Joseph Anton: Memórias
1. Um pacto faustiano ao contrário
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Ele próprio nascera quando faltavam oito sem anas para o fim do im pério. Lem brava-se da brincadeira do pai: “Salm an nasceu e, oito sem anas depois, os britânicos puseram sebo nas canelas”. O feito de Salim seria m ais expressivo ainda. Os britânicos fugiriam no m om ento exato de seu nascim ento.
Ele tinha nascido na clínica do dr. Shirodkar — o célebre ginecologista V. N. Shirodkar, criador do fam oso “ponto Shirodkar”, ou cirurgia de cerclagem cervical — e agora, em suas páginas, traria o m édico de volta à vida com um novo nom e. A propriedade Westfield — que dava para a Warden Road, agora cham ada Bhulabhai Desai Road, com suas m ansões batizadas com nom es de palácios reais ingleses (Villa Glam is, Villa Sandringham , Balm oral) adquiridas a ingleses de partida — renasceria com o a propriedade Methwold, enquanto sua própria casa, a Villa Windsor, se tornaria a “Villa Buckingham ”. A Cathedral School, fundada “sob os auspícios da Anglo-Scottish Education Society ”, conservaria seu nom e, e os pequenos e grandes incidentes da infância — a perda da ponta de um dedo num a porta, a m orte de um colega de classe durante a aula, Tony Brent cantando “The clouds will soon roll by ”, as “j am sessions” de dom ingo de m anhã em Colaba, o caso Nanavati, um a cause célèbre em que um alto oficial da Marinha m atou o am ante da m ulher e tam bém a baleou, m as não fatalm ente — tam bém estariam ali, transm udados em ficção. As portas da m em ória se abriram e o passado voltou em ondas. Ele tinha um livro que escrever.
Por um m om ento, teve a im pressão de que esse livro poderia ser um sim ples rom ance sobre a infância, m as as im plicações do nascim ento de seu protagonista logo se tornaram claras. Se o reim aginado Salim Sinai e o país recém -nascido eram gêm eos, o livro teria de contar a história de am bos. A história irrom peu em suas páginas, im ensa e íntim a, criativa e destrutiva, e ele entendeu que tam bém essa dim ensão estivera ausente de seu trabalho. Ele era historiador por form ação, e a grande função da história, que era m ostrar com o as pessoas, as com unidades, as nações e as classes sociais eram m oldadas por forças gigantescas, em bora m antivessem , às vezes, o poder de m udar a direção dessas forças, tinha de ser tam bém a função de sua ficção. Com eçou a se sentir m uito em polgado. Havia descoberto um a interseção entre o privado e o público, e construiria seu livro nessa encruzilhada. O político e o pessoal não podiam m ais ficar separados. Esse não era m ais o tem po de Jane Austen, que pôde escrever toda a sua obra durante as guerras napoleônicas sem m encioná-las, e para quem o principal papel dos oficiais do Exército britânico consistia em usar uniform es e exibir-se em festas. Além disso, ele não podia escrever seu livro num frio inglês forsteriano. A Índia não era fria. Era quente. Era quente, superpovoada, vulgar e barulhenta, e precisava de um a linguagem que correspondesse a isso, e ele tentaria achar essa linguagem .
Com preendeu que estava assum indo um proj eto descom unal, e que o risco de fracasso era bem m aior do que a possibilidade de êxito. Deu consigo pensando que isso era bom . Se iria fazer um a últim a tentativa de realizar seu sonho, não queria que fosse com um livrinho seguro, conservador, m ediano. Faria a obra m ais desafiadora, do ponto de vista artístico, que pudesse im aginar, e essa era a obra, esse rom ance sem título, “Sinai”, não, título péssim o, levaria as pessoas a acharem que tratava do conflito no Oriente Médio ou sobre os Dez Mandam entos, “O filho da m eia-noite”, m as teria de ser m ais do que um — não é? —, quantas crianças nasceriam naquela m eia-noite, centenas, talvez m il, ou — isso! —, por que não, m il e um a, portanto, “Children of m idnight”? Não, título fraco, lem brando pedófilos reunidos num Sabá Negro, m as... Midnight’s children? Ótim o!
O adiantam ento para Grimus tinha sido a quantia nababesca de 750 libras, e houvera duas vendas para tradução, na França e em Israel, e, com o isso queria dizer m ais ou m enos 825 libras no banco, ele respirou fundo e propôs a Clarissa abrir m ão de seu bom em prego na Ogilvy para irem j untos à Índia e ficarem por lá o tem po que o dinheiro durasse, viaj ando da m aneira m ais barata possível, para m ergulhar na inesgotável realidade indiana, para que ele pudesse beber a fartar daquela cornucópia de abundância e depois voltar para casa e escrever. “Sim ”, ela concordou de im ediato. Ele a am ava por seu espírito aventureiro, o m esm o espírito que a fizera afastar-se do sr. Leworthy, de Westerham , Kent, aprovado por sua m ãe, e cair nos braços dele. Sim , eles m ergulhariam de cabeça. Ela o apoiara até então, e não deixaria de apoiá-lo agora. Partiram para um a odisseia indiana, hospedando-se em pensões baratas, fazendo viagens de ônibus de 24 horas, com frangos vom itando em seus pés, discutindo com m oradores da cidadezinha de Khaj uraho, que achavam que o fam oso conj unto de tem plos, com suas esculturas tântricas, era obsceno e só para turistas, redescobrindo Bom baim e Delhi, hospedando-se com velhos am igos da fam ília e com pelo m enos um tio incrivelm ente hostil, que se casara de novo, com um a australiana, m ais hostil ainda, que se convertera ao islã e não escondia que queria vê-los pelas costas, e depois, m uito anos depois, m andou-lhe um a carta pedindo dinheiro. Ele descobriu o albergue das viúvas em Benares, e, em Am ritsar, visitou Jallianwala Bagh, cenário do infam e “m assacre” do general Dy er em 1919; e voltou, saturado de Índia, para escrever seu livro.
Cinco anos depois, ele e Clarissa tinham se casado, o filho deles, Zafar, havia nascido, o rom ance estava pronto e encontrara quem o publicasse. Um a indiana levantou-se num a sessão de leitura e disse: “Obrigada, senhor Rushdie, por ter contado a m inha história”, e ele sentiu um nó na garganta. Outra indiana, em outra leitura, disse: “Senhor Rushdie, li seu rom ance, Os filhos da meia-noite. É m uito longo, m as, m esm o assim , eu o li até o fim . E m inha pergunta ao senhor é a seguinte: fundam entalm ente, o que o senhor quis dizer?”. Um j ornalista de Goa lhe disse: “O senhor deu sorte, acabou seu livro prim eiro”, e m ostrou-lhe um capítulo datilografado de um rom ance que ele próprio estava escrevendo, sobre um m enino nascido em Goa naquela m esm a m eia-noite. O The New York Times Book Review disse que o rom ance “lem brava um continente que encontrasse sua voz”, e m uitas das vozes literárias do sul da Ásia, falando na m iríade de línguas do subcontinente, responderam com um retum bante “Ah, é?”. E aconteceram m uitas coisas com as quais ele não ousara sequer sonhar, prêm ios, sucesso de público e, de m odo gral, popularidade. A Índia afeiçoou-se ao livro, reivindicando o autor com o um de seus cidadãos, da m esm a form a com o ele havia esperado recuperar o país, e isso foi um prêm io m aior do que qualquer outro concedido por instituições. Ele havia encontrado, no fundo do poço, a porta que, com palavras m ágicas, levava ao ar fulgente nas alturas. Depois da fatwa de Khom eini, ele voltaria ao fundo do poço e, m ais um a vez, encontraria ali forças para continuar e para ser, m ais plenam ente, ele próprio.
Depois da viagem à Índia, ele voltara à publicidade em tem po parcial, convencendo, prim eiro, a Ogilvy, e, depois, outra agência, a Ay er Barker Hegem ann, a contratá-lo por dois ou três dias por sem ana, deixando-o quatro ou cinco dias livre para escrever o livro que veio a ser Os filhos da meia-noite. Depois que o livro foi publicado, ele decidiu que havia chegado a hora de largar aquele trabalho de um a vez por todas, por m ais lucrativo que fosse. Tinha um filho pequeno, e o dinheiro seria curto, m as era isso o que ele precisava fazer. Pediu a Clarissa sua opinião. “Vam os ter de nos preparar para ser pobres”, disse a ela. “Vam os”, ela respondeu, sem hesitar. “É claro que é isso que você tem de fazer.” O sucesso com ercial do livro, que nenhum dos dois esperara, pareceu-lhes um a recom pensa pela disposição de am bos a esquecer a segurança e saltar para a escuridão financeira.
Quando ele pediu dem issão, seu chefe pensou que ele queria m ais dinheiro. “Não”, ele explicou. “É que vou tentar ser escritor em tem po integral.” Ah, disse o chefe, você quer muito m ais dinheiro. “Não, não é isso”, ele repetiu. “Não se trata de um a negociação. Estou apenas lhe dando o aviso prévio de trinta dias. Daqui a 31 dias, não virei trabalhar.” Hum m , respondeu o chefe, acho que não vou poder lhe pagar tanto assim.
Naquele verão de 1981, 31 dias depois, ele se tornou escritor em tem po integral, e sua sensação de libertação ao sair da agência pela últim a vez foi inebriante e arrebatadora. Abandonava a publicidade com o um a pele não desej ada, em bora continuasse a sentir um furtivo orgulho pelo slogan m ais conhecido que tinha criado, “Perigoso, m as gostoso” (criado para o Cliente do Bolo de Crem e Fresco), e por sua cam panha das “palavras bubble” para o chocolate Aero (irresistibubble, delectabubble, adorabubble, gritavam os outdoors, enquanto cartazetes de loj a proclam avam availabubble here). Ainda naquele ano, quando Os filhos da meia-noite ganhou o Booker Prize, o prim eiro telegram a que ele recebeu — existiam naquele tem po essas com unicações cham adas “telegram as” — foi de seu ex-chefe, perplexo. “Parabéns”, dizia. “Um de nós conseguiu.”
Na noite do Booker Prize, ele cam inhava com Clarissa para o Stationers’ Hall quando deu com a expansiva editora australiano-libanesa Carm en Callil, criadora do selo fem inista Virago. “Salm an”, gritou ela, “m eu querido, você vai ganhar!” Ele im ediatam ente se convenceu de que ela lhe trouxera azar e que agora não ganharia m ais. A lista dos autores indicados era im pressionante. Doris Lessing, Muriel Spark, Ian McEwan... Ele não tinha chance. E havia ainda D. M. Thom as e seu rom ance O hotel branco, saudado por m uitos críticos com o um a obra-prim a. (Isso foi antes que viessem à tona acusações de “citações” excessivas do rom ance Babi Yar, de Anatoli Kuznetsov, que em panaram a reputação do livro, ao m enos aos olhos de algum as pessoas.) Não, ele disse a Clarissa. Esqueça isso.
Muitos anos depois, Joan Bakewell, conhecida apresentadora de program as de arte na tv e integrante da com issão do prêm io, falou-lhe do receio que sentira de que Malcolm Bradbury, presidente do j úri, tentasse persuadir os colegas da com issão a dar o prêm io a O hotel branco. Por isso, ela, a crítica Herm ione Lee e o professor Sam Hy nes, da Universidade de Princeton, fizeram um a reunião prévia antes da últim a sessão de j ulgam ento para prom eter que não se dobrariam a pressões e votariam em Os filhos da meia-noite. Por fim , Bradbury e o quinto j urado, Brian Aldiss, votaram em O hotel branco, e Os filhos da meia-noite levou a m elhor por estreita m argem : três votos a dois.
D. M. Thom as não estava presente à cerim ônia de concessão do prêm io, e sua editora, Victoria Petrie-Hay, ficou tão nervosa com a perspectiva de ter de receber o prêm io em seu nom e que estava bebendo um pouco depressa dem ais. Depois do anúncio, ele topou com ela de novo. Agora j á bastante alta, ela confessou seu alívio por não ter sido obrigada a ler o discurso de Thom as. Tirou o discurso da bolsa, e agitou o envelope no ar por alguns m om entos. “Agora não sei o que fazer com isso”, disse. “Por que não dá para m im ?”, ele perguntou, irônico. “Eu cuido dele.” E ela bebera tanto que fez isso m esm o. Durante m eia hora, ele ficou com o discurso de vitória de Thom as no bolso. Por fim , a consciência falou m ais alto, e ele procurou a editora de pileque para lhe entregar o envelope fechado. “Acho que você deve ficar com isso”, disse.
Ele m ostrou a sua editora, Liz Calder, o belo exem plar encadernado em couro de Os filhos da meia-noite, e abriu-o no ex-libris, que dizia vencedor. Ela estava tão feliz e em ocionada que despej ou um a taça de cham panhe no livro, para “batizá-lo”. As palavras ficaram um pouco m anchadas, e ela exclam ou, envergonhada: “Vej a só o que eu fiz!”. Dias depois, o pessoal do Booker enviou-lhe um ex-libris novo, m as a essa altura o batizado, com a m ancha da vitória, era o que ele queria. Nunca o trocou.
Com eçaram então os anos bons.
Ele teve sete anos bons, m ais do que m uitos escritores conseguem , e, durante os tem pos ruins que se seguiram , sem pre foi grato por aquele período. Dois anos depois de Os filhos da meia-noite, publicou Vergonha, segunda parte do díptico em que exam inava o m undo de suas origens, um a obra concebida, de propósito, para ser o oposto form al de sua antecessora, um a obra que falava, principalm ente, não da Índia, e sim do Paquistão, m ais curta, de tram a m ais densa, escrita em terceira pessoa, e não em prim eira, com um a série de personagens que, um após o outro, ocupavam o centro do palco, em vez de um único narrador-anti-herói dom inante. Além disso, esse não era um livro escrito com am or; os sentim entos dele em relação ao Paquistão eram ferozes, satíricos, pessoais. O Paquistão era o lugar onde um punhado de desonestos governava um a m ultidão de im potentes, onde políticos civis corruptos e generais inescrupulosos aliavam -se, enganavam -se m utuam ente e executavam uns aos outros, fazendo eco à Rom a dos Césares, em que tiranos loucos fornicavam com as irm ãs, nom eavam seus cavalos para o Senado e tocavam lira enquanto sua cidade ardia. Todavia, para o rom ano com um — com o tam bém para o paquistanês com um — o caos hom icida e psicótico no interior do palácio nada m udava. O palácio ainda era o palácio. A classe dom inante continuava a dom inar.
O Paquistão fora o grande erro de seus pais, a asneira que o privara de sua casa. Era fácil para ele ver o próprio Paquistão com o um a asneira histórica tam bém , um país insuficientemente imaginado, concebido com base na ideia ilusória de que um a religião poderia unir povos (punj abis, sindis, bengalis, balúchis, pathans) que a geografia e a história haviam m antido separados durante m uito tem po, um país que nascera com o um a ave m alform ada, “duas Asas sem um Corpo, divididas pela m assa continental de seu m aior inim igo, reunidas por nada m ais que Deus” e cuj a asa oriental m ais tarde se separara. Qual era o som de um a asa batendo? A resposta para essa versão do fam oso koan zen era, sem dúvida, “Paquistão”. Por isso, em Vergonha , seu rom ance sobre o Paquistão (essa definição era um a sim plificação excessiva; havia m uito do Paquistão em Os filhos da meia-noite, e um a boa dose de Índia em Vergonha), o hum or era m ais negro, a política, m ais sangrenta e côm ica. Com o ele dizia a si m esm o, era com o se as calam idades dos palácios dos Doze Césares ou de um a tragédia de Shakespeare fossem representadas por bufões, pessoas indignas de um a grande tragédia — com o se Rei Lear fosse representada por palhaços de circo, tornando-se, ao mesmo tempo, um a tragédia e um a farsa, um a catástrofe circense. O livro avançou sozinho com um a rapidez para ele desusada. Depois de passar cinco anos trabalhando em Os filhos da meia-noite, ele term inara Vergonha em apenas um ano e m eio. Esse rom ance tam bém teve um a ótim a recepção em toda parte, ou quase isso. No próprio Paquistão, com o era de esperar, foi proibido pelo ditador Zia ul-Haq, m odelo básico do personagem “Raza Hy der”. Entretanto, um grande núm ero de exem plares do livro entrou no Paquistão, m uitos dos quais, com o ele soube por am igos paquistaneses, chegaram em m alas diplom áticas de várias em baixadas, cuj o pessoal lia o livro com avidez e o passava adiante.
Anos depois, ele soube até que Vergonha recebera um prêm io no Irã. Fora publicado em pársi sem seu conhecim ento, num a edição pirata sancionada pelo Estado, e escolhido com o o m elhor rom ance traduzido para o pársi naquele ano. Ele, o autor, nunca recebeu o prêm io, nem lhe foi enviada um a notificação form al a respeito. Mas o prêm io fez com que — segundo inform ações oriundas do Irã — Os versos satânicos, um a vez publicado, cinco anos depois, levasse os poucos livreiros iranianos que vendiam livros em inglês a supor que não haveria problem a com esse novo título, visto que o autor j á obtivera a aprovação da teocracia com seu livro anterior. Com isso, exem plares do livro foram im portados e postos à venda na época da publicação, em setem bro de 1988, e perm aneceram disponíveis durante seis m eses, sem despertar oposição algum a, até a fatwa de fevereiro de 1989. Ele nunca pôde com provar se essa história era real, m as esperava que fosse, pois dem onstrava sua crença de que a fúria contra o livro fora criada de cim a para baixo, e não de baixo para cim a.
No entanto, em m eados da década de 1980, a fatwa era um a nuvem inim aginável, escondida além do horizonte longínquo. Nesse m eio-tem po, o sucesso de seus livros teve um efeito benéfico sobre sua personalidade. Ele sentiu que algum a coisa relaxava dentro dele e se tornou m ais feliz, m ais afável, m ais fácil de levar. Estranham ente, porém , nesses tem pos aprazíveis, escritores m ais velhos lhe davam avisos de que dias nada am enos se seguiriam . Angus Wilson, por exem plo, levou-o para alm oçar no Athenaeum Club, algum tem po depois de fazer setenta anos, e, ao ouvir o autor de Anglo-saxon attitudes e de The old men at the zoo falar, saudoso, dos tem pos “em que eu era um escritor da m oda”, ele com preendeu que estava lhe sendo dito, delicadam ente, que os ventos sem pre m udam ; o rapaz ativo e anim ado de ontem é o ancião esquecido e m elancólico de am anhã.
Quando ele viaj ou aos Estados Unidos para o lançam ento da edição am ericana de Os filhos da meia-noite, a fotógrafa Jill Krem entz fez seu retrato, e ele conheceu seu m arido, Kurt Vonnegut. O casal convidou-o a passar um fim de sem ana na casa de Sagaponack, em Long Island. “Você encara com seriedade esse negócio de escrever?”, Vonnegut lhe perguntou, inesperadam ente, enquanto tom avam cervej as ao sol, e quando ele respondeu que sim o autor de Matadouro 5 lhe disse: “Então você deve saber que vai chegar o dia em que não terá um livro que escrever, m as você ainda terá de escrever um livro”.
A cam inho de Sagaponack, ele lera um m aço de críticas fornecidas por seus editores am ericanos, a Knopf. Havia um a recensão incrivelm ente generosa de Anita Desai no The Washington Post. Se ela gostava do livro, ele podia ficar feliz; talvez tivesse m esm o feito um a obra de valor. E havia um a crítica positiva no Chicago Tribune, assinada por Nelson Algren. O homem do braço de ouro, Um passeio pelo lado selvagem... esse Nelson Algren? O am ante de Sim one de Beauvoir, o am igo de Hem ingway ? Foi com o se o passado áureo da literatura tivesse estendido a m ão para ungi-lo. Nelson Algren, ele pensou, em basbacado. Eu achava que ele já tivesse morrido. Ele chegou a Sagaponack m ais cedo do que esperava. Os Vonnegut estavam saindo para a festa de inauguração da casa de um am igo e vizinho... Nelson Algren. Era um a im pressionante coincidência. “Bem ”, disse Kurt, “se ele escreveu sobre seu livro, tenho certeza de que ele gostaria de conhecê-lo. Vou ligar para ele e dizer que você está indo conosco.” Entrou em casa. Daí a pouco, voltou, abalado e pálido. “Nelson acabou de m orrer”, disse. Depois de preparar a casa para sua festa, Algren sofrera um ataque cardíaco fatal. Os prim eiros convidados a chegar encontraram o anfitrião m orto, caído no tapete da sala. Sua crítica a Os filhos da meia-noite foi a últim a coisa que escreveu.
Nelson Algren. Eu achava que ele já tivesse morrido. A m orte de Algren som breou o espírito de Vonnegut. Seus próprios pensam entos tam bém ficaram sérios. A queda súbita e inesperada no tapete esperava todos nós.
O sucesso de crítica de Os filhos da meia-noite nos Estados Unidos pegou a Knopf de surpresa. Ele viaj ara a Nova York por sua própria conta, só para estar lá quando o livro fosse lançado, e nenhum a entrevista tinha sido agendada, nem foi, m esm o depois de terem sido publicadas as excelentes críticas. A tiragem era pequena, houve um a reim pressão e pronto. Entretanto, ele teve a sorte de apertar a m ão, na entrada do escritório na rua 50 Leste, 201, do lendário Alfred A. Knopf, hom em idoso e gentil, com um sobretudo caro e um a boina escura. Conheceu tam bém o diretor editorial da Knopf, Robert Gottlieb, ele próprio um a figura com um a aura de lenda. Foi levado à sala de Gottlieb, decorada com bandeirolas e cartões, enviados pelo seu 50o aniversário, e, depois de conversarem por algum tem po, Gottlieb disse: “Agora que sei que gosto de você, posso lhe dizer que achei que não ia gostar”. Ele ficou chocado. “Por quê?”, perguntou, à procura de palavras. “Não gostou de m eu livro? Quero dizer, o senhor editou m eu livro...” Bob balançou a cabeça. “Não foi por causa de seu livro”, disse. “Mas recentem ente li um livro excelente, de um escritor excelente, e depois disso achei que não seria capaz de gostar de ninguém com antecedentes m uçulm anos.” Essa foi um a declaração m ais espantosa ainda, para dizer o m ínim o. “Qual foi esse livro excelente?”, ele perguntou a Gottlieb, “e quem é esse excelente escritor?” “O livro”, respondeu Bob Gottlieb, “cham a-se Entre os fiéis, e o autor é V. S. Naipaul.” “Esse”, ele disse ao diretor editorial da Knopf, “é um livro que, sem a m enor dúvida, eu quero ler.”
Bob Gottlieb deu a im pressão de não perceber com o suas palavras estavam sendo recebidas e, a bem da j ustiça, m ostrou-se extrem am ente hospitaleiro com relação ao escritor de quem achou que não iria gostar, convidando-o para j antar em sua casa em Turtle Bay, o elegante bairro de Manhattan onde tam bém m oravam Kurt Vonnegut, Stephen Sondheim e Katharine Hepburn. (Pouco tem po antes, a atriz septuagenária aparecera à porta de Gottlieb depois de um a nevasca, com um a pá, e oferecera-se para retirar a neve de seu telhado.) Gottlieb tam bém fazia parte do conselho de adm inistração do New York City Ballet, de George Balanchine, e convidou para um a récita o j ovem rom ancista indiano. Certa vez ele vira o grande am or de Balanchine, Suzanne Farrell, dançar em Londres com a com panhia de balé de Maurice Béj art, depois da briga dela com o coreógrafo russo. “Mas com um a condição, um a só”, disse Gottlieb. “Você tem de esquecer Béj art e adm itir que Balanchine é Deus.”
Quando Gottlieb deixou a Knopf, em 1987, para ocupar o lugar de William Shawn com o editor da revista The New Yorker, as portas dessa m agnífica publicação finalm ente se abriram para perm itir a entrada do autor de Os filhos da meia-noite. Durante o regim e do sr. Shaw, essas portas tinham se m antido aferrolhadas, e Salm an não estava entre aqueles que lam entaram o fim do reinado de 53 anos do célebre editor. Bob Gottlieb passou a publicar na revista trabalhos de ficção e de não ficção, e editou pessoalm ente, com brilho e paixão, seu longo ensaio “Out of Kansas” (1992), um a resposta a O mágico de Oz, que, com o Gottlieb o incentivou a ressaltar, era um a das m ais doces odes à am izade no cinem a.
Durante os anos da fatwa, ele só viu Gottlieb um a vez. Liz Calder e Carm en Callil deram um a festa de aniversário j untas, no Groucho Club, no Soho, e ele pôde estar rapidam ente com elas. Ao cum prim entar Bob, o editor lhe disse, m uito com penetrado: “Estou sem pre defendendo você, Salm an. Sem pre digo às pessoas que, se você soubesse que seu livro iria m atar pessoas, é claro que você não o teria escrito”. Ele contou, bem devagar, até dez. Não ficaria bem bater naquele velho. Melhor seria dar um a desculpa qualquer e se afastar. Fez um gesto de cabeça sem sentido e saiu dali. Não se falaram m ais nos anos seguintes. Ele devia m uito a Bob Gottlieb, m as não conseguia tirar da cabeça essas últim as palavras dele, e sabia que, do m esm o m odo que Gottlieb não percebera o efeito de suas palavras sobre o livro de Naipaul quando se conheceram , tam bém não se dera conta do que havia de errado no que tinha dito nesse últim o encontro deles. Bob acreditava que estava sendo am istoso.
Em 1984, seu casam ento chegou ao fim . Tinham vivido j untos catorze anos, m as, sem notar, aos poucos foram se afastando um do outro. Clarissa queria m orar no cam po, e passaram um verão olhando casas a oeste de Londres, m as por fim ele percebeu que m udar-se para a zona rural o levaria à loucura. Era um a pessoa urbana. Disse isso a Clarissa, que aquiesceu, m as aquilo ficou com o um obstáculo entre eles. Tinham se apaixonado quando am bos eram m uito j ovens, e agora, m ais velhos, m uitas vezes seus interesses não coincidiam . Havia partes de sua vida em Londres que não interessavam m uito a ela. Um a delas era seu trabalho contra o racism o. Fazia m uito tem po que ele estava ligado a um grupo antirracista, o Cam den Com m ittee for Com m unity Relations, cccr, e seu trabalho voluntário com o supervisor de um a equipe se tornara im portante para ele. Esse trabalho lhe m ostrara um a cidade sobre a qual ele antes pouco sabia, a Londres da privação e do preconceito, que depois ele cham aria de “um a cidade visível, m as não vista”. A cidade dos im igrantes estava à plena vista, em Southall e Wem bley, em Brixton e tam bém em Canden, m as naquele tem po seus problem as eram praticam ente ignorados, a não ser durante as breves explosões de violência racial. Essa era um a cegueira eletiva: um a relutância em aceitar a cidade, o m undo, com o realm ente eram . Ele dedicava grande parte de seu tem po livre ao trabalho de relações raciais, e baseou em sua experiência com o cccr um polêm ico especial de televisão cham ado “O novo im pério dentro da Grã-Bretanha”, um a tentativa de m ostrar o crescim ento de um a nova classe m arginalizada de britânicos negros e m ulatos, feito para o quadro Opiniões no Channel Four, e ficou óbvio que ela tam bém não gostou da retórica que ele em pregou naquele especial.
No entanto, o m aior problem a deles era de natureza m ais íntim a. Desde o nascim ento de Zafar, eles, e sobretudo Clarissa, tinham desej ado m ais filhos, e os filhos não tinham vindo. Em vez deles, houvera um a série de abortos. Um deles acontecera antes da concepção e do nascim ento de Zafar, e houve m ais dois depois disso. Ele soube que o problem a era genético. Ele herdara, provavelm ente da fam ília do pai, um a anom alia denom inada “translocação crom ossôm ica recíproca”.
Um crom ossom o é um a sequência de inform ações genéticas, e todas as células hum anas contêm 22 pares dessas sequências, bem com o um 23o par que determ ina o sexo. Em casos raros, um pedaço de inform ação genética se separa de um crom ossom o e se liga a outro. Tem os então dois crom ossom os defeituosos, um com escassez e outro com excesso de inform ação genética. Quando um a criança é concebida, m etade dos crom ossom os do pai, escolhidos ao acaso, com bina-se com m etade dos crom ossom os da m ãe, criando um novo conj unto de pares. Se o pai tem um a translocação crom ossôm ica e ambos os seus crom ossom os defeituosos são selecionados, a criança nasce norm alm ente, m as herda a anom alia. Se nenhum dos crom ossom os defeituosos tiver sido selecionado, a gravidez tam bém será norm al e a criança não herda a anom alia. Entretanto, se só um dos crom ossom os problem áticos tiver sido selecionado, o em brião não se form a e ocorre o aborto.
Para eles, tentar ter um bebê passou a ser um a espécie de roleta biológica. Não tiveram sorte, e o estresse de todos esses abortos, de todas essas esperanças baldadas, havia esgotado a am bos. O relacionam ento físico deles chegou ao fim . Nenhum dos dois suportava a ideia de m ais um a tentativa, seguida de outro fracasso. E talvez fosse hum anam ente im possível para Clarissa deixar de culpá-lo pelo fim de seu sonho de ter um bando de crianças correndo em torno dela e tornando-se o sentido de sua vida. Para ele, era im possível deixar de culpar-se.
Qualquer relacionam ento longo que j á não incluísse sexo provavelm ente estava condenado. Durante treze dos catorze anos que viveram j untos, ele fora absolutam ente fiel a ela, m as no 14o ano o elo de lealdade se rom peu, ou pelo m enos foi erodido, e houve breves infidelidades por ocasião de viagens literárias ao Canadá e à Suécia, e um a infidelidade m ais longa em Londres, com um a velha am iga de Cam bridge que tocava violino. (Clarissa só lhe foi infiel um a vez, m as isso ocorrera havia m uito tem po, em 1973, quando ele ainda estava escrevendo Grimus, e, em bora por algum tem po ela se sentisse tentada a deixá-lo pelo am ante, logo desistiu do outro, e am bos esqueceram o episódio; ou quase esqueceram . O que ele nunca esqueceu foi o nom e, m uito estranho, do rival: Ay lm er Gribble.)
Na época, com o um idiota, ele tinha certeza de que escondera tão bem seus casos que sua m ulher nada sabia, nada suspeitava. Pensando m elhor, assom brou-se de com o pudera ser tão tolo. Claro que ela sabia.
Ele viaj ou sozinho à Austrália, para participar do Festival de Adelaide, e depois acom panhou Bruce Chatwin ao deserto australiano. Estavam num a livraria em Alice Springs quando ele viu um a brochura de Tracks, de Roby n Davidson, um relato da j ornada que ela fizera pelo deserto de Gibson, com cam elos que ela m esm a havia capturado e treinado. Liz Calder, a editora dele na Cape, havia elogiado o livro e a intrépida autora quando de sua publicação, e ele com entara, desdenhoso: “Por que atravessar o deserto a pé, quando se pode fazer isso de Airbus?”. Agora, porém , ele estava vendo os lugares a que o livro se referia, e por isso o com prou e ficou encantado. “Você deve conhecer Roby n quando for a Sy dney ”, disse Bruce. “Vam os ligar. Eu tenho o núm ero dela.” “Claro que tem ”, respondeu ele. As fam osas cadernetas Moleskine de Bruce tinham os telefones de todas as pessoas no planeta que fossem conhecidas por algum a coisa. Se alguém lhe pedisse o núm ero privado da rainha da Inglaterra, que não estava na lista, ele o teria achado num instante.
Roby n, loira, de olhos azuis, angustiada, um a m ulher que não era absolutam ente seu tipo, convidou-o para j antar em sua casinha m inúscula no subúrbio de Annandale, e o raio atingiu a am bos com violência. Quando ela foi buscar o frango assado, encontrou-o ainda frio. Ficara tão perturbada que se esquecera de ligar o forno. O caso de três anos entre eles com eçou na m anhã seguinte, e foi o antípoda de seu relacionam ento longo, calm o e, em geral, feliz com Clarissa. Sentiam -se m uito atraídos um pelo outro, m as em todos os dem ais sentidos eram incom patíveis. Brigavam feio quase todos os dias.
Ela o levou ao interior da Austrália, e ele, o rato urbano, adm irou a capacidade dela para sobreviver nos erm os. Dorm iam sob as estrelas e não foram m ortos por escorpiões, devorados por cangurus ou esm igalhados pela dança da Ancestral do Tem po do Sonho. Aquilo foi um presente extraordinário. Juntos, levaram os cam elos dela de um a “estação” ou fazenda no noroeste da Austrália, perto da baía de Shark Bay (onde ele nadou com golfinhos e viu um a casa toda feita de conchas), para novas acom odações na propriedade de um am igo dela ao sul de Perth. Ele aprendeu duas coisas sobre cam elos. A prim eira era que os cam elos com etem incesto com toda tranquilidade; o m ais novo anim al dessa cáfila era o resultado de um descom plicado acasalam ento entre um m acho e sua m ãe. (O cam elinho recebeu o nom e dele, ou sua versão australianizada. Virou “Selm an Cam elo”.) A segunda é que, quando um cam elo se irrita, seus excrem entos, que norm alm ente consistem em pelotas secas e inócuas, se transform am em um líquido que pode ser arrem essado a considerável distância pelo anim al. Nunca ande atrás de um cam elo furioso. Essas foram lições im portantes.
Roby n m udou-se para a Inglaterra, m as foi im possível m orarem j untos, e no últim o ano eles rom peram o relacionam ento m ais de dez vezes. Dois m eses depois da últim a separação, ele acordou no m eio da noite em sua casa nova, a da St. Peter’s Street, e havia alguém em seu quarto. Ele se pôs de pé, nu. Roby n tinha usado a chave dela para entrar — ele não trocara a fechadura — e insistia em que “tinham de conversar”. Quando ele se recusou a isso e fez m enção de sair do quarto, ela bateu o salto do sapato, com força, em seu pé. Depois disso, um de seus artelhos perdeu toda a sensibilidade. “Se eu fosse m ulher, e você, hom em ”, ele lhe perguntou, “de que cham aria o que você fez?” Isso a fez pensar, e ela foi em bora. Quando ela publicou seu prim eiro e único rom ance, Ancestors, havia nele um am ericano m uito desagradável que se torna o am ante sádico da principal personagem fem inina. Num a entrevista que ela deu ao The Guardian, perguntaram -lhe: “Ele foi baseado em Salm an Rushdie?”, e ela respondeu: “Menos do que na prim eira versão”.
Um rom ance vinha se form ando nele, m as sua natureza precisa lhe fugia. Ele tinha fragm entos de narrativas e personagens, bem com o a certeza obstinada de que, apesar das enorm es diferenças entre esses fragm entos, todos pertenciam ao m esm o livro. A form a e a natureza exatas do livro continuavam obscuras. Seria um livro grande, disso ele sabia, e cobriria um am plo intervalo de espaço e tem po. Um livro de j ornadas. Isso parecia certo. Quando ele acabou de escrever Vergonha, a prim eira parte de seu plano se com pletara. Havia lidado, tanto quanto soubera com o lidar, com os m undos dos quais tinha vindo. Agora, precisava ligar aqueles m undos ao m undo m uito diferente em que ele fizera sua vida. Com eçava a ver que isso, e não a Índia, o Paquistão, a política ou o realism o m ágico, seria seu tem a real, aquele com o qual se preocuparia pelo resto da vida, a grande questão de como o mundo se juntou, não apenas com o o Oriente fluiu para o Ocidente, e o Ocidente para o Oriente, m as com o o passado m oldou o presente, enquanto o presente m udava nossa percepção do passado, e com o o m undo im aginado, o cam po dos sonhos, da arte, da invenção e, sim , da fé, extravasou para o outro lado da fronteira que o separava do m undo cotidiano, “real”, em que os seres hum anos erroneam ente acreditavam viver.
Foi isso o que aconteceu ao planeta que encolhia. As pessoas — as com unidades, as culturas — não m ais viviam em caixinhas, herm éticas e separadas um as das outras. Agora todas as caixinhas se abriam para dentro de todas as dem ais, um hom em num país podia perder o em prego por causa das m aquinações de um especulador cam bial em um país distante, um especulador cuj o nom e ele desconhecia e cuj o rosto nunca veria, e, com o os teóricos da nova ciência do caos nos diziam , um a borboleta que batesse as asas no Brasil podia causar um furacão no Texas. Na prim eira versão de Os filhos da meia-noite, a frase inicial era a seguinte: “A m aior parte do que im porta em nossa vida acontece em nossa ausência”, e, ainda que, por fim , ele a houvesse sepultado em outro ponto do texto, por considerá-la um a abertura dem asiado tolstoiana — e Os filhos da meia-noite podia ser tudo m enos Anna Karenina —, a ideia continuou a atorm entá-lo. Com o narrar as histórias de um m undo desses, um m undo em que o caráter do hom em j á nem sem pre era seu destino, em que a sina desse hom em podia ser determ inada não por suas próprias escolhas, e sim pelas de estranhos, em que a econom ia, ou um a bom ba, podia ser o destino?
Ele estava num avião, voltando de Sy dney para casa, com as em oções a toda, depois dos prim eiros dias atordoantes com Roby n. Pegou um a caderneta preta e, para se controlar, obrigou-se a refletir sobre esse livro sem iform ado. Eis o que ele tinha: um bando de m igrantes, ou, para usar o term o britânico, “im igrantes”, da Índia, do Paquistão e de Bangladesh, através de cuj as histórias pessoais ele podia explorar as agregações e tam bém as desagregações do cá e do lá, do então e do agora, da realidade e dos sonhos. Tinha os rudim entos de um personagem cham ado Salahuddin Cham chawala, ocidentalizado para Saladin Cham cha, que tinha um a relação difícil com o pai e se refugiara no anglofilism o. Gostava do nom e “Cham cha”, devido a seus ecos da infeliz barata m etam orfoseada de Kafka, Gregor Sam sa, e do rapinante de alm as m ortas de Gogol, Tchitchikov. E tam bém por causa do significado do nom e em hindustâni, literalm ente “colher”, m as coloquialm ente “puxa-saco”, “baj ulador”. Cham cha seria o retrato de um hom em erradicado de seu am biente, que fugia do pai e da pátria, da própria indianidade, rum o a um anglofilism o que, na realidade, não o deixava entrar, um ator de m uitas vozes que se saía bem desde que não fosse visto, atuando no rádio e fazendo dublagens na tv; cuj o rosto ainda era, a despeito de toda a sua anglofilia, “da cor errada para seus televisores em cores”.
E, oposto a Cham cha... bem , um anj o caído, talvez.
Em j ulho de 1982, o ator Am itabh Bachchan, o m aior astro do cinem a de Bom baim , sofrera um a lesão no baço quase fatal quando, fazendo um film e em Bangalore, dispensou os dublês em cenas perigosas. Nos m eses seguintes, todos os dias, seu tratam ento deu m anchetes de prim eira página. Multidões esperavam notícias diante do hospital, políticos o visitavam à beira do leito. Enquanto ele lutava pela vida, a nação se m anteve em suspense, e quando ele se recuperou, o efeito foi indescritível. Alguns atores no sul da Índia haviam conquistado um prestígio quase divino por representar deuses em film es com enredos m itológicos. Bachchan se tornara sem idivino m esm o sem a vantagem de um a carreira desse gênero. Mas, e se um ator divinizado, que sofrera um a lesão gravíssim a, houvesse invocado seu deus na hora de agonia sem receber resposta? E se, com o resultado desse aterrador silêncio divino, ele com eçasse a questionar, ou m esm o a perder, a fé que o sustentara até então? Poderia ele, nessa crise da alm a, com eçar a perder o j uízo? E poderia, em sua dem ência, fugir para bem longe, percorrendo a m etade do m undo, esquecendo que quem foge às pressas não consegue esquecer o que deixou para trás?
Que nom e dar a essa estrela cadente? O nom e lhe ocorreu prontam ente, com o se estivesse flutuando a dez quilôm etros de altitude sobre o nível do m ar durante todo esse tem po, à espera de que ele o capturasse. Gibreel. O Anj o Gabriel, “Gibreel Farishta”. Gibreel e Cham cha: o anj o que fora abandonado por deus e o falso inglês que se distanciara do pai. Duas alm as perdidas no continuum desabrigado dos desaloj ados. Eles seriam seus protagonistas. Isso ele sabia.
Se Gibreel era um anj o, seria Cham cha um dem ônio? Ou poderia um anj o se tornar dem oníaco, e um dem ônio tam bém ser dotado de um halo?
As j ornadas m ultiplicaram -se. Havia ali um fragm ento de outro lugar, bem diferente. Em fevereiro de 1983, um hom em cham ado Saiad Willay at Hussein Xá convencera 38 m uçulm anos xiitas, seguidores seus, de que Deus dividiria as águas do m ar da Arábia, a seu pedido, para que pudessem fazer um a peregrinação, pelo leito oceânico, até a cidade sagrada de Karbala, no Iraque. Eles o tinham seguido nas águas e m uitos se afogaram . O aspecto m ais notável do incidente foi que alguns dos sobreviventes haviam afirm ado, a despeito de todas as evidências em contrário, ter testem unhado o m ilagre. Já fazia m ais de um ano que ele refletia sobre esse caso. Ele não queria escrever sobre o Paquistão, nem sobre xiitas, de m odo que em sua im aginação os crentes tornaram -se sunitas e indianos, e o líder deles passou a ser um a m ulher. Ele se lem brava de um a im ensa figueira-de-bengala que vira certa vez no sul da Índia, perto de My sore, um a árvore tão descom unal que em seu interior havia cabanas e poços, além de nuvens de borboletas. Um a vila com eçou a ganhar form a em sua m ente, Titlipur, a Cidade das Borboletas, e a m oça m ística m ovia-se num a nuvem de borboletas. Com o sunitas, ela e seus seguidores queriam ir a Meca, não a Karbala, m as a ideia da divisão das águas ainda estava no cerne dessa história.
Outros fragm entos se precipitaram , m uitos deles sobre a “cidade visível m as não vista”, a Londres dos im igrantes na era Thatcher. Os bairros reais de Southall, na zona oeste de Londres, e Brick Lane, na zona leste, onde m oravam im igrantes asiáticos, fundiram -se com Brixton, ao sul do Tâm isa, para form ar o im aginário bairro de Brickhall, no centro de Londres, onde um a fam ília m uçulm ana, form ada por pais ortodoxos e filhas adolescentes rebeldes, dirigia o Café Shaandaar, sendo esse nom e um a m aldisfarçada urduização do nom e do Brilliant Café, verdadeiro, em Southall. Nesse bairro, a hostilidade inter-racial estava em gestação, e talvez em breve as ruas ficassem em cham as.
E aqui, reinventada, estava Clarissa, que recebeu o nom e richardsoniano de “Pam ela Lovelace”, e eis aqui, tam bém , transform ada de andarilha do deserto em m ontanhista, e de cristã em j udia, um avatar de Roby n cham ado Alleluia Cohen, ou Cone. E aqui, por algum m otivo, estava a avó de Clarissa, May Jewell, um a senhora idosa que m orava à beira da praia em Pevensey Beach, Sussex. Os navios norm andos de 1066, ela contava a quem quisesse ouvir, tinham passado por sua sala; a costa tinha avançado um quilôm etro e m eio m ar adentro em relação à sua posição de nove séculos antes. Vovó May era um a grande contadora das histórias — que contava m uitas vezes, sem pre com as m esm as frases, rituais — de seu passado anglo-argentino, num a estancia cham ada Las Petacas, na com panhia de um vago m arido filatelista, Charles “Don Carlos” Jewell, várias centenas de gauchos, muito bravos e orgulhosos, e um rebanho de gado argentino de prim eira.
Quando os britânicos governavam um a quarta parte do m undo, deixaram sua fria ilhazinha no Norte e se tornaram , nas grandes planícies e sob os im ensos céus da Índia e da África, pessoas m ais glam ourosas, extrovertidas, operísticas — personagens m ais m arcantes — do que era possível ser na velha terrinha. Mas aí a era dos im périos acabou, e eles tiveram de retroceder a suas personalidades insulares m enores, m ais frias, m ais cinzentas. Em sua casinha de torre, sonhando com os pam pas infinitos e com os touros prem iados que vinham , com o unicórnios, descansar a cabeça em seu regaço, Vovó May parecia um a dessas figuras, tornada m ais interessante, m enos estereotipada, porque sua história se desenrolara não nos territórios do Im pério Britânico, m as na Argentina. Ele escreveu um nom e para ela na caderneta: “Rosa Diam ond”.
Agora sobrevoava a Índia, e continuava a fazer anotações. Lem brou-se de ter ouvido um político indiano na tv, falando sobre a prim eira-m inistra britânica, sem conseguir pronunciar o nom e dela direito. “Senhora Tortura”, ele dizia. “Senhora Margaret Tortura.” Isso era inexplicavelm ente engraçado, ainda que — talvez porque — fosse óbvio que Margaret Thatcher não era um a torturadora. Se esse livro fosse um rom ance sobre a Londres da sra. T., talvez houvesse espaço — espaço cômico — para essa variante de seu nom e.
“O ato de m igrar”, ele escreveu, “transform a em crise tudo o que diz respeito à pessoa ou ao grupo m igrante, tudo o que se refere à identidade, à individualidade, à cultura e à fé. Por isso, se esse livro for um rom ance sobre a m igração, deve ser esse ato de questionar. Deve m ostrar a crise que descreve.”
Escreveu: “Com o é que o novo entra no m undo?”.
E escreveu: “Os versos satânicos”.
Talvez houvesse três livros ali, ou sete. Ou nenhum . Na verdade, j á tentara, certa vez, escrever a história de “Rosa Diam ond” com o um roteiro para Walter Donohue, no incipiente Channel Four, m as, depois de escrevê-lo e entregá-lo, perguntou a Walter se este poderia retirá-lo, pois o instinto lhe dizia que precisaria da história para o rom ance, em bora não tivesse ideia de com o a utilizaria. Talvez fosse m elhor usar a “divisão do m ar da Arábia” num outro livro, e o m aterial sobre os versos satânicos tam bém teria m ais força num livro separado.
Por que ele estava tentando m eter tudo o que tinha num m esm o saco? Mais tarde achou, com prazer, que a resposta para essa pergunta lhe ocorrera quando sobrevoava Bom baim . Essas cenas, pensou enquanto passava sobre a cidade em que nascera, são da vida do arcanjo Gabriel. Com o sem pre, seu consciente estava em conflito com o inconsciente, que não parava de lançar anj os e m ilagres em sua racionalidade e de insistir em que ele encontrasse m eios de incorporá-los a sua m aneira de ver as coisas. Certo, um livro sobre anj os e dem ônios, m as talvez fosse difícil distinguir uns dos outros. Anj os podiam com eter atos terríveis a serviço de princípios supostam ente santos, e era possível sentir m uita com paixão por Lúcifer, o anj o rebelde cuj o castigo por se am otinar contra os estupidificantes arpej os absolutistas da m úsica da vontade de Deus foi, com o disse Daniel Defoe, ser “confinado assim à instável condição de vagabundo, sem rum o [...] não possuir m orada certa [...] um lugar em que possa pousar a sola do pé”. Esse Satã desterrado, desabrigado, talvez fosse o padroeiro celestial de todos os exilados, todos os desaloj ados, todos aqueles que foram arrancados de seu lugar e deixados a flutuar, m eio isso, m eio aquilo, privados da sensação reconfortante, definidora, de ter um chão sólido sob os pés. Certo, cenas da vida do arcanj o e do arquidem ônio, nas quais sua sim patia pendia m ais para o lado do diabo, porque, com o disse Blake, referindo-se a Milton, um verdadeiro poeta pertencia ao grupo do diabo.