Louças de família
Capítulo VIII
Hoje antes de sair a JULIANA encontrou o médico e perguntou sobre a situação dela ele falou que é uma infecção no sangue que foi liberado pelo mal funcionamento do pâncreas, e que ela vai ter que ficar mais tempo e a sonolência e dos remédio está com dois antibiótico. Hoje o pablo tá com ela.
Tia China, irmã da minhavó, também morava num quartinho retangular de chão de terra batida nos fundos do terreno da casa principal, a cama de solteira bem-arrumada com guarda cilíndrica de madeira coberta por uma colcha de retalhos o guarda-roupa de duas portas uma cômoda sobre a qual bacia sabonete outros objetos de higiene pessoal um relicário com imagens de santos. Pregado na parede de frente para quem entrava, uns trinta centímetros acima da mesa de luz, um espelho pequeno retangular como o quarto, tapado de pó, o que contrastava com a severa limpeza do restante da habitação. Certamente os móveis não eram feitio clê.
Como comentei com vocês, a disposição das pecinhas no terreno meio que lembrava um compound – a casa principal (obi), habitação do homem, e várias casas no entorno, destinadas às suas mulheres e lhos e lhas. Aí, em geral, havia riqueza. Um homem pobre não teria prole e esposas. No compound, ele recebia comida de cada uma delas.
Diversamente funcionava o compound da minhavó. Em primeiro lugar, ela não se considerava homem, embora muitos não a considerassem uma verdadeira mulher. Para a casa principal, numa espécie de cortejo, acorriam tia China clê ivo para tomar o café da manhã almoçar tomar o café da tarde se curar de alguma doença receber a bênção tomar banho brigar morrer. Jantar acho que não. Vovó se recolhia muito cedo para seu quarto. Alimentar esse monte de gente in ava as contas no bolicho do nelson ou do baixinho. Quando algo sobrava, vovó dava às vizinhas ou parentas. Tia Eluma brigava com ela por isso. Parece que a abuela não podia ter nada além do necessário, nada para mais, tudo sempre para menos. A mando da vovó, eu mesma alcançava para a Dona Rosa, ou suas lhas, latas de compota de pêssego ou quilos de arroz ou de feijão.
À noite, quando tia China já havia se retirado para seus aposentos ( cou meio pomposo para quem morava num quartinho de chão batido), eu e primomeus colocávamos agulhas de costura ou al netes na cadeira de palha, ao lado do fogão a lenha, em que ela passava sentada dia e noite, no verão ou no inverno. Parecia mesmo uma rainha. O objetivo, machucá-la na bunda. Queríamos nos vingar pelo fato de ter sido tão malvada com nossavó, segundo contava tia Eluma. Nunca ouvi a versão da tia China, mas acreditava na corrente enegrecida da história.
Bem diferente da minhavó, tia China tinha pele clara, traços do rosto mais para o branco do que para o negro, usava tranças uma em cada lado da cabeça dividida ao meio. Talvez para espantar maus espíritos ou inveja, havia aquele espelho empoeirado numa das paredes de sua pecinha. Tia China se considerava uma branca de neve à espera de seu príncipe. Contudo, o espelho mais a fazia parecer rainha má; por isso permanecia sujo.
Da época em que me lembro de sua gura, costurava suas próprias roupas, mas não foi costureira como Mãe Joaninha. Suas roupas trapos, malvada, se achava branca, a branca de neve. Ela e minhavó viviam às rusgas na cozinha. A preta contra a branca. Vovó lhe falava com raiva, mas lhe dava casa e comida. Tia Eluma lhe falava o necessário pela obrigação de considerá-la humana.
Minhavó e o avômeu não abandonaram a casa da avenida do almirante. Foram varridos pela vassoura da tia China. O imóvel tinha bom valor econômico, o terreno era grande e cava numa das principais avenidas da cidade com nome de ana. Tia China queria a casa para ela e seus brancos, apenas. Vovó contava que, em muitos dias de chuva e de frio no inverno de bater queixo, cou atirada ao relento junto com o avômeu, pois a China tranca ara a porta de entrada por dentro para que os negros da família não entrassem.
Tia China também costumava varrer as crianças pequenas, suas sobrinhas. Um dia fez tia Eluma, que então engatinhava, dar várias voltas de quatro no pátio empurrada por uma vassoura, como se a pequena tivesse que fugar de uma perseguição comendo o pó que lhe cobria a face. Ela nem podia subir pelas paredes ou pelo teto, inseto que era nos olhos da tia China. A cada vassourada, se obrigava a toda uma série de movimentos, quase uma equilibrista. Já começava a perder o fôlego, mas prosseguia ofegante, tentando concentrar todas as energias na fuga, mal mantendo os olhos abertos. Até que tia China sentiu qualquer coisa lhe bater. Um vizinho a bombardeava com laranjas podres que se espalhavam ao pé de uma das árvores do pátio dele. As frutas, atiradas uma a uma, tinham como alvo o rosto da varredoura, que, então, cessou a varrição com medo de que sua face casse manchada de preto.
Minhavó avômeu e prole caram no olho da rua. Tia China, junto com um branco, se apropriou da casa na rua com nome de almirante. Se alguém lhe perguntasse quem aquele homem, ela dizia não é homem, é o dom guarisco. Seu príncipe encantado montado num cavalo branco. Porém num dia de frio de renguear cusco, a branca de neve apareceu na casa que nem sei como vovó e vovô conseguiram erguer na subida da rua com nome de enforcado. Pedia ajuda pedia proteção. Minhavó, de orelhas grandes para melhor ouvir e grandes olhos para tudo ver, deu-lhe ajuda deu-lhe proteção deu-lhe um quartinho deu-lhe a cadeira de palha ao lado do fogão a lenha em que tia China passou sentada dia e noite, no verão ou no inverno, sonhando ser a rainha. Que era.
seu piniquinho fora soldado da força expedicionária do país das maravilhas na segunda guerra mundial. Agora trabalhava no negócio de carvão e lenha. Sua morada mais parecia uma caverna-carvoaria espremida entre duas casas na rua do enforcado. Vovó me mandava lá semanalmente encomendar lenha para alimentar o fogão ou comprar sacos de carvão para o fogareiro nos dias mais frios de inverno ou para o churrasco de domingo em qualquer estação do ano. Na caverna-carvoaria de seu piniquinho havia um quadro no qual se podia ler a cobra vai fumar. Esse era o único objeto de decoração mais ou menos humano que eu podia reconhecer em sua habitação. A questão não dizia respeito à humanidade de seu piniquinho, mas à minha falta em reconhecer humanidade que fosse habitualmente diversa da que eu conhecia.
Não tinha mais de metro e meio, mas vovó costumava dizer que tamanho não é documento. Pele branca, se descolando dos ossos, toda manchada de carvão. Unhas rosto dentes mãos cabelo puro carvão. Os olhos azuis, única parte de seu corpo livre do betume, contrastavam com os anéis de puro ouro nos cinco dedos da mão direita, os anéis de pura prata nos cinco dedos da esquerda e os colares de diamantes e de rubis pensos do pescoço. De uma das orelhas desabava a argola prateada. Muito largas para o corpo magro, as pantalonas de lona vinham presas no alto da cintura por um cinto grosso de couro cuja enorme vela tinha a forma de uma estrela pontilhada por pedrinhas de brilhante. Nos pés, seu piniquinho calçava botas de couro. Sua cabeça era vestida por um chapéu de aba larga que parecia colado nela com cola de sapateiro. Não sabíamos se tinha cabelos.
O dinheiro da venda do carvão e da lenha cava à vista de quem entrava em sua caverna, volta e meia invadida e roubada. Ainda assim nunca padecia de prejuízo ou desfalque, qual se assaltante nenhum lhe conseguisse subtrair algo que zesse diferença em sua vida ou morte. Suponho que, por isso, jamais reclamava ou registrava ocorrência na polícia. Talvez não con asse nela. Alguns achavam que era um cigano desgarrado de seu povo. Outros criam que se tratava de um extraterrestre que viera nos espionar, a função de carvoeiro mero disfarce. Outros ainda pensavam que era criminoso fugado de seu torrão natal depois de assassinar mulher e lhas a sangue-frio.
Encomendada a lenha, seu piniquinho organizava as achas e as entregava em sua carroça na porta da casa da vovó. Eu as contava uma a uma e ajudava minhavó a empilhá-las num canto da cozinha. Às vezes a abuela gritava não vai te machucar, mas eu já estava com uma felpa ncada no dedão da mão direita.
Seu piniquinho andava sempre com a morte do lado. No sentir de tia Eluma, ele a trouxera, sufocada numa mala, da guerra no continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca. Chegado à fronteira, o suposto cigano a libertou de tantos cadáveres, mas ela não quis se libertar dele. A morte achava que devia a vida ao carvoeiro.
Foi numa dessas idas à casa da minhavó que seu piniquinho se apaixonou por tia China. Prometeu a ela todo o ouro toda a prata diamantes rubis do mundo. Rechaçado em seu amor – para ela, seu piniquinho não passava de um negro –, foi encontrado morto na casa-jazida coberto por sua fortuna. A morte não suportou que ele quisesse outra e decidiu levá-lo.
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