Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 10 de 14

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Louças de família

Capítulo I

 

 

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I

 

Registramos com muito pezar, o falecimento, ocorrido dia 08 do corrente, de Herculana Naves Pedroso, Shatta, como era carinhosamente chamada.

Jornal A Nação

 

Em insabida data de 1831, parentaminhas e parentemeus embarcadas a fórceps num navio ancorado na fortaleza com nome de santo abandonaram o porão. Insurgentes, apoderaram-se de facas facões navalhas espadas mosquetes baionetas pedaços de madeira e outras armas de fogo ou de sangue, lançando-se contra a tripulação. Algumas tinham apenas as mãos como armas. Embarcadas, ancorado, alguém me sugeriu que, além de corrigir a concordância, eu deletasse as rimas em ado, pois seriam feias e pesadas demais para um início de capítulo. Já confessei que essas rimas me desgostam tanto quanto o expaimeu. Contudo, o pesadumbre da frase decorre mais dos corpos que me molestam vivos ou mortos ainda não enterrados do que propriamente das palavras rimadas.

Na fortaleza sem nome onde o expaimeu me inquilinava, também havia um porão habitado não por corpos insurgentes subtraídos do mundo dos vivos, mas por corpos de móveis abandonados da condição de servos das gentes. Talvez esqueleto fosse mais conveniente aos móveis do que corpo. Talvez escravizada fosse mais conveniente às gentes do que serva. Voltando ao esqueleto, um corpo se gasta é gasto desgastado, carcomido carunchado. Um esqueleto, não. Um esqueleto mais resistente ao desgaste, aos carunchos e até mesmo à morte. Permitam-me, então, refazer o fragmento da frase [...] mas por esqueletos de móveis abandonados de sua antiga condição de escravizados.

Uma mesa fabricada pelo clementino ainda nos idos dos 1970 ocupava o centro do subterrâneo. Forma pesada retangular, tampo grosso de madeira maciça clara dividida ao meio por depressão onde se alojavam grãos de feijão ou arroz. No tampo, as crianças cavam com a tarefa de separar, dos grãos, os maus carunchados. Quero dizer que separávamos do todo os grãos com algum defeito. Grãos de feijão furados ou quebrados. Grãos de arroz atravessados de um lado a outro por gorgulhos adultos ou servindo de berço ou útero às suas larvas. Estes não iriam para a panela, tampouco para nossas barrigas já ocupadas por lombrigas. Eram segregados. Se não fosse pelo formato da genitália, o gorgulho-do-milho ou sitophilus zeamais seria igual ao sitophilus oryzae, gorgulho-do-arroz. Em que deixemos de lado as diferenças das genitálias, zeamais e oryzae fazem parte de uma grande família de insetos cujo rosto a nado termina numa boca em formato de bico, o que facilita seus ataques aos grãos. Feito a minha, a coloração do gorgulho-do-arroz é preta-acastanhada. No tórax, tem entalhes ovais. Seu pertencimento, portanto, e não apenas o dele, está gravado no corpo. O gorgulho tem asas, mas decidiu não voar, aparentando-se às galinhas. O bico também denuncia esse parentesco um tanto quanto vergonhoso.

Em síntese, embora não fôssemos os anjos de cachos dourados que, no juízo

nal, segundo o apóstolo mateus, separariam os lhos do maligno dos lhos do

reino, também separávamos o joio do trigo. Algo do joio sempre caía no vão que dividia o tampo. Aí, seu cemitério. De certo modo, emulávamos a função principal do homem que se queria branco de cachinhos de ouro da família – separar dos bons, os maus.

Alesọ fazia pastel na mesa de madeira maciça. Seu movimento iansânico esticava e alisava a massa. O mesmo movimento com o pente quente de ferro, ela impunha a meus cabelos, esticando alisando sovando. Seus braços imprimiam um vaivém ininterrupto ao rolo sobre o corpo molusco amassado. Depois do vir, sua mão direita jogava a farinha de trigo por cima do corpo, com força; deveria sofrer a impossível dor da brancura. O rosto se lhe encaretava e ela recomeçava a opressão da qual participava sua barriga de três lhos e alguns abortos. Sua barriga integrava a madeira da mesa como os dedos integram a mão; e o gorgulho, o arroz.

No porão ainda guravam cadeiras armários camas colchões uma bicicleta monark azul-celeste roupas de inverno cabides. Havia coleções de discos de música, os antigos bolachões, na toalha de mesa de um bar você desenhou um coração jurei não amar ninguém mas você foi chegando e eu fui chegando também; o neguinho gostou da lha da madame que nós chamamos de sinhá sinhazinha também gostou do neguinho mas o neguinho não tem dinheiro para casar a madame tem preconceito de cor. Eu amava as músicas cantadas pelo noite ilustrada. Não sei se hoje as continuo amando. Tenho dúvidas se objetos podem ser amados ou se apenas pessoas podem ser odiadas.

Pintadas de preto nas extremidades, as pernas (deveria escrever patas?) da mesa pareciam vestir carpins desgastados. Quero dizer que os carpins não mais se sustentavam na altura mediana da barriga da perna de quem os usava. Desmaiavam até os calcanhares como que fartos da posição vertical. In éis ao destino, lhes restava serem transpostos para um homem mais pobre do que seu dono atual. Um homem que se importaria mais com o fato de os carpins cobrirem as pontas dos seus pés nos invernos e menos com a estética da verticalidade ou da arrogância do nunca desmaiar.

À leitora que desconhece o carpim, tento explicar. Na fronteira entre o país das maravilhas e o país do rio dos pássaros pintados, chama-se carpim a engeneração masculina da meia desde que acompanhada das qualidades de

nura e delicadeza, pois o tecido de que ele é feito se apresenta mais re nado que

o tecido dela. A relação entre uma e outro se assemelha à existente entre a chita e a seda. A chita foi usada por minhavó Anagilda; a seda, pela gilde, patroa de minhatia.

Com seu peso de quinquilharias, o porão se fazia outra moradia. Durante a noite, eu ouvia murmúrios vindos dali e me encolhia debaixo das cobertas, tapando-me dos pés à cabeça com o lençol. Certa vez um cheiro pútrido escapou de suas entranhas, invadiu e tomou conta da casa e de seus moradores, assumindo o lugar reservado ao expaimeu. Tanto foi forte que, lenço tamponando os furos do nariz, o senhor desceu para investigar a invasão dos seus domínios. O fedor era de morte. Uma cadela da vizinhança fora envenenada e resolvera se acoutar entre os esquecidos do subterrâneo.

Dias depois, Teresa, amiga de minhamãe, veio perguntar se não tínhamos visto potira, desaparecida do pátio de sua casa havia duas ou três luas. O expaimeu disse que não. Batendo a porta às costas da vizinha, ameaçou cortar nossas línguas se disséssemos algo sobre a cadela morta. Teresa saiu triste, lenço encarnado na cabeça baixa de cabelos alisados, boca de batom também encarnado que extrapolava o limite dos lábios, camisa de mangas morcego cor verde- bandeira com bolas grandes amarelas comprimindo seus seios pontudos, saia cor de laranja arrastando a polvadeira da rua. Tudo isso fazia Teresa parecer mais triste. Quem sabe fosse mais feliz que minhamãe cujo batom contornava com perfeição os lábios mudos. Dos pulsos até os cotovelos, em cada um dos braços, Teresa usava pulseiras prateadas, algumas com berloques. Quando deu as costas à casa do expaimeu, fazia barulhar contra as pedras que encontrava nas calçadas os saltos altíssimos das sandálias. Alguns a chamavam de Teresa Louca. Mesmo assim tinha marido, o bernardo, lhos e lhas, e parecia não se importar com os sintomas de sua suposta loucura.

Logo à entrada, à esquerda de quem cruzasse pela portinhola do porão, descansava uma faca de cabo de madrepérola cuja lâmina, tomada pela ferrugem, ainda pedia para ser usada na carne de alguém. Ficava pendurada pela coronha num prego pregado nas paredes acimentadas. Um barbante ligava coronha e prego. Segundo o expaimeu, a faca tinha servidão: proteger os esqueletos contra eventuais vagabundos, tipo amuleto vigiando a tumba de um faraó ou o combinado que minhavó aprendeu com Dona Nida. Mais ou menos por aí. Não me exijam tanta precisão nas comparações. O certo é que eu tinha vontade de usar o amuleto contra o expaimeu quando ele começava com sua ladainha constante de brigas e reclamações. Às vezes, nem isso precisava. Bastava que eu fosse lembrada de sua existência para querer manejar a arma branca. Quase um facão, mais pesada e maior que eu. O expaimeu pai não quis protegê-la contra o oxigênio do tempo com os tais metais de sacrifício. Esses metais, se utilizados, poderiam ser consumidos pela oxidação em lugar do ferro que compunha seu

o. Um dia a faca sucumbiu e se tornou mais uma das esquecidas.

Ainda no porão da fortaleza, três sofás vermelhos em bom estado de conservação esperavam alguma bunda sentar neles pela última vez. Tia Eluma não tinha mais sofás em sua casa da minhavó. O lho que se achava postiço os tinha vendido. Contra o destino esperado para esse tipo de móvel, o expaimeu achou por bem fazer uma fogueira com eles, pois não parecia direito doar o que fosse para quem fosse. Dizia que o donatário não cuidaria bem da coisa doada, comprada com muito sacrifício. Nunca recebera nada de ninguém. Não daria nada para vagabundo.

Houve muitas brigas com vizinhos que estendiam seus braços entre os buracos das cercas para pegar limões laranjas bergamotas caídas de maduras no pátio da fortaleza. O capitão preferia que os passarinhos as comessem ou que apodrecessem no chão como a cadela envenenada. Se ele havia plantado as árvores com seus próprios braços, ninguém teria direito sobre elas e do que delas frutejava.

Tão mesquinho. Essa a expressão que escapou da boca de tia Olma hoje pela manhã para se referir a um dos seus irmãos. Ela está na cidade dos ajuntados para fazer uma cirurgia de retirada de tumores cancerígenos do intestino. Enquanto esperávamos que fosse encaminhada ao bloco cirúrgico, volta e meia o expaimeu se fazia presente em nossa conversa. Para suportar gente como ele e primomeu, um dos lhos dela (espíritos muito inferiores) somente usando corpinho. Foi o que disse ela, que nem mais fazia questão de usá-lo.

À leitora que desconhece corpinho, tento explicar. Na fronteira entre o país das maravilhas e o país do rio dos pássaros pintados, chama-se corpinho, na verdade corpiño, não um corpo pequeno, mas uma peça de vestimenta exclusivamente feminina que empina os seios. Vulgo sutiã, em português dicionarizado. Posso tentar criar uma imagem para melhor ser compreendida e evitar as acusações de hermetismo linguístico: o corpiño é o rolo de madeira maciça que minhamãe usava para esticar e alisar a massa do pastel. A massa do pastel, os seios.

 

Cortei com minha faquinha enferrujada sem cabo de madrepérola a insurreição de 1831 para falar do malogro daquela que eu planejava nos anos de 1980. Retorno, então, àquela que me conduziu até aqui. Depois de meia hora quatro mortos doze feridos, os brancos contiveram a fúria da rebelião. No nal da madrugada do dia seguinte, reservada a quota dos corpos encomendados, vinte e quatro dos insurrectos deram-se por enforcados na ponta do mastro. Ali permaneceram. Pendurados. As mulheres, mais audaciosas e perigosas, também permaneceram penduradas. Mas não todas. Antes do nal da madrugada do dia anterior, temerosas do mal maior que se avizinhava, muitas das então sobreviventas se atiraram à salgadura das águas.

Da quota de corpos encomendados, ela foi quase desembarcada num porto da cidade do cruci cado. Acabou desembarcando na rampa do Valongo, num cais da cidade de açúcar. Imediatamente segregada do olho direito da sociedade, foi socada num casarão de teto baixo. Ali outras gentes agora ditas seu povo eram exibidas a homens barrigosos fedentinos, a maioria com mau hálito piolhos mãos coladas ao saco. Esses homens, de dentes cariados, os chamados senhores. De longe, do outro lado do galpão, ela via novas gentes ditas seu povo fabricarem correntes e outros instrumentos. Apenas mais tarde tomou conhecimento da serventia de tais cousas e tais gentes. Apenas mais tarde, nunca soube quanto, foi adquirida por alguém a mando de outrem.

Isso que conto se assemelha a lme que vi na televisão sobre sengbe pieh e

outros cinquenta e dois do continente-ventre ou Abibimañ,18 que mataram a tripulação do navio sanchopancês La Amistad. Os rebelados pouparam da morte dois navegadores apenas para que os navegassem de volta para o ventre. Contudo, os brancos dos olhos azuis de mina apenas fingiam o retorno, como o expaimeu fingia e eu fingia. A apreensão do navio ocorreu no país das fugas por

ferrovia subterrânea,19 quando a tripulação buscava alimentos. A questão foi levada à suprema corte, que decidiu pela ilegalidade da captura. Os parentemeus puderam escolher entre permanecer no país das fugas ou retornar a Abibimañ.

Não sei qual o nome do navio do país das maravilhas em que se deu a revolta de Nube. Sei que as chances oferecidas aos revoltosos foram igualmente duas – morte nas águas ou escravidão na terra. Minhancestra escolheu a última. Sou covarde quanto à vida, preferiria a morte nas águas a ter de arrastar os pés descalços num terreno totalmente novo movediço, da língua às louças, além do fedor e dos piolhos da gente branca. Já confessei para vocês que não raras vezes tive vontade de matar ou de morrer por meio da ingestão de veneno para ratos guardado nalgum armário, tanta a ojeriza que tenho ao que chamam existência. Talvez algum dia ainda me confunda e, em vez de sal, tempere minha comida com raticida ou açúcar.

Ao saber que um dos amigos do seu lho b assassinara a mãe e en ara o corpo na terra das roseiras na parte da frente da casa onde moravam, tendo o cuidado de antes enrolar o cadáver materno num cobertor, tia Olma decidiu abrir mão da casa onde vivia no parque dos marajós, na cidade com nome de santa. Nessa época, ela estava divorciada do extiomeu e morava aí com os lhos a e b. Os amigos de b, todos dependentes químicos, como ele; drogaditos, como se diz. Tia Olma fala disso com audível sentimento de fraqueza. Uma vez teu tio chegou em casa e me disse que tinha visto o filho b no meio da rua, no centro da cidade, de braços abertos, gritando e pulando entre os carros. Mas, larino, por que não o pegaste e não trouxeste para casa? Tia Olma saiu num desespero no meio da chuva fria na tentativa de salvar o lho de algo de que ele mesmo não quis ou não pode.

Tia Olma deixou a casa para b e foi morar com a no terreno-herança de seu pai e sua mãe, no bairro da carolina, lado oposto ao parque dos marajós. A casa deveria ser sua fortaleza sem porão. Soube disso hoje pela manhã no hospital, enquanto arrumava o cobertor nas suas costas para protegê-la do frio. Ela sentia muito frio, como se vivente no país das geadas, onde tudo que tocasse se transformasse em cristais de gelo. Parecia estar sempre fugando da formação dos cristais de gelo sob seus cabelos de Olocum. A casa na carolina, por exemplo, ela construiu com o dinheiro de seus trinta e tantos lavados. A cada pagamento que recebia, comprava tanto de tábuas tanto de pregos tanto de telhas para bem proteger a casa das geadas.

Antes de se transladar do parque dos marajós para a carolina, sua casa o cial se situava diante da praça da estação dos trens, quase no centro da cidade com nome de ana. O trem maluco quando sai de pernambuco vai fazendo xique-xique. Especialmente nas sextas-feiras, seu marido, depois que chegava, supostamente exausto do trabalho no lanifício, jantava a comida feita servida por ela, tomava banho no banheiro que ela tinha esfregado, deitava-se sob os lençóis brancos limpíssimos que ela tinha lavado passado engomado, fechava-se no quarto que deveria ser do casal e que ela tinha limpado encerado e se levantava apenas na segunda-feira próxima, para trabalhar, tendo antes tomado o café que ela havia preparado. Tia Olma nunca fazia corpo mole. Tia Olma até lavava passava engomava as camisas que o extiomeu usava para “namorar”. No final estava eu lá, suando bufando suando bufando para que a camisa do namoro ficasse tão bem-passada quanto se tivesse saído de uma lavanderia. Eu nunca fazia corpo mole. Me disse.

O extiomeu não suportava que os lhos, ainda crianças, zessem barulho, que sua mulher zesse barulho, que um pássaro zesse barulho na janela miúda do quarto que dava para a praça. Tendo que tolerar o intolerável, tia Olma construiu uma peça nos fundos do terreno da carolina para fugar dele. Ela deixava tudo limpo e preparado a comida pronta a roupa lavada a água servida para ele na casa o cial, mas já no sábado de manhã cedo, se retirava com os três

lhos para o refúgio no meio do mato.

Tia Olma não entendia por que as jornalistas comentaristas apresentadoras de telejornais pareciam tão leves e despidas de problemas. Será que elas não são casadas?, me perguntou certo dia quando assistíamos à televisão. Por que, tia? Realmente eu não associara cré com lé. Sim, ela me disse como se fosse algo óbvio, os maridos sempre são um peso na vida da gente, os homens são sempre um peso na vida da gente. O extiomeu foi um peso para tia Olma. O lho b foi um peso para tia Olma. Fugar nos nais de semana parecia um modo de largar toda a carga extraordinária suportada por ela na raiz de alguma árvore mais forte. Mesmo tendo abandonado ao lho b a casa no parque dos marajós, tia Olma o seguiu abastecendo com dinheiro roupa lavada gás de cozinha comida pronta sempre ao meio-dia. Eu cava nervosa quando se aproximava o horário em que ele chegava para almoçar, sempre brigando, sempre de cara feia, sempre dono da verdade, sempre exigindo dinheiro, ela me confessou. Esse medo não me era nada estranho. Eu também o sentia quando, criança e adolescente, se aproximava o horário do expaimeu retornar do serviço no lanifício para a casa onde me inquilinava. Desde que soube do câncer, tia Olma resolveu fazer um grande rancho no supermercado, depois de ter juntado um bom dinheiro com a ajuda do lho a. O rancho, ela entregou ao b, dizendo-lhe que lá à casa dela ele não mais retornasse. Desdaí se permitiu sentir dor reclamar car na cama e receber o atendimento médico de que necessitava.

Magra. Alta. Rosto grave. Olhos miúdos. Melhor seria desistir de compreender a nova terra e se empenhar apenas em pisar a lama sob os pés. Tia Olma também alta magra rosto grave. Mas falo da outra mulher, daquela que se revoltou no navio escurando o dia nos olhos de alguns brancos.

Os jornais da cidade de açúcar noticiaram o apresamento do navio por uma escuna do país de mary sanguinária. Seu comandante deveria ser preso e julgado por fazer escravatura, mas fugiu antes do início do processo. A demora em chegar a uma sede de tribunal para o julgamento se deveu a rodeios do capitão apreensor que primeiro ancorou no castelo de cape coast, na costa dourada, para se abastecer de comida e água e, ao mesmo tempo, abandonar à fome e à sede dez homens e quatro mulheres que sofriam de disenteria. Dali o navio tomou o rumo da serra dos diamantes. Somente depois de trinta dias contra as correntes marítimas, o capitão resolveu tomar o rumo do país das maravilhas. Foi nessa primeira parada que os tra cantes brancos fugiram.

Essa história, desde o início do capítulo – embora não com as mesmíssimas palavras –, eu li num escrito da bisa Redugéria. Parece que o sonhei, pois sempre que o leio, sinto o gosto da salmoura e sua queimação em minha língua, além do fedor da gente branca. É a mesma sensação de quem, no sonho, cai de uma altura inversa à do primeiro andar do edifício mais insolente e acorda com a impressão do tombo e mais a vontade de tirar o barro dos sapatos. Parece que não se dissolveram na água as pedrinhas de sal grosso. Parece que resistiram a se misturar com o que aparenta suposta diferença, como se soubessem o que sim e o que não.

Atrás das casas da avenida candango, no bairro da carolina, onde anos depois a bisa ergueu as paredes da sua morada, havia uma escola, a primeira da região, construída no tempo do saladeiro. As aulas eram ministradas em espanhol por professores do país do rio dos pássaros pintados, contratados pelos donos do empreendimento do charque. Não se autorizou que minhabisa, uma trabalhadora braçal, fosse aluna. Ainda assim, cada dia antes do ofício da feitura de sabão, ela contornava o espaço principal da charqueada para chegar às portas fechadas da escola e ouvir as aulas às escondidas, escorada a um poço que servia água aos estudantes. Assim se atreveu à aprendizagem da leitura e escrita em espanhol, língua que lhe parecia açúcar, em contraposição ao sal do charque.

Seus donos, da charqueada, compraram toda a imensidão de terra denominada rincão da carolina. Além da estrutura necessária para a preparação do charque, a empresa contava com uma fábrica de velas e de sabão feitas de partes do animal charqueado. Nessa época, ainda não existiam graxeiras a vapor. Cabeça encéfalo estômago coração miúdos tutano serviam à preparação da graxa, que, depois, era encerrada na bexiga e nos intestinos grossos, para ser comercializada. Dos intestinos, membranas peritônio se fazia sebo. Tudo isso era atirado num panelão fervente. O sabão nascia dos sebos e das graxas dessas partes gordurosas do gado, dizia minhabisa. A graxa vinha de uma gordura mais na; o sebo, de uma gordura mais grosseira. Minhabisa também sabia fazer velas e ceras dessas partes gordurentas. As mesmas velas às vezes usava para iluminar a casa quando não tinha dinheiro para alimentar o lampião com querosene.

Há uma conhecida frase do famoso poetinha segundo a qual a maiorias das mulheres feias serviria apenas para fazer sabão. Isso demonstra quanto esses homens, por mais reconhecidos nas suas áreas de arte ou saber, quase nunca sabem nada de nada e, quando muito, são apenas potáveis, se não odientos. Minhabisa fazia sabão; se não zesse não teria o que comer nem os brancos teriam com o que lavar suas bundas sujas. Agora me assaltou a dúvida sobre eu ter interpretado tal frase, a do poetinha, no sentido original dado por ele ou ter dado a ela sentido menos pior. Não sei. Não vou perder o tempo da leitora com essa besteira.

Para atrair os trabalhadores “menos quali cados” e os manter próximos ao lugar da matança, evitando faltas, atrasos e eventuais gastos com transporte, os donos das charqueadas lhes doaram parte daquelas terras da carolina. Para os charqueadores, as terras valiam quase nada; mas, para os trabalhadores, valiam mais que uma vida de trabalho. Competia a cada um erguer os alicerces e as paredes de sua casa. Minhabisa não era trabalhador, era trabalhadora. Sendo chefa de família e boa na feitura do sabão, conseguiu convencer os donos, hablando em bom castelhano. Recebeu de papel passado o pedaço de terra onde construiu a casa herdada pelo tuba.

Decidida, tomó cada burbuja de jabón y le puso un nombre; era lo mejor que sabía hacer hasta ahora, nombrar, y que las cosas le estallaran en la mano. Redugéria gravou na memória esse poema que ouviu escondida entre as pedras do poço. Determinada, pegou cada bolha de sabão e deu nome; a melhor coisa que soube fazer, nomear e ter as coisas explodindo em suas mãos.

Quando se internou nessa charqueada, não tinha mais que doze anos. Sim, seus pés, digo papéis, os encontrei entre contas e fotogra as na maleta retangular de couro marrom em que tuba guardava o clarinete. Um evette schae er de ébano, comprado de um contrabandista da cidade com nome de general, bandas do país do rio dos pássaros pintados.

A maleta está comigo, na prateleira mais elevada da estante. Tia Olma a entregou a mim juntamente com o peso mudo de sua história mal contada. O clarinete, não; seu corpo negro e magro desapareceu depois da morte do clarinetista. Dizem que morreu esclerosado. Ainda na polvadeira da casa da avenida candango, ele mantinha o clarinete na última prateleira de seu guarda-roupa para que os lhos pequenos não zessem sopa de ossos de suas teclas. Suas teclas prateadas. O expaimeu reclamava que o pai não deixava que tocássemos no clarinete para não machucarmos seus ossos. Depois que vovô morreu, o instrumento sumiu. Já disse de seu desaparecimento. Não me conformo. Talvez tanta repetição seja para que eu mesma me convença do fato. A morte do avômeu não me causou tanto sofrimento quanto o sumiço do clarinete. O clarinete consistia em seu duplo. Um duplo falante.

Até comecei a aprender a tocar o instrumento, queria algo de tangível que me ligasse ao avômeu que não o expaimeu. Acabei desistindo depois da primeira canção, acho que “Asa branca”. Cheguei a ler partituras, algo que o avômeu dispensava. Meus dedos são curtos; os do avô eram muito compridos. A parecença acabava aí. Hoje, apenas nos vincula a maleta vazia, que mais se assemelha a um caixão no aguardo do morto.

O que conto também se alojava no escrito da maleta esvaziada do corpo do clarinete. Minha bisa o escreveu, repito. A mulher de quem ela fala chegou no início da madrugada, transladada da cidade com nome de cruci cado para a cidade de açúcar e daí para o porto da cidade enorme e daí para a cidade das salgaduras. Os sopapos que a recepcionaram lhe avisavam daquele mal sentido nos mares. Nube – este seu nome – até que não se equivocara. Mas, antes, se tratava de gente submetida à carni cina do gado na charqueada; pediam permissão ao Enugbarijo para procederem com o inevitável. Nube chegara ao sopapar no início do fazimento do charque. A charqueada da cidade das salgaduras era um castigo por sua participação na revolta. Parenteseus envolvidos noutras rebeliões para lá tinham sido tra cados. Nube soube disso bem mais tarde.

A condição do parentesco dado pelo sobrenome negro, inicialmente atribuído por outrem, foi interpretada, com severas reservas, por outra parentaminha, Adah, que se transladou, com suas péspernas, de um país em Abibimañ para o da mary sanguinária em meados do século XX. Não entendia por que, naquelas bandas, bastava alguém ser olhado negro para que todos assim visualizados fossem considerados seu povo. Esses pensamentos assaltaram seus cabelos certo dia quando um vendedor louro numa rua insistiu que ela comprasse um pássaro, pois, seis ou sete dias antes, um de sua gente, alguém das Índias Ocidentais, tinha comprado. Não creio que Xuela tivesse visitado tal lugar para comprar o pássaro, mas ela nascera e se criara nas Índias Ocidentais, um nomequívoco utilizado pelos oyinbo para descreverem os territórios dos quais se apossaram na atual Améfrica.

Hoje um pássaro, não beija- or, mas pássaro igualmente pequeno como a cabeça do tuba, pousou sobre a rede de proteção que tenho nas janelas de casa. Tentei fotografá-lo com o celular, suas asas não tiveram paciência com o ritmo lento de meus braços. Adoro pássaros. Na grandeza inversamente proporcional a tal adoração, sempre detestei arroz com charque, embora não soubesse nada da história da bisa até o encontro com a maleta. De início, o problema era mais com o excesso de sal, salgadura que não se desfazia nem com muitos escaldamentos. Depois, o problema passou a ser o arroz branco na minha cara pretina.

dona maria augusta cuña amava arroz com charque e odiava as nuvens que urubuzavam os cadáveres no terreno próspero de sua charqueada. Abutres de merda. Enquanto os parentemeus sopapavam, ela tocava piano de cauda no centro da sala da casa. Aprendera de ouvido. Dizia que o som civilizado das cordas evitava o contágio “dos seus” pelo paganismo dos couros. Falava um pouco de francês, estava no sangue, e assim foi que vistoriou o ajuntamento de gente escravizada que se aparentava.

O capataz lhe tentava impor tranquilidade relativamente aos rumores de revolta negra que ruidavam suas orelhas pequenas de onde caíam bolinhas de pérolas. Coisa mais linda do mundo. No entorno do pescoço sempre o colar de pérolas. Três voltas. Brincos e anéis também do chagrin das ostras. Cabelo de um loiro armado. Dedos nos alongados pela prática do piano. Olhos de um azul turmalinado.

Numa charqueada, dona maria augusta, é quase impossível nascerem e se alimentarem os vícios típicos dos negros. Quede-se tranquila, aqui os negros não podem satisfazer seu gosto pelos licores espirituosos como lá na cidade com nome do crucificado. Aqui pouco ou nada eles têm para roubar. Seus divertimentos são domésticos. Não há ocasiões para figurarem nesses ajuntamentos onde vão encontrar rixas seduções ciúme e os apetites da vingança. Charqueada bem administrada, como a sua, um purgatório para esses negros. A senhora, dona maria augusta, uma santa!

Anos mais tarde, o nome de minhatrisa foi encontrado entre os bens de sua senhora cuña junto com o de mais cento e vinte e três escravizados. Estou com cópia desse documento. E da certidão de óbito do expaimeu. Entre outros, a nobre dama mandara arrolar quatro aprendizes de carneador três de salgador dois de campeiro um de carpinteiro três de enlaçador outro de calafate três desnucadores dois derrubadores cinco desossadores. O rebento dela, que herdou parte desses bens (a outra se acalhambou) se tornou o charqueador mais rico da região, não por engenho pessoal nem apenas por quantidade de escravizados, mas por saber técnico, espiritual e a prática de organizar a produção que sua mão (de obra) dominava.

De outro lado, a dinastia de Nube – a mãe de minhabisa (que se perdeu, legando a Nube o título de minhatrisa) minhabisa Redugéria (mãe do tuba) tia Olma tia Ebema ( lhas do tuba e da Shatta e irmãs do expaimeu) eu (ex- lha do expaimeu e de Alesọ) – herdou mais as dívidas pela vida, sua e de outras, do que alguma riqueza que não fossem seus corpos em comodato. Nossa dinastia herdara o dever de se ajoelhar na presença da dinastia cuña, dívida impagável que nos coube saldar. Eu não entendia. Quando entendia, não deixava de ter raiva. Onde estavam os adirês de índigo variegado as contas segi as indés onde estava o otjize salpicado com a fragrância da resina de omumbiri onde os banhos omirosos os chifres de búfalo os espelhos prateados as pérolas tudo herança de nossa ancestra, mesma que se transformou em pavão queimou-se em abutre para cair novamente água sobre a terra.

O expaimeu vivia brigando com seu irmão e irmãs pela propriedade da casa e do terreno no bairro da carolina. Depois que vovô morreu, não sei se zeram inventário formal, mas, en m, os herdeiros dividiram o único bem entre eles. O expaimeu nada recebeu. Em sua juventude, certo homem branco de posses lhe propôs a compra de parte desse imóvel, enorme. Eu ainda não havia nascido. No dizer do expaimeu, o terreno pertencia ao tuba. Shatta estava excluída de qualquer direito de propriedade. O expaimeu falou então com o avômeu que parece ter com um resmungo aceitado o negócio e com outro concordado com a doação de percentagem do dinheiro da venda ao intermediário. Foi com esse dinheiro que o expaimeu comprou terreno lá do outro lado da cidade com nome de santa onde construiu a casa para nos inquilinar, Alesọ incluída. O terreno era dele, berrava, a casa era dele, mesmo minhamãe se arrebentando de trabalhar para construírem algo em comum. Que nada! Estou na posse do registro de propriedade, do papel, digo. Realmente o nome de minhamãe foi excluído; aos olhos dos homens brancos da lei, tudo do expaimeu.

Esses papéis, não precisamente os mesmos, contam que inexistiam mulheres escravizadas nos ofícios principais das charqueadas. Seus corpos se destinavam a atividades secundárias, fazimento de velas sabão pães de sebo grosseiro ensacamento. Nada que exigisse força herculana. Nube minhatrisa desmente tal história. Não trabalhava fazendo sabão velas pão, mas na picada da carne para charqueamento. Habilidade para esse fazer, uma imposição. A faca podia provocar profundos entalhes em quem a manuseasse com preguiça desleixo imperícia desgoverno ou com pouco domínio. Não era o caso de Nube com sua idá.

são bartolomeu foi escolhido padroeiro da charqueada onde Nube lidava. Sua senhora explicava que o apóstolo tinha sido supliciado com esfolamento de todo corpo. Depois, decapitado. Na capela sistina, alguém o pintara segurando a própria pele na mão esquerda e, na outra, o instrumento de seu suplício, um alfanje. dona maria augusta se apenava das vacas, embora enriquecesse com a mortandade, não apenas vacum. Dizia que ninguém melhor que são bartolomeu para se identi car com a dor dos animais. Para Nube tanto fazia a pele descolada do santo, lhe doía, no entanto, a carni cina das vacas.

A dona das vacas era reformista humanitária que se opunha às formas de abate cruéis. Entendia que a morte para produzir alimentos, embora necessária, deveria ser suave. A humanista chegou a peticionar sua participação na sociedade real para a prevenção da crueldade dos animais (rspca), patrocinada pela rainha bastante melancólica.

Isso ouvi do que o avômeu não disse que ouviu de Redugéria que ouviu de Nube que não ouviu de ninguém apenas viveu sentindo seu o couro das vacas. Depois que vinte ou trinta delas entravam pela mangueira pavimentada com pedras escorregadias e chapas inclinadas para a extremidade oposta à entrada

cavam ali encerradas como se wérewère em camisas de força.

No entorno da mangueira, por fora, havia um passeio de tabuões por onde parentemeus ziguezagueavam a altura superior à dos animais. Uma das vacas dava o carão no brete e enlaçava seu pescoço aquele que a esperava. Na charqueada onde Nube usava seu idá, o enlaçador se chamava juan. Alto bonito odor de lavanda recém-cortada. Há alguns dias ganhei um pé de lavanda que acabou não resistindo à vida. Precisava de rua vento poucágua. Eu lhe dei claustro as xia inundação. Iyá Aina o deixou no portão do prédio, uma das formas de tentar me reconectar a meus antepassados por algo mais que um clarinete. Não disse nada a ela sobre a morte aguacera.

juan prendia a ponta do laço à junta de bois que movimentava um guincho. Mesmo que a vaca enlaçada resistisse a seu amor lavandeiro mugindo pateando, escorregava e tombava muuuuuuu próxima ao cercado muu. Um amor de morte o de juan e as vacas. Às vezes o enlaçador desaparecia da charqueada para bandas insabidas, nunca por tempo que pudesse alertar de sua falta o capataz. O amor entre eles era de morte regada à cachaça.

O desnucador gonçalo, já à espera da vaca escorregada, então tinha chance de fazer uso do punhal comprido a ado. O punhal sua joia. Se quisesse, mataria o capataz num átimo. Enquanto apunhalava a vaca, cochichava com outros parentenossos sobre a morte de um tal índio pedro, baleado pela patrulha municipal na rua das ores. pedro vindo da província do mesmo lado do rio da prata.

Num domingo pela manhã, a patrulha formada por cidadãos de bem fazia a ronda quando o encontrou, a cavalo, pistola na mão. Onde já se vira índio a cavalo? Ao ouvir a voz de prisão, pedro disparou contra a patrulha, que contratirou. Atingido, matou a balaços seu cavalo. Ao tentar fuga, a patrulha o alvejou. Em sua posse, pólvora. Encucado, gonçalo passava a vaca através de uma porta e a deslizava sobre vagão puxado por parentenossos, um deles a cavalo.

Na cancha, o animal era derrubado do vagão por alagemo e agemo, gêmeos idênticos. Os lhos a e b de tia Olma também são gêmeos idênticos, mas não muito. Um deles foi quase esquecido (pelo médico) no útero dela no dia do parto, o lho b. Minhatia não sabia que o esperava e até hoje ele desanda como se fosse bezerrinho rechaçado pela vaca. Anéis de metal dourado no indicador e médio esquerdos de agemo brilhavam mais que lampião aceso em dia de sol, grossas alianças encobriam suas falanges, raspavam no couro vacum carícia espinhosa. É incrível, conheci alguém que se orgulhava de nunca ter tomado banho de chuva, apenas de piscina chuveiro banheira de patas na forma de garra de leão. alagemo tomava banhos de chuva oculto ao olho direito da charqueadora. Ela não queria prejuízos causados por resfriados e outras doenças em sua melhor mão (de obra). Um dia alagemo desapareceu qual se engolido pela água queda dos céus. dona maria augusta, coração dolorido pela perda, mandou publicar anúncio oferecendo recompensa pelo escravizado. Escravo fugado. alagemo, altura mais do que regular, não é bem preto, maçãs do rosto salientes, pernas arcadas, dentes limados, cabelos bem penteados, gura bonita, vinte e oito anos, derrubador de vacas, toca sopapo, tem trocado o nome pelo de aemo. Grati ca-se a cem mil réis. Entender-se com o capataz da charqueada de dona maria augusta cuña.

agemo sabia de algo, mas cou alisando o couro das vacas com o ouro de seus anéis.

Os gêmeos conheciam o tal índio pedro. Ele integrava a tropa de peões que, em época de matança, conduziam para as estâncias o gado comprado para ser transformado em charque. pedro entregara aos gêmeos, por meio de raúl, uma arroba de ouro. raúl andava por toda a cidade das salgaduras e arredores vendendo pavões e doces para seus senhores. Isso lhe conferia enorme capacidade ambulante. Derretida, a arroba de ouro foi transformada em balas por meio de um canudo de taquara soprado por alagemo.

Concluída a derrubada, outro parentemeu, de pestanas pesadas, também a cavalo, arrastava a vaca pelo piso da cancha. Outros a esfolavam em minutos. Outros iniciavam o esquartejamento. Nunca se viu cair uma só gota de suor sobre as vacas sacri cadas. Também não havia risos. Também não havia alegria. Tambores? Sopapavam antes, no início da madrugada.

Sempre que eu caía e machucava os joelhos, geralmente brincando de mancha na rua, vovô tuba abria a boca, milagrosamente, para dizer que me esfolara feito vaca. Eu escondia a queda do senhor expaimeu com medo de que ele passasse à fase seguinte, do esquartejamento. Se me esfolara era porque não estava fazendo o que ele mandava, merecia então castigo bem grave.

Outros faca adas esperavam os cortes do animal para seguirem no rito de transformar vaca em charque. Um deles, kotonu, unhas tão largas que abrigavam um camaleão, suspendia os pedaços despedaçados arrastados até o galpão. Começava o trabalho de salubi, desossador. Os ossos divorciados da carne se enviavam a outros de minha laia.

Iniciava-se a charquia. Grandes pedaços irregulares de carne viravam mantas de um centímetro e meio de espessura e um metro e meio de largura, mais ou menos. Nisso trabalhava gente mais experiente. A carne cava estendida sobre uma barra de madeira, tendo, de cada lado, escravizados que pareciam velá-la. Minhatrisa usava sua idá nessa função: retalhar a vaca antes de carregada para o saladeiro.

Nube jamais se permitia o cansaço. Ele e ela estavam em lados opostos. Ela achava que sobreviventas não se cansavam, para descansar existia o mundo dos mortos. Certo dia, amanheceu. Amanheceu e sentiu o cansaço agarrado a seus calcanhares; havia entrado sorrateiro através de janela deixada aberta por descuido. No momento em que caram do mesmo lado, ela cansou da charqueada das vacas do cheiro de lavanda de juan do fedor de sangue que exalava da pele translúcida da senhora cansou de seu piano de suas joias. No dia em que se permitiu o cansaço, Nube sonhou. Na calada da noite, dona maria augusta na tranquilidade de seus travesseiros de penas de ganso, ela, Nube, com outra mulher desconhecida e uma criança de tranças, rodavam e rodavam seus corpos com os braços bem abertos no sentido horário no sentido anti-horário depois no sentido horário com mais força até carem tontas e baterem as mãos fechadas em todos os armários e aparadores e mesas da casa da senhora. Seus golpes amartelados, levavam ao chão anaquéis com o serviço de chá e os pratos de porcelana que dona maria augusta tanto gostava. Uma imitação da louçaria que dom joão vi trouxera para o que ainda não era o país das maravilhas, os pratos adornavam-se com quatro ramos em cruz e com a orla rouge de fer, como dizia o francês da senhora, alternada com estilizações de ramos na cor azul. Num dos cantos inferiores do centro dos pratos um casal de pavões sobre rochas e um ramo com grandes peônias, separadas da borda da peça por um friso ordelisado. A trindade do sonho fazia os pratos se espatifarem com seus pavões bobos no chão duro. Por m, pés descalços, a trindade pisava a cara da senhora.

alagemo pedira permisso ao general manoel padeiro para que pai francisco o acompanhasse na venda de milho e na compra de fumo e pólvora nos arredores da cidade das salgaduras. No caminho, mataram a punhaladas no coração e estômago o capataz e invadiram o engenho, de onde ensacaram e subtraíram milho. Com eles fugaram mais parentenossos, inclusive Carmenza, que passou a andar com duas facas, uma em cada lado da cintura. O bando andou durante quatro dias e meio até um bolicho no local chamado boa vista, de propriedade de pai simão. Aí trocaram o milho por arroz feijão fumo pólvora, artigos de venda proibida aos nossos. pai simão venderia o milho a preços altos.

No retorno, que demorou cerca de cinco dias, foram avisados por sopapadas nas senzalas vizinhas que o quilombo mudara de lugar por segurança. Os rebelados tiveram de retornar um dia. Chegaram ao novo refúgio com mais cinco recolhidos das estâncias invadidas e pilhadas.

Os recém-chegados passaram a noite inteira conversando com o general padeiro. Houve ânimo para dança e canto. No dia seguinte, alagemo foi com o general a outra charqueada. Lá negociaram com um castelhano a compra de mais pólvora, sob proteção de uma mucama incumbida de alertá-los a respeito da possível aproximação de algum capataz.

O próximo assalto seria a uma grande charqueada. Após a degola do capataz, o plano era libertar os parentenossos e atear fogo na casa principal. Gado charque instrumentos de trabalho seriam recolhidos e comercializados por contrabandistas previamente contatados. juan, que conseguia sair da estância onde estava escravizado, respondia por esses negócios.

Os calhambolas executaram o plano com perfeição. Atacaram a charqueada de dona maria augusta cuña, libertaram e declararam livres toda a gente empretecida que quisesse seguir com eles, alguns não quiseram. Primeiro invadiram a casa-grande e recolheram dinheiro joias roupas feijão farinha graxa estribos colheres de prata documentos relativos aos escravizados para que os senhores e as senhoras tivessem di culdades em contá-los e descrevê-los às autoridades. Depois mataram, pelas costas, o capataz, que dormia num anexo à casa-enorme.

Nu, atado a uma cadeira, cou o lho da senhora, futuro barão de cajá. Enquanto tudo isso ocorria, a senzala fazia festa, cantando dançando sopapando. A senhora, ouvindo, acreditava que estava tudo bem e seguia comendo seus papos de anjo distraída da morte e da vida pela doçura propiciada pela salgadura da carne.

Nube encontrara a única saída para seu cansaço. Fugou da casa. Não calçava chinelos. Não houve armadilha ou cobra da qual não desviasse. Caminhava entre alagemo agemo kotonu salubi gonçalo raúl e outros com os quais ia entabulando conversa, sua idá em punho disposta a matar qualquer um que se atravessasse. O bando deitou acampamento num rancho construído à base de palha de giribá, próximo a um arroio, onde os esperava com comida e água uma mulher de nome Carmen.

Anos daí, um ataque assolou o quilombo e o grupo se dispersou. Fazia um frio de renguear cusco, a geada cobria os campos feito manto branco. Morto de fome e desarmado, alagemo andou e desandou. Seguia a ordem do general manoel padeiro de chegar ao novo ponto de encontro dos rebelados. No caminho, recebeu ajuda do escravizado ludo, que o convidou a se refugiar em um casebre próximo a uma charqueada. Da cabeça de alagemo pendia prêmio de cem mil réis.

ludo foi buscar comida. Voltou com dois capatazes que açoitaram o fugado e o levaram para as autoridades da cidade das salgaduras. A assembleia de jurados, formada pelos corpos inchados dos escravizadores donos das charqueadas, condenou alagemo à pena de morte. pai simão, que fornecera a pólvora, foi condenado a quinze anos de prisão. Não sei do destino do general manoel padeiro, mas sua cabeça valia quatrocentos mil réis.

Também não se sabe de que maneira Nube alcançou a cidade com nome de santa onde, no nal da madrugada de uma sexta-feira, foi reescravizada com uma criança de colo. De seus poucos pertences, foram expropriadas louças imitação do serviço de pavões, que tanta realeza davam à ex-senhora. Colado ao corpo, minhatrisa conseguiu manter alguns documentos com que os calhambolas não alimentaram o fogo.

 

Tia Olma estava cansada do lho b, seus maus-tratos mau humor drogadição falta de dinheiro sua vida de rebento esquecido no útero. Ela mesma admite que foi necessária doença como o câncer para dar m à tirania a que se submetera. Talvez tenha trocado uma tirania por outra; para meu próprio bem, espero que não, ou serei obrigada a pensar que a bruteza entre nós é herança única, verdadeira ou ilegítima, que a crueza é a louça que nos basta.

Que gente éramos nós, insistindo na bruteza uns com os outros? Pessoas tão parecidas, que compartilham história comum de sofridão humilhamento escravidez, ensinadas a brutalizar umas às outras até na infância: não era mistério para minhaprima Xuela, mas para mim. Ela tem razão quando diz que as pessoas a quem deveríamos brutalizar estavam naturalmente além da nossa in uência.

Tia Olma mistura num mesmo saco furado de arroz seu lho b o expaimeu e o irmão deles, antom. Hoje, ainda antes de sua cirurgia, ela me contou que, se por acaso se atrevesse a desatender a qualquer pedido do tiomeu, ele apedrejava a casa dela. Quando vocês eram crianças, tia? Não, agora, depois de velhos. Balancei a cabeça querendo dizer que não entendia de onde tudo isso, de onde tanta tirania. Quando me dei conta de que repetia o balanceio de cabeça do expaimeu, paralisei. Pensava que o tiomeu fosse diferente, me enganei. Assim também se enganou a senhora dona maria augusta, que cou comendo papos de anjo enquanto a charqueada se esvaziava das gentes das vacas das louças do charque.

Câncer já foi doença de gente rica. Os vizinhos do avôteu no bairro da carolina morriam de tuberculose, não de câncer. Quase todos meus patrões patroas e patrões patroas da tuavó morreram de câncer no fígado pulmões pâncreas intestinos. Não se pronunciava o nome da doença. Acho que as células cancerosas cresciam feito o dinheiro da gente rica para quem eu trabalhava. Eu nunca soube de onde vinha tanto. Acho que o câncer deles nascia do medo de terem suas casas fazendas estâncias casas de praia e fábricas invadidas e tomadas por nós. Não sei de onde fui pegar essa doença. Mas, tia, deixando tantas casas, fugando tantas vezes, será que a senhora não tinha medo de ser invadida por alguém, de modo que pensava em fugar para sempre, perdendo o pouco que tinha para os outros na ilusão de evitar ser invadida? Tá, mas sendo assim, nessa situação precária eu deveria estar sofrendo de tuberculose e não de câncer.

Não sei, tia. Apenas li que as células saudáveis se multiplicam quando necessário e morrem quando o corpo não precisa mais delas. O câncer aparece quando a célula se esquece de morrer. Será que eu mesma não me esqueci de morrer? Não sei, tia. A senhora disse ao médico que queria viver, por isso vai fazer a cirurgia. A senhora mentiu?

Minha saída da cidade com nome de santa foi igualmente uma fuga, porém consentida pelo capitão da fortaleza. Eu me autorizei. Ele consentiu. Não foi como o caso de certas mulheres que se casam em fuga da casa do pai. Não me casei nem queria esse destino, poderia ser idêntico àquele do qual eu pretendia me livrar.

Me bandeei à capital car longe do expaimeu. Sua violência me consumia como se consome um lé com fritas. Ele esperava que eu retornasse à fortaleza para abastecê-lo com dinheiro comida cachaça corpo para maus-tratos e substituir Alesọ no trabalho doméstico. Não retornei. Não retornarei. Ainda espero me estranhar cada vez mais desse parentesco amortalhado. ana me diz que, mesmo no mundo dos mortos, ele me controla. Sua frase me desacorçoa. Talvez a liberdade para mim seja sonho, como foi para minhatrisa. Nem pensem que não guardei seu punhal. Sou muita dissimulada. Uma negrinha metida dissimulada.

Nube não teve a liberdade que eu não tenho. Bem depois da Lei do Ventre Livre, a lha que ela concebeu no quilombo do general padeiro teve uma lha de nome Redugéria. Engraçado, muito engraçado, que um ventre pudesse ser livre e a mulher que o carregasse, escravizada. O corpo da mulher passava pelo processo de esquartejamento para que dele fosse libertado o ventre. Na verdade, não há graça nenhuma na ideia de um corpo esquartejado como o das vacas da charqueada de onde Nube fugou.

Historiadores explicam que, na prática, essa lei foi abolição gradual tendo em vista que a geração seguinte nascida no país, a da bisa Redugéria, seria completamente livre. Nunca aconteceu. Nenhuma geração negra foi ou é completamente livre. A lei que libertava o ventre do corpo determinava que as crianças permanecessem em poder dos senhores de suas mães até os oito anos de idade. Depois, poderiam entregá-las ao governo com direito a indenização ou utilizar seus serviços até os vinte e um anos. Também nunca aconteceu. Temos senhores ainda hoje. Dentro de nossas próprias casas.

Por isso entendo minhaprima Xuela no ato de retirar do ventre, ainda que com a mão esquerda ou pela simples força da vontade, qualquer criança que tentasse viver aí dentro.

Não sou mãe de ninguém. Nube foi mãe da mãe de Redugéria. Redugéria foi mãe de tuba, avômeu tão alto magro quanto vara de eucalipto. Pena que não exalasse seu cheiro verde. Ele sabia os segredos de se cozinhar o bom arroz com feijão, de fazer papos de anjo, de lavar roupas. No nal da madrugada, quando cessada a matança das vacas, saía do frigorí co ensopapado de sangue no avental alvejado. Imediatamente o lavava num panelão de ferro com água fervente. Usava sabão em pedra para escová-lo. O avental assujeitado ao sangue da morte, depois de exposto ao voon rooh oh do sol, cava quase translúcido, façanha que nunca consegui me expondo a seus raios com minha pretidão ensaboada. Para mim, o sol era mais venéreo que mágico.

O panelão cava no pátio da casa de tábuas. De quando em vez os olhos da madeira branca eram furados pelo movimento do vento, que esfriava ainda mais seus poucos cômodos. Não gosto da rima mento e vento, torna a frase pesadona, ela mesma o panelão do tuba. Melhor seria sopro do vento, mas suportarei o desagrado como suporto o gosto de charque. Guardarei o sopro no fundo do relicário.

Enorme o terreno que suportava a casa quase desabando sobre ele. Tenho me perguntado de que modo vô tuba e minhavó Shatta conseguiram comprá-lo. Mas soube de tia Olma que vovô não o comprou. Recebeu de herança de sua mãe Redugéria, o que me surpreende porque, em geral, nós é que éramos deixadas como herança junto com outras quinquilharias das estâncias ou charqueadas. Nós é que éramos também não está bom. Peço à leitora que releve.

Certa vez uma colega de trabalho foi até meu apartamento, um imóvel antigo, alugado no rio do barro. Comentou que tinha achado legal o “cantinho”. Fiquei soltando fogo pelas ventas, como dizia minhavó Anagilda. Por que meu apartamento seria “cantinho”? E por que o diminutivo me incomodava tanto? Me lembrava da miudeza de minha vida? De meu nal supostamente pequeno supostamente mesquinho num hospital onde tudo falta numa cidadezinha do interior que não se decide entre o nome de santa o nome de ana ou de liberdade? Um m pequeno de uma vida que pereceria tão pequena?

ana pergunta se a revolta não foi comigo mesma, se a frase de minha colega não teria remexido algum “cantinho da saudade” inquilinado em mim. Sempre tive medo de morrer na miudeza de uma vida cheia de dívidas impagáveis feito piolhos no meu cabelo. Me assombra não ter conseguido adquirir nenhuma propriedade, nada meu, nem uma casa, apesar de todo o trabalho sem descanso. O pobre não repousa, nem tem o privilégio de gozar descanso, está registrado no dia dezesseis de julho no quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus.

Tenho umamiga que dorme muito, sem nenhuma culpa. Ela construiu a tese de que nossancestras trabalharam mais que a conta, o que hoje nos permitiria descanso antes da morte. Teríamos gorda poupança de trabalhos forçados no banco do país das maravilhas. Transmiti isso a tia Olma, que reclamava de seu sono insistente como se não devesse senti-lo. Com olhos arregalados de Nube, arrematou dizendo-se aliviada por ter despachado o lho b. Chegara momento de dormir sono que não da morte.

O cantinho, utilizado a uns dois parágrafos, me remeteu à casa de minhatia minhavó minhabisa. Senti-me com pés de pata no chão construído por Redugéria sobre o terreno doado pelos charqueadores. Na época da vovó, as tábuas das paredes da sala do quarto da cozinha todas em desalinho quase desabavam sobre minhas tranças alinhadas. Para minhabisa, sua casa não era cantinho. Para mim, que invejava a casa boa dos colegas brancos, quem sabe a casa dela fosse cantinho. Quanta casa nesse parágrafo. Talvez devesse substituir algumas por sinônimos para mostrar meu domínio da língua portuguesa, já que sobre minha vida não tenho nenhum.

No pátio, o rito de lavagem do avental sangrento se iniciava no nal da madrugada, quando ainda as estrelas velavam a vaca do dia anterior. Seu término ocorria apenas quando o sol dava por acabado o ofício de branqueá-lo. O sacerdote avômeu vestia o pano branco depurado pronto para outro rito de morte.

Atualmente entendo por que akhenaton amava tanto os raios solares. Um faraó de seios quadril largo coxas grandes rosto comprido queixo de lagarto nariz aquilino dedos dos pés e mãos nos in nitos, um menino real em sua solidão quando no nal da madrugada sua família acompanhada dos sacerdotes de cabeça raspada entoava orações para aplacar os deuses por ele mais tarde assassinados.

O senhor expaimeu vivia xingando o avômeu seu pai de vagabundo. Dizia que não era mais que um lagarto preguiçoso estirado ao sol. Estava enganado. Nem um único dia tuba faltou ao serviço no roma. O frigorí co tinha várias instalações divididas por função graxaria cozimento do sangue salgadura dos couros conservas moedura dos ossos câmaras frigorí cas rotulagem matança picada tanque para cozer ossos salmoura resfriador. Na parte de fora do complexo cavam carpintaria armazém balança para vagões e gado e a o cina mecânica. Vovô trabalhava na matança, de quando em vez, assumia a picada.

O território do frigorí co formava outra cidade dentro da cidade com nome de ana. Destinado a seus altos funcionários, à diretoria e familiares, ali foi construído um clube social com campos de golfe e futebol, quadra de tênis e sala de jogos. Para prazer e descanso dos brancos da classe reinante, aqueles que tinham as mãos limpas do sangue das vacas enquanto usufruíam dos benefícios da carni cina delas, o avômeu nunca pisou seus pés tortos aí.

tuba apenas um negro matador de vacas, apenas crematório de palavras. Nem casa de latas conseguira erguer. O frigorí co importava do país do rio dos pássaros pintados folhas de aço estanhado para produzir as latas das conservas de carne para exportação. Vendiam-se as folhas que vinham com defeitos aos operários. Eles as utilizavam para forrar por fora as paredes de suas casas, por dentro utilizavam madeira. Dessa forma, as moradas cavam aquecidas no inverno. A casa do vovô sempre foi uma câmara frigorí ca.

Com seus dedos cabeça alongada pele amarela, para mim ele era nada menos que o faraó akhenaton. Não que eu soubesse na época, soube depois quando, com o coração apipocado, ouvi o olodum cantar Egito ê akhenaton o olodum navega o Nilo com os seguidores de aton. rei akhenaton foi um faraó da décima oitava dinastia que iniciou o culto de adoração ao sol fundando em tebas a religião monoteísta agradável para aton ele se permaneceu destruindo o clero de amon pra adorar um único deus construiu aketaton horizonte do disco solar dividindo opiniões entre os povos de lá Egito ê akhenaton. A letra mais ou menos isso, e nós sabíamos o que o olodum dizia e por que dizia, e vibrávamos porque o olodum dizia, embora não soubéssemos o que signi casse deuses divindade in nita do universo predominante esquema mitológico a ênfase do espírito original bará formará no eden um novo cósmico. Eu errei a letra da música, trocando shu por bará. De fato, não sei como isso aconteceu.

Ao falar do ensaio moisés e a religião monoteísta a estudantes, usei um vídeo do olodum. Lhes caiu nos ouvidos apenas a parte referida a tutancâmon, conhecido pelos documentários na tv por assinatura, embora nem soubessem que Kemet se quedasse em Abibimañ. freud constrói a hipótese de que moisés fora um kemetiano da corte de akhenaton. Quando do m da cidade do horizonte do disco solar, ele teria adotado um povo para fundar a judeidade. Desde então penso num moisés kemetiano negro. Não me atrevo a levar a tese além destas páginas, embora outros já tenham feito. Serei chamada de negraloca. Ouvi muitas vezes o expaimeu perguntar à minhamãe se estava loca. Minhamãe wérewère. Eu wérewère, no que certamente me arrisco com este livro. Não precisa muito para que uma mulher negra seja assim alcunhada. E que bueno!

Tanta gente se sacri cou para que os faraós fossem sepultados em suas câmaras reais junto com suas riquezas e criados, para que fossem embalsamados mumi cados e assim zessem, de modo adequado, a viagem para outra vida. Séculos depois egiptólogos os retiram de suas tumbas, sem a menor cerimônia, para expô-los em museus do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca. Não entendo bem isso. A crença no retorno à vida existia em todas as camadas sociais em Kemet, mas os faraós, nobres e ricos, tinham condições de construir sarcófagos bem fechados e grandes túmulos de pedra. Tudo isso garantiu a proteção dos corpos contra saqueadores, mas não contra o homem branco da ciência.

Mais ou menos na mesma época a banda mel cantava Eu falei faraó ó ó eh faraó pirâmide base do Egito eh faraó [...] o grito da vitória que nos satisfaz, cadê? tutancâmon, hei gizé, akhaenaton... em vez de cabelos trançados teremos turbantes de tutancâmon, o povo negro pede igualdade. Nós, que na cidade com nome de santa ainda tínhamos cabelos com o cheiro quente do pente de ferro ou dos produtos de alisamento que desmanchavam por tempo determinado nossos caracóis, nós que frequentávamos o clube dos negros, nós que ainda tínhamos vergonha uns dos outros, pulávamos de felicidade.

Ainda tenho comigo o pente de ferro quente com que Alesọ alisava o cabelo. Dava para imaginar, por baixo do mínimo lenço de seda púrpura, seus cabelos brutalmente alisados armados engomados, que brilhavam ao sol feito o asfalto usado para cobrir, recentemente, certas ruas da cidade com nome de ana. Quando li nossa senhora do nilo, de Mukasonga, me senti menos culpada por confessar o crime de alisamento. O trecho deste parágrafo que vai de dava até ruas é, de fato, do livro que acabo de referir. Apenas substituí ruas de Kigali por ruas da cidade com nome de ana. No restante e no que interessa, não há muita diferença entre aqui e lá.

O efeito de seus dentes aquecidos na boca do fogão sobre o caracol dos os era o mesmo do sal sobre os corpos das lesmas. A experiência de ver Alesọ alisando seu próprio cabelo fez com que eu mesma começasse a alisar o meu. Porém, nunca fui proprietária de um pente de ferro, usava o dela, que hoje é mais um enfeite da casa, assim como a maleta que abrigava o corpo do clarinete do avômeu, sumido da tumba feito a múmia de um faraó.

Agora há pouco, consultando o oráculo para me certi car de que não dizia inverdades sobre “Faraó”, a música, soube que sua letra é de Margareth Menezes. Me enchi de coragem para rever um dos vídeos em que ela canta Eu falei faraó ó ó eh faraó pirâmide base do Egito eh faraó. Porém, não pulei de felicidade ao ouvi-la, quase me agachei para fazer xixi num cantinho da casa como fazia minhatia Eluma antes da bíblia. Me enchi de grande tristeza ao lembrar da Cuandu daquela época dos faraós, que tinha uma pirâmide de sonhos de vencer na vida, de ser alguém. Todos desmanchados. O caracol queimado em sua concha.

Uma noite de chuva, quando me atrevi a ler um trecho de diário de um retorno ao país natal, soube que não apenas eu tinha vergonha, que não apenas eu tentava sem êxito me bandear para o outro lado. aimé césaire também se envergonhara de ter arvorado um grande sorriso cúmplice ao riso das mulheres, brancas eu acho, um riso que zombava de um homem negro muito grande que tentava se fazer muito pequeno num banco de bonde que tentava abandonar sobre o banco sujo do bonde suas pernas gigantas e suas mãos trêmulas de boxeador esfomeado um homem negro cuja cara tinha sido unhada por um grande morcego brusco uma cara cicatrizada um homem negro desengonçado. A miséria zera o bom trabalho de esculpi-lo nessa noite de chuva.

Esse homem negro muito grande abandonado poderia ter sido o avômeu quando tinha dinheiro para ir de bonde a algum lugar que não a frente da casa para fumar fumo de rolo ou aos fundos para lavar o avental branco. Não sei, mas acho que não tive chance de sentir vergonha dele.

Filho de mãe solteira e pai solteiro, o vovô não suportava sujeira. Detesto a rima em eira tanto quanto o avômeu detestava sujeira. O salvador, com quem minhabisa o fez, foi-se embora numa tarde chuvosa de domingo. Não há no mundo nada mais triste que a chuva num nal da tarde de domingo. O salvador escolheu viver com outro homem. Minha ancestra escolheu car sozinha. Não sei se foi escolha sua, dessas subjugadas por uma voz de mando que sentencia. Ficarei sozinha daqui para a frente! Talvez tenha sido o chacoalhar das conchas. Também não sei se, estando com o tal salvador, teria sido salva.

Lela, como chamavam a bisa Redugéria, costumava dizer que seu marido era o trabalho. Sim, ela trabalhou muito no frigorí co e depois nas casas de família. Essa expressão sempre me violentou os ouvidos, dá a entender que apenas a casa dos brancos seria de família, dá a entender que nossa casa seria qualquer outra coisa, talvez uma pensão como a do romance do aluísio azevedo, ou mesmo um cortiço.

O tal salvador meu bisavô. O mal-estar que a escolha dele provocou chegou até mim feito echa lançada do passado. Nunca o pensei parentemeu já que não fora marido da bisa. Certo é que a ruptura se transmite rápido e dura mais tempo, inclusive quanto aos ausentes, do que os sentidos que nos unem. O salvador também trabalhava no frigorí co roma, na moedura dos ossos. Di cilmente via seu lho que não era seu.

Vó Lela criou sozinha o tuba. Ele achava que tinha se criado sozinho como akhenaton. Quando a bisa saía para trabalhar, o deixava acorrentado à pata da mesa da cozinha para impedir que fosse bater pernas por aí. Certa vez desabou enorme aguaceiro e a casa desaguentou a força líquida derrubando seu teto sobre o avômeu que, preso, não pode fugar. Desde então temeu temporais. Ao sentir a aproximação da aguada, se recolhia sob os cobertores da cama, nem sua cabeça pássara cava descoberta.

O senhor expaimeu contava que, quando criança, nos dias do “bezerrinho”, ele, o irmão e as irmãs esperavam o tuba no meio da rua. De tanto em tanto, o avômeu recebia do frigorí co um bezerro para dividir com a família. Os mãos-de-boi donos da empresa aliviavam a consciência quanto ao salário que pagavam aos empregados, apesar de se dizer que pagavam muito bem. As crianças sabiam a data certa, mas o tuba gostava de fazer mistério e o escondia na parte de cima do guarda-roupa. O senhor expaimeu foi procurar o animal para ter certeza de que estava morto, de que poderia ser comido. Subiu no guarda-roupa, que desabou sobre ele com uma fúria iansânica. A dúvida sobre a vida ou a morte do bezerrinho permaneceu, pois, o senhor expaimeu não soube se a futura comida já estava morta ou se morreu na queda. Até hoje ele se abstém desse tipo de carne.

Com uma martelada na cabeça (delas), o vovô matava as vacas. Eu senti necessidade de acrescentar o delas entre parênteses para não parecer que a martelada fosse na cabeça dele. Isso aconteceu, mas não é ainda o momento de contá-lo. Bom, eu não entendia como o tuba podia ser clarinetista violeiro, excelente como diziam, e ao mesmo tempo usar a mão para martelar a cabeça das vacas que até poderiam ser uma encarnação de Nut, a vaca celestial.

Quando o visitava, pedia a benção, vovô e beijava uma de suas mãos, outrora do clarinete, ponteadas por dedos in ndos fedidos a cigarro de palha. Detestava em meu nariz a cena que nele antecipava. Nunca sabia a mão a ser beijada. No início de sua vida fumante, o tuba pitava fumo em ramo.

As folhas do fumo em ramo se colhem depois de três meses de plantadas, quando, meio amarelas nas nervuras centrais, são extirpadas. A relação entre o tuba e o clarinete foi mais ou menos assim. O instrumento extirpado de suas mãos amarelas. Colhidas, as folhas cam expostas sobre uma mesa ou superfície similar para que sequem durante mais ou menos dois dias, passados os quais são penduradas numa haste de madeira. Aí cam por mais quatro ou cinco dias até que amarelem e amaciem. Então são enroladas para formar a corda. O fumo de rolo é curado ao sol durante dois ou três meses, período em que a corda, torcida várias vezes, passa de um sarilho para outro. Nesse ponto, o fumo de rolo também se parece com o avental branco. Ambos precisam do sol para se tornar quem são.

O tuba dominava todo esse processo, mas comprava o fumo de rolo pronto no centro da cidade com nome de liberdade. A rima novamente. Desculpem-me, não vou mais me desculpar pelo vício de aparentar palavras. Eu escrevia que o tuba levava o fumo embalado para sua casa, depois o cortava em pedacinhos com uma faca (me seguro para não dizer faca só lâmina) pequena e bem-a ada que tinha no fundo de uma gaveta no quarto. Des ado, o vovô o enrolava num papel de seda e passava o dia inteiro pitando sem dizer palavra.

Se ocupasse a boca para fumar, o avômeu se dispensava de fazer outra coisa com essa parte do aparelho digestivo, falar, quem sabe até, ou especialmente, beijar minhavó. O fumo de rolo não logrou estatuto de vício; o vício mesmo consistia em cremar as palavras, o fumo apenas instrumento da cremação. tuba se sagrava alto crematório de palavras, posição sacerdotal. tuba queimava as palavras para não as entregar a ninguém, para não ser obrigado a simsenhorear os representantes da classe reinante. Talvez tivesse perdido muito. Palavras seriam o único que podia desentregar. Palavras cremadas suas únicas pertenças.

O expaimeu aprendeu a pantomima da língua queimada. Aprendi dele a farsa da língua cortada.

Quando as libertava, as palavras do expaimeu já vinham fermentadas pelo amargo da cachaça. Com elas me golpeava. E deus expulsou adão com golpes de

cana-de-açúcar e assim fabricou o primeiro rum na terra. 20 Suas palavras encachaçadas eram as varas de cana com que o deus de prévert golpeava o lado escuro de eva. E eram varas de cana que formavam cerca viva nos fundos da casa da minhavó na rua do enforcado. Em outra época, pensei serem pedras suas palavras. Pedras como as jogadas por antom na casa de tia Olma. Quando eu fazia ou dizia algo que não de seu agrado, ele especialmente libertava as palavras-pais-do-fracasso. Tu não vai ser nada na vida, tudo o que tu é tu deve a mim, faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Deve ser por isso que sinto em mim o cheiro de cana no lombo. Como algo tão açucarado podia se converter em algo tão amarguento. Deve ser por isso que estou num endividamento permanente. Por certo, ainda acredito que devo a ele tudo o que não sou. O acato a sua sentença ainda tão inarredável denuncia êxito do fracasso. Em algum lugar naquilo que não sou, o fracasso se faz presente para que se cumpra a profecia do expaimeu, também alto sacerdote da corte do avômeu.

Segundo uma das versões sobre a origem da cachaça, um dos muitos escravizados parentemeus que trabalhavam nos engenhos manteve armazenado um caldo verdejante e escuroso formado da fervura da cana. O caldo, nominado cagaça, fermentava de modo natural e, devido às mudanças de humores da temperatura quente frio mais ou menos quente muito frio, se evaporava e se condensava formando pingos no teto do engenho. Quando aprenderam a tomar cachaça como combustível para o corpo de trabalho, os parentemeus também aprenderam a fermentar as palavras na boca e cuspi-las num canto em vez de falá-las.

À proporção que meu corpo crescia, crescia o pool de provas de fracasso de que dispunha o expaimeu. Fato semelhante ocorria com o avômeu. No que crescia sua destreza em cremar palavras, crescia o peso do ódio com que o senhor expaimeu o golpeava. O fracasso naquele lugar mais importante, viver, se tornou o parentemeu mais próximo.

O avômeu tirava o cigarro da boca, o invertia como quem vira um edifício de cabeça para baixo, olhava a ponta fumegante com rmeza, censurando-a, retornava à sua posição ordinária nos lábios e seguia fumando, nutrindo o ar com a fumaça fedorenta. Cada vez que fazia esse movimento, eu tinha a impressão de que resolveria algum problema grave da família.

Havia um fumo amarelo, mais fraco; e um fumo preto, mais forte, como se acredita sejam todos os pretos. O tuba preferia o preto, que nascia da folha plantada em terra boa adubada, nascia vitaminado, com a folha mais grossa mais verde. Não vinha do sol a pretidão do fumo, mas de sua feitura; quando se o quebrava e enrolava, suas bras soltavam uma espécie de melado que o escurava.

O tuba frequentemente apertava meu queixo de lagarto entre os dedos indicador e polegar de suas mãos fedidas a fumo. Eu não sabia por que meu queixo era de lagarto, mas se o vovô havia salvo da cremação essa palavra, descabia que eu a queimasse. Suas frases raras eu não queria perdê-las na fumaçaria.

Para os egípcios a imagem do lagarto presentava benevolência. Talvez, ao libertar o lagarto, tuba estivesse falando de sua benevolência ao aceitar se juntar à minhavó, Shatta. Ou talvez estivesse dizendo que preferia morrer para sempre a ressuscitar e novamente ser submetido às agruras da vida.

Eu disse a vocês que o avômeu, de quem falo mal, além de cremador de palavras, era matador de vacas. No entanto, não disse que tal ofício fora herança de família. Com a primeira guerra mundial, o abate do gado para charque foi reduzido, pois a demanda passou a uma grande quantidade de carne fresca. Ao mesmo tempo, em 1912, o governo de antônio chimango ofereceu trinta anos de isenção scal para os frigorí cos nacionais que se instalassem na província de san pedro. Em 1913, estendeu esse benefício aos capitais estrangeiros.

Na transição da charqueada ao frigorí co, morreu minhabisa Redugéria. O tuba, seu rebento, não mais que doze anos, assumiu o lugar dela, doravante seu lugar, na modernidade instaurada pela produção em série de carne enlatada. A vaca deixou de ser assassinada para ser transformada em charque; deixou de matar a fome dos escravizados das plantations e seus deserdados; agora, amortalhada com uma martelada na cabeça, exportava-se seu corpo comprimido em conservas para os locais de guerra, para matar a fome dos que seriam mortos.

 

18 Terra das pessoas pretas, referência ao livro Ogun Abibimañ, de Wole Soyinka.↩

19 Referência ao livro The Underground Railroad, de Colson Whitehead.↩

20 Parte de um poema de Jacques Prévert.↩

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