Louças de família
Capítulo II
Shatta faleceu aos 69 anos de idade após vários meses de enferma, e deixa a lamentar sua morte, além de genros, netos e alguns familiares, suas filhas: Ebema e Olma.
Jornal A Nação
Minhavó herculana, sim, frequentava o clube social construído no terreno do frigorí co, aquele mesmo em que o avômeu não pisava os pés. Ela usava suas melhores roupas de limpeza – vestido azul-escuro de corte seco e reto na altura dos joelhos dividido verticalmente por botões redondos de um azul mais escuro que o do tecido e algo como um lenço branco cobrindo sua cabeça. Um chinelo vagabundo quase sem solado se destinava ao seu manso arrastar de péspernas. O avental tão branco quanto o pano blanco da cabeça. Seus olhos permanentemente aguados. Seus beijos molhados.
A família que a “criou” a alugava para a faxina semanal do espaço de lazer da classe reinante. Ela cava com uma moeda do tamanho do olho de uma vaca e o restante entregava ao senhor cuña para que a boa família translúcida fosse compensada pelas despesas com alimentação vestuário morada da negrinha da casa. Talvez ela oferecesse ao barqueiro kutsiami a moeda de sua paga, mas, para fora da boca, nunca reclamava, mastigava desgosto como se mastiga guisado.
A cada quinze dias, minhavó era alugada para a faxina das duzentas casas dos funcionários solteiros. Sempre um ou outro inventava de sacudir, bem no seu rosto, algum tapete, apenas para ver se não estava empoeirado. No intervalo dos outros quinze dias, vovó era alugada para a faxina das trinta e poucas casas dos funcionários casados, de alto escalão. Sempre um ou outro inventava de sacudir o tapete empoeirado bem no lugar que ela acabara de encerar, então, tinha de recomeçar tudo.
Quanto mais próximas as habitações da sede administrativa do frigorí co, maior a posição ocupada por seu morador na hierarquia empresarial social. Contudo, a posição da minhavó, mais próxima ou menos à sede dos negócios, não se alterava. Jamais se alterou.
Minhavó bem diferente de Marie suaprima doméstica no continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca. Marie dobrava o lombo de cobaia voluntária em troca da oportunidade de saber até onde se esticava a estupidez da gentalha. Minhavó não tinha tal excesso de curiosidade. Estava menos para xerloque rolmes e mais para aquelas criadas forçadas a car dia noite madrugada na companhia das gentes de família, sentindo seus cheiros de outros dias. Por certo faltava à minhavó outro lugar onde en ar o nariz. Acreditava em suas dívidas impagáveis para com essa gente.
O nal da segunda guerra mundial fez com que os negócios nos frigorí cos começassem a declinar; com o roma não foi diferente. A partir do m da década de quarenta, sua produção se tornou tão diminuta quanto o salário dos trabalhadores, até o encerramento de nitivo. À medida que o frigorí co despedia suas gentes, minhavó ia sendo despedida da rotina da limpeza de suas casas cujo cheiro, impregnado nos pelos das suas narinas, guardou até a morte.
A cada dez minutos de hoje interrompi o que não conseguia fazer. O único jeito de me sentir útil foi aquele de pegar a vassoura, o pano – uma toalha de rosto velha que cou aqui depois da mudança da então proprietária –, um balde de água da torneira misturada com água sanitária, especialmente no momento de vírus coroado. Mais que útil, não sei por que temos de nos sentir utensiliadas, sempre, como se ainda nossa vida ou morte a medida da utilidade de nossos corpos. Anseio acalmar o bicho-carpinteiro em mim, usando os braços para con itar o pano com as águas e contra o chão da casa, todo o meu corpo assim con itado. Não consigo me aquietar, o bicho-carpinteiro por demais andante. Tive sessão às oito. Discuti com minhanalista, para ela não uma discussão, vez que sou paciente. Ela acha que é mito pessoas negras quererem ser analisadas por pessoas negras ao que respondi que seria um mito pensar que psicanalistas brancas estariam prontas para trabalhar com subjetividades construídas como negras ou pretas, o que não signi ca que as psicanalistas que assim se reconheçam estejam listas. Não se trata de incompatibilidade supostamente racial ou pessoal. Porém, mostra-se induvidoso que brancos estão longe de ouvir a palavra negra na boca de uma pessoa negra sem sentir que foram em algo desapossados. Imediatamente escondem a negra debaixo do tapete de seus consultórios como se esta não devesse ter sido libertada. Por isso o tuba não falava. Temia ser despossuído da única coisa sua. A palavra. Sim, me repito.
Minhatia Olma se viu obrigada a renunciar à vassoura ao balde de água ao pano de chão à cozinha em seus tempos de internação num hospital aqui da cidade dos ajuntados. Não sei se, com isso, se sentiu menos utensiliada. Eu e primomeu a, aquele que falou do beijo molhado da vovó, nos revezamos nas noites não dormidas a seu lado. Ele tinha parecença com avômeu, não pelas palavras cremadas ou magreza de corpo ou pele amarelada ou cabeça enuviada, mas por me alertar da presença do meu queixo de lagarto.
A divindade enviou dois mensageiros à terra, o camaleão e o lagarto. O camaleão anunciaria a ressurreição; o lagarto, morte sem retorno. A mensagem que chegasse primeiro teria e cácia. No caminho às bandas de cá, o lagarto sugeriu ao camaleão que fosse devagar com o andor por que o santo era de barro; o camaleão deu ouvidos. Tomando a dianteira, o lagarto anunciou morte sem retorno.
Isso tudo para dizer que eu temia que minhatia não retornasse do bloco cirúrgico para o quarto e do quarto para minha casa justamente por meu queixo de lagarto.
Toda vez que, no hospital, eu pronunciava a palavra chata, lembrava da minhavó e, então me horrorizava ao pensar que lhe tivessem dado o apelido correspondente ao que em português chamam de comadre, objeto onde faz xixi cocô a doente que não pode ou não quer levantar do leito. As enfermeiras nos corrigiam, a mim e tia Olma, não é chata é comadre, correção sem qualquer e cácia para duas mulheres negras da fronteira. Para todos os efeitos, minhavó era mais herculana que chata. Ou totalmente herculana, algo que tia Olma também o fora até aquele momento.
Quando seu marido, chamado an trião, estava fora de casa, em mais uma guerra, alcmena foi estuprada por zeus, que se fez passar pelo marido. Desse estupro nasceu hércules, cujo nome dá origem à Herculana. Herculana. O nome registrado na certidão de nascimento de minhavó. O nome detestado por ela. Herculana deveria ser também meu nome, segundo desejo do expaimeu. Alesọ, por alguma estratégia tupamara, conseguiu que eu o deslevasse. Não sei de onde veio o apelido de minhavó, não sei se era chata, adjetivo ou substantivo. Para todos os efeitos, minhavó era mais herculana que chata. Ou totalmente herculana.
Alguém sugeriu que eu deletasse deste futuro livro todas as referências à mitologia grega ou romana a m de que casse mais negro. Acho que se zesse isso, estaria acreditando na branquidade, fazendo de conta que não fomos derrotados pelos povos que se a rmam forjados apenas nessa descendência. Não preciso crer na branquidade com o mesmo fervor com que ela faz de si divindade para se crer.
Assim como sou neta de Herculana, hércules foi bisneto de Andrômeda, cuja pele se embranqueceu durante o renascimento. Qualquer pessoa que a tenha espiado viu nela uma mulher branca. Sabe-se hoje que foi princesa etíope. Gregos chamavam etíopes povos de pele como a minha. ovídio se refere à negridão de Andrômeda. Todavia, artistas frequentemente a omitiram. Ela deveria ser bonita.
O primeiro dos doze trabalhos da minhavó eu já referi. Não vou repeti-lo para não me cansar.
O segundo foi servir como criada da família que a alugava para serviços nas casas dos funcionários do frigorí co. No intervalo entre as faxinas, minhavó cuidava dos brancos a quem fora entregue para ser cuidada. Começava pela sala, onde eles sentavam suas bundas nos sofás de couro enquanto falavam mal uns dos outros ou reclamavam das criadas. Por último, chegava à intimidade dos quartos e das suas vidas malcheirosas. O patriarca fora de tudo um pouco, advogado, político, delegado, talvez estuprador e assassino.
Minhavó Shatta e sua irmã Doca foram separadas antes dos sete anos de idade. A mãe delas faleceu acometida por doença não nomeada. Foi quase uma escravizada dos cuña. Sem possibilidade de fuga, entregou-lhes as meninas como se entregam duas trouxas de roupa suja. Comum que crianças negras, especialmente meninas, fossem dadas aos brancos sob pretexto de cuidado. Doca foi levada para a cidade de açúcar, para servir a outro ramo dessa família que por lá se acomodara. Distribuíam-se crianças negras como se distribui laranjas caídas do pé. Deve ser por isso que o expaimeu se negava a compartilhar os frutos caídos das árvores que plantara no pátio de sua casa.
Quando tinha cinco ou seis anos, minhavó Shatta foi entregue aos descuidados do casal cuña. Quem cuida de quem? A pergunta insiste. Meninas em idade de serem cuidadas cuidavam limpavam lavavam cozinhavam do antes do nascer do dia ao início da madrugada. Nem meninas nem mulheres, burros de carga da gente branca. O pai? Nem condições nem vontade de criá-las. Apresentada como da família cuña, a Shatta é da família, minhavó morreu na pobreza, sua única herança.
Alesọ, tia Olma e tia Malena a cuidaram em sua doença. Lembro-me do quarto de enferma organizado no andar superior da casa da tia Olma, que não era dela, mas do lanifício onde o exmaridoseu trabalhava. Às vezes eu entrava aí. Vovó imóvel, olhos fechados e um grande curativo num dos lados da cabeça. A cama alta como cama de hospital.
Soube agora que tia Olma saiu da unidade de tratamento intensivo para onde fora levada ontem, depois da cirurgia. Alguém do hospital me ligou, mas primomeu já havia ido para lá ao amanhecer. Antes da cirurgia, perguntei a ela se o expaimeu e seu irmão antom haviam também cuidado de minhavó, mãedeles. Que nada, me disse, pelo contrário, e o teu tio (exmaridodela), chegava do trabalho com a carabemfeia, pegava um jornal, sentava de pernas cruzadas e esperava que eu lhe servisse a janta.
Tia Olma é grata a Alesọ e Malena, esposa do antom, pelo cuidado sem cansaço que dedicaram à minhavó. O expaimeu gostava de se vangloriar dizendo que cuidou de sua mãe. Se tivesse cuidado, não teria feito senão retribuir todo o amor que recebeu. Contudo, parece que enterrou com o corpo dela qualquer resto de alguma coisa que não fosse mesquinharia.
Saída do trabalho de lavagem das roupas de cama mesa e banho num hotel onde servia, minhamãe tinha que se encaminhar à fortaleza preparar comida calças camisas sapatos, limpar a casa e outros quejandos para o expaimeu. Apenas no seu quarto ou quinto turno, se encaminhava à casa de tia Olma. Chegava, passava pelo corredor oloroso a cera parquetina vermelha, trocava poucas palavras com sua cunhada e subia a escadaria que levava ao quarto da enferma. Tia Malena fazia o mesmo trajeto. Quando soube disso tive certeza de que tanto uma quanto outra encontraram refúgio na torre de isolamento junto a minhavó. Aí minhamãe e minhatia Malena estavam dispensadas de jogar as tranças que não tinham para que príncipe ou bruxa zesse de escada. No alto da torre, não havia marido borracho drogado de cara amarrada incomodando exigindo nem
lho chorando pedindo o que fosse nem patrão nem patroa mandando
reclamando nem patroinha. Havia o cheiro inebriante do éter e o corpo imóvel de minhavó. Um corpo sem pedidos sem exigências sem reclamações, um corpo sem o peso das ordens da vida.
Antes de ajuntada ao avômeu tuba, minhavó fez um jantar para mais de quinhentos convidados da família cuña, sem ajudante nem para a limpeza da cozinha e do salão de comes. Tia Olma me contou que vovó nunca reclamava de coisa alguma, era mais ou menos como Alesọ no sustento de quaisquer tiranias, embora talvez não o visse como vejo.
O principal e a sobremesa Shatta zera pela manhã, mas a entrada para as bocas de leões e leoas esfomeadas ainda não. Cortou quinhentos abacates maduros em duas partes com uma faca de cabo em forma de garra felina, retirou caroços e cascas e os encurralou na lata de lixo enquanto a dona da casa bufava de raiva porque a entrada não caria pronta para a recepção dos nobres convidados, gente importante e toda santa da cidade com nome de santa.
Vovó bateu cremosa e lisa a polpa dos abacates com uma colher especial de cabo igualmente felino, adicionou suco de limão sal pimenta. A dona da casa batia a ponta do salto esquerdo na porta. Vovó diluiu o purê de abacates com caldo de galinha, mexeu o creme de suco de limão com novo tempero e, após, pôs creme de leite. A dona da casa saiu verde de raiva fumar num jardim perto da cozinha. Em nova etapa do serviço impago, potes de coalhada despejados em um coador e escorridos por alguns minutos dentro da geladeira vermelha como um pimentão vermelho. O tempo de a dona da casa voltar ao posto de leão de chácara, perguntar se o jantar já estava pronto e xingar minhavó que abusava, assim dizia, de sua boa vontade de patroa.
Vovó fez de conta que não ouviu e iniciou o empratamento com uma camada do abacate em cada verrine e uma colher-sobremesa do creme sobre o abacate. Por último, camarões e folhas de coentro. O jogo de mesa se cosia em os de ouro. Bateu o primeiro convidado.
Começou a lavagem de panelas e talheres e mais cabos de garra felina. Chegaram os demais comedores. Vovó os serviu, aplacando a fome de suas bocarras, limpou o chão onde derramavam vinho tinto e a cozinha. Um dos comedores foi à porta elogiar-lhe o jantar. Delicioso. Final da madrugada, leões e leoas vencidos, não a alcateia, Shatta foi para sua pecinha de criada. No outro dia, ordens de não falar com os convidados.
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