Joseph Anton: Memórias
1. Um pacto faustiano ao contrário
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O terceiro m edo tam bém logo acabou. A guerra no subcontinente chegou ao fim , e todos os seus entes queridos estavam a salvo. Sua vida universitária com eçou.
Ele fez as coisas de sem pre: ganhou am igos, perdeu a virgindade, aprendeu a j ogar o m isterioso j ogo de palitos de fósforo que aparece em Ano passado em Marienbad, j ogou um a m elancólica partida de croqué com E. M. Forster no dia em que Evely n Waugh m orreu, com preendeu aos poucos o significado da palavra “Vietnã”, ficou m enos conservador e foi eleito para os Footlights, tornou-se um a lam padazinha naquele grupo ofuscante de ilum inados — Clive Jam es, Rob Buckm an, Germ aine Greer — e viu Germ aine fazer seu núm ero da Freira Strip-Teaser, despindo o hábito religioso com gestos m uito pouco eróticos, para revelar, sob ele, um a roupa com pleta de hom em -rã, no palquinho m inúsculo na rua de pedestres Petty Cury , um andar abaixo do escritório da Guarda Verm elha chinesa, onde era vendido o Livrinho Verm elho do presidente Mao. Tam bém cheirou, viu um am igo m orrer por causa de ácido vagabundo no quarto defronte ao seu, viu outro sucum bir a um a lesão cerebral induzida pelo uso de drogas, foi apresentado ao Captain Beefhart e ao Velvet Underground por um terceiro am igo que m orreu pouco depois de se form ar; apreciou m inissaias e blusas transparentes; escreveu durante algum tem po para o j ornal estudantil Varsity até concluir que a folha não precisava de seus serviços; atuou em peças de Brecht, Ionesco e Ben Jonson; e entrou de penetra no Trinity May Ball com o futuro crítico de arte do The Times, para ouvir Françoise Hardy cantar o hino da angústia am orosa j uvenil, “Tous les garçons et les filles”.
Mais tarde, ele falaria com frequência sobre a felicidade de seus anos em Cam bridge e concordou consigo m esm o em esquecer as horas de desesperada solidão, quando chorava sozinho no quarto, em bora a capela do King’s estivesse bem diante de sua j anela, fulgurante de beleza (isso foi no últim o ano, quando ele estava m orando no andar térreo na própria faculdade, num quarto com vista, e que vista! — capela, gram ado, rio, barcos —, um cartão-postal deslum brante). Naquele últim o ano, ele voltara das férias acabrunhado. Isso foi no fim do verão de 1967, o Verão do Am or, quando quem fosse a San Francisco teria de usar flores no cabelo. Ele, infelizm ente, ficara em Londres sem ninguém para am ar. Por acaso, dera consigo no coração do “agito”, na linguagem da época, hospedado num quarto alugado em cim a da butique m ais pra-frente do pedaço, Granny Takes a Trip, na ponta do World’s End da King’s Road. Cy nthia, a m ulher de John Lennon, usava os vestidinhos da butique.
Diziam que Mick Jagger os usava. Tam bém ali havia um a educação a receber. Ele aprendeu a se livrar de todas as gírias antigas. Na Granny, dizia-se “ beautiful” para expressar sim ples aprovação; quando se queria dizer que um a coisa era bonita, dizia-se “really nice”. Ele aprendeu a balançar m uito a cabeça, com um a expressão de sapiência. Para ser blasé, aj udava o fato de ser indiano. “Índia, cara”, as pessoas diziam . “Longe pra burro.” “Isso aí!”, ele respondia, balançando a cabeça. “O m aharishi, cara”, diziam . “Beautiful.” “Ravi Shankar, cara”, ele respondia. Nesse ponto, em geral as pessoas não conheciam m ais indianos para m encionar e ficavam só balançando a cabeça, com um ar beatífico. “Certo, certo”, diziam . “Certo.”
Ele aprendeu um a lição ainda m ais profunda com a m oça que cuidava da loj a, um a presença etérea naquele espaço de elegante penum bra, que recendia a patchuli e onde se ouvia m úsica de sitar, um espaço no qual, depois de algum tem po, ele percebeu um certo fulgor violáceo em que se divisavam certas form as im óveis. Eram , provavelm ente, roupas, provavelm ente à venda. Não gostava de perguntar. A Granny era assustadora. Mas, um dia, j untou coragem e desceu para se apresentar, Oi, estou morando aqui em cima, meu nome é Salman. A m oça se aproxim ou bastante, e com isso ele viu o desdém em seu rosto. Depois, devagar, com o m andava o figurino, ela deu de om bros.
“Cara, a conversa acabou”, disse.
De um lado para outro na King’s Road, desfilavam as m oças m ais bonitas do m undo, ridiculam ente m alvestidas, dando risada, acom panhadas de rapazes em pavonados, tão ridiculam ente bem -vestidos quanto, com paletós longos, cam isas com babados, calças de veludo am assadas e botas de pele de cobra falsa, tam bém dando risada. Ele parecia ser a única pessoa que não sabia o que era ser feliz.
Voltou para Cam bridge sentindo, na idade m adura de vinte anos, que a vida estava passando por ele. (Alguns dos seus colegas tam bém tiveram a depressão do últim o ano. Mesm o Jan Pilkington-Miksa, invariavelm ente anim ado, estava num a prostração de dar pena. No entanto, por sorte se recuperou e disse que tinha resolvido ser diretor de cinem a e pretendia ir para o sul da França assim que se livrasse de Cam bridge, “porque”, disse rindo, “provavelm ente estão precisando de cineastas por lá”.) Ele se refugiou no trabalho, com o tinha feito na Rugby. O intelecto do homem é obrigado a escolher/ A perfeição da vida ou do trabalho, dissera Yeats, e, com o a vida perfeita estava evidentem ente além de seu alcance, era m elhor ele se voltar para o trabalho.
Foi nesse ano que ele tom ou conhecim ento dos versos satânicos. Na Parte ii do exam e para obter distinção em história ele devia escolher três “tem as especiais” de um a am pla lista e concentrar-se neles. Os que escolheu foram os seguintes: a história da Índia durante o período da luta pela independência contra os britânicos, do levante de 1875 até o Dia da Independência, em agosto de 1947; o extraordinário prim eiro século da história dos Estados Unidos, 1776-1877, da Declaração de Independência ao fim do período pós-Guerra de Secessão, cham ado em geral de Restauração; e um terceiro tem a, proposto pela prim eira vez naquele ano, intitulado “Maom é, a ascensão do islã e o califado prim itivo”. Em 1967, poucos estudantes de história em Cam bridge estavam interessados no Profeta do islã — tão poucos, na verdade, que o professor designado para o curso cancelou suas palestras e declinou de orientar os pouquíssim os alunos que haviam escolhido o curso. Era um a form a indireta de dizer que o tem a não estava m ais disponível e que os estudantes deveriam optar por outro. Todos os dem ais alunos realm ente puseram de lado o trabalho sobre Maom é e se dedicaram a outros assuntos. Ele, porém , sentiu crescer em si a velha teim osia. Se o tem a fora proposto, não podia ser cancelado, nem que um único aluno estivesse interessado nele; essa era a regra. Bem , ele estava m esm o interessado. Ele era filho de seu pai, ateu, m as fascinado por deuses e profetas. Era tam bém produto, ao m enos em parte, da arraigada cultura m uçulm ana do sul da Ásia, o herdeiro das riquezas artísticas literárias e arquitetônicas dos m ogóis e de seus predecessores. Estava determ inado a estudar aquele tem a. Só precisava de um historiador disposto a orientá-lo.
Dos três grandes historiadores que eram professores do King’s na época, Christopher Morris era o m ais publicado e o de m aior renom e, especializado no pensam ento político Tudor, na história eclesiástica e no Ilum inism o, enquanto John Saltm arsh era um dos grandes excêntricos da universidade, com um a desgrenhada cabeleira branca, suíças, ceroulas que apareciam abaixo da bainha da calça e sobre os pés m etidos em sandálias, conhecedor sem rival da história do King’s College e de sua capela, com o, de resto, da história da região. Era visto com frequência cam inhando pelas trilhas rurais em torno de Cam bridge com um a m ochila nas costas. Tanto Morris quanto Saltm arsh eram discípulos de sir John Clapham , que fez da história econôm ica um a área de estudos sérios, e am bos adm itiam que o terceiro m em bro da trindade de história do King’s, o m edievalista Arthur Hibbert, era o m ais brilhante de todos, um gênio que, segundo a lenda da faculdade, em seu próprio exam e final de história havia escolhido as questões sobre as quais m enos sabia, para que pudesse com pletar as respostas no tem po dado. Hibbert, estava decidido, era a pessoa m ais indicada para orientá-lo com relação ao tem a; e sem pestanej ar concordou em fazê-lo. “Não sou especialista nesse cam po”, disse, m odestam ente, “m as sei algum a coisa a respeito, de m odo que, se você m e aceitar com o seu orientador, eu m e disponho a orientá-lo.”
A proposta foi aceita com gratidão pelo j ovem e teim oso form ando que estava na sala do professor, bebericando um a taça de xerez. E com isso deu-se um a estranha situação: o tem a especial sobre Maom é, a ascensão do islã e o califado prim itivo nunca tinha sido oferecido antes; no ano acadêm ico de 1967-8, som ente aquele aluno obstinado o escolheu; e no ano seguinte, devido à falta de interesse, deixou de ser oferecido. Para aquele único form ando, o curso era a visão do pai concretizada. Estudava a vida do Profeta e o nascim ento da religião com o eventos dentro da história, de form a analítica, j udiciosa, correta. O curso parecia criado especialm ente para ele.
No com eço do trabalho conj unto, Arthur Hibbert deu-lhe um conselho que ele j am ais esqueceu. “Nunca se deve escrever história”, disse, “antes de ouvir as pessoas falarem .” Ele pensou nisso durante anos, e por fim passou a achar que era um princípio im portante tam bém para quem escreve ficção. Quem não fazia ideia de com o as pessoas falavam não as conhecia direito, e por isso não podia — não devia — contar a história delas. O j eito com o as pessoas falavam , em frases curtas, lacônicas, ou com um palavreado floreado e fluente, revelava m uito sobre elas: seu local de origem , sua classe social, seu tem peram ento — se calm o ou irascível, cordial ou frio, desbocado ou respeitoso, gentil ou rude; e, sob o tem peram ento, sua verdadeira natureza — se intelectual ou sim plória, franca ou dissim ulada e, tam bém , bondosa ou perversa. Se isso fosse tudo quanto ele aprendeu com Arthur, j á teria sido suficiente. Mas ele ganhou m uito m ais do que isso. Aprendeu um m undo. E, naquele m undo, um a religião estava nascendo.
Eram nôm ades que estavam se tornando sedentários. Suas cidades eram novas. Meca não tinha m ais do que algum as gerações. Yathrib, que depois passou a ser cham ada Medina, era um grupo de acam pam entos em torno de um oásis, sem sequer um a m uralha. Ainda não estavam à vontade em sua nova vida urbana, e as m udanças deixavam m uitos deles infelizes.
Um a sociedade nôm ade era conservadora, cheia de regras, valorizava m ais o bem -estar coletivo do que a liberdade pessoal, m as era tam bém inclusiva. O m undo nôm ade era um m atriarcado. Sob o am paro de suas fam ílias am pliadas, até crianças órfãs encontravam proteção, bem com o um a sensação de identidade e participação. Tudo isso estava m udando agora. A cidade era patriarcal, e sua unidade fam iliar preferida era a nuclear. Crescia a m ultidão dos privados de direitos civis, que se tornavam m ais inquietos a cada dia. Meca, porém , prosperava, e os anciãos que a dirigiam gostavam das coisas assim . A herança era agora patrilinear. Tam bém isso agradava às fam ílias governantes.
Junto às portas da cidade erguiam -se tem plos a três deusas, al-Lat, al-Manat e al-Uzza. Deusas aladas, com o aves excelsas. Ou anj os. Sem pre que as caravanas que enriqueciam a cidade passavam por essas portas, de saída ou de volta, paravam num desses tem plos e faziam um a oferenda. Ou, para usarm os a linguagem m oderna, pagavam um tributo. As fam ílias m ais ricas de Meca controlavam os tem plos, e grande parte de sua riqueza vinha dessas “oferendas”. As deusas aladas ocupavam um lugar central na econom ia da nova cidade, da civilização urbana que estava surgindo.
No edifício cham ado Cubo ou Caaba, no centro da cidade, havia ídolos de centenas de deuses. Um a dessas estátuas, de m odo algum a m ais popular, representava um a divindade cham ada al-Lá, ou o deus, da m esm a form a que al-Lat era a deusa. Al-Lá era diferente, pelo fato de não ser especializado — não era um deus da chuva, da riqueza, da guerra ou do am or. Era apenas, vagam ente, um deus de tudo. Talvez essa falta de especialização explicasse sua relativa im popularidade. Quem fazia oferendas a deuses em geral tinha razões específicas, com o a saúde de um a criança, o futuro de um em preendim ento com ercial, um a seca, um a briga, um rom ance. Preferiam deuses que fossem especialistas em seu cam po, e deixavam de lado aquela divindade versátil e nada específica. No entanto, al-Lá estava destinado a se tornar m ais popular do que qualquer outro deus pagão em todos os tem pos.
O hom em que tiraria al-Lá da quase obscuridade e se tornaria seu Profeta, transform ando-o no igual, ou ao m enos no equivalente, do Deus Eu Sou do Velho Testam ento e do Três-em -Um do Novo Testam ento, era Moham ed ibn Abdala, um órfão do em pobrecido clã dos Hashim que m orava na casa do tio. Já adolescente, com eçou a acom panhar esse tio, Abu Talib, em suas viagens com erciais à Síria. Durante essas viagens, com certeza encontrou os prim eiros cristãos que viu, seguidores da seita nestoriana, e ouviu suas histórias, m uitas delas episódios do Velho e do Novo Testam entos adaptados às condições locais. Por exem plo, para os nestorianos, Jesus Cristo nasceu num oásis, debaixo de um a palm eira. Mais tarde, no Corão, o arcanj o Gabriel revelou a Maom é a sura cham ada “Mary am ”, Maria, na qual Jesus nasce num oásis, sob um a palm eira.
Moham ed ibn Abdala cresceu com a reputação de ser um com erciante hábil e honesto, e com 25 anos isso lhe valeu um a proposta de casam ento, feita por um a m ulher m ais velha e m ais rica, Cadidj a, e durante os quinze anos seguintes foi bem -sucedido nos negócios e feliz no casam ento. Entretanto, era claram ente um hom em que precisava de solidão, e durante m uitos anos às vezes passou sem anas a fio vivendo com o erem ita num a caverna do m onte Hira. Quando estava com quarenta anos, o arcanj o Gabriel perturbou seu isolam ento e ordenou-lhe que recitasse. Com o era natural, ele achou que tinha perdido o j uízo e fugiu. Só voltou para ouvir o que o anj o tinha a lhe dizer quando a m ulher e am igos próxim os o convenceram de que poderia valer a pena voltar à m ontanha, por via das dúvidas. Convinha verificar se Deus estava m esm o tentando fazer contato com ele.
Era fácil adm irar o que ocorreu à m edida que o m ercador se transform ava em Mensageiro de Deus; solidarizar-se com ele, que, perseguido, foi obrigado a m udar-se para Medina; acom panhar sua rápida evolução, na com unidade de Yathrib, para legislador respeitado, governante capaz e com petente líder m ilitar. Era fácil tam bém ver que o m undo em que o Corão foi revelado e os fatos na vida do Mensageiro influenciaram diretam ente a revelação. Quando os m uçulm anos m orriam em batalha, o arcanj o logo induzia seus irm ãos a se casarem com suas viúvas, para que as m ulheres enlutadas não se perdessem para a fé, casando-se de novo fora da religião. Quando correu o boato de que sua am ada Aisha se conduzira de m aneira im própria, ao se perder no deserto com um certo Safwan ibn Marwan, o Anj o do Senhor apressou-se a descer para dizer que, na opinião de Deus, a senhora virtuosa havia procedido com toda correção. E, de form a m ais genérica, era evidente que o espírito do Corão, o sistem a de valores por ele endossado, era, essencialm ente, o código em vias de desaparecim ento dos árabes nôm ades, da sociedade m atriarcal, m ais com passiva, que não deixava órfãos desprotegidos; órfãos com o o próprio Moham ed, por exem plo, cuj o sucesso com o m ercador, em seu entender, lhe dava o direito de ocupar um lugar no órgão governante da cidade, e a quem fora negada tal distinção porque não tinha um a fam ília poderosa que lutasse em seu favor.
Eis um paradoxo fascinante: um a teologia em essência conservadora, que lançava um olhar carinhoso para um a cultura que estava desaparecendo, torna-se um a ideia revolucionária porque as pessoas que ela m ais atraía eram aquelas que tinham sido m arginalizadas pela urbanização — os pobres ressentidos e a ralé das ruas. Era por isso, talvez, que a elite de Meca via o islã com o tão am eaçador; por isso, talvez, o novo credo foi perseguido com tanta violência; e por isso um a proposta atraente, com o obj etivo de suborná-lo, pode — atenção, pode — ter sido feita a seu fundador.
Os dados históricos eram incom pletos, m as a m aioria das coletâneas m ais im portantes de hadith, ou tradições, sobre a vida do Profeta — as com piladas por Ibn Ishaq, Waqidi, Ibn Sa’d, Bukhari e Tabari — narra um incidente que m ais tarde ficaria conhecido com o o incidente dos versos satânicos. O Profeta desceu da m ontanha certo dia e recitou a sura (núm ero 53) cham ada an-Najm, a Estrela. Continha as seguintes palavras: “Ouvistes falar de al-Lat, de al-Uzza e de al-Manat, a terceira, a outra? Elas são as aves excelsas, e sua intercessão é m uito de se desej ar”. Em data posterior — teriam se passado dias, sem anas ou m eses? — ele voltou à m ontanha e desceu desconcertado, dizendo que tinha sido ludibriado em sua visita anterior. O Diabo lhe aparecera, disfarçado de arcanj o, e os versos que ele recebera não eram divinos, m as satânicos, e era preciso expurgá-los do Corão sem dem ora. Nessa ocasião, o anj o trouxera novos versos, enviados por Deus, para substituir os versos satânicos no grande livro: “Ouvistes falar de al-Lat e al-Uzza. E da outra, a terceira, Manat. Tais [divindades] não são m ais do que nom es, com que vossos antepassados as denom inaram , e não há nelas verdade algum a. Porventura, teria Deus filhas, enquanto vós tendes filhos? Tal seria um a partilha inj usta”.
E assim extirpou-se da Recitação a contribuição do Diabo. Mas restavam perguntas: por que Maom é de início aceitou a prim eira revelação, a “falsa”, com o verdadeira? E o que aconteceu em Meca no período entre as duas revelações, a satânica e a angélica?
Um a coisa se sabe: Maom é queria ser aceito pela população de Meca. “Ele ansiava”, escreveu Ibn Ishaq, “por um a form a de atraí-los.” E, quando as pessoas souberam que ele aceitara as três deusas aladas, a notícia foi recebida com alegria. “Ficaram contentes e m uito satisfeitas com a m aneira com o ele falara sobre seus deuses”, escreveu Ibn Ishaq, “e diziam ‘Maom é falou sobre nossos deuses de um a m aneira esplêndida’.” E Bukhari declarou: “O Profeta [...] prostrou-se ao recitar an-Najm, e com ele prostraram -se os m uçulm anos, os pagãos, os dj ins e todos os seres hum anos”.
Por que, então, o Profeta depois retratou-se? Alguns autores ocidentais, com o o escocês W. Montgom ery Watt, estudioso do islã, e o m arxista francês Maxim e Rodinson, propuseram um a leitura política do episódio. Os tem plos das três deusas aladas eram im portantes, do ponto de vista econôm ico, para a elite governante local, da qual Maom é estava excluído, em sua opinião inj ustam ente. Por isso, talvez, a “proposta” a ele oferecida teria sido algo m ais ou m enos assim : se Maom é, o arcanj o Gabriel ou Alá concordassem que as deusas-aves podiam ser cultuadas pelos seguidores do islã, não com o pares de Alá, obviam ente, m as com o seres secundários, m enos im portantes, com o, por exem plo, os anj os (e, com o existiam anj os no islã, que m al poderia haver em acrescentar ao panteão m ais três, que j á eram populares e lucrativos em Meca?), a perseguição aos m uçulm anos cessaria, e seria concedida ao próprio Maom é um a cadeira no conselho governante da cidade. E foi a essa tentação, talvez, que o Profeta sucum biu por pouco tem po.
E aí, o que aconteceu? Teriam os aristocratas da cidade descum prido a prom essa, avaliando que, ao flertar com o politeísm o, Maom é se desprestigiara aos olhos de seus seguidores? Porventura os seguidores haviam se recusado a aceitar a revelação sobre as deusas? Teria o próprio Maom é lam entado com prom eter suas ideias ao ceder ao canto de sereia da ascensão social? Não havia com o afirm ar coisa algum a com segurança. A im aginação teria de preencher as lacunas nos dados. No entanto, o próprio Corão falava de com o todos os profetas tinham sido postos à prova no tocante à tentação. “Nunca vos m andam os um só profeta ou apóstolo em cuj os desej os Satanás não procurasse introm eter-se”, diz a sura 22. E, se o incidente dos versos satânicos foi a Tentação de Maom é, cum pria dizer que ele saiu-se m uito bem . Ele tanto confessou ter sido tentado com o repudiou aquela tentação. Assim o cita Tabari: “Forj ei coisas contra Deus e im putei-Lhe palavras que Ele não pronunciou”. Depois disso, o m onoteísm o do islã, tendo sido posto à prova, perm aneceu inflexível e forte, a despeito de perseguições, exílios e guerras, e antes que se passasse m uito tem po o Profeta suplantou seus inim igos e a nova fé se espalhou com o um incêndio por todo o m undo.
“Porventura teria Deus filhas, enquanto vós tendes filhos? Isto seria uma partilha injusta.”
Os versos “reais”, angélicos ou divinos, eram claros: era a fem inilidade das deusas aladas — as “aves excelsas” — que as tornava inferiores, fraudulentas, e isso com provava que não podiam ser filhas de Deus, com o os anj os. Às vezes o nascim ento de um a grande ideia revelava coisas a respeito de seu futuro; a form a com o o novo entra no m undo vaticinava com o ele se com portaria ao ficar velho. À época do surgim ento dessa grande ideia, a fem inilidade era tida com o obstáculo à glorificação.
Boa história, ele pensou ao ler sobre ela. Já então sonhava tornar-se escritor, e arquivou a boa história no fundo do cérebro para posterior consideração. Vinte anos depois, descobriria o quanto a história era boa.
j e suis m arxiste, tendance groucho, dizia o grafite em Paris, naquela prim avera revolucionária. Sem anas depois dos évènements parisienses de m aio de 1968, e poucas noites antes de sua form atura, algum engraçadinho anônim o, quem sabe um m arxista da linha grouchista, decidiu redecorar, em sua ausência, seu quarto burguês e elitista na faculdade, despej ando um balde de m olho e cebolas nas paredes e nos m óveis, para não falar do toca-discos e das roupas. Com aquela antiga tradição de j ustiça e integridade de que as instituições de Cam bridge se orgulhavam , o King’s College num átim o considerou-o o único responsável pela bagunça, ignorou todos os seus protestos em contrário e inform ou-lhe que, a m enos que ele pagasse pelos danos, não poderia se form ar. Essa foi a prim eira, m as infelizm ente não a últim a, ocasião em que ele se veria falsam ente acusado de espalhar suj eira.
Ele pagou e, levado pelo espírito desafiador, foi à cerim ônia com sapatos m arrons. Num abrir e fechar de olhos, foi tirado do cortej o dos form andos, todos usando corretam ente sapatos pretos, sendo-lhe ordenado que os trocasse. Por um a razão m isteriosa, considerava-se que pessoas com sapatos m arrons estavam vestidas de m aneira im própria, e essa era outra regra contra a qual não havia apelação cabível. Mais um a vez ele cedeu, correu para trocar os sapatos, chegou de volta ao cortej o no m om ento exato, e, por fim , quando chegou sua vez, teve de segurar a m ão de um funcionário da universidade pelo dedo m ínim o e segui-lo devagar até onde estava o vice-reitor, num a espécie de trono. Aj oelhou-se aos pés do ancião e estendeu as m ãos num gesto súplice, e pediu em latim o diplom a, pelo qual, não pôde deixar de pensar, trabalhara intensam ente durante três anos, m antido por sua fam ília a um custo substancial. Havia sido aconselhado a erguer as m ãos bem alto sobre a cabeça, para evitar que o idoso vice-reitor, debruçando-se m uito para a frente, não caísse de sua m aj estosa cadeira em cim a dele.
Rem em orando esses incidentes, ele sem pre se espantava com a lem brança de sua passividade, em bora fosse difícil im aginar o que poderia ter feito. Ele poderia ter se negado a pagar pelos danos do m olho a seu quarto, poderia ter se recusado a trocar de sapatos, poderia ter se recusado a se aj oelhar e im plorar que lhe dessem o diplom a. Preferira capitular e pedir o canudo. A lem brança daquela capitulação o tornava m ais obstinado, m enos disposto a fazer concessões, a contem porizar com a inj ustiça, não im portando quão persuasivas fossem as razões. Depois daquilo, toda inj ustiça sem pre evocava a lem brança do m olho. A inj ustiça era um líquido m arrom , grum oso, coagulante, e tinha um cheiro forte de cebola. Inj ustiça era a sensação de correr de volta ao quarto o m ais depressa possível, no últim o m inuto, para trocar os sapatos m arrons proibidos. Era ter de suplicar, de j oelhos, num a língua m orta, por aquilo que lhe pertencia de direito.
Muitos anos depois, ele contou essa história num a cerim ônia de form atura no Bard College. “Esta é a m ensagem que extraí das parábolas do Bom bardeador Desconhecido de Molho, dos Sapatos Vetados e do Vice-Reitor Instável em Seu Trono, e que transm ito a vocês hoj e”, disse à turm a de form andos de 1996 num a tarde de sol em Annandale-on-Hudson, Nova York. “Prim eiro, se, ao longo da vida, algum dia vocês forem acusados do que se poderia cham ar de Ofensa Grave de Molho — e vocês serão, vocês serão —, e na verdade forem inocentes do delito do m olho, não aceitem a punição. Segundo: se pessoas rej eitarem vocês por estarem usando os sapatos errados, não vale a pena serem aceitos por elas. E terceiro: não se aj oelhem diante de hom em algum . Exij am seus direitos.” Os form andos da turm a de 1996 correram para pegar seus diplom as, alguns descalços, outros com flores no cabelo, exultantes, dando socos no ar, dançando, desinibidos. Esse é o espírito, ele pensou. Aquela festa era exatam ente o oposto do form alism o de Cam bridge — e, por isso m esm o, m uito m elhor.
Seus pais não foram à sua form atura. O pai disse que não podiam pagar as passagens de avião. Não era verdade.
Havia, entre seus contem porâneos, rom ancistas cuj a carreira decolou nem bem saíram do ovo, por assim dizer, e eles dispararam céu afora com o aves excelsas — Martin Am is, Ian McEwan. Suas próprias esperanças, porém , não se realizaram de im ediato. Ele m orou durante algum tem po num sótão na Acfold Road, paralela à Wandsworth Bridge Road, num a casa que dividia com a irm ã Sam een e três am igos de Cam bridge. Levantava a escada e fechava o alçapão, e com isso ficava sozinho num m undo triangular de m adeira, fazendo de conta que escrevia. Não tinha ideia do que estava fazendo. Durante m uito tem po, nenhum livro ganhou form a. Nesses prim eiros tem pos, sua desorientação — que, com o ele percebeu depois, era um a desorientação em seu eu profundo, um a perplexidade em relação a quem e o que ele se tornara depois de ter sido tirado de Bom baim — teve um efeito pernicioso em sua personalidade. Mostrava-se com frequência ríspido, provocava discussões acaloradas sobre questões sem im portância. Um a garra feita de tensão o im obilizava, e ele tinha de se esforçar para esconder o m edo. Tudo o que tentava fazer saía m al. Para fugir à inanidade do sótão, passou a integrar grupos de teatro periféricos — “Sidewalk”, “Zatch” — na Oval House, em Kennington. Meteu-se num vestido negro longo, pôs um a peruca loira, m antendo o bigode, para fazer um consultor sentim ental num a peça de outro form ando de Cam bridge, Dusty Hughes. Fez parte do elenco de um a rem ontagem britânica de Viet Rock, o espetáculo de agitprop anti-Vietnã criado em Nova York pelo grupo La MaMa. Essas atuações nada tinham de inspiradoras e, para piorar as coisas, ele se achava sem dinheiro. Um ano depois de form ar-se em Cam bridge, estava recebendo auxílio-desem prego. “Que vou dizer aos am igos?” Anis Rushdie tinha chorado quando ele anunciou suas pretensões literárias, e, esperando na fila do benefício da previdência, o filho de Anis com eçou a entender o pai. Na casa da Acfold Road reinava m uito sofrim ento j ovem . Sam een teve um nam oro que não deu em nada com um dos am igos dele da faculdade, Stephen Brandon, e, quando term inaram , ela deixou a casa e voltou para Bom baim . Um a m oça cham ada Fiona Arden veio ocupar seu lugar, e um a noite ele a encontrou ao pé da escada, m eio inconsciente depois de engolir um vidro de soníferos. Ela agarrou seu punho e não o soltou m ais, e ele a acom panhou na am bulância até o hospital, onde esvaziaram seu estôm ago e salvaram -lhe a vida. Depois disso, ele se m udou do sótão e passou uns tem pos de vaga em vaga, por Chelsea e Earls Court. Quarenta anos depois, soube de Fiona de novo. Agora era baronesa, fazia parte da Câm ara dos Lordes e havia conquistado enorm e destaque no m undo dos negócios. A j uventude com frequência era sofrida, o esforço para se afirm ar no m undo despedaçava os j ovens, m as às vezes, depois da luta, vinham dias m elhores.
Não m uito tem po depois que ele saiu da Acfold Road, um rapaz inglês desequilibrado pôs fogo na casa.
Dusty Hughes arranj ou um em prego de redator de publicidade na agência J. Walter Thom pson, em Berkeley Square. De repente, tinha um salário decente e fazia com erciais de xam pu com lindas m odelos loiras. “Você devia fazer isso”, disse-lhe Dusty. “É fácil.” Ele fez o “teste de redação” da J. Walter Thom pson no escritório da agência, em condições de exam e final. Escreveu um anúncio para os chocolates After Eight, um j ingle para prom over o uso de cintos de segurança com a m úsica “No particular place to go”, de Chuck Berry, e tentou, com o lhe foi solicitado, explicar a um visitante de Marte, em m enos de cem palavras, o que era pão e com o fazer um a torrada; e não foi aprovado. Na opinião do poderoso j wt, ele não tinha a aptidão necessária para ser redator de publicidade. Por fim , arranj ou em prego num a agência m enor, m enos fam osa, cham ada Sharp MacManus, na Albem arle Street, e sua vida de trabalho com eçou. No prim eiro dia, pediram -lhe que escrevesse um anúncio de charutos em balados com o brindes de Natal para um a revista de cupons de desconto. Deu-lhe um branco. Por fim , o am ável “diretor de criação” da agência, Oliver Knox, que m ais tarde se tornaria um elogiado rom ancista, debruçou-se sobre seu om bro e m urm urou: “Cinco ideias geniais da Players para aj udar o Natal a abafar”. Ah, pensou, sentindo-se tolo, então é assim.
Ele dividia sua sala na Sharps com um a beldade m orena, Fay Coventry, que estava saindo com Tom Maschler, dono da editora Jonathan Cape. Todas as segundas-feiras, ela lhe contava histórias sobre seus fins de sem ana com am igos divertidos, “Arnold” (Wesker), “Harold” (Pinter) e “John” (Fowles). Com o eram deliciosas essas histórias, com o eles se divertiam ! Invej a, ressentim ento, saudade e desespero se am ontoavam , aos tram bolhões, no coração do j ovem redator. Ali estava ele, com o m undo da literatura tão próxim o, tão horrivelm ente distante. Quando Fay deixou a agência para se casar com Maschler e, m ais tarde, tornar-se um a respeitada crítica de restaurantes, ele se sentiu quase aliviado pelo fato de o m undo literário, do qual ela lhe dera vislum bres tão fascinantes, ter se distanciado de novo.
Ele havia se form ado na universidade em j unho de 1968. Os filhos da meia-noite foi publicado em abril de 1981. Ele levou quase treze anos só para com eçar. Durante esse período, escreveu m ontanhas inacreditáveis de lixo. Houve um rom ance, The book of the peer [O livro do pir], que poderia ter sido bom se ele tivesse sabido escrevê-lo. Era a história de um hom em santo, um pir, num país com o o Paquistão, que era usado por três outros hom ens — um líder m ilitar, um líder político e um capitalista — para encabeçar um golpe, depois do qual, acreditavam , ele seria o governante protocolar, enquanto eles exerciam o poder. Entretanto, ele se m ostrava m uito m ais com petente e cruel do que seus patrocinadores, e estes percebiam que tinham criado um m onstro que não eram capazes de controlar. Isso foi m uitos anos antes que o aiatolá Khom eini devorasse a revolução da qual ele deveria ser um a autoridade fantoche. Se o rom ance tivesse sido escrito de form a sim ples, com o um livro de suspense político, poderia ter dado certo. Em vez disso, a história era narrada em vários “fluxos de consciência” de diferentes personagens, e ficou m eio incom preensível. Ninguém gostou do resultado. Não chegou nem perto de publicação. Foi um natim orto.
Coisas piores estavam por vir. A bbc anunciou um concurso para revelar um novo autor de teleteatro, e ele se inscreveu com um a peça em que dois crim inosos, crucificados com Cristo, conversam entre si antes que o grande hom em chegasse ao Gólgota, à m aneira de Didi e Gogo, os vagabundos de Beckett. A peça intitulava-se, naturalm ente, “Crosstalk” [Conversa cruzada]. Era boba dem ais. Não venceu o concurso. Depois disso, veio outro texto com extensão de rom ance, “O antagonista”, que ele nunca m ostrou a ninguém . O trabalho na publicidade o m antinha. Não se atrevia a dizer que era rom ancista. Era um redator de publicidade que, com o todos os dem ais, sonhava ser, um dia, um escritor “de verdade”. Sabia, porém , que isso ainda estava distante da realidade.
Era curioso que um a pessoa tão ateia insistisse em escrever sobre fé. Ele se tornara um descrente, m as o tem a continuava a lhe espicaçar a im aginação. As estruturas e as m etáforas da religião (do hinduísm o e do cristianism o, tanto quanto do islã) m oldavam sua m ente irreligiosa, e as preocupações dessas religiões com as grandes interrogações da existência — De onde viem os? E, j á que estam os aqui, com o devem os viver? — eram tam bém as dele, ainda que chegasse a conclusões que não requeriam a aprovação de um árbitro divino ou a sanção e a interpretação de um clérigo terreno. O prim eiro rom ance de sua carreira, Grimus, foi publicado por Liz Calder na Victor Gollancz, antes que ele passasse para a Cape. Baseava-se na Mantiq ut-Tair, ou A conferência dos pássaros, um m ístico poem a narrativo do John Buny an do islã no século xii, o m uçulm ano sufista Farid ud-din Attar, que nasceu em Nishapur, no atual Irã, quatro dias depois da m orte do filho m ais fam oso daquele lugar, Om ar Khay y am . No poem a — um a espécie de O peregrino do islã —, um a poupa conduz trinta aves num a j ornada através de sete vales de labutas e revelações, rum o à m ontanha circular de Qâf, m orada de seu deus, Sim urg. Chegando ao cum e da m ontanha, não encontram ali nenhum deus, e lhes explicam que o nom e Simurg, decom posto em suas sílabas, si e murg, significa “trinta aves”. Tendo superado as dificuldades da busca, elas se tornam o deus que procuram .
“Grim us” era um anagram a de “Sim urg”. Em sua recriação do conto de Attar na linha da fantasia científica, um índio am ericano, Águia Adej ante, um nom e sabidam ente pobre, procura a m isteriosa ilha do Bezerro. O rom ance foi recebido, de m odo geral, com notas indiferentes na im prensa, algum as quase desdenhosas, e essa acolhida o abalou profundam ente. Lutando contra o desespero, ele escreveu rapidam ente um breve texto satírico, um a novela, no qual a carreira da prim eira-m inistra da Índia, a sra. Indira Gandhi, era transposta para o m undo da indústria cinem atográfica de Bom baim . (A sátira de Philip Roth sobre Richard M. Nixon, Our gang, foi um m odelo distante.) A vulgaridade do livro — em certo m om ento, nasce na protagonista, um a estrela de cinem a poderosa, o pênis do pai j á falecido — fez com que ele fosse rej eitado tão depressa quanto fora escrito. Isso foi o fundo do poço.
O sexto vale pelo qual as trinta aves passavam no poem a de Attar era o local da perplexidade, no qual elas se davam conta de que não sabiam nem entendiam nada, e m ergulhavam na desesperança e na aflição. O sétim o era o vale da m orte. O j ovem redator de publicidade e rom ancista manqué sentia-se, em m eados da década de 1970, com o a 31a ave sem esperança.
Apesar de sua fam a com o grande inim iga dos talentos, a publicidade em si, de m odo geral, foi boa para ele. Ele agora estava trabalhando num a agência m aior, a Ogilvy & Mather, cuj o fundador, David Ogilvy, era o autor do fam oso conselho aos redatores: “A consum idora não é um a im becil; ela é a sua m ulher”. Houve alguns tropeços, com o a ocasião em que um a em presa aérea am ericana se recusou a perm itir que ele incluísse aerom oças negras em seus anúncios, em bora as m oças em questão fossem funcionárias da em presa. “O que diria o sindicato, se soubesse?”, ele perguntou, e o Cliente Em presa Aérea respondeu: “Bem , não vam os dizer a eles, você vai?”. E houve a vez em que ele se recusou a trabalhar num anúncio da Carne Bovina Enlatada Cam pbell’s, porque era fabricada na África do Sul, e o Partido do Congresso Nacional Africano apelara por um boicote a tais produtos. Ele poderia ter sido dem itido, m as o Cliente da Carne Enlatada não insistiu e nada aconteceu. No m undo da publicidade na década de 1970, os dissidentes e excêntricos nunca eram dem itidos. Só recebiam bilhete azul os trabalhadores dedicados que faziam o possível e o im possível para não perder o em prego. Se você agisse com o se não ligasse a m ínim a, chegasse tarde e fizesse horários de alm oço longos, com m uito álcool, recebia prom oções e aum entos de salário, e os deuses sorriam para sua excentricidade criativa, pelo m enos enquanto, de m odo geral, você cum prisse suas tarefas.
E durante a m aior parte do tem po ele trabalhou com pessoas que gostavam dele e o apoiavam , pessoas talentosas, m uitas das quais usavam a publicidade tal com o ele, com o um tram polim para coisas m elhores, com o fonte de dinheiro fácil. Fez um com ercial para a Fita Mágica Scotch, estrelado por John Cleese, que dem onstrava os m éritos de um a fita adesiva que desaparecia ao contato (“E aqui você a vê, sem ser vista; ao contrário desta fita com um , que, com o você vê, você vê”), e outro para a tintura de cabelos grisalhos Loving Care, da Clairol, que foi dirigido por Nicolas Roeg, o fam oso diretor de Performance e Don’t look now. Durante quase seis m eses, por ocasião das sem anas de três dias na Grã-Bretanha em 1974, devido à greve dos m ineiros de carvão, quando havia cortes de luz diários e m uito caos nos estúdios de gravação e dublagem da Wardour Street, ele fez três com erciais por sem ana para o Daily Mirror, e, apesar dos m uitos problem as, absolutam ente todos foram ao ar a tem po. Depois disso, a produção de film es não o assustou m ais. A publicidade tam bém o pôs em contato com os Estados Unidos, enviando-o num a viagem de um lado a outro do país, para que ele pudesse fazer textos de anúncios para o Serviço de Turism o dos Estados Unidos, com fotos do lendário Elliot Erwitt. De cabelo com prido e bigode, ele chegou ao aeroporto de San Francisco, onde um enorm e cartaz dizia: m ais alguns m inutos na alfândega são um preço baixo para proteger seus filhos da am eaça das drogas. Um am ericano com j eitão de operário braçal estava lendo o cartaz, aprovando-o. A seguir, com um a m udança de opinião radical e sem nenhum a consciência visível das contradições internas de sua posição, virou-se para o visitante de cabelo com prido e bigodudo — que, cum pre adm itir, tinha um ar suspeito, com o se pretendesse ir diretam ente para Haight-Ashbury, a capital m undial da “contracultura” do sexo, das drogas e do rock‘n’roll — e disse: “Meu chapa, estou com pena de você, porque, m esm o que você estej a lim po, eles vão achar algum a coisa”. Entretanto, nenhum a droga foi plantada em sua m ala, e o j ovem redator de publicidade teve perm issão de ingressar no reino m ágico. E, quando enfim chegou a Nova York, foi incentivado, em sua prim eira noite na cidade, a vestir aquele uniform e estranhíssim o, terno e gravata, para ser levado por am igos ao bar do Windows on the World, no últim o andar do World Trade Center. Essa foi sua prim eira e inesquecível im agem da cidade: aqueles edifícios gigantescos que pareciam dizer Estamos aqui para sempre.
Ele próprio se sentia dolorosam ente tem porário. Sua vida dom éstica com Clarissa era feliz, e isso acalm ava um pouco a tem pestade dentro dele, enquanto outro j ovem talvez se sentisse feliz por estar indo bem no trabalho. No entanto, os problem as de sua vida interior, seus repetidos fracassos de ser, ou de se tornar, um escritor decente, publicável, de ficção, dom inavam seus pensam entos. Resolveu pôr de lado as m uitas críticas que outras pessoas tinham feito a seu trabalho e fazer sua própria crítica. Ele j á estava com eçando a entender que o que havia de errado em sua literatura era que havia nele próprio algum a coisa de errado, algum a coisa incom preendida. Se não tinha se tornado o escritor que j ulgava poder ser, era porque não sabia quem ele era. E aos poucos, a partir de seu ignom inioso lugar no fundo do barril literário, ele com eçou a com preender quem poderia ser essa pessoa.
Ele era um m igrante. Um a das pessoas que tinham acabado num lugar diferente daquele em que tinham com eçado. A m igração destruía todas as raízes tradicionais do ego. O ego com raízes florescia num lugar que conhecia bem , entre pessoas que tam bém o conheciam bem , seguindo costum es e tradições com as quais ele e sua com unidade estavam fam iliarizadas, e falando sua própria língua entre outras pessoas que faziam o m esm o. Dessas quatro raízes — lugar, com unidade, cultura e língua —, ele havia perdido três. Sua am ada Bom baim não lhe era m ais acessível; na velhice, os pais tinham vendido a casa de sua infância, sem explicação, e partido m isteriosam ente para Karachi, no Paquistão. Eles não gostavam de m orar em Karachi, e por que haveriam de gostar? Karachi estava para Bom baim com o Duluth para Nova York. As razões da m udança tam bém não pareciam reais. Com o m uçulm anos, diziam , sentiam -se cada vez m ais estrangeiros na Índia. Queriam , segundo eles, achar bons m aridos m uçulm anos para as filhas. Isso era surpreendente. Depois de toda um a vida de feliz irreligiosidade, lançavam m ão de explicações religiosas. Ele não acreditou, nem por um instante, no que os pais diziam . Estava convencido de que devia haver problem as de negócios, ou de im postos, ou outros problem as do m undo real que os tinham levado a vender a casa de que tanto gostavam e abandonar a cidade que am avam . Algum a coisa estava errada. Havia um segredo que não lhe estavam contando. Às vezes ele dizia isso aos pais, que nada respondiam . Ele nunca solucionou o m istério. O pai e a m ãe m orreram sem adm itir a existência de um a explicação secreta. Entretanto, não eram m ais religiosos em Karachi do que tinham sido em Bom baim , de m odo que a desculpa m uçulm ana continuava a parecer insatisfatória e errada.
Era perturbador não entender a razão pela qual a form a da vida m udara. Ele m uitas vezes se sentia ininteligível, até absurdo. Era um garoto de Bom baim que tinha feito sua vida em Londres, entre os ingleses, m as m uitas vezes se sentia am aldiçoado por um a dupla sensação de estar fora do lugar. A raiz da língua, pelo m enos, subsistia, m as ele com eçou a perceber com que profundidade lam entava a perda das outras raízes e com o se sentia confuso com relação ao que tinha se tornado. Na era da m igração, os m ilhões de m igrantes do m undo enfrentavam problem as colossais: problem as de habitação, de fom e, de desem prego, de doença, de perseguição, de alienação, de m edo. Ele era um dos que tinham sorte, m as restava um grande problem a: o da autenticidade. O m igrante se tornava, com o era inevitável, heterogêneo em vez de hom ogêneo, pertencente a m ais de um lugar, m últiplo em vez de singular, respondendo a m ais de um a form a de ser, m ais do que m edianam ente m isturado. Seria possível ser — e ser de m odo competente — não sem raízes, m as de raízes m últiplas? As diferentes raízes teriam de ter forças equivalentes, ou quase isso, e ele tem ia que seu vínculo com a Índia tivesse enfraquecido. Ele precisava recuperar a identidade indiana que havia perdido ou achava que corria perigo de perder. O ego era, ao m esm o tem po, sua origem e sua j ornada.
Para conhecer o sentido de sua j ornada, ele tinha de com eçar de novo pelo com eço e aprender à m edida que avançasse.
Foi nesse ponto de suas reflexões que ele se lem brou de “Salim Sinai”. Esse proto-Salim da zona oeste de Londres fora um personagem secundário no original abandonado de “O antagonista”, criado deliberadam ente com o um alter ego. “Salim ”, em m em ória de seu colega de turm a Salim Merchant em Bom baim (e por causa da sem elhança com “Salm an”), e “Sinai” em hom enagem ao sábio m uçulm ano do século xi Ibn Sina (“Avicena”), da m esm a form a com o “Rushdie” derivara de Ibn Rushd. O Salim de “O antagonista” era um suj eito sem nenhum interesse e m erecia sum ir por Ladbroke Grove rum o ao esquecim ento, m as tinha um a característica que, de repente, parecia valiosa: nascera à m eia-noite, de 14 para 15 de agosto de 1947, o m om ento de “liberdade à m eia-noite” em que a Índia se tornou independente do dom ínio britânico. Talvez esse Salim , o Salim de Bom baim , o Salim da m eia-noite, m erecesse seu próprio livro.