu depois, Vadukul estava “desesperado por ter de reunir um grupo arisco em seu quadro. O resultado é esclarecedor. Na pilha de fotos [que Vadukul fez] há variações de um tem a de pânico controlado. Há expressões de tim idez, de curiosidade, de tontura”. Ele próprio achou o grupo bastante bem -hum orado no geral, em bora Rohinton Mistry (brandam ente) e Ardu Vakil (m ais estridentem ente) cobraram Am it Chaudhuri pelas posições estereotipadas sobre a com unidade pársi que ele expressara na crítica de um dos livros de Rohinton. Dos onze escritores, Am it foi o único que não com pareceu ao alm oço que houve em seguida, no restaurante Granita, da Upper Street, local do legendário pacto de liderança Blair-Brown. Ele disse a Bill, depois: “Percebi que eu não fazia parte daquele grupo. Não é m inha gente”. Anos depois, num a entrevista com Am itava Kum ar, Arundhati Roy disse que sentira que aquela não era sua gente tam bém . Ela “ria”, disse a Kum ar, quando lem brava desse dia: “Acho que estavam todos um tanto espinhosos com todos. Havia discussões caladas, carrancas e resm ungos. Era um a polidez quebradiça. Todo m undo um pouco incom odado [...]. De qualquer form a, acho que ninguém naquela fotografia sentiu que pertencia de fato ao m esm o ‘grupo’ dos outros”. Ele se lem brava dela bem sim pática e contente de estar lá com os dem ais. Mas talvez fosse um equívoco.
Poucos dias depois da sessão de fotos, ele foi à festa de lançam ento de O deus das pequenas coisas, porque tinha gostado de conhecer a autora e queria aj udá-la a com em orar seu grande m om ento. Encontrou a srta. Roy num hum or m ais gelado. Naquela m anhã, um a crítica a seu livro aparecera na The New Yorker, escrita por John Updike, e era um a resenha m uito positiva, não um a nota dez, m as oito e m eio, talvez. De qualquer form a, um a crítica excelente para um prim eiro rom ance em um a publicação im portante, escrita por um gigante das letras am ericanas. “Você viu?”, ele perguntou a ela. “Deve estar m uito satisfeita.” A srta. Roy encolheu os lindos om bros. “Vi, sim ”, disse ela. “E daí?” Era surpreendente e, de certa form a, im pressionante. Mas: “Não, Arundhati, é m uito bom ”, ele disse. “Um a coisa m aravilhosa aconteceu com você. Seu prim eiro rom ance está obtendo um sucesso m agnífico. Não há nada m elhor que um prim eiro sucesso. Você devia estar contente. Não sej a tão fria.” Ela olhou no fundo dos olhos dele. “Eu sou fria”, disse, e virou as costas.
Depois de um a apresentação efusiva por seu editor, Stuart Proffitt, ela fez um a prolongada e m elancólica leitura, e Robert McCrum , que estava se recuperando alegrem ente de seu infarto, sussurrou: “Nota cinco”. No carro de volta para casa, o agente de proteção Paul Topper disse: “Depois do discurso do editor eu estava pensando em com prar o livro, m as depois da leitura dela pensei: talvez não”.
Elizabeth e Milan voltaram do hospital para casa e Caroline Michel fez um a visita, levando “o outro filho deles”, o exem plar do Vintage Book of Indian Writing (m ais tarde publicado nos Estados Unidos com o Mirrorwork). Fora da bolha da proteção, a notícia do nascim ento de Milan estava correndo. O Evening Standard fez um a m atéria, divulgando o nom e do bebê. A polícia ainda estava m uito preocupada com o aparecim ento do nom e de Elizabeth nos j ornais e trabalhando duro para im pedir isso. De m om ento, o nom e dela não apareceu. Ele foi levado de volta à fortaleza da espionagem onde o sr. Tarde e o sr. Manhã estavam preocupados com Elizabeth e com Milan tam bém . Mas, disseram eles, um a “am eaça específica” fora “dissipada”. Nenhum detalhe m ais. Ele se lem brou do grande punho e esperava que este tivesse feito bem seu trabalho. Isso significava que não precisava m ais se preocupar com o plano de assassinato? “Não foi isso que dissem os”, obj etou o sr. Tarde. “Ainda existem razões m uito fortes para preocupação”, confirm ou o sr. Manhã. Pode me dizer quais são essas razões? “Não”, disse o sr. Tarde. Entendo. O senhor diz não. “Exatam ente”, disse o sr. Manhã. “Mas a am eaça específica de que fom os inform ados na época de sua viagem à Dinam arca”, disse o sr. Tarde, “essa am eaça se frustrou.” Ah, o senhor quer dizer que havia efetivamente uma ameaça específica em Copenhague? “Havia”, disse o sr. Manhã. “Não podíam os perm itir que o senhor contasse à m ídia que sabia.” Diante da escolha entre protegê-lo e proteger a fonte, os espiões tinham escolhido a fonte.
Enquanto isso, o Daily Insult estava preparando m atérias sobre o aum ento dos custos à nação com o nascim ento de Milan. (Não houve aum ento nenhum .) Ele se preparou para bebê rushdie custa um a fortuna aos contribuintes. Mas o que apareceu foi outra coisa: rushdie am eaça bbc. Dizia a reportagem que, ao que tudo indicava, ele estava com prom etendo o proj eto de Os filhos da meia-noite com exigências financeiras absurdam ente altas. As som as m encionadas eram m ais que o dobro do que ele estava recebendo. Ele instruiu os advogados a questionar o Insult e depois de algum as sem anas os chefes cederam e pediram desculpas publicam ente.
Eles foram ao cartório de registro civil de Mary lebone e, assim que registraram o nascim ento e o nom e do m enino, Elizabeth despencou com pletam ente, porque o sobrenom e não era com hífen, não era West-Rushdie, m as apenas Rushdie. Ainda na véspera, ela lhe dissera com o era bonito contar a todo m undo que o nom e do bebê era Milan Rushdie, então ele foi pego com pletam ente de surpresa. Tinham discutido m uitas vezes a questão do sobrenom e e ele achara que haviam concordado m eses antes. Agora, ela dizia que tinha reprim ido os próprios sentim entos porque “você não teria gostado”. Durante o resto do dia ela ficou inconsolável e chateada. O dia seguinte era sexta-feira, 13, e ela ainda estava zangada, arrasada, acusadora. “Que belo trabalho estam os fazendo, ao destruir a grande felicidade que nos foi dada”, ele escreveu em seu diário. Estava abalado e profundam ente perturbado. Um a m ulher tão equilibrada entrar num colapso em ocional tão com pleto sugeria que se tratava de um a coisa m uito m ais séria do que aparentava. Aquela Elizabeth quase histérica não era a m ulher que ele conhecera durante sete anos. Toda a incerteza, m edo e ansiedade acum ulados pareciam estar transbordando de dentro dela. O hífen que faltava era apenas um pretexto que liberava o j eito com o ela de fato se sentia.
Por causa de um nervo pinçado, ela de repente com eçou a sentir m uita dor. Ignorou todos os apelos dele para que procurasse um m édico, até que a dor ficou tão ruim que ela literalm ente não conseguia se m exer. A tensão era tam anha entre os dois que ele disse, m uito duram ente: “É assim que você lida com a dor. Manda todo m undo que quer aj udar calar a boca e sum ir da sua frente”. Ela gritou de volta, furiosa: “Vai criticar o j eito de eu dar à luz?”. Ah, não, não, ele pensou. Não, não devemos fazer isto. Um a séria brecha se abrira entre eles j ustam ente quando deviam estar m ais próxim os do que nunca.
No Dia dos Pais ele recebeu um cartão: um contorno da m ão de Zafar, então com dezoito anos, e dentro um contorno da m ão de Milan, com dezoito dias. Aquilo passou a ser um de seus tesouros. E depois disso Elizabeth e ele fizeram as pazes.
Zafar fez dezoito anos. Ele escreveu em seu diário:
Meu orgulho por esse rapaz é absoluto. Ele se tornou um j ovem bom , honesto, valente. A
doçura essencial com que nasceu, sua delicadeza, sua calm a ainda estão nele, intocadas.
Ele tem um genuíno dom para a vida. Saudou o nascim ento de Milan com elegância e,
aparentem ente, interesse genuíno. E ainda tem os um relacionam ento tão bom que ele m e
confia seus sentim entos particulares — um a intim idade que eu e m eu pai não conseguim os
m anter. Será que ele vai conseguir sua vaga na universidade? O destino está em suas m ãos.
Mas ele ao m enos sabe, sem pre soube, que é profundam ente am ado. Meu filho adulto.
O aniversariante chegou de m anhã e recebeu seu presente de aniversário — um rádio para o carro — e um a carta contando do orgulho de seu pai por sua coragem e elegância. Ele leu e disse, com ovido: “Isto é m uito bom ”.
Ele escreveu e falou, discutiu e brigou. Nada m udou. Bem , o governo m udou. Ele teve um a excelente reunião com Derek Fatchett, agora auxiliar de Robin Cook no Foreign Office, e o clim a era m uito diferente dos dias do velho governo tóri. “Vam os pressionar com força o seu caso”, Fatchett prom eteu, e ele disse que aj udaria na proibição de viagem à Índia, aj udaria com a British Airway s, no geral aj udaria. De repente, ele sentiu que o governo estava do seu lado. Quem podia dizer que diferença isso faria? O novo regim e do Irã não estava em itindo nenhum sinal prom issor. Chegou um a m ensagem de aniversário do novo presidente “m oderado”, Khatam i: “Salm an Rushdie vai m orrer logo”.
Laurie Anderson telefonara, perguntando se ele tinha algum texto sobre fogo. Ela era curadora de um a noite de perform ances destinada a levantar dinheiro para a construção de um hospital infantil para a instituição War Child, e tinha um vídeo incrível sobre fogo que precisava de palavras para acom panhar. Ele editou passagens da parte do “incêndio de Londres” de Os versos satânicos. Laurie havia convencido Brian Eno a gravar vários anéis de som , que ela ia m ixar de um a m esinha na coxia enquanto ele lia. Não havia tem po para ensaiar nada, então ele sim plesm ente entrou no palco e com eçou a ler, com o vídeo do fogo flam ej ando atrás dele e Laurie m ixando a Enom úsica, o som se enchendo e se apagando sem preparação, m as ele deslizou naquelas ondas com o um surfista ou um ousado skatista, sua própria voz subindo e baixando, arriscando. Foi um a das coisas m ais deliciosas que ele j á havia feito. Zafar foi assistir à sua apresentação com um a garota cham ada Melissa, era a prim eira vez que via seu pai ler em público, e depois disse: “Você gaguej ou algum as vezes e se m ovim entou dem ais; distrai a atenção”, m as no geral pareceu gostar.
Jantaram na casa de Antonia Fraser e Harold Pinter, e Harold ficou com Milan no colo por um longo tem po. Por fim devolveu o bebê a Elizabeth e disse: “Quando ele crescer, conte que tio Harold gostou de ficar com ele no colo”.
O chefe da British Airway s, Robert Ay ling, foi falar na escola de Zafar, e Zafar questionou-o sobre a recusa da com panhia aérea em transportar seu pai, criticou-o e censurou-o durante vários m inutos. Depois, quando a British Airway s finalm ente m udou sua política de não transporte, Ay ling contou com o tinha ficado com ovido com a intervenção de Zafar. Foi Zafar quem am oleceu o coração do chefe da linha aérea.
Verão nos Estados Unidos! Assim que Milan atingiu idade suficiente para pegar um avião, ele viaj aram para suas sem anas anuais de liberdade de verão... dessa vez num avião britânico, num voo direto, os três j untos! A Virgin Atlantic havia concordado em transportá-lo, dando-lhe um a rota direta para os Estados Unidos. Bastava de viagens a Oslo, Viena ou Paris para pegar um avião am igo. Caía um tij olo do m uro da prisão.
A casa Grobow foi receptiva, seus am igos todos estavam com eles — Martin e Isabel encontravam -se em East Ham pton, Ian McEwan e Annalena McAfee tinham alugado um a casa em Sag Harbor, m uitas outras pessoas vinham da cidade visitá-los — e eles tinham um bebê novo e planos de casam ento. Era sua inj eção de ânim o anual, o m om ento que lhes dava força para sobreviver o resto do tem po. Havia pássaros nas árvores, gam os na floresta, o m ar era quente e Milan estava com dois m eses, doce, sorridente, com a cara m ais m arota que podia ter. Estava tudo perfeito, a não ser por um a coisa. Quatro dias antes de chegarem , ele soubera por Tristram Powell que o governo indiano se recusara a dar perm issão para que a bbc film asse Os filhos da meia-noite em solo indiano. “É m ais prudente evitar o equívoco”, explicava um a declaração governam ental, “de que endossam os de algum a form a o autor.” Essa declaração cravou-se profundam ente em seu coração. “O produtor, Chris Hall, está a cam inho de Sri Lanka para ver se podem film ar lá”, disse Tristram com sua costum eira delicadeza. “Todo m undo na bbc sente que se investiu tanto na série e os roteiros são tão bons que querem salvar o proj eto.” Mas ele sentiu um a pontada no coração. A Índia, seu grande am or, tinha dito para ele ir se foder porque não queria apoiá-lo de form a algum a. Os filhos da meia-noite, sua carta de am or pela Índia, fora considerado indigno de ser film ado em qualquer ponto daquele país. Nesse verão, ele estaria trabalhando em O chão que ela pisa, um rom ance sobre pessoas sem um senso de lugar, pessoas que sonhavam ir, não ficar. Ele usaria a sensação que o dom inava agora, aflito, desconectado, rej eitado, para alim entar seu livro.
A notícia apareceu na im prensa britânica, m as ele virou as costas a ela. Seus am igos estavam todos à sua volta e ele estava escrevendo um livro, logo estaria casado com a m ulher que am ava havia sete anos. Bill Buford foi ao encontro deles com a nam orada, Mary Johnson, um a anim ada sósia de Betty Boop do Tennessee, e os Wy lie e Martin e Isabel apareceram para um grande churrasco preparado por Bill, que havia se tornado um chef e tanto. Ele levou Elizabeth para um program a pré-cerim ônia de casam ento no Am erican Hotel, em Sag Harbor. O diretor teatral de vanguarda Robert Wilson convidou-o para assistir ao ensaio da nova peça que estava preparando, queria que ele escrevesse um texto para o espetáculo. Ele ouviu Bob explicar a peça durante m ais de m eia hora e teve de adm itir que não tinha entendido nem um a palavra do que o grande hom em havia dito. Robert McCrum foi passar um a noite com eles. Elizabeth falou com o pessoal da Loaves & Fishes, a delicatéssen abusivam ente cara, e encom endou a com ida e a bebida. Ele com prou um terno novo. Zafar telefonou de Londres com um a grande novidade: o resultado de seu exam e vestibular lhe valera um a vaga na universidade de Exeter. Felicidade e planos de casam ento am orteceram o golpe da Índia.
Então, um a segunda recusa indiana. Bill Buford foi convidado para um a grande celebração do quinquagésim o aniversário da independência da Índia no consulado indiano em Manhattan, Nova York, no dia 15 de agosto de 1997. Ele contou ao pessoal do consulado que o sr. Rushdie estava na cidade, m as eles recuaram com o se estivessem diante de um a cascavel. Um a m ulher telefonou para Bill e deu um a explicação gaguej ante: “À luz dos acontecim entos em torno dele... nós sentim os... que não é do interesse... de um evento tão grande... com tanta publicidade... o cônsul-geral não pode... não é de nosso interesse...”. No aniversário de cinquenta anos da Índia, aniversário de Salim Sinai, o criador de Cinderela-Salim não podia ir ao baile. Ele não ia perm itir que seu am or pelo país e por seu povo fosse destruído pela Índia oficial, prom eteu a si m esm o. Mesm o que a Índia oficial nunca m ais perm itisse que ele pisasse na sua Índia natal.
Mais um a vez ele se refugiou na parte boa. Foi à cidade durante alguns dias e com prou para Elizabeth um presente na Tiffany. Deu entrevistas a respeito da antologia Mirrorwork e foi ver David By rne cantar “Psy cho killer” no Roseland. Jantou com Paul Auster e Siri Hustvedt. Paul estava escrevendo e dirigindo um film e cham ado O mistério de Lulu e queria que ele fizesse o papel de um sinistro interrogador que pressionava duram ente Harvey Keitel. (Um interrogador sinistro depois de un médécin assez sinistre de Robbe-Grillet. Estava virando um ator característico?) Zafar foi a seu encontro vindo de Londres e tom aram o m icro-ônibus para Bridgeham pton num calor de 38 graus. Ele voltou para a Little Noy ac Path e encontrou Elizabeth desconfiada, cheia de suspeita. O que ele andara aprontando em Nova York? Com quem havia se encontrado? O m al causado por sua breve infidelidade ainda estava agindo. Ele não soube o que fazer além de dizer que a am ava. Isso o fez tem er pelo casam ento. Mas cinco m inutos depois ela deixou de lado as desconfianças e disse que estava bem .
Ele saiu com Ian McEwan para com prar com ida tailandesa para o j antar. No restaurante, Chinda, a senhora tailandesa, disse: “Sabe quem que senhor parece, senhor parece aquere hom em que escreveu aquere rivro”. É, ele adm itiu, sou eu m esm o. “Ah bom ”, ela disse. “Eu ri o rivro, gostei do rivro, depois senhor escreve otro rivro que eu não reu. Quando terefona senhor pediu carne, nós pensa, tarvez é Biry Joel, m as não, Biry Joel vem terça-feira.” Durante o j antar, Martin falou de ir visitar Saul Bellow. Ele ficou com invej a do am igo por sua proxim idade com o m aior rom ancista am ericano de seu tem po. Mas ele era m ais ele. Ia se casar dentro de quatro dias e ia ser o fim do m undo, ou pelo m enos o fim do m undo segundo Arnold Schwarzenegger. O dia seguinte ao casam ento, 29 de agosto de 1997, aparecia no film e O exterminador do futuro 2 com o a data do “Dia do Juízo Final”, o dia em que as m áquinas, lideradas pelo supercom putador Sky net, provocavam o holocausto nuclear contra a espécie hum ana. Então eles iam se casar no últim o dia da história do m undo conform e o conheciam .
O tem po estava excelente e o cam po de cosm os, brilhante com o o céu. Os am igos se reuniram na propriedade da fam ília de Isabel e ele foi buscar o j uiz. Então form ou-se um círculo com Paul e Siri e a pequena Sophie Auster tam bém , Bill e Mary, Martin e Isabel, m ais os dois m eninos dos Am is, a filha dele, Delilah Seale, a irm ã de Isabel, Quina, Ian e Annalena e os dois m eninos dos McEwan, Andrew, Cam ie e a filha deles, Erica Wy lie, Hitch e Carol com a filha, sua “afilhada secular”, Laura Antonia Blue Hitchens, a m ãe de Isabel, Betty Fonseca, e o m arido desta, Dick Cornuelle, em cuj os j ardins estavam , Milan aninhado nos braços de Siri, Zafar, e Elizabeth com rosas e lírios no cabelo. Houve leituras. Bill leu um soneto de Shakespeare, o de sem pre, e Paul, fora do usual, m as m uito bem pensado, leu “The ivy crown”, a “Coroa de hera”, de William Carlos William s, sobre o am or que vem m ais tarde na vida:
Em nossa idade a imaginação
sobre os tristes fatos
nos alevanta
para que as rosas
se ergam antes dos espinhos.
Claro
amor é cruel
e egoísta
e totalmente obtuso...
ao menos, cego pela luz,
é o amor jovem.
Mas somos mais velhos
eu para amar
e você para ser amada,
temos,
de qualquer jeito,
pela vontade sobrevivido
de conservar a joia preciosa
sempre
na ponta de nossos dedos.
Assim faremos
e assim se fica
além do acidental.
Nessa noite, com em oraram seus sete anos de im provável felicidade, aqueles dois que haviam se encontrado no m eio de um furacão e se apegado um ao outro, não por m edo do tufão, m as pelo prazer no encontro. O sorriso dela tinha ilum inado seus dias e o am or dela suas noites, a coragem dela e seus cuidados tinham lhe dado força e, é claro, com o ele confessou a ela e a todos os am igos no discurso de sua festa de casam ento, ele é que se atirara em cim a dela e não o contrário. (Quando ele cedeu a isso depois de sete anos insistindo no contrário, ela riu alto, de surpresa.) E o m undo não acabou, m as com eçou de novo aquele dia, refeito, renovado, além de qualquer acidente. Somos apenas mortais, disse o poeta, mas ser mortal/ pode desafiar nosso destino.
O negócio do amor é
crueldade, que
por nossa vontade
transformamos
para viver juntos.
E, no dia em que o m undo continuou, Ian e Annalena se casaram tam bém , na prefeitura de East Ham pton. Tinham planej ado um a festa na praia, m as o tem po virou contra eles e todo m undo foi para a Little Noy ac Path, e houve m ais festa de casam ento toda a tarde e a noite. O tem po abriu e eles j ogaram beisebol incom petente, nada am ericano, no cam po atrás da casa, e então ele e Ian voltaram ao Chinda para pegar m ais com ida tailandesa e ele ainda não era Biry Joel.
Os j ornais britânicos logo receberam a notícia de seu casam ento — o pessoal da prefeitura de Ham pton vazou a notícia quase im ediatam ente após a cerim ônia — e todos publicaram , com o nom e com pleto de Elizabeth. Então lá estava ela, visível afinal. Por um m om ento ela ficou seriam ente abalada, depois recobrou o equilíbrio e acostum ou-se com a ideia, à sua m aneira determ inada, sanguínea. Quanto a ele, sentiu-se aliviado. Estava m uito cansado de se esconder.
Nessa noite, depois de um churrasco na praia Gibson, estavam na casa do fotógrafo John Avedon quando David Rieff chegou e contou que tinha havido um acidente de carro em Paris, que a princesa Diana havia sofrido ferim entos graves e seu am ante Dodi al-Fay ed m orrera. Todos os canais de televisão estavam transm itindo a notícia, m as não diziam nada de substancial a respeito da princesa. Mais tarde, quando estavam indo para a cam a, ele disse a Elizabeth: “Se ela estivesse viva eles teriam dito. Se não estão noticiando o estado dela, é porque m orreu”. E de m anhã veio a confirm ação na prim eira página do The New York Times e Elizabeth chorou. A notícia ocupou o dia inteiro. Os paparazzi a persegui-la com suas m otocicletas. O carro indo m uito depressa, o m otorista bêbado chegando a 190 quilôm etros por hora. Essa pobre moça não teve sorte, ele pensou. Seu final infeliz chegou j ustam ente quando um com eço m ais feliz seria possível. Mas m orrer porque não queria que a fotografassem era loucura. Se tivessem parado um m om ento nos degraus do Ritz e deixado os paparazzi fazerem seu trabalho, talvez não fossem perseguidos e não seria preciso correr àquela velocidade louca e m orrer no túnel de concreto, desperdiçando a vida por nada.
Ele se lem brou do grande rom ance de J. G. Ballard Crash,sobre a letal m istura de am or, m orte e autom óveis, e pensou: talvez sej am os todos responsáveis, nossa fom e pela im agem dela a m atou, e no fim , ao m orrer, a últim a coisa que ela viu foram os fálicos focinhos das câm eras apontadas para ela através das j anelas quebradas do carro, clicando, clicando. Pediram que escrevesse algum a coisa sobre o fato para a The New Yorker, ele lhes m andou algo dessa natureza e na Inglaterra o Daily Insult cham ou o artigo de “versão satânica”, de m au gosto, com o se o Insult não estivesse disposto a pagar um a fortuna pelas fotos feitas pelos paparazzi ao persegui-la, com o se o Insult tivesse o bom gosto de não publicar as im agens do desastre.
Milton e Patricia Grobow sabiam de tudo agora; tinham lido sobre o casam ento no j ornal local. Ficaram deliciados, “orgulhosos” e contentes de conservar o arranj o para os anos futuros. Patricia havia sido babá dos filhos de Kennedy, ela disse, estava “acostum ada a ser discreta”. Milton tinha quase oitenta anos e estava m uito frágil. Os Grobow disseram que podiam pensar em vender a casa para os Rushdie.
Poucos dias depois de voltarem a Londres, ele pegou um avião para a Itália, onde foi participar do festival literário de Mântua, m as aparentem ente ninguém havia liberado sua visita com a polícia local, que o isolou em seu hotel e se recusou a perm itir que ele participasse das sessões do evento. Por fim , com m uitos outros escritores com o um a espécie de guarda de honra, ele tentou repetir o truque chileno de sim plesm ente sair andando para a rua, e foi levado à delegacia, detido por várias horas num a “sala de espera”, até o prefeito e o chefe de polícia resolverem evitar o escândalo e deixar que ele fizesse o que tinha ido fazer na cidade. Depois de sem anas de vida com um nos Estados Unidos, essa volta ao nervosism o europeu era desanim adora.