Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 2 de 11 · parte 4/4

Páginas do PDF

Joseph Anton: Memórias

1. Um pacto faustiano ao contrário

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Só um ano depois ele veio a conhecer o com eço do rom ance. Em j unho de 1985, o avião Emperor Kanishka, que fazia o voo 182 da Air India, foi alvo de um atentado a bom ba, perpetrado por terroristas siques que pretendiam criar um Estado sique independente, a cham ar-se Khalistão, no Punj ab indiano. O avião caiu no oceano Atlântico, ao sul da Irlanda, e entre as 329 pessoas que m orreram (principalm ente canadenses de origem indiana e indianos) estava sua am iga de infância Neelam Nath, que viaj ava a Bom baim com os filhos para visitar os pais, G. V. Nath (“Tio Nath”) e Lila, am igos íntim os de seus próprios pais. Pouco tem po depois de tom ar conhecim ento dessa atrocidade, ele escreveu a cena em que Gibreel Farishta e Saladin Cham cha, viaj ando de Bom baim para Londres, estão num avião que é explodido por terroristas siques. Gibreel e Saladin têm m ais sorte do que teve Neelam , e pousam suavem ente na praia de Pevensey Bay , diante da casa de Rosa Diam ond.

 

O livro levou m ais de quatro anos sendo escrito. Depois, quando m uitas pessoas quiseram reduzi-lo a um “insulto”, ele quis responder: Sei insultar pessoas bem mais depressa do que isso. Mas seus adversários não viam nada de estranho no fato de um escritor sério passar um décim o de sua vida criando um a coisa tão pobre quanto um insulto. Isso acontecia porque se recusavam a vê-lo com o um escritor sério. Para atacá-lo e a seu trabalho, era necessário pintá-lo com o um a pessoa ruim , um traidor apóstata, um arrivista inescrupuloso, em busca de fam a e riqueza, um oportunista cuj o trabalho era destituído de m érito, que “atacava o islã” m ovido por interesses pessoais. Era isso que significava um a frase m uito repetida — Ele fez isso de propósito.

É claro que ele tinha feito isso de propósito. Com o é que um a pessoa escreve 250 m il palavras por acidente? O problem a era, com o Bill Clinton poderia ter dito, o que a pessoa queria dizer com “isso”. A estranha verdade era que, depois de dois rom ances que tratavam diretam ente da história pública do subcontinente indiano, ele via esse novo livro com o um a exploração m uito m ais pessoal, interior, um a prim eira tentativa de criar um a obra a partir de sua experiência pessoal de m igração e m etam orfose. Para ele, esse era o m enos político dos três livros. E o m aterial derivado da história da origem do islã, em seu entender, traduzia, em essência, adm iração pelo Profeta do islã e era até respeitoso para com ele. Tratava-o com o ele sem pre dissera que queria ser tratado, com o um hom em (“o Mensageiro”), e não com o um a figura divina (com o o “Filho de Deus” dos cristãos). Mostrava-o com o um hom em de seu tem po, m oldado por aquele tem po, e, com o líder, tão suj eito à tentação quanto capaz de vencê-la. “Que tipo de ideia é você?”, o rom ance perguntava à nova religião, e dava a entender que um a ideia que se recusava a adaptar-se ou a transigir seria, no m ais das vezes, destruída, m as adm itia que, em casos m uito raros, essas ideias tornavam -se aquelas que m udavam o m undo. Seu Profeta flertara com o acom odam ento, m as o rej eitara; e sua ideia inflexível havia se fortalecido o suficiente para dobrar a história à sua vontade.

Da prim eira vez que foi acusado de afronta, ele ficou sinceram ente perplexo. Julgava que tinha tratado artisticam ente o fenôm eno da revelação. Um tratam ento do ponto de vista de um descrente, é verdade, m as, ainda assim , respeitoso. Com o isso poderia ser considerado ofensivo? Os anos hipersensíveis que se seguiram , de política de identidade definida pela raiva, ensinaram -lhe, e a todos m ais, a resposta a essa pergunta.

De qualquer form a, seu Profeta não se cham ava Maom é, m orava num a cidade que não se cham ava Meca e criou um a religião que não se cham ava islã (ou quase isso). E só aparecia nas sequências de sonhos de um hom em que estava sendo levado à loucura pela perda da fé. Esses vários recursos distanciadores eram , na opinião de seu criador, indicadores da natureza ficcional de seu proj eto. Para seus oponentes, eram tentativas transparentes de dissim ulação. “Ele se esconde”, diziam , “atrás de sua ficção.” Com o se a ficção fosse um véu ou um a tapeçaria, com o se um hom em , oculto ingenuam ente atrás de um escudo tão frágil, não pudesse ser trespassado, com o Polônio, por um a espada.

Enquanto escrevia o rom ance, a Universidade Am ericana, do Cairo, convidou-o para fazer um a palestra a seus alunos. Disseram -lhe que não lhe podiam pagar m uito, m as que, se ele estivesse interessado, poderiam oferecer-lhe um passeio pelo Nilo, durante alguns dias, na com panhia de um de seus m ais em inentes egiptologistas. Conhecer o m undo do antigo Egito era um de seus grandes sonhos não realizados, e ele se apressou a responder. “O ideal seria eu poder concluir m eu rom ance e ir ao Egito depois disso”, propôs. Term inou o rom ance, a que deu o título de Os versos satânicos, a viagem ao Egito se tornou im possível e ele teve de resignar-se a nunca ver as pirâm ides, Mênfis, Luxor, Tebas ou Abu Sim bel. Foi um dos m uitos futuros que ele perderia.

 

Em j aneiro de 1986, o trabalho não ia bem . Ele foi convidado a participar de um encontro de escritores que viria a se tornar lendário, o 48o Congresso do pen Club Internacional, em Nova York, e ficou feliz por poder interrom per por algum tem po seu trabalho. O encontro foi um espetáculo. Norm an Mailer, que na época era presidente do pen Am erican Center, lançara m ão de todos os seus poderes de encanto e persuasão para arrecadar os recursos que levaram m ais de cinquenta dos principais escritores do m undo a Manhattan para debater, com quase cem dos m elhores dos Estados Unidos, o tem a “A im aginação do escritor e a im aginação do Estado”, e para j antares, regados a vinho, na Gracie Mansion e no Tem plo de Dendur, no Metropolitan Museum of Art, entre outros locais do m esm o naipe.

Por ser um dos participantes m ais j ovens, ele se sentia um tanto quanto intim idado. Brodsky, Grass, Oz, Soy inka, Vargas Llosa, Bellow, Carver, Doctorow, Morrison, Said, Sty ron, Updike, Vonnegut, Barthelm e e o próprio Mailer eram alguns dos nom es im ponentes que liam suas obras e debatiam entre si na Essex House e no St. Moritz, hotéis da área do Central Park Sul. Certa tarde, o fotógrafo Tom Victor pediu-lhe que se sentasse num a das carruagens puxadas a cavalo do parque para um a foto, e quando ele entrou no veículo lá estavam Susan Sontag e Czesław Miłosz para lhe fazer com panhia. Em geral, não era um a pessoa m uito calada, m as falou pouquíssim o naquele passeio.

O clim a foi tenso desde o com eço. Para desapontam ento dos m em bros do pen Club, Mailer havia convidado o secretário de Estado George Shultz para falar na cerim ônia de abertura do evento, na Biblioteca Pública. Isso provocou gritos de protesto dos sul-africanos Nadine Gordim er, J. M. Coetzee e Sipho Sepam la, que acusaram Shultz de apoiar o apartheid. Outros escritores, entre eles E. L. Doctorow, Grace Paley, Elizabeth Hardwick e John Irving, protestaram contra o fato de escritores estarem sendo usados “com o um fórum para o governo Reagan”, com o disse Doctorow.

Cy nthia Ozick fez circular um a petição que atacava Bruno Kreisky, o ex-chanceler j udeu da Áustria e participante do congresso, porque ele tivera reuniões com Arafat e Kadhafi. (Os defensores de Kreisky observaram que, durante seu governo, a Áustria recebera m ais j udeus russos refugiados do que qualquer outro país.) Durante um a discussão do congresso, Ozick levantou-se para denunciar Kreisky, que resolveu a situação com tam anho savoir-faire que o m al-estar logo se desfez.

Muitas escritoras pediram explicações, com m uitas j ustificações, para o fato de haver tão poucas m ulheres nos grupos de debate. Sontag e Gordim er, am bas participantes desses grupos, não aderiram à revolta. Coube a Susan argum entar que a literatura não era um em pregador obrigado a respeitar cotas de gênero, etnia etc. A observação não satisfez as reclam antes. O m esm o aconteceu com o com entário dele próprio, que cham ava a atenção para a presença de várias m ulheres nos diversos grupos de debates e para o fato de ser, ele próprio, o único representante do sul da Ásia, região que reunia um sexto da hum anidade.

Naquele tem po, em Nova York, a literatura gozava de alto conceito, e os m eios de com unicação davam am plo destaque às discussões entre os escritores, que ainda pareciam despertar atenção além dos estreitos lim ites do m undo dos livros. John Updike leu, para um a atônita plateia de escritores de todo o m undo, um a ode beatífica às caixas de correio am ericanas, aqueles sím bolos azuis da livre troca de ideias. Donald Barthelm e estava bêbado, e Edward Said, am istoso. No j antar no Tem plo de Dendur, Rosario Murillo — poetisa e m ulher do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega — postou-se j unto do santuário egípcio, cercada por um a falange de belos sandinistas de óculos escuros, de aparência intim idatória. Depois convidou o j ovem escritor indiano (e m em bro da Cam panha Britânica de Solidariedade à Nicarágua) para visitar seu país e ver pessoalm ente a guerra aos contras.

Num a das sessões, ele foi arrastado para um em bate entre dois pesos-pesados, Saul Bellow e Günter Grass. Estava sentado ao lado do rom ancista alem ão, a quem m uito adm irava, e depois que Bellow — outro de seus escritores prediletos — fez um discurso em que repisava um de seus refrões, sobre com o o êxito do m aterialism o am ericano prej udicara a vida espiritual dos am ericanos, Grass levantou-se para observar que m uitas pessoas habitualm ente deixavam de ver m uitas falhas no sonho am ericano, e dispôs-se a m ostrar a Bellow aspectos reais da pobreza am ericana, no South Bronx, por exem plo. Irritado, Bellow fez um a réplica dura. Ao voltar para seu lugar, Grass trem ia de raiva.

“Diga algum a coisa”, ordenou o autor de O tambor ao representante de um sexto da raça hum ana. “Quem , eu?” “Você. Diga algum a coisa.”

Assim , ele foi ao m icrofone e perguntou a Bellow por que tantos escritores am ericanos evitavam a tarefa — ou, na verdade, de m odo m ais provocador, “abdicavam ” dela — de abordar o tem a do im enso poder exercido pelos Estados Unidos no m undo. Bellow abespinhou-se. “Não tem os tarefas”, disse, altivo. “Tem os inspirações.”

Realm ente, o m undo literário ainda se acreditava im portante em 1986. Naqueles últim os anos da Guerra Fria, era im portante ouvir escritores da Europa Oriental, com o Danilo Kiš e Czesław Miłosz, Gy örgy Konrád e Ry szard Kapus´cin´ski, a contrapor suas visões à ausência de visão do regim e soviético. Om ar Cabezas, na época vice-m inistro do Interior da Nicarágua, que acabara de publicar um livro de m em órias de sua vida com o guerrilheiro sandinista, e Mahm oud Darwish, o poeta palestino, estavam ali para articular pontos de vista raram ente ouvidos em tribunas am ericanas; e escritores am ericanos com o Robert Stone e Kurt Vonnegut expressaram suas críticas ao poder am ericano, enquanto os Bellow e os Updike sondavam a alm a am ericana. Por fim , o que tornou o evento m em orável foi sua gravidade, e não sua frivolidade. Realm ente, em 1986 ainda parecia natural que os escritores se dissessem , para usarm os as palavras de Shelley, “os não reconhecidos legisladores do m undo”, acreditassem na arte literária com o o correto contrapeso do poder e vissem a literatura com o um a força grandiosa, transnacional, transcultural, capaz de, na excelente form ulação de Bellow, “abrir o universo um pouco m ais”. Vinte anos depois, num m undo sim plificado e assustado, era m ais difícil atribuir pretensões tão elevadas a m eros operários da palavra. Mais difícil, m as não m enos necessário, talvez.

 

De volta a Londres, ele se lem brou do convite para visitar a Nicarágua. Talvez, pensou, fosse bom afastar-se de suas pequenas dificuldades literárias para conhecer pessoas com problem as reais e falar com elas. Pegou um avião para Manágua em j ulho. Ao voltar, várias sem anas depois, estava tão afetado pelo que vira que não conseguia parar de pensar e de falar sobre aquilo e tornou-se um chato da Nicarágua. A única saída seria registrar por escrito o que sentia. Sentou-se à sua m esa com um a espécie de frenesi e em três sem anas escreveu um texto de noventa páginas. Não era nem um a coisa nem outra: curto dem ais para ser um livro, dem asiado longo para ser um artigo. Por fim , revisado e am pliado, o texto tornou-se um livro curto, O sorriso do jaguar. No dia em que o concluiu, dedicou-o a Roby n Davidson (estavam nessa época com eçando o caso) e deu-lhe os originais para ler. Ao ver a dedicatória, ela com entou: “Im agino que isso quer dizer que vou ficar sem o rom ance”, e a conversa desandou a partir daí.

Sua agente, Deborah Rogers, não fez grande caso de O sorriso do jaguar, m as o livrinho logo foi editado por Sonny Mehta, da Picador inglesa, e, pouco depois, por Elisabeth Sifton, da Viking am ericana. Na viagem dele aos Estados Unidos para o lançam ento, o apresentador de um program a de entrevistas pelo rádio, a quem desagradara a oposição do livro ao bloqueio econôm ico contra a Nicarágua e ao apoio de Reagan aos contras, que tentavam derrubar o governo sandinista, perguntou-lhe: “Senhor Rushdie, até que ponto o senhor é um inocente com unista útil?”. Sua gargalhada de surpresa — o program a era ao vivo — aborreceu o apresentador m ais do que qualquer outra resposta que ele tivesse dado.

Para ele, os m elhores m om entos ocorreram ao ser entrevistado por Bianca Jagger, ela própria nicaraguense, para a revista Interview. Toda vez que ele se referia a um nicaraguense conhecido, fosse ele de esquerda ou de direita, Bianca com entava, vagam ente, em tom neutro: “Ah, sim , a gente nam orou, faz tem po”. Essa era a verdade a respeito da Nicarágua. Era um país pequeno, com um a elite m inúscula. Os com batentes, dos dois lados, tinham todos frequentado a escola j untos, eram m em bros daquela elite e um conhecia a fam ília do outro, ou até, no caso da fam ília Cham orro, vinham da m esm a fam ília; e todos tinham nam orado uns com os outros. A versão de Bianca dos eventos, não escrita, seria m ais interessante (e, com certeza, m ais picante) do que a dele.

Depois que O sorriso do jaguar foi publicado, ele voltou a seu rom ance trabalhoso, e descobriu que quase todos os problem as tinham desaparecido. Ele não escrevera o livro num a sequência linear, o que não era de seu feitio. As passagens interpoladas — a história da vila que entrou no m ar, o caso do im ã que prim eiro liderou um a revolução e, depois, a devorou, e as sequências de sonhos (que viriam a causar problem as), transcorridos num a cidade arenosa de Jahilia (nom e tirado do term o árabe que designa o período de “ignorância” que precedeu o advento do islã) — tinham sido escritas prim eiro, e durante m uito tem po ele ficara sem saber com o inseri-las na narrativa principal do livro, a história de Saladin e Gibreel. Mas o intervalo lhe fizera bem , e ele com eçou a escrever.

 

Fazer quarenta anos tinha um peso. Aos quarenta, um hom em chegava à m aturidade e se sentia sólido, firm e, forte. Em seu trigésim o aniversário ele se j ulgara um fracassado e se sentira profundam ente infeliz. No quadragésim o, naquela dourada tarde de j unho na casa de Bruce Chatwin, num am biente bucólico perto de Oxford, estava cercado por am igos do m undo literário — Angela Carter, Nuruddin Farah, Bill Buford, editor da revista Granta;sua própria editora, Liz Calder, da Jonathan Cape (ainda um a em presa independente, antes de ser engolida pela Random House), e o próprio Bruce — e sentia-se feliz. A vida parecia ter se desenrolado com o ele sonhara que poderia acontecer, e ele estava trabalhando num rom ance que, em sua opinião, era seu livro m ais am bicioso, do ponto de vista form al e intelectual, um livro cuj os obstáculos tinham sido finalm ente superados. O futuro era brilhante.

Em breve seria com em orado o quadragésim o aniversário da independência da Índia — o “quadragésim o aniversário de Salim ” — e sua am iga Jane Wellesley, produtora de televisão, tam bém presente à sua festa de aniversário, o persuadira a escrever e apresentar um docum entário do tipo “estado da nação” para o Channel Four. A ideia dele era evitar inteiram ente — ou quase isso — figuras públicas e políticas, e traçar um retrato da Índia aos quarenta anos, um exam e da “ideia da Índia” através dos olhos e nas vozes de indianos de quarenta anos; não seriam bem “filhos da m eia-noite”, m as pelo m enos filhos do ano da liberdade. Para isso, ele com eçou sua m ais longa viagem pela Índia desde que ele e Clarissa haviam cruzado e recruzado o país havia m ais de um a década. Essa segunda viagem foi tão profícua quanto a anterior. Mais um a vez a cornucópia indiana despej ou nele sua abundância de histórias. Dá-me-lo em excesso, ele pensou, para que eu me farte, e assim morra.

Num dos prim eiros dias de produção, o proj eto quase desandou devido a um m om ento de insensibilidade cultural. Estavam film ando na casa de um alfaiate de Delhi, num a das áreas m ais pobres da cidade. Fazia um calor escaldante e, depois de algum as horas, a equipe parou para descansar. De um furgão da produção foram trazidas caixas de refrigerantes gelados, distribuídos a todo m undo, menos ao alfaiate e sua família. Ele cham ou o diretor, Geoff Dunlop, para um a conversa em particular na laj e da casa do alfaiate, e lhe disse que se a situação não fosse corrigida de im ediato ele abandonaria o proj eto, o que tam bém se daria caso algum a coisa daquele gênero voltasse a acontecer. Ocorreu-lhe então perguntar sobre a tarifa de locação que estava sendo paga. Geoff m encionou um a quantia em rupias que, convertida em libras, dava um a som a ínfim a. “Não é o que você pagaria na Inglaterra”, ele disse. “Você deve pagar a eles a tarifa de locação norm al.” “Mas na Índia”, obj etou Geoff, “isso seria um a fortuna.” “Isso não é problem a seu”, ele respondeu. “É preciso tratar as pessoas aqui com o m esm o respeito que seria dem onstrado na Inglaterra.” Durante alguns m om entos houve um im passe entre os dois. Mas Geoff disse: “Está certo”, e desceu. Foram oferecidos refrigerantes ao alfaiate e sua fam ília. O resto da film agem correu sem problem as.

No Kerala, ele viu um fam oso contador de histórias exibir sua m agia. O que esse desem penho tinha de interessante é que quebrava todas as regras. “Com ece do com eço”, o Rei de Copas instruíra o atrapalhado Coelho Branco em Alice no país das maravilhas, “e continue até chegar ao fim . Aí pare.” Era assim que as histórias deviam ser contadas, de acordo com qualquer rei de copas que elaborasse as regras, m as não era isso o que acontecia naquele teatro ao ar livre no Kerala. O contador m isturava um a história com outra, a todo instante fazia digressões na narrativa principal, contava piadas, cantava canções, ligava sua própria história política com os contos antigos, fazia adendos pessoais e, de m odo geral, não era m uito educado. No entanto, a plateia não se levantava para ir em bora, chateada. Não assoviava, não vaiava nem atirava coisas ou cadeiras no artista. Em vez disso, as pessoas gargalhavam estrondosam ente, caíam num pranto convulsivo e ficavam ouvindo, tensas, até ele acabar. Procediam assim apesar do estilo narrativo confuso do contador de histórias ou por causa dele? Seria crível que essa form a pirotécnica de contar fosse, de fato, mais absorvente do que a versão prescrita pelo Rei de Copas — que a história oral, a m ais antiga das forças narrativas, tivesse sobrevivido por adotar a com plexidade e o hum orism o e rej eitar a linearidade com eço-m eio-fim ? Se isso era verdade, então todas as suas próprias ideias sobre literatura estavam sendo am plam ente confirm adas naquela noite quente do Kerala.

Dando-se voz a pessoas com uns, e tem po suficiente para que a usassem , fluía delas um a poesia tocante e singela. Um a m uçulm ana que dorm ia num jhopadpatti, um casebre de calçada em Bom baim , falou de suas desconfianças quanto à disposição dos filhos para cuidar dela m ais adiante: “Quando eu for velha, e tiver de andar com um a bengala, então verem os o que eles vão fazer”. Ele lhe perguntou o que significava para ela ser indiana, e ela respondeu que tinha vivido a vida toda na Índia e que “quando eu m orrer e for posta na sepultura, aí eu vou para a Índia”. No Kerala, um a sorridente senhora com unista dava duro nos arrozais o dia inteiro e depois voltava para casa, onde o m arido, m uito m ais velho, passava o dia enrolando beedis, ou cigarrilhas, para ganhar dinheiro. “Desde que m e casei”, ela disse, ainda sorrindo, e ao alcance do ouvido do m arido, “nunca tive um dia de alegria.”

Havia um pouco de hum or negro. O único político que ele entrevistou foi Chaggan Bhuj bal, o prim eiro prefeito de Bom baim a pertencer ao Shiv Sena, o violento partido nacionalista m arata e com unalista hindu, liderado por um ex-cartunista político, Bal Thackeray. Bhuj bal perm itiu que a equipe de tv o acom panhasse às festas anuais de Ganpati e film asse o festival em honra ao deus Ganesha, o de cabeça de elefante. Esse festival, que no passado fora um dia de celebração de m em bros de todas as religiões, tinha se reduzido a um a afirm ação física, neonazista, de poder hinduísta. “Pode nos cham ar de fascistas”, disse Bhuj bal. “Nós somos fascistas”, disse. “E pode nos cham ar de racistas. Nós somos racistas.” Sobre sua m esa, em seu gabinete, havia um telefone de plástico verde, em form a de sapo. Nosso atilado cinegrafista, Mike Fox, film ou-o sem cham ar a atenção. Entretanto, ao verem o copião, resolveram elim iná-lo. Era im possível não sentir um a certa onda de sim patia por um hom em que falava com veem ência num sapo verde. Não queriam que o público sentisse essa sim patia, e por isso o sapo foi deixado no chão da sala de corte. Entretanto, nada se perde de todo. O sapo, bem com o o nom e Mainduck (sapo), acabaria entrando em O último suspiro do mouro.

A grande Jam a Masj id, a m esquita de Delhi Antiga, havia içado bandeiras negras para assinalar os m assacres de m uçulm anos na cidade de Meerut. Ele queria film ar a m esquita, e o idoso im ã Bukhari, um agitador político ultraconservador, concordou em recebê-lo porque “Salm an Rushdie” era um nom e m uçulm ano. O encontro com o im ã se deu em seu “j ardim ”, um a área de terra e pedra, bem isolada, onde não havia um a só folha verde. O im ã, m eio desdentado, obeso, irascível, com a barba tingida com hena, sentou-se num a cadeira de braços, com um a enorm e quantidade de cédulas de dinheiro, am arrotadas, no colo. Por todo lado havia assistentes, protegendo-o. A seu lado havia um a cadeira vazia, com assento de palhinha. Enquanto falava, alisava e enrolava, um a a um a, as notas de rupias, que ficavam parecidas com o s beedis que outro ancião enrolava num a varanda no Kerala. Quando se satisfazia com seu trabalho num a das notas, ele a m etia num dos buracos do assento de palhinha, que logo se encheu daqueles beedis de rupias, as notas de valor m aior m ais perto do im ã, e as m enores m ais distantes dele. “Está certo”, disse. “O senhor pode film ar.” Depois da fatwa de Khom eini, esse m esm o im ã Bukhari denunciou o autor de Os versos satânicos do púlpito da Jam a Masj id, sem saber que um dia tinham tido um encontro m ais ou m enos cordial. Mas ele com eteu um erro. Não lem brou direito o nom e do escritor e denunciou “Salm an Khurshid”. Salm an Khurshid era um destacado político m uçulm ano. Isso foi em baraçoso, tanto para o im ã quanto para o “Salm an errado”.

Na Caxem ira, ele passou vários dias com um grupo de atores itinerantes que apresentavam bhand pather, ou, literalm ente, “histórias de palhaços”, tiradas da história e das lendas locais, um a das últim as dessas trupes, praticam ente reduzidas à penúria pela agressividade e pela violência da situação política na região, m as tam bém pelo cinem a e pela tv. Esses atores se m anifestavam com eloquência a respeito de sua vida e criticavam com vigor o autoritarism o do Exército e das forças de segurança indianas, m as, sem pre que a câm era era ligada, passavam a m entir. Tem erosos das consequências de serem honestos, diziam : “Ah, nós am am os o Exército indiano”. Com o ele não conseguia que contassem sua história, teve de cortá-los da versão final do film e, m as nunca esqueceu suas histórias não film adas, nunca esqueceu a clareira na m ata, cheia de crianças fazendo cabriolas e andando na corda bam ba, onde um a nova geração de “palhaços” estava sendo treinada, palhaços que talvez não viessem a ter um a plateia para a qual se apresentar, que poderiam até, quando crescessem , pôr de lado as espadas falsas de atores e em punhar as arm as reais da j ihad islâm ica. Muitos anos depois, elas se tornaram os protagonistas de seu rom ance Shalimar, o equilibrista.

O m ais eloquente de todos os testem unhos foi dado por R., um a sique que m orava num a casa de côm odos em Delhi. O m arido e os filhos tinham sido m ortos diante dela por bandos incitados e talvez até orientados por líderes do Partido do Congresso, que haviam “tirado vingança” contra toda a com unidade sique pelo assassinato de Indira Gandhi, em 31 de outubro de 1984, por dois guarda-costas siques. Beant Singh e Satwant Singh, leais ao m ovim ento separatista do Khalistão, m ataram -na para vingar-se do ataque ao santíssim o sique, o Tem plo Dourado, onde o líder do m ovim ento, Sant Jarnail Singh Bhindranwale, havia se refugiado com m uitos de seus hom ens. Três anos depois, a viúva, R., teve a dignidade e a força de dizer: “Eu não quero vingança, ou violência, ou o Khalistão. Só quero j ustiça. É tudo o que quero”.

Para espanto dele, as autoridades indianas tinham lhe negado perm issão para film ar essa m ulher ou qualquer coisa relacionada com os m assacres de siques. Mas ele gravou o depoim ento de R. em fita, e no docum entário acabado a fotografia dela apareceu entre m uitas outras dessas viúvas, num a fotom ontagem que talvez fosse m ais eloquente do que sua im agem em m ovim ento teria sido. A Alta Com issão Indiana em Londres reagiu tentando forçar o Channel Four a cancelar a exibição do docum entário, que, no entanto, foi apresentado com o estava program ado. Foi assom broso que — com o um aspecto do acobertam ento da participação do partido situacionista nas atrocidades, durante as quais m orreram m uitos m ilhares de siques — o governo indiano tentasse im pedir o depoim ento não de um terrorista, m as de um a vítim a do terrorism o; e louvável que a rede de televisão tivesse a coragem e a hom bridade de rej eitar o pedido de cancelam ento da exibição do film e.

Ele deixou a Índia sentindo-se repleto: carregado de ideias, argum entos, im agens, sons, cheiros, rostos, histórias, sensualidade e am or. Nesse m om ento, não sabia, m as aquele era o com eço de um longo exílio. Depois que a Índia tornou-se o prim eiro país do m undo a proibir Os versos satânicos, tam bém se negaria a lhe dar um visto de viagem . (Os cidadãos britânicos precisavam de visto para entrar na Índia.) Ele não teria perm issão para voltar, para ir à sua terra, durante doze anos e m eio.

 

Ele soube do câncer do pai enquanto o film e, que agora se cham ava O enigma da meia-noite, estava sendo m ontado. Seu cunhado Safwan, casado com sua irm ã m ais nova, Nabeelah (cham ada, na fam ília, de “Gulj um ”, namorada), ligou de Karachi para dizer que Anis tinha um m ielom a m últiplo, câncer da m edula óssea. Estava sendo tratado, m as as perspectivas não eram anim adoras. Havia um a droga, Melphalan, que poderia lhe dar alguns m eses, talvez alguns anos, de sobrevida, se respondesse bem a ela. Ainda não se sabia com clareza com o ele estava reagindo, de m odo que era difícil dizer quanto tem po de vida lhe restava. “O que devo fazer?”, ele se perguntou. “Talvez Sam een e eu devêssem os ir, um depois do outro, porque assim Am m a sem pre teria pelo m enos um de nós lá.” (Sam een voltara a m orar em Londres, trabalhando com relações com unitárias.) Seguiu-se um a pausa, e Safwan disse, grave: “Salm an bhai, venha. Pegue um avião e venha”. Ele conversou com Jane Wellesley e Geoff Dunlop, e am bos foram da m esm a opinião. “Vá e pronto.” Dois dias depois ele chegou ao Paquistão, e esteve lá a tem po de acom panhar os últim os seis dias da vida do pai.

Foram dias am orosos, um a espécie de retorno à inocência. Ele concordara consigo m esm o em esquecer todas as coisas ruins, as brigas dos pais, entreouvidas na infância, os m aus-tratos resultantes de bebedeira a que tinha sido subm etido no Cum berland Hotel em j aneiro de 1961, e o dia em que esm urrara o pai no queixo. Ele estava com vinte anos, e de um a hora para outra as fúrias alcoólicas de Anis tinham se tornado insuportáveis, sobretudo porque dessa vez o alvo fora sua m ãe. Ele havia batido no pai e pensado, Ah, meu Deus, agora ele vai me bater de volta. Anis era baixo, m as fortíssim o. Tinha antebraços de açougueiro, e um soco dele teria sido devastador. Mas Anis não revidara contra o filho e apenas havia se afastado em silêncio, envergonhado. Já nada disso im portava agora. No hospital Aga Khan, em Karachi, Anis deixara de ser forte. O rosto estava encovado, e o corpo, em aciado. Parecia tranquilo e pronto para o que desse e viesse. “Eu disse, desde o com eço, que era câncer”, com entou. “Eu perguntei a eles: para onde foi o sangue todo?” Muito tem po antes, ao ler Os filhos da meia-noite, Anis ficara enfurecido com o personagem “Ahm ed Sinai”, tam bém um pai com um problem a de alcoolism o. Recusara-se a falar com o filho, e am eaçara divorciar-se da m ulher por “levar o rapaz a fazer isso”. Tinha se acalm ado quando o livro com eçou a fazer sucesso e os am igos telefonavam para dar-lhe parabéns. Dissera a Salm an: “Quando a gente está com um bebê no colo, às vezes ele nos m olha, m as a gente perdoa”. Com isso, o filho tinha se sentido insultado pelo pai, e a tensão entre eles persistira. Agora tudo isso eram águas passadas. Anis segurou a m ão do filho e m urm urou: “Eu fiquei zangado porque cada palavra que você escreveu era a m ais pura verdade”.

Nos dias que se seguiram , eles recriaram o am or m útuo, até que ele aflorou, estava ali de novo, com o se nunca tivesse se perdido. Na m agnífica série de rom ances de Proust, o obj etivo é recapturar o passado não pelo prism a distorcido da m em ória, m as sim como ele era. Foi isso que eles fizeram com o am or. L’amour retrouvé. Um a tarde, ternam ente, ele pegou um barbeador elétrico e barbeou o rosto do pai.

Anis estava debilitado, e depois de alguns dias quis deixar o hospital. A casa em Karachi era o oposto da Villa Windsor, em Bom baim , um a m oderna construção em dois níveis, e não um casarão antigo. Sapos coaxavam , a noite inteira, na piscina esvaziada, m etidos num a pequena poça verde de água estagnada no fundo. Certa vez, quando Anis ainda tinha saúde, enfurecera-se com o barulho e saíra do quarto, descendo a escada correndo, e batera em m uitos sapos com um pé de pato de borracha. Vários deles ficaram desacordados, m as não m orreram . De m anhã, todos tinham recobrado a consciência, e sum iram dali aos saltos. Ficou claro que os sapos tam bém eram de borracha.

Agora Anis não tinha condições de subir para seu quarto. Prepararam um a cam a para ele em seu escritório, no térreo, e ali ele ficou, cercado de livros. Num a gaveta da escrivaninha, a do alto, à esquerda, havia m aços de notas de quinhentas rupias, e esse era todo o dinheiro que sobrara. Suas contas bancárias estavam no verm elho. Havia dívidas pequenas com a casa com o garantia. Ele chegara ao fundo do poço.

Durante o j antar, Safwan, m arido de Gulj um e bem -sucedido engenheiro eletrônico, contou um a história estranha. Ele afirm ava ter contrabandeado para o Paquistão, pessoalm ente, o m ais rápido com putador do m undo, o cham ado fps, ou Sistem a de Ponto Flutuante, dotado de algum a coisa cham ada “equipam ento de acesso” vax. O com putador era capaz de efetuar 76 m ilhões de cálculos por segundo. O cérebro hum ano não ia além de dezoito. “Até os com putadores com uns de m elhor nível só conseguem fazer 1 m ilhão de cálculos por segundo.” A seguir explicou que o fps era essencial para produzir a bom ba nuclear islâm ica. Mesm o nos Estados Unidos só havia vinte desses com putadores. “Se ficarem sabendo que nós tem os um no arm azém de Lahore”, disse ele, feliz, “toda a aj uda internacional ao Paquistão seria cancelada.”

Isso era o Paquistão. Quando visitou o país, ele viveu na bolha de sua fam ília e de alguns am igos que na verdade eram velhos am igos de Sam een, e não dele. Do lado de fora da bolha, havia um país do qual ele sem pre se sentira com pletam ente distanciado. Vez por outra, notícias com o essa, de Safwan, chegadas de fora da bolha, lhe provocavam ím petos de pegar o prim eiro avião e sair dali para nunca m ais voltar. Essas notícias eram sem pre dadas por pessoas sim páticas, sorridentes, e na contradição entre a natureza delas e seus atos estava a esquizofrenia que dilacerava o país.

Por fim , Safwan e Gulj um se separaram , e aquela m oça linda com eçou a deslizar para um a obesidade chocante, para problem as m entais e drogas. Um dia, aos quarenta e poucos anos, seria encontrada m orta na cam a, a m ais nova de quatro irm ãos e a prim eira a partir. Com o estava proibido de entrar no país, ele não pôde com parecer a seu funeral, tal com o tam bém não pudera ir ao enterro da m ãe. Por ocasião da m orte de Negin Rushdie, um j ornal paquistanês publicou um artigo dizendo que todos os que tinham ido a seu funeral deveriam pedir perdão a Deus, porque ela era a m ãe do escritor apóstata. Mais um m otivo para ele não gostar do Paquistão.

A hora de Anis chegou no m eio da noite de 11 de novem bro de 1987, m enos de dois dias depois de ele ter saído do hospital. Salm an teve de levá-lo ao banheiro e lim pá-lo depois de um j orro de diarreia negra. Depois ele despej ou um a quantidade im ensa de vôm ito num balde, e puseram -no no carro e Sam een dirigiu com o um a louca até o Aga Khan. Depois disso, o filho pensou que deveriam tê-lo m antido em casa e deixado que ele se fosse serenam ente, m as na época iludiram -se, pensando que o hospital poderia salvar-lhe a vida, para que o tivessem consigo um pouco m ais. Teria sido m elhor poupá-lo da violência inútil dos choques no peito em seus últim os m om entos. Mas ele não foi poupado, nada funcionou e ele se foi, e Negin, apesar de seu longo e difícil casam ento, caiu ao chão e chorou. “Ele j urou que nunca ia m e deixar, agora foi em bora, e o que hei de fazer?”

Ele passou o braço em torno da m ãe. Haveria de cuidar dela agora.

O hospital Aga Khan, o m elhor de Karachi, era gratuito para todos os ism aelitas, m as extrem am ente caro para os não ism aelitas, o que era de esperar, pensou ele. Só liberariam o corpo do pai depois que a conta fosse saldada. Felizm ente ele levava no bolso um cartão Am erican Express, que usou para retirar o pai do hospital em que tinha m orrido. Quando o levaram para casa, a m arca de seu corpo ainda estava visível no lençol, e seus velhos chinelos estavam j unto da cam a. Chegaram os hom ens, parentes e am igos, pois o país era quente e o sepultam ento ocorreria dentro de poucas horas. Deveria ter sido ele o responsável por tom ar as providências, m as ele estava im potente naquele país estrangeiro e não sabia a quem cham ar, de m odo que os am igos de Sam een encontraram o cem itério, conseguiram um ataúde e até — isso era com pulsório — cham aram um m ulá na m esquita local, um edifício m oderno que parecia um a versão do dom o geodésico de Buckm inster Fuller de concreto bom beado.

Eles tam bém lavaram Anis — essa foi a prim eira vez que ele viu o corpo nu do pai — e o alfaiate da m ortalha costurou o lençol em torno dele. O cem itério ficava perto dali, e quando o esquife chegou, recendendo a flores e a aparas de sândalo, o túm ulo j á estava aberto. O coveiro postou-se num a das extrem idades do túm ulo, enquanto ele descia para o outro lado, e baixaram Anis para a cova. Estar dentro da sepultura do pai, para suster com a m ão sua cabeça am ortalhada e aj eitá-la em seu lugar de descanso final, causou-lhe um a im ensa em oção. Entristecia-o pensar que o pai, hom em de grande cultura e saber, nascido no mulhalla de Ballim aran, na Delhi Antiga de Ghalib, e depois, durante décadas, um feliz m orador de Bom baim , tivesse um fim tão m edíocre num lugar que não se m ostrara bom para ele e no qual ele nunca se sentira à vontade. Anis Ahm ed Rushdie era um hom em frustrado, m as pelo m enos term inara seus dias sabendo que era am ado. Ao sair da cova ele feriu o dedão do pé esquerdo e teve de ir ao hospital Jinnah para tom ar um a vacina antitetânica.

 

Nos anos seguintes, Anis visitou os sonhos do filho ao m enos um a vez por m ês. Nesses sonhos m ostrava-se sem pre afetuoso, engraçado, sábio, com preensivo e prestativo: o m elhor dos pais. Pareceu-lhe surpreendente que o relacionam ento deles, depois da m orte de Anis, se tornasse m uito m elhor do que era antes.

 

Saladin Cham cha, em Os versos satânicos, tam bém tinha um a relação difícil com o pai, Changez Cham chawala. No plano original do rom ance, Changez tam bém m orria, m as seu filho não voltava a Bom baim a tem po para revê-lo antes do fim , e por isso carregava consigo o fardo do conflito não resolvido entre eles. Mas a felicidade e a em oção profunda daqueles seis dias com o pai foi a coisa m ais im portante que ele levou para Londres, e isso o fez tom ar um a decisão: ele perm itiria que Saladin e Changez vivessem a m esm a experiência que ele tivera com Anis. Seu pai acabava de m orrer, m as ele ia escrever sobre sua m orte. Preocupava-o o lado m oral disso. Seria errado, m órbido, vam piresco? Não sabia a resposta. Pensou que se, ao fazê-lo, ele achasse que estava com etendo um a torpeza, destruiria essas páginas e voltaria ao plano original.

Ele usou grande parte da realidade, até os detalhes da m edicação que m inistrara a Anis naqueles últim os dias. “Além do com prim ido diário de Melphalan, tinham receitado [para Changez] um a bateria de drogas na tentativa de com bater os perniciosos efeitos colaterais do câncer: anem ia, sobrecarga do coração, e assim por diante. Dinitrato de isossorbida, dois com prim idos, quatro vezes ao dia; furosem ida, um com prim ido, três vezes; prednisolona, seis com prim idos, duas vezes ao dia.” E assim por diante. Agarol, espironolactona, alopurinol. Um exército de drogas m ilagrosas m archou da realidade para a ficção.

Ele escreveu sobre barbear o pai — Saladino barbeou o rosto de Changez — e sobre a coragem do m oribundo diante da m orte. “Primeiro se apaixonar pelo pai de novo, e depois se encher de admiração por ele também.”Escreveu sobre a diarreia negra, o vôm ito, os choques no peito, o lençol e o chinelo, a lavagem de seu corpo e o enterro. E escreveu isso: “Ele está me ensinando a morrer, pensou Salahuddin. Ele não desvia os olhos, encara a morte de frente. Em nenhum m om ento de sua agonia Changez Cham chawala pronunciou o nom e de Deus”.

Foi assim tam bém que Anis Ahm ed Rushdie m orreu.

Escrevendo esse final, ele não lhe pareceu abusivo, m as sim respeitoso. Ao term iná-lo, ele sabia que faria parte do livro.

No dia em que ele partiu de Londres para ver o pai, Marianne achou no bolso de um a calça dele um papelzinho em que ele escrevera o nom e de Roby n e um verso de um a m úsica dos Beatles, me excita como nenhuma outra amante. Ele não se lem brava de ter escrito aquilo, nem quanto tem po havia que o papel estava em seu bolso — fazia bem m ais de um ano que não via Roby n, e o papel estivera, provavelm ente, em seu bolso durante m ais tem po do que isso —, m as Marianne encium ou-se e a despedida foi ruim . Tinham planej ado com em orar os quarenta anos dela em Paris. Entretanto, isso não aconteceria m ais, por causa da doença de Anis.

Ele estava ainda invadido pela em oção gerada pela m orte de Anis quando, num telefonem a internacional, propôs casam ento a Marianne. Ela aceitou. Em 23 de j aneiro de 1988, casaram -se na prefeitura de Finsbury, convidaram am igos para um alm oço no restaurante Frederick’s, em Islington, e passaram a noite no Ritz. Só anos depois ele soube que a irm ã Sam een e seus am igos m ais íntim os tinham tido m aus pressentim entos com relação ao casam ento, m as não souberam com o aconselhá-lo a não fazer aquilo.

Quatro dias depois ele escreveu em seu diário: “Com o destruir um hom em é fácil! Seu inim igo inventado: com que facilidade você pode esm agá-lo; com o ele desaba! O m al: fácil é sua sedução”. Depois não se lem brou por que tinha escrito isso. Devia tratar-se de um a ideia para algum aspecto da obra em andam ento, em bora não tenha entrado no livro acabado. Um ano depois, porém , aquilo pareceu... um a profecia.

Tam bém escreveu o seguinte: “Se um dia eu term inar Os versos satânicos, apesar dos problem as em ocionais, do divórcio, da m udança de residência, do livro da Nicarágua, do film e da Índia etc., terei com pletado, eu sinto, m inha ‘prim eira m issão’, dar nom e às partes de m inha pessoa. E não restará m ais nada sobre que escrever; a não ser, é claro, o total da vida hum ana”.

Às 4h10 da tarde de 16 de fevereiro de 1988, um a terça-feira, ele escreveu no diário, em m aiúsculas: “cheguei ao fim ”. Na quarta-feira, 17 de fevereiro, fez pequenas revisões e “declarou o livro term inado”. Na quinta, fez cópias do livro e entregou-as a seus agentes. Naquele fim de sem ana, Sam een e Pauline com eçaram a ler Os versos satânicos. Sam een acabou de ler o rom ance na segunda-feira, e de m aneira geral adorou-o. Entretanto, a descrição da m orte de Changez deixou-a m uito perturbada. “Eu ficava querendo dizer: ‘Eu tam bém estava lá. Ele não disse isso a você, disse a m im . Não foi você que fez isso para ele, fui eu’. Mas você m e deixou de fora da história, e agora todo m undo vai pensar que as coisas se passaram assim .” Ele não tinha defesa contra as acusações dela. “Está certo”, ela lhe disse. “Eu falei o que queria. Vou superar isso.”

 

Quando um livro sai da m esa do autor, ele m uda. Mesm o antes que alguém o tenha lido, antes que outros olhos além dos de seu criador tenham visto um a única frase, ele está irrem ediavelm ente alterado. Tornou-se um livro que pode ser lido, que não pertence m ais a quem o escreveu. Em certo sentido, ganhou livre-arbítrio. Fará sua j ornada pelo m undo, e não há m ais nada que o autor possa fazer. Mesm o ele, ao ver suas frases, as lê, agora que podem ser lidas por outras pessoas, de um a m aneira diferente. Elas parecem diferentes. O livro foi entregue ao m undo, e o m undo o refez.

Os versos satânicos saíra de casa. Sua m etam orfose, sua transform ação, devido a seu envolvim ento com o m undo fora da m esa de trabalho do autor, seria singularm ente extrem a.

Durante todo o tem po que ele levara para escrever o livro, m antivera um bilhete para si m esm o afixado à parede diante de sua m esa. “Escrever um livro é fazer um pacto faustiano ao contrário”, dizia. “Para ganhar im ortalidade, ou pelo m enos posteridade, você perde, ou ao m enos arruína, sua vida diária.”